A ECONOMIA SOLIDÁRIA E AS COOPERATIVAS AGRÁRIAS Luiz Fernando Zen Nora lf_zen@yahoo.com.

br 1 - Introdução O individualismo, como um produto da atual vida em sociedade calcada em um sistema de produção capitalista vem contribuindo para um distanciamento entre os indivíduos e dificultando sua própria organização e formação coletiva. Diante deste fato, sem descuidar da produção e manutenção da subsistência humana, diversas lutas vêm sendo realizadas no sentido de reconstruir valores humanistas, cooperativos e solidários entre os indivíduos e na relação destes com o meio ambiente. Cria-se assim um movimento que vem recebendo o nome de Economia Solidária1. O enfrentamento aqui tratado está ocorrendo através da união de homens e mulheres em projetos coletivos de produção e consumo, nos quais a troca passa a realizar ambos os lados e não apenas aquele que obtém o maior lucro nesta relação: “é um processo baseado na identificação de objetivos comuns ou complementares entre as partes e na confiança de que ambos serão satisfeitos com a troca” (ARROYO; SCHUMUCH, 2006, p.68). A noção de Economia Solidária abarca diversas práticas e não há um pensamento único sobre o seu significado. Ela está associada a ações de consumo, comercialização, produção e serviços em que se defende em graus variados, entre outros aspectos: a participação coletiva, autogestão, democracia, igualitarismo, cooperação e intercooperação, auto-sustentação, a promoção do desenvolvimento humano, responsabilidade social e a preservação do equilíbrio dos ecossistemas (MANCE, 2002). Apesar de na Economia Solidária encontrarmos diversos tipos de

empreendimentos – feiras de trocas, comércio justo, moeda solidária, associações, entre outros - o presente artigo tem por escopo demonstrar as possibilidades de inserção deste movimento nas áreas rurais, especificamente através das sociedades

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A economia solidária também é conhecida por outros nomes como: economia social, socioeconomia solidária, humanoeconomia, economia popular e solidária, economia de proximidade, economia de comunhão, etc.

também. colocando em risco o ecossistema e em conseqüência a vida no planeta Terra. gerada não só pela presença objetiva de um processo de destruição da natureza. SCHUMUCH. Fato que liga. mas pela total impossibilidade de esse problema ser resolvido a partir da lógica de desenvolvimento adotada pela maioria dos países do mundo e pelo processo de globalização competitiva e desregrada pelo qual estamos passando.” (grifo do autor) A desconstrução destes espaços de exploração individualista é possível por meio das práticas cooperativas e solidárias. Percebe-se aqui. pela queima de combustíveis fósseis . encontra-se limitada e ameaçada por interesses econômicos de pequenos grupos e pelo ideal de ‘desenvolvimento industrial’. por intermédio de uma visão sistêmica de análise da realidade. pois naquilo que ela depende da natureza. Ocorre que . Como exemplo. objetivando a melhoria das condições econômicas e sociais dos trabalhadores rurais. As possíveis soluções do problema entram em choque com a racionalidade dominante e isso gera uma contradição indelével: ou abandonam-se as propostas de solução ou destrói-se a concepção de mundo predominante. a agressão à natureza. 2 – A mudança A partir de um ponto de vista que inclui o meio ambiente como fator primordial para a vida humana. neste caso específico.petróleo e derivados e carvão -. emitidos principalmente. considerando o homem em suas relações de troca entre si e com a natureza. a existência de uma crise. 33) coloca a necessidade de uma nova maneira de pensar. 2006. p. pode-se citar os gases poluentes.cooperativas. Seguindo essas considerações Abdalla (2004. emitindo poluentes e dejetos industriais. que inclua o respeito e observância à sobrevivência humana. pelas atividades humanas e pelas queimadas em florestas e. obrigando sua inclusão em qualquer análise que diga respeito à produção e ao trabalho humano. apenas com alguns exemplos (mas de grande significação). em áreas agrícolas. baseada na solidariedade e na ajuda mútua.58). como em muitos outros. há que se considerar a forma depredatória e irracional com a qual as grandes empresas vêm explorando os recursos naturais e agredindo a natureza. ao avanço industrial e à dinâmica da sociedade moderna. p. uma vez que na raiz grega oikos da palavra economia aqui utilizada. encontram-se os significados “cuidar da casa (ecologia)” e “cuidar de casa (economia)” (ARROYO.

muitos experimentam pela primeira vez em suas vidas o gozo de direitos iguais para todos. nos quais. que quando a gente muda.57) Portanto a construção de um novo mundo de cooperação e solidariedade exige o estabelecimento de novos valores sociais que levem em consideração outros valores humanos. produtividade e eficiência mas. com uma atividade profissional. o prazer de poderem se exprimir livremente e de serem escutados e o orgulho de perceber que suas opiniões são respeitadas e pesam no destino coletivo. reciprocamente. Amarrando o arado. tais preocupações contribuem para aumentar a relação e comunicação do grupo.. o empreendimento solidário. aumentando a cooperação em detrimento da competição da heterogestão. para a produção de um bem -. p. .(1996 apud VEIGA. A gente muda o mundo na mudança da mente. seus membros vão desenvolvendo uma postura de responsabilidade e diálogo. uma vez que cada associado tem direito a um voto. independentemente da quantidade de cotas da empresa que possui. que nos interliga por meio de uma decisão diariamente renovada.In. Arruda salienta que A cooperação e a solidariedade são princípios do cooperativismo e são valores relacionados com sociedades do futuro – do terceiro milênio! Uma redefinição de solidariedade requer um movimento do laço natural que nos conecta no sentido de uma solidariedade consciente. 2001. (2000. Continua existindo a preocupação com a qualidade. (LISBOA. 2003.Hoje uma ruptura histórica não é possível sem uma mudança de consciência que altere o íntimo e os corpos das pessoas. seus padrões de consumo. seus hábitos e valores. p. torna-se um modelo de organização democrática e igualitária que contrasta com o sistema hierárquico vivido anteriormente pelo trabalhador.na qual os cooperados contribuem. respeito. Segundo Singer: Ao integrar a cooperativa. O enfrentamento com uma lógica civilizatória enferma que se estende por todo o corpo social envolve “a penosa construção de nós mesmos” (Paulo Emília). sentimentalidade e racionalidade são consideradas em conjunto para o desenvolvimento individual e coletivo. uma cooperativa de produção . a sensibilidade.18) 3 – As sociedades cooperativas – empresas de autogestão Como uma alternativa ao sistema econômico capitalista. Tiago Mocotó e Itaal Shur): “muda.. Isso está belamente expresso na letra da música “Até quando?” (de Gabriel Pensandor. FONSECA.: Neutzling (org). A cooperação é fundada no reconhecimento mútuo. por exemplo. o mundo muda com a gente. p. E quando a mente muda a gente anda pra frente”.27) A autoridade no controle do processo produtivo passa a ser exercida colegiadamente. por se tratar de um empreendimento solidário. reciprocidade e receptividade.

A sua participação nele é ambígua. Dessa maneira a economia ganha um caráter humanista e passa a servir para proporcionar as necessidades básicas para o suporte material necessário ao desenvolvimento efetivamente humano. Bruscor. apud Singer. uma empresa é uma comunidade em potencial. criar e comunicar. ao passo que os seres humanos que as constituem são vistos apenas sob o prisma das funções que ocupam nelas – como mão-de-obra assalariada. em seu devir. o mundo objetivo.Muito além de uma busca desenfreada por lucros das empresas tradicionais. bem como uma visão política para compreender. em que predominam relações personalizadas. avalia-se a importância do projeto autogestionário para o aprendizado do exercício político e do resgate da cidadania (PEDRINI. Outras. a cultura dominante. como vendedor ou comprador. p. Porém. As pessoas nela envolvidas podem adquirir um instrumental técnico-administrativo. ecológico). De acordo com Arruda. reduz os enlaces humanos a meras estruturas. libertando-o e emancipando-o para que possa justamente desenvolver as características evolutivas de sua espécie. Assim sendo. a partir da capacidade humana de transformar. no . Várias de suas atividades reiteram a natureza desse sistema. com criticidade. ou coisificadas. os mecanismos típicos do mercado capitalista. 2006. o modo de integração desse empreendimento no sistema de trocas não é igual ao da empresa tradicional. Entretanto. p. capacitando-se a gerir seus negócios. formada por relações mediadas pelo trabalho. Contribuindo para o grupo. outras preocupações aparecem.40). a capacidade de raciocinar (diferente dos outros animais). por meio da autogestão. quais sejam. a integração e humanização das relações econômicas. de maneira mais ampla. como: a melhora na distribuição de renda.210) Cumpre notar que a empresa de autogestão (EA). a promoção de um desenvolvimento socioeconômico integral e o cuidado com o meio-ambiente (do trabalho e. inclui-se na divisão do trabalho e participa do sistema de trocas do mercado engendrando relações de trabalho internas e externas a ela. entender seus sentimentos e fazer. uma experiência que aponta caminhos. por estar centrada nas relações econômicas e comerciais. como qualquer empresa. ou como contribuinte. o individuo aprende através de um processo de construção de conhecimento vinculado à prática: A autogestão oferece acesso a estas oportunidades e um conhecimento secularmente negado aos setores populares. 2000. (ARRUDA. o ajuste de seu mundo subjetivo ao mundo comum a todos os seres.

2001.Entanto.integração entre os segmentos cooperativistas de produção. de matérias voltadas para o associativismo e cooperativismo II . 45. legislação e educação associativista e cooperativista para o público do meio rural. especialmente: (. cooperativas.. de armazenamento e de transportes. Parágrafo único.19) 4 .promoção das diversas formas de associativismo como alternativa e opção para ampliar a oferta de emprego e de integração do trabalhador rural com o trabalhador urbano. organização. envolvendo produtores e trabalhadores rurais. III . desenvolvendo suas próprias cooperativas rurais de produção. (VIEITEZ.promoção de atividades relativas à motivação. A política agrícola será planejada e executada na forma da lei. gerando o desenvolvimento das pequenas comunidades interioranas com mais emprego. p. elevando substancialmente sua renda rural..o cooperativismo.204). nos currículos de 1° e 2° graus. com a participação efetiva do setor de produção. p. pescadores artesanais e àqueles que se dedicam às atividades de extrativismo vegetal não predatório. inc. estabelece. O apoio do Poder Público será extensivo aos grupos indígenas. 187. também podem se beneficiar desta lei. com a ajuda do poder público (ou não).171 de janeiro de 1991. VI) em seu artigo 45: Art. impostos e menor perda das safras (Perius. A política de cooperativismo na área rural pode ser integrada de modo a assegurar os recursos “do campo no campo”. as cooperativas de produtores rurais podem. O Poder Público apoiará e estimulará os produtores rurais a se organizarem nas suas diferentes formas de associações.a implantação de agroindústrias. 187. positivando o mandamento da atual Carta Magna Brasileira2 (art. consumo. uma vez que esse tipo de empresa introduz transformações radicais em aspectos econômicos-sociais que são básicos para o atual sistema de compra e venda de mercadorias. comercialização. IV .)VI . levando em conta. As cooperativas de assentamentos (CPAS). financiar a formação de cooperativas agroindustriais. . V .Cooperativas na Agricultura A Lei nº 8. sindicatos. a negam. através de: I . que dispõe sobre a política agrícola do país. 2 Constituição Federal: Art. crédito e de trabalho. 2001. bem como dos setores de comercialização. DAL RI. condomínios e outras.inclusão.

In: Neutzling (Org).3 Concluindo Uma visão sistemêmica do direito pode oferecer diversas possibilidades de desenvolvimento ao sistema cooperativista agrário pela vertente da Economia Solidária.I. preparar e padronizar a produção agropecuária. 4. verificar-se-ão outros artigos reforçando a função de apoiar o cooperativismo e. 4º Para os efeitos desta Lei. criada nas áreas prioritárias de Reforma Agrária. inclusive. definem-se: (.504/1964). p. bem como realizar os demais objetivos previstos na legislação vigente. 2003. toda sociedade cooperativa mista.87). como movimento social e parte de movimentos sociais mais amplos. . O apoio de uma legislação eficiente através do Poder Legislativo. contando temporariamente com a contribuição financeira e técnica do Poder Público. eletrificação rural. do trabalho e do dinheiro (LISBOA. 6. através do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária. O artigo quarto do Estatuto da Terra (L. ao definir a cooperativa integral de reforma agrária. a terra conseguida pela luta coletiva dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária.. luta pela reintegração da atividade econômica nas relações sociais através da desmercantilização da terra.)".R.) VIII . com a finalidade de industrializar. nesta mesma lei. de natureza civil. popular. consumo. crédito. trabalho. A Economia Solidária. beneficiar. somado aos esforços do Poder Executivo em colocar tais legislações em prática fortalecendo o associativismo e o cooperativismo podem efetivamente transformar a questão social da terra no Brasil. A diante..Vetado. especificando maneiras.... Organizando os assentamentos. seve para a produção cooperada e solidária reforçando valores e práticas associativistas entre os assentados. Uma de suas maiores formas de atuação é a possibilidade de organização econômica da sociedade em cooperativas de cunho .. entre outras possibilidades."Cooperativa Integral de Reforma Agrária (C.industrialização. oferece ainda a possibilidade de tais empreendimentos serem construidos com o apoio estatal através de sociedades cooperativas mistas: Art.A.

MANCE. Ed. _____ . RJ: Vozes. Inácio (Org. 2000. Economia Popular e Solidária: a alavanca para um desenvolvimento sustentável e solidário. Paul. pois ele toma a consciência de que é muito mais e que sua felicidade depende do seu desenvolvimento individual e inter-relacional. 2006.milenio.). ARRUDA. RECH. jan.com. Cooperativas: uma alternativa de organização popular. desenvolvimento e o futuro do trabalho. 2002. João Cláudio Tupinambá. Daniel. RJ. Tornar real o possível: a formação do ser humano integral. SINGER. SCHUCH. Autogestão e Economia Solidária: uma nova metodologia. O entendimento da integralidade do ser humano propicia a união entre as concepções de vida em família. Cultura Solidária em Cooperativas: projetos coletivos de mudança de vida. OLIVEIRA. no qual a economia e o capital. A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. Uma Utopia Militante: repensando o socialismo. DP&A: Fase. 2002. São Leopoldo. ARROYO. NEUTZLING. São Paulo: Contexto. RS: Unisinos. 2002. Acesso em: 17/05/2005. André Ricardo de (Orgs. ANTEAG. Bem Comum e Solidariedade: por uma ética na economia e na política do Brasil. Faz-se necessário a concepção de sistema que substitua o capitalismo no sentido de construir um novo socialismo. 2003. Marcos. e com ela todos os outros seres do universo. Anteag: 2004. sejam considerados como meios para que a humanidade se desenvolva. Sobreviver já não é a maior preocupação do indivíduo. SINGER. em sociedade e no trabalho. Petrópolis. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALLA. Flávio Camargo. 2000. 2ª ed. 1999. Maurício.). Petrópolis. (Org.). economia solidária. Ed. Vozes: 2006. Rio de Janeiro: DP&A. SOUZA. Como Organizar Redes Solidárias. 2006. São Paulo. . São Paulo: Paulus.br/mance>. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Redes de economia solidária e sustentabilidade.Cumpre à sociedade atual estabelecer um novo sistema social. Paul. O princípio da cooperação: em busca de uma nova racionalidade. Paulo de Salles. Disponível em: <http://www. André Euclides.

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