Ambientalismo, Ciência e Democracia

Silvio Marchini Publicado pela Sociedade da Terra Redonda (www.str.com.br) em 12 de Abril de 2003

"Vivemos em um mundo cada vez mais poluído e insalubre, nossas emissões de gás carbônico causam alterações climáticas globais com resultados catastróficos, a destruição das florestas tropicais leva à extinção centenas de espécies a cada dia e o crescimento populacional desenfreado impõe pressões intoleráveis sobre os recursos naturais. Enfim, estamos causando um grande mal ao planeta e isso resultará por fim na nossa própria destruição, a menos que tomemos as devidas medidas imediatamente". Esta é a perspectiva que nos apresenta o ambientalismo. Para fundamentar e legitimar tais afirmações, o ambientalismo dispõe da ciência, que é neutra, amoral e objetiva [De todos os campos da ciência, aquele do qual o ambientalismo mais se utiliza é a ecologia. A aproximação entre ambientalismo e ecologia é grande o bastante para causar, em muita gente, confusão entre os dois termos]. Porém, enquanto muito se fala nos argumentos científicos para mudarmos nossa atitude em relação ao meio ambiente, pouca atenção é dada às bases políticas, éticas e estéticas do ambientalismo. Estes campos do conhecimento, ao contrário da ciência, são subjetivos, ou seja, exprimem sentimentos e opiniões individuais ou de grupos. O reconhecimento da dimensão subjetiva do ambientalismo tem importantes implicações para a democracia. Ora, se as decisões relativas ao meio ambiente não são fundamentadas nas ciências apenas, mas levam também em conta sentimentos e opiniões individuais ou de grupos, então quem são estes indivíduos ou grupos cujos interesses devem prevalecer sobre os dos demais segmentos da sociedade? Quão representativos da sociedade são estes indivíduos ou grupos ou, em outras palavras, quão democrático é o processo decisório relativo ao meio ambiente? Ao fundamentar suas ações na ciência, o movimento ambientalista beneficia-se duplamente. O primeiro benefício é emprestar da ciência sua credibilidade e respeito. Afinal, os feitos da ciência são notáveis, fazendo popular a crença de que a ciência conhece tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal como esta é em si mesma. Somente a ciência permitiria aos homens compreender e dominar a natureza, noção esta herdada do Iluminismo e que deriva da física de Issac Newton, na qual

tudo na natureza, dos átomos às galáxias, obedece a leis fixas e previsíveis. Além disso, como os resultados obtidos pela ciência não dependem da boa ou má vontade do cientista nem de suas paixões, estamos convencidos de que a ciência é neutra ou imparcial. O segundo benefício é excluir o cidadão comum - o não-cientista - das decisões relativas ao meio ambiente. Afinal, apenas cientistas entendem de ciência. No entanto, a imagem do mecanicismo determinista e da neutralidade da ciência é ilusória. Avanços na física ocorridos no século XX, tais como a teoria da relatividade, a mecânica quântica e a teoria do caos, demonstraram que a natureza é mais complexa e menos previsível do que os cientistas gostariam que fosse. Se a física tem limitações em fazer previsões, o que dizer das chamadas "soft sciences", das quais a ecologia é o exemplo clássico. Uma das poucas "leis" genuínas da ecologia é a chamada relação espécie-área: áreas grandes comportam um número maior de espécies que áreas pequenas. Com base na relação espécie-área foi elaborada a Teoria da Biogeografia de Ilhas, famosa devido às suas aplicações para a criação de reservas naturais. A biogeografia de ilhas permite também que os ambientalistas façam estimativas de quantas espécies se extinguem devido à destruição de florestas tropicais e outros biomas. A teoria determina, por exemplo, que um bioma reduzido a 10 porcento de sua área original terá metade das suas espécies extintas. É assim que Edward Wilson, respeitadíssimo pesquisador e ambientalista de Harvard que acredita que existam 100 milhões de espécies no planeta (embora apenas 1,6 milhão sejam conhecidas), estima que dentro de um século metade das espécies existentes terão desaparecido para sempre. Ou seja, teremos uma média de 1370 espécies se extinguindo todos os dias nos próximos 100 anos! Acontece que o observado nem sempre corresponde ao previsto pela teoria. Ora, nossa Mata Atlântica foi justamente reduzida em pelo menos 90 porcento e não se sabe da extinção de uma espécies sequer. Para ter uma idéia mais acurada da distância entre a teoria e o observado, considere que desde o ano 1600 foram confirmadamente extintas em todo o mundo um total de 1033 espécies, cifra bem diferente das estimadas 1370 espécies extintas todos os dia. De fato, a incerteza é inerente à ciência, assim como exageros apaixonados são inerentes aos seres humanos, incluindo os cientistas. É de se esperar portanto que, assim como na questão da perda de biodiversidade, incerteza e exagero estejam presentes naquilo que sabemos sobre os demais problemas ambientais. Além disso, a caracterização dos problemas ambientais tipicamente envolve conflitos entre diferentes campos do conhecimento, dos quais o exemplo clássico é a divergência entre ecologia e economia. Apesar da inegável contribuição da ciência para a nossa compreensão sobre o meio ambiente, a incerteza inerente à ela e os conflitos entre suas diferentes áreas fazem com que muitas das decisões relativas ao meio ambiente não possam ser fundamentadas cientificamente. A objetividade do ambientalismo é, de fato, menor do que se supõe. O fundamento da decisão de, por exemplo, se

investir na conservação da arara-azul ou da tartaruga marinha tem menos a ver com ciência do que com ética ou mesmo estética (cito a arara-azul e a tartaruga marinha por terem sido espécies-alvo de duas das mais conhecidas campanhas de conservação do país). Ainda que os ambientalistas recorram ao mito do equilíbrio delicado da natureza e da interdependência de todas as espécies ou façam uso do argumento utilitarista atribuindo valor monetário à biodiversidade para justificar tal decisão, o fato é que a ciência não pode demonstrar que o desaparecimento daquelas espécies teria algum efeito - além do emocional - sobre nós humanos. Na dificuldade de encontrar fundamentos científicos para suas previsões catastróficas, o ambientalismo conta ainda com um último recurso: o polêmico Princípio da Precaução, segundo o qual não devemos agir sem antes conhecer todas as consequências de nossos atos. Em outras palavras, não devemos correr riscos. No caso da arara-azul ou da tartaruga marinha, não devemos esperar até que elas desapareçam para só então descobrir que nossa existência depende delas. Os críticos do Príncipio da Precaução, porém, lembram que ele desencoraja qualquer mudança ou inovação, visto que estas tipicamente envolvem algum risco. Um argumento mais honesto para não se levar a arara-azul ou a tartaruga marinha à extinção é que isso seria simplesmente errado do ponto de vista ético, além de esteticamente desaconselhável, visto que aqueles são considerados animais bonitos (o leitor certamente nunca ouviu falar em campanhas de conservação de abelhas sem ferrão, urubus ou morcegos - todos animais de beleza duvidosa - ainda que se possa argumentar que estes animais são ecologicamente muito mais importantes que ararasazuis ou tartarugas marinhas). O mesmo se aplica à preservação das florestas, rios e mares. Não sabemos exatamente o quanto dependemos das florestas, que impacto elas têm sobre o clima ou qual o valor monetário da biodiversidade que elas abrigam. Mas sabemos intuitivamente que destruí-las é moralmente reprovável. Destruí-las seria, sobretudo, um ato de vandalismo. Assim como não precisamos recorrer à ciência para justificar a preservação de monumentos históricos ou obras de arte, julgamos simplesmente ética e esteticamente - e não cientificamente - errado destruir a natureza. Ética e estética, porém, não são universais como a ciência. Elas são em grande parte subjetivas, variando de pessoa para pessoa e através dos tempos, das culturas e das classes sociais. Jogar lixo na rua pode ser considerado absolutamente errado por um cidadão dinamarquês educado e perfeitamente aceitável por um cidadão indiano médio. Da mesma forma, a conservação dos baleias ou da floresta amazônica pode ocupar uma posição importante no sistema de valores das classes sociais mais altas e instruídas, enquanto que para a maior parte da população, as voltas com as contingências de sua própria sobrevivência, a proteção do meio ambiente possa figurar entre as últimas das prioridades.

Concluímos assim que, em lugar de legítimo defensor do meio ambiente, o movimento ambientalista pode ser melhor entendido como uma imposição de valores éticos e estéticos de um determinado segmento social sobre os demais segmentos. Ao aceitarmos que muitas das decisões referentes ao meio ambiente não resultam de verdades científicas absolutas mas refletem os sentimentos e opiniões dos ambientalistas, devemos nos preocupar com as seguintes questões: quão representativos da sociedade são os ambientalistas e com que legitimidade eles defendem seus interesses em nome da biodiversidade, dos ecossistemas ou das gerações futuras? Em outras palavras, quão democrático é o processo de decisão relativo ao meio ambiente? O reconhecimento de que a ciência tem um papel secundário na questão ambiental implica que não apenas os especialistas em meio ambiente podem participar das decisões, mas também o cidadão comum. Assim, se desejamos viver em uma democracia e não em uma tecnocracia na qual apenas cientistas e ambientalistas decidem o que é melhor para o planeta, as decisões sobre o destino de florestas, rios e mares - bens que, aliás, pertencem a todos os cidadãos - deveriam envolver tantos segmentos da sociedade quanto possível. Decisões como a de investir na proteção de tartarugas marinhas ao invés de crianças abandonadas, ou de implementar o "desenvolvimento sustentável" em benefício das gerações futuras mesmo que isso implique na renúncia de comodidades por parte das camadas mais pobres da geração atual, são puramente políticas e, portanto, deveriam ser tomadas de forma democrática. Em suma, ainda que o reconhecimento da subjetividade do ambientalismo adicione complexidade à questão ambiental ao implicar que segmentos sociais de opiniões conflitantes também devem participar das decisões, ele oferece a melhor oportunidade de encontrarmos o balanço ideal entre a proteção do meio ambiente e a melhoria da existência humana.

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