Um Estudo Epistemológico da Teoria Neo-institucional

Autoria: Ernani Carpenedo Busanelo

Resumo Este estudo tem como propósito lançar um olhar com teor epistemológico sobre a Teoria Neoinstitucional e para isso busca desenvolver uma reflexão que permita visualizar e caracterizar sua epistemologia. De forma complementar, procura fazer um mapeamento dos passos da construção de seu conhecimento, apontar os principais autores e os traços teórico-filosóficos envolvidos. Entende-se que com este trabalho é possível contribuir para fomentar a prática de estudos epistemológicos em especial, para o campo das organizações. Os esforços epistemológicos gravitam em torno do trabalho filosófico que analisa a ciência e o saber, sua conformação, os entes envolvidos, posições paradigmáticas e os resultados destes processos. Tomando por base Japiassu (1991, p. 16) para reforçar a conceituação de epistemologia, destaca-se que se trata do “estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais”. Para o referido autor, três são os tipos de epistemologia: geral; particular; e, específica. Para o desenvolvimento deste estudo, a epistemologia utilizada é a do tipo específica, uma vez esta se dedica a estudar disciplinas específicas, buscando averiguar sua configuração e detalhes, bem como, sua vinculação com bases filosóficas e com outras disciplinas. A escolha do escopo teórico a ser analisado recaiu sobre a Teoria Neo-instutucional, que como marco referencial de seu surgimento a publicação, em 1977, do artigo Institutionalized organizations de Meyer e Rowan (1977). A motivação para estudar a episteme desta teoria é advinda do crescimento da relevância dada a ela em estudos organizacionais nas últimas duas décadas. Os passos seguidos para o desenvolvimento da análise se iniciam com a feitura de uma síntese das principais abordagens teórico-filosóficas que foram utilizadas posteriormente na análise. Este referencial serve também para compor um quadro dos principais momentos da caminhada da ciência moderna e suas ênfases e influências no campo das organizações. A análise epistemológica foi desenvolvida a partir de recortes textuais das principais obras sobre o tema. Como resultado central, obteve-se a identidade epistemológica da Teoria Neoinstitucional que apresentou em suas raízes, origem funcionalista. Nos resultados complementares, observou-se que as seis proposições de Meyer e Rowan (1977) também apresentam elementos que caracterizam abordagem funcional racional. O mesmo resultado se obteve na reflexão sobre elementos específicos como o isomorfismo e a legitimação.

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mas como atividades sociais. compor um quadro dos principais momentos da caminhada da ciência moderna e suas ênfases e influências no campo das organizações. Assim. Para o propósito deste estudo. mapear os passos de sua construção. p. passa pelo entendimento de como ele está arquitetado. buscando entender sua configuração e detalhes. Sob o prisma sociológico. Em seguida. e. p. fazer uma síntese das principais abordagens teórico-filosóficas que sustentam a análise e que permite também. no campo das organizações. Introdução A epistemologia é de criação recente e era inicialmente considerada uma disciplina especial no bojo da filosofia e consistia em pesquisas para a ciência ou sobre ela. as atividades epistemológicas devem considerar que o conhecimento científico desenvolve-se a partir de preceitos ideológicos ou filosóficos e. Busca-se de forma complementar. Três são os tipos de epistemologia: geral. A proliferação de estudos tratando da Teoria Institucional. Sob este prisma. busca-se inicialmente. passa a ter relevância à trajetória e a estruturação deste conhecimento e a tônica de que é provisório. Se por um lado a epistemologia se preocupa com as condições da produção do conhecimento científico. mas não se tratava de ação dos próprios cientistas (JAPIASSU. O desenvolvimento da análise serve como motivador para o aperfeiçoamento da prática epistemológica e estimulo para seu uso freqüente. o objetivo central do presente estudo é desenvolver uma reflexão que permita visualizar e caracterizar a epistemologia que circunda e dá sustentação à Teoria Neoinstitucional. 16) define epistemologia como sendo o “estudo metódico e reflexivo do saber.1. suscitando inúmeros trabalhos na área e o aumento do número de seguidores. não deve e nem pretende impor dogmas aos cientistas. o que produz e quais seus fundamentos. 1991). seus principais autores e os traços paradigmáticos envolvidos. Para alcançar os objetivos propostos. específica. de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais”. a ênfase é dirigida para a epistemologia caracterizada como específica. em seu processo de origem. de sua organização. em 1977. Os avanços na construção do conhecimento de modo geral e em específico. O papel da epistemologia será o de estudar a origem e a conformação do conhecimento e as leis de sua construção. utilizando como subsídio analítico. Isso serviu de motivação e de critério de escolha da Teoria Neoinstitucional como subsídio teórico para se desenvolver um estudo epistemológico. baseado nas proposições de sociólogos como Marx. Todas as filosofias teriam desenvolvido uma teoria do conhecimento e uma filosofia das ciências tendo por objetivo transparecer os meios. 35) salienta que “os conhecimentos não são considerados como construções autônomas e individuais. do artigo Institutionalized organizations de Meyer e Rowan (1977). fruto de um processo ou conhecimento-processo. Ao final. Japiassu (1991. será desenvolvida a análise epistemológica propriamente dita. de sua formação. 2 . se deu através da publicação. tomando por objeto. Japiassu (1991. por outro. Durkheim e Weber. os autores defendem a idéia de que o ambiente organizacional é um grande influenciador das estruturas das organizações passando a ser uma importante variável analítica nos estudos organizacionais. referentes a uma abordagem que viria a se chamar Teoria Neo-institucional ou Novo Institucionalismo. Desta forma. formação e de estruturação. ao se tratar o conhecimento como “em devir”. de seu desenvolvimento. Contudo. inseridas num determinado contexto sócio-cultural”. recortes textuais das principais obras sobre o tema. os objetos e fundar a validade deste conhecimento. a Teoria Neo-institucional. aumenta a importância da reflexão sobre as práticas dos cientistas. particular. e não definitivo. uma vez que vai se voltar a uma disciplina ou tema específico. a epistemologia seria a filosofia das ciências. Neste texto. serão tecidas algumas considerações e conclusões enfatizando os resultados obtidos. a partir de um posicionamento interdisciplinar. a ciência em elaboração. e sua vinculação com bases filosóficas e com outras disciplinas.

Passa-se a se conviver então com a experimentação e a indução do empirismo. Bacon (1979). (ii) insere o reducionismo. o passado tende a se repetir no futuro. (ii) dividir cada uma das dificuldades que examinassem em tantas parcelas quantas possíveis e necessárias para facilitar a análise. É opção de Descartes a dedução. será alvo de suas severas críticas. São desta “síntese filosófica e especulativa” do empirismo e do racionalismo. e na dedução. Este mecanicismo será sentido mais tarde no conhecimento que se apresentará utilitário. além de objeto de estudo de Kant. não razão da revelação divina. com seus princípios da astronomia heliocêntrica. para o radicalismo de Bacon. evitando não omitir nada. considerada um dos pilares do sistema-mundo (ARRIGHI.2. Desta perspectiva outros elementos são içados. ao mais complexo. enfatiza que as leis da ciência moderna são um tipo de causa formal que valoriza o “como funciona” das coisas ao invés de “qual o agente” ou “qual o fim” das coisas. a idéia de ordem e estabilidade do mundo. antagônicos em suas proposições. (iii) ordenar os pensamentos. e que se caracteriza por “um conhecimento causal que aspira à formulação de leis. fato que geraria o rompimento do conhecimento científico com o do senso comum. eficiente e final). XVI. frente àquela que prevalecia até então e que cede espaço para posicionamentos como o de Galileu. com a racionalidade de Descartes fundada em princípios matemáticos e na relevância da perspectiva empírica de Bacon. proposição para reduzir a complexidade. Ao empirismo serão associados outros nomes como o de Hobbes. haveria quatro preceitos ou métodos. que se fundamenta na razão. como é chamada. a ciência enveredou para uma racionalidade fundamentada no estudo da natureza e que lhe deu a ortodoxia que caracterizou a modernidade do conhecimento científico. formal. (iv) fazer enumerações e revisões gerais. O nascimento da ciência partiria de algo sem parâmetros efetivamente definidos. 1996). assim. indo do objeto mais simples e fácil. caso contrário. 50-51) que as proposições de Descartes terão peso significativo nos fundamentos da ciência moderna. com vistas a prever comportamento futuro dos fenômenos”. tem-se a abordagem racionalista cartesiana. o instrumento de análise e a lógica da investigação. Souza Santos (1988). ao relacionar o aspecto causal do conhecimento científico moderno com os tipos aristotélicos de causa (material. no séc. Assim. diferenciam-se de Bacon ao defender a busca da “verdade absoluta” com base na razão e nos princípios matemáticos. define proposição metodológica que premia a experiência e se opõe ao domínio da razão que avalizava o saber. A ciência moderna. entre outros. emergindo destes. em seu Novum Organum. Síntese de abordagens filosóficas da ciência moderna De fundamentos míticos e teológicos. Ainda. indo das idéias para as coisas. a visão de mundo-máquina. Bacon busca conhecer a natureza para dominá-la. passaria a tomar corpo efetivamente. Já Descartes (1979). A utilização dos princípios matemáticos traria à ciência moderna duas implicações: (i) conhecer significa quantificar. segundo Padovani e Castagnola (1990). Hume e Berkeley. outro ícone da revolução científica. que emergiu o idealismo e o positivismo. Bacon é seguro em defender sua abordagem que se embasava na interpretação da natureza para se chegar à verdade. Locke. à luz de regularidades observadas. positivista e funcional e que se refletirá no campo social. nos quais ancoraria tal proposta e sobre os quais recomendava disciplina e rigor: (i) jamais acolher alguma coisa como verdadeira que não conhecesse evidentemente como tal. a metafísica característica do pensamento de Descartes. na proposição metodológica de Descartes. É relevante destacar segundo a visão de Souza Santos (1988. razão do homem. embasa o conhecimento nas formas 3 . Apesar de não desprezar a existência de outra abordagem. o racionalismo. torna-se sem relevância científica. O criticismo de Kant marcaria a trajetória da ciência pela análise crítica das abordagens que o antecederam e pela influência no pensamento científico posterior. e pautando-se em investigação sobre a razão e na crítica da metafísica. p. e com a perspectiva da ciência da natureza. Kant tenta fazer um link entre as teorias de Bacon e de Descartes.

observáveis e mensuráveis. como buscou fazê-lo o sociólogo e funcionalista Durkheim. afirma-se como reação contrária ao apriorismo. veio a condensar-se no positivismo oitocentista”. Para o autor. as disciplinas formais da lógica e da matemática e as ciências empíricas segundo o modelo mecanicista das ciências naturais. Utilitarismo e positivismo seriam sentidos posteriormente na abordagem funcionalista. Ao passo que o idealismo almeja uma unificação da experiência mediante a razão. técnico e aplicado. e eu. relação e modalidade. lei fundamental dos fenômenos naturais. reforçando a perspectiva indutiva do raciocínio. Um dos reflexos desta abordagem é a busca da otimização dos recursos. o conhecimento não é o reflexo do objeto exterior. a única realidade é a física. expoente e crítico do positivismo inglês. Para se caracterizar o positivismo. Padovani e Castagnola (1990) salientam a aproximação entre o utilitarismo e o positivismo. noumênica. Padovani e Castagnola (1990) destacam os princípios de Kant na “crítica da razão pura” em que se destacam a sensibilidade. haveria “duas formas de conhecimento científico. baseada na fenomenologia. atingível cientificamente. não suprimindo a realidade metafísica. a ênfase recai na importância da adaptação a meio como forma de sobrevivência dos organismos mais fortes. a influência do positivismo é destaca por Souza Santos (1988. e de entendimento ou juízos. com representações de tempo e espaço. Em Kant. com posição antipositivista. no entendimento de Souza 4 . que tem a crença do positivismo no progresso. diferencia-se deste em função de um elemento: a evolução. Stuart Mill. Tal objetividade propiciou-lhe relevância nos campos prático.empírico ou a posteriori e o puro ou a priori. as ciências sociais nasceram para ser empíricas”. seu propósito é o da utilidade. É com o inglês Bentham (1979) que emerge o princípio da utilidade. p. podem-se considerar elementos como: os ligados à perspectiva evolucionista. 51). Ciência e experiência assumem necessidade e universalidades dependentes da subjetividade comum a todos os homens e a subjetividade envolve os conceitos comuns de objetividade. O determinismo mecanicista característico da ciência moderna. o empirismo e o racionalismo. teriam sua moral caracterizada como utilitária. formalismo e idealismo. natureza. O segundo. Kant marcou o conhecimento científico ao sintetizar de forma crítica. que tivera no racionalismo cartesiano e no empirismo baconiano as suas primeiras formulações. com base na moral hedonista. o saber é oriundo da experiência. (II) outra. qualidade. pura. a ciência social entendida como subjetiva. como já fizera o empirismo. onde se presenciou estudos como os de Weber e Winch. a premissa da função criadora do órgão influenciará as abordagens funcionalistas e sistemistas. cujo estudo demandaria reduzir os fatos sociais às suas dimensões externas. e afiliado de Bentham. O modelo mecanicista que inferiu também sobre as ciências sociais se materializa a partir de duas vertentes: (i) uma baseada nos princípios epistemológicos e metodológicos que norteavam os estudos da natureza. opondo-se à objetividade das ciências naturais. de onde afloram o idealismo e o positivismo. sensível. referia-se ao seu foco que ia de encontro aos anseios da burguesia capitalista que emergia. visando maior valorização da experiência e dos dados positivos. que se agrupam em quantidade. reconhecido menos pela capacidade de compreender profundamente o real do que pela capacidade de dominá-lo e transformar”. “é o horizonte certo de uma forma de conhecimento que se pretende utilitário e funcional. experiência. propriedade coexistente nas coisas com o propósito de se obter felicidade e evitar a dor e quanto à ação. enfatizando o raciocínio analógico. Contudo. outro elemento é sua aproximação com o positivismo quanto à perspectiva individualista. o positivismo se volta à experiência imediata. p. mas é o próprio espírito humano que o constrói. 52) ao afirmar que “a consciência filosófica da ciência moderna. do mundo extenso. Porém. segundo Souza Santos (1988. No campo das ciências sociais. na seleção natural.

os quais devem submeter-se aos critérios de verificação. inclusive nas organizações econômicas. o que lhe imputará traços das ciências naturais. A especialização das tarefas seria responsável pelo equilíbrio. A função da divisão do trabalho tema significativamente abordada pelo autor. Pode-se iniciar por aí. 1980). Malinowski (1970) argumenta em favor do funcionalismo pela sua relevância na pesquisa-de-campo em antropologia e análise comparativa de fenômenos em diversas culturas. com foco se a mesma existe e em que consiste (qual finalidade. contudo. a divisão do trabalho teria um caráter moral. Para tanto. CARNAP. o autor estabelece que o conhecimento que irá nutrir a ciência deveria ser submetido a testes de consistência interna. A rejeição à metafísica e a valorização do “dado” são fortalecidas (SCHLICK. assim. da forma como se apresenta. de solidariedade social seria entendida como morais. toma relevância no contexto social. ou a relação destes movimentos com necessidades do organismo. critica o funcionalismo por considerar sistema social como um sistema orgânico ou inorgânico.Santos (1988). o que corrobora a proposição do autor de que ambas as concepções de ciência social estariam submissas ao paradigma racional da ciência moderna. Os conhecimentos científicos são então considerados de duas ordens: proposições lógicas e matemáticas. Para o autor. A ciência deveria ser fruto do conhecimento que se submete à crítica. O precursor e um dos pilares deste movimento foi Durkheim. Propõe então. Evans-Pritchard (1972) reafirma os aspectos funcionais da sociedade. sempre estaria voltada para a satisfação de uma necessidade. Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard. Aprecia o enfoque de Durkheim sobre a divisão do trabalho e apresenta também. baseadas nos fatos. teria forte viés da racionalidade percebida nas ciências naturais. ou organismo. visa descrever que necessidade ela efetivamente atende. (iv) a continuação do programa e 5 . uma vez que a necessidade de ordem. Estes seriam existentes fora das consciências individuas e seriam dotados de poder coercitivo e imperativo. visando o funcionamento de forma conjunta e harmoniosa das partes. Com Popper (1980). a perspectiva a-histórica dos funcionalistas. existindo independente das formas individuais que toma ao se difundir. que é referência da sociologia moderna e que influenciaria antropólogos como Malinowski. de harmonia. voltando-se à generalidade e à objetividade de modos de agir. Selznick (1967) ao tratar de análise estrutural e funcional salienta a necessidade de manutenção da integridade e continuidade dos sistemas empíricos. Com o Círculo de Viena o positivismo apresenta novas concepções e passa a ser denominado de positivismo lógico ou neopositivismo e irá apresentar maior rigor metodológico (DORTIER. a existência dos fatos sociais. perspectiva teleológica). esta segunda abordagem. para o funcionalismo. e é a abordagem que mais diretamente influenciou as organizações e suas teorias. (ii) a estabilidade das linhas de autoridade e de comunicação. 2000). a percepção da influência das ciências positivas e naturais sobre o funcionalismo e sua proposta. (iii) a estabilidade das relações não-convencionais na organização. envolveria os seguintes “imperativos”: (i) a segurança da organização como um todo em relação às forças sociais no seu ambiente. entende função como a noção de uma estrutura constituída de uma série de relações entre entidades unidades. a falseabilidade em detrimento da verificabilidade como critério de demarcação. O funcionalismo tem influência de premissas do positivismo e do utilitarismo. de pensar e sentir. de comparação com outras teorias. e aplicações ou testes empíricos. reforçando a afirmação de que função. conceitos de forma e função. fazendo emergir a idéia de unidade funcional ou consistência interna de um sistema. a indução é criticada e a dedução ganha espaço. porém. autor estrutural-funcionalista. quer o indivíduo queira ou não. e as proposições empíricas. Com Durkheim (1978) a expressão “função” estaria associada a um sistema de movimentos vitais devido a sua importância. Radcliffe-Brown (1973). de sua forma lógica. independente do aspecto histórico. bem como.

O sistema é o todo e a redução da complexidade ocorre ao nível da estrutura. Há uma hierarquia dos sistemas onde todo sistema compõe-se de subsistemas. Emergiria daí. entendida como a relação entre um sistema e as partes relevantes e da situação externa em que ele atua ou funciona. 3) concepção “a-histórica” da organização. Buckley (1971) teceu críticas ao modelo parsoniano de equilíbrio-função. frente a estes objetivos que são à base da racionalidade organizacional. a organização tratará de munir-se dos recursos necessários (tecnologia. também. 2) concepção teleológica da organização: essa coordenação (homens e atividades) é orientada para o alcance de certos objetivos e metas e isso a diferencia dos outros sistemas. tem-se nos objetivos. se volta para legitimação da organização. como se visualiza. a teoria de sistemas. estrutura formal. privilegia a síntese e a visão da totalidade. e os critérios de avaliação de desempenho. onde as organizações são definidas como conjunto. Rosenweig e Kast (1980) ao tratarem da Teoria Geral dos Sistemas – TGS salientam que a organização é composta por um sistema ambiental externo e por um sistema interno de relações. os estudos voltam-se para o presente procurando ocultar ou marginalizar seus fenômenos de causalidade e mudança. o foco da análise se volta para indicadores organizacionais quantificáveis com facilidade. observa que são percebidos traços do funcionalismo e a significação do sistema estaria na inter-relação entre as partes. como os ativos. Ao diferenciar estruturalismo de sistemismo. Sua concepção pode ser descrita de quatro formas: 1) concepção sistêmica e sincrônica. Com o intuito de identificar inferências do pensamento funcionalista sobre as ciências administrativas e as organizações. Buckley (1971) observa que a grande dificuldade deste é o fato de ter sido construído segundo uma mistura do modelo biológico (estrutura e função) e do modelo mecânico (de equilíbrio).das fontes de sua determinação. o que também é o caso das organizações. os lucros. de “grupo” ou “papel”. que teria orientação mais holística. o autor observa que o primeiro privilegia a análise e se pauta na decomposição para isso. (v) homogeneidade de perspectiva com relação ao significado e papel da organização. vê-se um viés sistêmico. sistemas estes interdependentes. Para o autor. etc. a administração é a área das ciências sociais que mais se valeu da abordagem sistêmica tendo 6 . A existência de uma organização está centrada na consecução de uma meta específica. 4) concepção integradora e não conflitual. Sob esta ótica enumera uma série de limitações do modelo parsoniano e o faz contrapondo com o modelo de equilíbrio de Homans. e. Seria prerrogativa desta concepção. as prioridades. Ainda sobre o modelo de Parsons. Tem-se que a concepção de organização apresentada no texto de Chanlat e Séguin (1987) com base nos pressupostos funcionalistas é regida pelas premissas das ciências naturais que permeiam o paradigma racional que aí está e que valoriza o controle e o equilíbrio. o consenso e a inexistência de relações de poder e conflito. uma nova perspectiva metodológica voltada à análise de organizações complexas. Chanlat e Séguin (1987) desenvolvem análise abstraindo os pontos centrais das principais escolas do funcionalismo e contrapondo com o que se observa no ambiente organizacional. A organização é concebida como possuindo estrutura descritível (como qualquer sistema social) analisada sob dois pontos de vista: cultural e institucional. em detrimento ao histórico de mudanças ocorridas em sua trajetória. Toda estrutura pressupõe um sistema e ela é condição para ele existir. e participa de um sistema maior. Demo (1985) ao tratar do sistemismo. O autor. são relacionadas umas às outras (indivíduo ou grupos) e que necessitam de coordenação e de estrutura de autoridade para tal. já o segundo. sendo que esta integração decorre da existência da aceitação de objetivos comuns e da divisão do trabalho. a racionalidade organizacional. uma versão moderna do modelo biológico. controle). cujas partes. além dos fundamentos da legitimidade. voltando-se para a inadequação do modelo mecânico para estudos em sociologia e o funcionalismo seria neste campo. No funcionalismo apresentado por Parsons (1967).

segue a vertente daqueles que sugerem pensar a ordem 7 . se adotar a dialética como metodologia de análise das organizações. é com Hegel que a dialética toma corpo e esta se proporia a ser a conciliação dos contrários nas coisas e no espírito. se encontra num estado de tornar-se (idéia de processo) o que valorizaria a perspectiva de produto da construção social passada (valorização histórica). O estudo de Gurvitch (1987) sobre dialética no campo da sociologia enfatiza as afirmações de Hegel e Marx frisando o princípio da totalidade. onde existem interesses de seus atores e tende a prevalecer o poder e o domínio de determinados grupos (coordenação e controle). Demo (1985) destaca a dialética como método para estudar os fenômenos sociais. sendo que uma delas pode ser considerada a dialética. por considerar o dinamismo da sociedade como fenômeno relevante. Segundo Foulquié (1978). a ter outro entendimento. ao evidenciar a complexidade do social tal qual a vida. No processo dialético. Chanlat e Seguín (1992) direcionam o paradigma crítico para o campo das organizações. antítese a negação e a síntese. destaca o quão complexa é a contemporaneidade e a defasagem na análise feita a partir da objetividade dos modelos matemáticos da ciência positiva e seu determinismo. sua humanização. Tais elementos constituem as bases das relações de poder e conflitos que caracterizam o ambiente organizacional e que não são considerados com profundidade pelas teorias convencionais. o que demandaria abordagens alternativas. a abordagem substantiva e a ação racional substantiva. Benson (1983) conduz suas afirmações sobre dialética também nesta direção e afirma que esta levaria vantagens sobre o entendimento empírico das teorias convencionais por levar em conta os processos sociais. Morin. Descamps (1991). da instabilidade e da manifestação de tensões e conflitos. A dialética adiciona um ingrediente novo na análise das organizações ao oferecer a possibilidade de superar as limitações das teorias racionais e funcionalistas pautadas na metodologia positivista. A imprevisibilidade que alimenta a incerteza exige que se utilizem metodologias que vão além do mecanicismo das ciências positivas. Por ser significativamente dotado de elementos oriundos da abordagem dialética. diferentemente do que o faria à dialética. 245) baseia-se em Marcuse e Habermas para afirmar que a TGS estaria mais voltada para um modelo fechado de sociedade. como elemento da sociedade. porque serve apenas para captar melhor as tensões e elaborar as condições necessárias para a volta ao equilíbrio anterior”. Estas estariam em perpétua marcha em frente para o futuro que vai suplantar o presente. onde a tese seria a afirmação. cita-se o paradigma da complexidade. É sob a égide de concepções como estas que eclodem proposições alternativas para entender as organizações com suas intrincadas variáveis onde os elementos não-racionais passem a ser considerados e as análises serem desenvolvidas de forma a irem além do que o faz o paradigma positivista racional. mas este é uma renovação metodológica. negação da negação. Dentre estas. o equilíbrio e estabilidade apregoados pela abordagem racional funcionalista passam. o que tornaria recomendável. apesar de não exclusiva. Demo (1985.em vista que a TGS “funciona” e complementa que o funcionalismo está na raiz do sistemismo. Percebe-se o condicionamento e o viés racional da TGS impossibilitando que ela seja utilizada como método de análise das subjetividades do ambiente organizacional. O paradigma da complexidade ganha força diante das limitações que vem se tornando explícitas no paradigma racional dominante. elementos negligenciados pelas teorias racionais funcionalistas. p. da negação. O autor que se apóia em uma concepção marxista da vida social. uma vez que “a dita abertura do sistema é no fundo falsa. destaca que uma organização. A síntese é um dos pontos marcantes do processo dialético e lhe dá o tom de caráter provisório (não equilíbrio) das coisas. baseado em Morin. apesar de reconhecer sua contribuição. frente à complexidade que apresentam. o qual teria como foco. assim.

Outra proposição relevante nesta empreitada é de Serva (2001) que propõem o entendimento do fato organizacional com fato social total. do consenso. a interação simbólica é negligenciada. alguns pontos são obscuros sobre a teoria organizacional (TO) vigente: o conceito de racionalidade parece que recebe influencias ideológicas. visualiza a teoria institucional nos estudos organizacionais sob duas perspectivas: a ênfase na ação (“velho” institucionalismo). a organização formal tem representado um paradigma que atua como vala comum de análise organizacional. o foco na emancipação do ser humano. 8 . conspirações) e que a história que obedece às leis racionais. 30-31) se baseia em Chanlat para reafirmar e detalhar os dois paradigmas da teoria das organizações. Após constituir este resgate teórico-filosófico. algumas das possibilidades profícuas de se adotar a complexidade como perspectiva de análise das organizações. da ordem. Campos (1993) sugerem que seja inserida a possibilidade de interpretação humana dos fenômenos sociais associados à abordagem da ação e da dialética. desenvolver análise organizacional livre de padrões distorcidos de linguagem e conceptualização. a mudança. mas na desordem (guerras. seria necessário afastar-se do parasitismo ideológico. parte-se das suas origens. não há distinção entre significado substantivo e formal da organização. Morin (1982) salienta que a história humana é pautada não na ordem. uma vez que considera a organização. “o funcionalista. apoiando-se na multidisciplinaridade das ciências e na aproximação da teoria e da prática. contudo. Resultado de tal fusão culmina numa abordagem alternativa fruto da complementaridade de duas abordagens que tem em comum entre si. Análise epistemológica da Teoria Neo-institucional Para se iniciar a análise epistemológica da teoria neo-institucional. 3. isto é. Ao tratar dos instrumentos de análise. tornar-se-ia idiota. atentados. Chevallier e Loschak (1980) sugerem uma ruptura epistemológica. que privilegia o conflito. Serva (1992. e das seduções do empirismo. e o crítico. Misoczky (2003) baseada em Hirsch e Lounsbury (1997) e DiMaggio e Powell (1991). a complexidade entende a desordem como caráter vital da ordem. do normativismo. Outras iniciativas na busca de vias alternativas para análise do campo organizacional são aqui elencadas. estes autores reforçam o foco interdisciplinar em relação a outras ciências já constituídas. A organização não pode ser reduzida à ordem. 1986). parte-se para a análise epistemológica da Teoria Neo-institucional a partir de recortes representativos de sua base textual. que focam o surgimento da ordem proveniente de desordens. Alinhado a tais perspectivas. A organização é racional tanto quanto for seu modelo de ordem. embora comporte e produza ordem. Descamps (1991) ainda menciona Prigogine e Stenger e sua teoria das estruturas dissipativas. e. e que para conseguir fazê-lo. 1997b) e que consiste na aproximação de constructos da racionalidade substantiva de Guerreiro Ramos e da teoria da ação comunicativa de Habermas. enfim.pelo ruído (desordem). Vê-se assim. a sua visão mecanomórfica da atividade humana não distingue trabalho de ocupação. é necessário se adotar um enfoque substantivo da organização e que deverá voltar-se para a emancipação humana. enfatizando a abertura para o ingresso das ciências da cognição. e a ênfase na estrutura (“novo” institucionalismo). A racionalidade substantiva ganha relevância com Guerreiro Ramos (1989) e é proposta com o intuito de se desenvolver análises com o propósito de abstrair elementos epistemológicos dos cenários organizacionais e principalmente. Audet e Dery (1996) sinalizam para a emergência de uma epistemologia derivando para o campo dos estudos das organizações. produtora de conhecimento. sendo a luta contra a degenerescência a regeneração contínua (MORIN. a desordem”. Para o autor. da coordenação funcional. Para superar a perspectiva formal da TO advinda da forma de pensamento da sociedade de mercado. p. A ação racional substantiva é apresentada nos estudos de Serva (1997a. que trata preferencialmente da integração.

ação social. p. XIX e da tradição economia de Veblen. O “novo” institucionalismo ou neo-institucionalismo que toma referência e expressão com o artigo “Institutionalized organizations: formal structure as myth and ceremony” de Meyer e Rowan (1977). enfatiza os modos como a ação é estruturada e a ordem tornada possível através de sistemas de regras compartilhadas. do funcionalismo de Parsons e Selznick. DiMaggio e Powell (1991.] sugere que as preferências individuais e categorias básicas de pensamento. 158). ver-se-á no seu âmago. a mudança como algo funcional à estabilidade. ZUCKER. “As organizações são levadas a incorporar as práticas e procedimentos definidos por conceitos racionalizados de trabalho organizacionais prevalecentes e institucionalizados na sociedade. quando este. 2003. 1998). Commons e Mitchell. ZUCKER. seu pensamento seria sintetizado pela vinculação com a sociologia. Contudo. uma vez que o “velho” e o “novo” emanam dos modelos positivos e funcionais. como self. 1977. 2003. remonta conceitos do final do séc. cujos interesses estão segmentados por prêmios e sanções” (MISOCZKY. da sociologia de Durkheim e Weber. 1986). o funcionalismo de Parsons. elementos mecanicistas e positivos são percebidos e ficam evidentes inclusive na interpretação de Misoczky (2003) sobre o novo institucionalismo. mudança como processo evolutivo. poder que existe ou sobrevive somente se é legitimado pela sociedade. A origem da abordagem institucional ou neo-institucionalismo. apud TOLBERT. e posteriormente. Selznick é considerado o precursor do neo-institucionalismo nos estudos das organizações e observa Fachin e Mendonça (2003) que ele foi discípulo de Merton. Salienta-se que a perspectiva neo-institucional.. se proporia a apresentar “esforço sistemático para compreender as implicações do uso da estrutura formal para propósitos simbólicos.Contudo. 9 . quanto do neoinstitucionalismo. vínculo entre normas do ambiente e estrutura organizacional” (MISOCZKY. independentemente da eficácia imediata das práticas e procedimentos adquiridos” (MEYER.. 2003) observam que no campo organizacional há uma ênfase sociológica na abordagem institucional. ROWAN. 1998. apud FONSECA. “[. particularmente no sentido de ressaltar as limitações de explicações de cunho mais racional da estrutura” (TOLBERT. fica bastante evidente a sua perspectiva paradigmática e epistemológica situada na esfera do funcionalismo. além deste aspecto. que tanto limitam a inclinação e capacidade dos atores para aperfeiçoar. p. o funcionalismo e a preocupação com a harmonia e o consenso. Retomando o entendimento de Misoczky (2003) sobre a origem e estruturação do institucionalismo. apesar de defender seu afastamento do racionalismo do movimento institucionalista anterior. são moldadas por forças institucionais. de efeitos da revolução behaviorista sobre a ciência política.] ênfase na cognição e na motivação do comportamento organizacional. a contradição inicial não se fundamenta.. salienta a autora que ao se considerar a teoria da ação existente no “velho institucionalismo”.. que procuram respostas sobre como as escolhas sociais são moldadas. Organizações que fazem isto aumentam sua legitimidade e suas perspectivas de sobrevivência. 158). o que confere um manto de moralidade para a organização (PERROW. foco na ordem e na reprodução. do qual teria possível influencia. e logo. observa-se teor racional funcionalista. Desta forma. medidas e canalizadas pelos arranjos institucionais. 200). Também. na análise de Tolbert e Zucker (1998) ao comentarem sobre implicações da ênfase de Meyer e Rowan (1977) referente à estrutura formal. p. quanto privilegiam alguns grupos. Com base nas fontes do surgimento tanto do institucionalismo. destaca-se que a influência de Parsons é sentida em vários aspectos: “[. segundo Scott (1995) citado por Fonseca (2003). Estado e cidadania.

as teorias predominantes têm negligenciado uma fonte weberiana alternativa de estrutura formal: a legitimidade de estruturas formais racionais” (MEYER.fundamenta-se na sociologia embasada em escolas funcionalistas. o que conduziria. 1977. à necessidade de legitimação. que têm um tônus teleológico. que se forem analisadas suas vertentes. 341). De certa forma. Segundo Durkheim (1978). Retomando a preocupação de Meyer e Rowan (1977) advindos de pesquisas empíricas sobre possíveis lacunas entre estruturas formais e informais e que tais lacunas esmaeceriam a relação das organizações burocráticas entre elementos estruturais e metas. e que carrega uma base causal racional em sua formulação. Observa-se que tais ciências partilham “com este modelo a distinção natureza/ser humano e tal como ele. a estrutura formal racional assumida é o modo mais efetivo para coordenar e controlar as relações complexas das redes de trabalho em atividades técnicas modernas ou trabalho. em seu artigo Institucionalized Organization. Contudo. 1977. de forma análoga ao que descreve Durkheim (1978). p. p. 54). 342). 1988. 1977. cujos recortes são extraídos de sua base teórica e que. transpareceriam veios do modelo de racionalidade das ciências naturais. 1946. refletindo traços funcionais. ROWAN. com evidência esperada. mercado). elementos cognitivos do ambiente organizacional. teriam razão os neoinstitucionalistas de afirmar que a abordagem institucionalista avançaria em relação a elementos que a perspectiva racional do “velho” institucionalismo não levaria em conta por se ater ao ambiente técnico (ambiente de troca. isso sinalizaria para que se buscasse a legitimação. têm da natureza uma visão mecanicista à qual contrapõe. Espaços de economia de mercado premiam a racionalidade e coordenação” (MEYER. segundo os autores. defendem a idéia de que o ambiente organizacional é um fator influenciador das estruturas das organizações. Nas teorias dominantes. Do referido artigo abstrai-se a afirmação “as estruturas formais de muitas organizações na sociedade pós-industrial refletem dramaticamente os mitos de seus ambientes institucionalizados em vez das demandas de suas atividades laborais” (MEYER. p. a especificidade do ser humano” (SOUSA SANTOS. Contudo. função teria como propósito atender necessidades e isso revestiria as estruturas de propósitos e importância no ambiente organizacional. Esta suposição deriva das discussões de Weber (1930. há de se considerar que podem ser entendidos (os mitos) como elementos constitutivos de fatos sociais. 342) afirmam que. Para o estrutural-funcionalista Radcliffe-Brown (1973). o estudo de Meyer e Rowan (1977) gravita em torno deste elemento organizacional e isso permite que se linke com abordagens funcionais. p. a legitimidade tem 10 . Tal ênfase pode ser corroborada por Souza Santos (1988) ao abordar a suposta subjetividade de algumas ciências sociais ditas antipositivistas e com base fenomenológica tais como a de Max Weber e de Peter Winch. que se caracterizam como coercitivos e imperativos. ROWAN. ROWAN. Apesar de procurarem tratar a estrutura sob um prisma diferente do que o faz o “velho” institucionalismo. p. 343). possibilidades de perpetuação. serão apresentados a seguir. Inicia-se esta análise com o trecho que afirma que Meyer e Rowan (1977). o que confere à estrutura. Antes de se abordar esta perspectiva. “Em teorias convencionais. Ao focar as estruturas formais e informais Meyer e Rowan (1977) demonstram preocupação com lacunas existentes e que não seria evidenciado. 1947) da emergência histórica da burocracia como conseqüências de economias de mercado e estados centralizados. seriam dirigidas para um projeto de atividades voltadas a metas e políticas. esta perspectiva quanto à teoria neo-institucional será sentida também em seu teor. neste caso os mitos. Observa-se que “o foco no gerenciamento de redes complexas e no exercício de coordenação e controle. dá-se ênfase para o propósito das estruturas que segundo estes autores. acompanhados dos respectivos comentários. interconecta-se função e estrutura conceitualmente pelas relações entre as unidades funcionais. Meyer e Rowan (1977.

remete à idéia de integração. p. um determinismo mecanicista. utilitário e funcional característico do paradigma funcionalista. estes elementos racionais agem como mitos fazendo surgir organizações mais formais. Ao defender a legitimação de determinadas configurações de estruturas formais racionais a partir de mitos. 352). as coisas devem ser entendidas sob um caráter provisório. 357). p. ter-se-á a institucionalização de elementos racionais e impessoais em torno destas estruturas. Adequações rumo à sobrevivência a partir de regras e estruturas institucionalizadas conforme defende o neo-institucionalismo parecem ser delineadas pelo enfoque da seleção natural. onde permaneceriam os mais aptos. Proposição 3: As organizações que incorporam elementos racionais legitimados pela sociedade em suas estruturas formais maximizam sua legitimidade e aumentam seus recursos e capacidade de sobrevivência (MEYER e ROWAN. Segundo os autores. 1977. as vantagens desta dissociação são claras uma vez que a suposição de que as estruturas formais realmente trabalham para amenizar as inconsistências e anomalias envolvidas nas atividades técnicas. Tal cenário poderia ter entendimento mais profícuo se fosse feito sob a ótica de Benson (1987) que frente a teorias racional-funcionalistas tais como a que é possível abstrair da afirmação anterior. Desta forma. Também. estabilidade. Esta perspectiva prescritiva e determinística remete aos pressupostos das ciências naturais e que permeia a abordagem racional positivista. valoriza a realidade física e o raciocínio analógico. compelindo os organismos à adaptação ao meio como forma de sobrevivência. p. A dependência ou adequação às regras e seus efeitos nas estruturas. Do estudo de Meyer e Rowan (1977) aproveita-se para destacar e analisar sob o jugo do presente estudo. porque ao evitar a integração. Observa-se aí. Proposição 2: Quanto mais modernizada a sociedade. Observam os autores que em instituições modernas. os elementos da estrutura são dissociados das atividades e uns dos outros (MEYER e ROWAN. p. a modernização da sociedade faria prevalecer elementos institucionais racionais e demonstraria redes de organização sociais complexas e mudança. Isso manteria padronizadas e legitimadas suas estruturas 11 . com crença no progresso. também suas seis proposições: Proposição 1: Enquanto regras institucionais racionalizadas surgem em determinados domínios da atividade de trabalho. 1977.dado. a sobrevivência organizacional passaria pela elaboração de mitos racionais institucionalizados. Foulquié (1978) observara que a contradição seria a raiz do movimento. disputas e conflitos são minimizados. e de coordenação funcional. que são muito bem racionalizadas. O prisma evolucionista é atribuído ao positivismo que tal qual o empirismo. Para os autores. organizações formais se formam e se expandem através da incorporação destas regras como elementos estruturais (MEYER e ROWAN. mais ampla é a estrutura institucional racional em determinados domínios e maior é o número de domínios que contém instituições racionais (MEYER e ROWAN. segundo os autores. que levariam à eficiência organizacional. recomendaria a teoria dialética. 345). 1977. ora. em ambientes de mudança onde o que prevalece é a instabilidade. e uma organização pode obter apoio a partir de uma grande variedade de constituintes externos. o que permitiria a legitimação e obtenção de recursos que conduziriam à sobrevivência. Proposição 4: Pelo fato das tentativas para controlar e coordenar as atividades em organizações institucionalizadas conduz a conflitos e perda de legitimidade. à conformidade organizacional com os mitos institucionais. características do funcionalismo. 345). e as organizações não devem ser vistas como estática tal quais as estruturas formais apregoam. o primeiro tem na evolução o diferencial perante o segundo. asserção sobre apoio da burocratização a suposição de normas de racionalidade. uma vez que estas se baseiam na ordem e na estabilidade. o que demandaria a presença e elaboração de estruturas organizacionais formais. de ordem. Esta proposição acenaria para o fato de que a prospecção de sobrevivência das organizações aumentaria se elaborar estruturas como estado e enquanto as organizações responderem para regras institucionalizadas. contudo. 1977.

formais enquanto suas atividades variam em resposta às considerações práticas. o comprometimento dos participantes favorece para que as partes “funcionem”. podem ser visualizados aqui. “Na esfera populacional. representa uma opção metodológica nova. destacam que “o isomorfismo constitui um processo de restrição que força uma unidade em uma população a se assemelhar a outras unidades que enfrentam o mesmo conjunto de condições ambientais”. há séculos. estimulado pela dissociação das subunidades estruturais a partir de cada uma e de cada atividade. e o modelo mecânico. 359). Este processo de homogeneização é melhor explicado pelo conceito de isomorfismo. 358). O reducionismo característico do racionalismo cartesiano propõe que o todo complexo seja dividido em partes como metodologia de análise e esta concepção mecanicista é que constitui a visão mundo-máquina que permeia a ciência moderna. sincronizando as inter-relações tal como o modelo biológico baseado na estrutura e função. a abordagem sistêmica se encarregaria de explicar a configuração de organismos frente a ambientes que lhe impunham condições para sobrevivência e perpetuação. espelhando suas origens institucionais comuns. maior é a tendência de manter exibições de confiança. Há de se considerar que o propósito de que qualquer organização e de seus participantes é a utilidade e este princípio tende a ser incorporado na função inerente às estruturas. interna e externamente (MEYER e ROWAN. a partir de uma percepção de ordem e regularidade constantes nos fenômenos estudados”. p. que aspira ao equilíbrio. Os autores avançam no detalhamento deste conceito ao relatar que. como forma de diminuir sua complexidade. e de se evitar a inspeção e avaliação efetiva. Adicionam-se à leitura crítica da proposição anterior as afirmações de Garcia e Bronzo (2000. tal como afirmara Selznick (1967). com base em Hawley (1968). A inferência das empresas de maior porte de um campo sobre as que têm menos expressão quanto a inovações e mudanças tende a tornar organizações diferentes mais similares umas às outras. Cabe destacar que esta abordagem. p. Proposição 6: Organizações institucionalizadas buscam minimizar a inspeção e a avaliação pelos gestores internos e os constituintes externos (MEYER e ROWAN. onde seria necessária a segurança em relação às forças sociais de seu ambiente e como argumentou Radcliffe-Brown (1973). Entendem os autores que os participantes não apenas se comprometem em apoiar cerimoniais simbólicos das organizações. às vezes insofismável”. tem significado também a consagração de uma visão mecanicista do mundo e das coisas do universo. Tal proposição pode ser entendida como uma tentativa de reduzir o todo em partes. apresenta traços funcionalistas. logo. segundo Demo (1985). 1977. mas também se comprometem em fazer coisas além do trabalho em ambientes de mitos institucionalizados. Desta forma. Ao que parece. 2) ao destacarem que “cada vez mais o conhecimento e o processo científico foram observados como uma aproximação racional em direção a uma ‘verdade’. As organizações na indústria tendem a ter estrutura formal similar. Depois. Primeiramente. satisfação e boa fé. por DiMaggio e Powell (1983). a institucionalização de mitos agiria no sentido de obter homogeneidade e assegurar o papel da organização. de rituais de confiança e boa fé. uma vez que leva em conta o dinamismo da sociedade. mas podem mostrar diversidade em suas práticas. p. contudo. 1977. Isomorfismo e legitimidade das organizações são conceitos importantes no âmbito da teoria Neo-institucional e são abordados em especial. a estrutura deve se voltar à harmonia das partes de um organismo. Proposição 5: Quanto mais a estrutura de uma organização for derivada de mitos institucionalizados. p. Isso ocorreria em função do isomorfismo das organizações com um ambiente institucional elaborado. 76). tal abordagem sugere que as características organizacionais são modificadas na direção de uma compatibilidade crescente com as características 12 . elementos das abordagens funcionalistas e sistemistas. DiMaggio e Powell (1983. conforme propõe a teoria geral dos sistemas. “compreender a ciência e o processo científico.

normas são freqüentemente violadas.] também pode ser encarada com um sistema sociotécnico estruturado” (ROSENWEIG. Para os autores.do ambiente. 201). apesar de salientarem que Meyer e Rowan (1977) haviam considerado o conceito de estruturas institucionais como o tinham feito Berger e Luckmann (1967) e Zucker (1977) para os quais “uma estrutura que se tornou 13 . têm conseqüências incertas. Neste sentido. p. haveria um descolamento entre estrutura formal e ação. e sistemas de avaliação e inspeção são subvertidos ou tornados tão vagos de modo a garantir pouca coordenação” (MEYER. sendo que tais sistemas são interdependentes. as organizações formais estão frouxamente agrupadas (. os sistemas apresentam inter-relações entre partes de uma estrutura e esta demanda um sistema para atingir sua funcionalidade. influenciaria inclusive.) elementos estruturais estão apenas frouxamente ligados entre si e às atividades. Outro aspecto da visão de Demo (1985) é a que se refere ao fato de que a TGS estaria mais voltada para um modelo social “fechado” em detrimento às afirmações de que seria um sistema “aberto” em função de sua interação com o ambiente institucional. dando esta característica às estruturas institucionalizadas. A organização seria considerada “um sistema aberto em interação com seu ambiente. os sistemas apresentariam mecanismos de ajuste e manutenção. 77). KAST. 76) com base em Hannan e Freeman (1977). Podem ser tecidas considerações no sentido de que as ocorrências que caracterizam o isomorfismo podem ser associadas às premissas da teoria geral dos sistemas – TGS. o número de organizações em uma população é função da capacidade de sustentação do ambiente. enfatizando as relações entre unidades funcionais de uma estrutura. 1998. 1983. A concepção epistemológica aqui apresentada sobre o isomorfismo tende a ser observada também na legitimação e na institucionalização como um todo. ZUCKER. Toma-se por base tal perspectiva para seguir na busca do entendimento de institucionalização.. afirmando que o “isomorfismo pode acontecer porque as formas não-ótimas são excluídas de uma população de organizações. ROWAN. tecnologias são de eficiência problemática. 1980. POWELL. 196) e uma de suas afirmações é de que ela “é quase sempre tratada com um estado qualitativo: ou as estruturas são institucionalizadas ou não o são”. ou porque os tomadores de decisões nas organizações aprendem respostas adequadas e ajustam seus comportamentos de acordo com elas” (DIMAGGIO. Neste entendimento as organizações segundo Rosenweig e Kast (1980). A afirmação de Demo (1985) ampara-se no fato de que a abertura propagada do sistema não o é no sentido literal e o que se observa é seu direcionamento para se captar melhor as tensões e gerar condições para que o equilíbrio seja restabelecido. Frente a tais características. Estes autores. p. seguem apresentando elementos sobre estrutura e institucionalização. são compostas por um sistema ou ambiente externo e internamente. proposição dos modelos funcionais positivos. 1983. e a diversidade de configurações organizacionais é isomórfica à diversidade ambiental” (DIMAGGIO. p. Demo (1985) refere-se ao sistemismo como de caráter funcionalista. “Na maior parte das vezes. apud TOLBERT.. Este sistema formal (a organização) estaria sujeito à pressão do ambiente institucional (externo) o qual. 76). os moldes de sua estrutura. [.. 1977. Para se analisar a institucionalização toma-se por base Tolbert e Zucker (1998. decisões não-implementadas.. por um sistema de relações. com base no que chamaram de implicações do trabalho de Meyer e Rowan (1977). com propósito de garantir o equilíbrio interno e adequação às novas feições externas. POWELL. 133). p. uma vez que sob determinado ângulo. p. ou se implementadas. Os autores pretendiam evidenciar que a relação entre atividades cotidianas e comportamentos dos atores organizacionais e das estruturas formais poderia ser fruto de negligência. Outro ponto de vista que favorece o entendimento deste conceito é apresentado por DiMaggio e Powell (1983.

O que se percebe nas afirmações sobre institucionalização. São com estes esforços que se ocupam aqueles envolvidos com práticas epistemológicas. como eficaz e necessária. que sua conformação não simboliza postura epistemológica que se afaste significativamente do paradigma racional dominante. é tornar legítimo. quanto da abordagem do neoinstitucionalismo. ela serve. que se volta para a humanização nas organizações. seja atender uma necessidade. a relação entre ciência e sociedade. que o mesmo foi discípulo de Merton. pelos membros de um grupo social. que ligados aos comportamentos. tornar-se-iam habituais. terão associadas a si o fato de serem consideradas pelo grupo social. É importante ter claro que se vive um período de transição no campo da ciência e do conhecimento diante do papel do conhecimento científico para a sociedade e. 201-202).institucionalizada é a que é considerada. elementos racionais positivos. Mesmo sem se adentrar no mérito do que propunham os autores. que era destacar a ambigüidade da argumentação de Meyer e Rowan. Salienta-se de que se percebem fundamentos de utilidade em tais afirmações e principalmente. p. sua origem funcionalista. onde consideram como elemento de análise a historicidade. pois. o funcionalismo e a preocupação com a harmonia e o consenso. Outros dois conceitos entrariam ainda na pauta destes estudos: a objetificação e a habitualização. apresenta propensão maior à emancipação humana. que ao considerar o significado substantivo das organizações. 4. É possível reforçar 14 . as organizações como não estáticas e formas alternativas de poder. e de maneira geral. Ao se analisar epistemologicamente a teoria neo-institucional vê-se em suas raízes. de acordo com as leis. Esta ótica pode ser abstraída de afirmações como a de que “ou as estruturas são institucionalizadas ou não o são” e ao serem. segundo o dicionário Aurélio. tendo em vista seu cunho paradigmático basicamente funcional. focando seus alicerces e traços teórico-filosóficos. uma base funcional que propõe que toda estrutura tende a ser acompanhada de função e que se caracteriza ainda. tanto do “velho” institucionalismo. Ou seja. Resgatam-se também as definições de Berger e Luckmann (2001) que consideram a institucionalização como elemento central para a perpetuação dos grupos sociais e de Schultz destacada por Tolbert e Zucker (1998). apesar deste se propor a enfatizar aspectos que a teoria organizacional tradicional não considerava. concepções dialéticas. entender como este é concebido. suas formulações. teria como definição “uma tipificação de ações habituais por tipos específicos de atores”. passa a ser relevante. novamente remete a análise para a concepção funcional e distante do que Chanlat e Seguín (1992) propunham ao apresentarem o paradigma crítico. A tipificação envolveria o desenvolvimento recíproco de definições compartilhadas. como algo cuja finalidade. Considerações finais Neste momento é relevante retomar a proposta do estudo que foi desenvolver uma reflexão que permitisse captar e descrever a episteme da Teoria Neo-institucional. e seu pensamento apresentavam vínculos entre a sociologia. mantém-se o foco no sentido de coletar subsídios em torno da institucionalização e analisar seus traços epistemológicos. Considerando o exposto nos parágrafos acima relacionados à institucionalização e considerando também que legitimar. seus postulados epistemológicos e filosóficos. Selznick é considerado o precursor do neo-institucionalismo nos estudos organizacionais e destacam Fachin e Mendonça (2003). 1998. onde uma instituição seria o resultado de um processo de institucionalização e esta. como uma importante força causal de padrões estáveis de comportamento” (TOLBERT. pode-se destacar que sua proposta não se fundamenta numa concepção crítica ou de racionalidade substantiva consoante às premissas de Guerreiro Ramos (1989) do qual emerge a idéia de se desenvolver análises livres de padrões distorcidos de linguagem e conceptualizações. ZUCKER. como eficazes e necessárias. ou significados.

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