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Pediatria (São Paulo) 2006;28(3):175-83.

Artigo Original Original Article Artículo Original

Antitérmicos na emergência pediátrica: estamos usando a dosagem adequada?*
Antipyretics in pediatric emergency: are we using adjusted doses? Antitérmicos en la emergencia pediátrica: estamos usando las dosis adecuadas?
Ricardo Sukiennik1, Ricardo Halpern2, João Luiz Langer Manica3, Fernanda Duarte Plentz4, Graziela Bergamin4, Letícia Loss4, Márcio Vinicius Ayres5, Kátia Pereira Dalphiane5

Serviço de Emergência do Hospital Santo Antônio de Porto Alegre

Resumo
Objetivo: avaliar a acurácia da administração de antitérmicos a crianças febris e o dosador utilizado. Casuística e métodos: foram selecionadas crianças com até 12 anos de idade que consultaram por motivo de febre e que tivessem feito uso de antitérmicos por pelo menos uma vez nas últimas 24 horas. Foram registrados o fármaco, a apresentação comercial e a dose utilizada em cada caso. A adequação de dose baseou-se nas referências para paracetamol, dipirona e ibuprofeno. Analisaram-se as apresentações comerciais utilizadas pelos pacientes quanto à concentração e aos gotejadores. Foram observadas as informações constantes nas bulas dos produtos, em especial da dipirona. Resultados: foram entrevistados 575 cuidadores: 249 (43,3%) pacientes receberam subdose da medicação, 280 (48,7%) receberam dose adequada e 46 (8,0%) receberam dose acima daquela preconizada como terapêutica. Quanto à origem da informação sobre a dose a ser ministrada, 432 (75,1%) cuidadores obtiveram a informação a partir de profissionais de saúde, 81 (14,1%) basearam-se nos familiares e 42 cuidadores (7,3%) utilizaram a bula do remédio como referência. De modo geral, não houve variação nas concentrações de dipirona, paracetamol e ibuprofeno em relação aos produtos de referência. No entanto, os gotejadores das diversas apresentações disponibilizam volumes/quantidades diversos, geralmente menores. Conclusões: erros na dosagem de antitérmico foram freqüentes, geralmente em subdosagem de paracetamol, e não resultaram de características familiares. Um possível fator causal foi o gotejador, que muitas vezes disponibiliza gotas de pequeno volume, com menor quantidade de fármaco por gota. Os profissionais da saúde devem levar em consideração esse aspecto ao recomendar um antitérmico. Parece importante existir uma padronização dos gotejadores nas apresentações comerciais dos antitérmicos. Descritores: Febre. Dosagem. Sistemas de medicação. Emergências. Criança.
Professor substituto do Departamento de Pediatria da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA) 2 Professor Adjunto do Departamento de Pediatria da FFFCMPA 3 Residente de Pediatria no HCSA 4 Acadêmicas de Medicina da FFFCMPA 5 Farmacêutico Responsável pela farmácia industrial do Complexo Hospitalar Santa Casa 6 Enfermeira Responsável pela Emergência Pediátrica do HCSA * Ver resposta da Anvisa à pg. 209
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Fue registrado el fármaco. The drug used was recorded. with less drug per drop. Regarding the origin of information on the dose to be administered. 81 (14.1%) se basaron en los familiares y 42 cuidadores (7. 432 (75.1%) caregivers obtained it from health professionals. y no resultaron del perfil familiar. as well as the dose and commercial presentation. Los profesionales de la salud deben llevar en consideración este aspecto al recomendar un antitérmico. The drug´s bull information were checked. Dosage. Sistemas de medicación. 280 (48.3%) used the drug bull as reference. A possible causal factor might have been the dropper. Health professionals must take this into account when recommending antipyretic drugs. Pero. regarding the reference products. Casuística y métodos: fueron seleccionados niños con hasta 12 años de edad que consultaron por fiebre y que hubieran usado antitérmicos por lo menos una vez en las ultimas 24 horas. and did not result from family profile. which many times yielded smaller drops.7%) received an adequate dose and 46 (8. Fueron observadas las informaciones constantes en los bularios de los productos. 249 (43. The commercial products used by the patients were analysed regarding drug concentration and the droppers.0%) recibieron dosis mas alta que aquella preconizada como terapéutica.28(3):175-83. especially those regarding dipyrone. 249 (43.1%) cuidadores obtuvieron información a partir de profesionales de la salud. no hubo variación en las concentraciones de dipirona. In general. Dosificación. De modo general. Emergencies. generalmente con dosis más bajas de paracetamol. It seems important to establish a standardization of droppers used in the commercial presentations of antipyretic drugs. Cuanto al origen de la información sobre la dosis a ser administrada. La adecuación de la dosis se basó en las referencias con paracetamol. en especial de la dipirona. la presentación comercial.0%) received a dose above that considered to be therapeutic. Medication systems. However.3%) utilizaron el bulario del remedio como referencia. the droppers of the several commercial presentations yielded different amounts/volumes. Casuistic and methods: children up to 12 years old who were examined due to fever and had received antipyretic medication in the previous 24 hours were selected.3%) pacientes recibieron dosis mas baja de la medicación. Un posible factor causal fue el goteador del fármaco por gota. usually at paracetamol subdosage. Dose adequacy was based on the references for acetaminophen. Parece importante que haya una padronización de los goteadores en las presentaciones comerciales de los antitérmicos. Conclusions: errors in antipyretic medication dosage were frequent. Results: 575 caregivers were interviewed. 81 (14. Keywords: Fever.7%) recibieron dosis adecuada y 46 (8. relacionados a los productos de referencia. there was no variation in the concentrations of dipyrone. Conclusiones: errores en las dosis del antitérmico fueron frecuentes. Urgencias médicas. acetaminophen and ibuprofen. Child. dipirona e ibuprofeno. dipyrone and ibuprofen. 432 (75. Palabras clave: Fiebre. 176 . Resultados: fueron entrevistados 575 cuidadores. Niño. Resumen Objetivo: evaluar la acuracia de la administración de antitérmicos a los niños febriles y el dosador utilizado. y la dosis utilizada en cada caso.3%) patients received a subdose of medication. 280 (48. Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al Abstract Objective: to evaluate the accuracy of antipyretic administration to febrile children and the dropper used. Fueran analisadas las presentaciones comerciales utilizadas por los pacientes cuanto a la de concentración y los goteadores.Pediatria (São Paulo) 2006. usually smaller ones. generalmente menores.1%) were advised by family members and 42 (7. los goteadores de las diversas presentaciones disponibilizan volúmenes/cantidades diversos. paracetamol e ibuprofeno.

A análise estatística foi feita com o teste do qui-quadrado para verificar diferenças de proporções entre as variáveis de interesse. 2004) Medicamento Paracetamol Dipirona Ibuprofeno AAS Apresentação Gotas Solução oral Comprimido N 407 143 18 7 529 33 13 (%) (70. de modo geral. Casuística e métodos Foram selecionadas todas as crianças com idade até 12 anos atendidas no Serviço de Emergência do Hospital Santo Antônio de Porto Alegre. se considerarmos a febre como um dos sintomas que motivaram a consulta1.14. e para o ibuprofeno. que preencheram os critérios seletivos. 575 crianças febris que foram trazidas ao serviço de emergência preencheram os critérios seletivos.1) (1. Foram entrevistados os responsáveis acompanhantes da criança no serviço de emergência.14.2) (92. a dose de 10 a 20 mg/kg13.9-11. A adequação da dose de cada antitérmico – acetaminofeno.28(3):175-83.3) 177 . Porto Alegre. foi considerada a partir da faixa terapêutica estabelecida na literatura12-14. com um questionário semi-estruturado. Os critérios foram: relatar a ocorrência de febre nas 24 horas precedentes e ter recebido antitérmico por via oral. ao desconhecimento dos responsáveis quanto à dose correta e ao intervalo de dose6. Nesses casos há a adequada vontade dos responsáveis em minorar o desconforto da criança e a equivocada concepção de. Diversos estudos descrevem um comportamento característico de pais de crianças com febre. porém muitas vezes incorreto. O uso de antitérmico em dosagem inadequada tem sido observado em países desenvolvidos e está associado. 4 a 10 mg/kg13. a dose terapêutica foi considerada entre 10 e 15 mg/kg13. à verificação da temperatura no domicílio. Para o paracetamol. podendo atingir até metade dos casos. Foi avaliada a última dose de antitérmico utilizada antes do atendimento. sob a supervisão de um dos autores.7) (2. Esse número constituiu 34% da totalidade de crianças atendidas no serviço no período determinado. 280 (48. era apresentado aos responsáveis um mostruário com as diversas apresentações comerciais de antitérmicos. ao medicamento utilizado e à dose ministrada. Os resultados foram armazenados em um banco de dados no programa Statistical Package for Social Science 10. impedir a ocorrência de convulsão. dipirona e ibuprofeno mais empregadas foram analisadas para verificar a concentração da droga e a volumetria do gotejador. As análises foram realizadas no laboratório da farmácia industrial da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.2.9) (3. As apresentações comerciais de acetami- Tabela 1 – Medicamentos e apresentações mais freqüentes utilizados para crianças febris atendidas em serviço de urgência (HCSA. na apresentação em gotas. dano cerebral e morte5. nofeno (paracetamol).3%) pacientes receberam subdose da medicação. 249 (43. ao medicar. Os antitérmicos utilizados pelas crianças e a apresentação deles estão contidos na Tabela 1. dipirona e ibuprofeno.Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al Pediatria (São Paulo) 2006. O antitérmico mais utilizado foi o paracetamol. o que resulta em queda na efetividade dessa medida terapêutica6-8. o uso domiciliar de antitérmico é habitual.0) (5. Em relação à adequação da dose oral de antitérmico utilizada. para a dipirona.0 (SPSS 10. Foi realizado um estudo para avaliar a freqüência de adequação da dose de antitérmico ministrada a crianças febris atendidas em um serviço de emergência e verificar as possíveis causas de inadequação da dose.7%) pacientes receberam dose adequada e 46 (8. que foi denominado “febre fobia”3-5. Resultados Durante o período de um mês. durante o mês de setembro de 2004. e o entrevistado indicava aquela que havia sido utilizada. Dessa forma.8) (24. Esse termo é usado para descrever a ansiedade dos pais associada ao aumento da temperatura corporal da criança. Estima-se que seja a queixa primária de aproximadamente um terço das consultas pediátricas. Para confirmar a apresentação farmacêutica usada.0%) receberam dose acima daquela preconizada como terapêutica. Introdução A febre é uma das principais causas de atendimento nos serviços de emergência de crianças. com informações sociodemográficas e questões relativas à duração da febre.0).

6 e 7).8 (7.11).7) (39.9 (33. Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al O perfil demográfico da população estudada está descrito na Tabela 2.8) (14. tendência também observada com o uso do ibuprofeno.68 mL a 1. Analisou-se a possível relação entre a adequação da dose de antitérmico recebida pela criança febril com o fármaco utilizado. e a responsável. predominantemente. As características (variáveis) e os resultados estão contidos na Tabela 3. tinha idade entre 20-30 anos.2) (14.81 e DP de 0.3) (25. Porto Alegre.6) (53. exceção feita a um similar do ibuprofeno.28(3):175-83. Não foi constatada correlação. o acetaminofeno foi utilizado em subdosagem pela maior parte dos pacientes. Havia crianças de todas as idades.96 mL para cada 20 gotas do produto (mediana de 0.28 mL para cada 20 gotas da solução (mediana de 0.2) (24. geralmente em subdose.1) (37. Foi constatada maior adequação da dose com a dipirona. cerca de 30% não tinham o grau primário completo. delas.6) (27. Foi avaliada a possível relação entre as características da amostra e a adequação da dose de antitérmico ministrada a crianças febris.7) (36. A apresentação em gotas esteve associada ao maior percentual de erros na dose do antitérmico.21). atendidos em serviço de urgência (HCSA.60 a 0.5) 27. foram encontradas diferenças que variaram de 0.5) - - 178 . Tabela 2 – Perfil sociodemográfico das 575 crianças febris e seus responsáveis. 2004) Características sociodemográficas Idade da criança (meses) 0a3 4 a 12 13 a 36 37 ou mais Idade materna (em anos) < 20 21 a 30 31 a 40 41 ou mais Idade paterna (em anos) < 20 21 a 30 31 a 40 41 ou mais Escolaridade materna Primeiro grau incompleto Primeiro grau completo Segundo grau completo ou mais Escolaridade paterna Primeiro grau incompleto Primeiro grau completo Segundo grau completo ou mais *informações disponíveis N* 24 142 212 197 84 306 145 39 33 262 184 85 187 159 228 173 180 208 (%) (4. essa diferença.3) 31.5) (32. relativa à dose a ser ministrada para a criança febril.4 (8. a maioria obteve a informação com os profissionais de saúde. O maior percentual de erros foi verificado entre os que tiveram orientação de familiar. A sobredosagem foi menos freqüente com o acetaminofeno e mais comum entre os que receberam ibuprofeno. a apresentação do produto e a fonte da informação sobre a dose a ser ministrada.Pediatria (São Paulo) 2006.9) (46.1) Média (DP) 35. com metade da concentração (Tabelas 5. variou de 0.8) (32. Os dados obtidos na Tabela 4.8) (32. acetaminofeno e ibuprofeno foram semelhantes entre si.8) (5. Em relação à dipirona. embora menor.9) (34. O resultado da análise volumétrica mostrou diferença significativa entre os diversos gotejadores estudados.69 e DP de 0. Quanto à fonte de informação para o responsável.3) (6. porém o acerto da dose foi um pouco maior entre os que seguiram a recomendação da bula (Tabela 4). As concentrações das diferentes apresentações comerciais de dipirona.7) (30. Entre as dez formulações de paracetamol citadas pelos pais ou responsáveis.

0% 51.5% 6.8) (24.1% 42.1) (38.4) (51.8% 9.2% 39.2) (14.0) Total N 407 143 18 7 529 33 13 42 432 81 20 (%)& (70. # – fonte da informação sobre a dose utilizada.0% 45.8% 52.1) (15.2% 7.7% 4.2% 49.1) (61.001 0.0% NS P* NS NS NS NS C – correta.1% 53.5% 43.4% 47.5% 50.6) (14. a – anos.1) (1.1) (7.Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al Pediatria (São Paulo) 2006.0% 10.3) (30.7) (60.9) (45.1% 10.002 0.8% 63.9% 55.8) (23.2% 52.025 * –% da linha. m – meses.9% 6. segundo as características sociodemográficas da amostra Características da amostra Idade da criança 0a3m 4 a 12 m 13 a 36 m > 37 m Idade materna < 20 a 21 a 30 a 31 a 40 a 41 a ou mais Idade paterna < 20 a 21 a 30 a 31 a 40 a 41 a ou mais Escolaridade da mãe Primeiro grau incompleto Primeiro grau completo Segundo grau completo ou mais Escolaridade do pai Primeiro grau incompleto Primeiro grau completo Segundo grau completo ou mais Subdose 56.6) (38.6) (10.1% 46.8% 3. P** – da característica avaliada .9) (42.4% 53. 2004) Características da amostra Antitérmico Paracetamol Dipirona Ibuprofeno AAS Apresentação@ Gotas Solução oral Comprimido Informação# Bula Profissional da saúde Família Outra Subdose N 218 21 7 3 240 6 3 16 178 43 12 (%)* (53.4% 46. * – avaliação da distribuição numérica de cada característica Tabela 4 – Adequação da dose de antitérmico ministrada a crianças febris.5) 179 P** < 0.2% Dose C 34.5% 38.6% 45.8% 9.28(3):175-83.1) (69.3% 40.3% 41.3) (7.5% 44.5% 54.8% Superdosagem 8.0% 7.9) (47.7) (33.1) (3.1) (22.3) (16.3% 10.8) (21. a apresentação e a fonte da informação (HCSA.1) (13.7% 45.5) (18.3% 6.8% 7.9% 30.3% 47.2) (6.0% 37.1) (14.9) (42.1) (60.3% 6.0% 41.9) (3. Porto Alegre.2) (92.7% 48.3) (38.4) (5.7) (2.0) (5.2) (52.9% 7.5) (56.6% 8.6% 48.8% 46.5% 44.7% 45. segundo o medicamento.5% 42.5) (41.3) (75.9% 35.0) Sobredosagem N 18 23 4 1 37 7 2 2 31 11 2 (%)* (4. & –% da coluna.1% 7. Tabela 3 – Adequação da dose de antitérmico ministrada a crianças febris.0) Dose correta N 171 99 7 3 252 20 8 24 223 27 6 (%)* (42.

47 17.31 mg/gota 12.19 17. os dados são ilustrativos Tabela 7 – Apresentações farmacêuticas do paracetamol utilizadas por crianças febris (HCSA.626 0. 2004) Medicamento ibuprofeno A bula 10 gts/mL B C & Categoria Referência Similar Similar Concentração (mg/mL) 50 50 200 Volume em 20 gts (mL) 2.698 Gotas por mL& 20.99 20.18 15.235 1.741 0.94 27.961 0.681 Gotas por ml& 15.65 18.00 6.52 24.50 15. Porto Alegre.57 33.18 8.776 0.84 32.44 24.05 18.602 0.96 12.114 0.671 0.77 28.18 8.42 26.628 0.60 16.727 0.614 0.Pediatria (São Paulo) 2006.70 15.785 1.818 0.41 * – este similar tem metade da concentração de A. – devido à diferente viscosidade dos produtos há imprecisão.28(3):175-83.19 8.94 27.06 31. os dados são ilustrativos Tabela 6 – Apresentações farmacêuticas do ibuprofeno utilizadas por crianças febris (HCSA. # – todas as apresentações de dipirona tem 500 mg/mL.000 2.96 27.57 31. Porto Alegre. Porto Alegre.739 0.80 28.45 Bula* Não Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Não Sim Não * – existe referência na bula de que 1 ml equivale a 30 gotas.718 0.77 – devido à diferente viscosidade dos produtos há imprecisão. 2004) Medicamento paracetamol A bula 16 gts/mL B C D E F G H I J* 180 Categoria Referência Genérico Genérico Similar Similar Similar Similar Similar Similar Similar & Concentração (mg/mL) 200 200 200 200 200 200 200 200 200 100 Volume em 20 gts (mL) 1.618 0.66 mg/gota 5.82 12.51 29.65 mg/gota 23.35 15.77 17.14 7. 2004) Medicamento dipirona A B C D E F G H I J K L M Categoria Referência Genérico Genérico Similar Similar Similar Similar Similar Similar Similar Similar Similar Similar Concentração (mg/mL)# 500 500 500 500 500 500 500 500 500 500 500 500 500 Volume em 20 gts (mL) 0.81 29.17 27.277 Gotas por mL& 10.64 7.42 22.35 11.282 1.40 17.22 26.45 15.36 32.819 0. & – devido à diferente viscosidade há imprecisão nas medidas. os dados são ilustrativos . Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al Tabela 5 – Apresentações farmacêuticas da dipirona utilizada por crianças febris (HCSA.85 24.000 7.92 7.27 3.700 0.954 0.02 16.764 0.892 0.88 19.

8 mg (Tabela 7). As apresentações da dipirona em gotas têm menor quantidade do fármaco por gota em relação ao produto de referência. O ibuprofeno. em que grande parte dos pacientes que ingerem subdose de antitérmico recebe informação especializada7. 41. O percentual de uso incorreto foi um pouco menor entre os responsáveis que se orientaram pela bula e um pouco maior entre os que receberam informações de familiares (Tabela 4). independentemente da resposta da febre ao antitérmico. também constatada na literatura13.1%). No caso do ibuprofeno. Habitualmente. Assim como em países desenvolvidos. A dipirona.7 gota/kg/dose.4%) considerou a consulta de emergência necessária.3% dos pacientes. Isso é compreensível.11. foi a segunda opção em freqüência. A subdosagem do antitérmico foi muito mais freqüente.2% estavam utilizando doses incorretas.19. A maior parte dos responsáveis – 382 (66. Com a ministração de uma gota/kg/dose. com preponderância entre os casos que fizeram uso de ibuprofeno e dipirona. houve na amostra uma preferência pelo uso de paracetamol como antitérmico4. não foi observada a associação entre fatores idade/maturidade e nível educacional dos pais com a adequação na ministração de antitérmico (Tabela 3). apenas o produto de referência e dois genéricos alcançaram a faixa terapêutica de 10 a 15 mg/kg13.11. como também foi observado na presente casuística. As outras apresentações da dipirona em gotas têm menor quantidade do fármaco por gota em relação ao produto de referência. que não dominavam a língua em que a bula estava escrita6. embora não permitida em vários países. Esses dados são similares aos de países desenvolvidos. dentro da faixa terapêutica de 10 a 20 mg/kg13. é possível que pacientes ainda febris por receberem subdose de antitérmico tenham sido mais selecionados. pelos que receberam dipirona em gotas. Outro aspecto a ser considerado para explicar parte desse grande percentual de pacientes com subdosagem de antitérmico provém do desenho do estudo. especialmente as de dipirona (Tabela 5). justificando a grande freqüência desse evento na amostra. Verificou-se. A informação quanto à dose do antitérmico teve orientação de médico e/ou enfermeiro para a maioria do grupo estudado (75.0% dos pacientes. os que utilizaram antitérmico em solução.7 gota/kg. a principal causa de erro de dosagem recaiu sobre fatores culturais relacionados aos familiares. secundariamente. Dessa forma.7. Os casos foram selecionados entre pacientes febris que foram a um pronto-socorro. que tem todas as apresentações com a mesma concentração (Tabela 5).28(3):175-83.14.19. proporciona dose adequada de antitérmico. fármaco a ser proscrito como antitérmico. nesse subgrupo. pelas crianças que utilizaram acetaminofeno na apresentação em gotas e. A sobredosagem de antitérmico foi pouco freqüente. utilizada na América Latina e em outros países. de introdução mais recente no mercado. a ocorrência de subdosagem foi menor entre os que receberam a dipirona. As diferentes apresentações em gotas do acetaminofeno (paracetamol) utilizadas pelas crianças contêm menor quantidade da substância por gota. verificada em 43. e os que receberam informação sobre a dose por meio de familiar (Tabela 4).4 a 12. Porém. Como já mostrado em estudo brasileiro20. a recomendação de utilizar 0. visto que na prática clínica faz-se uso geralmente de 0. a febre que não cede é uma das causas da ida ao serviço de emergência. e por vezes até 1 gota/kg. ainda. Ao se utilizar uma gota por quilograma. em um viés de amostra frente a toda a população pediátrica. o que origina dose próxima a 17 mg/kg com o produto de referência.6%) relataram que não teriam vindo a um serviço de emergência. Esse aspecto surpreendente talvez tenha explicação na fonte de informação de uso do antitérmico. a associação com sobredose parece ter ocorrido por haver sido utilizado por parte dos pacientes um similar com maior concentração da droga (Tabela 6). como abordado a seguir. a utilização residual do AAS. compreensivelmente foi pouco utilizado. As bulas nem sempre informam o volume das gotas.7. até um quarto do produto de referência. isso não ocorreu com a dipirona. como admitido por um terço dos responsáveis no estudo. com tendência à subdosagem. enquanto 193 (33. de 3. Esse elevado percentual foi determinado. porém. com exceção de um similar (Tabela 5). os similares testados (Tabela 7) originaram subdose. majoritariamente. notou-se preferência 181 . Alguns estudos associaram o uso incorreto de antitérmico com aspectos socioeconômicos da população7-19. como potencial causador da síndrome de Reye. No Canadá. caso a febre tivesse cedido com o antitérmico. constatada em 8. com exceção de um similar(Tabela 5). Na pesquisa.10. Os estudos têm buscado avaliar as causas associadas à equivocada administração de antitérmicos6. No presente estudo. O presente estudo ainda possibilitou algumas considerações sobre outros aspectos.Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al Pediatria (São Paulo) 2006. Discussão A administração de doses incorretas de antipiréticos a crianças tem se mostrado freqüente. A maior efetividade da dipirona como antitérmico nas doses preconizadas é uma impressão clínica dos pediatras.

11. Management of highly febrile young children in primary care practice.75:1110-3.28(3):175-83. nos resultados. Outros serviços e amostras podem apresentar variação no perfil e. em parte. e apenas estima a temperatura. Foi realizada em serviço de emergência de um hospital pediátrico terciário. Parental fever phobia and its correlates. como observado (Tabela 5). e não uma medida. com tendência ao aumento da mesma15-18. Entretanto.107:1241-6. 4. A variação aceitável no volume das gotas/conteúdo de medicamento fornecido às crianças situa-se em torno de 10% da dose estimada. Platt R. que possui algumas particularidades. diversas dos produtos de referência.6% dos acompanhantes das crianças terem revelado que não viriam à emergência se a febre tivesse cedido com a dose administrada anteriormente à consulta. diferente do encontrado em outros países. pode ser fornecido em dose maior. Pediatrics 2001. Antitérmicos na emergência pediátrica Sukiennik R et al acentuada pela forma de administração em gotas. aspecto já relatado em outros estudos. Isso pode se dever à obtenção da apresentação em gotas no sistema público de saúde ou ao menor preço dessa apresentação.Pediatria (São Paulo) 2006. de modo que 30 gotas têm volume de 1 mL (Tabelas 5 e 7). onde formas de administração como soluções orais com sabores e comprimidos mastigáveis. Cabe ressaltar o fato de 33. e os familiares. Outras vezes. atentos e ansiosos. muitas apresentações de antitérmicos possuem uma relação gotas por mL diferente dessa. Finkeltein JA. A maior parte (60%) dos pacientes apresentava idade inferior a 36 meses. 2. Crocetti M. 182 . As apresentações comerciais deveriam destacar a relação gotas/mL e a dose habitual. A constatação da febre no domicílio pelos responsáveis foi muitas vezes imprecisa: eles relatam geralmente valores numéricos arredondados. Isso é habitual. Algumas das apresentações comerciais têm concentração distinta do fármaco e muitas portam gotejadores que disponibilizam menor volume por gota. A causa desse erro decorre. Wagner M. para o qual dez gotas têm volume de 1 mL. Em nosso meio existe a convicção de que os frascos de antitérmicos. apesar de orientadas por profissionais da saúde. fatores motivadores de consulta10. com pronto atendimento aberto à população. assim como a maioria das medicações com gotejador. Os profissionais da saúde devem levar em consideração tal aspecto ao recomendar um antitérmico. Moghbeli N. a gota tem maior volume. entre outras. Conclusões Grande parte das crianças febris faz uso de doses inadequadas de antitérmico. para conhecimento dos profissionais da saúde e dos responsáveis pelas crianças. Essas informações não estão destacadas nas bulas20 e por vezes não estão explícitas. Isso pode ter originado parte dos erros de dosagem da presente casuística. na febre elevada. Ann Emerg Med 1994. as infecções são mais freqüentes e graves. que.150:49. Arch Pediatr Med 1996. Serwint J. Cox RD. Muitos gotejadores originam gotas menores. provavel- mente refletindo uma impressão. inclinação do frasco no momento da ministração e até da temperatura ambiente. Dessa forma não avaliamos a possível adequação de dose de antitérmico ao grau da febre. Referências 1. como na apresentação de ibuprofeno (Tabela 6). geralmente menores. Leduc DG. Nessa faixa etária. mantêm uma relação de 20 gotas por mL. Foi constatado que a maioria dos pais e responsáveis detecta a febre ao tocar a criança. A padronização volumétrica dos gotejadores pelos órgãos reguladores e indústrias farmacêuticas parece recomendável. das diferentes apresentações comerciais dos antitérmicos. Isso resulta de variações da viscosidade da solução. isto é proposto para o ibuprofeno. 3. Kramer MS. Fever phobia revisited: have parental misconceptions about fever changed in 20 years?. possivelmente. Nalmark L. Infants and children with fever without source. são freqüentemente utilizadas10.23:598-9. Esse dado está de acordo com a literatura recente6 e recomenda atenção na prescrição correta da dose de antitérmico para reduzir a apreensão dos pais e as consultas de emergência. Pediatrics 1985. Um aspecto a ser destacado entre os resultados é a variação dos gotejadores quanto ao volume da gota produzida. Os resultados da pesquisa são representativos da amostra analisada.

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