Como as metanfetaminas eram o menor dos meus problemas

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Para a Alexandra que me deu a ideia que começou esta história, e que com sorte não vai ficar horrorizada com o que eu lhe fiz! E para Ana porque o melhor que posso oferecer neste momento é um sorriso… ou dois! :) Inês

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I am grateful life beat me into submission, because that’s how I learned to fight with compassion instead of fury. I’m not broken, I’m bendable, and I can survive anything. Damaged goods are the best kind there are. Liz Roberts

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Prólogo Cerrei os dentes com força e lutei para manter-me na terra do nunca enquanto a minha consciência puxava na outra direção. Infelizmente eu parecia estar a perder a batalha: a realidade estava a chegar com uma velocidade vertiginosa, e a minha cabeça doía tanto que eu tinha a certeza que se me mexesse ia rachar o crânio em dois. Continuei a luta interna para manter-me longe da lucidez, mas o cérebro não reconheceu a minha autoridade e a realidade veio à tona. Começou com uma pontada nos olhos e a dor que se seguiu foi tão inesperadamente forte que eu teria entrado em estado de choque se não estivesse ainda entorpecida pelo sono. Mas porque é que eu me sentia assim? Porque é que a minha cabeça doía tanto? Na verdade não me lembrava de grande coisa, mas não podia descartar aquela hipótese sempre válida: será que tinha bebido demais? Se sim, esta era a mãe das ressacas!... Já que estava acordada, achei que o melhor era ficar quieta para não deslocar nada. No entanto, a curiosidade foi acumulando até ser mais forte do que a dor e, ainda de olhos fechados, tentei dobrar os dedos da mão direita e foi com alívio que compreendi que ainda me obedeciam. Ao mexer os dedos senti o chão frio... de cimento talvez? Este não era definitivamente o chão de madeira que me tinha custado os olhos da cara meter no quarto. Se calhar não tinha conseguido chegar ao quarto... será que estava na casa de banho? Os meus dedos não conseguiam encontrar as juntas entre os azulejos do chão, mas talvez. Resolvi fazer uma avaliação mental da minha situação: eu estava deitada de barriga para baixo e o meu braço esquerdo estava por baixo de mim, completamente adormecido. O lado esquerdo da minha cara também estava encostado ao chão e portanto toda a minha cara estava gelada, mas não tinha coragem para levantar a cabeça. Além disso, custava-me respirar fundo… será que tinha o nariz partido? Sempre era preferível a umas costelas em posições bizarras. Pouco a pouco consegui ignorar as dores que sentia e aventurei-me a abrir um olho - o que não estava contra o chão, portanto. Preparei-me mentalmente para a cegueira habitual induzida pela luz matinal ou pela lâmpada fluorescente da casa de banho, mas em boa verdade não vi nada. Ou estava cega ou com graves problemas de focagem. Ou na volta a luz estava apagada e eu conseguia ver perfeitamente. Sem coragem para mexer a cabeça, arrastei o braço direito e mexi os dedos à frente dos meus olhos. Havia ali um movimento qualquer sim. Quer dizer, não é que a minha mente fosse dizer-me outra coisa - mesmo que estivesse cega ia ser a última pessoa na Terra a reconhecer o facto. Resolvi tentar focar o chão e, ainda que sem grande sucesso, consegui notar algumas irregularidades. Seriam pedrinhas de cimento? A menos que tivesse levantado o chão sem dar conta, provavelmente não estava em casa. Hum… assim a coisa ficava mais complicada! Voltei a concentrar-me em mim e, numa tentativa de avaliar danos, usei o único braço que me atrevia a mexer para analisar a topografia da minha 4

cabeça. O cabelo estava lá, assim como vários inchaços e mais qualquer coisa que parecia ser sangue seco. Se a noite anterior não tivesse sido a melhor da minha vida, eu ia ficar extremamente lixada! Pouco a pouco algumas memórias vieram à tona e começaram a agrupar-se e a tomar forma: lembreime de estar com a Ana no carro, do laboratório, da polícia e do carro preto... O carro preto!! Consegui finalmente ar suficiente para gritar o mais alto que podia: “F*DA-SE!!!”. Ainda que a minha voz rouca tivesse saído quase num murmúrio, é incrível como uma palavrinha conseguia resumir tudo o que sentia. O ataque de pânico tomou-a de surpresa e ela voltou a desmaiar. A poucos passos dali encontravam-se dois homens armados que ladeavam a cela e um outro mais afastado, perfeitamente imóvel, sentado num banco de cozinha. Olhava para o chão com os cotovelos apoiados nas coxas e suportava o queixo com a mão direita, o cabelo caído escondia-lhe a face. Sorriu ao ouvi-la praguejar, ela estava viva e apenas isso interessava.

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Como perder a paciência numa operação STOP Umas (valentes) horas antes... “Mas será que estás sempre atrasada?!” “Não tive culpa, o despertador não tocou esta manhã!” Ela olhou para mim com desconfiança e com razão: eu nunca estava pronta a horas. “Até estava capaz de apostar em como toda a tua vizinhança ouviu o alarme até o pobre do telefone se fartar e decidir acabar com a sua triste existência num salto mortal do cimo da mesinha de cabeceira!” “Que dramáticas que estamos hoje!… O meu telemóvel nem tem bateria.” “Ó Rita tu sabes que eu detesto ter o carro aqui parado em segunda fila, está à vista de toda a gente e temos aquela porcaria no porta-bagagem!” “Deixa lá, eu pago a portagem - se formos pela autoestrada pode ser que cheguemos a horas.” “Mais hora menos hora de atraso...” “Tu és uma alegria pela manhã!” “Ó Rita mas é sempre a mesma coisa! Tu estás constantemente atrasada e depois acabamos as duas a fazer horas a mais no laboratório para compensar, mas ao contrário de ti eu acordo a horas!” A Ana dignou-se a olhar para mim a sério pela primeira vez e a cara dela mudou de irritação para preocupação. Se calhar as minhas olheiras mostravam que eu não tinha dormido assim tantas horas a mais do que ela, e a frase que se seguiu confirmou as minhas suspeitas: eu devia considerar tirar um curso de camuflagem com maquilhagem. “Desculpa, estou irritada por estar à tua espera desde que o sol nasceu. Estás bem? Porque é que tens ar de quem não dorme há uma semana, pelo menos há duas semanas?” Eu esbocei um sorriso de conciliação que sabia que a derretia, afinal conhecíamo-nos desde sempre - ou pelo menos desde que eu me lembro de ter consciência de existir. Apesar de pequena e baixinha, sempre fui mais forte do que a maioria dos miúdos e defendi várias vezes a Ana enquanto crescíamos, ela era muito acanhada e os miúdos pareciam pressentir isso nas vítimas que acabavam por escolher. Também era provavelmente por isso que ela acabava sempre por sucumbir às minhas charmosas desculpas. Ou por isso ou pelos meus bonitos olhos - exceto nos dias em que tinha olheiras até ao queixo. Olhei para ela com ar maternal e reparei que estávamos as duas muito caladas, ainda que a conversa matinal nunca fosse digna de ser reproduzida mais tarde. Resolvi não responder e esperar que ela começasse com as conjeturas dela: um namorado novo? Outra desavença com os meus pais? Alguma luta de rua noturna já que parecia que eu atraía sarilhos constantemente? Lá continuámos as duas em silêncio até chegar ao laboratório e eu fiz um esforço desgraçado para não voltar a adormecer. Entrámos as duas juntas, vestimos as 6

nossas batas imaculadas e iniciámos a nossa rotina diária num laboratório cujo ar confundia perfumes, cremes, cobaias, desinfectantes, antibióticos e drogas em geral. Passei o dia entre pipetas, caixas de Petri e de todo o tipo de formas possíveis de fazer em vidro. Parámos para almoçar mas acabámos por fingir que comíamos alguma coisa - desconfio que nem os caracóis tocavam naquela salada - e voltei aos meus afazeres até que chegou finalmente a desejada hora de saída e o galão de prémio por ter sobrevivido a mais um dia de trabalho. Com a sensação de dever contratual cumprido, deixei-me relaxar na conversa com a Ana. “Então conta-me lá o que se passa contigo.” Voltou ela à carga. “Nada, porque é que dizes isso?” “Tens umas olheiras enormes e estás cheia de nódoas negras nos braços.” Eu estranhei o reparo porque ia jurar que tinha vestido uma camisola de mangas compridas. “Rita, o que é que se passa?” “Está tudo bem, já nem me lembro de como fiz isto.” “Saíste de casa ontem à noite? Caíste? Tropeçaste? Alguém te bateu?!” “Na volta sou sonâmbula, às vezes sinto-me a dormir acordada.” “Se calhar devias marcar uma consulta num desses médicos da terapia de sono...” “Não tinha pensado nisso, mas se calhar tens razão... Vou ver se trato disso.” E tratei de mudar rapidamente de conversa. “E é finalmente fim de semana!” “Mal posso esperar por dormir até segunda-feira.” “Ena, ena! Que planos malucos são esses?” “Oh a sério Rita, estou tão cansada! Só quero papas e descanso para ver se recupero destas últimas semanas.” “Tem sido duro sim, queres ficar lá em casa? Podíamos fazer pipocas, ver um filme e depois dormir durante o fim de semana todo - como se fôssemos umas velhas a planear um fim de semana brutal!” “Porque não?... Mas olha, toma as chaves e conduz tu porque eu adormeço se me sento.” Eu adorava conduzir! Peguei nas chaves contente da vida e fui a correr para o lugar do condutor, antes que ela mudasse de ideias. Saímos do laboratório e eu decidi que podia poupar uns cêntimos e ir pela estrada de baixo, em vez de voltar a pagar a portagem da autoestrada. A meio do caminho, as luzes da polícia mostraram-me que nem sempre uma aparente boa ideia se revelava uma boa ideia. “M*rda!” “O que foi?” A Ana estava a dormir e ao mesmo tempo a tentar perceber o que se passava. “Uma operação STOP ali à frente.” “Não dá para voltarmos para trás?” “Nops, eles já nos viram e está ali aquele tipo a fazer-nos sinal para 7

encostar. Pode ser que ele não peça para ver a mala do carro.” “Espero bem que não!” Encostei o carro e repeti mentalmente o discurso que tinha preparado desde que começámos a andar com metanfetaminas no carro. Ao mesmo tempo tentei convencer a Ana de que estava tudo bem, senão bastava à polícia olhar para a cara de culpada dela para pensar que tínhamos um morto na mala. “Eles só querem ver os documentos, a carta e o seguro, cenas assim. Relaxa rapariga, consigo ouvir o teu coração daqui e ainda nem desliguei o carro!” “Tenho um mau pressentimento acerca disto…” A Ana era a fatalista de serviço. “O teu horóscopo dizia que hoje era um bom dia para não sair de casa?” A piada ficou perdida no ar porque um polícia bateu ao de leve na minha janela. Abri alegremente o vidro e entreguei-lhe os documentos todos que ele mal leu. Depois pediu-me para sair do carro para fazer o teste de alcoolemia, e durante o percurso despejou toda aquela lengalenga do costume sobre a lei, tubos novos embalados, etc, etc. Soprei e até fiquei admirada da máquina não acusar ‘Esta pessoa não tem vida, quanto mais álcool no sangue’. E foi neste meu momento de distração que um pastor alemão chegou perto do carro da Ana e sentou-se para assinalar o local. Comecei a praguejar mentalmente, o meu coração entrou em arritmia e vi que a Ana estava prestes a desmaiar. Tentei manter a calma e falar como se não tivesse uma preocupação no mundo. “O cão parou ao lado do nosso carro porque temos substâncias psicotrópicas no porta-bagagem. Temos identificação que prova que somos cientistas num laboratório que trabalha com estas substâncias e que...” Nem consegui acabar a frase porque dois polícias agarraram-me por trás e outro apontou uma arma à Ana. Para começar, o nosso fim de semana sénior estava a sofrer de excesso de agitação. “Calma, eu posso explicar! Nós temos autorização para manusear e transportar esta substância pois estamos a desenvolver uma terapêutica com metanfetaminas...” Ouvi um grito, senti uma pancada seca e caí ao chão. A minha visão adquiriu uma imagem um bocado desfocada, mas eu estava deveras furiosa! Isto era violência policial! Eu era conhecida por falar demais, mas não dar-me sequer hipótese de falar tinha que ser ilegal! E aparentemente também era doloroso. Depois de mais umas pancadas que me deixaram sem sentidos, acordei na esquadra algemada a um banco. A Ana estava ao meu lado, mas 8

não estava algemada - o que era claramente discriminação. Ela estava tão aterrorizada que a polícia deve ter pensado (e bem) que ela nem conseguia aguentar-se de pé sozinha. “O que é que aconteceu? Porque é que eu estou algemada e tu não? Já lhes explicaste porque é que andamos com aquela porcaria mala? Que dor de cabeça, porra!! Isto é violência policial e tu és minha testemunha!” “Eu expliquei e telefonei ao nosso chefe, essa parte está esclarecida sim.” “Então?” “Antes de me deixarem falar, tiraram-nos as impressões digitais e parece que encontraram uma correspondência na base de dados.” “Ena, temos bases de dados em Portugal?! Estou maravilhada!” Ela ignorou-me e continuou. “As tuas impressões coincidiram com umas que lá estavam. Não sei o que se passa, mas isto está num alvoroço desgraçado desde que chegámos.” “Por causa de mim?” “O que é que fizeste Rita?” Ela pôs uma cara de compreensão à espera que eu confessasse qualquer coisa. “Eu?! Eu não fiz nada! Mas isto é um pesadelo ou quê? Eu nem nunca fui presa! Houve um erro qualquer com a base de dados… com sorte é a porcaria do algoritmo de reconhecimento que funciona mal!” Não precisava de ouvir os pensamentos dela para saber que a Ana ficava do meu lado, mesmo achando que eu estava a esconder qualquer coisa. Não podia propriamente pedir mais do que isso, os meus braços eram a prova de que escondia coisas dela e ela nem tinha visto o estado das minhas pernas. Mas isto não fazia sentido nenhum! Não havia qualquer razão para ter as minhas impressões digitais numa base de dados de criminosos e muito menos para todo aquele tumulto. Olhei para os polícias que tentavam disfarçar a curiosidade enquanto tentavam perceber quem eu era, e tentei perceber o que se estava a passar ali. Era óbvio que não valia a pena perguntar nada a ninguém, mas pareciam estar todos à espera que alguma coisa acontecesse. Bem, eu não ia com certeza levantar-me e arrancar as algemas do banco ou parti-las para soltar as mãos. Eu até conseguia fazer isso, mas deixei-me ficar no papel de miúda assustada - até porque estava verdadeiramente preocupada. O que é que se estava a passar ali?… “Ana, avisas os meus pais de que estou contigo? Não quero que eles achem que fui presa por posse de drogas e muito menos que venham cá buscar-me.” “Certo, mas ninguém falou com os nossos pais porque já somos as duas maiores de idade.” Não evitei um sorriso. “Tens razão, que parvoíce! Pensei que fossem as primeiras pessoas que eles iam contactar.” “Tu e os teus pais... um dia destes tens que resolver isso.” “Como diz o António Variações: é p’rá amanhã, deixa lá não faças hoje.” 9

“E ele também diz: bem podias fazer hoje porque amanhã sei que voltas a adiar.” “Não devia ter-te dado o CD.” Ela sorriu, finalmente. “Ai Rita, que confusão é que arranjaste desta vez? Mas eu vou ficar aqui contigo, não te preocupes.” Eu engoli em seco e não consegui dizer nada de jeito. Estava a pensar que se calhar devia ser uma melhor amiga e retribuir dignamente a amizade da Ana quando a esquadra foi tomada de assalto por homens vestidos de negro. As armas que eles carregavam tinham canos que podiam embaraçar o comprimento de algumas canas de pesca. Eu e a Ana tivemos a mesma reação: encostámo-nos o mais possível às costas do banco para ver se passávamos despercebidas - pelo menos durante mais cinco minutos. Quem seriam estes? Os bons, os maus ou os assim-assim?…

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Como esperar o inesperado (Vicente) Assim que entrei na esquadra senti logo a presença dela, mas não olhei diretamente para não dar a entender o que eu já sabia. Habituei-me de tal forma aos falsos alarmes ao longo dos anos que fui apanhado de surpresa: este era a sério! O choque causou-me uma amnésia momentânea e tive que fazer um esforço para lembrar-me de quais eram os procedimentos a seguir, ainda por cima tinha sido eu a escrever o regulamento. Primeiro que tudo, não chamar a atenção e prosseguir com o palavreado de rotina - era preferível apanhá-la desprevenida. Fiz sinal à equipa de que este não era um exercício mas sim uma razão real para alarme e todos eles reagiram com normalidade, ainda que eu soubesse que também não estavam à espera daquela novidade. Curiosamente, nenhum deles parecia saber que ela era a razão para estarmos ali e olhavam à volta à procura do foco de toda aquela comoção. Enfim, estávamos todos um pouco aturdidos pela possibilidade de, pela primeira vez, estarmos perante uma situação perigosa. Ajeitei a capa e dirigi-me ao responsável para acertar os detalhes da extradição. Não ia ser fácil convencê-lo a deixá-la ir, afinal apanhar a miúda podia dar-lhe uma promoção. Mas era esse o meu papel: dar-lhe um pequeno ‘incentivo’ para fazer o que eu queria e ao mesmo tempo agir naturalmente para não levantar suspeitas. Comecei por mostrar-lhe toda a documentação que tinha comigo e que podia porventura fazer sentido quando apresentada em conjunto. Ele parecia satisfeito com as minhas acreditações - cuidadosamente recolhidas ao longo dos anos - e convenceu-se de que estava perante agentes da INTERPOL e que aquele caso era mesmo uma possível falha de segurança a nível europeu. Se calhar era tudo um pouco teatral demais, mas a equipa de capacete e vestida de preto ajudava a montar o cenário. O problema é que se a coisa desse para o torto, as armas eram completamente inúteis e isso fazia-me alguma comichão. Mas por agora estava tudo a correr bem, a ver se a coisa continuava num bom caminho. Assinei a papelada toda que me puseram à frente e o sentimento de que a evolução tinha falhado em qualquer sítio voltou: como é que era possível que ao fim de milhões de anos acabássemos todos afundados em burocracia?… E em jeito de vingança, apresentei-lhe também outra bíblia de papel e fi-lo rubricar as páginas todas. Duas horas depois dei-me por satisfeito e entregaram-me finalmente a chave das algemas. Virei-me, fingi que não sabia onde ela estava e esperei que me levassem até ao banco onde olhei para ela a sério pela primeira vez. A miúda era muito bonita e talvez mais pequena do que eu estava à espera, mas o cabelo castanho comprido atado atrás da cabeça com um elástico azul mostrava a bonita cara em toda a sua plenitude: a pele suave, as faces ligeiramente rosadas, um nariz desafiante e uns lábios que estavam provavelmente fechados com força. Os olhos dela eram dourados e apanharam-me de surpresa - eu nunca tinha visto nada assim. Além da maneira como ela levantava o nariz, o olhar dela também era desafiante… será 11

que ela sabia quem eu era? Será que ela sentia que eu era diferente? Retornei o mesmo olhar fixo e ela acabou por desviar o dela, sem nunca baixar os olhos ou mostrar submissão. Não pude evitar um sorriso disfarçado - esta miúda ia dar luta. Aproveitei para confirmar que ela continuava algemada ao banco, segurei-a pelo braço algemado - era sempre melhor jogar pelo seguro - e expliquei-lhe que íamos levá-la para as instalações da INTERPOL de modo a confirmar a verdadeira identidade dela - o que até era parcialmente verdade. Os olhos dela brilhavam de raiva e não tinham nada de humano… que belo mistério que estava ali. No entanto, só os olhos é que a traíam porque ela permanecia imóvel e não fazia qualquer tentativa para libertar-se de mim ou das algemas. A amiga é que parecia horrorizada com a situação e era melhor resolver aquilo depressa antes que ela tivesse um ataque cardíaco. Fiz sinal aos guardas para levarem a outra miúda dali. “O que é isto?! Eu não fiz nada! Deixem-me em paz!! Rita, o que é que se passa? Rita??” Portanto o nome dela era Rita… nome simpático. A tal de Rita parecia estar a ignorar a amiga, mas não enganava ninguém porque tinha fechado os olhos com demasiada força e estava claramente a sofrer para manter-se em silêncio. Bem, nem tudo era mau, assim já sabíamos quem usar para garantir que a Rita cooperava connosco - caso fosse necessário. Chamei o Ezequiel numa voz praticamente inaudível e dei-lhe indicações para seguir os guardas e vigiar a amiga. A cara da Rita iluminou-se de repente e não pude deixar de notar que ficou muito mais tensa. Pois bem, ela tinha ouvido o que eu tinha dito e a conclusão é que eu podia efetivamente riscar ‘humana’ da lista. O aspeto dela é que continuava a intrigar-me: como era possível que parecesse tão humana? Tinha a pele bronzeada e um forte batimento cardíaco: era o disfarce perfeito! Sempre de sobreaviso não fosse ela tentar fugir, inclinei-me e soltei-a das algemas. Estranhamente ela não tentou nada e manteve a postura direita, mas sussurrou-me ao ouvido: “Se lhe tocas és um homem morto!” Eu não evitei uma gargalhada, tanto pela ironia como pelo facto dela estar a revelar-se. Não tirei o sorriso dos lábios e nem me lembrava da última vez que tinha estado assim tão contente. Os meus homens deitaram-me um olhar desconcertado e eu encolhi os ombros. Atirei as algemas ao polícia mais próximo, levantei-a do banco e começámos a nossa retirada. Mantive sempre uma mão no ombro direito dela para garantir que ela não tentava fazer nenhuma parvoíce. Por outro lado, a atitude dela mostrava que não tinha nada de estúpida. Ah, tínhamos muito que conversar! E a noite ainda era uma criança. (Rita) Não falei enquanto percorríamos os corredores da esquadra e já estava arrependida do pouco que tinha falado. Não esperava a gargalhada, e o pior é que a falta de preocupação dele parecia deixar-me a mim ainda mais 12

preocupada. Ele sabia mais do que eu e, apesar de não saber porquê, sentia que ele era diferente e mais forte do que eu. Por outro lado não podia sequer tentar uma fuga, eu não fazia ideia do que se estava a passar e eles tinham a Ana. Parte dos homens que me acompanhavam entraram numa carrinha e arrancaram sem esperar por nós. Eu parecia destinada ao grande carro preto que estava à minha frente. Olhei uma última vez para a rua e desejei que aquela não fosse a última noite da minha vida. Os pelos do meu braço levantaram-se num arrepio ominoso e respirei fundo para ganhar coragem antes de baixar a cabeça e entrar no grande carro preto - de novo sem oferecer qualquer tipo de resistência. Na verdade não entrei num carro, mas sim num cruzamento de jipe com carro que os americanos gostam de apelidar de SUV. O interior era forrado a cabedal e tinha uma espécie de alcatifa preta no teto e chão. Os estofos eram cor de vinho e tudo o resto era negro, assim como os vidros que eram fumados e portanto proibidos por lei. Apesar de duvidar que os meus raptores tivessem qualquer ligação à INTERPOL, duvidava ainda mais que a polícia mandasse parar aquele veículo. Sentei-me no lugar do meio no banco de trás e fui prontamente acompanhada por duas bestas, uma de cada lado. Assim que fecharam as portas senti o calor horroroso que estava dentro do carro - o aquecimento devia estar no máximo! Eu de chateada já não passava, mas agora estava também a ficar cheia de calor e ligeiramente enjoada. Comecei um debate interior sobre se devia ou não reclamar e pedir para baixarem a temperatura do carro quando o ‘eu-sou-claramente-o-chefe’ entrou para o lugar do pendura e eu juro que o carro inclinou ligeiramente para o lado direito. Um pouco surpreendida com a reação do carro, já que ele me parecia perfeitamente em forma e não um futuro concorrente ao peso pesado, observei com mais cuidado para ver quanto do que eu via era realmente músculo. E ele virou-se exatamente quando eu me cheguei à frente para vê-lo melhor e ficámos a centímetros um do outro. “Boa noite Ritinha! Nem imaginas o prazer que é ter-te connosco esta noite!” Como ele não se mexeu, encostei-me eu para trás. “O prazer é todo vosso! E o nome é Rita.” Ele ignorou-me completamente. “Temos muito que conversar, mas primeiro vamos sair daqui para um local mais seguro. Estás bem aí atrás? Não te esqueças de pôr o cinto.” “Por acaso não estou não e quero ir para casa! Esta acusação de tráfico de drogas é absolutamente inverosímil porque já provei que trabalho com elas no laboratório. Já para não falar que é impossível que as minhas impressões digitais estejam numa base de dados da INTERPOL e portanto aposto que o algoritmo que estão a usar é uma porcaria, se quiserem eu programo um como deve ser! Posso poupar-vos uma ida à senhora da asneira porque isto é claramente um engano! Será que não podem deixar-me ali naquela passadeira que é perto da minha casa?” “Pois, infelizmente não podemos fazer isso… mais algum pedido?” 13

“Sim, liguem a porra do ar-condicionado! Este carro parece um forno e a decoração é baseada no inferno com certeza!” Continuei a reclamar, mas acabei por dar parte fraca e tirar a camisola antes que tivesse uma quebra de tensão. Ele abriu muito os olhos e eu reparei pela primeira vez que eram azul safira, nunca tinha visto um azul tão brilhante. Enquanto me preparava para analisar o resto da cara - ele definitivamente não precisava de operações plásticas - ele fez-me uma careta. “O que é que te aconteceu?!” Olhei para os meus braços mais porque achei que era isso que devia fazer do que por não saber do que ele estava a falar. As várias nódoas negras, cortes e arranhões decoravam-me a pele do ombro até ao cotovelo. Suspirei, cruzei os braços e endireitei-me no meu lugar… sem apertar o cinto. “Ah, vais fazer-te de difícil? Muito bem, eu ganho isto facilmente! As mulheres nunca estão caladas durante mais de dez minutos.” Rolei os olhos e respirei devagar para não ficar tonta com o calor, mas passados uns minutos não aguentei e, contra a minha vontade, tive que dar-lhe razão. “Mas ninguém desliga a m*rda do aquecimento?! Vocês nasceram todos no Equador ou quê? Estamos em Portugal! Não é propriamente um país tropical mas também não é a Islândia! Estão uns 13ºC lá fora e a temperatura ambiente aceitável está entre os 18 e os 22 graus, como é que é possível que não estejam a suar com o calor que faz aqui dentro?!” Como fui totalmente ignorada - nem um suspiro consegui - e estava desesperada por uma lufada de ar fresco, tomei a liberdade de saltar de joelhos para o colo do homem enorme que estava à minha esquerda e abri finalmente o vidro. Ele gritou, mas eu ignorei-o e pus a cabeça fora da janela para conseguir respirar. O ar da estrada precisava de ser desinfectado, mas naquele momento parecia-me o ar puro da Serra da Estrela e inspirei fundo. Infelizmente a ‘montanha’ negra que me suportava demorou menos de um segundo a trazer a minha cabeça de volta ao inferno. Debati-me e mordi-lhe a mão que ele tinha usado para tapar-me a boca, mas ele era incrivelmente forte - era escusado, eu não ia ganhar aquela luta. Parei de lutar e olhei para a janela para dar a entender que não queria fugir, só queria o ar fresco. “Calma Arzel, ela está realmente com calor. Não estás a tentar fugir, pois não Ritinha?” O outro decidiu-se finalmente a deixar-me falar, mas só depois de examinar o estado da mão dele e deitar-me um olhar de ‘vais pagar por isto’. Eu olhei bem para ele, a fraca luz dentro do carro dava apenas a entender que a pele dele tinha um bonito tom de chocolate e provavelmente uns dentes brancos muito certinhos se ele se dignasse a mostrá-los. Decidi então que 14

podia muito bem levantar o queixo e ignorar o olhar raivoso dele. Voltei-me para o senhor dos olhos azuis brilhantes e respondi. “Fugir pela janela é realmente um plano bestial, mal posso esperar por ter a minha cabeça contra o alcatrão e ser atropelada por um carro qualquer!” Ele esboçou um sorriso amarelo e eu comecei a achar que já tinha falado demais novamente, queria-me cá parecer que tinha acabado de dar-lhe ideias; ele estava claramente a imaginar a cena que eu tinha acabado de descrever… em detalhe. “Interessante… Arzel, troca de lugar com ela e deixa a janela aberta. Ah, e não a deixes fugir.” O tal de Arzel fez o que lhe ordenaram, claramente a contragosto. Eu não podia deixar de regozijar-me com a minha pequena vitória: ar fresco! Depois de mais uns minutos com a cabeça fora da janela, a minha tensão voltou aos níveis habituais e relaxei um pouco no assento. O Arzel continuou a segurarme no braço com mais força do que a necessária, mas eu decidi ignorá-lo… novamente. Não ignorei tanto quanto queria porque me pareceu que ele estava arrepiado - seria frio? Seria sequer possível que ele estivesse a tremer de frio?! Mas de onde tinha saído aquela gente?! Voltei a olhar para o lugar do pendura, o outro lá continuava na pose de chefe concentrado a olhar em frente, mas era fácil de perceber que não estava minimamente interessado na estrada. Para onde é que me levavam? E quem era aquela gente?! Eu nunca tinha conhecido ninguém mais forte do que… bem, mais forte do que eu.

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Como decidir por quem combater Chegámos finalmente a lugar nenhum, coisa que tinha suspeitado assim que saímos da estrada alcatroada e começámos a fazer corta-mato. A lua já ia alta e sem a companhia das nuvens era possível ver o descampado que me rodeava com alguma precisão: erva alta, algumas árvores e um balouço pendurado num ramo mais baixo de uma delas. Achei o balouço deveras curioso mas não me atrevi a formular um interrogatório, a minha curiosidade estava escondida debaixo de uma enorme capa de medo. Iam matar-me aqui? Parecia-me o sítio ideal para deixar um cadáver a apodrecer. Pensando bem, se calhar morrer era o melhor que podia acontecer-me naquele momento, eles eram quatro e tinham mais força do que eu - podiam fazer o que quisessem comigo. A questão era se eu tinha força suficiente para correr e fugir dali assim que a oportunidade se oferecesse? “Então, o que achas da nossa base? Eu gosto de espaços abertos.” Olhei para ele e foi com algum espanto que vi que ele não estava a gozar comigo - ele gostava mesmo daquele local. Encolhi os ombros e limitei-me a observar o caminho de volta, seria possível seguir os rodados do carro até voltar a encontrar um sítio conhecido? “Não estás a olhar para o sítio certo.” Ele chegou-se perto de mim, pousou um braço nos meus ombros e o contacto fez-me estremecer. Depois voltou-me gentilmente até que os meus olhos seguiram o indicador dele. “Olha nesta direção com cuidado. Vês?” Olhei com atenção para onde ele estava a apontar e não vi nada. Continuei a olhar e quando os meus olhos ameaçavam encher-se de lágrimas se eu não pestanejasse, vi finalmente um reflexo. Incapaz de controlar a surpresa, soltei um “Ah!” que indicou aos restantes que eu tinha realmente visto qualquer coisa. Era uma espécie de pirâmide e o vértice soltava uns reflexos estranhos com o luar. Semicerrei os olhos e toda a estrutura tornou-se tão óbvia que parecia impossível que a tivesse falhado quando cheguei - era como ter um tigre branco num desfile de ursos pretos. Uns segundos depois, sacudi a cabeça para libertar-me do torpor gerado pelo excesso de uso de um só sentido e encaminhei-me para a entrada do edifício, assim como os outros. Reparei que o ‘chefe’ dos olhos azuis era o mais alto e que se eu me aproximasse mais podia até ser íntima do umbigo dele. O condutor do carro parecia ter evaporado e estávamos apenas os quatro na entrada. Resignada, entrei no edifício e fiquei com a sensação que tinha chegado à NASA. Aquele aparato todo fazia de facto parte de uma base operacional, mas tal como eu tinha previsto, não havia um único letreiro que indicasse que aquilo fazia parte 16

da INTERPOL. Havia imensa gente de um lado para o outro, muitos computadores de aspeto futurista que no fundo eram iguais ou piores ao que o que eu tinha em casa, mas toda a sala estava rodeada por um vidro espelhado e o luar lá fora fazia com que me sentisse parte de uma experiência extracorporal: estávamos ali no meio do campo mas ao mesmo tempo não estávamos. Procurei o balouço e não o encontrei, ou estava baralhada quanto ao sítio dele ou o balouço era um ângulo morto. Para não variar, estava um calor anormal dentro do edifício e a temperatura podia rivalizar com qualquer rua de Kuala Lumpur ao meio dia. O medo de que me assassinassem ali começou a desaparecer e a curiosidade foi aumentando em proporção inversa. “Uau, o que é isto? Onde estamos? O que é que estas pessoas fazem? Porque é que eu estou aqui? O governo sabe da existência disto? E não é que interesse muito… mas e o Vaticano? Isto tem a ver com os cavaleiros templários? Cruz de Cristo?!” Ele riu-se com vontade e olhou para mim com o primeiro olhar que não me inspirou medo. O nariz dele era giro e tinha os dentes certinhos, rinoplastias e ortodontia eram coisas que não constavam da lista de afazeres dele. Era lindíssimo com aquele ar bem-disposto, e eu não consegui desviar os olhos dele. “Duvido que consiga responder-te a todas essas questões, mas precisamos que faças uns testes porque queremos avaliar ao certo o que és e entretanto metemos a conversa em dia.” “O que é que eu sou? Eu sou igual aos outros todos!” Céus, parecia que toda a minha adolescência passada a fazer aquela mesma pergunta não tinha qualquer interesse agora e estava capaz de jurar a pés juntos que nunca tinha reparado nas minhas diferenças. “O teu ADN não pode ser humano.” “É marciano?” Ele suspirou mas continuou. “Tu és diferente… Tens com certeza algumas mutações subtis que podem alterar muita coisa mas até termos os resultados não sabemos ao certo o quê.” Parei por momentos para pensar, andava há anos a tentar descobrir o que eu realmente era e agora que tinha essa hipótese, não queria saber. Ou melhor, queria saber sim mas não queria partilhar esse meu segredo com gente que não conhecia de lado nenhum e muito menos com os meus três raptores. Decidi então continuar a jogar a carta da ignorância - afinal a estupidez aguda ainda não era proibida por lei. “Eu confesso que passei por essa fase e obriguei os meus pais a desenterrarem-me a certidão de nascimento. Mas agora acredito na minha mãe quando jura a pés juntos que o meu pai nunca saiu de perto dela durante o parto e portanto é impossível que eu tenha sido trocada na maternidade.” Enchi o peito de ar e rematei: “Sendo assim, sou mesmo filha deles e ninguém 17

me livra do sobrenome Rebola Amélia.” Apanhei-o claramente desprevenido e ele tentou disfarçar a surpresa e o inevitável riso com um tossico - nunca falhava! Ao fim destes anos todos, eu tinha finalmente aprendido a saborear as reações que o meu nome completo provocava. Longe ia a minha negação e vontade de rebentar a boca a quem gozava comigo porque tinha chegado à conclusão que devia divertir-me com isto. Quem era a adulta aqui, hem? “Não achas que é deselegante da tua parte opinar sobre o meu ADN e nem sequer saber o meu nome?” Ele fitou-me durante um momento e eu vi o gozo desaparecer-lhe da cara, parecia de algum modo incomodado com a falha que lhe apontei. Não sei porquê, reagi da forma mais parva possível e comecei a desculpar-me. “Estava a brincar, eu gosto de dizer o meu nome completo para observar as reações das pessoas. Se tu já soubesses tinha perdido a piada.” Ele inclinou a cabeça para o lado direito como que a tentar perceber o que é que eu queria realmente dizer com aquilo e alguns farrapos de cabelo negro caíram-lhe para a testa. Pisquei os olhos duas vezes e se pudesse tinha tirado uma fotografia para imortalizar aquele momento. Se continuasse assim, ainda ia acabar por admitir que ele era o homem mais bonito, e provavelmente o mais alto, que tinha conhecido na minha vida. Vida essa que parecia ter os dias contados. “Portanto o meu nome é Rita e o teu é…?” “Vicente.” Em vez de estender-me a mão, fez-me uma vénia. Não sei se fiquei mais surpreendida porque ele respondeu ou pela vénia, mas a minha reação foi mesmo a minha falta de reação. Ele voltou a sorrir - adorável - e encaminhoume para uma sala que parecia uma enfermaria. Suspirei e entrei com alguma relutância, apostava que aquilo ia meter agulhas e eu nunca tinha gostado de agulhas. Na verdade nunca tinha passado muito tempo entre médicos, assim que comecei andar os meus pais deixaram de conseguir levar-me onde quer que fosse porque era mais rápida e forte do que eles. E a dada altura eles começaram a achar que o melhor era mesmo evitar os médicos… A sala onde entrámos estava praticamente vazia, as paredes eram brancas e haviam algumas luzes de observação no teto e uma maca a meio. Sem saber como fugir dali e também sem querer estar amarrada com um colete de forças, sentei-me na maca. “Quero que fique registado que estes exames vão ser realizados comigo sob protesto.” 18

“Muito bem, está registado. Dá-me o teu indicador direito, se faz favor.” Obedeci e estendi o dedo que ele colocou dentro de um aparelho pequenino. Senti uma pontada e recolhi o braço por reflexo, mas aquele teste já estava - só faltavam uns cinquenta. O teste a seguir foi mais esquisito: ele começou por encher-me o cabelo de um gel manhoso para fixar umas pontas metálicas. Alguns momentos depois, olhei com algum fascínio para o monitor que mostrava as minhas ondas cerebrais e deixei que ele me ligasse o resto do corpo às várias máquinas que nos rodeavam. Se calhar eu queria saber mais sobre quem eu realmente era do que eu pensava. Impaciente - como sempre resolvi começar a chateá-lo mesmo sabendo que ele ainda não tinha completado nenhum teste. “Então esse diagnóstico é para hoje?” Ele olhou para mim com alguma curiosidade, mas definitivamente divertido com a pergunta. “Ainda não posso dizer-te nada, temos que fazer mais testes. Estes são os iniciais, depois há os físicos e os mentais, portanto de momento tens um prognóstico reservado.” E sorriu. “Mentais?! Ando há anos a evitar psicólogos, psiquiatras e até mentalistas!… E depois de ser raptada é que vou descobrir que sofro de alguma psicose rara ou assim?” Ele soltou uma gargalhada que pareceu surpreendê-lo e eu aproveitei para voltar à carga. “Tu és diferente também? Eu sinto que és. És como eu?” O olhar dele escureceu de repente e fitou-me muito sério - parecia estar a ter um debate interior… um bem aceso. “Eu sou diferente sim, tu não sabes o que sou? Ou o que tu és?” “Não.” Abanei a cabeça com veemência. “Eu sei que oiço melhor do que a maioria das pessoas, tenho mais força e alguma dificuldade em ficar doente, mas não sei porquê.” Não era a verdade toda, mas pelo menos também não era mentira. “Dificuldade em adoecer? Então como fizeste essas nódoas negras?!” “Ah… isso foi ontem num bar. Um dos rapazes estava com dificuldades em entender o ‘não’ da miúda que estava com ele e antes que as coisas aquecessem meti-me entre os dois e levei um murro. Nem doeu muito porque eu respondi com um pontapé a meia altura e ele voou uns metros para trás. O pior foi mesmo quando os amigos resolveram ajudar o pobre donzelo indefeso. E eu vencia-os na boa, mas quando eles viram que não tinham hipótese começaram a atirar-me com mesas, cadeiras e tudo o que havia solto no bar.” Suspirei ao lembrar-me da quantidade absurda de mobiliário que me tinham atirado na noite anterior. “Quando saí finalmente de baixo daquela pilha de destroços, eles já se tinham pisgado e eu fiz o mesmo antes que a polícia chegasse.” O olhar que ele me deitou era indecifrável. Não percebi se aprovava as minhas ações ou se achava que eu gostava de sarilhos. Pior ainda era a sensação de ter contado aquilo pela primeira vez e, por alguma razão, precisar de uma pancadinha nas costas para assegurar-me de que eu tinha agido bem. 19

O silêncio prolongou-se durante alguns minutos e começou a ficar desconfortável quando o meu coração acelerou os ‘bips’ do monitor. Ele ia a dizer-me finalmente qualquer coisa quando ouvi uma grande agitação do lado de fora da sala e as ondas cerebrais do meu outro monitor dispararam. “O que é que se está a passar?! Porque é que aquele monitor está assim? Que barulho é este?” “Tu nunca fazes uma pergunta de cada vez?!” Ele acabou por não responder a nenhuma das minhas perguntas, mas começou a retirar os cabos, pinças e outros metais que tinha colados ao corpo com uma velocidade impressionante. Os meus olhos gravavam apenas borrões do que eram as mãos dele em movimento e dei por mim a olhar para a minha própria mão e a tentar mexê-la à velocidade dele. “Fica aqui, eu vou ver o que se passa.” O barulho lá fora tornou-se ensurdecedor e eu percebi finalmente que aquele piso tinha-se transformado num terreno de batalha. Ouvia gritos, mobília e metal a serem atirados e partidos, urros estranhos e o que parecia ser o som de… uma luta de espadas?! A terceira guerra mundial tinha chegado ao descampado e eu ia aproveitar aquela confusão para fugir! Olhei à minha volta e não havia outra maneira de sair sem ser pela porta, portanto ignorei as ordens do Vicente e fui até lá. Abri uma nesga da porta e espreitei de lado: o que quer que estivesse a acontecer era a sério porque haviam uns tantos mortos no chão. E se não estavam mortos, estavam definitivamente muito mal tratados. Tentei focar-me nos movimentos mas não consegui perceber nada do que se estava a passar - aquela guerra era demasiado rápida para mim. No entanto, eu corria depressa e se calhar conseguia atravessar a sala sem que ninguém desse por mim, até porque pareciam estar todos muito ocupados uns com os outros. Abri um pouco mais a porta, fixei-me na saída e tentei concentrar toda a minha força num sprint até lá. Nem tinha chegado a meio do caminho quando fui brutalmente atirada contra uma parede de vidro que estava à minha esquerda. Um cabeçudo atacou-me vindo da direita e a pancada foi tão grande que me partiu algumas costelas e eu fiquei sem conseguir respirar. No segundo seguinte senti o peso a sair de cima de mim e vi o Vicente a atirar o cabeçudo pelo ar. Não evitei um ‘uau’ silencioso enquanto os meus pulmões voltavam lentamente à sua função. O Vicente estava em modo de guerra e brandia uma espada enorme que pingava sangue. Se bem que aquele sangue tinha uma consistência estranha, parecia mais plasma do que líquido e a cor era extremamente escura… parecia sangue venoso depois de uma overdose de dióxido de carbono. Ele estava de costas voltadas para mim e parecia estar a proteger-me de novos ataques. “Eu disse-te para ficares na sala!” Ok, ele estava chateado. “E tu achas mesmo que eu ia ficar sozinha naquela sala sem tentar 20

fugir?!” “Tu estavas a cooperar muito, estavas… Era bom demais para ser verdade.” “Vocês raptaram-me! Eu só quero sair daqui e fingir que isto nunca aconteceu!!” Custava-me imenso respirar e portanto discutir naquele momento era demencial, mas a raiva fazia-me falar. O Vicente continuava a fazer de muro e enviava de volta as pessoas que se atiravam contra ele e mesmo pedaços gigantescos de mobiliário de escritório, enquanto defendia ataques vindos de todos os lados. O meu cérebro não tinha velocidade para registar o que se estava a passar, exceto que o Vicente parecia imune a balas - o homem era feito de quê?! Enquanto tentava perceber o que se passava à minha volta, as minhas dores pareciam estar a melhorar - provavelmente consequência da subida de adrenalina. Aproveitei estar a sentir-me melhor para levantar-me com cuidado, mas sempre numa posição de defesa. Já com uma visão mais global do que se passava, apercebi-me de que eles não estavam a atacar o Vicente mas sim a tentar passar pelo Vicente para chegar até mim. “Eles estão atrás de mim?” “Não sei, diria que sim mas ainda não tive tempo para perguntar a ninguém!” Parou de falar por momentos para transformar uma secretária em milhentas lascas de madeira. “Porque é que tinhas de sair e expor-te assim?!” Eu ignorei a pergunta e virei-me para a parede de vidro que tinha estilhaçado momentos antes. Avaliei a estrutura de ferro que segurava os vidros e arranquei-lhe o maior pedaço que consegui tirar sem cortar-me muito; dobrei-o de forma a agarrá-lo melhor e coloquei-me atrás do Vicente, preparada para defender-me sozinha. Enchi o peito de ar, que estava milagrosamente sarado, e aproximei-me das costas do Vicente antes de fazer o meu ultimato. “Tens cinco segundos para explicar-me o que é se passa aqui! Não podes lutar contra eles e contra mim ao mesmo tempo.” Ele virou a cara por momentos e viu-me de pé. Não só de pé sem dores como também com uma arma que era uma espécie de faca de ferro bem torta. O brilho azul dos olhos dele intensificou-se e eu tive que esforçar-me para aguentar o olhar que ele me atirou - será que ele podia transformar-se no Hulk?!… “Cinco segundos?! Como vês eu estou a defender-te e não a atacar-te, garanto-te que do lado deles não vais ter este tipo de mordomias!” Somos educados a distinguir o bem do mal de forma a podermos tomar a decisão certa nos momentos decisivos. Mas no momento da verdade fazemos 21

sempre o mesmo: mandamos a razão ver se está a chover e deixamos o coração escolher. Com um urro que saiu de uma garganta que não parecia ser a minha, comecei a limpar todos os que me apareciam à frente enquanto deixava o que parecia ser um banho de adrenalina subir-me à cabeça. Os meus olhos começaram finalmente a focar e comecei a ver os movimentos com nitidez, e assim sabia como defender-me e atacar. Saltei, gritei, não olhei a cabeças e fiz os possíveis para sobreviver. Conforme os meus olhos se habituavam à velocidade daquela batalha campal e eu entrava no ritmo, comecei a compreender que todos ali tinham os olhos estranhamente brilhantes e que atacavam também a morder. Depois de vários ataques assim, olhei para o meu antebraço que mostrava claramente as marcas de uma dentada de um cão grande. Confusa, olhei para a cara do meu último agressor e não evitei um grito de horror quando vi o tamanho dos caninos dele. Ele achou piada à minha reação e eu aproveitei o momento para recompor-me e responder na mesma moeda: levei o meu braço atrás e acertei-lhe na boca com o pedaço de metal que tinha nas mãos. Eu tinha feito pontaria aos dentes dele e o som dos ossos a partirem deram-me uma satisfação incrível, ainda que tivesse fraquejado depois daquele golpe. Deixei-me cair de joelhos e o único pensamento que me ocorreu dizia-me que eu era muito nova para morrer. Especialmente depois de ter conhecido o homem mais bonito do mundo e de reparar que conseguia lutar contra homens com o dobro do meu tamanho, dentes caninos extremamente longos e demasiada força bruta. Seria alguma droga nova? Administrada por dentistas?… Se sobrevivesse, o segundo item da minha lista de prioridades era saber que raio de experiência humana era eu. Sem pensar muito mais no assunto, levantei-me e fui à luta. E sobrevivi mesmo. Não sei como sabia que estava viva porque sentia-me morta, mas sabia que estava deitada no chão e mal conseguia respirar. Os meus pulmões não conseguiam acompanhar a velocidade com que o meu coração bombardeava sangue. O ruído da luta continuava em pano de fundo, mas o meu coração fazia um barulho incrível! Eu estava longe do ruído da batalha agora, mas onde é que eu estava? Dei por mim a ser levantada do chão e o movimento fez-me soltar um lamento de dor. “Desculpa! Respira devagar. Isso… devagar, relaxa. Estás a salvo comigo e ninguém vai encontrar-te.” Engoli algum do sangue que tinha na boca e sussurrei. “O que é que eu sou?” “Não sei.” Uns momentos depois voltei à carga, apesar de estar a gastar as poucas forças que tinha para respirar. “E o que és tu?” “Eu sou um vampiro, agora cala-te e respira! Não te atrevas a morrer!” “Um vampiro…” E desta vez não vi tudo branco porque desmaiei em tons de carmim.

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Como renovar a segurança pessoal (Vicente) Peguei na Rita ao colo e apressei-me a fugir dali. A palavra ‘fugir’ causava-me comichão e o meu corpo queria ficar e lutar… como um homem. Ha! Ao fim deste tempo todo tivemos finalmente um reconhecimento positivo e tropeçámos logo nalguém queria que isto corresse mal, muito mal. E o pior é que a única maneira de saber da existência da Rita era através de um traidor no seio da nossa organização. Como é que era possível?! Anos e anos juntos a trabalhar em prol de um objetivo comum e agora um de nós, vá-se lá saber quem, vira-nos costas e cai-nos o Terceiro Reich em cima! Por mais que desse voltas à cabeça não conseguia apontar o culpado e só confiava em dois nomes: Arzel e Ezequiel. Por agora estávamos os três sozinhos a lutar contra um fantasma. Mas no topo das prioridades estava a Rita: tinha que deixá-la num sítio seguro e esperar que ela se restabelecesse para ter a certeza de que sobrevivia e de que não fugia - ia ser uma dor de cabeça. O Ezequiel tinha que esperar para saber das ‘boas’ novas. Corri o mais direito possível para evitar balançá-la nos meus braços, tinha a certeza que ela tinha umas quantas costelas partidas e era chato matá-la ao tentar salvá-la. Depois de correr durante um tempo indeterminado, olhei à minha volta e fiquei agradavelmente surpreendido por ver que me tinha afastado tanto da base. Melhor ainda, estava no sítio ideal! Eu conhecia aquela zona como a palma da minha mão porque tinha vivido ali há umas décadas atrás. Entrei pelo jardim e pareceu-me que a minha exmansão estava abandonada, a sorte parecia estar a sorrir-me de novo. Dei meia volta e entrei na garagem - estava tudo como tinha deixado. Pousei a Rita no chão com cuidado e apressei-me a partir a parede falsa que dava acesso às escadas do piso subterrâneo. Sem querer pensar muito no facto dela não se mexer há demasiado tempo, peguei nela e suspirei de alívio quando ouvi que o coração dela ainda batia, baixinho mas batia. Depois de descer as escadas, quase que assobiei apreciativamente quando vi que a sala estava precisamente como a tinha deixado. A sensação caseira que o local me inspirava relaxou-me e dirigi-me para as celas que estavam ainda mais abaixo. Tentei deitá-la com cuidado, mas aquelas celas não tinham sido feitas a pensar em conforto, bem pelo contrário. As paredes tinham várias camadas de cimento e kevlar, e a única abertura estava desenhada numa estrutura em rede em vez das típicas barras de ferro. A rede ainda era mais forte do que as paredes e era composta por uma fibra sintética mais resistente do que o kevlar. Confesso que senti um nó na garganta ao deixá-la no chão assim, parecia tão indefesa que não resisti a afastar-lhe o cabelo dos olhos e a limpar-lhe o sangue da cara. Mas foi a memória dos olhos dela que me trouxe de volta à realidade: as imagens que tinha gravadas na memória mostravam-na a lutar com uma destreza incrível! Ninguém ali contava com o apoio dela - bolas, eu não esperava que ela soubesse lutar logo para começar! E os olhos… os olhos dela tinham passado 23

daquele tom de mel a um amarelo vivo. Nunca tinha visto nada assim - o que seria ela? Obriguei-me a sair da cela e a afastar-me da Rita, agora tinha que avisar o Ezequiel e arranjar maneira de perceber o que se tinha passado. E depois… planear a vingança. Havia uma discoteca ali perto e fui para lá, não sem antes pedir um telemóvel ‘emprestado’ à primeira pessoa que encontrei. É verdade que cada um é como cada qual, mas por norma qualquer um aquiesce a um tom mais violento vindo de alguém que tem o dobro do tamanho. Resumindo: foi fácil arranjar um telefone e avisar o Ezequiel para sair de onde quer que ele estivesse e para levar a amiga da Rita com ele. Ficávamos com mais pontas soltas por atar ao ficar também a cargo dela, mas não podia arriscar: não fazia ideia da quantidade de informação que tinha escapado do nosso lado. O Ezequiel estava bem e não tinha havido qualquer problema com a amiga da Rita, o que era uma boa notícia. E agora só faltava arranjar uma ou duas pessoas para guardarem a Rita. Normalmente prefiro confiar nas pessoas que não correm a fazer o que eu mando, mas que pensam um bocadinho no que mandei fazer. Infelizmente não tinha ninguém de confiança que estivesse disponível - nenhum dos dois - e tinha mesmo que hipnotizar alguém, apesar do meu receio de provocar um tumor cerebral sempre que recorria àquele poder. Não havia outra solução para encontrar duas pessoas de confiança, o melhor era mesmo ‘sugestioná-las’ a serem de confiança. Entrei na discoteca e escolhi rapidamente os dois homens que me pareciam mais capazes, incluindo o segurança que estava à porta a controlar a fila. E sem segurança, fiz muita pita feliz quando puderam entrar de rompante na pista de dança. Peguei nos meus dois homens e chamei-lhes de António e José porque os nomes verdadeiros não me interessavam para nada e Tó Zé era giro. Trouxe-os de volta para a garagem de olhos vendados. Afinal, nunca se sabe quando é que um hipnotizado desenvolve uma cabeça dura e começa a ter vontade própria. Expliquei-lhes o que tinham a fazer e ficaram ambos de guarda à cela. Tirei finalmente um momento para avaliar a situação em que a organização estava enquanto procurava uma cadeira. Mesmo sem precisar de respirar, suspirei quando encontrei finalmente um banco e deixei-me cair nele. Apesar dos anos de prática, as batalhas ainda cansavam. Quem estaria por trás da destruição da base? Quantos teriam sobrevivido ao ataque? E quem seria ainda leal?… Tantas perguntas e tão poucas respostas. Escondi a cara nas mãos e planeei os próximos dias: ali estávamos a salvo mas havia que reunir as tropas e investigar a fundo o que se tinha passado. Tirei a capa, a camisola, uma camisa e a camisola interior. Como esperado, um arrepio atravessou-me rapidamente o corpo - tinha que comprar um aquecedor para ali. Examinei os braços e mãos ao pormenor, e foi com alívio que percebi que não tinha cicatrizes e portanto não tinha sofrido nenhum golpe a sério. Era um truque bem fixe ver as cicatrizes a fecharem sozinhas, ainda não me tinha cansado de ver. Suspirei por hábito e voltei a vestir a minha roupa toda, enquanto pensava no estado da Rita. Mesmo sem fazer ideia do que ela era, esperava que ela tivesse as mesmas capacidades de regeneração que eu tinha, ou pelo menos umas 24

parecidas. O meu diálogo interior foi interrompido quando me pareceu que a Rita se tinha mexido. Não quebrei a minha posição, mas concentrei-me nela e finalmente ouvi a confirmação: ela estava viva e conseguia mexer-se! Relaxei completamente até que ouvi o palavrão dela e aí tive que mesmo que reprimir uma gargalhada. Oh, ela ia recuperar totalmente e ainda bem porque precisávamos dela! Ainda a sorrir, reparei que me tinha rido mais naquela noite do que nos últimos trinta anos - ou o meu sentido de humor tinha aumentado exponencialmente ou estava uma hecatombe por acontecer.

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Como preparar um bom pequeno-almoço Quando acordei da segunda vez permiti-me a alguns minutos para orientar-me e separar os pesadelos da realidade. Depois de uma fase inicial de negação, reconheci que o horror era bem verdadeiro e estava registado a cores e em ‘Dolby Surround’ na minha memória. Onde estava uma amnésia quando se precisava dela? Não voltei a desmaiar, mas sentia-me estranhamente bem não me doía nada - o que era extremamente duvidoso. Levantei-me com cuidado até ter a certeza que conseguia mexer os membros todos e respetivas extremidades, e acabei sentada de joelhos no chão com uma mão na cabeça para ampará-la dos efeitos da gravidade. Consegui coragem suficiente para abrir os olhos mas continuava tudo escuro - a hipótese de estar cega continuava de pé. Timidamente chamei pela Ana, mas ninguém me respondeu. Desenrolei os nomes todos da minha família por ordem cronológica, provavelmente a inventar uns nomes e a saltar outros, até que ao quinto José da minha família - o meu segundo primo por parte da minha avó alguém me respondeu: “Ele disse que já voltava.” “Ele quem?” Passados uns valentes minutos voltei a tentar. “Olá? José?” E dali para a frente só ouvi silêncio, nem o ‘cri cri’ de uma cigarra se ouvia. Voltei a tentar forçar o diálogo, mas não consegui arrancar mais nenhuma palavra de quem quer que estivesse ali comigo. Não fazia ideia de onde estava, mas conseguia ouvir perfeitamente o batimento cardíaco e a respiração de outras duas pessoas. Evitei pensar se os vampiros precisavam ou não daqueles órgãos porque ainda estava em processo de aceitação das minhas memórias mais recentes. Virei-me então para o sentido que me restava avaliar: a visão. Concentrei-me e tentei discernir alguma coisa na direção da voz. Nada… preto como o breu, não via nada. Como não tinha mais nada para fazer, respirei fundo e concentrei-me nos sons de respiração que ouvia numa tentativa de forçar os meus olhos à escuridão e ver uma luzinha que fosse para aqueles lados. Quando estava prestes a ter uma enxaqueca, consegui finalmente ver uma silhueta recortada por uma espécie de rede. Enchi-me felicidade: não estava cega! A luz era ligeiramente amarelada e eu não percebia muito bem de onde vinha, portanto aproximei-me de gatas da silhueta que conseguia ver. Conforme me ia aproximando, vi que estava uma rede metálica a separar-nos; tentei avaliá-la com uma unha mas fiquei na dúvida sobre o que realmente seria. Desisti dessa tarefa e resolvi espreitar pelos intervalos da rede. Foi então que reparei que a luz amarela estava a refletir na rede, ou seja, a luz vinha de dentro da cela. Levantei as mãos ao nível dos olhos e vi-as perfeitamente iluminadas em tons amarelos e esverdeados. Dei um grito e fechei os olhos com força. Tentei controlar-me e respirar devagarinho, mas estava agitadíssima e não sabia o que fazer. Comecei então a respirar como ensinam às grávidas: basicamente a bufar a cada dois segundos para tentar controlar-me. Na minha agitação não ouvi nem senti o Vicente a agachar-se ao 26

meu lado e a pôr uma mão sobre o meu ombro. “Estás bem? O que é que se passou? Porque é que gritaste?!” Abri os olhos novamente e desta vez consegui ver o que se passava com cores normais, o Vicente estava ao meu lado e tinha provavelmente acendido a luz. Os meus ouvidos - os senhores do sentido em que mais confiava de momento - confirmaram-me que as outras duas pessoas já não estavam ali. Olhei apreensiva para as minhas mãos mas estavam da cor habitual. Voltei a olhar à minha volta e só então percebi onde estava. Não contive a surpresa e o desdém que saíram num tom demasiado estridente: “Eu lutei ao teu lado, e tanto quanto sei dei a minha vida por ti, e tu deixaste-me a dormir no chão de uma cela?!” E disse tudo isto com um indicador acusador ao nível do peito dele. Ele abriu a boca com intenção de responder-me à letra, mas depois apareceu uma sombra de arrependimento ou dúvida e ele decidiu-se por outra abordagem. “Tu vais fugir à primeira oportunidade que tenhas e eu não posso deixarte ir até saber o que se passa.” Até era verdade - eu queria fugir dali mais do que tudo - mas resolvi aproveitar o que parecia ser um debate interior para forçar a confiança dele. “Ah, bom. Quer dizer que não faz diferença nenhuma por quem lutei ontem? Boa!” “Claro que sim! Tens razões para não confiar em mim, mas eu não vou fazer-te mal e depois dos exames clínicos de ontem que não chegaste a fazer, o mais provável era ires descansada para casa.” “O mais provável? O que é que isso quer dizer?” Ele passou as mãos pelo cabelo e levantou-se. “Tens fome? Eu podia comer um boi.” “A sério? É isso que tens a dizer?!…” Ele olhou-me de lado e abanou a cabeça num gesto de incredulidade. Saiu da cela e deixou-me a porta aberta, eu não hesitei e levantei-me a correr atrás dele. A zona das celas não era realmente a mais confortável, havia ali uma sala com uma mesinha e uns bancos que podiam muito bem ser dos anos 60… ou talvez fossem uma moda nova qualquer, vá-se entender os designers. Olhei para as escadas e depois para os últimos degraus até ao chão que estavam cobertos dos mais variados itens de mercearia. Haviam vários ovos partidos e um sumo que rebentou, mas as restantes embalagens de bebida e comida pareciam estar inteiras, ainda que no chão. “Tropeçaste?” Aventurei-me a perguntar. “Não. Ouvi-te gritar e pensei que estavas perigo ou que te doía alguma coisa a sério…” 27

Sorri para mim mesma, podia ser uma prisioneira valiosa sem saber exatamente porquê, mas ao menos tinha alguém que se preocupava comigo e não se chamava Ana! Ainda que não tivesse gostado da parte do ‘doer a sério’… tss! Até parecia! A realização súbita de que a minha leve inclinação pelo Vicente podia ser justificada pelo síndrome de Estocolmo entrou de repente no meu cérebro - será que eu batia mesmo mal?! Tinha morrido uma carrada de gente na noite anterior, provavelmente por minha causa, e eu não só não estava preocupada com isso como estava antes preocupada por ter dormido no chão! Devo ter feito uma careta porque ele reparou. “Estás bem?” “Não. Fui raptada, depois espetada com agulhas e finalmente lutei literalmente até à morte. Estou provavelmente em estado de choque. Percebo que se passa alguma coisa estranha comigo, mas não faço ideia do que é. E ontem foi uma carnificina e… morreu mesmo alguém?” Os olhos dele abriram tanto ao processar o que eu tinha dito que tive medo que saltassem das órbitas. Não sabia se entendia a razão para tanta surpresa. E será que os vampiros eram como o GI Joe e aceitavam os órgãos de volta? Caso os olhos dos vampiros pudessem mesmo saltar das órbitas, isto é. “Yeah, eu consigo preocupar-me com os outros de vez em quando, é uma característica que só aparece uma vez na lua cheia.” Não esperei resposta e comecei a apanhar as coisas do chão e a colocá-las em cima da mesa. Ele acabou por ajudar-me mas terminou a tarefa em menos de três segundos. Olhei então para a mesa que estava com sérias dificuldades em aguentar aquele peso todo: baguetes e pãezinhos mais pequenos (farinha de trigo e integral), croissants, pastéis de nata, donuts, leite com chocolate, sumo de laranja, maçã, manga, uva e pera, coca-cola, manteiga com e sem sal, pelo menos cinco variedades de bolachas, cinco tipos de queijo, fiambre, paio, chouriço, três tabletes de chocolate, duas caixas de After Eight, várias conservas e caixas de cereais de quatro marcas diferentes, três paletes de leite (gordo, meio-gordo e magro), oito tipos de chá e toda a fruta que podia existir naquela altura do ano. “Eu tenho duas hipóteses para explicar este fenómeno: ou vais tornar isto num bunker para os próximos meses porque o apocalipse está para chegar ou estás cheio de fome e comes o equivalente a um pequeno regimento que está a passar fome há um mês?” Ele olhou-me divertido enquanto limpava o sumo e os ovos do chão com uma esfregona. “Não sei do que gostas e queria ter a certeza de que gostavas de alguma coisa.”

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O meu queixo perdeu a capacidade de vencer a gravidade. Felizmente voltei a ganhar controlo sobre ele a tempo de evitar que uma quantidade embaraçosa de baba começasse a escorrer pelo canto da boca. Não sei quantas vezes um homem lindíssimo aparecia a limpar o chão sem que alguém lhe tivesse pedido pelo menos dez vezes para fazer isso. Já para não falar que limpou o chão depois de ter esvaziado uma mercearia para trazer-me o pequeno-almoço. Digo já que é não é coisa que me aconteça frequentemente e de momento um ataque de riso despropositado e alguma histeria a fazer-lhe companhia seriam tomados como reações adequadas à situação. No entanto, o Vicente parecia estar à espera de uma reação minha que não era a que queria sair instintivamente. “E então? Gostas de alguma destas coisas?” “Gosto de tudo. Quer dizer, não gosto de After Eight.” A minha resposta deixou-o claramente chocado, mas ele recuperou depressa o sangue frio (ha ha) e depois de guardar a esfregona e o balde pegou nas duas caixas do referido chocolate e levou-as não sei para onde. Não me preocupei muito com a estranheza do gesto e sentei-me à mesa sem saber por onde começar. Como estava cheia de fome, resolvi experimentar um bocadinho de tudo o que gostava. O Vicente voltou pouco depois e sentou-se à minha frente, embora eu mal o visse. Ele era realmente muito alto, mas eu tinha o meu horizonte bloqueado por várias caixas de cereais, sumos e queijos empilhados. Para meu espanto, ele começou a barrar queijo da serra num croissant. “Os vampiros comem?… Isto é, comem comida?” Ele levantou a sobrolho e foi tudo o que consegui ver. “Claro, querias que morrêssemos de fome?” “Então e aquela cena toda do sangue?” “Pensa no sangue como um fortificante. Não precisas dele para sobreviver mas sentes-te melhor quando o tomas.” “Como óleo de fígado de bacalhau?” “Não, bolas, isso é nojento! O sangue é mais como um suplemento de vitamina C: bem doce e agradável.” “Então aquilo dos vampiros sugarem o sangue todo dos humanos é treta? Não precisam dele para nada?” “Não precisamos, mas é tão bom que é difícil de resistir. É como teres sempre maçãs para sobremesa, é difícil recusar quando te oferecem cerejas.” “Hum… O sangue sabe diferente de pessoa para pessoa?” “Claro, cada pessoa tem as suas pequenas especificidades.” “Há pessoas mais doces que outras? E como sabem quem é mais doce? Ou melhor dizendo, como sabem distinguir as pessoas que têm o sangue mais doce?” “Hum… é um truque que nós temos.” Ignorei a falta de resposta e continuei o meu interrogatório. 29

“Então tirando os dias de festa, vocês só comem comida como nós?” Arrependi-me logo da minha construção frásica, mas ele ignorou e respondeume. “Eu sim, mas o sangue é tão, tão bom que há vampiros que preferem viver apenas dele.” “É assim tão bom?” “Oh, é ótimo! É como algodão doce mas ficas a sentir-te mais forte.” “É óbvio que preferes sangue a comida, porque é que estás sempre a compará-los?” “Para entenderes o que eu quero dizer.” “Já reparaste que tens um bocado a mania de escolher as coisas por mim?” “Como assim? Agora não posso voltar ao supermercado.” “Não podes voltar?… Ok, eu não quero saber. A comida está ótima, acho que esta mesa envergonha qualquer buffet de um hotel de cinco estrelas, mas não é disso que eu estou a falar. Raptaste-me na esquadra e podias muito bem ter inventado uma história qualquer e pedir-me para ir convosco. Depois resolveste usar-me como cobaia hospitalar sem me dar qualquer hipótese para confessar que morro de medo de agulhas e agora trouxeste-me para aqui e não me deixas ir para casa!” “Tu não tinhas feito nada do que eu te pedisse. Estás a esquecer-te de que eu vi-te na esquadra: estavas pronta para saltar e destruir aquilo tudo para fugir se não tivesses a tua amiga ao teu lado.” “Não interessa, podias ter perguntado!” “É verdade, mas sabemos os dois que não levava a lado nenhum e ainda ia perder tempo.” E depois da resposta dele, fiz o que qualquer pessoa adulta faria na minha situação: amuei.

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Como deitar fora um bom pequeno-almoço Infelizmente o Vicente não pareceu minimamente incomodado pelo meu silêncio, bem pelo contrário. Comeu feliz da vida e nunca levantou os olhos para ver se eu estava a comer ou não. Ou se levantou eu não vi, primeiro por causa da montanha de coisas na mesa e segundo porque eu estava a olhar para o chão a planear a minha fuga. Quando acabou de comer, o Vicente levantouse e olhou em volta como a avaliar a situação. “Bem, já lá vai o tempo em que isto estava apresentável… tenho que fazer aqui umas modificações se vamos ficar por cá.” “Ficar aqui??” “Sim, pensavas que esta noite já dormias em casa? Lamento, mas não.” Ele olhou para mim com os olhos semicerrados e eu voltei a sentir medo dele a sério. Algumas imagens que tinha empurrado para o abismo da minha mente voltaram: o Vicente de espada em punho a cortar inimigos com tal ferocidade que nalgumas das estocadas não entrava só a espada como também o punho da arma e a mão dele. Senti um ligeiro arrepio na espinha, mas quando levantei a cabeça decidi olhá-lo bem nos olhos e ser sincera. “Eu não quero nem tenciono ficar aqui!” “Ha! Como se isso dependesse de ti!” O sorriso de desdém feriu-me gravemente o orgulho. “Há duas maneiras de fazermos isto: a que tu colaboras e a que tu colaboras. Não há a menor dúvida de que eu estou em clara vantagem se isto acabar numa luta física, e se preferires ir pela via psicológica, acredita que tenho uns séculos de preparação em cima.” Todas as opiniões que tinha formado sobre ele até ali esfumaram-se no ar. Juntamente com a teoria do síndrome de Estocolmo. Há dois segundos atrás ele tinha parecido simpático e preocupado comigo ou pelo menos com o que eu poderia ser. A realidade da indiferença dele doeu-me mais do que eu estava disposta a reconhecer, afinal conhecia-o há menos de vinte e quatro horas. Mas a verdade é que doeu, e olhar para aquela incrível mesa de pequenoalmoço ainda doía mais. Eu tinha mesmo que sair dali e fugir, depois logo se via para onde e o que fazer em relação à Ana. E pensar eu que todas as minhas preocupações no dia anterior se resumiam ao transporte de substâncias ilícitas no porta-bagagem!… “A Ritinha fala-barato não vai comentar? Pois bem, eu tomo o silêncio como prova de que entendeste o que eu disse. Agora vamos embora porque temos muito que fazer e o Ezequiel já deve estar à seca.” Continuei sem dizer nada, mas franzi o sobrolho quando ouvi a expressão ‘estar à seca’. Um vampiro com centenas de anos e um vocabulário atual - que salada russa. Segui-o sem reclamar, já que a minha outra hipótese era 31

claramente ficar fechada naquela cela esquisita. Subi as escadas e não posso dizer que tenha ficado chocada por ver que o ‘andar’ de cima era uma garagem. Na verdade tinha imaginado um armazém abandonado ou assim, mas quando saímos da garagem e vi a mansão fiquei boquiaberta. O jardim já tinha visto melhores dias, mas as árvores estavam estrategicamente colocadas, assim como as pedrinhas na relva que davam acesso à entrada principal da casa. Havia também um pequeno lago que acabava num banco de pedra e só faltava mesmo uma fonte para compor o ramalhete. A casa tinha pelo menos três andares e era lindíssima em branco e verde - de novo, a cor já tinha visto melhores dias. A armação cuidada das janelas em madeira, uns pequenos vitrais nas janelas que não abriam e a última janela a acabar numa espécie de sótão tornavam a casa adorável. Eu pagava para viver ali, sem pensar duas vezes. Como o meu forte nunca foi disfarçar os meus sentimentos, naquele momento a minha cara devia gritar a minha admiração por aquele achado arquitetónico e o Vicente reparou nisso mesmo. “Gostas?” Fui apanhada de surpresa porque voz dele estava muito perto - ainda que vários decímetros acima - e porque parecia genuinamente interessado na resposta. Tentei responder o mais vagamente possível e saiu-me um ‘yeah’ sem grande emoção. Ele olhou-me com alguma curiosidade, talvez a tentar entender a diferença entre a minha reação inicial e a indiferença na minha voz, mas não disse nada. O jipe/carro preto que eu já esperava ver estava estacionado em frente ao portão que dava acesso à garagem - até o portão de ferro forjado era giro! O Vicente abriu-me a porta de trás e eu aproveitei para engolir uma última golfada de ar fresco antes de entrar naquele inferno sobre rodas. Para minha surpresa, embora tivesse lógica, o Vicente entrou comigo para a parte de trás do carro. Suspirei de tédio e deixei-me deslizar no confortável assento do lado esquerdo do carro. Bom, ainda tinha mais uns segundos de ar puro porque o carro não estava ligado. Eu e o Vicente fizemos a viagem quase toda em silêncio, mas o mesmo não se podia dizer do motorista que sabia praticamente as letras todas de cor de todas as músicas que estavam a passar na rádio. Eu desconfio que até as playlists ele devia ter memorizadas e, apesar de cantar horrivelmente mal, eu não conseguia desligar. Ele estava continuamente fora de tom e eu suspeitava que ele fazia de propósito para fugir ao tom quando a música finalmente se encaixava no tom dele. As músicas sucediam-se em catadupa e ele assassinava sem piedade lendas como Elvis Presley, Frank Sinatra ou Nina Simone. Também tinha interpretações realmente tenebrosas de Bee Gees, Whitney Houston, Céline Dion e até dos agudos mais altos da Mariah Carey. O meu maxilar inferior deixou de ser íntimo do superior assim que começou o ‘espetáculo’ e manteve-se assim a viagem toda. E infelizmente estava demasiado absorvida naquele assassínio coletivo de grandes e não tão grandes obras musicais para reparar no caminho. Claro que só dei conta quando chegámos e amaldiçoei-me várias vezes por não estar a prestar atenção a nada do que interessava. Se alguma vez 32

o laboratório fechasse, o melhor era considerar opções de carreira que não passassem por detetive ou diretora musical daquele vampiro em particular. Saltei do carro um pouco sem pensar e só quando ouvi ‘plof’ é que olhei para o chão e para o local onde nos encontrávamos. O meu estômago deu logo ali três mortais à retaguarda e eu tive a confirmação de que o meu pequenoalmoço queria mudar de residência. Corri para a árvore mais próxima e tentei não pensar nos sons pegajosos que os meus ténis faziam ao correr. Assim que cheguei à arvore, apoiei-me com o braço esquerdo no tronco e despejei todo o conteúdo do meu estômago e uma quantidade absurda de saliva no chão. Aqueles pedacinhos de croissant, pão, cereais, queijo e mais umas quantas coisas irreconhecíveis eram mesmo assim uma pintura de Dali quando comparadas com o que eu tinha acabado de ver. O descampado que eu tinha visto na noite anterior banhado pelo luar era agora um lago de sangue com muitos membros flutuantes. Haviam vários corpos esquartejados e órgãos ao ar cobertos de moscas e outros animais necrófagos. Não me atrevi a olhar para trás e fiquei a examinar com extremo interesse a árvore que me tinha apoiado naquele momento de fraqueza. Como era possível que eu tivesse participado naquela chacina?! Eu tinha imagens vívidas das minhas ações e sabia perfeitamente que alguns daqueles corpos eram da minha inteira responsabilidade. Não queria ser hipócrita, mas não conseguia conciliar a ideia que tinha de mim com as imagens que mostravam que desprezei a vida de várias pessoas - ainda que estivessem mortas para começar. Não compreendia como podia coexistir com alguém assim tão violento - será que o instinto de sobrevivência era assim tão forte dentro de mim? Encostei devagar a testa ao tronco da árvore e deixei-me ficar ali de olhos fechados a recuperar. “Então Ritinha? Também não é preciso exagerar, o Arzel não canta assim tão mal!” Ignorei a piada que não tinha piada nenhuma e tentei lembrar-me de onde conhecia o nome. Ah claro, o vampiro que eu tinha atropelado para conseguir abrir a janela do carro na noite anterior. Sem abrir os olhos, mostrei-lhe o terceiro dedo da minha mão direita e continuei a tentar equilibrar a árvore que parecia querer fugir. O Vicente soltou uma gargalhada rouca e eu ignorei-o. Não fazia ideia do que estávamos ali a fazer, mas tive curiosidade para saber quem tinha chegado quando ouvi alguém perguntar: “Ela está bem?” “Sim, mas não reagiu muito bem ao ver este cenário.” “Não a censuro… As minhas lutas são mais virtuais e passadas ao computador. É vergonhoso reconhecer isto, mas até estou agradecido de me teres mandado vigiar a outra miúda.” Os meus ouvidos arrebitaram - ele só podia estar a falar da Ana! Voltei-me na direção deles e observei o recém-chegado: era também alto, embora não 33

tanto como o Vicente, e estava em excelente forma física - só para variar. Ao mesmo tempo era quase o oposto em termos de imagem porque era muito louro de olhos verdes. Deus nos salve de existir um vampiro feio ou gordo! Depois de ouvi-lo confessar que estava feliz de ter estado longe dali, simpatizei automaticamente com ele. E ia simpatizar muito mais se a Ana estivesse em segurança e de boa saúde. Queria perguntar-lhe mais coisas, mas deixei-me ficar a observar e a ouvir à distância, era um bocado rude mas eu não sabia se eles sabiam que eu podia ouvi-los. Não custava nada arriscar e ouvir a conversa toda sem dar bandeira. “Como é que ela está? A noite continuou tranquila?” “Sim, a noite foi muito tranquila. Acho que chegámos a tempo à esquadra no que toca a apagar informações sobre a Ana, agora como é que eles souberam da enjoada ali… Não paro de pensar nisso e não tenho a mais pálida ideia!” Enjoada?! Já não gostava dele. “Foi um dos nossos.” “Estás a falar a sério?!… Will, acreditas mesmo nisso?” “Tens alguma explicação melhor? Alguém descobre a Rita exatamente ao mesmo tempo que nós, sabe para onde a trazemos e ainda tem aqui um exército à nossa espera?!” “Epá, mas custa a acreditar! Eu conheço a unidade toda de trás para a frente e até a família de alguns!…” “Eu sei, acredita que isso também está a comer-me por dentro. E o pior é que eu só me atrevo a ilibar-te a ti e ao Arzel, e a alguns dos mortos. Não faço ideia em quem posso confiar.” “E ela?” Ele indicou-me com a cabeça e eu fitei-o feita parva. Como é que era eu era estúpida o suficiente para dar-lhes entender que conseguia ouvi-los?! Definitivamente a faixa de miss estupidez e paz na Terra vinha para mim hoje. O louro reparou na minha indiscrição, claro. “Achas que ela consegue ouvir-nos?” “Tenho a certeza que sim, é impressionante não é?” “Sabias disso desde o início da conversa?” “Não sabia, mas suspeitava. Ela não é muito boa a disfarçar.” E com isto sorriu e acenou-me. A capacidade daquele vampiro para irritarme estava a atingir valores astronómicos. E o pior é que a culpa era minha, parecia que eu não conseguia perceber que ele estava sempre um passo à minha frente e isso só me fazia detestá-lo ainda mais. “Ela parece gostar de ti.” “Sim, estou sempre à espera que ela me arranque um olho ou assim.” “Ena, tu não perdes tempo a fazer amigas! Não achas esquisito estarmos a falar dela e saber que ela está a ouvir-nos? Não é melhor chamá-la e falar 34

também com ela?” “Faz como quiseres.” Mas que homem mais presunçoso, irritante, horrível, armado em bom, chato e anormal! Era assim tão difícil ter-me calhado outro raptor?! Um daqueles normais?! Afinal em sete biliões de pessoas - sete mil milhões de pessoas, atenção - tinha-me calhado um vampiro na rifa. E quantos vampiros existiam no mundo? Uma mão cheia?! Já para não falar que deviam estar em vias de extinção depois da matança na noite anterior. Ainda a remoer na minha falta de sorte, dirigi-me para o local onde eles estavam e estendi a mão ao único que parecia ter os meus sentimentos em consideração. “Olá, eu sou a Rita.” “E eu o Ezequiel, muito prazer.” Ele deu-me um sorriso lindíssimo e legítimo. Eu confesso que me derreti e tentei oferecer-lhe o meu melhor sorriso em troca, até porque queria muito que ele me respondesse ao inquérito que eu estava prestes a despejar. “Como está a Ana?” “Está bem, é muito simpática a tua amiga e faz umas tostas divinais!” Eu nem sabia do que pensar da Ana e de um vampiro a comerem tostas mistas, mas sorri na mesma porque ela estava obviamente bem - a Ana detestava cozinhar e só sabia fazer tostas de qualquer modo. “Ela cozinha realmente bem!” Menti eu, ao menos podia elogiá-la o suficiente para ele ter a certeza que valia a pena protegê-la. “Ela continua em casa? Ou mudaram-na para um sítio mais seguro? Ela sabe o que tu realmente és?” “Ena, interrogatório!” E riu-se divertido, o que fez com que subisse mais uns pontos na minha consideração por não ter ficado ofendido. “Bem, eu não lhe disse o que éramos porque normalmente as pessoas não reagem bem.” O Vicente olhou-me como se eu fosse um claro exemplo disso. “Então disse-lhe que era do FBI, inventei uma história enorme e convenci-a a ficar num hotel durante uns dias.” “Os meus pais estão vivos e de boa saúde, achas que eles correm perigo?” Tinha-me debatido várias vezes sobre se devia ou não fazer esta pergunta porque dava muita informação sobre mim. Sem dúvida que ficava (ainda) mais na mão deles, mas este parecia um tipo simpático e a Ana confiava nele. A Ana nunca confiava nos meus namorados e o tempo acabava sempre por dar-lhe razão. “Pois, é uma boa pergunta. Só lemos o teu ficheiro com cuidado depois do que se passou aqui e decidimos que se a Ana estava a salvo depois de ter estado contigo na esquadra, provavelmente os teus pais também estariam. De qualquer modo, nos próximos dias é melhor mudá-los também. Achas que 35

podem ficar com a Ana?” “Sim, eles conhecem-na bem e assim sempre ficam com alguém conhecido. E eu? Quando é que posso juntar-me a eles e dizer-lhes que está tudo bem comigo?” O Ezequiel olhou para o Vicente como que a dizer-me que ele não tinha qualquer poder de decisão sobre esse assunto - eu estava nas mãos do peixe graúdo. Suspirei deveras irritada, estava à mercê daquela estátua de David andante. Fiz uma careta ao Ezequiel que encolheu os ombros e continuei a falar diretamente para ele, e a ignorar o vampiro mais poderoso com tudo o que tinha. “Porque é que voltámos aqui?” “O Will achou que podíamos encontrar alguma pista por aqui, reconhecer alguém ou entender alguma coisa da trapalhada de ontem.” “Trapalhada é um eufemismo grande!” Ele sorriu de novo. “Tens razão. E tu, como sobreviveste a isto?” E abriu o braço direito como a lembrar que estávamos à beira de um lago de sangue e lama, restos de um edifício, órgãos e demasiados insetos. “Ela fez como todos os que estão entre a vida e a morte: lutou pela vida dela e fez melhor trabalho do que os que ficaram aqui e muitos dos que sobreviveram e ainda andam a monte.” O Ezequiel observou-me com redobrado interesse e eu não evitei olhar para o Vicente. Aquilo tinha sido um elogio? A cara dele continuava de pedra e cal e não se lia ali qualquer emoção. Desisti e voltei a concentrar-me no meu novo amigo que parecia estar a rebentar de curiosidade. “Tu lutaste mesmo contra vampiros?! Ele está a gozar ou a falar a sério?” “Lutei… mas o Vicente defendeu-me da maior parte.” O meu estômago deu outra volta. “Mas lutaste mesmo ou ele fez o trabalho por ti? Não tens uma única marca no corpo!” Eu fiquei simultaneamente divertida e apreensiva porque ele parecia genuinamente interessado, mas obviamente não tinha ideia das minhas capacidades ou do que eu era. O Vicente parecia saber mais qualquer coisa sobre mim. O pior é que eu também não fazia ideia do que tinha acontecido às minhas marcas de guerra, eu sarava depressa mas nunca da noite para o dia e tinha a certeza de ter partido muita coisa no dia anterior. Quando eu ia a responder ao Ezequiel, o Vicente cortou-me a palavra. “Ela lutou sozinha e fez um excelente trabalho mesmo sem ter uma arma adequada. E agora toca a bater terreno: Arzel ficas com o lado esquerdo e Ezequiel, tu ficas com o lado direito e eu vou pelo meio. Rita, tu ficas aqui.

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Aquele ar empertigado irritava-me profundamente e foi com algum esforço que mantive a minha língua guardada na boca. O Ezequiel olhou para mim como quem ainda tinha um milhão de perguntas a fazer, mas eu fiz questão de sair dali. Não só porque o Vicente tinha ordenado que eu ficasse, mas também porque queria afastar-me dali. Sem pensar, caminhei até ao balouço que parecia ter sobrevivido são e salvo ao desastre da noite anterior. Sentei-me, abanei-me um pouco e enumerei as hipóteses que tinha para fugir e que me permitiam viver para contar a história: nenhuma. Todas as que eu seguia viva acabavam com a minha captura. Não tinha para onde fugir e eles sabiam dos meus pais e da Ana. A parte boa é que o Ezequiel fez-me voltar a acreditar que eu estava do lado dos ‘bons’, a parte má é que o olhar do Ezequiel fez-me perceber que o vampiro que estava a guardar-me não era um qualquer, mas sim um chefe todo-poderoso. Suspirei e rolei os olhos, que raio de sorte a minha! Por outro lado, se eles estavam mesmo a proteger a minha família e eu sabia que eles queriam manter-me viva - e bem alimentada - provavelmente ninguém ia morrer hoje e eu podia viver para fugir noutro dia.

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Como identificar o inimigo (Vicente) O cenário era desolador: no meio daquela mistela de sangue e lama parecia que via mais cabeças do que restantes partes do corpo, o que era impossível. Conhecia tantas das caras ensanguentadas e desfiguradas que via… Que carnificina! Alguém ia pagar muito caro por isto. O Arzel e eu éramos os principais responsáveis pelas cabeças cujas caras não conhecia, mas um número assustadoramente grande pertencia à Rita. Não evitei olhar de relance para o balouço onde ela permanecia encostada a uma das cordas e a balouçar devagarinho. Assim parecia tão indefesa… e estava a dormir?! Por este andar não ia ser capaz de prever nenhuma das reações dela que não fosse fugir assim que visse a oportunidade. Não conseguia perceber se queria protegê-la ou se queria mantê-la à distância. Quando a vi na esquadra pela primeira vez pensei que era uma de nós com algumas variações muito promissoras, mas agora estava positivamente baralhado. Também não podia torturá-la para obter uma resposta, primeiro porque provavelmente não tinha coragem para fazer-lhe isso e depois porque não servia de nada. Ela parecia não saber o quão diferente era, apenas que tinha mais força do que o normal. Por outro lado, ela sabia lutar e defender-se a sério, aquilo envolvia treino de combate e portanto a história dela não batia certa. Por muito que eu quisesse acreditar nela, ninguém matava uma dúzia de vampiros em quinze minutos por muita adrenalina que lhe corresse nas veias. O poder de combate dela era impressionante e felizmente parecia ter apanhado toda a gente de surpresa. E no meio daquela confusão toda, ainda tinha sido um milagre ela ter tomado o nosso lado e realmente feito a diferença. Bem, a Rita era um mistério muito longe de estar resolvido. E pensando no verdadeiro causador daquela sangria: estaria ali o traidor? Tinha as minhas grandes dúvidas, os cobardes tendem a estar ocupados nos momentos decisivos. Saber que tinha sido um dos meus homens era mau, mas pior ainda era não ter sequer suspeitado do caso. E achava eu que avaliava bem as pessoas! A Rita era apenas outro contraexemplo. Como é que podia voltar a confiar nos vampiros que tinham sobrevivido? Aquelas perguntas sem resposta só me irritavam ainda mais. Ao menos não me restavam grandes dúvidas sobre quem estava a puxar os cordelinhos do ataque da noite passada. Infelizmente não tinha provas, mas essa podia ser também uma bênção porque iniciar uma guerra contra ele seria… bem, seria provavelmente a minha morte definitiva. Fartei-me de procurar pistas no meio daquele cenário desolador, mas infelizmente não restava nada que não fossem restos mortais ou armas. Ordenei ao Arzel que recolhesse e limpasse as armas - iam ser úteis com certeza. O Ezequiel tinha desistido antes de mim, mas eu não disse nada quando ele se afastou já que a cara dele oscilava entre o verde enjoado e um luto forçado por ver a expressão assustada e sofrida de amigos de muitos, muitos anos. Também me afetava, mas eu tentava ver aquilo como um alívio 38

final: passávamos demasiados anos a viver só porque sim e a morte tinha que ser libertadora de algum modo. Eu era bastante mais velho do que o Ezequiel e a experiência não me ensinava melhor, enquanto ele aproveitava para conhecer toda a gente e viver tudo ao máximo, eu preferia não criar demasiados laços desnecessários. Estratégias diferentes que levavam ao mesmo resultado: inevitável dor e uma grande dose de incompreensão ao ver os nossos mortos. Tapei os olhos com a mão direita, como se isso ajudasse a mudar o cenário quando voltasse a abri-los. Ouvi o Arzel a aproximar-se e voltei a abrir os olhos. “Quantas armas?” “Umas quarenta em bom estado, vou ver se consigo fazer alguma coisa de outras vinte que me parecem recuperáveis.” “Muito bem, mete tudo no jipe. Eu vou buscar o Ezequiel, onde é que ele está?” “Está ali ao fundo com a castradora.” Não evitei um sorriso quando ele voltou costas. À saída da esquadra todos tínhamos escutado o coração da Rita a bater acelerado e fora de ritmo, mas assumimos que era medo e não realmente mal-estar. Ela tinha provado que era mais obstinada do que pensávamos e infelizmente as partes mais sensíveis do Arzel estavam entre a Rita e o objetivo dela. Eu estava do lado dele - o som tinha-nos doído a todos - mas não deixava de ter a sua piada. Sem vontade de ir mais longe agora que estava perto do jipe, chamei o Ezequiel de volta. Nada. Resolvi aumentar o volume. “Ezequiel?” “Will, tens que ver isto.” Tentei não mostrar qualquer nervosismo, mas corri depressa até onde eles estavam. O Ezequiel olhou-me como se me tivesse materializado ali, mas a Rita nem levantou os olhos. Relaxei ao ver que ela estava bem e só depois segui a direção do olhar dela. Mal tapadas por ervas, ramos e pedras, estavam ali meia centena de estacas afiadas numa ponta. Cada uma delas tinha cerca de dois metros e meio e se me restava alguma dúvida sobre o que estariam ali a fazer, um monte de carvão ao lado tirou-me todas as dúvidas. “Vlad!” ouvi-me dizer em voz alta. Olhei para o Ezequiel que estava claramente assustado e que parecia precisar da minha conclusão para tirar a dele. “Vlad? Isso é o quê?” Ignorei a pergunta da Rita e falei para o Ezequiel. “Já não me resta qualquer dúvida. Assim temos provas de que foi ele que iniciou o conflito e permissão moral para visitá-lo um dia destes.” “Visitá-lo?! Will, sabes que és o meu melhor amigo e que tenho mais consideração pelo que pensas e fazes do que eu tenho pelos meus próprios pensamentos. Portanto vou dizer-te isto como amigo: estás bom da cabeça?! Isso não só é a tua morte como a de todos os que te seguirem!” 39

“Não te preocupes, eu não estou a pensar ficar por lá.” Menti eu. “Tens esperança de que ele morra de velhice quando lá chegares? Não tenho muitas dúvidas acerca do desfecho disto!” Ela aguentou trinta segundos calada, se tanto. “Importam-se de parar de ignorar-me? Eu só estou aqui porque vocês fazem questão disso! Que história é essa do Vlad e de planear um suicídio coletivo? O que são estas estacas? Ir lá aonde? Mas o que é que se está a passar aqui?!” Ignorei-a de novo. “Vamos embora, temos muito que pensar e perceber até podermos decidir o que fazer. Ezequiel, já sabes onde vai ficar a nova base e o que tens a fazer eu vou-te mantendo informado.” “E onde vais ficar?” “Ainda não tenho a certeza, mas acho que fico por casa… preciso de pensar.” Procurei a Rita porque ela estava calada há cinco minutos, já para não falar que não tinha um dedo acusador colado ao meu nariz enquanto ela recitava os direitos dela, e desvios de personalidade eram sempre preocupantes. Incrivelmente, ela continuava no mesmo sítio a murmurar qualquer coisa como ‘porcaria de rede’ mas essencialmente a ler qualquer coisa no telemóvel e a deixar-me em paz. “Vlad III, o empalador? Nascido em 1431 e também conhecido por Drácula?! Isto é não só uma falta de originalidade incrível no que toca a vampiros, como das coisas mais nojentas de que já ouvi falar! Até me espanta esta… errr, tática não ter sido inventada pela Inquisição. Eu não me aproximo dessas estacas nem mais um milímetro, sei lá se eles não as reciclam!…” E continuou a desenrolar um monólogo impressionante no caminho até ao carro. “Tenho que arranjar um telemóvel com internet…” Deixei escapar novamente em voz alta. “Eu ouvi bem? A pessoa que tivemos que obrigar a arranjar um telemóvel agora navega na internet?!” Encolhi os ombros, apesar da minha resistência inicial, a tecnologia até tinha as suas vantagens. “Não posso navegar contra a corrente, e é realmente o melhor método para juntar uma quantidade absurda de informação inútil em tão pouco tempo! Queres que te diga o quê? Que estou a tentar desviar-me da minha personalidade dominante de Velho do Restelo?” “Pelo menos cultura portuguesa não te falta, o que num britânico é bonito de se ver!” “Falando de coisas mais sérias: leva os pais da Rita e a Ana para um local seguro e telefona para o trabalho delas. Pergunta à Ana quem é que pode dar pela falta delas e trata de justificar o desaparecimento. Já contratei pessoal para trabalhar na base e dentro de três meses deve estar tudo operacional. Vai dando uma vista de olhos às obras e compra tudo o que achares que faz falta por lá. Esqueci-me de alguma coisa?” 40

“E até lá?” “Esperamos… E rezamos para encontrar uma boa solução.” Não evitei olhar para o céu para dar a entender que uma ajudinha divina dava jeito.

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Como voltar a despertar A minha visão do mundo estava seriamente abalada por ventos de tempestade. Os meus sonhos nas últimas três noites percorriam cenas de empalações e eu tinha visões do Drácula que me faziam acordar aos gritos e com o coração na boca. O Vicente parecia não dormir e tinha passado as últimas quarenta e oito horas fechado no escritório de volta do computador ou agarrado ao telemóvel. A história do Vlad e das estacas tinha-me abalado, e por muito que quisesse reclamar quando ele me trouxe para aqui sem querer saber a minha opinião, a verdade é que a voz morreu-me na garganta assim que vi o chalé. Era todo forrado a madeira e estava estrategicamente colocado no meio das montanhas ao lado de um riacho - era um autêntico santuário. Os quartos estavam no andar de cima, que era muito mais pequeno do que o andar de baixo que incluía a sala, a cozinha e o escritório. A sala era o meu sítio preferido: tinha dois grandes sofás cor de pele e acabava numa lareira de canto. Não fazia ideia da profissão dos vampiros, mas este tinha tudo: dinheiro e bom gosto! As paredes da sala eram na verdade os vidros das janelas tirando algumas estruturas de suporte, ou seja, as janelas eram enormes e uma delas tinha uma vista perfeita para o riacho. Adorava sentar-me no sofá e olhar através dessa janela até acabar por adormecer ali. Só sabia que não estava sozinha naquela casa porque continuava a acordar no meu quarto todas as manhãs. Passei o primeiro dia em estado letárgico enquanto forçava a digestão da nova informação. Não troquei uma única palavra com o Vicente e acho que ele também preferiu assim. No segundo dia atrevi-me a sair da casa porque achei que o contacto com a Natureza ia fazer-me bem. Dei uma voltinha pela floresta e sentei-me à beira do riacho a ler - a casa tinha imensos livros e ninguém ia dar pela falta de um. Talvez por ter ficado perto da casa, não senti ninguém a vigiar-me e isso acabou por relaxar-me. Mais estranho ainda, já não tinha qualquer vontade de fugir. A minha família e única amiga estavam mais seguras com o Ezequiel do que comigo. E eu… bem, eu tinha a certeza de que não queria estar do lado dos adoradores de estacas. Despertei para o meu terceiro dia ali - ainda estava viva e isso tinha que ser positivo. Levantei-me da cama sem sentir que tinha realmente descansado, como já começava a ser hábito. Entrei na casa de banho do quarto e liguei o duche, não sem antes dar uma de masoquista e olhar-me ao espelho. Se continuasse assim, as minhas olheiras iam chegar ao pescoço nos próximos dias. Encolhi os ombros e entrei no duche. Deixei a água escorrer pelo cabelo durante imenso tempo, mas só despertei a sério quando passei uma mão pela barriga e ouvi um protesto bem alto do meu estômago. Eu não comia há dois dias e parecia impossível que a fome só tivesse aparecido agora, normalmente eu comia por três pessoas a qualquer hora do dia! Sequei-me à pressa, vesti um robe que estava pendurado na porta e deixei o cabelo molhado porque a casa estava sempre a ferver - ali tinha mais facilmente febre do que uma constipação. Desci as escadas e fui direita à cozinha sem saber muito bem o que podia encontrar. O Vicente apareceu subitamente na porta da cozinha e eu 42

saltei de surpresa, será que ele tinha ouvido o ronco do meu estômago? “Há comida na despensa, o frigorífico e congelador estão cheios, o forno é elétrico e está tudo ligado e pronto a usar.” Abriu os armários de cima, claramente fora do meu alcance, e continuou. “Aqui estão a tostadeira, a torradeira, os tachos e frigideiras e a cafeteira elétrica. A máquina de café e a chaleira estão naquela bancada. Se precisares de alguma coisa pede.” E voltou a sair. Tinha sido o ‘bom dia’ mais estranho de sempre - e eu tinha tido uns bem estranhos, como acordar e reparar que o meu namorado tinha saído durante a noite e levado metade do recheio do meu apartamento com ele. Fiquei parada uns minutos no centro da cozinha e acabei por decidir que precisava de um escadote para chegar à torradeira. Tentei a primeira porta porque me parecia ser ali a despensa, mas afinal era a lavandaria. Parei por momentos quando me apercebi - com algum horror à mistura - que andava com a mesma roupa desde que tinha chegado e completamente saltado aquele pormenor de trocar de roupa interior! Foi como acordar de um sono profundo, o que é que se passava comigo?! Esqueci-me de comer e de vestir… uh, ao menos tinha começado o dia com um banho. Senti o sangue a circular de novo com vontade e decidi que tinha que trazer a Rita de volta e enterrar aquela estranha personalidade vegetal. Mas primeiro tinha que fazer o pequeno-almoço e para isso precisava de um escadote. Tentei a segunda porta depois da máquina de secar roupa mas dava acesso à garagem. Voltei para a cozinha e tentei a porta que se seguia - bingo! Tirei todos os tipos de doces e geleias que encontrei, assim que consegui recuperar-me da surpresa de ver uma prateleira coberta de After Eight. Virei costas à despensa e despejei o meu saque na bancada da cozinha. Só depois disso é que senti o cheirinho do pão fresco - afinal não precisava da torradeira. Abri a caixa de madeira em cima da bancada e lá estava ele. Já a salivar, cortei várias fatias e deliciei-me a abrir os boiões todos e a experimentar um bocadinho de cada um. Quando cheguei ao último bocadinho que não consegui enfiar no esófago, e sem querer entupir também a traqueia, saltei do banco alto para arrumar as coisas. Enquanto arrumava a cozinha fiz uma lista mental do que tinha a fazer: precisava de ir buscar a minha roupa ou comprar roupa nova e precisava mesmo do meu portátil para ir adiantando trabalho enquanto estava ali. Sem saber muito bem como abordar o Vicente, resolvi colocar as quatro fatias de pão que tinham sobrado e alguns doces diferentes num prato. Aqueci o café no micro-ondas, meti tudo num tabuleiro e inspirei fundo enquanto saía da cozinha e entrava no escritório. “Posso?” “Precisas de alguma coisa?” Entrei no escritório mesmo sem a autorização dele e fiquei espantada com o excesso de arrumação: os livros nas prateleiras pareciam estar organizados 43

por ordem alfabética, altura e espessura, não havia uma caneta fora do sítio e ele estava sentado numa secretária imaculada ao centro. Novo suspiro. Avancei mais um pouco, pousei o tabuleiro na secretária e olhei-o como se fosse a primeira vez que o via nestes três dias - o que era verdade. “Olá!” A minha voz saiu rouquíssima - não fazia ideia de que não falar durante três dias tinha destes efeitos secundários. “Achei que eras capaz de ter fome.” “Hum, achaste bem. Obrigado.” Ele puxou o tabuleiro para perto dele e pareceu contente com o que viu. Como continuei impávida e serena em frente a ele, o Vicente acabou por indicar-me a cadeira mais próxima e eu sentei-me. A ideia de que estava sem roupa interior saltou-me ao pensamento sem qualquer aviso e eu corei despropositadamente. “Queres dizer-me alguma coisa?” “Sim. Hum, eu preciso de ir buscar a minha roupa. E também gostava de ter o meu portátil de volta para ir adiantando trabalho enquanto estou aqui.” Não me apetecia aguentar o peso do olhar dele e olhei antes para o monitor em cima da secretária. Foi com surpresa que reparei que o monitor era mais uma peça de museu do que outra coisa e parecia daqueles que funcionavam a fósforo e mostravam as letras a verde num fundo preto. Ele olhou-me com um ar divertido. “Eu confesso que estava a estranhar andares com a mesma roupa há três dias, mas tens roupa nova no teu quarto. Infelizmente não podes ter o teu portátil de volta porque alguém chegou primeiro do que nós e levou o teu portátil. Tinhas lá alguma coisa importante?” “Assaltaram-me o apartamento?! Não… a verdade é que passava tão pouco tempo por lá que a maior parte das minhas coisas ainda está na casa dos meus pais. Mas também levaram a minha roupa?!” Ele pareceu incomodado com a pergunta e demorou a responder. “Na verdade não. Fomos nós que queimámos a tua roupa.” “Queimaram-me a roupa?!” Hoje estava repetitiva. “Não sabemos se chegámos tarde ou não, pode ser que o assalto à tua casa tenha sido coincidência; mas em qualquer caso a tua roupa tem o teu cheiro e pode servir para te encontrarem.” “O meu cheiro? Eu cheiro assim tão mal que se note à distância?…” Ele riuse com a sugestão. “Não, claro que não! Mas o teu cheiro é diferente. Não sei explicar mas foi assim que soube logo que eras tu a razão pela qual tínhamos sido chamados à esquadra.” “Os vampiros têm um cheiro diferente?” “Eu não consigo diferenciar vampiros pelo cheiro, mas os humanos têm um 44

cheiro forte e distinto - acho que conseguia distinguir todos os humanos que conheço só pelo cheiro. E o teu… bem, tu és uma humana que cheira maravilhosamente bem e é como se fosse demasiado bom para ser real, sabes? Tinhas que ser sobrenatural.” Eu podia estar à espera de muita coisa, mas um elogio acerca do meu odor corporal não era uma delas. Ainda para mais não tinha tomado banho durante três dias de emoções fortes e cheirar bem não tinha sido uma prioridade. Ele riu-se da minha falta de reação. “Claro que agora cheiras a champô e a sabonete de mel e amêndoas.” Ele inspirou o ar como a saboreá-lo de olhos fechados “E ainda a geleia de morango, parece-me. Ou então é do prato de doces que me trouxeste.” Abriu os olhos e deixou sair um sorriso lindo - oh céus, cá vamos nós de novo. “É geleia de morango sim, mais concretamente ‘Casa de Mateus’ que é a minha preferida.” “Se precisas de um computador, podemos arranjar-te um.” Ele nem levantou os olhos do prato de doces. “Preferia ser eu a comprá-lo, já é esquisito o suficiente estar aqui a comer sem pagar.” Será que todos os raptados se sentem em dívida para com os raptores? Mas também, quantos é que os levam a passar férias numa casa de luxo na montanha? “Hum, acho que podemos discutir isso de outra forma. Precisamos de falar, ainda tenho umas coisas para fazer aqui mas tenho uma proposta para fazerte. Falamos ao almoço?” Acenei que sim com cabeça, levantei-me e saí do escritório. Dali subi as escadas a correr, fui direita ao ‘meu’ quarto e abri o roupeiro. Pois sim, não só havia roupa por estrear no roupeiro como em todas as gavetas da cómoda e ainda uns tantos sapatos pendurados na parte de trás da porta. Mas em que dimensão tinha eu andado nos últimos dias?! Abri a gaveta da roupa interior e tudo o que lá estava era bem mais sexy do que a minha roupa interior habitual. A crise notava-se porque faltavam ali vários centímetros de tecido. Fechei os olhos, mergulhei o dedo mindinho em gancho na gaveta e vesti a primeira coisa que pesquei. A sensação era esquisita, tinha dúvidas sobre se havia alguma diferença entre usar aquela roupa interior ou não usar nada, mas pelo menos não podia dizer que me limitava os movimentos. Vesti uns calções curtos e uma t-shirt já que a temperatura naquela casa era semelhante à de Amareleja em Agosto, e fui para a cozinha decidida a preparar o almoço.

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Como conquistar um vampiro pelo estômago Não sabia como explicar a súbita mudança, mas a sensação que me invadia de momento era felicidade. Tinham tentado matar-me, haviam malucos a empalar vampiros no século XXI, o Drácula existia de verdade, os meus pais e melhor amiga tinham sido declarados área nacional protegida e eu estava no meio das montanhas com um homem lindíssimo que me metia um medo do caraças. E estava feliz - viva a lógica, hem? Enquanto decidia o que fazer para o almoço, achei que a embrulhada em que estava metida merecia uma entrada calórica. Peguei então numa baguete, cortei-a em várias fatias sem nunca cortar até separar as ditas fatias e só quando estava a esmagar o alho para juntar à manteiga é que me ocorreu que alhos e vampiros não costumam andar de braço dado - segundo os livros e filmes sobre o tema. Bem, do meu ponto de vista o causador daquela inimizade só podia ser o alho porque haviam poucos sobreviventes a um hálito carregado de alho. Como o escritório do Vicente partilhava parede com a cozinha, resolvi experimentar uma coisa. “Vicente? Podes comer alho?” Sussurrei. “Sim, porquê?” “Alguma coisa que não gostes para deixar de fora do menu?” “Estás a cozinhar?” “Não disseste que falávamos ao almoço?” “Sim… mas eu estava a pensar em meter qualquer coisa no micro-ondas!…” “Se não te importas, como boa portuguesa faço questão de comer como deve ser.” “Muito bem, podes usar alho. Hum, não gosto de peixe cozido.” “Nem tu nem ninguém.” Ouvi uma gargalhada do outro lado. Isto era giro! Nunca tinha reparado que conseguia ouvir tão bem sem qualquer esforço. E então bateu-me: eu não conseguia ouvir assim tão bem. Eu sempre ouvi melhor do que as outras pessoas, mas não conseguia ouvir conversas noutra divisão a menos que estivessem a falar mais alto. Intrigada, saí para o jardim, fechei a porta e voltei a tentar. “Vicente, consegues ouvir-me?” “Sim, quer-me parecer que estávamos agora mesmo a discutir o almoço?” “Eu saí da cozinha e estou no jardim da casa.” “Preferes cozinhar ao ar livre?” “Eu consigo ouvir-te.” “Sim, acho que já tinha percebido isso porque continuas a responder-me.” “Eu ainda não tinha reparado.” “És assim tão boa a bloquear as outras pessoas?” “Não, eu não conseguia ouvir assim tão bem há uns dias atrás.” “Hum, já compreendi. Já falamos.” “Ok.” 46

Voltei a entrar na cozinha, arregacei as mangas e tentei não pensar no assunto. Afinal estava a envelhecer e ouvia bem - era melhor do que ficar surda, certo? Acabei de barrar o pão com a manteiga, espalhei queijo ralado por cima e ia a meter tudo no forno quando vi que o forno ainda tinha os plásticos. A casa não era nova, portanto cozinhar não era o forte de quem quer que fosse o dono. Tirei aquelas bugigangas lá de dentro e preparei-me para estrear a cozinha. Encontrei cogumelos no frigorífico e decidi-me por fazê-los com massa porque era rápido e ficava bom. Só não sabia o que fazer para sobremesa, mas não se podia ter tudo. Procurei a toalha, os pratos, talheres e copos e pus a mesa. Quando o relógio do forno deu sinal, tirei o pão e meti a massa a cozer no fogão. Depois desembrulhei o papel de alumínio, meti o pão quentinho numa travessa e levei-o para a mesa da sala. Não queria incomodar o Vicente de novo, mas esperava que o cheiro do pão quente o chamasse por mim. E funcionou… em tempo recorde! “Ena, ena! O que temos aqui?” Os olhos dele estavam definitivamente preparados para almoçar também. “A entrada: pão de alho com queijo!” “Entrada? Quer dizer que há mais?” “Claro!” “Se calhar eu é que devia pagar-te para tomares conta das refeições!” E nisto separou as fatias de pão e serviu-me primeiro - quem diria, no fundo era um cavalheiro. Falámos de coisas banais enquanto eu ia e vinha da cozinha para vigiar a massa que estava quase pronta, os cogumelos já estavam cozidos. Servi os pratos diretamente da cozinha e quando meti o prato do Vicente à frente dele, vi pela primeira vez os caninos dele a descerem. “Ah! Os teus dentes!” E aproximei-me imenso da boca dele para ver melhor. “Hum? Ups…” O Vicente parecia mesmo envergonhado. “Desculpa, isto não é suposto acontecer mas a massa está com tão bom aspeto que eu fiquei… hum…” “Excitado com a comida?” “Isso soa a ligeiramente pervertido.” Eu ri-me enquanto os caninos voltavam ao esconderijo habitual e perguntei-me como funcionaria o mecanismo por trás daquilo. “Os teus… hum, dentes saem sempre que ficas excitado com alguma coisa?” “Qualquer coisa desse género, sim.” “Pensava que estava mais relacionado com teres fome.” “Eu tenho fome, acho que nem tinha percebido quanta até o cheiro dos teus cozinhados ter tomado de assalto o meu escritório.” “Ainda bem que gostas, mas estava a referir-me ao sangue.” “Ah não, as presas não descem só quando sinto sangue. Agora foi… um momento embaraçoso.” 47

Eu sentei-me e provei finalmente a massa. A refeição tinha saído lindamente e embora fosse eu a cozinheira, quem merecia uma pancadinha nas costas eram os cogumelos frescos porque eram excelentes. “Não sei onde compras a comida, mas tanto os cogumelos como o pão são excelentes.” “Ah, eu telefonei para um supermercado e eles vieram cá encher a despensa no dia a seguir à nossa chegada. O pão é de um padeiro que aparece por aqui de manhã, ele também tem croissants.” “Não vi os croissants, compraste só pão ou escondeste os croissants?” Era uma piada mas ele ficou embaraçado. “Bem, err, eu comi os croissants todos esta manhã.” E apressou-se a justificar. “Ontem deitei-me sem almoçar nem jantar e estava esfomeado quando acordei…” Nem levantou os olhos do prato enquanto falava - era oficial: ele era um glutão envergonhado. “Eu nem ligo muito a croissants, mas estou contigo: hoje também acordei esfomeada!” Ele voltou a levantar os olhos azuis. “O almoço está ótimo, obrigado.” “Ainda bem, foi feito à pressa mas mais logo já faço um inventário à despensa e organizo as coisas para as próximas refeições.” “Oh, não precisas de fazer isso. A sério, eu contratei um cozinheiro mas ele só podia começar amanhã.” Fiquei honestamente desapontada com a notícia. A ideia de ao menos poder tomar conta da cozinha fazia-me sentir útil, o que é que ia eu fazer enquanto esperávamos sabe-se lá pelo quê? Ele deve ter notado a minha desilusão - malditos músculos faciais! “Ficaste triste. Gostas assim tanto de cozinhar? Se te faz assim tanta diferença, eu peço-lhe para ele não vir!” “Não é isso. Quer dizer, eu gosto de cozinhar mas ter um cozinheiro à nossa disposição deve ser incrível. É só que… hum…” Parei de comer e olhei para ele para tentar perceber se valia a pena contarlhe o que eu sentia. Se ele me ignorasse completamente nos próximos dias, esta era uma boa altura para deixar passar uma confissão. Ele parou também de comer e num gesto encorajador pousou a mão dele na minha, ainda que eu continuasse a segurar um garfo. A pele dele estava muito quente - não entendia a necessidade de ter o aquecimento central tão alto. “Não precisas de continuar se não quiseres, mas eu gostava de ouvir o que tens a dizer.” O meu coração decidiu ignorar o cérebro e deu-me ordens para desembuchar. “Eu sinto-me sozinha e ignorada! Ninguém me diz nada, ninguém me explica o que se passa, não sei do que estamos à espera e eu…” Desatei a 48

chorar e a falar ao mesmo tempo, a cara do Vicente só revelava pânico e provavelmente muita vontade de voltar atrás e calar aquela última frase. “Eu estou diferente! Oiço muito melhor do que devia, não faço ideia do que se está a passar e depois de tudo o que aprendi nos últimos dias, tenho medo de saber o que sou. Na noite da batalha via tudo desfocado e às manchas, não conseguia ouvir nem ver bem, estava tudo a desenrolar-se tão depressa! E depois…” Mais uma dose de soluços. “Depois a minha força aumentou de repente, eu comecei a ver e a ouvir bem, até a saber lutar e a defender-me! Eu sabia perfeitamente o que fazer! E como é que eu sabia o que fazer?! Eu matei tanta gente naquela noite!! Eu tenho um monstro dentro de mim, não tenho? Eu tenho qualquer coisa dentro de mim e é por isso que não me deixas ir a lado nenhum, não é? …” E tentei secar as lágrimas para que a próxima frase se percebesse. “E cozinhar fez-me sentir normal… outra vez.” Eu estava assustada porque até algumas das minhas palavras tinham sido novidade para mim, bloquear os meus próprios pensamentos dava nisto - era como ter uma crise de meia-idade aos vinte. Eu não sei quanto é que ele entendeu do meu discurso entre lágrimas, soluços e ranho. Muito ranho. Mas tenho que dar o braço a torcer porque em vez de fugir da mesa com a velocidade que eu sabia que ele tinha, o Vicente levantou-se e veio ter comigo. Depois baixou-se meio ajoelhado porque assim estávamos praticamente da mesma altura. “Desculpa, não fazia ideia… Não sabia que te sentias assim tão mal! É verdade que não tenho prestado muita atenção, mas parecias-me bem quando saíste para passear e ler. Pensando bem, estavas demasiado parada e calada depois de tudo o que viste.” Eu continuei a fungar e ele não teve outro remédio senão continuar o discurso. “Eu oiço os teus gritos à noite e não quero que te sintas assim tão sozinha, mas achei que ias passar-te completamente se acordasses comigo no teu quarto!” No meio daquele choro todo - completamente inapropriado diga-se - não pude deixar de sorrir entre duas fungadelas ao ouvir aquele comentário. Era certinho e direitinho que eu ia armar um escândalo enorme se o visse no meu quarto a meio da noite, isto se não morresse de ataque cardíaco primeiro. Por outro lado, de momento apetecia-me abraçá-lo e chorar sem parar. Incrivelmente, ele aguentou-se ali firme e hirto enquanto eu me desfazia em lágrimas e ranho, e continuou a falar. “E tens toda a razão. Vou tentar explicar-te o que se passa connosco e o porquê desta confusão toda. E embora não faça ideia do que se passa contigo, garanto-te que não estás possuída por nenhum demónio e que não tens nada dentro de ti porque isso é impossível, ok?” Eu não tinha tanta certeza, mas queria acreditar que sim. No meio de mais uma dúzia de fungadelas, ele pegou no meu guardanapo de pano e limpou-me 49

algumas lágrimas da cara. “Tenho uma ideia que pode ajudar-nos a entender o que se passa contigo, mas infelizmente não posso garantir resultados. Vamos começar pelo princípio e falar de vampiros.” Eu parei finalmente de chorar, e ele puxou a cadeira dele para perto de mim para termos a nossa primeira conversa a sério. A primeira coisa a reter sobre vampiros é que o que nos vendem sobre eles nos livros e filmes é uma treta desgraçada. Os vampiros podem andar ao sol e nenhum tem alergia a comida - bem pelo contrário como eu tinha acabado de testemunhar. Era verdade que podiam ser mortos com estacas de madeira, balas de prata e até alhos desde que fossem atirados com força suficiente. A ideia com que fiquei é que um vampiro era um humano estupidamente forte. Quero com isto de dizer que um vampiro morre de feridas fatais, tal como os humanos, só que dá muito mais luta até lá chegar. E o pormenor das células deles regenerarem mais depressa também dificultava a tarefa de matar vampiros. Era por isso que todos os vampiros que eu tinha decapitado com um ferro não tinham voltado à vida - perder a cabeça era uma ferida fatal. A segunda treta era a coisa toda de serem uma sociedade organizada. O grupo do Vicente não tinha a mais pálida ideia de quantos vampiros existiam - ou nunca tinha encontrado ninguém que soubesse - embora supusesse que existiam poucos já que eles andavam a passear na Terra há séculos e a marcarem-se mutuamente. A primeira tentativa de organização ‘mundial’ de vampiros parecia ter partido exatamente do Vicente que juntou alguns conhecidos para tentar entender de que era feito um vampiro e encontrar outros como eles. Outro mistério por desvendar era como ‘fazer’ um vampiro - ninguém sabia quantos ovos é que a receita levava. Fiz uma careta quando ele me explicou que as teorias mais populares que podiam ser testadas foram-no extensivamente antes de serem abandonadas - preferia não saber que drenar um humano era uma delas. Por outro lado, escusava de preocupar-me com efeitos secundários de qualidade duvidosa por ter sido mordida por vários vampiros na outra noite. Portanto o Vicente criou uma espécie de ‘família’ vampírica que se entretém a estudar a estrutura dos vampiros, estimar quantos existem e, caso existam, como detetar novos vampiros. E como os vampiros novos não estão anunciados nas páginas amarelas, eles desenvolveram um plano bem catita e ‘infiltraram-se’ nas esquadras, hospitais e sítios do género, de modo a poderem testar toda a gente que lhes passava pelas mãos. E foi assim que eu apareci nesta bonita salada romena: algum estupor analisou um cabelo meu ou o meu hálito ou sei lá o quê e dei positivo positivamente anormal. Estranhamente, eu era o primeiro teste que não era um falso positivo. Agora a ligação entre o meu teste positivo e a carnificina que se seguiu, e a consequente destruição do laboratório, caía campo teórico. O Vicente achava que alguém - claramente o Vlad mas ele não disse o nome queria ter acesso aos novos vampiros que eles encontravam. Talvez também para testá-los e ver se descobriam alguma coisa? Ou para usá-los para aumentar o exército pessoal dele? Ou nenhuma das anteriores? E havia ainda 50

outra hipótese a considerar: teria sido coincidência eu ter sido encontrada na noite da destruição do laboratório? Parecia difícil de acreditar, mas eu já não confiava nas probabilidades. Não resisti a fazer mais uma ou duas perguntas antes de passarmos à análise do meu distúrbio de personalidade. “Como é que vocês hipnotizam pessoas? E conseguem voar? Há vampiros com mais ‘talentos’ escondidos? E ler mentes?” Ele riu-se com vontade. “Eu hipnotizo as pessoas mais suscetíveis, como um hipnotizador comum faz. Mas nem todos os vampiros têm estas capacidades, por exemplo, o Arzel não consegue hipnotizar ninguém e o Ezequiel não é muito bom em combate porque não tem velocidade.” Foi estranho perceber que ele confiava em mim, as fraquezas dos amigos não se contavam assim. “Quanto ao voar, eu acho que é impossível mas sei lá… E a resposta sobre ler mentes é a mesma, nunca conheci alguém que fosse capaz de tal coisa - mas eu não conheço toda a gente.” “O poder vem com os anos? Eu sinto-te quando estás perto, mas não consigo sentir o Arzel nem o Ezequiel. É porque és mais forte do que eles?” Mais valia confessar isto também. “Tu sentes-me?!” “Sim, não sei até que distância consigo sentir-te mas sei quando estás perto. É estranho só funcionar contigo.” “Eu consigo sentir a presença de outros vampiros mas a tua não consigo.” Ele encolheu os ombros. “Enfim, que és um mistério já nós sabíamos. E sim, eu sou mais forte do que eles e é por isso que sou o mandachuva o nosso pequeno grupo. O poder não aumenta com a idade porque o Arzel é mais velho do que eu, parece ser um pouco aleatório. Mas se um vampiro treinar pode ficar ainda mais forte.” “Pois, tem lógica. Tu treinas mais do que eles?” “Não, nunca treinei.” E olhou-me com alguma expectativa. “Mas tinha esperança de começar a treinar contigo.” “Comigo?!” “Sim, é o que quero propor-te. Eu reparei que te transformaste durante o ataque ao laboratório e sinceramente achava que estavas a esconder-me alguma coisa.” O meu cérebro acendeu-se com um grande ‘Aaaaaaah’. “Mas depois destes dias e principalmente depois daquele momento mais histérico de há pouco, começo a acreditar que não fazes ideia do que aconteceu e de como controlar isso.” Eu ignorei o ‘histérico’ - era verdade de qualquer modo e acenei com a cabeça para incitá-lo a continuar. “A batalha acendeu qualquer coisa dentro de ti e pelos vistos continuas a sentir as alterações que sofreste. Acho que se te levares ao limite isso volta a sair e, quem sabe, talvez consigas controlar o que és.” A proposta dele encheu-me de medo e encolhi-me instintivamente. “Não achas boa ideia?” O tom dele tresandava a desilusão. “A ideia de ser um rato de laboratório não me deixa feliz, mas não é por aí. Compreendo que não tenho realmente grande escolha se quero saber o que sou ou o que posso ser. O que me assusta é não conseguir reverter o processo. Eu consigo ouvir-te mesmo estando no jardim - a minha audição não voltou ao 51

que era.” Ele levantou as duas sobrancelhas ao mesmo tempo, obviamente não tinha considerado essa hipótese. “Efetivamente não sei o que dizer. Tens o tempo que quiseres para decidirte, eu começo a treinar amanhã e se não quiseres juntar-te, eu compreendo. Na verdade não sei o que faria se estivesse no teu lugar.” A minha cobardia estava a deixar-me de novo à beira das lágrimas. O que é que eu queria mais? Descobrir finalmente porque é que eu era diferente ou fazer de conta que nada disto tinha acontecido? E se escolhesse a segunda, isso era sequer possível? Ele levantou-se da cadeira, aproximou-se de mim e num olhar de compreensão levantou-me o queixo com o indicador da mão direita. “Se decidires que preferes não tentar, eu mando o chef Ferdinand embora e ficas a tomar conta da cozinha, combinado?” E piscou-me o olho! Os vampiros também piscam olhos! E esta, hein? Eu acenei que sim entusiasticamente e sorri enquanto ele se manteve no meu campo de visão, mas o sorriso morreu assim que ele voltou a fechar-se no escritório. Qual era a decisão certa a tomar? Devia arriscar? E se me tornasse num monstro e nunca mais voltasse a ser eu? Perder-me não era propriamente uma grande desgraça para a humanidade, mas o meu ego não conseguia concordar. Será que eu podia viver sem saber exatamente o que era? Será que eu me importava de ficar na ignorância? Provavelmente não - eu tinha os meus problemas, mas gostava da minha vida. Esta era uma daquelas alturas em que dava jeito ter a ‘ajuda do público’ disponível… Duh, a que eu queria mesmo era a ‘50:50’ porque essa resolvia-me logo o problema!

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Como não treinar a sério (Vicente) Estava a tentar perceber quantos dos meus homens tinham sobrevivido ao ataque e quais aceitar de volta quando voltei a ouvir a Rita às voltas na cama mais pesadelos com certeza. Desta vez não me contive e subi até ao quarto dela. Abri a porta devagar e aproximei-me o mais possível para ver se percebia o que ela estava a balbuciar, mas também de maneira a dar-me espaço para fugir caso ela acordasse. A cólera de uma mulher, humana ou não, só era menosprezada pelos parvos. “Mais não Namah, a Tica está cansada.” Nova série de sons indecifráveis. “Um chocolate? A sério? Boa!” E nisto a Rita enterrou a cara na almofada e o resto do discurso saiu demasiado abafado para eu perceber o que quer que fosse. No entanto, a sucessão de ‘nhum nhum’ dava a entender que ela tinha conseguido o tal chocolate. Bem, ali não havia fogo nenhum e eu podia voltar para o escritório. Assim que voltei costas, a Rita gritou ‘Não!!’ e eu ia morrendo de susto. Olhei para trás e ela continuava de olhos fechados, mas agora sim parecia estar a ter um pesadelo. Não resisti e aproximei-me da cama, talvez ela não acordasse. A Rita estava visivelmente transtornada e a cara mostrava dor - eu duvidasse muito que a culpa fosse do chocolate. “Shh, está tudo bem. Descansa e dorme.” Sussurrei ao ouvido dela. “Não!” Mesmo a dormir era teimosa, livra! E nisto começou a chorar baixinho, as lágrimas escorriam-lhe mesmo pela face. E cá íamos nós testemunhar outra vez a torrente de lágrimas que os olhos da Rita eram capazes de criar. Confesso que aquele me pareceu o momento ideal para bater em retirada, mas porque é que eu tinha subido logo em primeiro lugar?! “Não, Namah! Não vás embora! Não!” Outro grito que me furou os tímpanos. “Namah, eles são maus! Não vás embora! Não deixes a Tica sozinha… a Tica promete que corre mais e ganha mais força! Fica Namah!” Uau, isto era intenso. Quem seria o ou a Namah? E a Tica? Soava a nome de cão ou assim. Perdido nos meus pensamentos, nem reparei que a Rita tinha acordado do pesadelo - provavelmente por estar a gritar alto e bom som. Assustámo-nos mutuamente. “Bolas Vicente, que susto! O que é que estás aqui a fazer?” Ela sentou-se na cama. “Não paravas de gritar, vim cá acima ver se estava tudo bem. Desculpa, não 53

queria assustar-te mas nunca tinhas gritado tão alto.” Era praticamente verdade. “Eu estava a gritar? Ok, devia estar a ter um pesadelo qualquer mas já estou bem, podes ir deitar-te.” Deitou-me um ar de relance e viu que eu ainda estava vestido. “Ou podes ir trabalhar - vocês nunca dormem?” “Dormimos, só algumas horas por noite mas dormimos. Ultimamente é que não tenho tido muito sono…” Estava para retirar-me quando a minha curiosidade levou a melhor. “Só uma pergunta: estavas a gritar porque alguém chamado Namá ia embora e deixava a Tica sozinha. Os nomes dizem-te alguma coisa?” A cara dela parecia um anúncio de néon com dificuldades de iluminação. Os nomes diziam-lhe claramente qualquer coisa, mas parecia que a ideia não chegava a completar-se. Eu duvidava muito que ela estivesse a fingir, afinal tinha acabado de acordar e ainda estava sobressaltada com o pesadelo. “Sim e não? Tenho ideia que sim, que significam qualquer coisa mas não consigo perceber o quê.” “Provavelmente não é nada. Vá, dorme bem e evita os pesadelos.” “Tica… Hum? Ah, boa noite!” Dava o meu canino superior direito em como ela não estava a mentir - seria importante? Ela parecia achar que sim. Bem, o melhor era pensar no assunto depois de passar na almofada. Mais dia menos dia ia cair para o lado de cansaço e quem sabe? Podia estar em maré de sorte e ser esta noite. No dia a seguir encontrámo-nos na cozinha ao pequeno-almoço, provavelmente ela também ouviu a carrinha do padeiro a chegar. As olheiras cada vez mais marcadas na cara da Rita gritavam alto e bom som que ela também não dormia nada de jeito desde que tinha chegado, mas em vez de ter pena dela deu-me vontade de rir porque eu estava na mesma. Ela levantou o sobrolho à minha aparente boa disposição matinal, mas resolveu concentrar as energias na máquina do café. Fiquei com a ideia de que ela já tinha tomado uma decisão sobre a nossa conversa, mas não disse nada. Quando ela estivesse pronta podia anunciar o veredicto. “Podes tirar a torradeira, se faz favor? Não chego lá acima.” “Sim, mas olha que o pão é de hoje.” “Eu sei, mas apetecem-me torradas.” “Muito bem.” Tirei a torradeira do armário de cima e reparei que todos os armários na cozinha tinham sido feitos à minha medida, o que tinha sido uma estupidez já que eu era mais bem alto do que o normal e só entrava ali para ir ao frigorífico. “Espero que o Ferdinand seja mais alto do que tu…” “Provavelmente é mais alto do que eu porque toda a gente é mais alta do que eu, mas daí a chegar a um desses armários ainda vai um grande salto! Acho que o melhor é deixares um escadote à mão. Ou ao pé.” “Bem visto. Vou trazer um para aqui se ele for baixinho.” O cheiro das 54

torradas da Rita chegaram-me ao nariz e eu comecei a salivar. “Ena, isso cheira mesmo bem! Fazes-me uma para mim também?” Enquanto comíamos as melhores torradas dos últimos anos, comecei a planear o meu treino. Precisava de treinar imensa coisa e, acima de tudo, aprender a treinar corretamente já que era também a primeira vez que ia enfrentar alguém mais poderoso do que eu. O olhar da Rita disse-me de novo que ela já tinha decidido e que só estava a ganhar coragem para contar-me comunicar a decisão em alta voz era como lacrá-la. Mesmo sem saber o que esperar, sentia que ela era importante e que viria a fazer a diferença. A Rita aclarou a voz… era agora ou nunca. “Confesso que estava mais inclinada por tirar o lugar ao Ferdinand, mas mudei de ideias depois da nossa conversa ontem à noite.” Eu esbocei um sorriso demasiado grande. “Já vi que ficaste contente… só espero estar a tomar a decisão certa.” “Infelizmente não sei responder-te, mas prefiro saber com o que podemos contar e evitar surpresas desagradáveis mais tarde.” Ela olhou-me cheia de dúvidas. “Porque é que mudaste de ideias?” “Por causa do meu pesadelo.” “Lembraste-te do que é que estavas a sonhar?” “Não, mas os nomes que me disseste são importantes. Não sei porquê, mas sinto que devia saber o que significam e não consigo parar de pensar nisso. Tenho que saber o que se passa senão dou em maluca!” “Vai correr tudo bem.” Sentia-me feliz como um puto pequeno. “Se sentires que alguma coisa está mal avisa-me logo, combinado?” “Sim… E começamos já hoje?” “Assim que o Ferdinand se der ao trabalho de aparecer!” O Ferdinand era exatamente como eu esperava que fosse: era gordo (nunca na vida confiaria num cozinheiro magro) mas as pernas pareciam demasiado finas para suster o peso dele. Era praticamente da altura da Rita (nota mental: arranjar um escadote para a cozinha), tinha as faces muito rosadas como se tivesse acabado de chegar de uma maratona e usava um lenço vermelho ao pescoço. Só não esperava o bigode impossivelmente fino que lhe saía da cara e que me colocou algumas questões sanitárias. A Rita limitou-se a murmurar qualquer ininteligível como “É o Louis!”. Eu ignorei-a porque não entendi o que ela queria dizer, e apresentei-nos ao Ferdinand. Algumas indicações depois, ele fez-nos uma vénia e fugiu para a cozinha. “Ele é igualzinho ao Louis!” Às vezes eu e a Rita não comunicávamos na mesma língua. “Se tu o dizes.” “Não me digas que nunca viste?!” “Nunca vi o quê?” “Tu nunca viste ‘A Pequena Sereia’!!” 55

“Não, mas li e que eu saiba não aparece nenhum personagem…” Ela nem me deixou acabar a frase. “A versão da Disney!” Custava-me a entender porque é que ela estava a olhar para mim assim - porque é que eu havia de conhecer uns desenhos animados quaisquer? “Então, vamos treinar? Ou vamos continuar a discutir desenhos animados?” “Como podes não conhecer uma obra-prima daquelas?!” E continuava a abanar a cabeça em sinal de incredulidade. Eu não compreendia como é que não conhecer um filme podia levar a uma reação daquelas, ainda para mais vindo de alguém que não gostava de After Eight. Deixei-a a debitar as qualidades da história, das músicas, do enredo, da bruxa, de um linguado (?) e fui abrindo caminho pela floresta até ao circuito que tinha preparado. “O percurso é circular e começa aqui.” Atei-lhe um cronómetro ao braço. “Estás a ver esta patilha no cronómetro? Se estiveres perdida carrega aqui porque isto tem um GPS integrado e assim sei onde estás. O caminho está marcado também nas bifurcações para saberes por onde ir.” “Para eu saber? Mas eu vou correr sozinha?” “Sim, eu vou dar o meu máximo e tu não vais conseguir acompanhar-me. A ideia é mesmo essa: quero que dês o teu melhor.” “Quantos quilómetros?” “Duzentos.” “O quê?? Duzentos quilómetros a correr?! Sabes que a maratona são quarenta e dois e é corrida por profissionais?!…” “E achas que correr uma maratona é um desafio para mim?” “Tens noção de que eu só consigo correr quinhentos metros?” “Catch me if you can!” E desapareci da vista dela. Fiz os duzentos quilómetros numa média de um quilómetro por segundo, mas estava à espera de mais. Tinha muito trabalho pela frente se queria enfrentar ‘o’ vampiro. Ainda por cima correr não tinha muita piada mas tinha que ser. Voltei a passar pela Rita que ainda estava praticamente no mesmo sítio, mais a passear pela floresta do que propriamente a correr. Já estava à espera que ela não se esforçasse muito, mas aquilo também era demais. “Isso é que é correr, hem?” “Vai chatear outro, eu estou a fazer o melhor que posso sem rebentar o baço!” “Estou a ver, acho que temos que mudar de tática. Vamos fazer assim: cada minuto que estejas atrasada - e eu estou a fazer um quilómetro por segundo vai converter-se numa flexão e num abdominal quando chegares.” E voltei ao meu sprint. 56

“O quê??” Ecoou na floresta. Nunca tinha treinado ninguém na vida (nem na morte, já agora) e não era tão fácil como parecia - não fazia ideia de como motivá-la a correr a sério. Continuei a dar-lhe voltas de avanço até que desisti e fui para o ginásio treinar com armas. A Rita entrou em casa uma hora depois, o que me levantou sérias dúvidas. Fui ter com a Rita à cozinha onde ela estava a dar cabo das reservas de água de uma semana, mas sem dúvida que parecia desidratada e os olhos dela brilhavam naquele dourado intenso que não augurava nada de bom. E ela estava chateada… provavelmente comigo. “F*da-se! Mas tu és maluco?!” E parou para respirar. “Eu podia ter morrido hoje!” Mais uma pausa para respirar. “Podia ter-me perdido ou ser apanhada numa armadilha para ursos! Ou atropelada por um javali, eu sei lá!” E voltou a embarcar água como se não houvesse amanhã. “Fizeste os 200km em duas horas e meia?” “Eu sei lá quanto tempo é que demorei para chegar aqui, mas marca bem as minhas palavras: eu NUNCA mais faço aquilo, estamos entendidos??” Nova pausa para respirar. “E tira o cavalinho da chuva se achas que vou fazer um trilião de flexões!”. Pausa para beber água. “Onde é que se enfiou o Louis? Eu vou tomar banho e espero ter um banquete à minha espera assim que descer!!” “Certo… eu aviso o Ferdinand. E antes de tomares banho, podes dar-me o cronómetro? Obrigado.” Vendo pelo lado positivo, a Rita estava definitivamente de volta e a aquela apatia assustadora tinha desaparecido. O lado negativo é que podia ficar sem cabeça a qualquer momento. Liguei o aparelho para confirmar que ela não tinha aldrabado a corrida e parecia que não - pelo menos 200km tinham sido percorridos e em menos de três horas. Incrível! Resolvi passar para o registo cardíaco para ver o que tinha acontecido para explicar aquele tempo. A corrida começava ao ritmo normal, mas a dada altura o coração dela tinha disparado brutalmente - ela ainda estava viva?? - e depois baixado subitamente e continuado assim, ainda que a uma velocidade surpreendente até chegar ao fim. Assobiei baixinho, impressionante. Queria saber o porquê daquela mudança e resolvi utilizar o método dela para comunicar comigo, na volta conseguia irritá-la só mais um bocadinho. “Rita, aconteceu alguma coisa durante a corrida? O teu ritmo cardíaco disparou imenso mais ou menos trinta minutos depois de começares a correr.” “Mas nem se pode tomar banho descansada nesta casa? Que coisa! Sim aconteceu: ia morrendo de medo sozinha a correr numa floresta à espera de ser atacada por um animal selvagem qualquer. Depois concentrei-me em chegar a casa para poder estrangular-te devagarinho mas achei que que se calhar estava a ignorar métodos mais giros, como arrancar-te as vinte unhas uma a uma. E pronto, foi o desejo de vingança que me trouxe de volta.” Ela era 57

adorável quando se irritava. “Sempre às ordens Ritinha!” “Vai-te f…” A mesa já estava posta quando ela desceu. Foi com alívio que vi que os olhos dela estavam menos brilhantes e mais da cor do âmbar, mas ainda assim não era a cor normal. Sentou-se sem olhar para mim e gritou para a cozinha: “Já cá estou! Que venha o manjar!”. Eu ri-me e esperei sinceramente que o Ferdinand tivesse sentido de humor, mas acima de tudo muita paciência senão não ia sobreviver nem ao primeiro dia. O Ferdinand apareceu pouco depois com dois pratos enormes - onde é que ele tinha desencantado aquela louça? mas infelizmente a comida só ocupava um décimo do prato e consistia num pedacinho de salmão rodeado por um anel de arroz com passas e pinhões. Contei mentalmente: três, dois… “Louis, isto é coisa que se apresente?!” Nem tinha chegado aos cinco segundos. “Mas mademoiselle…” “Mademoiselle nada que estamos em Portugal! Louis, eu acabei de correr duzentos quilómetros - sabes quanto é que isso é? Estou esfomeada, preciso de repor as minhas energias e tu trazes-me o quê para comer? Uma variante à resina para preencher uma cárie?! Ora volta lá para dentro e traz-me uma costela grande mal passada acompanhada com batatas fritas e um ovo estrelado, está bem? E entretanto vou fazer uma sande de queijo porque estou a morrer de fome.” “Mas…” “Se faz favor?!” E o Ferdinand retirou-se extremamente embaraçado mas não agravado, o que me pareceu um bom sinal - com sorte ficava até à hora do jantar. Coitado, até eu estava com pena dele mas uma costela soava muito melhor do que aquela quantidade ínfima de salmão. E não era eu que ia discutir com a Rita enquanto os olhos dela não voltassem à cor normal. De qualquer modo, comi o salmão e o arroz numa tentativa de demostrar alguma solidariedade masculina. Infelizmente fiquei com fome, como era de prever. “Se calhar podias ter provado o salmão antes de dizer mal?” “Só por isso não te faço nenhuma sande.” Toma que é para aprenderes a estar calado. Numa amostra de grande desportivismo, o Ferdinand lá apareceu com duas costelas grelhadas que eram maiores do que os pratos - suspirei de alívio ao ver que eram duas. A Rita começou a salivar mesmo antes do prato tocar na mesa e comeu tudo enquanto o diabo esfregava um olho. Suponho que a sande de queijo, fiambre, tomate, alface, peru e um bocadinho de maionese estivesse a sentir-se sozinha no estômago dela. Mas há que dizer que quando acabou de limpar o prato 58

pela segunda vez - lembrou-se de dar os parabéns ao Ferdinand, chamou-o pelo nome certo e tudo. “Ferdinand, era mesmo disto que eu estava a falar! Muito bom! Muito obrigada, estava excelente! E agora acho que vou dormir a sesta, sinto que preciso de pelo menos duzentas horas de descanso para recuperar desta manhã.” “Antes de adormeceres, escolhe o portátil que queres comprar para encomendar - pode ser que ainda chegue amanhã.” A cara dela acendeu-se e eu podia jurar que tinha havido ali uma ideia que ia além do que eu lhe tinha pedido para fazer. Ignorei a sensação e fui descansar um pouco também, aquele almoço merecia uma boa digestão. Acordei perto das quatro horas espantado por ter realmente adormecido e apressei-me a descer para ver quem estava à porta. Abri a porta e encontrei um senhor muito sorridente rodeado de caixas de cartão. “Sim?” “Vicente Fa Cap?” Ouvi o riso dela no andar de cima e tive que fechar os olhos e respirar fundo. “Não é bem esse o nome, mas é esta a morada sim. É o computador?” “Os computadores, sim. E também o router e dois monitores planos trouxemos tudo ao mesmo tempo.” Antes que eu abrisse a boca, a Rita apareceu. “É exatamente essa a encomenda e foi comigo que falou há pouco ao telefone. Ora o router pode ficar aqui na sala porque ainda temos que telefonar para ativar a ADSL. Os monitores são ali para o escritório, assim como o computador. O portátil pode ficar aqui nesta mesa que eu vou já abrilo.” “Rita, o que é isto?!” Eu estava a ficar verdadeiramente chateado. “Surpresa!!” E voltou-se para mim com um sorriso que rivalizava o da Manuela Moura Guedes depois da operação plástica. E desapareceram os dois para o meu escritório, sem perguntar sequer se podiam entrar quanto mais alterar tudo. De chateado passei a estar furioso, mas não queria descarregar em cima do homem das entregas. Fui então fervendo em banho-maria enquanto eles ‘remodelavam’ o meu escritório, vazavam as caixas e passavam cabos por todo o lado. Assim que ele saísse, eu e a Rita íamos ter uma conversinha a dois e ela ia voltar a pôr tudo como estava e provavelmente devolver o portátil. Pareceu-me uma eternidade, e eu já devia deitar fumo pelas orelhas, mas o homem foi finalmente embora e eu fui direito ao escritório. De novo, ela atropelou-me e falou primeiro. “Agora sim: SURPRESA!” Ela estava mesmo feliz por ter tornado o meu escritório na sala de 59

operações da ESA, mas os dois (!) novos monitores que tinha no escritório eram realmente impressionantes em termos de nitidez e mostravam o Arzel e o Ezequiel, um em cada monitor. Esqueci-me do que ia dizer quando os dois disseram mais ou menos ao mesmo tempo: “Bem vindo ao século XXI chefe!” “Como é que ela conseguiu isto?” “É giro, não é? E sai mais barato do que usar o telefone.” A Rita sorriu e saiu para deixar-nos a falar a sós, mas não pude evitar lembrá-la que ainda tínhamos muito que conversar.

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Como treinar a sério O meu humor continuava em alta, mas infelizmente os meus sentimentos pareciam inversamente proporcionais aos meus desempenhos físicos. Acordava feliz, vestia uma das mil e uma roupas que ainda não tinha experimentado e tomava o pequeno-almoço. Depois ia correr com o Vicente que é como quem diz: ia vê-lo desaparecer em dois segundos. Após umas horas de sofrimento atroz chegava finalmente o meu momento preferido: o almoço! O Louis tinha entendido a mensagem e a comida agora era de comer e chorar por mais, nada de pratos quadrados com meia ervilha ao meio. Passado aquele pequeno desaire inicial, e tal como um cão, agora babava-me assim que me sentava à mesa. Durante a tarde se não adormecesse fazia alguma pesquisa na internet sobre vampiros. Às vezes até adiantava o meu artigo enquanto lia as notícias, mas qualquer tarefa terminava assim que sentia o cheiro da comida acabada de fazer. Hoje era outro dia assim: acordei cheia de energia e abri a janela de par em par, feliz por estar no meio da floresta. O ar fresco que entrou arrepiou-me, assim como uns pingos de orvalho que se soltaram do telhado diretamente para o meu olho direito. Afastei-me e olhei para a janela como a desafiá-la a quebrar a minha boa disposição. Vesti-me à pressa quando o cheirinho do pequeno-almoço atingiu a minha narina direita e corri até à porta da cozinha para espreitar. O Vicente ia-me matando do coração quando apareceu por trás, também ele curioso a tentar ver o que eu estava a espreitar. “O que é que estás a fazer?” Sussurrou. “A espiar o Louis.” “Porquê?” “Aquelas tostas mistas têm que ter um segredo qualquer! São boas demais para serem apenas fiambre e queijo.” “Sabes que és estranha até para um vampiro com trezentos anos?” “E tu sabes que… hum, errr… esquece.” “O que ias a dizer?” “Alguma coisa que superasse os trezentos anos, mas a modos que estás demasiado putrefacto para conseguir arranjar uma coisa que supere isso!” “Eu não estou putrefacto!!” “É verdade, bem pelo contrário… Tens que dizer-me qual é o sabonete que usas.” Ele desistiu de espiar-me a espiar, fechou os olhos, abanou a cabeça e foi-se embora. Meia hora depois de engolir quatro tostas mistas quase sem mastigar, o Vicente agarrou-me no braço e levou-me para a cave em vez da floresta para a corrida habitual. “Hoje vamos tentar uma coisa diferente, já vi que não conseguimos repetir a tua façanha do primeiro dia.” “Ah, finalmente! Já estava a ficar sem ideias para batizar os esquilos.”

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Ha, nunca falhava! Eu adorava ver a cara dele sempre que eu dizia qualquer coisa caída do céu. Aqueles momentos em que ele tentava agarrar-se desesperadamente à lucidez e encontrar nexo no que eu dizia, com os olhos muito abertos e uma expressão que chegava a dar-me pena. Desta vez demorou quase um minuto a recompor-se. “Pois… portanto, err, dizia eu que vamos experimentar uma coisa nova: lutar com armas.” “Armas? Tens licença de porte de armas?” “Armas brancas. Em particular, katanas.” “O que é uma katana?” “É um sabre longo, lembras-te da noite do ataque? Era a arma que eu estava a usar.” E como uma imagem vale mil palavras, ele foi buscar uma e mostrou-ma. Eu tive medo de chegar perto e estiquei apenas o pescoço para ver melhor. A arma era enorme, tinha perto de um metro de lâmina e o punho estava ornamentado de modo muito simples, mas bonito. Todo preto, parecia ébano, e tinha pequenos losangos incrustados que talvez fossem madrepérola. Fiquei realmente surpreendida por ter gostado tanto do aspeto do sabre e aproximeime para tocar-lhe mas o Vicente retirou-o prontamente do meu alcance. “Ah não, este é o meu. O teu é aquele ali mais pequeno.” “Eu tenho um?!” Olhei para o sabre que estava pousado num suporte na parede e tirei-o. Parecia-me ainda mais bonito do que o outro: a decoração era semelhante mas o punho era vermelho escuro. A lâmina era consideravelmente mais curta, mas ainda assim eu com uma coisa daquelas era um desastre à beira de acontecer. “Achas que é seguro eu ter uma coisa destas na mão?” “Honestamente não, mas estou a ficar sem ideias. Alguma coisa mudou dentro de ti quando estavas a lutar e pode ser que apareça de novo.” “Qual é a vantagem de lutar com uma coisa destas em vez de uma pistola ou assim?” “Ao contrário do que aparece nos livros, e como eu já te disse, os vampiros são como humanos com muita força e sentidos mais apurados.” “E com uns dentes longos que sugam sangue.” “Isso também. E portanto as balas não perfuram a pele de um vampiro com a mesma facilidade, mas longe de mim dizer que somos imunes ao fogo de bazucas ou assim. Se bem que com a idade a nossa pele torna-se cada vez mais num escudo… Mas quero eu dizer que a decapitação resulta extremamente bem.” O meu estômago deu uma volta quando olhei para a arma que tinha na 62

mão e imaginei o sangue escuro a escorrer pela lâmina, enquanto uma cabeça saltava fora do corpo. Se calhar duas tostas mistas tinham sido suficientes… Fechei os olhos e tentei pensar em caramelos. “Rita?” “Estou só a ter um momento íntimo com o meu estômago.” “Com o teu estômago?! Tu decapitaste uma dúzia de vampiros na outra noite com um cano de metal e agora só a ideia de segurar numa arma deixa-te assim?…” As imagens da minha memória substituíram as imagens dos caramelos e tive que ir a correr para a casa de banho para uma manobra de evacuação. Minutos depois deixei-me cair no chão até ficar sentada encostada à sanita a rever as imagens daquela noite. Porque é que o meu corpo estava a comportarse assim? Eu tinha matado pelo menos uns quinze vampiros e não me pesavam na consciência. Pior é que as mortes tinham sido realmente violentas e o meu estômago não pareceu ter nenhum problema com isso naquele momento. Será que eu conseguia trazer aquela Rita em modo de guerra de volta? Será que eu queria trazer aquela Rita de volta? Se calhar era melhor usá-la apenas em caso de vida ou de morte. “Rita? Estás bem?” “Sim, vou já. Desculpa.” Assim que abri a porta da casa de banho para sair, uma lâmina atravessou à minha frente ao nível da garganta e o tempo desacelerou, vi-a chegar em câmara lenta e puxei o queixo para trás. A lâmina acabou por enterrar-se na moldura de madeira da porta. Como ia a andar em frente e puxei a cabeça para trás quando a lâmina apareceu, acabei por desequilibrar-me e cair de costas. Sem saber como, aproveitei estar no chão para apanhar o sabre que tinha deixado encostado ao lavatório e levantei-me com ele empunhado, atenta a todos os sons para perceber de onde vinham e quem era a ameaça. Esperei durante uns segundos e como não aconteceu nada, resolvi usar o meu sabre para empurrar a espada que estava atravessada na porta a bloquear-me a saída. Foi nesse momento que percebi que a espada era na verdade o sabre do Vicente e que ele tinha corrido a apanhá-lo antes dele cair ao chão. “Vicente? O que é que se passa?…” O Vicente soltou um urro e veio direito a mim. Os olhos dele pareciam gelo azul e eu nem me mexi a tentar perceber de onde vinha aquela cor e porque é que ele estava a atacar-me. A minha tentativa de racionalizar o momento não ganhou a luta e o meu instinto de sobrevivência entrou em ação quando saltei para o lado para fugir do sabre e também de estar encurralada na casa de banho. Ele mudou rapidamente de trajetória e continuou a atacar-me. Desta vez não baixei a guarda e mantive-me atenta, consegui bloquear-lhe os golpes 63

todos mas não desferi nenhum. Ele foi aumentando o ritmo das estocadas e eu comecei a ter dificuldade em focar o movimento, não tardou muito até que o meu braço tivesse um corte profundo. Arrepiei-me porque senti o corte exatamente como se tivesse sido uma folha de papel a cortar-me o braço. Abafei um grito indignado e enquanto tentava proteger-me dos mais variados ataques, ele fez-me um corte idêntico na mão esquerda. Conforme a minha irritação crescia, lembrei-me que na noite do ataque ao laboratório tinha conseguido ver os ataques em velocidade normal após alguma concentração. Olhei fixamente para a mancha que parecia fumo na minha vista e concentreime até ver o brilho azul dos olhos do Vicente. Quando ele me cortou de novo mas agora na barriga, saiu-me um ruído esquisito da garganta e ataquei pela primeira vez - senti uma descarga de adrenalina e passei a conseguir discernir os movimentos todos. A maioria das estocadas resultava apenas no cruzar das lâminas, mas destruímos uma boa parte dos pilares de madeira que eu esperava que fossem adornos e não elementos cruciais à estrutura da casa. Os vários suportes de armas nas paredes foram caindo conforme um de nós era empurrado contra a parede ou quando saltávamos contra a parede para ajudar a mudar de direção. Ataquei e defendi-me com tudo o que tinha, até que o Vicente tropeçou num dos suportes que tinha caído da parede. Imediatamente antes dele tropeçar, percebi o que ia acontecer e corri enquanto ele caía para levantar vitoriosamente o meu sabre com as duas mãos e trazê-lo para baixo com toda a força que tinha. Com uma mão no punho e outra na ponta, o Vicente levantou a espada dele na horizontal para bloquear a minha e quando as duas lâminas bateram uma na noutra, deu-se o que em física se chama a terceira lei de Newton - par ação reação. A força que a minha lâmina repercutiu era imensa e o músculo que estava cortado no meu braço esquerdo vibrou com a onda de choque. A dor foi tão forte que eu não aguentei e deixei o sabre cair para poder apoiar o braço esquerdo com a mão direita. Soltei um grito de frustração e deixei-me cair de joelhos no chão. “Rita, estás bem?” Respirávamos os dois com tanta força que eu nem conseguia perceber bem o que ele tinha dito. Olhei para ele, ainda deitado no chão e portanto mais baixo do que eu, e vi que os olhos dele eram de novo azul mar. O ar dele era de preocupação genuína e foi nesse momento que entendi. “Atacaste-me para ver se eu reagia como na outra noite…” Não pude deixar de acabar a frase com uma nota amarga. Eu tinha lutado pela minha vida e alguns dos cortes podiam ter sido fatais se eu não me tivesse defendido! Aquela brincadeira tinha resultado num corte feio no braço e mão esquerdos, além de que apetecia-me matá-lo a sério! O Vicente não parecia incomodado comigo e levantou o enorme sabre. Reparei então que a mão esquerda dele - a que tinha segurado na ponta da lâmina do sabre - tinha dois cortes profundos por onde escorria um sangue muito escuro. Num gesto que 64

não compreendi, o Vicente atravessou a lâmina à frente dos meus olhos. Eu encolhi-me a pensar que ia sentir a lâmina mais uma vez a cortar-me a pele, mas ele disse-me suavemente para abrir os olhos. Eu fiz o que ele pediu, abri os olhos e não percebi o que era a luz dourada que via refletida na lâmina. “Porque é que está a refletir dourado? É uma lâmina especial?” Ele riu-se com vontade e abanou a cabeça. “São os teus olhos Rita. Parecem ouro sim, olha bem.” Foquei o meu reflexo com mais atenção e, conforme relaxava, a luz dourada parecia perder intensidade e comecei a conseguir distinguir o resto das minhas feições. Até que vi a linha das pálpebras e finalmente a íris dos meus olhos ainda dourados. Mais uma anormalidade! Como é que eu nunca tinha reparado? Isto explicava a luz que tinha visto na cela, afinal eram os meus olhos a vencer a escuridão. Suspirei. Já nem estava chateada com o Vicente, só comigo. Porque é que eu sabia lutar com espadas e tinha dois faróis em vez de olhos? “Os teus olhos mudam de azul mar para um azul muito forte como o do gelo azul. Eu sou como tu, mas os meus ficam dourados… Achas que eu sou uma vampira? Ou meia vampira?” Esta última correção deveu-se ao som do meu coração que abafava os restantes ruídos na cave. “Não sei o que és, mas acho que posso dizer que não és como eu. Não temos conhecimento de nenhum vampiro que respire, tenha batimento cardíaco e, acima de tudo, que não tenha caninos muito desenvolvidos.” “Então o que é que eu sou?! E os vampiros respiram, tu estás a respirar!” Ele riu-se de novo. “Sim, mas não sei porquê. Podemos levar décadas sem respirar, mas também ficamos ofegantes quando estamos cansados.” “Para um vampiro já com uma certa idade, tu não sabes muito sobre vampiros, pois não?” Ele olhou-me com alguma tristeza, mas só abanou a cabeça para confirmar que não. De facto ainda ninguém tinha colocado uma entrada na Wikipedia sobre vampiros que não referisse mitologia ou drogas de qualidade. “Temos umas tantas coisas em comum, hem? Já para não falar nos cortes sangrentos! Achas que vai deixar cicatriz?” Tentei alegrá-lo sem saber porquê, afinal eu sangrava muito mais do que ele. “Ná, já deu para perceber que o teu corpo apressa-se a reparar essas coisas. Amanhã estás como nova e eu também.” Ele sorriu para mim, mas eu nem me mexi. “O que foi?” “Os teus dentes… saíram. Tens fome?” Ele recolheu os dentes assim que falei neles. “Por acaso tenho, mas eles saíram há pouco durante a luta. É uma reação normal quando a adrenalina sobe ou cheiramos sangue, e também porque 65

assim podemos atacar com a boca e fazer mais estragos. Suponho que agora foi o cheiro do teu sangue.” E com isto lambeu o sangue da lâmina do sabre e eu só não voltei a apresentar o meu nariz à sanita porque já não tinha nada no estômago. “Temos que arranjar maneira de ajudar-te a controlar isso… assim tanto podes fazer a diferença como ser completamente inútil.” “Vais atacar-me todos os dias?” “Se tiver que ser!” E deu-me um sorriso que era uma mistura perfeita de puro gozo e malvadez - provavelmente só o diabo conseguiria fazer melhor. Olhei para as feridas dele que pareciam apenas arranhões e fiquei surpresa por não ver nenhum corte mais fundo - a lâmina do meu sabre tinha que ser afiada! “As tuas feridas são só essas? Eu não consegui fazer mais do que arranharte com a espada?!” “Achas mesmo? Aqui chegaste até ao osso!” E apontou para a cicatriz. “Se eu soubesse que atacavas assim não tinha começado devagar!” “Mas então o teu corpo regenera muito mais depressa do que o meu!” “Sim, mas eu também não sei ao certo de que é feito o meu corpo… e o sangue humano ajuda a recuperar mais depressa.” Isso já explicava a lambidela… talvez. Era na mesma o meu sangue, ainda que na espada dele. Podia ter pedido licença, não? As células que lá iam tinham com certeza ‘Rita’ como marca registada. Ele levantou-se e ajudou-me a levantar também, mas mais devagar. Inspecionou-me o braço e pareceu satisfeito com o resultado. Eu não fazia ideia se ele era médico, portanto perguntei na mesma onde estava o estojo de primeiros socorros. Nunca era demais jogar pelo seguro e eu sabia lá se aquele sabre não tinha sido usado por um ninja qualquer no século da minha tri-tri-tri-tri-tri-avozinha. Fui até à casa de banho e depois de despejar um frasco de água oxigenada em cima das várias feridas que tinha e de besuntar-me com Betadine até parecer que ia ser alvo de uma vasta intervenção cirúrgica, atei o braço com uma ligadura e desci para almoçar. Ele deve ter sentido o cheiro dos desinfectantes no ar. “Credo Rita, estás a pensar em espantar todos os seres com nariz deste lado da lua?!” “Da próxima não cortes tanto!” “Tanto?! Tirando os primeiros cortes, eu quase nem tinha tempo para defender-me, quanto mais atacar! Não sabes mesmo quem é que te ensinou a lutar?” “E porque é que eu ia inventar que não sabia? E já agora, eu não sei lutar… era incapaz de repetir o que fiz há bocado.” Será que eu tinha dupla personalidade? “Errado, sabes lutar e vais repetir quantas vezes forem precisas. Vamos arranjar maneira de acederes a tudo o que está dentro dessa cabeça, não achas que ias sentir-te melhor se tivesses controlo sobre tudo o que te diz respeito?” 66

“Eu gosto de estar em controlo, claro! Mas isso soa melhor do que é na realidade, porque a minha realidade é assustadora! É como se estivesse a transferir-me para outra pessoa.” “Eu demorei bastante a entender tudo o que se passava comigo quando cheguei aqui.” “Aqui? Portugal?” “Aqui à Terra.” “À Terra? Como assim? Vieste de Vénus?!” Ele soltou uma gargalhada. “Não Rita, mas eu não me lembro de nada antes de ‘acordar’ aqui na Terra como um vampiro. Não faço ideia de como fui criado, se cheguei a ser humano ou porque é que estava de repente sozinho num sítio desconhecido.” “Isso não soa bem, não.” O Louis começou a servir-nos o almoço e depois daquele treino intenso, o meu estômago estava pronto para aguentar tudo o que eu fosse capaz de engolir até a cárdia não fechar. “E não tinhas nenhum vampiro mais velho a cuidar de ti? Alguém que te esperasse?” “Não, de um momento para o outro apareci e não fazia ideia do que era. Demorei quase um século até encontrar alguém como eu… somos tão poucos.” “Lamento que tenhas passado tanto tempo sozinho sem fazer ideia do que se passava.” Dei-lhe o melhor sorriso que tinha. “E onde apareceste pela primeira vez? Inglaterra?” “Como sabes?” “Não sabia, mas no primeiro dia que corri falaste comigo em inglês e tinhas sotaque britânico. E o Ezequiel trata-te por ‘Will’, é esse o teu nome verdadeiro?” “Apareci em Londres sim. E não, o meu nome é mesmo Vincent Willem Tomkins, mas o Ezequiel gosta mais de Will… a mim tanto me faz.” “Como é que sabes o teu nome?” “Não sei… é o meu nome.” “E será que pode ser o nome de quando eras humano? Procuraste alguma família Tomkins ou alguém que pudesse reconhecer-te?” Ele olhou para mim com ar divertido. “Primeiro: eu nem sei se alguma vez cheguei a ser humano ou se nasci vampiro, por assim dizer. E segundo: claro! Mas na altura ainda não existiam listas telefónicas nem internet…” Eu corei. “Pois, pergunta parva - esquece! E como vieste parar a Portugal?” “É mais quente do que Londres e a comida é bestial!” Eu ri-me. “Como conheceste o Arzel e o Ezequiel?” “Como os outros todos… por aí. Mas o Ezequiel é de longe o vampiro mais novo que conhecemos. Ele ‘nasceu’ no século XIX.” “Achas que isso explica porque é que ele é mais lento do que os outros?” “Não, acho que isso não vai mudar. Tu és mais rápida do que ele.” Notei uma ponta de orgulho e gostei. “Achas que ele tem algum talento escondido que possa surgir com o tempo?” “Não faço ideia, mas acho que não. O que temos quando ‘nascemos’ é tudo o que vamos ter no que toca a capacidades especiais. Então e tu? Nunca me 67

contaste nada sobre ti. Nasceste em Portugal?” “Sim, sou aveirense de gema como os ovos moles… Sou ceboleira.” “Ceboleira? O que é que isso quer dizer?” “Sou da parte de baixo da ria, os do outro lado são os famosos cagaréus.” “Acho que já ouvi falar nisso, o Fernando Pessa era cagaréu, não era?” Eu acenei que sim com a cabeça. “E como vieste parar aqui?” “Terminei o curso e… bem, queria sair da casa dos meus pais e aceitei a primeira a oportunidade para trabalhar fora dali.” “Não te dás bem com os teus pais?” “Não. Se calhar não foi sempre assim, mas desde que me lembro cresci um pouco à margem deles.” “Porquê? Se quiseres contar, claro.” Engoli em seco, mas já que estávamos a partilhar o passado… “Quando era pequena ficava muitas vezes com a minha avó, mas não me lembro muito bem dela. Até que ela morreu e os meus pais começaram a tratar-me mais como uma inquilina que vivia lá em casa do que filha deles…” Parei de comer antes de contar a história porque sabia que ia ficar com um nó na garganta. As últimas palavras já saíram um bocadito enroladas porque eu não gostava de reconhecer o afastamento dos meus pais. Depois de crescer ganhei defesas, mas as imagens que me assaltavam com mais frequência eram de uma menina de quatro anos a sofrer e a culpar-se sem saber bem do quê. Não era uma história que eu contasse muitas vezes e se pudesse já a tinha apagado da minha memória. O Vicente olhou para mim com olhos de compreensão - vá-se entender como - e disse-me suavemente “Lamento.” Mas dentro da cabeça dele eu quase que via a engrenagem em andamento, o que estaria ele a pensar? O almoço continuou numa rápida sucessão de perguntas e respostas - incrível como não sabíamos nada um do outro. Até que a desejada hora da sobremesa chegou e ouvi um leve tossicar que nos fez aos dois olhar para a porta da cozinha. “E agora a sobremesa!” Eu olhei para o Vicente sem perceber o que se passava - desde quando é que a sobremesa era anunciada assim? E para ajudar ao mistério, o Vicente levantou-se e desligou as luzes da sala, ainda que a claridade do dia entrasse pelas janelas todas. Só compreendi o que estava a acontecer quando o Louis voltou a sair da cozinha com um bolo e umas velinhas acesas. “Parabéns a você, nesta data querida…” E não se seguiram apenas o Vicente e o Louis a cantar-me os parabéns, mas também a Ana, o Ezequiel e o Arzel! Levantei-me atabalhoadamente e ia caindo com a cadeira, mas isso não foi suficiente para evitar que eu desse um abraço mais forte do que o necessário a toda a gente.

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Como relaxar a sério A última pessoa que abracei foi a Ana porque tinha a certeza que aquela mini-festa tinha sido ‘cozinhada’ por ela e portanto merecia a maior dose de lágrimas e de apertos. “Como é que combinaste isto? E como estás? Parece que não te vejo há séculos!” E vai mais um abraço. “Eu? Eu não arranjei nada, foi o Vicente. Estás com ótimo aspeto Rita, coradinha e tudo! Se bem que pronto, está um calor aqui dentro… Estes agentes especiais têm todos muito frio, não têm?” Ah, agentes especiais - que original! Pensando bem, não valia a pena inventar uma coisa mais complicada se esta funcionava. “Sim, ando sempre com roupa de Verão mesmo que esteja um gelo lá fora! Já viste bem o tamanho desta casa? Então e tu? Onde tens andado?” “Hum, não posso dizer-te porque não faço ideia de onde estou, mas acredita que a casa tem o aspeto desta, é fenomenal! Nem acredito que me pagam para não fazer nada o dia todo!” “Desculpa lá ter-te metido nesta embrulhada…” “Oh, não foste tu! Afinal decidimos todos em conjunto que íamos investigar metanfetaminas, não é?” Eu sorri meio à nora, da próxima o Vicente tinha que dar-me o guião para eu saber o papel a desempenhar, ou pelo menos o enredo. “Estavas a dizer que foi o Vicente que organizou a festa? Mas é impossível, ele não sabe quando é que eu faço anos. Quer dizer, eu não me lembro de dizer-lhe.” “Ah não, isso fui eu a dizer ao Ezequiel - que por sinal é super giro, não é? que hoje era das poucas vezes que não estava contigo no teu dia de anos. Ele passou a mensagem ao Vicente que resolveu organizar-te uma festa! Super simpático, hem? Mais um admirador na tua vasta lista?” E piscou-me o olho. Até àquele momento eu tinha estado a observar o Ezequiel e a concordar que sim, era muito giro e eu sabia que era também simpático. Mas depois os meus olhos caíram no Vicente que estava em amena cavaqueira com o Arzel. A nossa última conversa tinha suavizado a habitual tensão entre nós e não evitei um sorriso ao vê-lo descontraído assim. Ele apanhou-me a observá-lo e levantou o copo dele num cumprimento que eu repeti. Terminei aquela ligação momentânea com um ‘obrigado’ mudo. Devolvi a minha atenção à Ana que parecia estar mais a estudar-nos no laboratório do que a observar-nos numa festa. “Uh oh!” Ela inclinou a cabeça para o lado e eu levantei o sobrolho. “Rita, eu sei que ele é o homem mais bonito que os meus olhos tiveram o prazer de focar, mas tinha mesmo que ser? Com tantos rapazes em fila à tua espera, tinhas que ir para um que daqui a um mês está em missão no Congo?!” 69

“Estás a falar do quê mesmo?” Ela encolheu os ombros e abanou a cabeça, eu suspirei e resolvi mudar de conversa. “E os meus… hum, pais?” “Digo-te que estão irreconhecíveis! Levaram isto tudo com uma calma surpreendente e até parecem estar contentes por estarem comigo, não esperava nada esta reação deles! Se calhar eles sentem a tua falta?…” Infelizmente a explicação era outra. “Fizeste bem em não trazê-los contigo.” “Sim, o Ezequiel disse que não era boa ideia dar a conhecer a vossa localização a mais gente. Mas acredita que eles vinham com todo o gosto!” Então não vinham?… Eu sorri e tive que engolir em seco. Não havia nenhuma explicação que não passasse pelo Ezequiel: ele tinha hipnotizado os meus pais, provavelmente para conseguir tirá-los de casa. Se calhar até preferia tê-los assim o resto da vida, ainda que fosse um pensamento que provavelmente provocava hemorragias cerebrais. A conversa divergiu para outros temas e eu arrumei os meus pais bem atrás das caixas de arrumação do meu lado esquerdo do cérebro. A festa continuou e só quando o Louis me veio dizer que estavam todos à espera que eu cortasse o bolo é que me lembrei da sobremesa! “A vossa atenção por favor!” A minha festa de cinco voltou-se para mim. “Avisaram-me agora de que me esqueci de cortar o bolo depois de apagar as velas, mas já que tenho a faca na mão, queria aproveitar para dizer umas palavrinhas de agradecimento.” Aclarei a voz para deixar a emoção no andar de baixo. “Primeiro, eu mal vos conheço mas acreditem ou não, este é provavelmente o aniversário mais familiar de que tenho memória!” Parei um momento para não começar a choramingar e continuei. “Não me lembrava sequer que fazia anos - vinte e sete segundo as velas - e sinto-me sem palavras por se terem dado ao trabalho de festejá-los comigo! Acreditem que nunca vou esquecer-vos, nem a este dia… Não imaginam a alegria e o calor que me fizeram sentir - e que não tem nada a ver com a temperatura equatorial que se vive dentro desta casa. Obrigada a todos do fundo do coração por terem vindo! Esta festa tem um significado especial para mim. E pronto, é tudo. Agora vamos ao bolo!” Completamente contra as minhas expetativas, a primeira pessoa que se aproximou de mim foi o Arzel e não para comer bolo, mas sim para abraçarme. Ele vinha ainda a limpar as lágrimas - é incrível como são sempre os homens grandes que acabam por ser os mais sensíveis. Disse-me que tinha feito um discurso muito bonito e que ele gostava muito de mim, apesar daquele pequeno percalço na noite em que nos conhecemos. Abracei-o de volta e agradeci-lhe de novo por estar ali. E depois disso atacámos finalmente o bolo que era divinal. Não resisti a chegar-me perto do Louis para agradecerlhe não só a comida fenomenal dos últimos dias, como o bolo e o facto dele aguentar estoicamente a minha incapacidade de tratá-lo pelo nome de batismo. Pouco depois de devorarmos o bolo, o Vicente tomou a palavra e foi 70

com alguma curiosidade que esperei que ele começasse. “Ora bem, falta aqui qualquer coisa, não é Ritinha?” Viraram-se todos para mim com cara de quem sabia mais do que eu e eu limitei-me a encolher os ombros. “Tu não estás mesmo nada habituada a isto, pois não? As prendas, Rita! As prendas!” Eu ri-me com vontade. “Se bem que já recebeste duas prendas do Ferdinand: o bolo de anos - que está excelente - e a dose incrível de paciência que ele tem contigo.” “Hás de reparar que todas as prendas têm um cartão assinado por nós - a Ana obrigou-nos.” A queixa tinha vindo do Ezequiel num tom que era claramente para a Ana e não para mim. Voltei a rir-me, e não é que haviam mesmo prendas? E ele tinha razão: traziam todas um cartãozinho agarrado. A Ana fez questão em ser a primeira e depois vi porquê: ela ofereceu-me uma máquina fotográfica digital. Eu olhei-a com curiosidade e ela respondeu-me prontamente: “Ai de ti que não tires fotografias do teu primeiro dia de anos a sério! Vá, não quero ver esse dedo parado e já aí está um cartão com mais espaço do que o que vais conseguir gastar!” Voltei a rir-me, mas de repente fiquei preocupada: e se os vampiros não aparecessem nas fotografias?! O que vale é que a minha preocupação esfumou-se assim que o Ezequiel pôs um braço por cima da Ana e foram os primeiros a posar para mim. Eu levantei a câmera e tirei a minha primeira fotografia no meu dia de anos. Olhei para o ecrã ligeiramente expectante e sorri: o Ezequiel era realmente muito bonito e a Ana brilhava ao lado dele. Virei o ecrã para que eles pudessem ver também e a Ana apressou-se a dizer que era a melhor fotografia dela. Levantei o sobrolho com um sorriso maroto mas ela não se descaiu. A prenda que se seguiu era do Arzel, eu mal podia acreditar que ele se tinha dado ao trabalho de comprar-me alguma coisa! Estava cheia de curiosidade a desembrulhar a prenda e escangalhei-me a rir quando vi umas joelheiras! Não resisti a dar-lhe outro abraço grande, incrível como aquele vampiro gigante estava rapidamente a tornar-se no meu melhor amigo, logo a seguir à Ana, claro. Deixei a prenda do Vicente propositadamente para o fim e foi com algum esforço que comecei a desembrulhá-la, preferia que não estivessem todos a olhar para mim e que pudesse desembrulhá-la sozinha. Tirei o resto do papel, pousei a caixa na mesa e abri com cuidado, a respirar muito devagar para não deixar cair nada para o chão. Lá dentro estava um fio lindo que nem me atrevi a tirar da caixa. Era prata - ou cor de prata - e à frente rematava com três pedras pretas que formavam um triângulo de onde estava suspensa uma pedra que era exatamente da cor dos meus olhos quando brilhavam. Era lindo e os meus olhos encheram-se de lágrimas ao ver a cor da pedra e por saber o motivo da escolha. Quando levantei finalmente os olhos do fio, não resisti a ir direita ao Vicente e a abraçá-lo em jeito de agradecimento. Acho que a camisa dele ficou 71

manchada das minhas lágrimas, mas eu não tinha culpa que a minha cara não chegasse perto do pescoço dele! O resto dos convidados descobriu o encanto do tapete no chão ou uma mancha nos sapatos, mas a Ana não tirou os olhos de nós. Quando levantei a cabeça vi que ele estava a sorrir e a olhar para baixo, para mim portanto, e deu-me um beijo na testa. Eu não estava à espera do beijo e fiquei demasiado surpreendida, o que só fez com que ele se risse com mais vontade. A festa lá continuou com jogos de cartas e muitas palhaçadas, diverti-me imenso! O Arzel cantou um bocadinho, mas felizmente conseguimos calá-lo ao fim da terceira música quando o Louis nos salvou a todos ao adiantar ligeiramente o jantar. Jantar não, banquete! Tinha uma forte suspeita de que a Ana tinha andado a ‘vender’ informações porque todas as coisas que apareciam em cima da mesa constavam do meu top de preferências. Conforme a comida ia chegando, eu abanava a cabeça em descrença e quando até crepes chineses apareceram, eu não pude deixar de olhar para a Ana e agradecer profusamente. De novo. E tirar muitas fotografias a tudo - aquele dia ia ficar na minha memória e na memória do meu computador, só para ver quem é que se atrevia a esquecer primeiro. As horas foram passando e quando a Ana adormeceu no sofá, o Ezequiel achou que era altura de ir embora. Eu não estava pelos ajustes e não queria que ninguém se fosse embora, mas tinha que reconhecer que a melhor festa de anos da minha vida estava a acabar. Foi contra vontade que concordei que já era tarde e que estava na altura de dizer adeus. Voltei a abraçar toda a gente e a agradecer demasiadas vezes por terem aparecido. Depois deles se irem embora, o Vicente foi fazer qualquer coisa para o escritório e eu ajudei o Louis a arrumar a bagunça. Já passava bem das quatro da manhã quando subi até ao quarto com as minhas prendas: as joelheiras estavam na mão esquerda, a máquina fotográfica pendurada ao pescoço e a caixa do fio bem segura na minha melhor mão - a direita. Entrei no quarto e pousei tudo na cómoda, mas não resisti a tirar finalmente o fio da caixa e aproximei-me do espelho. Abri o fecho com alguma luta e coloquei o fio à volta do pescoço. Observei bem o reflexo no espelho: o fio era lindíssimo! Até na minha simples camisa branca ele ficava bem, como ficaria num vestido a sério? Mesmo sem querer, os meus olhos começaram a brilhar naquele tom dourado que era igualzinho ao da pedra no fio. Puxei o cabelo para trás e levantei a pedra ao nível dos meus olhos - pareciam impossivelmente feitos do mesmo material. Absorta nas comparações, assustei-me e virei-me num pulo assim que ouvi um ‘tchik’. “Vicente? Assustaste-me!” “Se me tivesses ouvido fazias uma careta para a fotografia.” Mania de saber tudo. “Já vi que gostaste do fio… escuso de perguntar.” Ele parecia orgulhoso da escolha, mas desta vez tinha razões para isso - era a melhor prenda de todas. “Adorei, adorei tudo! A festa, o fio e a comida! Nunca me tinha sentido assim!” Aposto que o meu sorriso estupidificado era o de uma criança que 72

tinha acabado de esbarrar contra uma árvore de Natal cheia de presentes. “Muito obrigada, não sei como agradecer-te! Como é que conseguiste organizar isto tudo em cima da hora?” Ele sorriu e aproximou-se de mim. Um pequeno alarme soou cá dentro, mas não resisti quando ele se aproximou e me disse baixinho ao ouvido: “Por ti faço qualquer coisa.” Estremeci de alegria e de mais coisas quando os lábios dele caíram finalmente nos meus. Sem querer pendurar-me no pescoço dele, abracei-lhe antes a cintura para aproximar-me e aumentar a sensação do beijo; ele acabou também por puxar-me para ele. Não é que aquele fosse o meu primeiro beijo, nem o segundo… mas ao enésimo cheguei sem dúvida ao melhor beijo da minha vida! Foi ele que acabou por afastar-se e cortar o beijo, talvez por reparar que eu não respirava há alguns segundos. O Vicente endireitou-se ligeiramente, mas inclinou a cabeça com um sorriso maroto nos lábios enquanto olhava para mim. Os meus pulmões voltaram à vida e consegui arranjar ar suficiente para dizer com o ar mais blasé do mundo: “Suponho que trezentos anos de prática levam à perfeição, hem?” “Oh, ainda não viste nada!” E para provar que tinha razão, voltou a beijar-me enquanto desapertava a minha camisa - uma das poucas alturas em que os homens descobrem que também são capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Acabei por ter que desligar a consciência e uma das últimas coisas que me passou pela cabeça antes de aterrar na cama foi de novo que aquela era melhor festa de anos de sempre. De sempre.

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Como fundar uma nova religião Acordei com uma certa sensação de ressaca, apesar de ter a certeza que não tinha bebido quase nada na noite anterior. O cheiro a tostas mistas entrou no quarto e a parte do meu cérebro que ainda estava a dormir levantou-se de um salto. Tinha dormido tanto e tão bem que me sentia verdadeiramente descansada. Ainda de olhos fechados, senti um sorriso enorme a preencherme a cara e espreguicei-me com os braços bem esticados. Se calhar estiquei-os demasiado porque dei um murro ao Vicente que estava ao meu lado. Ele abriu os olhos sobressaltado e desequilibrou-se para trás - onde já não havia cama. Ainda tentou uma manobra de recurso e agarrou-se aos lençóis, mas finalmente acabou tudo no chão: o Vicente e metade da roupa da cama. A rir que nem uma perdida mas com alguns remorsos porque estava a ocupar a cama toda, e talvez também porque o tinha esmurrado, aproximei-me atabalhoadamente da beira da cama e olhei para baixo. O meu cabelo caiu com o movimento menos gentil e caiu também o fio que ainda tinha ao pescoço. Aquela coisa vingativa que dá pelo nome de conservação de energia fez saltar a pedra grande do fio contra o meu queixo. “Au!” “Estás bem?” Uh, ele é que ainda estava preocupado comigo! “Quer-me cá parecer que essa era a minha deixa! E tu, estás bem?” Olhei-o com a curiosidade de quem olha pela primeira vez de cima para um gigante. “Não tens ar de quem acabou de acordar - o teu cabelo nunca fica despenteado?” “Isso não é justo, eu não consigo formar uma opinião séria acerca do teu aspeto matinal porque mal consigo ver a tua cara. De momento podias ser prima do cousin it.” “Ha! Não acredito que viste ‘A Família Adams’!” “Visto daqui, esse fio fica-te mesmo bem!” “Eu nem vou olhar para baixo… estou nua, não estou?” “Tal como o fio, também te fica muito bem!” “Isso é porque não consegues ver a minha cara.” “Provavelmente.” Eu nem consegui fingir que estava chateada e ri-me com vontade. Ele puxou-me para o chão para cima dele e quanto ‘aterrei’, tirei o cabelo da cara para conseguir vê-lo sem ter uma cortina de sombras à frente. Eu sorri mas ele fez uma careta. “Assim tão mau? Eu volto a meter o cabelo para a frente.” Ele riu-se com vontade. “Ainda cheiras imenso a desinfectante, tu tomaste banho em água oxigenada ou quê? Nem consigo distinguir o teu cheiro.” “Podias ter dito logo que eu precisava de tomar banho, em vez de levantar dúvidas acerca à minha beleza facial.” 74

“Eu era incapaz de ser tão cruel.” Aparentemente os vampiros tinham melhor humor do que os humanos ao acordar - até mesmo quando eram atirados para fora da cama ao murro. Apoiei os cotovelos no peito do Vicente e aproveitei as mãos em concha para segurar o queixo enquanto me deleitava a olhar para a cara perfeita dele. Os olhos azuis brilhavam tanto como quando lutávamos, mas desta vez não era pela vontade de arrancar-me a cabeça - ainda que umas dentadinhas estivessem provavelmente na lista. O cabelo escuro do Vicente caía um pouco sobre a alcatifa, mas o ar despenteado tinha um ar profissional que envergonharia qualquer modelo. Encostei o meu nariz ao dele antes de beijálo num momento de pura felicidade. Ele abraçou-me de novo e comecei a suspeitar que ele já se tinha esquecido do meu distinto perfume com extratos de Betadine. Uma hora depois, quando a minha luxúria acalmou e o meu lado racional espreitou a ver se podia aparecer. A primeira coisa que me passou pela cabeça foram as tostas mistas: frias e arruinadas!! Era como cuspir na mão que me alimentava! Oh, talvez o forno pudesse reavivá-las?… “O que é que se passou? Pareces preocupada.” “As tostas mistas!!” Ele precisou de uns segundos até perceber o que eu queria dizer e começou a rir-se. “O Ferdinand volta a fazer.” “Achas mesmo? É um sacrilégio se ele deitar fora uma que seja! São tão boas… huuuum” E o meu estômago resolveu que aquele era um bom momento para um dueto, ou até mesmo um solo. “Não me tinha apercebido que reverenciavas as tostas mistas.” “São a razão pela qual me levanto da cama todos os dias!” “Ok, já entendi o meu lugar. Ainda que fique feliz que caias da cama por mim, tal como não me coloco entre um hipopótamo e o lago dele, não me vou colocar entre ti as tostas!” Eu demorei uns momentos a assimilar, só para ter a certeza que eu era o hipopótamo da comparação. Levantei-me literalmente de cima dele com o ar mais ofendido que consegui colocar na cara e, antes de conseguir dizer o que quer que fosse, o Vicente levou o indicador aos meus lábios como sinal para estar calada. Fiquei calada e a olhar para os lados, em alerta para ouvir alguma coisa mais estranha até que reparei na cara de gozo dele. Mas vi pouco mais do que a cara de gozo porque no instante seguinte estávamos no duche debaixo de água. Assim que o Vicente me soltou do abraço que me sustinha, tentei apoiar-me na parede do duche mas não tinha força suficiente nas pernas e estava muito tonta. O que vale é que os reflexos do Vicente eram mais rápidos do que as minhas sinapses e evitei fazer parte das estatísticas de acidentes domésticos que envolvem banheiras sem pezinhos de borracha a forrar o fundo. 75

“Aposto que a sensação de ser teleportada é idêntica!” “Gostaste da velocidade?” “Estou tonta… e muito enjoada.” “Ah! Então fecha os olhos.” Agarrei-me a ele mais por medo de estatelarme ao comprido do que por outra razão qualquer. “Rita?” “Hum?” “Estás a magoar-me.” Abri olhos e tentei aguentar-me sozinha de pé, e só depois é que reparei que as minhas unhas estavam tingidas de sangue. “Este sangue é teu? Desculpa! Mas eu nem consigo controlar a minha força?! Eu não sei no que estava a pensar… Quer dizer, estava a pensar em não cair!” Ele riu-se. “Relaxa, tudo bem. Eu não disse que não gostava dos teus abraços…” E puxou-me de volta para ele. “… só não gosto das tuas unhas. E até aí estou disposto a abrir exceções!” O Vicente piscou-me o olho e eu fiquei corada que nem um tomate, apesar de não ter razões para isso. Quando finalmente descemos do meu quarto, eu nem tinha coragem para olhar o Ferdinand de frente. Sentia-me culpada por ser a razão pela qual quatro tostas absolutamente deliciosas tinham ido parar ao lixo. Ele já estava a pôr a mesa para o almoço e eu aproveitei a oportunidade. “Ferdinand, peço imensa desculpa por termos saltado o pequeno-almoço. Achas que as tostas podem ir ao forno de novo? Eu não gosto de desperdiçar comida e as tostas são divinais!” Ele parecia genuinamente surpreendido pela minha escolha de palavras, se calhar partilhávamos o mesmo desgosto por deitar comida fora - ou então era por estar a tratá-lo pelo nome dele. “Não há qualquer problema! As tostas já têm um novo papel na refeição.” Suspirei de alívio e senti-me muito contente comigo própria até olhar para o Vicente. “O que é que foi? Não gosto que deitem comida fora!” “Trataste-o por Ferdinand.” “Não é o nome dele?” “És a única pessoa aqui que parece ter dúvidas acerca disso!” Como eu não respondi, ele continuou. “Nem acredito que veneras tostas mistas.” “E estás cheio de sorte por eu não ser uma pastafari!” Ele voltou a rir-se e pouco depois entrou o Louis com a comida que tinha sobrado da festa. Apesar da brutalidade de comida que havia em cima da mesa no dia anterior, o pessoal estava esfomeado e não tinha sobrado muito. Mas o que me chamou mais a atenção foram umas tostas mistas arranjadas de maneira muito peculiar. “Croque-monsieur?!” Até me levantei da cadeira com a excitação. 76

“Ferdinand, estava capaz de fundar uma religião para adorar-te e nem tinhas que passar pela parte da crucificação!” O Ferdinand deu-me um grande sorriso e voltou para a cozinha com um ar muito satisfeito enquanto eu me lançava à mesa como se passasse fome há semanas e não propriamente como alguém que tinha simplesmente saltado o pequeno-almoço. O Vicente continuava espantado com o meu lado de enfardadora humana, mas a contemplação dele não durou muito tempo porque se não se apressasse não sobrava comida. Depois de comer que nem uma bruta só me apetecia rebolar no sofá e voltar a adormecer, mas o Vicente arrastou-me até ao circuito de corrida. “Eu não gosto de correeeeeeer!” Fiz o meu melhor beicinho, mas o Vicente tinha um ar que revelava um propósito. “Vá, temos que entender o que se passou no primeiro dia e o que acontece quando lutas.” Olhou-me bem nos olhos. “Tu queres controlar o que tens dentro de ti ou não?!” “Quero!… Mas é o dia a seguir ao meu dia de anos, não tenho direito a um descanso? Um desejo atrasado de aniversário?” “Para um aniversário tão curto, já tiveste a tua dose de sonhos realizados!” E sorriu com um ar de gozo tão grande que eu não arranjei resposta à altura, e ainda por cima corei. A corrida começou como nos outros dias, mas desta vez o Vicente não desapareceu na super velocidade dele. Assim que entrámos na parte mais cerrada da floresta, ele começou a empurrar-me e a pregar-me rasteiras. A princípio achei que ele estava só a meter-se comigo, mas depois de bater de frente contra demasiados troncos e de analisar várias raízes com o nariz, comecei a disparatar com ele. E com razão, devo acrescentar. “Mas tu estás bem?! Para lá com isso! Não ficaste satisfeito com o lenho que abri na testa? E estás a ver o estado do meu joelho?” Levantei as calças até ao joelho mas o sangue já estava nas calças de qualquer modo. “Parece que é parvo!” Quando voltei a levantar-me, tropecei de novo mas desta vez nem sabia se tinha sido obra do Vicente ou da minha falta de coordenação motora por ter os nervos em franja. Infelizmente aterrei ainda pior e nem tive tempo de proteger a cara com as mãos. Inspirei fundo e sentei-me no chão molhado. O cavalheiro nem se deu ao trabalho de ajudar-me a levantar. Inspecionei os meus braços todos arranhados e sujos de lama, assim como as calças rasgadas. Aquilo não tinha piada. Olhei-o muito séria e o Vicente devolveu-me um sorriso de contentamento que só me deu vontade de pregá-lo à cara dele para ficar como o Joker. Levantei-me de um salto e atirei-me ao Vicente sem ter um abraço carinhoso em mente. A cara dele não mostrava medo nenhum, mas uma satisfação enorme e limitou-se a desviar-se do meu ataque - supostamente 77

brutal - com a velocidade característica dele e que os meus olhos interpretavam como ‘neutrinos em marcha’. Tentei várias vezes atirar-me a ele, mas a facilidade com que ele desaparecia era igual à minha facilidade no que tocava a encontrar árvores… de frente. A dada altura a minha irritação começou a notar-se, provavelmente estava a sair-me fumo dos olhos, mas o Vicente limitou-se a inclinar a cabeça e a observar-me. Um sorriso triunfante dançou-lhe nos lábios e os olhos dele brilharam naquele azul safira que eu a dada altura esta manhã achei giro - não era o caso agora. Lancei-me a ele num último ataque de frustração que saiu muito mais certeiro do que os anteriores, mas mesmo assim ele escapou. A diferença é que desta vez ele não ficou a olhar para mim e fugiu, eu soltei um rugido de frustração e fui atrás dele.

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Como surpreender-se a si próprio (Vicente) O treino de hoje tinha duas coisas fabulosas: primeiro podia irritar a Rita até que ela quisesse arrancar-me o pescoço à unhada e segundo, podia irritar a Rita. Eu nem corria, andava depressa de maneira a manter uma distância que me permitisse ouvir os passos dela porque não queria perdê-la de ‘vista’. Quando a Rita aumentou de velocidade, eu também comecei a correr mais depressa para ver se ela acompanhava - esperava que sim. Afinal os olhos dela já deitavam faíscas e era claro que o que quer que ela tivesse enterrado dentro dela estava a sair. A dada altura ouvi um ruído estranho que me fez abrandar, mas como não aconteceu nada e continuava a ouvir os passos dela atrás de mim, voltei a aumentar o ritmo. Continuei a correr com a sensação de que os passos dela estavam muito mais rápidos, até que comecei a contá-los e o som e não bateu certo. Quatro passos? Dois a dois? Havia alguém ali a correr connosco! Travei abruptamente e olhei para trás, mas ainda não conseguia distinguir nada por entre as árvores. “Rita? Estás bem? Rita?! Ouves-me?” A Rita não me respondeu mas eu comecei a ver finalmente alguma coisa a aparecer no trilho que torneava as árvores; quem quer que aí viesse também tinha abrandado. Obriguei-me a focar a mancha laranja que aí vinha, mas não havia nada no mundo que me tivesse preparado para o que eu vi: um tigre adulto a vir muito relaxadamente na minha direção. Sem saber o que fazer, fiquei estupidamente gelado a observar o animal. O pelo era o que eu esperava de um tigre: castanho alaranjado cheio de listas pretas ou castanhas escuras. Mas o bicho era gigantesco! Não conseguia perceber se este tigre era exageradamente grande ou se a minha capacidade de avaliação estava de algum modo influenciada por este exemplar estar a menos de três passos. Tentei manter a calma enquanto procurava a árvore mais próxima para fugir em caso de necessidade. O tigre parecia tão espantado comigo como eu com ele, e eu parecia hipnotizado pela (enorme) cauda que ele abanava alegremente de um lado para o outro. O bicho tinha uma cabeçorra gigantesca e em comprimento devia andar perto dos dois metros, já para não falar na altura dele que era claramente acima de um metro. Eu era alto, mas ele em pé apoiado nas duas patas de trás era com certeza gigantesco. Curiosamente, as patas nem eram muito longas embora o corpo fosse colossal. Quando voltei a lembrar-me do que é que estava ali a fazer, sussurrei o mais calmamente possível: “Rita? Estás bem? Há um tigre à solta na floresta e está ao pé de mim - não te aproximes.” O tigre olhou para mim e inclinou a cabeça para o lado como se estivesse a 79

pensar no que eu tinha dito. Ele tinha a ponta do focinho cor-de-rosa, uns bigodes brancos longos e um aspeto geral muito bem tratado e lustroso. Teria fugido de um circo? Jardim zoológico? Afinal, as florestas portuguesas não eram conhecidas por alojar tigres. Enquanto eu perdia tempo com perguntas inúteis, o tigre endireitou a cabeça e fez um som qualquer que soava a chateado. Uh oh. Eu comecei a recuar em direção à árvore que planeava subir, mas o tigre aproximou-se de mim e soltou um rugido absolutamente aterrador. Eu nem me mexi, até porque estava completamente abismado com o tamanho dos caninos do animal. Se um tigre comum era assim, um tigre dentes-de-sabre devia ser qualquer coisa! E achava eu que tinha uns caninos compridos… O tigre aproveitou a minha hesitação para chegar-se ainda mais perto e parecia estar a avaliar-me, ainda que com um ar desconcertado. Esperei sinceramente que ele não estivesse com fome nem a sentir-se ameaçado. E para piorar a situação, a única coisa que me ocorreu foi cantar ‘Soft kitty, warm kitty, little ball of fuuuuuur. Lazy kitty, pretty kitty, purr, purr, purr’. O tigre reagiu como todos os meus amigos assim que me ouviam cantar: a única emoção que ele sentiu foi aborrecimento porque deitou-se no chão e descansou o focinho nas patas da frente. Mas nunca parou de olhar-me e fazer uns sons estranhos com o focinho. E foi então que eu associei os sons que estava a ouvir e reparei nos olhos dourados. Seria possível??… “Rita?” O tigre voltou a inclinar a cabeça enquanto olhava para mim. “Rita, se me estás a ouvir, importas-te de lamber os lábios? Prometo que não é nada de pervertido.” Juro que o tigre semicerrou os olhos em jeito de incredulidade antes de lamber os beiços com a enorme língua dele. Inspirei fundo mesmo sem precisar de respirar porque é o que eu faço quando estou nervoso. A minha situação estava a piorar a cada minuto, agora não era o tigre que me preocupava, mas sim como explicar à Rita, com muita calma, que ela era mais especial do que tínhamos inicialmente pensado. “Rita, não sei se já olhaste com calma à tua volta, mas deves ter reparado que o teu horizonte baixou para aí meio metro, não?” O tigre olhou à volta e eu comecei a achar que o melhor era mesmo subir a uma árvore e dar as boas novas lá de cima. “E se calhar até reparaste que… hum… tens patas em vez de braços?” O tigre olhou para baixo e levantou-se assustado num movimento demasiado brusco. Eu estava finalmente convencido de que aquela era a Rita, mas já nada convencido de que isto tinha sido boa ideia. E se ela não conseguisse voltar à forma humana? A ideia que se seguiu não foi melhor, mas eu não resisti a tirar o telemóvel do bolso para tirar-lhe uma fotografia. O tigre olhou para mim assim que o telefone emitiu o som falso do obturador e atirouse ao telemóvel. Eu, ainda que meio aparvalhado, continuava a ser mais rápido e subi à árvore com o telemóvel intacto. Olhei para baixo, um pouco espantado 80

por ver que o bicho não tentava seguir-me e vi que ele estava de volta das patas da frente e tentava sacudi-las. Comecei a ter pena dela mas não me atrevi a descer da árvore. Como bom treinador de bancada, comecei a mandar palpites do cimo da árvore. “Rita? Não entres em pânico, concentra-te. No primeiro dia também deves ter-te transformado num tigre e voltaste à tua forma normal. Lembras-te de como fizeste? Respira devagar, temos muito tempo.” O tigre olhou para cima e eu sei que ele estava a considerar arrancar-me a cabeça à dentada, em vez de à unhada como a Rita faria. Infelizmente eu não tinha força para lutar contra um tigre e parecia-me doloroso perder a cabeça à dentada. “Vá lá Rita, calma. Tu consegues! Concentra-te na tua forma humana ou qualquer coisa assim!… Sei lá, concentra-te e não me olhes assim, porra!” Eu sabia que ela não gostava de receber ordens, mas eu também não gostava de ser olhado como um leitão assado com uma maçã na boca assumindo que os tigres gostavam de leitão assado. Nestas considerações, o tigre deitou-se de novo no chão e fechou os olhos. Eu não sei se perdi alguma coisa, mas embora não me lembre de piscar os olhos, num momento estava um tigre no chão e no outro a Rita. Saltei da árvore sem me preocupar muito com a reclamação dos meus joelhos e corri para a Rita. Sem pensar sequer, abracei-a e peguei nela ao colo. “Conseguiste Rita! És um tigre!… Uau, isto tem que ser a coisa mais fantástica que eu já vi na minha vida! Incrível!” Quando parei de palrar é que reparei que ela estava a chorar no meu ombro. “Rita? Estás bem? Dói-te alguma coisa?” Ela continuou num choro convulsivo que parecia piorar cada vez que eu dizia qualquer coisa. Resolvi calar-me, embora estivesse muito entusiasmado com todas as possibilidades que ela oferecia - era uma arma de combate fantástica! Cheguei a casa demasiado depressa para dar-lhe tempo para acalmar-se. “Queres que te deixe na sala? No quarto? Lá fora?” Ela apontou para o sofá da sala no meio de uma cascata de lágrimas e eu pousei-a suavemente onde ela tinha indicado. Como ainda não sabia porque é que ela tinha começado a chorar, resolvi tentar de novo. “Dói-te alguma coisa? Rita, porque é que estás a chorar?” Ela estava a soluçar tanto que qualquer tentativa para falar era 81

completamente inútil. Deixei-a por momentos e pedi ao Ferdinand para fazer um chá, enquanto eu procurava um cobertor. Não é que eu percebesse muito do assunto, mas chá, cobertor e uma lareira tinham que ter algum efeito calmante. Voltei com o cobertor e puxei-a para o meu colo. Embalei-a devagar até o Ferdinand trazer o chá, mas ele só se aventurou a perguntar se estava tudo bem com um olhar de soslaio para a Rita. “Está tudo bem Ferdinand, a Rita está um pouco abalada mas não se passa nada com ela. Obrigado pelo chá.” Assim que ele saiu, voltei-me de novo para a Rita. Apesar de ter a cara vermelha de tanto chorar, os olhos dourados transmitiam um constante desafio, como a testar-me para ver se eu me atrevia a fazê-la parar de chorar. Beijei-lhe a testa e deixei-me ficar ali com ela, qual seria a causa de tanto transtorno?… “Eu… eu… tive tanto medo!!” O primeiro pensamento coerente ao fim do que parecia um sem fim de horas - finalmente! Senti um certo desconforto por não ter considerado a possibilidade dela estar aterrorizada, e não maravilhada, com o facto de poder transformar-se num tigre. Eu dava a minha nádega direita - que não era tão gira como a esquerda - para poder fazer o mesmo. “Rita, o que tu fazes é absolutamente extraordinário! Não tens que sentir medo, já provaste que consegues controlar-te sem problemas.” “Não controlo nada!! Quando fico zangada é isto que acontece? E se um dia não conseguir voltar?! E tu fizeste de propósito para eu me transformar naquilo! Anormal é eufemismo para o que eu sou!!” Estas foram as palavras que eu acho que ela quis dizer, mas no meio de tantos soluços, suspiros, choro e voz arrastada, as coisas demoravam a sair-lhe do peito. “Rita, se não te controlasses já me tinhas desfeito! Quando combatemos lá em baixo podias ter-te transformado e nunca o fizeste… nem ontem à noite!” Ela parou de chorar por momentos e eu aproveitei a deixa. “Também não perdes a tua consciência porque sabias que eu estava a falar contigo e entendias o que eu estava a dizer. Tem calma, não tens nada de anormal mas sim um super poder espetacular!” Ela olhou-me finalmente de olhos abertos, embora com problemas de focagem por causa da cortina de água salgada. “Tens uma habilidade incrível e podes controlá-la, não tens que ter medo de ti! Só tens que treinar para poderes transformar-te quando quiseres. Em tigre ou em pessoa, és tu que estás ao leme e nada vai mudar isso! Relaxa…” E não resisti a acrescentar. “Além disso, és uma tigresa lindíssima. O cor-de-laranja fica-te muito bem!” Pisquei-lhe o olho e ela sorriu finalmente. Suspirei de alívio, sempre havia uma luz ao fundo do túnel. Meia hora depois a Rita já estava mais ou menos de 82

volta a ela própria, ainda que passasse demasiado tempo a examinar as mãos e os dedos. Aproveitei o intervalo para ligar o computador e procurar eventuais pistas sobre exatamente o que ela seria. Uma espécie de lobisomem? Não que alguma vez tivesse visto um, mas também quem era eu para decidir o que era ou não era possível? Aliás, eu tinha a certeza que recorrer à lógica não explicava nadinha porque a estrutura de um ser humano não tem muito em comum com a estrutura de um tigre, era um desperdício de tempo tentar perceber o que se passava ali. Magia, era o que era. Procurei a fotografia no meu telemóvel e entretive-me a passear pelas imagens do Google. Ao fim de umas tantas fotografias e descrições, fiquei convencido de que tinha um tigre siberiano disfarçado de uma mulher lindíssima (e teimosa) no meu sofá da sala. As memórias da noite anterior vieram-me de novo à cabeça, na altura achei estranho mas não liguei ao facto dela fazer uns sons esquisitos com a garganta ou com o nariz. Esta tarde a Rita tinha voltado a fazer aquilo mas na forma de tigre - segundo o computador, o som chamava-se prusten em inglês (ou alemão). Aparentemente era o som que um tigre bem disposto fazia, o que era uma coisa que ficava sempre bem saber distinguir. E ronronar? Será que os tigres também ronronam? Depois de uns segundos, o Google respondeu-me que não. Confesso que fiquei desiludido, era tão giro se ela ronronasse! Ao mesmo tempo sentia-me um traidor, estava a voltar costas aos canídeos e a dormir com felinos. Como acontece sempre que descobrimos uma coisa nova, as perguntas estúpidas são as primeiras que nos ocorrem: será que podia ter um gato em casa, além da Rita? E cães? Como reagiriam eles à presença da Rita? No meio destas questões tão pertinentes, nem me apercebi que ela estava à porta do escritório. “Sim?” “O jantar está pronto.” “Tens fome?” Ela demorou uns segundos a responder, tempo mais do que suficiente para saber que a Rita ainda não estava completamente de volta. “Sim, vamos comer.” “Muito bem!” E levantei-me, não sem antes desligar o computador - não sabia como ela ia reagir se visse o que eu andava a pesquisar. O Ferdinand merecia um contrato vitalício só porque tentou repetir a receita do almoço para agradar à Rita. Como é que ela tinha conquistado o Ferdinand é que eu não conseguia explicar. Tentei falar de tudo e de mais alguma coisa ao jantar - já que estava basicamente a falar sozinho - mas evitei assuntos relacionados com tigres, gatos, felinos em geral, florestas, Malásia, Sibéria ou animais em perigo de extinção. Ela comeu tudo, o que me deixou mais descansado e deu coragem para virar a conversa para uma coisa interessante. “Sentes-te melhor?” “Sim.” Encolheu os ombros. “Continuas sem achar que é extraordinário o que consegues fazer? Adorava 83

ser como tu!” “Não quero falar disso.” “Certo, podemos falar antes da sobremesa. Eu acho que o Ferdinand se anda a matar por ti! Não sei onde é que ele encontrou morangos nesta altura do ano?” Ela sorriu e eu esperei que o pior já tivesse passado. “Também pensei nisso… como é que ele foi encontrar morangos em Novembro?” A conversa lá seguiu com coisas mais ou menos desinteressantes, mas pelo menos eram uma distração. A hora do sono acabou por chegar e nem sequer me passou pela cabeça segui-la até ao quarto, pois achei que a Rita precisava de pensar e descansar. Subimos as escadas até ao andar de cima e foi com surpresa que senti a mão dela a puxar-me quando eu ia a desviar-me para o meu quarto. “Tenho medo de ficar sozinha.” Não esperava tanta honestidade. “Rita, eu faço-te companhia sempre e quando quiseres, mas não precisas de ter medo de ti. Continuas a ser tu aí dentro e tu aqui fora, podes ter medo de outras pessoas mas vai ser impossível viveres com medo de ti - não tens como fugir.” Ela permaneceu em silêncio durante alguns momentos e pareceu-me que estava a debater-se com as minhas palavras e o medo irracional que a afligia. “Até pode ser que seja verdade, mas não quero ficar sozinha.” “Não tens que ficar sozinha, eu faço-te companhia. A menina faria o obséquio de acompanhar-me aos meus aposentos?” Ela riu-se e seguiu-me. Nem tentei chegar-me perto dela, ela despiu-se sem olhar para mim, deixou uma t-shirt vestida e meteu-se na cama. Do meu lado. Fiz de conta que não vi, despi-me também e deitei-me do outro lado sem almofada. Olhei-a durante alguns momentos e tentei dar-lhe um sorriso encorajador mas os olhos dela refletiam desespero. A confiança da Rita e o ar provocativo com que ela levantava o nariz estavam desaparecidos em combate. “Queres falar?” Ela abanou a cabeça. “Sabes, há 267 anos atrás acordei no meio das ruas de Londres sem fazer ideia do que era, de onde vinha e de como raio tinha aparecido ali.” O olhar dela desafiou-me a fazer-me de vítima em vez dela. “Eu reconhecia as ruas mas não sabia quem era ou porque estava ali. Encontrei uma carteira num dos meus bolsos e fiquei aterrorizado a pensar que tinha cometido um crime qualquer e que andavam atrás de mim. Vivia assustado e fugia de toda a gente porque o nome não me dizia nada e eu não sabia quem era. Nos dias que se seguiram reparei que o nome não interessava a ninguém, mas também reparei que não tinha pulsação - o que me deixou à beira de um ataque de nervos. Sentia-me muito fraco e doente, mas por mais que comesse não conseguia recuperar; até que reparei no cheiro das pessoas e como esse cheiro me fazia crescer água na boca. Sem pensar, o instinto tomou conta de mim e ataquei a primeira pessoa que encontrei sozinha. Não sei se a 84

matei porque a noção do que tinha feito bateu-me ao fim de umas golfadas de sangue e fugi assustado com o que eu era, mas por outro lado sabia finalmente o que era. O mais estranho é que esse sangue tornou-me forte de novo e a sensação de que estava doente passou. Não era preciso ser um génio para entender que precisava de sangue para viver, que a comida só não chegava embora isso tenha atenuado com o tempo. Vivi meses, anos a fugir de mim próprio e só não tentei suicidar-me porque achava que não conseguia, afinal de morto não passava. E se eu me tornasse num poltergeist? Seria pior ou melhor do que ser vampiro? Com o passar dos anos aprendi a confiar em mim e a controlar a necessidade de sangue, e comecei também à procura de outros como eu. Passados estes anos todos, cá estou eu no final do ano de 2011 e conto estar mais uns anos. A minha fome está controlada, tenho amigos que podem acompanhar-me durante toda a minha jornada e conheci-te a ti.” Parei para olhá-la nos olhos. “Entendes o que quero dizer?” “Alguma coisa profunda como tudo acontece por uma razão?” “Não, uma coisa profunda como não podes fugir de ti. Tens que aprender a controlar-te e a lutar por um lugar aqui, se quiseres sobreviver.” Ao contrário do que eu pensava, ela não tinha nenhuma resposta na ponta da língua e ficou a matutar no que eu tinha revelado. Há anos que não contava aquela história, e a verdade é que não era uma história que guardasse nas minhas melhores memórias e, como tal, não era coisa que andasse por aí a contar aos quatro ventos. Virei-me na cama para que ela não sentisse que precisava de responder-me e fiquei a olhar para o teto. A Rita surpreendeu-me de novo ao subir parcialmente para cima do meu peito. O meu gesto foi instintivo e abracei-a com o meu braço direito, enquanto pensava na minha almofada que ninguém estava a usar e que me daria muito jeito ter debaixo da cabeça. “Achas mesmo que eu consigo controlar-me?” “Não acho, tenho a certeza. Levaste toda a tua vida sem te transformares ou se te transformaste conseguiste voltar à tua forma humana sem problema. Agora estás com problemas porque estás a pensar numa coisa que normalmente fazes sem pensar… aposto que assim que te acalmares, volta a sair-te naturalmente.” “Não consigo pensar dessa forma.” “É natural, digo eu. Vou pedir ao Arzel para passar cá em casa sempre que possa. Ele é o melhor lutador com espadas que conheço e pode ensinar-te melhor do que eu. É preferível que aprendas com o melhor porque desconfio que ainda tens muito potencial para revelar.” “Achas que eu sou mais forte do que tu?” Será que ela ainda pensava em fugir? Demorei a responder mas decidi-me pela verdade. “Provavelmente. A força que tens sob a forma de tigre deve andar por aí escondida na tua forma humana. Mas gostava também que tentasses controlar sozinha a tua transformação? Sem precisares de recorrer à ira, sentimentos de vingança ou quando sentes a tua vida em perigo. Tenho a certeza que 85

consegues fazer isso com um bocadinho de disciplina. Ah e já agora, essa parte do teu treino é uma atividade exclusiva de exteriores, ok?” Ela riu-se, mas pouco depois voltou a ficar chateada com qualquer coisa e desta vez nem precisei de perguntar porque ela disparou logo. “Todo este treino que estás a dar-me, não é para meu próprio bem, pois não? Estás a pensar em usar-me!” Ela afastou-se de mim e eu deixei-a ir. “É para teu bem porque primeiro precisas de disciplina e depois porque se mais alguém sabe o que és, vais ter sérios problemas!” “Como assim?” “Os vampiros - e quem sabe o que mais há por aí - levam décadas e centenários à procura de alguém como eles ou de alguém diferente com quem se possam identificar. Um pouco como toda a gente faz, suponho. Mas digamos que para uma boa quantidade de gente, tu és como ter uma peça rara de um museu ou um elemento que pode fazer a diferença entre ganhar ou perder uma batalha.” “Queres usar-me numa batalha?!” Esta conversa havia de chegar um dia, escusava era de ser já antes dela ter qualquer tipo de treino. “Como eu já disse, o treino é para saberes defender-te. Acredita que vais precisar de saber lutar, tal como nós te encontrámos, outras pessoas podem estar no teu encalço. Quer dizer, algumas já estão e é por isso que estamos no meio de nenhures!” “Há gente à minha procura?!” “Sinceramente até hoje não tinha uma ideia clara sobre o porquê de terem destruído o nosso laboratório naquela noite. Mas começo a achar que a resposta és tu, embora não saiba se o Vlad sabe o que és ou se planeava descobrir entretanto. Espero que seja a segunda hipótese.” “Há alguma chance de que ele tenha desistido entretanto?” “Não. Estás desaparecida e ele sabe que és particular de algum modo… cheira a esturro.” “A culpa é tua! Porque é que não me deixaste sair daquela esquadra e ir à minha vidinha de sempre?” Agora ela estava quase a gritar. “Porque primeiro não sabíamos que tinha havido uma fuga de informação e segundo queríamos testar-te para saber o que eras. Mas lamento informar-te que nessa noite nunca voltavas para casa, se não estivesses aqui comigo estavas agora bem longe com ele.” “E como é que eu sei que estou melhor contigo?!” Por muito que me recusasse a admitir, aquela conversa estava a magoar-me. “Se até agora ainda não sabes responder a essa pergunta, azar o teu!” E nisto tirei-lhe a almofada que ela obviamente não contava usar, meti-a debaixo da minha cabeça e virei-me de costas para ela. Eu, alguém que deambula nesta Terra há séculos e que já devia saber melhor, estava preparado para amuar. O sentimento de culpa chegou depressa, mas a Rita levantou-se e saiu ainda mais depressa. Incapaz de pedir-lhe para ficar porque ainda estava magoado, fiquei de costas voltadas enquanto ela saía do quarto. F*da-se, que dia! Se eu tivesse tentado planeá-lo, não havia maneira de sair 86

pior! Mas também não ia pedir-lhe desculpa - ela podia fugir se quisesse, o problema era dela! Pouco depois ouvi passos na escada e a porta da rua a fechar. Ela tinha decido fugir - decisão muito madura da parte dela. Pois bem, eu é que não ia atrás dela e salvá-la de novo, afinal a Rita estava a fugir dela própria e não de mim.

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Como estar tão perto e tão longe É possível chorar sem fazer ruído, é possível até manter a respiração calma e serena enquanto as lágrimas rolam pela face abaixo. Peguei no casaco e saí de casa, mas só quando estava bastante longe de tudo e todos é que comecei a chorar a sério. E desta vez não tinha o ombro dele para secar-me as lágrimas. O que é que se passava comigo?! Ainda ontem tinha parecido tudo tão simples, o mundo estava a rodar para o lado que eu queria. Hoje não sabia o que pensar, nem dos outros nem de mim. Parei finalmente de andar, apesar de não saber para onde ia. Sentei-me no chão, puxei os joelhos contra o peito e chorei até que as lágrimas secaram e só por dentro é que se notava que eu continuava a chorar. Estava a ser ingrata? Não podia realmente pensar que o Vicente tinha-me defendido com a vida dele na noite do ataque se ele não pensasse que eu era diferente e que de alguma forma podia lucrar comigo. Afinal, se ele achasse que eu era igual às outras pessoas todas tinha-me deixado na esquadra. E ele não sabia o que eu era até me ter transformado, mas tinha feito os possíveis e os impossíveis para que eu me revelasse… para saber se tinha apostado no cavalo certo, com certeza! Mas ao mesmo tempo as demonstrações de carinho, a festa de anos, o fio… seriam tudo parte de uma estratégia dele para ganhar a minha confiança? E a noite passada? Não podia acreditar nisso. Ou não queria acreditar nisso. Mas também não batia certo porque ele não tinha vindo atrás de mim e, até prova do contrário, eu estava livre. Será que ele tinha alguém a seguir-me? Talvez, não era impossível. Mas eu não tinha ouvido ninguém e estava ali parada há bastante tempo. Que confusão! E mesmo sem falar no Vicente, questão que parecia colocar o meu coração e o cérebro em guerra aberta, o que é que eu ia fazer comigo? Não havia como voltar trás e acreditar de novo que era alguém naturalmente mais forte e com bom ouvido, eu era realmente diferente - uma espécie diferente. Seria única? Os meus pais tinham demonstrado que não sabiam controlar-me - obviamente o traço não era genético. E eu precisava mesmo de aprender a controlar o tigre, e se ele viesse cá para fora sempre que ficava chateada? A verdade é que quer em dois pés ou quatro patas, a minha consciência tinha permanecido intacta. Se calhar o Vicente tinha razão e eu controlava o que se passava. Pelo menos essa era a única opção que não abria caminho a atirar-me de um precipício. Num momento de inspiração, levantei-me de um salto. Mesmo que inconscientemente, eu tinha suprimido o que eu era todos estes anos e só por isso é que não tinha reparado que havia um tigre dentro mim - como é que era possível?! Pois bem, ali estava eu no meio de nenhures sem ninguém para atacar nem ninguém para irritar-me. Eu não tinha reparado que tinha mudado de forma das outras vezes, portanto deixei as mãos à frente dos olhos. A noite não tinha lua - ou era lua nova ou estava para chover - mas eu conseguia ver perfeitamente com os meus olhos esquisitos. Em vez da típica imagem verde da visão noturna, eu via tudo dourado mas esse era um mistério que já estava resolvido. Inspirei fundo, concentrei-me e acreditei que podia transformar-me 88

num tigre, sem grandes problemas. Num piscar de olhos, o meu horizonte baixou e as minhas mãos desapareceram para dar lugar a grandes patas felpudas. Tentei falar mas saiu um rugido bem mais alto do que eu esperava, tal como tinha acontecido esta tarde. Muito bem, era definitivamente eu que estava ao leme do tigre e ele levantava as patas que eu queria levantar. Não havia mais nenhuma voz dentro da minha cabeça e parecia estar tudo certo, se ignorasse a vontade que tinha de lamber o pelo. Fechei os olhos e voltei a concentrar-me, quando os abri lá estavam de novo as minhas mãos com polegares oponíveis. Por sinal tinha as mãos bem mal tratadas e cheias de terra, agora que reparava nisso. Pois parecia que era muito natural transformar-me para um lado e para o outro, portanto voltei a tentar o tigre. E depois a forma humana, e depois o tigre de novo. Saltitei um pouco para testar-me, subi a umas árvores e corri mais um pouco. Os cheiros eram muito mais intensos quando estava naquela forma, mas a visão mantinha-se nos habituais tons dourados. Os cheiros cruzavam-se e parecia que havia sempre algo de novo no ar daquela floresta, nunca me tinha parecido tão cheia de vida. A dada altura senti o meu próprio cheiro - curioso saber que era o meu - e o cheiro do Vicente. Provavelmente encontrava-me algures no caminho tínhamos percorrido esta tarde. Sem saber muito bem para onde ir, limitei-me a seguir o cheiro do Vicente e a correr o que eu já sabia ser o caminho de volta à casa. Parei uns metros antes para apreciar a vista à distância: a casa era bonita mesmo quando não se via o riacho, as luzes já estavam desligadas e restavam apenas as de presença que lhe davam um ar místico. Nisto senti que havia alguém a rondar a casa e o meu nervosismo fez com que o meu novo pelo ficasse eriçado, mas contive um rugido ameaçador. Baixei a cabeça e segui rente ao chão num movimento elegante e silencioso que parecia impossível sair de um bicho de 200kg. Cheirei o ar várias vezes para confirmar que era mesmo o cheiro do Louis - o que andava ele a fazer por ali àquelas horas? Não era suposto ter saído depois do jantar? Pensei durante uns momentos e decidi que a melhor maneira de confrontá-lo não era aparecer-lhe sob a forma de um tigre. Concentrei-me e voltei à minha forma habitual, bem mais elegante. Era incrível como era tão fácil mudar de uma forma para a outra sem ficar sequer cansada. E as roupas então eram um mistério porque eu tinha a certeza que a minha versão felina não ia ficar bem naquelas calças. Ou as calças não iam ficar bem na versão felina porque a bem ver, num confronto entre os dois era claramente o tigre que saía vencedor. Tentei caminhar sem ruído até chegar perto do Louis e depois fiz propositadamente barulho para ele saber que eu estava a caminho - não valia a pena matá-lo do coração só porque ele era bisbilhoteiro. “Olá Louis, ainda por cá? Pensava que tinhas saído depois do jantar.” Não resultou, a tensão dele tinha disparado brutalmente e o batimento cardíaco parecia música de feira aos meus ouvidos. Ele voltou-se visivelmente assustado e colocou uma mão no coração, mas assim que me reconheceu pareceu aliviado e contente por ver-me, o que me deixou mais descansada. 89

Primeiro porque gostava dele e depois porque estava a ficar viciada nos cozinhados dele. “Boa noite! Uh, deixei umas coisas nas cozinha e estava a tentar entrar sem fazer muito barulho, mas esta casa parece uma caixa-forte!” A sensação de confiança passou-me depressa porque ele estava a mentir. “Hum, eu não fechei a porta principal quando saí de casa portanto ainda deve estar aberta.” Embora estivéssemos a sussurrar um para o outro, estávamos mesmo por baixo da janela do quarto do Vicente e ele não tardou a aparecer de robe à porta. Aquele homem aparecia e eu esquecia-me de respirar - mas que constasse do meu cadastro que eu o tinha deixado sozinho numa cama em boxers! Talvez não tivesse sido o meu melhor momento, mas provava que o meu autocontrolo existia… às vezes. O Vicente pareceu mais surpreendido por ver-me ali do que ao Louis, mas falou para ele. “Ferdinand, passa-se alguma coisa?” “Esqueci-me de umas coisas na cozinha e estava a tentar entrar sem fazer barulho, mas já vi que acordei toda a gente!” “A porta da frente não estava aberta?… Bem, entrem.” O Vicente acreditava tanto na desculpa do Louis como eu. Acabei por seguir o Louis até entrar em casa e não olhei para o Vicente quando entrei. Ainda que achasse que ele tinha sido tremendamente insensível comigo, sentia alguma vergonha por ter fugido assim. Afinal o meu problema interior não era problema nenhum e já estava resolvido. O Louis entrou rapidamente para a cozinha e o Vicente ficou a vigiá-lo - não há outra palavra para descrever a ação do Vicente. A curiosidade obrigou-me também a ficar na sala, embora haja um provérbio que afirme que a curiosidade matou o gato. Uh, as minhas pérolas de sabedoria não estavam a sair lá muito sábias. O Louis lá emergiu da cozinha e eu tive que reconhecer-lhe a coragem de voltar a sair pela porta que dava ligação à sala em vez de fugir pelas traseiras. Ele trazia uma espécie de batedeira debaixo do braço, acenou-nos boa noite e voltou a sair. O Vicente olhou finalmente para mim e queria obviamente falar sobre o que se tinha passado. Eu castiguei-me mentalmente por não ter fugido para o quarto enquanto podia e, para ganhar tempo, tratei de desviar a conversa. “Eu apanhei o Louis a rondar a casa e ainda que duvide muito que ele se tenha esquecido de alguma coisa, ao mesmo tempo sinto que ele não estava a fazer nada de mal porque ficou todo contente quando me viu.” “Sim, há ali qualquer coisa que não bate certa mas não consigo meter o dedo na ferida. Como é que vocês dizem? Não bate a bota com a perdigota?” Eu tive que sorrir, ele sabia mais português do que eu. “Sim, é isso mesmo. Bem, eventualmente descobrimos o que é que se passa com o Louis. Agora o melhor é ir dormir porque já vou com umas horas de 90

atraso.” “Não há mais nada que queiras dizer-me?” Os poucos caracóis que caíam sobre os olhos azuis dele tornavam-no perfeito. “Não.” E preparei-me para subir as escadas, mas ele agarrou-me num braço. “Mas eu tenho algo para dizer-te. Importas-te de sentar-te uns minutos?” Importar importava-me, mas há sempre aquele momento em que temos que fingir que somos adultos - infelizmente agora era um deles. “Obrigado. Primeiro quero dizer que nunca escondi que achava que eras diferente e era por isso que estava interessado em manter-te viva.” Engoli em seco com o ‘viva’. “Entretanto comecei a descobrir mais coisas sobre ti e nunca, mas nunca, partilhei nada do que descobri e por mim ninguém vai saber o que és ou do que és verdadeiramente capaz. Mas claro que todo esse potencial abriu caminho ao pensamento de que talvez, ainda que seja uma hipótese muito remota, possamos vencer o Vlad se lutares ao nosso lado. E quem sabe conseguimos até evitar o suicídio coletivo que o Ezequiel e o Arzel antecipam. Serias o nosso elemento surpresa. Deixei-me levar pela ideia de poder derrotálo ao fim destes anos todos, anos em que ele não parece ter mais nada em mente que não seja destruir o que tentamos construir.” Ele parou uns momentos e abriu os olhos como se tivesse voltado à Terra. “Infelizmente esqueci-me de perguntar-te o que pensavas de arriscar a tua vida numa guerra que não te diz respeito. Mas a verdade é que sem ti não temos grande hipótese.” Fui apanhada de surpresa. “Eu pensava que o derrotista era o Ezequiel e que tu tinhas alguma na manga para derrotar o Vlad?… E que essa carta não tinha a minha cara desenhada, já agora.” “Eu não tinha nenhum plano, só uma certa sede de vingança e muita esperança que lutar do lado certo ajudasse nalguma coisa. E nestes dias não devia ter forçado tanto o teu limite, era óbvio que estavas assustada e o mínimo que devia ter feito era dar-te tempo para pensares sobre o assunto.” “Eu consigo controlar a minha transformação.” A minha boca era uma traidora! Eu tinha prometido a mim própria que ia manter isto em segredo… será que a minha boca acreditava no olho por olho, confissão por confissão? “Consegues?? A sério?! Desde quando?” E sem mais demoras veio direito a mim e abraçou-me. “Excelente Rita! Como é que conseguiste isso?” Eu encolhi os ombros para dar ideia de que era muito fácil. “É muito natural na verdade, eu nem sei bem como faço, basta pensar nisso.” Olhei à minha volta. “Se não gostasse tanto da mobília até te mostrava, mas sendo assim prefiro manter os sofás intactos.” Inspirei fundo, lá ia outra confissão a sair: quentinhas e boas! “Tu tinhas razão. Eu estava a ser parva e não havia nada para ter medo, exceto do desconhecido. Eu controlo perfeitamente o tigre e até é giro, ele é tão sorrateiro! Ela… qualquer coisa, não me soa bem dizer ‘a’ tigre.” “Tigresa.” Sofri a humilhação de ter um bife a corrigir o meu português. “Continuando: eu estava fazer uma resistência enorme e a limitar a minha força, agora é como se me tivessem tirado um peso de cima, sinto-me mais 91

livre e relaxada. Ou talvez simplesmente feliz por saber o que se passa comigo.” “Amanhã mostras-me isso, combinado?” Eu sorri e acenei que sim com a cabeça. “Ah, e o que achas do Arzel? Queres que ele treine contigo ou nem por isso?” “Eu quero treinar, tenho que aprender a defender-me a sério das coisas que eu não conheço.” E para a confissão seguinte olhei fixamente para o chão. “Mas não quero participar na tua luta contra o Vlad.” Ao contrário do que estava à espera, ele não reagiu mal. A cara dele não mudou, mas ele aproximou-se e levantou-me o queixo com um dedo até termos contacto visual. “A escolha é tua. Nunca pensei em recrutar-te à força, nem quando estavas presa na cela.” Eu senti que ele estava a ser sincero, mas ainda não tinha a certeza do que pensar acerca dele querer usar-me contra o Vlad - seria uma luta assim tão desigual? Mas na verdade o que eu estava a pensar mesmo é que tinha sono. A nível físico sentia-me esgotada, apesar de ao mesmo tempo sentir-me surpreendentemente leve. A nível psicológico estava desgraçadinha de todo e nem ia analisar a coisa. Fiz uma tentativa para bocejar mas parei quando o meu horizonte entortou porque o Vicente pegou-me ao colo. Assim que me endireitei nos braços dele, um sentimento de tranquilidade percorreu-me o corpo de cima a baixo e encostei a cabeça ao ombro dele. Estava bem mais cansada do que eu pensava e ali aninhada sentia-me em casa. Eu, que nunca pertenci a lado nenhum, sentia-me em casa nos braços de um vampiro - ironia das ironias. Ele subiu devagar as escadas, talvez também estivesse cansado ou então estava a ver se me adormecia pelo caminho. “Rita, já estás a dormir?” Eu soltei um grunhido qualquer que deveria rimar com ‘sim’. “Queres ir para o teu quarto ou continuas a querer ter companhia?” Eu sorri mas duvido que os meus músculos do rosto tenham realmente mudado de forma. Falar envolvia um grande sacrifício e força de vontade da minha parte, portanto limitei-me a levantar um dedo e a apontar para a porta do quarto dele. Depois de todo aquele esforço, aninhei-me ainda mais no colo dele para dar a entender que não estava a pensar sair daquela posição, mesmo que tivesse apontado para o lado errado. Ele sussurrou-me ao ouvido “I love you for coming back” e o meu sistema nervoso central arrepiou-se todo.

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Como testar os verdadeiros limites Acordei sozinha na cama, embora estivesse exatamente na posição em que tinha adormecido - só faltava o Vicente a terminar o quadro. Enquanto o meu cérebro acordava, pareceu-me ouvir Céline Dion no andar de baixo. Um neurónio dizia-me que o Vicente não era o tipo de pessoa que ouvia Céline Dion, o outro neurónio dizia-me que a voz que tentava acompanhar a música numa interpretação muito livre só podia pertencer ao Arzel. Enquanto o Tico e o Teco discutiam um com o outro, eu resolvi arrastar-me para fora da cama e tomar um duche para despertar. Esta tinha sido uma boa altura para abrir os olhos porque a porta da casa de banho do quarto do Vicente estava na parede atrás de mim e não na parede que o meu dedo grande do pé encontrou. Depois de um chorrilho de asneiras que tinham como função mágica curar-me o dedo - ou aliviar-me a alma - lá dei meia volta e fui tomar banho ao meu quarto porque me pareceu mais seguro. Conforme descia até à sala, decidi que o Teco é que tinha razão mas a desgarrada já não se ouvia. Sendo assim, procurei o Arzel por ouvido antes de ir à procura das tostas mistas. Encontrei-o no gabinete com o Vicente, e como estavam os dois com ar de quem estava a discutir uma coisa séria, resolvi avisá-los da minha chegada com um sonoro “Bom dia!” e atirei-me para os braços da montanha que era o Arzel. Ele pareceu não estar à espera de um cumprimento tão físico, mas não se fez rogado e deu-me um valente abraço que encolheu pelo menos seis das minhas vinte e quatro costelas. O Vicente levantou o sobrolho ao meu bom humor matinal, mas ficou devidamente estupefacto quando eu dei meia volta à secretária e dei-lhe um beijo de bons dias com tudo o que tinha. Com a sensação de dever cumprido, saí do escritório e fui à caça das tostas. Estava ainda a saborear as migalhas da minha última tosta quando o Arzel saiu do escritório. Deu-me um grande sorriso e fez-me sinal para acompanhálo à cave. Assim que desci vi logo que alguém tinha andado muito atarefado naquela manhã, e não apenas a estoirar os tímpanos dos outros. A cave estava decorada de cima a baixo com colchões de queda: chão, paredes e um bocadinho do teto. Haviam umas tantas maquinetas que eu nem sabia para que serviam - esperava que não fossem para correr - e algumas armas ao canto. Uau, o Arzel tinha levado esta coisa a sério! Só não assobiei porque não sabia. E sem mais demoras, o Arzel deu início ao meu treino. Algumas horas e várias tentativas de subornar o Arzel depois, ele deixou-me de cara plantada num colchão e sem um pingo de energia nos músculos. “Então nina? Não dás mais do que isso?!” Eu disse qualquer coisa ofensiva mas fui censurada pelo colchão. “Bem, parece que por hoje temos que terminar, há um limite ao número de vezes que posso bater numa pessoa num dia e deixá-la inconsciente. Mas amanhã quero ver-te mais acordada e vais fazer todas as flexões e abdominais que faltaram hoje! Até amanhã nina, treina muito!”

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E saiu da cave. Dava muito trabalho chamar-lhe nomes feios em voz alta enquanto comia o colchão, por isso limitei-me a recitar todas as ofensas que conhecia por ordem alfabética e a transmiti-las telepaticamente, o que me devolveu alguma paz interior. Respirei devagarinho para não deslocar mais nenhuma costela e prometi silenciosamente ao meu corpo que nunca mais ia fazê-lo passar por uma prova daquelas e que da próxima vez ia limitar o número de desmaios e de embates frontais. Deixei-me estar espalmada no colchão porque as dores eram tão abrangentes que eu era incapaz de indicar uma zona específica que não me doesse ou que me doesse menos. Ao mesmo tempo, a adrenalina (ou uma coisa desse género) levava a dor para outra dimensão e isso permitia-me fazer o que eu queria realmente fazer: dormir. Provavelmente desmaiei de novo. “O Arzel ficou muito surpreendido contigo, parabéns!” Abri devagarinho o olho direito porque tinha uma leve recordação de ter o olho esquerdo demasiado inchado para poder fazer o que quer que fosse com ele. Curiosamente não estava de frente para um colchão de queda mas sim de frente para o teto da casa de banho. Mexi os dedos dos pés e descobri que estava dentro de água quente com imensa espuma - sabia tão bem. Voltei a tentar ficar inconsciente mas senti uma esponja na minha perna esquerda e arrepiei-me - também sabia bem. Apetecia-me dizer para não pararem mas antes que conseguisse formar as palavras na boca, o meu cérebro resolveu acordar e despertar todas as sinapses ao mesmo tempo, o que resultou numa gigantesca dor de cabeça! Usei finalmente o pescoço para endireitar a cabeça e levantei os braços para apoiá-la também - precisava de todo o apoio disponível. Foi aí que descobri que estava mesmo dentro de uma banheira cheia de espuma e que havia um braço com uns músculos muito bem delineados a lavar-me com uma esponja. Segui aquele glorioso braço para descobrir o dono que era - como eu já sabia mas queria confirmar - o Vicente. A minha cabeça registou que aquele era um momento excecional: um homem lindo de morrer tinha-se dado ao trabalho de dar-me banho e encher uma banheira de espuma só para mim. Infelizmente o meu corpo só conseguia registar como doía tanto partir qualquer coisa. Engoli em seco e senti sangue na boca, será que também tinha partido algum dente? “Cheguei ao céu?” Ele riu-se. “O que é que se passou?” Sussurrei. “O Arzel entusiasmou-se demais por ter finalmente alguém ao nível dele com quem lutar… ou pelo menos perto do nível dele.” “Eu… eu tenho os dentes todos?” Sussurrei de novo. “Que eu saiba sim, mas ainda não os contei. Queres abrir a boca para eu ver?” “Não… não quero abrir mais a boca do que isto, tenho medo que o maxilar salte e se enterre na cana do nariz.” Ele riu-se com vontade e fez-me uma festa na cabeça. Uma festa! 94

Condescendência de um homem que está a ver-me nua e a lavar-me… Definitivamente aquele não era o meu dia. Era bom que a coisa começasse a melhorar a partir dali porque o meu corpo doía-me demasiado para conseguir tirar partido da situação. “Acabaste por não mostrar-me a tua transformação.” “Até tenho medo do que possa transformar-me neste estado… um gato perneta ou assim. Quantos ossos é que estão partidos? Parece-te que estou muito mal? Quanto tempo até voltar a andar?” E ele começou a rir-se a sério. “Estás ótima Ritinha! Deslocaste os ombros, umas costelas e mais umas coisinhas, mas o teu corpo já está a tratar da situação. O Arzel não deixou que nada começasse a sarar fora de sítio, amanhã estás como nova!” Não pude evitar um sentimento de frustração. Seguiram-se uns largos minutos que podiam ser bem mais eróticos e sexy se eu não tivesse perdido imenso tempo a verificar que todas as articulações mexiam, que os ossos não eram formados por linhas descontínuas, que não haviam fraturas externas nem possíveis hemorragias internas e que todos os membros estavam ligados às partes certas. Finalmente acedi a levantar-me da banheira com a ajuda do Vicente. Apesar dele ter gozado comigo, enfaixou-me a zona das costelas com cuidado e voltou a ajudar-me para conseguir chegar ao quarto. Quando caí na cama senti que todo o dinheiro do mundo não pagava o conforto de uns bons lençóis e um colchão de qualidade. Ajeitei-me no colchão para apagar-me para o mundo, mas o Vicente tinha outros planos. “Calma! Primeiro comes qualquer coisa e só depois é que podes dormir.” “Mas eu não tenho fome.” “Mas precisas de comer, eu volto já.” Fome? Mas qual fome? E mesmo que tivesse fome, provavelmente não tinha dentes ou força suficiente no maxilar para levar a bom cabo aquela difícil ação que dá pelo nome de mastigação. Ele voltou praticamente assim que saiu e trazia três tabuleiros equilibrados de um modo um pouco surreal - como a Cinderela fazia quando ainda era a gata borralheira. Gata? Hum, será que a Cinderela também escondia um gene mais felino?… Enquanto me perdia nestas importantes considerações, o Vicente pousou os tabuleiros na mesa de cabeceira e deu-me a conhecer o menu da hora de jantar. “O chef Ferdinand apresenta um vasto leque de sugestões para esta noite: será que a menina prefere Nestum Mel? Ou talvez Nestum com chocolate? Ou ainda - la pièce de résistance - Cerelac?” Comecei a rir-me mas os meus interiores não acharam a mesma piada que eu - público difícil! Limitei-me a sussurrar que ia seguir com a sugestão do chef e acho que bebi Cerelac em vez de comer Cerelac, mas assim que acabei o Vicente saiu e deixou-me dormir descansada enquanto o meu corpo lutava em 95

contrarrelógio para unir todos os pares de células que eu tinha forçado à separação, ainda que involuntariamente. Os dias que se seguiram fizeram-me cair numa rotina de atleta olímpica. Eu acordava cada vez mais cedo e menos dorida, apesar do treino ser cada vez mais intenso. O Arzel desfazia-me aos bocados e eu acabava sempre inconsciente algures na cave, mas as palavras encorajadoras do Vicente em como ele na realidade estava cada vez mais aflito para defender-se faziam-me voltar à cave todas as manhãs. Isso e a esperança de poder um dia vingar-me do Arzel e deixá-lo num oito. Passaram duas semanas e eu deixei de ficar inconsciente; e na semana que se seguiu deixei de acabar o treino com a cara no chão e passei a terminar de joelhos. E conforme os meus músculos se soltavam (literalmente e não só), assim como os meus saltos e capacidades defensivas, eu começava também a acreditar que podia vencer o Arzel. Passávamos a manhã na cave a lutar, só parávamos para comer e depois voltávamos à cave enquanto o Vicente ficava no escritório ou ia correr. Até que o meu dia chegou. O Arzel empunhou a espada e veio direito a mim com intenção de espetar a lâmina tão funda quanto possível. Eu tive finalmente velocidade suficiente para rodar sobre mim própria e conforme ele falhava o meu lado esquerdo, eu respondia com um golpe do punho da espada na nuca dele. Consegui ver em câmera lenta aquele homem enorme com os músculos cobertos de suor e olhos fechados a cair em direção ao tapete enquanto as gotículas de suor ficavam no ar atrás dele. E foi então que o Arzel caiu inanimado ao chão… pela primeira vez na história daquela cave remodelada. E ainda vi a deformação da bochecha dele assim que entrou em contacto com o tapete de queda. Na excitação do momento veio-me um instinto animal à garganta e libertei um rugido de vitória! Talvez alertado pelo rugido, o Vicente materializou-se na porta da cave e o ar preocupado dele passou rapidamente a divertido. Antes que eu pudesse dizer o que quer que fosse, ele tirou o telemóvel do bolso e tirou várias fotografias da cena. Eu confesso que posei nalgumas como se fosse a Xena, a princesa guerreira. Eventualmente o Arzel despertou e eu estava deitada no colchão ao lado dele a olhar para ele como ele fazia comigo. Assim que percebi que ele estava totalmente consciente, não evitei dizer-lhe: “Cem flexões para o perdedor!” Ele sorriu e, contra as minhas expectativas, fez realmente as flexões todas! Depois desse dia os meus treinos passaram a juntar o Arzel e o Vicente - um por todos e todos por um. Curiosamente eu não me sentia mais musculada, mas estava definitivamente mais forte e o meu tigre também. Apesar de não me sentir bem a esconder a verdade do Arzel, nunca lhe disse o que é que eu era e porque é que conseguia vencê-lo. Os dias lá continuaram sem grandes novidades até que o Vicente largou uma bomba durante o jantar. “Tenho andado a procurar informações sobre ti na internet.” Até aqui tudo normal, eu fazia o mesmo. “E quase desde o princípio que resolvi juntar as palavras dos teus sonhos e ver o que saía, porque tu pareces pensar que são mais recordações do que a tua imaginação.” E foi aí que ele conseguiu desviar a minha atenção da posta mirandesa que tinha no prato. “Acho que encontrei 96

alguém que pode ajudar-nos a saber mais sobre ti e… bem, mais sobre ti. Só que ele recusa-se a comunicar por e-mail ou telefone, acho que o melhor é mesmo aparecermos lá amanhã.” “Achas que pode ser uma armadilha?” “Duvido, ele não sabe de ti e pensa que eu sou um escritor à procura de material para escrever um livro. Mas nunca se sabe, infelizmente não há forma de confirmar sem ir lá.” “Então vamos lá!” “Tens a certeza que queres vir também? Eu não faço ideia do que ele vai dizer e se é verdade ou não. Se ele disser que sabe coisas sobre ti e depois for tudo mentira… bem, não fiques demasiado esperançada.” Nah, só não ia pensar em mais nada. “É verdade, mas antes a frustração do que a ignorância. Quero ir também.” “Muito bem, amanhã depois de almoço vamos lá porque é à hora que a loja fecha.” “Tem uma loja? Vende o quê?” “Tem uma loja bem simpática de livros antigos… é alfarrabista.” “Hum, se realmente souber alguma coisa sobre mim tem lógica que seja através de livros antigos. Ou se calhar não tem, nem sei!” “Amanhã descobrimos.” Adorava quando ele falava na primeira pessoa do plural e adorava ainda mais o sorriso que ele juntava às palavras. O homem era lindo de morrer e um dia destes ia perceber que eu nem por isso. Mas até lá, o melhor era ir aproveitando. No dia seguinte deixei-me dormir até tarde já que não havia treino e só desci quando o barulho do meu estômago se sobrepôs ao do meu pensamento. Desci as escadas de dois em dois e sentei-me logo à mesa pronta para comer. Para minha surpresa, o Vicente saiu do escritório e sentou-se também comigo à mesa. “Ena, ena! A que se deve a presença de sua majestade neste ilustre pequeno-almoço?” “Não tenho muito mais para fazer hoje, a ver se nos dedicamos cem por cento a desvendar-te.” Soava melhor do que era na realidade. “Hum, lembrei-me agora: o que fazes? Tens alguma profissão?” “Sim, sou professor.” “De todas as profissões no mundo, e sabendo que tens o poder para influenciar a tua entidade patronal, porque carga de água é que escolheste essa?!” “Eu gosto de ensinar e há sempre quem goste de aprender.” “És professor onde? E de quê?” “Na Universidade, dou aulas de línguas e às vezes de literatura inglesa.” “Tem lógica… afinal deves ter conhecido quase todos os grandes autores, é muito mais fácil perceber um texto quando podes perguntar ao autor o que é que ele queria dizer. Pelo menos tem que ser mais sério do que inventar-lhe um significado qualquer ao fim de não sei quantos séculos.” 97

“Sem dúvida! Há muitas interpretações por aí com as quais não concordo.” “E História? Aposto que davas um excelente professor de História!” “História faz-me sentir velho… e infelizmente as pessoas parecem não aprender com os erros do passado. Enfim, deixa-me deprimido.” Continuámos a falar da Universidade e eu estava maravilhada com o facto do ‘meu’ vampiro ser um professor universitário! E pensava eu que ele limitava-se a hipnotizar milionários para que lhe doassem parte da fortuna. Quem diria? Afinal ele trabalhava e tudo! Mais giro ainda, era um funcionário público e sabe-se lá que documentação arranjou para registar-se. A manhã passou depressa e pouco depois voltámos ao habitual carro preto. Quando passámos na vila ali perto é que comecei a contar os dias e a aperceber-me de que estava feita uma eremita. Portugal podia ter sido levado por extraterrestres e eu não tinha dado por nada. Infelizmente não parecia ter sido esse o caso, as casas apresentavam o mesmo ar de sempre e as pessoas também. Ao fim de duas horas e por entre becos e travessas lá parámos o carro numa rua de sentido único. Havia apenas uma loja naquela rua e quando me aproximei da montra senti uma simpatia imensa pela pequena loja que estava literalmente forrada de livros. Todas as mesas, prateleiras, cadeiras e até o balcão tinham pilhas de livros velhos - alguns muito velhos - e o cheiro a papel velho saía por baixo da porta. Também conseguia ver um pequeno escadote preto de ferro que estava espalmado contra uma estante à direita - aquela loja parecia tirada de um postal. O Vicente tocou três vezes à campainha provavelmente um sinal que tinham combinado - e apareceu um senhor velhote com um farfalhudo bigode branco, talvez para compensar a calvície. Ele olhou-nos de cima a baixo antes de abrir a porta e pareceu contente com a avaliação. “Ah, chegaram! Estava à vossa espera. Entrem, entrem!” Fez-nos sinal para que o seguíssemos e o Vicente fez sinal ao Arzel para manter-se em alerta. Eu entrei sem pensar duas vezes, o meu instinto dizia-me que o alfarrabista era de confiança e eu continuava a acumular esperança em redor da nossa conversa. Qualquer pedacinho de informação nova já teria valido a viagem até lá. Eu e o Vicente seguimo-lo por entre as tortas colunas de livros - algumas começavam no chão - e seguindo um caminho em serpente lá chegámos a uma salita na parte de trás da loja. Olhei para os sofás simpáticos encostados à parede e para o candeeiro antigo pendurado no teto que dava muito menos luz do que deveria. Só então olhei para cima da mesa e vi ilustrações de criaturas que eram metade humanas e metade tigres… o meu coração esqueceu-se de bater e eu engoli em seco.

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Como tudo começou Sentei-me na mesa sem esperar pela devida autorização e apressei-me a folhear os livros. Estava tão nervosa que não conseguia focar as letras e portanto não conseguia ler nada do que lá estava escrito, mas muitas ilustrações pareciam erradas - pelo menos considerando o meu aspeto antes e depois de transformar-me. O dono da loja sentou-se à minha frente e pegoume na mão esquerda antes de dizer: “É igualzinha a ela! Nunca imaginei que um dia ia vê-la de novo… que dia feliz!” Olhei para o Vicente como a dar a entender que achava que o homem tinha um parafuso a menos, mas ele parecia extremamente sério. “A ela? Quem?” “À sua mãe.” “A minha mãe não é parecida comigo, de facto nem temos muito em comum.” “À sua verdadeira mãe, estou a falar da Namah.” “Verdadeira?! Eu acho que há aqui um engano qualquer…” “Rita, espera.” O Vicente cortou-me a palavra. “Tu já mais do que uma vez falaste na Namah e embora eu tivesse algumas dúvidas sobre o que o Sr. Vítor sabia, acho que acabei de ficar sem elas.” Ele deu-me um momento para fechar a boca e concentrar-me no tal de Sr. Vítor. “O que sabe da Namah? E o que sabe das capacidades dela, em particular?” “Bem, é óbvio que sei que podia transformar-se num tigre e foi por isso que tirei estes livros sobre o assunto - queria mostrar-vos que podem confiar em mim. Não se sabe como surgiram os humanos com estas capacidades, mas sabe-se que passa de geração em geração. A mãe passa esta ‘magia’ às filhas e o pai aos filhos, ou a qualquer filho se ambos possuírem essa capacidade. Talvez por existirem tão poucos, parece que a evolução deu um jeitinho e os filhos dos cruzamentos entre humanos comuns e humanos deste tipo resultam em indivíduos com exatamente as mesmas capacidades e não mais fracos. Suponho que a Rita tenha nascido assim… consegue transformar-se completamente?” Eu acenei que sim com a cabeça. “Há pessoas - como as que escreveram estes livros - que acham que os filhos de pares mistos nascem mais fracos e não conseguem completar a transformação, como podem ver nesta ilustração.” E apontou para o desenho que eu tinha visto assim que entrei. “Talvez haja quem não consiga transformar-se, mas eu só conheci a sua mãe e ela não tinha problemas desses. Por outro lado, não conheço o seu pai - ainda que esteja a partir do princípio que era humano como eu.” “Mas eu conheço o meu pai e posso garantir que ele não se transforma em nada.” “Posso tratar-te por tu? És tão nova!” Eu acenei que sim. “Lamento dizer-te isto, mas eu tenho as minhas sérias dúvidas que trates por pai e mãe as pessoas certas. A Namah desapareceu sem deixar rasto há cerca de trinta anos e, apesar de eu ter dado o meu melhor para encontrá-la, ela não deixou migalhas para trás e eu acabei por perceber que ela não queria ser encontrada. 99

Felizmente ou infelizmente não conseguiu esconder a gravidez e algumas pessoas aperceberam-se do que se passava, mas não sei o que aconteceu depois. Se calhar pediu a um casal amigo para cuidar de ti quando sentiu que estava a colocar-te em perigo? Duvido muito que ela te tivesse abandonado…” O Sr. Vítor tinha algumas lágrimas nos olhos e suspirou profundamente antes de terminar. “O que eu dava para saber o que aconteceu e porque é que ela nunca voltou…” E abanou a cabeça perdido em recordações do passado. Eu estava em estado de choque: quem seriam os meus verdadeiros pais? Como é que eu não me lembrava deles? Seria verdade? Se isto de poder transformar-me num tigre fosse mesmo hereditário, então a mãe que eu tinha não era realmente a minha mãe. “Mas eu não faço ideia de quem é a Namah!” “O Sr. Vicente disse-me que falas nela?” “Apenas nos meus pesadelos. Aparentemente eu falo numa Namah e numa Tika, mas quando acordo não me lembro de nada.” Os olhos dele brilharam com a revelação. “Tika!” “O que é que isso quer dizer?” “É o teu verdadeiro nome.” Se calhar eu não queria saber. “Não, o meu nome é Rita e tenho uma cédula de nascimento a prová-lo!” “Sim e nessa cédula constam duas pessoas que não são os teus pais. Sr. Vicente, o que é que ela diz mais concretamente?” “Ela choraminga que a Tika está cansada e depois pede chocolates. Costuma andar à volta disso.” “Chocolantes?!” Perguntei eu incrédula. “Bate certo.” Ainda bem que alguém achava que sim. “Quando nasces com essas capacidades, um dos teus pais tem que ensinar-te a controlar o tigre que tens dentro de ti porque não podes transformar-te a cada cinco minutos. Provavelmente ensinaram-te também a lutar para poderes defender-te sem a presença deles. Devias ser muito pequena quando ela desapareceu e é por isso que não te lembras.” “Bem, isso explica vagamente porque é que eu sei lutar, mas não entendo como é que não me lembro da minha própria mãe! E Tika?… Esse nome nem deve estar aprovado pelas leis portuguesas.” “Não sei, mas aposto que é um diminutivo de Tiikeri que é tigre em finlandês. Talvez o teu pai fosse finlandês? A tua mãe tinha esse tipo de humor e imagino que Rita tenha sido a variante de Tika que ela arranjou para português. És mesmo parecida com ela, incrível! Tenho que lembrar-me constantemente de que não és a tua mãe.” “Não estou a compreender. A minha mãe treinou-me e depois deixou-me? E os meus novos pais nunca me disseram que eu sou adotada? É que eu e eles não nos damos muito bem, sem dúvida que a falta de parentesco era uma explicação que qualquer um de nós gostaria de ter.” 100

“Acho estranho não te lembrares dela, mas alguma coisa ficou no teu subconsciente. Não posso dar-te mais do que uma ideia do que talvez se possa ter passado… Mereces saber que és especial, mais especial ainda do que os vampiros.” Pisquei os olhos umas quatro vezes, será que ele também sabia o que o Vicente era? “Não se sabe quantas pessoas existem no mundo capazes de fazer o que tu fazes, mas não me surpreenderia que fosses a única.” Engoli em seco. “O que é que aconteceu aos outros?” “Há um certo vampiro que vive obcecado em viver para sempre e em matar todos aqueles que por alguma razão possam frustrar-lhe o plano. E tu se calhar és mais forte do que ele, mas infelizmente duvido que cheguem a uma batalha de um para um. Não consigo conceber qual é o plano que se segue depois de tornar-se no ser mais poderoso que caminha sobre a Terra, talvez conquistar Marte? A verdade é que assim que ele soube da vossa existência, o plano dele tornou-se bem mais requintado: meteu na cabeça que havia de ter um exército de tigres a defendê-lo. Capturou todos quantos encontrou e tentou replicar a vossa ‘magia’ em laboratório - sem qualquer sucesso. Mostra também uma certa burrice ao achar que pela força consegue domar um animal selvagem. E nessa cegueira para criar um exército praticamente indestrutível, capturou todos quantos encontrou. Não sei se encontrou todos, mas desconfio que a tua mãe acabou por ser descoberta e sabendo do perigo que as duas corriam, resolveu desaparecer da tua vida.” A mãe que eu não conheci tinha provavelmente dado a vida dela por mim. “Não sei o que ela fez para esconderte, mas desconfio que pediu a ajuda de algum vampiro ou de alguém que soubesse implementar memórias falsas e criou uma vida nova para ti longe dela. E está visto que resultou e ela conseguiu manter-te viva porque aqui estás tu!” “Eu não consigo hipnotizá-la.” Esclareceu o Vicente. “Não? Curioso, mais uma coisa que não sabia acerca deles. Então não sei como ela fez contigo… talvez funcionasse porque eras uma criança? Ou tu bloqueaste as memórias quando te sentiste abandonada? Não faço ideia! Só sei que um dia ela desapareceu e nunca mais ninguém soube nada da Namah.” “Como é que a conheceu? Como é que ela era?” “A Namah era presença assídua desta livraria e fiquei deveras intrigado com o tipo de literatura que ela privilegiava - esta que vês aqui em cima da mesa. Depois tornámo-nos amigos e apesar da grande paixão que sempre tive pela tua mãe, ela nunca deixou que fôssemos mais do que amigos. Mas acabou por ensinar-me que o mundo esconde uma magia imensa e só por isso estoulhe eternamente grato. Saber que a Terra está cheia de magia renova-me a confiança no planeta em que vivemos.” E depois olhou para mim e foi buscar um espelho. “Acho que basta olhares-te ao espelho para teres um retrato vivo da tua mãe.” “E o que sabe sobre as capacidades deles? Há alguma coisa que evite a transformação? Passa com a idade? Há algum tipo de poderes telepáticos associados?” O Vicente - que tinha estado mais ou menos contido até ali resolveu perguntar tudo de uma vez. 101

“Eu não sei quase nada, mas acho que ela não vai perder os poderes que tem. Talvez se torne menos forte com a idade, mas vai conseguir transformarse sempre num tigre. Que eu saiba não têm poderes telepáticos, mas eu só conheci a mãe dela - não posso extrapolar muito!” “Esse vampiro que capturou os tigres… posso assumir que ele tem ligações à Valáquia?” “Pode sim, infelizmente é ele mesmo.” O Vicente fechou os olhos e levou as mãos às têmporas, eu entrei novamente em estado de choque. “Se ele souber que eu existo… vem atrás de mim, não é?” “Oh, se ele souber que existes podes ter a certeza que não vais estar a salvo em lugar nenhum. A tua mãe não conseguiu fugir dele.” E depois olhou para o Vicente. “Nem com a ajuda de um vampiro poderoso como ele.” O Vicente estremeceu ligeiramente ao ouvir a última frase. “Mais alguma coisa em que possa ajudá-los? Sois um par deveras curioso!” Eu e o Vicente olhámos estarrecidos um para o outro, mas acabei por ser eu a falar. “Podia vender-me um ou dois livros desses que aí tem? De preferência os que estejam mais corretos, faz-me impressão não saber nada sobre mim nem de onde venho.” “Todos estes autores inventaram imenso acerca do tema, mas o melhor é levá-los todos. Os livros precisam de ser lidos e eu escondi-os a sete chaves desde que a Namah desapareceu. Já estão comigo há demasiados anos.” O Sr. Vítor não respondeu a mais perguntas, limitou-se a sorrir e a meter os livros todos num saco grande. Eu olhei para o Vicente e não gostei do ar de preocupação que ele me devolveu - não queria que ninguém tivesse pena de mim… nem que fosse a última tigresa na Terra! Entretanto levantámo-nos todos e caminhámos até à porta. Mas antes de sair da loja, não resisti a agradecer ao Sr. Vítor toda a ajuda que ele tinha prestado. “Muito obrigada, a sério! Apesar de estar atordoada com tudo o que me disse, é muito bom saber um pouco mais sobre mim, e sobre a minha família em particular. Não sei como agradecer-lhe!” “Mantenha-se viva - isso é mais do que suficiente! E tenha muito cuidado a quem revela o seu segredo, estes não são bons tempos para ser uma raridade, em vez de saberem apreciá-la vão tentar caçá-la!” Os meus pesadelos iam tomar toda uma nova cor depois desta conversa. Agradeci de novo, não tão profusamente, e agarrei-me demasiado ao Vicente no caminho para o carro para ver se ele me escondia. Eu estava a ser ridícula porque tinha crescido no meio de imensa gente, tinha sido aluna em escolas públicas e agora trabalhava num laboratório com mais vinte pessoas - se ainda tivesse emprego. Se alguém me tivesse descoberto antes do episódio da esquadra, eu já estava algures numa jaula… romena. E assim numa triste partida do destino, a guerra do Vicente passou também a ser a minha. “Parece que afinal temos um inimigo em comum.” Ele não respondeu 102

imediatamente, ou estava perdido nos pensamentos dele ou simplesmente a ignorar-me. “Não sei quanto tempo mais tenho para preparar-me até ao vosso ataque, ou como podem incluir-me nos vossos planos, mas eu quero ir também.” “Começo a achar que isto não é boa ideia, eu não sabia que o Vlad andava atrás de ti. Quer dizer, eu não sabia que ele andava atrás de pessoas como tu. Se vieres connosco é como se estivesse a entregar-te de bandeja, vamos meterte na boca do lobo!” “Ele não sabe quem eu sou, ele sabe que existem pessoas como eu mas não sabe que eu sou uma delas. Posso muito bem combater convosco sem revelarme.” “Isso seria o ideal Rita, mas não é assim. Ele provavelmente sabe quem tu és. Depois do que ouvi ali dentro, ele anda a fazer experiências convosco e deve ter mais dados sobre o que és do que qualquer outra pessoa. Não sei como é que ele soube que estavas na esquadra, mas parece-me que ele sabe perfeitamente o que és e que foi apenas por milagre que chegámos primeiro e que depois tenhamos resistido ao ataque das forças dele. Aposto que ele pensou mais no efeito do elemento surpresa do que no número de pessoas que conseguem trazer um tigre abaixo, mas não vai voltar a repetir o erro. É claro que ele não faz ideia de onde estás e isso é bom, mas temos que pensar muito bem nisto… eu sabia que ele estava obcecado em construir o melhor exército privado do mundo, mas pensei que estivesse apenas a colecionar vampiros!” “Ainda não o conheço e já não posso com ele… Achas que a minha mãe está viva?” “Não Rita, não acho.” Ele tocou-me na face e eu encostei a cara à palma da mão dele. “Lamento que tenhas descoberto quem era a tua mãe na mesma altura em que descobriste que ela está desaparecida. Mas se o Vlad andava atrás dela, provavelmente preferiu morrer a ser capturada. Não podes mesmo contar a ninguém o que és, falaste com alguém?” “Não, só tu é que sabes.” Ele deu-me a mão e apertou com força. “Não sei como é que vamos sair disto vivos, mas primeiro vamos mudarnos.” “Para onde? Oh, eu gosto tanto daquela casa!” “Depois disto ter acabado, podes ir para lá sempre que quiseres mas agora eu tenho que estar no centro das operações e a nova base está finalmente pronta. E Rita, eu preferia que não levasses nenhum desses livros contigo quando mudarmos para a casa nova.” “Claro…” Agarrei no saco dos livros com mais força e tentei encontrar uma boa solução para aquela trapalhada toda, mas não me saiu nada. E a minha mãe, quem seria? Pelo menos já sabia porque é que os meus ‘pais’ não tinham qualquer afinidade comigo. Mas e a minha avó?… A minha avó sempre me tinha tratado tão bem e cuidava de mim… “Ah!” Saltei no meu lugar e assustei o Vicente. 103

“O que foi?” “É a minha avó!” “Hum?” “A minha avó é a minha mãe! Quer dizer, a minha avó é na verdade a Namah e não a minha avó.” “Tens a certeza?” “Sim, é a única pessoa da minha família que se preocupava verdadeiramente comigo e dava-me chocolates!” O Vicente sorriu, mas os olhos dele mostravam algumas dúvidas. Eu ignorei, não fazia diferença - eu lembrava-me da minha mãe. E ela gostava tanto de mim que deu a vida dela para proteger-me.

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Como voltar a casa Nem dei por estarmos de volta a casa, só ‘acordei’ quando o Vicente chamou o Ferdinand. Eu até podia ter ouvido a conversa, mas estava perdida nos meus pensamentos e fui até ao quarto arrumar o pouco que tinha e que nem era meu. Peguei nos livros todos, arrumei-os numa coluna e distribuí-os pela base das gavetas que depois tapei com roupa. Não era propriamente muito inventivo ou bem disfarçado, mas eu não conhecia os esconderijos daquela casa e esperava sinceramente que ninguém soubesse da existência dela - era um retiro que eu tinha adotado como casa. Desci com um saco ao ombro e na sala arrumei apenas o meu novo portátil. Era oficial: estava pronta para mudar de casa. “Estou pronta!” O Vicente olhou para trás e sorriu. “Vamos ficar aqui até às cinco e depois saímos, temos que dar tempo ao Ezequiel para preparar as boas-vindas.” “Para onde vamos?” “Surpresa!” Encolhi os ombros e fui dar uma volta pela casa e pela floresta, em jeito de despedida. Afinal podia ser a última vez que via aquelas árvores e aquele rio já tinha saudades e ainda ali estava. Não resisti e transformei-me para poder correr toda aquela imensidão. Sentia-me mais perto da Natureza assim e corri, saltei o riacho, persegui uns animais mais pequenos só porque sim - não comi nenhum. Estava devidamente deliciada a rebolar-me numa clareira quando ouvi alguém aproximar-se. Levantei-me num pulo, o meu pelo imitou-me, e soltei um rugido de aviso. A posição de ameaça durou pouco tempo porque senti que era o Vicente. Voltei a relaxar e a reviver a sensação espetacular de ter as ervas a coçar-me as costas, isto é, continuei a rebolar. “Estou a ver que estás divertida.” Parei de rebolar e fiquei a olhar para ele, não sabia como responder de maneira a fazer-me entender por isso acabei por ir para perto dele. A minha cabeça passava a cintura do Vicente - eu era maior do que eu pensava. Na minha cabeça eu via um tigre de porte simpático e maneirinho como a minha outra versão em dois pés, não me tinha apercebido de que era tão grande. Ele voltou a sorrir e fez-me uma festa no pescoço debaixo do focinho. Eu queria parecer ofendida por estar a ser tratada como um animal doméstico, mas a verdade é que a sensação era incrível e dei por mim a roçar a minha cabeça nas pernas dele. Só parei quando me apercebi do que estava a fazer e ser apanhada naquelas figuras era embaraçoso. “Fazemos assim: corremos até meio caminho e depois tens que voltar à tua forma original, ok?”

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Suspirei, o que quer dizer que fiz um barulho enorme com o focinho mas deu para entender que estava resignada com a ideia de ir embora. Corremos os dois - ele era muito mais rápido do que eu - mas adorei puxar a minha velocidade ao máximo, estava maravilhada com o que era capaz de fazer. Quando o Vicente avisou que já estávamos perto da casa, ainda que eu também tivesse sentido, deixei-me voltar à forma humana. “Uau, fazes mesmo isso com uma facilidade incrível! E a parte de voltares com roupa… não entendo!” “É muito fácil sim, olhando para trás não sei como é que fui capaz de ter tanto medo de uma coisa que sempre controlei. Mas por outro lado, confesso que toda a liberdade que ser um tigre me dá é difícil de abandonar - sabe tão bem estar longe das chatices e perseguir esquilos ou raposas.” “Não te posso deixar sozinha em lado nenhum… Já a chatear os vizinhos, hem?” Tentei dar-lhe um murro mas ele desviou-se, como sempre. Agarroume no braço e pô-lo à volta da cintura dele, enquanto eu me encaixava no abraço. “O que é que eu vou fazer contigo, diz-me lá?” “Podias deixar-me numa floresta com esquilos, eu ia gostar.” Ele riu-se e abanou a cabeça. Pouco depois estávamos em casa acompanhados também por umas carrinhas de mudanças. Não reprimi uma pontada de orgulho quando vi que o material informático que tinha encomendado estava a ser levado para a nova casa, mas os utensílios de cozinha - que incluíam o Louis - espantaram-me mais. “O Louis também vai connosco?” “Não fazia parte do meu plano inicial, mas tu gostas tanto dos cozinhados dele e eu concordo que ele gosta de ti. Na outra noite não sei bem o que se passou, mas é talvez outra razão para ele ficar perto de nós.” “E ele quer vir connosco?” “Eu expliquei-lhe o que se passava e deixei-o escolher, mas nem acreditas no abraço que ele me deu por poder vir connosco. Há ali gato!” E riu-se da piada que não tinha piada. “Mas não consigo perceber o que é, ele transpira lealdade…” “E boa cozinha.” “Isso também.” Ajudei-os a transportar as coisas, o que deixou os senhores das mudanças calados por alguns minutos - uma tremenda melhoria em relação às bocas que tinha ouvido até ali. Não podia propriamente mandá-los calar porque eles estavam a sussurrar entre eles, mas o Vicente passou a vigiá-los de perto e ao pé dele nem se atreviam a assobiar. “That’s my man!” Pensei eu orgulhosa. Depois de estar tudo devidamente acondicionado nas camionetas, voltei para o nosso carro e perguntei se podia conduzir. Afinal não conduzia há imenso tempo e só tinha que seguir em marcha lenta para não perder as camionetas que vinham atrás. 106

“Claro, não sabia que podias conduzir?” “A Ana esforça-se para que ninguém saiba da atrocidade que a antiga DGV foi capaz de cometer ao dar-me a carta… à primeira tentativa!” “Rugiste ao instrutor?” “Quase!” Ele riu-se e deu-me as chaves sem hesitar. O Vicente não parava de somar imensos pontos na minha lista, será que o homem podia ser ainda mais perfeito? Bem, se calhar podia… se limasse uns caninos e não tivesse um fraquinho por sangue. Fui seguindo as indicações que ele me dava e lá chegámos à nova base. Fiquei muito contente por constatar que íamos de facto ficar na bonita casa da qual eu só conhecia o bunker. A casa resplandecia em toda a sua renovada glória e eu tive a certeza que desta vez ia dormir num quarto. Ou quase a certeza. O jardim estava cuidado e tratado, mas não tinham alterado a disposição original das coisas - o que demonstrava excelente bom gosto. O Vicente carregou num comando e o portão do lado abriu-se. Conduzi o carro até à garagem que estava toda arranjada e pintada de novo. Saímos do carro e o Vicente deu-me a mão para levar-me de novo para a rua de modo a entrarmos na casa pela entrada principal. “Seja muito bem vinda! Vamos fazer de conta que nunca aqui estiveste e que esta é a tua primeira estadia aqui, ok?” Eu ri-me. “Eu nunca estive aqui… tenho a certeza!” E pisquei-lhe o olho. Ele empurrou o pequeno portão da entrada para dar-me passagem e eu segui pelas pedras que moldavam o caminho na relva. O banco de pedra sobre o pequeno lago estava arranjado, assim como o lago que estava lavado e tinha uns peixes azuis bem gordos como residentes. Lambi os lábios quando olhei para eles e corei de imediato quando me apercebi. Olhei para o Vicente para confirmar que ele não tinha reparado, mas a gargalhada dele fez-me corar ainda mais. Apressei o passo em direção à porta da casa mas parei por momentos antes de abri-la. Era tudo o que eu tinha imaginado quando a vi pela primeira vez! Agora a madeira estava arranjada e pintada de fresco, mas as cores e os materiais originais tinham sido preservados - de novo, bom gosto. Os vitrais das janelas brilhavam ao sol e toda a casa parecia saída de uma boa revista de decoração. “Então, qual é o teu veredicto?” “É linda! Eu já tinha achado lindíssima da outra vez, mas agora é como se tivessem aperfeiçoado tudo até à exaustão!” “Da outra vez?…” E com um grande ar de gozo, acompanhou-me até à porta e abriu-a. Eu saltei logo para a entrada, cheia de curiosidade para ver como era a casa por dentro, mas o que vi primeiro foi a comissão de boas-vindas: o Arzel, o 107

Ezequiel e o Louis. O Louis já lá tinha estado antes, mexia-se com demasiado à-vontade para quem tinha acabado de chegar. Eu cumprimentei-os, dei um abraço mais demorado ao Arzel, e comecei a investigar os cantos à casa. A cozinha era muito moderna mas encaixava perfeitamente na casa, a sala é que era espetacular! Tinha uma lareira enorme e uns sofás super confortáveis que não ocupavam o espaço todo, o que era porreiro pois assim não dava a ideia de que estava demasiado cheia. Havia pouca coisa nas paredes e faltava definitivamente uma televisão, mas a luminosidade que entrava pela janela juntamente com a lareira e o sofá tornavam-na muito acolhedora. O Arzel apontou para baixo e eu desci as escadas para encontrar uma sala de treino… três vezes maior do que a outra. “Sabes que assim eu tenho três vezes mais espaço para humilhar-te?” “Ora nina, estou desejoso de ver isso!” Eu ri-me e voltei a abraçar o Arzel com força, tinha sido ele a tomar conta daquela sala e a minha espada preferida estava lá pendurada em lugar de destaque. Voltei a subir as escadas, mas não parei no rés-do-chão e continuei até ao primeiro andar. Havia uma casa de banho e três quartos grandes. Não percebi qual era o meu quarto, mas também não estava preocupada com isso eu dormia onde o Vicente dormisse, desde que ele não se importasse. Havia um quarto maior do que os outros, mas qualquer um deles tinha vista para um campo bem verde e imensa luz. Voltei a subir as escadas até chegar ao sótão, que era na verdade a divisão que me intrigava mais. Cheguei lá acima e era de novo como eu tinha imaginado: o teto não era a direito porque dependia da inclinação do telhado, mas lá estava a janelinha pequena que alterava a forma do telhado e pela qual eu me tinha apaixonado quando vi a casa pela primeira vez. Aquela divisão tinha uma área enorme e o Vicente tinha-a tornado numa espécie de escritório gigante que incluía um mini-quarto com uma cama ao canto. As cadeiras tinham um ar bem confortável, mas o sofá numa zona que parecia ter um frigorífico e uma máquina de café chamou-me ainda mais a atenção. Depois de analisar tudo, cheguei à conclusão de que aquele era sem dúvida o escritório mais completo que eu alguma vez tinha visto. Assim que acabei o reconhecimento daquele piso, e sem querer ver nada cuja passagem se fizesse através da garagem, voltei a descer ao rés-do-chão onde estavam a descarregar as coisas das camionetas. O Ezequiel parecia estar apenas a supervisionar, portanto achei que podia falar com ele sem chateá-lo muito. “Uau Ezequiel, fizeste um excelente trabalho aqui!” “Obrigado! Mas a casa é do Will e foi ele que a construiu, eu limitei-me a seguir as obras para ver se concordavam com o plano original. Eu sabia que ele não queria fazer grandes alterações, mas fiquei deveras surpreendido com o escritório lá em cima - ele trouxe um computador e tudo, não foi?” “Sim, aquele que comprámos para a outra casa.” E depois pisquei-lhe o olho. “Acho que ele está viciado na internet.” “Incrível! Não imaginas o trabalho que tive para convencê-lo a usar um 108

telemóvel para podermos falar como deve ser, ele ainda no ano passado só usava cabinas telefónicas!” “Se calhar estavas a levar a coisa com calma, ele precisava era de um tratamento de choque!” “Já vi… inacreditável, é o que te digo!” “Como estão a Ana e a minha família? Está tudo bem com eles?” Vi nos olhos dele que preferia ter saltado esta parte da conversa, mas respondeu-me na mesma. “Houve gente no laboratório à vossa procura e dos teus pais também. Ninguém conseguiu seguir-vos o rasto, mas ficámos de sobreaviso porque não esperávamos isto. O Will mandou escondê-los mais por precaução, não esperávamos que corressem verdadeiramente perigo. Vamos agora mudá-los para outro país enquanto ultimamos as coisas, de modo a deixá-los a salvo e de preferência longe de nós.” Fui assaltada por um sentimento de culpa. A Ana e os meus pais - ainda que adotivos - estavam a sofrer na pele as consequências do que eu era, sem fazerem a mínima ideia do que se estava a passar. Pelo menos o Ezequiel parecia estar a dar conta do recado, mas não deixava de ser horrível deixar o país, a família e os amigos para salvar o pescoço - literalmente. O Louis trouxe-me de volta à realidade e até alguma alegria quando serviu um lanche a toda a gente assim que as camionetas ficaram vazias. Continuámos em limpezas e arrumações durante mais umas horas, mas ficou tudo pronto à hora do jantar. Acabámos por jantar todos juntos em jeito de abertura oficial da casa, ainda que o Vicente estivesse desaparecido em combate. Assim que o jantar acabou, os homens foram-se embora e eu deixei-me cair no sofá da sala e ponderei não voltar a levantar-me durante os próximos dois anos. O Vicente apareceu finalmente - não o tinha visto praticamente desde que tínhamos chegado - e perguntou-me de novo o que achava da casa, embora agora estivesse a falar do interior. “É encantadora! O Ezequiel disse-me que foste tu que desenhaste a casa, além de professor és arquiteto?” “Não, ele explicou-se mal. A casa já existia, foi a primeira casa que comprei em Portugal porque achei que tinha imenso potencial.” O meu cérebro processou ‘primeira’ com alguma curiosidade. “A casa está de acordo com os planos originais, eu não alterei grande coisa mas modifiquei uns pormenores para ficar exatamente como era - eu lembro-me perfeitamente de como eram as casas desta altura.” “Ah pois. Bem, parece que a nova base é muito mais confortável do que a anterior e não tem agulhas - que eu veja. A paisagem não é tão gira e não posso andar por aí a passear e a dar à cauda, mas sinto-me de volta à civilização.” “Sim, o Ezequiel fez um ótimo trabalho por baixo da garagem. Eu não te levei lá porque achei que não querias ver…” “E pensaste bem, eu prefiro ignorar que aquela parte existe! Mas não tínhamos combinado que eu nunca cá tinha estado?” Ele riu-se e num 109

movimento rápido levantou-me do sofá para os braços dele. “Tínhamos sim senhora, e agora vou mostrar-te uma das minhas partes preferidas da casa!” “O sótão?” Ele olhou-me confuso. “Não? Será a cozinha?” E dei-lhe o meu melhor sorriso gozão. “Tu vais fazer-me perder a paciência antes de chegar às escadas… mas não te preocupes, eu prefiro calar-te a deixar-te cair!” Eu sorri satisfeita com o meu mau comportamento e deixei que ele me levasse até ao primeiro andar onde fiz uma cara de surpresa. “O teu quarto?” “O nosso quarto.” Rebentou uma explosão de alegria dentro de mim, mas tentei disfarçar o melhor possível só para continuar a chateá-lo. “Nosso? Quer dizer que eu, como convidada, não tenho direito a escolher o meu próprio quarto?” Nem conseguia manter a cara séria enquanto via a paciência dele destilar. “Eu, como dono da casa, dou-te o direito a escolheres entre a cama e o tapete!” “O tapete? Vê lá, eu não quero abusar da tua hospitalidade!” Eu estava claramente a abusar da paciência dele, mas era giro ver até onde é que ele ia. Neste caso foi até ao tapete e deixou-me cair no chão sem cerimónia nenhuma. O som que eu fiz ao cair disse-me que devia cortar no número diário de tostas mistas, mas a única coisa que consegui fazer foi começar a rir às gargalhadas. Ele olhou-me com desconfiança. “Bem, ao menos o tapete parece fazer-te feliz!” O comentário só piorou o meu ataque de riso. Ao fim de uns minutos em que ele milagrosamente não se foi embora, eu consegui finalmente falar. “És tão giro quanto ficas chateado! Não que não sejas quando não estás, mas sem dúvida que tens outra cor quando estás irritado!” E voltei a rir-me da minha própria piada, mas ele nem se mexeu e portanto continuei deitada no tapete a falar para o ar. “Adoro a ideia de termos um quarto só para nós, nem sabes o feliz que estou por teres pensado nisso.” Voltei-me finalmente de barriga para baixo para poder olhar para ele. “Adoro ter-te comigo e nunca vou poder retribuir o facto de me teres ajudado a saber quem eu sou, mas acima de tudo por teres guardado o meu segredo. E ainda as várias vezes que me salvaste a vida. Isto para não falar do divertido que é chatear-te e eu sei que também gostas de irritar-me. Quero-te tanto!” Nem dei pelo movimento, mas quando voltei a olhar eu continuava de barriga para baixo mas em cima do Vicente e não do tapete. “Acho que nunca vou habituar-me a essa tua velocidade!” Consegui eu dizer enquanto ele me beijava o pescoço - mesmo sabendo que ele podia morder-me 110

a qualquer momento, eu não sentia medo. “Rita, tu vais dar comigo em doido!” “That’s the whole point!” Os olhos dele brilhavam naquele azul fantástico e eu não pude evitar um sorriso quando me lembrei do verso ‘I should hate you but I guess I love you, you got me in between the devil and the deep blue sea’. Eu podia ter escrito aqueles versos… e depois perdi-me na boca dele. Posso dizer que chegámos à cama, mas só depois de provar que o tapete era de facto de boa qualidade.

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Como reconhecer o inimigo O resto dos dias passou numa energética rotina: acordava cedo e corria numa máquina que me fazia morrer de saudades da floresta. Felizmente já controlava a minha força e sabia fazê-la aparecer quando era precisa, não havia necessidade de me colocarem em situações periclitantes para ver se o arrancador funcionava. Depois treinava com o Arzel até um de nós cair para o lado, e ainda que fosse eu a cair a maior parte das vezes, ele também já tinha ido ao tapete umas quantas vezes. Estava precisamente a preparar-me para começar o treino com o Arzel quando ele entrou na cave com um sorriso que trazia água no bico. “Ena, ena… quanta felicidade hoje! O que é que se passa?” “Tenho andado a pensar como é que hei de treinar-te melhor porque a batalha que nos espera não vai ser exatamente corpo a corpo, mas mais dez corpos a corpo.” “E porque não arranjas outros vampiros para lutarem comigo?” “O Vicente vem sempre que pode, mas de momento está preso ao computador a planear a ofensiva e a tentar descobrir quem foi o informador na esquadra. Além disso, eu não posso pedir a ninguém para lutar contigo.” “Porquê?” “Ora nina, eu vejo os teus olhos e sei a força que tens. Na noite em que nos conhecemos pensávamos que eras uma vampira, mas é claro que és outra coisa qualquer e o Vicente sabe o que é e está a proteger-te. Eu não sei o que és, só sei que és especial e que vou guardar esses pensamentos para mim. Mas como posso confiar nos outros?” Deixei cair a espada no chão e saltei para cima do Arzel no maior abraço que a amplitude dos meus braços permitia. Ele foi completamente apanhado de surpresa e caímos os dois ao chão. Olhámos um para o outro durante um momento e depois começámos a rir ainda naquela estranha posição. O Arzel retomou a palavra no meio da risada. “Então nina? Da próxima vez avisa antes de saltares, está bem?” “E ia estragar o elemento surpresa? És o maior Arzel - literal e metaforicamente falando! És o meu vampiro preferido!… Hum, logo a seguir ao meu vampiro preferido!” Não ouvi o Vicente chegar mas é claro que ele entrou quando eu estava deitada em cima do Arzel a rir-me. “Hum, parece-me que cheguei na altura certa!” A cara dele só mostrava divertimento, por isso continuei a rir-me enquanto me levantava e ajudava o Arzel a fazer o mesmo. “Então e afinal quem é o teu vampiro preferido?” Eu não respondi mas deitei-lhe a língua de fora enquanto ele também dava uma mão ao Arzel para ajudar-me a levantá-lo. Não que eu precisasse, mas pronto. O Arzel não me deu tempo para fazer mais perguntas acerca do treino, encheu-me os braços e as pernas de sensores e colocou-me numa base 112

razoavelmente grande para eu poder mexer-me à vontade. Depois deu-me uns óculos que pareciam uma mistura entre os 3D e os de um nadador profissional, ou seja, a última moda para quem respira jogos online e come cabos. Assim que coloquei os óculos vi que estava rodeada de gente e, como sabia o que esperavam que eu fizesse, comecei a atacar a sério e também a receber a sério porque o Vicente e o Arzel juntaram-se ao jogo. Era surpreendentemente mais difícil lutar contra vários atacantes, dois ainda conseguia conciliar mas mais do que dois era impossível seguir e saber onde estavam em todos os momentos. Lutei a tarde toda e não ganhei um combate que fosse. Esgotada, deixei-me cair no chão e tirei os óculos. “Eu desisto. Não consigo lutar assim, vou ser trucidada ao primeiro embate.” “Fica sabendo que bateste o recorde do jogo. Portaste-te lindamente e estás a lutar contra dois dos melhores vampiros no mundo. Além disso, no jogo eles não se cansam… acredita que na vida real não é assim. Ainda temos muito que treinar, mas este foi um grande começo!” “Vamos lá, eu aposto que hoje o Ferdinand cozinhou uma coisa especial para ti depois do teu esforço todo.” O Vicente sabia como captar a minha atenção, mas como eu não me mexi, ele pegou em mim e deitou-me sobre o ombro dele em jeito de saco de batatas. Nem tive ar em mim para reclamar, mas ainda levantei a cabeça e acenei ao Arzel em jeito de despedida. O meu melhor amigo!… Logo a seguir à Ana. Quando acordei no dia seguinte, o sol estava a nascer. Tinha perdido o final do dia anterior e dormido a noite toda - incrível! Quem diria que ser usada como saco de pancada curava insónias? Voltei-me para o lado e vi que o Vicente ainda dormia - coisa rara. Fiquei entretida a estudá-lo: o cabelo negro encaracolado caía-lhe para a testa e eu sabia que os olhos fechados dele estavam no tom da água do mar das Caraíbas. Não fosse a pele dele ser tão clarinha, ele passava por um latino de gema, talvez italiano ou sul-americano. E ainda assim, ele tinha apanhado uma corzinha durante as nossas corridas na floresta e parecia ter uma pele (ainda) mais bonita. As linhas da cara eram muito direitas, assim como o nariz, e o conjunto todo ficava a matar (ha ha). Não resisti a tirar-lhe um caracol de cabelo que estava caído na cara e a prendê-lo atrás da orelha. Os lábios dele mexeram-se ligeiramente como a abrir num sorriso que não ia sair porque ele continuava a dormir. Apoiei o cotovelo na almofada e fiquei a vê-lo dormir porque era efetivamente a primeira vez que o via dormir. Nem parecia que íamos numa missão suicida dentro de uns dias. Mas e daí, quem já viveu tantos anos é provavelmente capaz de encarar a morte com tranquilidade - como diria um famoso treinador português com um mau penteado. A boca dele abriu-se um pouco e vi que os caninos estavam estendidos, embora ele os escondesse sempre que estava acordado… será que em posição de descanso os dentes estavam estendidos e não retraídos? Tinha tantas dúvidas sobre ele: como teria aparecido o 113

primeiro vampiro? Será que tanto eu como ele éramos resultado de uma espécie que tinha surgido por geração espontânea?! Com alguma curiosidade, levantei-lhe o lábio superior para ver melhor como é que o canino estava ligado à gengiva. E claro, era igualzinho aos outros dentes se ignorássemos o mecanismo de sobe e desce. Voltei a aproximar-me e espreitei para dentro dos lençóis já que ele estava enrolado nuns tantos. Começava a achar que ser muito mais quente do que ele era a principal razão para ele querer partilhar cama comigo - mas quem era eu para reclamar? Observei bem os músculos do peito e dos braços - quantas gerações de mulheres teriam passado por aqueles braços? Será que ele alguma vez tinha sido humano e deixado descendência? Não resisti a passar os meus dedos pelo braço dele, mesmo sabendo que estavam gelados. Ele não estremeceu quando lhe toquei e portanto decidi aventurar-me dentro dos lençóis e continuar a seguir a linha da pele e dos músculos dele. Acordei-o algures na minha exploração, mas não me apercebi até sentir a pressão dos dentes dele no meu pescoço. Fiquei paralisada e infelizmente o meu coração começou a bombardear sangue para todo o lado era a primeira vez em muito tempo que sentia medo do Vicente. “Vicente?” Sussurrei. “Estás acordado? Sou eu!” Ele não respondeu e enterrou os caninos no meu pescoço até perfurar a pele. Eu não conseguia perceber se ele estava mesmo acordado, mas estava preparada para recitar o meu testamento. Nem sabia se podia defender-me ou se qualquer movimento brusco ia apenas enterrar os caninos mais fundo no meu pescoço. O meu coração desistiu de bater ritmadamente e escolheu antes o freneticamente conforme o meu terror aumentava. Comecei a lutar contra o meu instinto porque não me parecia boa ideia transformar-me num tigre dentro de casa. Quando senti o controlo a fugir, comecei a tremer e ouvi uma gargalhada seguida de uma língua e um beijo no meu pescoço. O meu coração sentiu o alívio primeiro do que eu - eu só queria matá-lo. “Vicente! Estavas acordado! Meu grandessíssimo anormal! Estavas a tentar matar-me de susto? Era?! Tem cá uma piada!” Ele estava verdadeiramente divertido, nunca tinha ouvido o Vicente soltar tantas gargalhadas seguidas. E a verdade é que era bom ouvi-lo rir, ele estava mesmo divertido e a minha irritação começou a acalmar… poucos segundos depois estava a rir-me com ele. “Ias-me matando de susto, não voltes a fazer isso!” “Então tu é que estavas interessada nos meus dentes - resolvi mostrar-te empiricamente como funcionam!” “Que piada do caraças Vicente! Bolas… assustaste-me a sério!” Não resisti a massajar o pescoço, apesar de saber que ele não tinha realmente mordido. “E até te mostrava mais, não fosse estares a dar uma de tigresa na cama e depois quem pagava era o estrado!…” Ele estava mesmo divertido com a 114

partida que me tinha pregado. “Ha ha!” “Oh Ritinha, vem cá… não fujas de mim, eu prometo que não mordo!” “Mas que espirituosos que estamos esta manhã, hem?” “Madrugada! Mas agora a culpa é minha? Tu dás uma de mirone e eu só tenho que aguentar e calar?” Eu corei, mas não apenas uma pintinha ou outra, eu adquiri a cor tomate-corado. “Eu acordei assim que me tocaste, depois fiquei a ver o que ias fazer. Oh, teve piada! Confessa lá Ritinha, estavas mesmo com medo!” Acabei por encolher os ombros, estava derrotada mas não ia ficar calada. “Só queria ver como funcionavam os teus dentes, mas depois o teu braço roubou-me a atenção. Pensando bem, a culpa é do teu braço! Dele e de dormires debaixo de uma fortaleza de lençóis que não ajuda nada a uma inspeção detalhada!” Ao ouvir isto, ele atirou os lençóis para trás num único gesto. “Assim fica mais fácil?” E eu voltei a corar, mas desta vez a minha pele adquiriu uma tonalidade encarnada que bateu com certeza o recorde do Guiness no que toca à intensidade da cor vermelha que a pele pode adquirir. Recordista? Rita Rebola Amélia. “Hoje estás muito pudica, Ritinha! Especialmente para quem também dorme sem roupa e já experimentou comigo algumas coisas acrobáticas ali naquela cadeira, e naquela também, ali naquele recanto da parede, no duche e, num dos meus sítios preferidos, no tapete aqui em baixo! Podíamos experimentar a cama, não achas? Parece ser a mobília mais virgem que temos!” É oficial: os humanos e os vampiros acordam a pensar no mesmo quando o alarme não toca. Na cave, o treino em grupo começava a dar a frutos e o Arzel estava a ficar entusiasmado com as minhas vitórias. Decidiu então passar para a minha equipa e começámos a enfrentar cada vez mais adversários. Era muito mais fácil a dois, o facto de não termos que vigiar as nossas costas aliviava imenso a pressão durante os combates - só tínhamos que confiar a cem por cento no nosso companheiro. O Arzel aumentava diariamente a dificuldade do simulador, mas acabávamos os dois por conseguir aguentar imenso tempo face a um número irreal de adversários. A minha confiança que tinha sido destroçada nos primeiros dias estava a voltar. E quase sem eu dar por isso, chegámos à véspera da partida para a Roménia. Eu ainda não sabia qual era o plano e tentava empurrar o pensamento derrotista que me dizia que não mo contavam porque não havia nada para contar. Durante o jantar voltei a tentar obter alguma informação do 115

vampiro que estava por trás daquela ofensiva, mas que era parcialmente imune ao meu charme no que tocava a descair-se. “Porque é que vamos de comboio? É tão longe! Não podemos ir de avião?” “A segurança nos aeroportos é uma dor de cabeça! Já se viu que eles só deixam passar os passageiros que têm explosivos na mala e aos outros fazemlhes a vida negra. Mas nem é por isso, é porque fica registado que tu viajaste de X para Y, e como o Vlad anda à tua procura, ele vai ter os aeroportos debaixo de olho. Mas temos um grupo que vai de avião sim, espero que ninguém dê por eles.” “E de carro?” “Somos demasiados para ir de carro e, ainda que seja mais arriscado por viajarmos todos juntos, é mais fácil passar nas fronteiras sem mostrar qualquer documentação real.” “Nem quero saber quantos dias de viagem são!…” “Muitos!” “Mais vale levar uns soporíferos? Nem sei como vou arranjar coisas para fazer fechada numa carruagem durante tanto tempo!” “Eu preferia que ficasses cá…” O olhar dele transbordava preocupação. “Mas eu não quero ficar! Mesmo que não tivesse nada contra o adorador de estacas, não sei se conseguia ficar aqui dias e dias sem saber o que se passava contigo. E eu sei que precisas de mim, eu luto melhor do que quase todos os vampiros que levas contigo.” “E se não voltares?… E se ele te apanhar?” “Eu volto… nem que seja a correr montes e vales que nunca viram um tigre na vida!” Ele riu-se, mas a cara traía o peso da dúvida e eu sabia que ele estava decidido a carregar o peso da minha morte se o pior acontecesse. Ao menos o Vicente era arrogante o suficiente para não considerar a morte dele, mas eu tinha que sobreviver… por mim, por ele e pelo que eu era - afinal os tigres já estavam em perigo de extinção mesmo sem a minha ajuda.

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Como sobreviver a uma viagem interminável Dormi grande parte da manhã e ninguém me acordou, mas o cheiro do almoço acabou por chegar ao primeiro andar e despertou-me. Ainda meia a dormir, levantei-me da cama e assim que tentei dar o primeiro passo no chão, o meu pé direito apanhou alguma coisa que não era o chão e tropecei em grande estilo: caí desamparada e com algum estrondo. Ignorei o que quer que estivesse no chão, levantei-me de novo e tentei orientar-me para a casa de banho. Nem dois passos dei antes de tropeçar novamente, mas desta vez caí de costas e fiz um estardalhaço tão grande que se ouviu num raio de cinco quilómetros. “Rita? Estás bem?” Ouvi o Vicente perguntar no andar de baixo. “Estou viva!” “Podias fazer menos barulho?” “Mas o que é que se passou aqui? Querem matar-me antes de sair do quarto sequer? Quem é que meteu esta tralha toda no chão?! Isto passava por tentativa de homicídio! Ou pelo menos uma tentativa para que eu nunca mais na vida consiga fazer um seguro de saúde!…” O Vicente continuou o que quer que estivesse a fazer lá em baixo e eu endireitei-me finalmente de olhos abertos. O chão do quarto estava cheio de termos, sacos e sacolas - um pouco como se estivéssemos a preparar-nos para uma semana de campismo. Suspirei porque ainda tinha que fazer a minha mala e dirigi-me cuidadosamente para a casa de banho, serpenteando naquele labirinto demoníaco saído da Decathlon. Respirei fundo quando cheguei finalmente à casa de banho: a primeira meta do dia tinha sido atingida. Por volta das quatro da tarde já estávamos na estação em Lisboa. Eu, o Vicente e o Arzel seguíamos juntos e, apesar de não conseguir distinguir mais ninguém, tinha a leve sensação de que a grande maioria dos passageiros naquele comboio da CP não tinha picos no eletrocardiograma. Subi para a nossa carruagem atrás do Vicente e esperei enquanto ele passava uma chave magnética na porta - coisa chique! Quando entrei fiquei surpreendida com o espaço todo que tínhamos apesar de estarmos num comboio, já que haviam duas camas individuais e uma casa de banho com duche. Deixei a minha tralha no chão e estendi-me ao comprido na cama. Se calhar a viagem não ia ser assim tão longa, a cama era extremamente confortável e provavelmente só ia ter saudades da comida do Louis. E isto foi o que se chama falar cedo demais porque conforme o Arzel entrou, saiu o ar e basicamente todo o espaço livre que havia ali dentro. “Vais ficar comigo?” “Sim.” “Pensava que era o Vicente que ficava comigo.” “Ele tem muitas coisas para fazer durante a viagem: vigiar quem entra, 117

avisar os outros se faltar alguém, estar em constante contacto para saber se alguém deu com a língua nos dentes, etc. Mas à hora do jantar ele vem buscarte para jantarem juntos.” “Portanto ele arranjou-me uma dama de companhia? Aposto que eu não vou a lado nenhum sem ter-te comigo, não é verdade?” O Arzel fez um sorriso triste que me partiu o coração. “Deixa lá, também não vale a pena reclamar contigo - afinal eu até gosto de ti! Mas o Vicente vai ter que ouvir umas palavrinhas sobre as mulheres e o século XXI!” O Arzel riu-se com vontade e eu sorri de volta - ele estava do meu lado, boa! Passei a tarde a folhear um dos três livros que tinha trazido do alfarrabista. Andava com eles à socapa porque o Vicente tinha-me pedido para deixá-los na outra casa, mas a minha curiosidade levou a melhor sobre mim - como era normal. Não conseguia não abanar a cabeça enquanto lia algumas atrocidades, as pessoas acreditavam em cada coisa! Segundo eles, eu até era capaz de teleportar-me! Mas essa era muito fácil de riscar da lista: a quantidade de vezes que sonhei que estava de férias numa ilha paradisíaca em vez de estar no trabalho já me devia ter conseguido pelo menos um escaldão no nariz. Chateei-me com as parvoíces que vinham no livro e tirei a máquina fotográfica que me tinham dado nos anos para registar a minha primeira viagem internacional de comboio. Tirei algumas fotografias à paisagem e depois comecei a tirar também às carruagens e às pessoas - quais seriam vampiros? Haveria algum inimigo entre nós? Tirei imensas ao Arzel que parecia não importar-se com o flash da câmera, e a cor de chocolate da pele dele ficava incrivelmente bonita nas fotografias. A hora do jantar chegou, passou e nada do Vicente. Cansados de esperar, eu e o Arzel decidimos ir até à carruagem onde estava o bar e comer umas sandes para matar a fome, mas acabámos a noite de volta ao nosso compartimento a cantar uma versão bem sentida da ‘My Heart Will Go On’ da Céline Dion. Deitei-me rouca e cansada, mas acordei a meio da noite quando o Vicente chegou. Sem fazer barulho, ele deitou-se ao meu lado, pôs um braço por cima de mim e puxou-me para ele. Eu não disse nada, mas senti-me muito melhor por saber que ele estava ali e dormi descansada até que um beijo despertou-me a uma hora que não devemos pronunciar em voz alta - isto é um mandamento. “Não precisas de acordar a sério, mas temos que mudar de comboio e depois podes continuar a dormir.” Eu espreguicei-me, já estava vestida de qualquer modo e peguei nas minhas coisas. Quando a minha consciência chegou em pleno, o Vicente já tinha desaparecido e eu saí do comboio com o Arzel. Começámos uma caminhada a pé que atravessava uma ponte ladeada por uma armação trabalhada em metal. “Onde vamos?” “Estamos a atravessar a fronteira: ali atrás fica a cidade espanhola de Irún 118

e agora que já passámos metade da ponte estamos em França, na cidade de Hendaye, onde vamos apanhar o TGV.” “Ena, esta fronteira é gira! E que rio é este?” “É o rio Bidasoa que desagua aqui perto no Mar Cantábrico na chamada Baía da Biscaia - já deves ter ouvido falar.” Eu limitei-me a acenar para encorajá-lo a contar-me mais sobre onde estávamos. “Sabias que foi perto desta estação que o Hitler e o Franco se encontraram para discutir o papel da Espanha na II Guerra Mundial? Na altura França já tinha sido ocupada, mas acabaram por declarar a Espanha como país neutro.” Uau, os vampiros davam excelentes professores de História! Nada como poder usar a memória em vez de estudar livros e livros de relatos do que se passou - a menos que os vampiros também pudessem ter Alzheimer, claro. Subimos para o TGV para seguir até Paris, mas desta vez fomos em lugares sentados. Na estação em Paris saímos para comer qualquer coisa e, embora o Arzel fosse um excelente guia, fiquei feliz quando chegámos ao hotel. Não conseguia concentrar-me e apesar de ter tirado uma série de fotografias, nem me lembrava se tínhamos passado no Arco do Triunfo ou não. Dormi um pouco de tarde e depois o Arzel levou-me a passear de novo antes do jantar que cheirava lindamente mas eu mal lhe toquei. “Estás preocupada com o Vicente ou com o que vamos fazer?” “Ambas. O facto do Vicente estar a preparar as ‘tropas’, por assim dizer, dáme ideia de que o plano está a ser decidido e discutido nesta viagem e isso não me deixa nada descansada. Especialmente se vamos enfrentar o vampiro mais poderoso que existe, segundo o que vocês dizem.” Sussurrei o resto da frase, não fosse aparecer o Vicente e ouvir o que eu ia dizer. “E eu gostava de estar a passear em Paris com ele… És um guia excelente, mas cada vez que vejo alguma coisa gira apetece-me chamá-lo para ele ver também.” Ele deitou-me um olhar de compreensão e a sensação má da confissão passou - compreensão era a única coisa que podia pedir naquelas circunstâncias. Dali fomos para o quarto de hotel pois o comboio no outro dia era de novo a horas não pronunciáveis em voz alta. No dia seguinte seguimos até Zurique num comboio rápido, mas os luxos acabaram-se ali. Mais uma cidade que eu não conhecia e que ficava sem conhecer. Além de todas as hipóteses turísticas perdidas, começava a achar que íamos chegar cansados a Bucareste, mesmo sem ter combatido nada nem ninguém. Depois de umas horas valentes, chegámos a Budapeste na Hungria. A última troca de comboios deu-se comigo num estado de dormência assustador: já não sabia para onde ia nem o que devia transportar comigo, limitei-me a seguir o Arzel. Ainda ficámos umas horas na estação em Bucareste, mas eu só comi qualquer coisa e dormitei encostada ao Arzel. A hora de embarcar para o último comboio chegou finalmente não sei a que horas e uma pontinha de alegria acendeu-se dentro de mim. Infelizmente também se apagou rapidamente quando o Arzel deixou escapar que ainda faltavam quinze horas para chegar a Bucareste! 119

Apetecia-me gritar de frustração e também para ver se o Vicente aparecia finalmente - nunca mais o tinha visto. Se calhar ele tinha ficado na fronteira com a França e eu não tinha dado por nada. Trinta e três horas depois de deixarmos Paris, chegámos finalmente a Bucareste! Eu nem queria acreditar que tínhamos realmente chegado e assim que saltei para a plataforma só me apetecia beijar o chão e prometer logo ali que nunca mais na vida dizia mal dos aviões. A tarde ainda mal tinha começado, mas o Arzel levou-me diretamente para um hotel com mais estrelas do que as que eu conseguia apreciar no meu atual estado vegetal. Mal acabei de tomar banho, corri (lentamente) para a cama fofinha com colchão de molas e almofadas a sério! Acho que o Arzel ainda me desejou boa noite, mas também podia ser o meu subconsciente a ter uma ponta de lucidez e a inventar qualquer coisa com lógica. Depois de dormir um número inefável de horas e não fazer ideia da hora que era ou de qual o país onde me encontrava, acordei com o cheirinho a croissants quentes no quarto. O Arzel estava a servir-se e eu sentei-me rapidamente à mesa. “Que horas são?” “Quase três da tarde.” “E estás a tomar o pequeno-almoço?!” “Já vou no quinto pequeno-almoço, achei que ias acabar por acordar se eu continuasse a insistir.” Não evitei uma gargalhada e comi os croissants com uma avidez incrível porque estava cheia de fome. Aproveitei também para limpar a fruta que estava em cima da mesa e um ou outro pãozinho. “Está visto que estás recuperada dos últimos dias.” Eu levantei os olhos do pão com doce de morango e forcei-me a engolir um pedaço sem mastigar para conseguir responder. “Sim, parece que estou de volta. Estava mesmo cansada - não me lembro de estar tão cansada na minha vida! Posso voltar a dormir depois de comer?” “Podes sim. Só saímos daqui quando já for de noite. Trouxeste roupa quente, certo?” Acenei que sim e acabei de aspirar a mesa. Já de barriga cheia, adormeci de novo até despertar de vez e fui tomar outro banho. Como ainda era de dia, arrastei o Arzel para uma pequena visita de turismo. Achei Bucareste acolhedora, apesar do frio de rachar que se fazia sentir. Tirei imensas fotografias aos edifícios antigos e foi com alguma surpresa que me apercebi que esperava uma cidade menos desenvolvida - típico de quem nunca saiu de casa. Assim que a noite deu mostras de querer aparecer, o Arzel levou-me de volta para o hotel e preparámos tudo para sair assim que nos dessem ordem. A espera foi dos poucos momentos silenciosos entre mim e o Arzel e desejei ter qualquer coisa para dizer que não fosse perguntar o que ia acontecer, para 120

onde íamos ou qual era o plano. Ele não ia responder até o Vicente chegar, e eu estava capaz de apostar os meus dois polegares em como ele tinha ordens para não dizer nada. Estava preparada para o meu terceiro sono do dia quando o telefone da suite tocou e eu ia caindo da cama abaixo com a antecipação. O Arzel disse qualquer coisa em romeno e fez-me sinal para ir para a porta. Descemos juntos, passámos pela receção do hotel e lá fora estava um jipe velho à nossa espera. Eu nem queria acreditar que ia estar dentro daquela peça de museu quando se esperava uma noite com temperaturas negativas! Entrei para a parte de trás do jipe e ia abrir a boca para reclamar, mas parei quando vi que o condutor era o Vicente e não resisti a atirar os braços ao pescoço dele e a apertá-lo com força, assim como ao banco que nos separava. “Isso é tudo alegria por ver-me?” Ele lá conseguiu soltar-se dos meus braços e olhar para trás, mas eu ainda tinha a cara esmagada contra o apoio de cabeça do banco dele. “Depois de tanto tempo a tentar fugir, era de esperar que aproveitasses a oportunidade!” “Ha ha! Por onde tens andado? Chegou toda a gente? Para onde vamos? Qual é o plano? Eu faço parte do plano, por isso tenho que saber o meu papel, certo?” Ele riu-se, abanou a cabeça e voltou-se para a frente para ligar o jipe. “Por ordem: tenho estado nos mesmo sítios que tu exceto neste último comboio porque dei uma volta maior para cá chegar. Segundo, até tem chegado mais gente do que eu pensava, mas não sei se isso é bom ou mau… espero sinceramente que estejam todos do nosso lado senão isto vai ser uma chatice.” Chatice era um grande eufemismo porque não íamos sair dali vivos se isso acontecesse - uma grande m*rda é o que era. “Infelizmente fazes parte do plano fazes, mas não posso contar-te o plano todo hoje - fica para amanhã. Hoje vamos acampar nas montanhas Piatra Craiului.” “Acampar nas montanhas?! Eu sei que isto é irónico porque sou sempre eu que reclamo que está calor, mas não acham que vamos morrer todos de hipotermia?” “Não vamos morrer de hipotermia porque se morrermos vou ter que reclamar da mercadoria que comprámos. As montanhas não são assim tão altas e por aqui evitamos com certeza outros vampiros.” “Até devemos evitar voltar com as nossas extremidades todas… meu rico nariz! Ainda não estamos lá e eu já estou com frio!” Assim que acabei de pronunciar as palavrinhas mágicas, atiraram-me um casaco de neve à cara. “Uh, obrigada pela gentileza, sim?” Olhei para o casaco agora nas minhas mãos. “Amarelo?! Vocês estão a usar um preto - querem marcar-me como um semáforo? Meter um alvo nas minhas costas?!” “Por acaso não havia outra cor para ti, acabei por ir à secção de criança porque pareceu-me que os outros eram muito grandes. E os casacos de criança são… vistosos, vá. Suponho que é para os pais não perderem os ‘crianços’ de vista.” E devolveu-me um sorriso gozão no retrovisor. Eu estava capaz de explodir e vesti o casaco só para provar que não me servia, mas infelizmente caiu-me 121

que nem uma luva. Exasperada, deixei-me cair no banco de trás e cruzei os braços. Ia amuar até adormecer e, se desse, ia amuar durante o sono também! Infelizmente não consegui adormecer porque estava a tremer de frio e foi com alívio quando vi que tínhamos finamente parado. Eu não conseguia ver nada porque o Vicente estava a conduzir de faróis apagados e eu tinha desistido de forçar os meus olhos ao focar o centésimo tronco de árvore - estava tudo branco da neve de qualquer modo. Saltei do jipe antes de dar tempo ao Arzel e ao Vicente para sussurrarem “Não!” em uníssono e apercebi-me depressa do erro quando entrei pela neve adentro. Depois de uns minutos mais embaraçosos do que seria necessário, eles lá me puxaram para cima e deramme o calçado adequado… e roupa seca. O acampamento parecia estar completamente montado e haviam imensas tendas, mas ainda assim era menos gente do que eu esperava - a menos que estivessem dez a dormir por cada tenda. Sem dizer nada desde o incidente da saída do jipe, e demasiado ocupada a tentar manter-me quente - ou morna - para identificar qual a tenda onde ia dormir, segui o Arzel por força de hábito. “Onde é que vais? A tenda do Arzel mal tem espaço para ele!” Eu parei subitamente e o Arzel continuou no caminho dele, mas eu consegui ouvi-lo a abafar o riso. “Então onde é que eu fico?” “Comigo!” Controlei-me imenso para não correr para os braços dele - ainda estava sentida da última humilhação. Parei perto da tenda onde ele estava, descalceime e entrei com cuidado. Havia qualquer coisa a aquecer a tenda porque a temperatura lá dentro estava bastante mais simpática - positiva até! Tirei o casaco, meti outro par de peúgas grossas e entrei para dentro do saco-cama. Até que estava confortável ali dentro, mas não era nada quando comparado com o conforto dos braços do Vicente - que por sinal não foi embora e ficou ali comigo. Ena, eu hoje tinha subido na lista de prioridades! “É amanhã que atacamos, não é?” Ele respondeu-me com um “hum hum”. “Ele está onde? Como é que vamos até lá?” “Pensávamos que o Vlad estava algures nas ruínas de Poenari durante muito tempo, mas afinal está escondido exatamente no castelo de Bran, mais conhecido como o castelo do Drácula. Não me pareceu que ele era do tipo de usar uma piada para esconder-se, mas a verdade é que usar o óbvio despistounos durante bastante tempo.” “Mas e os turistas? O castelo de Bran não está aberto a turistas?” “Os turistas visitam a parte de cima do castelo e temos informações de que há todo um novo palácio cavado na rocha por baixo do atual. Não sabemos onde fica a entrada, mas parece que de noite ele resolve usar o palácio todo…” “Para alguém tão poderoso, a modos que se esconde muito, não?” “O poder traz muitos inimigos.” “Mas como vamos fazer para entrar sem saber como chegar até ao palácio 122

dele? E os turistas? Vamos atacar de dia ou de noite?” “Mas é a primeira noite que temos juntos e tu não fazes mais nada do que enterrar-me em perguntas?” “Que tu não respondes! Eu quero saber o que se passa amanhã! Já para não falar que toda a gente aqui à volta ouve o que está a passar-se na Sérvia!” O olhar dele disse-me que era exatamente por isso que ele não estava a contar-me nada do plano. Boa! Dentro de umas horas ia colocar o pescoço na guilhotina e não havia ninguém para explicar-me como é que eu podia subornar o carrasco. Suspirei e cruzei os braços - eu estava tão lixada!… “Se eu fosse a ti, preocupava-me era com os ursos!” “Ursos??” “Ou com os lobos, não ouves os uivos deles à distância?…” E pronto, ele conseguiu que eu não descolasse dele até adormecer.

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Como nem tudo o que brilha é ouro Dormir na tenda fez-me sentir que o meu termómetro interno tinha graves problemas de aferição. Não conseguia dormir cheia de calor, nem cheia de frio. Não conseguia perceber se era melhor com ou sem as meias, com ou sem o pijama, com ou sem a falta de calor do Vicente. Resumindo: não dormi nada e o sol depois de nascer dedicou-se a concentrar toda a luz na nossa tenda e eu ia cegando. Portanto a primeira coisa que fiz antes de levantar-me foi meter os óculos escuros na cara - ficavam a matar com o meu pijama. O Vicente não me tinha deixado trazer o telemóvel, portanto escrevinhei num bloco de notas ‘Qual é o plano??’ e tratei de acordá-lo - não muito suavemente. Ele estava claramente preparado para dormir mais umas dez horas e não achou muita piada à minha força matinal. Depois de muito resmungar, ele lá abriu os olhos e eu senti-me ligeiramente culpada… se calhar ele não dormia há algumas noites. Ele olhou-me com alguma estranheza assim que se voltou para mim. “Desde quando é que dormes de óculos escuros?” “Desde que me puseram a dormir no lado de Mercúrio que está voltado para o sol!” E sem mais demoras, espetei-lhe a folha na cara. “Apesar de muito irritante, há que admirar a tua perseverança.” Ele pegou no papel e na caneta que lhe dei e rabiscou ‘Procurar a entrada do palácio na hora da visita ao castelo de Bran’. Não era propriamente a coisa mais engenhosa que eu tinha ouvido e continuei com ‘E se não encontrarmos a entrada?’ E ele respondeu: ‘Temos que arranjar um plano B’. Não é que eu tivesse muita prática nestas coisas, mas ou tínhamos o pior plano do mundo ou ele não estava a contar-me o que interessava. Olhei com atenção para o Vicente para ver se havia alguma pista que desse a entender que ele estava a esconder-me alguma coisa, mas a única coisa que conseguia ver é que ele estava prestes a adormecer outra vez. Resignada, deixei-o dormir enquanto a minha cabeça pensava em coisas parvas. O sangue dos vampiros (se é que era sangue) tinha arranjado outra maneira de circular no corpo deles e fazer um literal bypass ao coração, mas o cérebro parecia continuar a precisar de descanso. E apesar de estar preocupada com o eventual fracasso do nosso plano, a verdade é que também voltei a adormecer. Acordei quando o Vicente saiu da tenda e não me apeteceu dizer-lhe nada, mas arrependi-me logo a seguir de não lhe ter desejado sequer um bom dia. Não queria pensar que o meu último diálogo com o Vicente era o que estava no bloco de papel. Depois da estranheza inicial de ver o mundo através dos óculos escuros, lá me habituei e vesti o casaco amarelo, também conhecido por farol, antes de sair da tenda. A maior parte dos vampiros estava já acordada e eu olhei para a cara deles pela primeira vez. Pareciam todos humanos normais, se aquela fosse uma reunião de uma agência de modelos - não havia lugar para gente baixa, gorda ou careca. Eu senti-me definitivamente deslocada, e nem era por ter um coração que fazia ‘bum bum bum’. Vi o Arzel ao longe - era difícil falhar alguém tão grande - e fui ter com ele. 124

“O que é que o Criador de vampiros tem contra pessoas feias? São todos lindos de morrer!” “Bom dia nina! Tens que ter mais calma comigo porque eu sou do tempo em que os elogios vinham sob a forma de um lenço atirado ao chão!” Era impossível não gostar dele. “Ainda não tinha visto nenhuma vampira… há imensas aqui.” “Sim, digamos que elas são mais sensíveis aos problemas dos outros e acham abominável o que o Vlad está a tentar fazer. E também são mais sensíveis porque o V… quer dizer, em geral são mais atentas a este tipo de problemas.” Eu levantei o sobrolho mas não disse nada, especialmente porque tinha medo de saber completar o pensamento. “Achas que somos suficientes? Não faço ideia se aqui é mais importante a quantidade ou a qualidade.” “A qualidade é sempre mais importante nina, nunca te esqueças disso!” E depois deu-me um sorriso grande onde os dentes perfeitos reluziam nos lábios castanhos. “E tu fazes parte do grupo da qualidade.” Piscou-me o olho e isso fez-me sentir melhor, mesmo sem saber porquê. “Mas não sei… eu não estou por dentro da estratégia - eu só tenho que fazer o que me mandam e lutar até à morte.” “Não queres saber sequer se temos um plano? Ou de como é suposto sairmos vivos disto?” “Não me interessa… eu confio neles.” E olhou à volta com um ar de desconfiança que não me deixou nada descansada. “Saímos daqui às dez para entrarmos com os turistas. Vamos só os dois - sabes disso, certo?” “Os dois? Não fazia ideia.” Olhei para o chão, ao menos o Vicente podia terme dito que era eu a procurar a entrada no castelo, não?! “Não sabemos se há vampiros a guardar o castelo como seguranças do museu e tu não levantas suspeitas. O Vicente não gostou da ideia, se é isso que estás a pensar. Eu fico atrás à espera que me digas que posso seguir atrás de ti, mas sais imediatamente assim que encontrares um vampiro, ok?” Eu encolhi os ombros, podiam dizer-me para atirar-me a um poço que eu teria tido a mesma reação. Porque é que ele não me tinha dito? Eu era parte fulcral do plano que ele encabeçava e nem se tinha dado ao trabalho de avisarme! Segui o Arzel e ajudei-o a levantar mais umas tendas e a esconder o material, alguém viria recolhê-lo depois. Os vampiros pareciam ter dispersado, provavelmente foram a pé mas nós chegámos ao castelo de jipe. O Arzel deixou-me conduzir, o que me deu uma pequena alegria que se transformou em deslumbramento quando vi o castelo aparecer por entre o branco da neve com os seus telhados avermelhados. O castelo estava no topo de uma pequena povoação e à beira de um penhasco, mas não me parecia nada ameaçador - bem pelo contrário, era lindíssimo! O Vicente tinha razão em não desconfiar daquele sítio, era um esconderijo repleto de turistas e só por milagre é que nenhum tinha dado com a entrada para o palácio escondido por baixo. Quer dizer, se calhar algum já tinha… a ideia arrepiou-me. O Arzel 125

foi comprar os bilhetes já que falava perfeitamente romeno - o que é que aquele homem não sabia - e havia uma questão qualquer com a máquina fotográfica, mas lá entrámos com ela. Subimos os dois a escadaria de pedra que dava acesso ao castelo e parámos numa porta de madeira com uma aldraba bem gira que eu nunca suspeitaria fazer parte de um filme de terror. Dali passámos à sala dos guardas e ao pátio interior que estava engraçado com um poço mais ou menos a meio decorado naturalmente com neve. A partir dali, eu entrava primeiro nas salas e escutava com atenção o número de batimentos para comparar com o número de cabeças. Não era uma ciência exata, mas havia pouca gente eu tentei concentrar-me ao máximo e fazer uma contagem decente até ter a certeza de que era seguro chamar o Arzel. Divertime imenso na visita, o castelo estava cheio de recantos escondidos e de mobiliário antigo, o Ferdinand a.k.a Louis ia adorar saber que tinha um quarto só para ele ali! Apesar de grande, todo o castelo tinha aquecimento (à exceção das passagens secretas) e o mobiliário tornava-o estranhamente acolhedor, ao contrário do habitual opulento real. Mas o que me chamou mais a atenção foi a passagem agora não tão secreta que ligava o terceiro ao primeiro andar. Como o Vlad parecia adepto de clichés, eu apostava o meu mindinho em como a entrada para o palácio dele tinha qualquer coisa a ver com aquela escadaria estreita. Continuámos a visitar o castelo e quando chegámos ao intervalo entre as estantes da biblioteca privada de uma rainha qualquer, fiz sinal ao Arzel e descemos apenas quando não havia mais ninguém na fila. Descemos muito devagar e íamos batendo ao de leve na parede para ver se escutávamos algo oco ou se sentíamos alguma coisa diferente no ar, mas nada. Desistimos daquela pista - eu conservei o meu dedo mindinho - e continuámos a visitar o castelo. Já numa loja cá fora não resisti a comprar uma t-shirt que dizia ‘Smile from Transylvania’ com uma boca a sorrir e uns caninos a pingar sangue. De volta ao jipe, disse ao Arzel que gostava de ter mais tempo para procurar outras passagens secretas que existiam ali com certeza. Acho que nenhum dos dois queria dar-se por vencido e ele concordou. Armados com sacos de sandes e bebidas quentes, além das nossas verdadeiras armas, metemo-nos pela floresta adentro de nariz no ar e rezámos para não cheirar ursos nas proximidades. A noite estava a cair depressa e provavelmente os outros já tinham passado ao plano B - que eu nem sabia qual era ou se existia. Ao fim de umas horas, já tínhamos encontrado umas tantas passagens e túneis, mas nenhum parecia levar ao palácio escondido. Estava quase para dizer ao Arzel que estava pronta para desistir e que podíamos voltar para trás quando senti alguma coisa no ar e o meu instinto reagiu a dizer-me que era importante. “Arzel? Senti qualquer coisa no ar, também sentiste?” “Não nina, nada.” “Olha, não entres em pânico mas eu vou transformar-me porque não consigo apanhar o rasto como deve ser. Não tenhas medo e segue-me, ok?” “Transformar? No quê?” Não lhe respondi e limitei-me a olhar para ele já da minha nova perspetiva - uns centímetros mais abaixo. “Valha-me Deus nossa Senhora! Nina!!” A cara do Arzel era linda: ele 126

estava de boca aberta com as duas mãos na cara - exatamente na posição a que nos habituámos a ver o Macaulay Culkin no ‘Sozinho em Casa’. “Deus meu, como é que é possível?!” Agitei a cabeça de lado para lado como a sacudir o pó, fiz um som muito esquisito com o focinho e comecei a seguir o cheiro que tinha apanhado no ar era muito mais fácil assim. O Arzel lá acabou de recitar todas as ladainhas que conhecia enquanto me seguia e parámos os dois em frente a uma espécie de arco feito com pedras que estava escondido por trás da vegetação. O chão ali tinha uma depressão e escondia uma porta de madeira decorada com pontas de ferro forjado. Voltei à minha forma habitual e voltei a cheirar o ar, o cheiro ali era suficientemente forte para eu conseguir segui-lo sem precisar de mudar de forma de novo. O Arzel olhava-me tão maravilhado como aterrorizado. “Consegues sentir o cheiro agora?” Ele pareceu acordar de repente e concentrou-se de olhos fechados. “Vampiros, tenho a certeza.” E depois abriu de novo os olhos. “Nina… depois falamos, mas nunca esperei viver para ver coisas mais esquisitas do que as que eu represento!” Eu sorri. “O que fazemos agora? Como avisamos os outros?” “Eu tenho aqui um dispositivo qualquer que supostamente dá a nossa posição aos outros. Espero que ainda estejam à espera de novidades nossas…” O Arzel tirou um aparelho pequeno do bolso e eu pedi-lhe que o ligasse afastado da entrada, não fosse aquilo interferir com qualquer coisa e avisar quem não interessava que nós estávamos ali. Depois de termos cumprido a nossa parte do plano, era hora de entrarmos por conta própria. Olhei para o Arzel e aproximámo-nos os dois da porta em silêncio. Eu contei a mostrar os dedos - 1, 2, 3 - e entrámos os dois de rompante no túnel, preparados para atacar o que quer que mexesse. Mas nada, eles não tinham sequer guarda na porta… a arrogância dava-se a estes luxos. Demos a mão um ao outro porque assim não tínhamos que pensar onde o outro estava e entrámos, mas o Arzel olhava mais fascinado para a luz dourada que saía dos meus olhos do que para o túnel. Andámos imenso sem encontrar ninguém, mas encontrámos uns tantos esqueletos e pessoas empaladas. Não era apenas um mito, ele usava continuava a usar as empalações para manter os inimigos à distância e como cartão de visita. O meu estômago não estava muito de acordo com aquela prática, mas eu ignorei-o. Subimos escadarias sem fim, até que o cheiro se tornou extremamente forte e reconheci finalmente que cheirava a sangue e a morte, ou seja, a vampiros que não apreciam a cozinha portuguesa. Avançámos um pouco mais até que vimos luz numa das salas e ouvimos alguma algazarra. Eu não compreendia o que eles diziam, mas pareciam estar a festejar qualquer coisa. O Arzel tomou a liderança e fez-me sinal para preparar-me, eu levantei a minha espada e mostrei-lhe que estava pronta. Os seis vampiros que estavam na sala quase que nem deram por nós antes das cabeças deles caírem ao chão. Não sei se foi por estarem embrenhados num 127

festim de sangue ou porque eu e o Arzel trabalhávamos demasiado bem em equipa. Os caninos do Arzel tinham aparecido, talvez pela excitação da batalha ou pelo cheiro a sangue, mas não pensei muito no assunto porque assim que a adrenalina desceu, a imagem das pessoas meio-mortas, olhos vidrados e pescoços destroçados deixaram-me deveras mal disposta. Já nenhuma delas tinha salvação possível e saber que algumas ainda estavam conscientes deixava-me enojada. Seriam turistas capturados nas redondezas? Encostei-me a uma parede para recuperar. “Estás bem nina?” Sussurrou-me o Arzel. “Sim, só preciso de um momento. Não é todos os dias que vejo isto…” E levantei um braço para indicar a cena mórbida. “Rita tens que recuperar depressa. Sem ti não consigo sair daqui e e eu não confio que eles lá fora ganhem isto.” Eu tenho a certeza que os meus olhos brilharam ao ouvir aquelas palavras porque todo o meu corpo se fortaleceu de propósito. Inspirei fundo e dei a mão ao Arzel, tínhamos mais uns quantos túneis para explorar. Passámos por mais três salas idênticas à primeira onde conseguimos ser rápidos o suficiente para ninguém ter tempo sequer para entender o que fazíamos ali. O meu estômago parecia estar a aguentar melhor as imagens de corpos desmembrados, semi-empalados e sangue por todo o lado se eu me concentrasse nos vampiros que tinha que decapitar. As minhas mãos já tinham perdido a cor e estavam manchadas do sangue escuro característico dos vampiros. A dada altura da nossa exploração chegámos a uma zona que parecia mais húmida e fria do que o resto do palácio. E aí sim estavam pelo menos dois vampiros a guardar o local e até estavam vestidos a rigor. Cada um deles tinha uma espada maior do que a minha, mas eu tinha a certeza que conseguia vencê-los num piscar de olhos. Atacámos os dois de novo com uma precisão mortal - eu e o Arzel não tínhamos perdido tanto tempo a treinar para nada. Os corpos dos dois guardas caíram para o chão ao mesmo tempo e com algum ruído porque nem tinham tido tempo de desembainhar as espadas. E foi a observá-las que reparei nas chaves que traziam no cinto. “Estamos na entrada de uma prisão?…” “Só há uma forma de descobrir.” Com cuidado redobrado, entrámos em duas salas vazias que deram lugar a uma terceira que era sem dúvida uma prisão. A divisão era redonda e tinha sete celas a preenchê-la. Perturbou-me ligeiramente notar que as celas eram idênticas à cela onde estive presa. Espreitei para dentro delas através da estrutura de rede mas pareciam vazias de vida… e repletas de cadáveres e de ossadas. Era impossível saber o número de pessoas que ali estavam e todo aquele cenário era demasiado macabro. Fui espreitando à procura de sobreviventes até que cheguei à última cela e tive que segurar-me para não cair: tigres! Aqueles eram corpos de tigres!! Não evitei umas lágrimas, e tentei 128

calar a histeria interior - seria algum deles a minha mãe? E mesmo que não fosse, o que teriam eles passado nas mãos daquele sádico para morrer na forma animal e não na humana?… Que horror! O Arzel aproximou-se e abraçou-me para confortar-me, eu deixei cair a espada e comecei a chorar contra ele. Ele esperou um ou dois minutos mas depois olhou-me como a lembrar-me de que tínhamos que continuar. Ainda a chorar, mas agora silenciosamente, peguei na minha espada e meti-me a caminho. Mais do que nunca, estava resolvida a cortar o pescoço ao Vlad e ao de quem quer que me aparecesse à frente! Voltámos a subir mais umas escadas e eu consegui parar de chorar - tinha que guardar o desgosto para mais tarde. Chegámos ao que parecia ser uma espécie de cozinha, mas estava vazia e ainda bem porque eu não queria saber qual era o prato principal. Estava a começar a achar aquilo tudo muito estranho: faltava ali imensa gente ou aquela era a nova atração da Transilvânia no que tocava a castelos fantasma. Subimos mais umas escadas com cuidado e chegámos finalmente ao que parecia ser o andar principal do palácio, o enorme salão estava coberto com tapeçarias que tapavam as paredes de uma ponta à outra. Os tapetes no chão eram feitos de pele de urso e os espaços estavam decorados com demasiada tralha e mobília. Atravessámos o primeiro salão e chegámos a outro que tinha uma mesa comprida feita também da tradicional madeira negra. Estavam pratos sujos e alguma comida em cima da mesa - alguma coisa importante tinha interrompido a refeição. “Quando o teu plano está a correr demasiado bem, suspeita.” Disse o Arzel. “O que queres dizer com isso?” “Ninguém esperou por nós - eles atacaram. É a única explicação para estarmos a passear no palácio do Vlad como se isto fosse um parque de diversões.” “Mas atacaram como? Como é que eles conseguiram chegar aqui antes de nós?” “Ou as tropas do Vlad estão a defender o castelo lá em cima, ou os nossos descobriram outra entrada ou…” “Ou…” “Ou conseguiram que o Vlad saísse a troco de alguma coisa… que ele quisesse muito.” Demorei uns segundos a perceber, mas as lágrimas começaram a rolar-me pela face abaixo assim que as palavras fizeram sentido. Primeiro lembrei-me das palavras do Sr. Vítor: ‘em vez de saberem apreciá-la vão tentar caçá-la!’ e depois das palavras do Vicente que tive que desenterrar da memória: ‘tu és como ter uma peça rara de um museu ou um elemento que pode fazer a diferença entre ganhar ou perder uma batalha.’ Claro que o Vicente não me tinha contado o plano B, ia dizer-me o quê? Que era eu a peça chave daquela ofensiva? Mas o plano tinha corrido mal porque ninguém sabia onde eu estava sem ser o Arzel e ele não sabia que era eu o isco para atrair o Vlad. Haviam ali demasiadas traições para estarmos todos a par uns dos outros. Limpei as lágrimas com a mão, ao menos o plano tinha resultado e o coelho tinha saído 129

da toca - não havia ninguém ali. Agarrei na espada com força até os meus dedos ficarem brancos e comecei a fazer o caminho de volta, ia sair dali e esconder-me num sítio onde nunca me encontrassem nem voltassem a usarme. “Nina, onde vais?” “Embora! Está claro que o Vlad mordeu o isco e nem precisaram de abanar-me à frente do nariz dele. Provavelmente bastou que o Vicente contasse a minha história, falasse na minha mãe e dissesse que eu estou viva e que sou provavelmente a última hipótese que o Vlad tem em conseguir criar tigres amestrados depois de todos os que ele assassinou!! Mas sabes, eu quero continuar viva e prezo muito a minha liberdade.” Comecei a fungar. “E infelizmente pareço ser a única em quem posso confiar.” “Nina, eu não fazia ideia do que tu eras! E não sabemos se isso é verdade, eles podem ter entrado por outro lado!” “Duvido muito que eles tenham encontrado uma entrada que nos tenha falhado. Boa sorte Arzel, foste o meu único verdadeiro amigo nesta confusão toda. E espero que o Vlad morra esta noite!” Ele segurou-me o braço direito. “Nina, não podes ir embora assim!” “Ah não? Tenta impedir-me!!” Tenho a certeza que os meus olhos brilharam com toda a minha fúria porque o Arzel largou-me o braço - apesar de tudo, ele agora tinha medo de mim. “Mas vais fugir o resto da tua vida? E o Vicente? Não sei qual era a ideia inicial dele, mas ele gosta mesmo de ti! Eu nunca o vi assim com ninguém!…” Não sei se ouvi a frase completa ou se a sonhei, mas assim que ouvi o nome do Vicente comecei a correr e só parei quando dei por mim de volta às celas. Passei pelos guardas que continuavam mortos no chão e deixei-me cair encostada à cela onde jaziam os tigres. Estava tão confusa! Qual era a probabilidade deles terem encontrado uma passagem que o meu nariz tinha falhado? Ou de terem outro plano para atrair o Vlad? Eu estava no meio de uma guerra e já devia saber que valia tudo, mas e se estava a ser impulsiva e deitava tudo a perder? Era verdade que estava confusa, mas acima de tudo estava magoada com a traição. Se calhar era altura de crescer e colocar os meus sentimentos de lado, afinal eu continuava a acreditar que estava a lutar do lado certo. Olhei para o monte de ossos e carcaças que estavam ainda ali fechados, há quantos anos estariam à espera de uma vingança? Ou de um final digno? Não acreditava que o Vicente voltasse a fechar-me numa cela depois de ter lutado ao lado dele, mas podia sempre fugir depois de dar o meu melhor aqui - eu ainda mal tinha aquecido, para dizer a verdade. Além disso, eu e o Arzel juntos éramos mais fortes do que qualquer dúzia de vampiros e talvez até mais fortes do que o Vlad - se o Pai Natal aceitasse pedidos de Natal antecipados. Limpei as lágrimas e decidi que de momento era preferível enterrar a minha dor com raiva, parecia-me mais produtivo e eu era uma moça pragmática. Levantei-me e inspirei fundo. Os meus problemas com o Vicente podiam ser resolvidos depois e o Vlad não ia viver mais nenhum dia se 130

dependesse de mim. Quando resolvi finalmente sair da prisão, ouvi passos e escondi-me atrás da parede de uma das salas que dava acesso às celas. Provavelmente era o Arzel, mas também não valia a pena arriscar e dar a minha posição caso não fosse. O meu sentido de olfacto parecia estar em grande, mas o meu cérebro soube quem ele era antes de entrar no meu raio de visão, e assim que tive a confirmação tentei desfazer os meus ossos contra a parede e esperar que ele se fosse embora. Era possível que ele não tivesse ouvido o meu coração bater? Quem sabe, podia estar abafado pela quantidade de roupa que trazia vestida. Parecia que eu estava mesmo com sorte porque ele seguiu em direção às cozinhas e eu voltei a respirar. O que estava o Vicente a fazer ali? Do lado de dentro?!

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Como cheirar a queimado Eu também ia naquela direção e, sem conseguir resistir, segui o Vicente de longe mas não durante muito tempo porque o Arzel vinha em sentido contrário - provavelmente à minha procura. Dei meia volta e escondi-me atrás de outra parede. “Rita?” “Arzel?” “Vicente?!” “Perdeste a Rita?!” “A bem dizer, quem a perdeu foste tu!” Hum, isto estava a ficar interessante. “Eu?! Mas eu pedi-te para ficares com ela sempre que eu não estivesse por perto!” “Claro e só te esqueceste de dizer-me o que ela era, não foi? E esqueceste-te também de avisar-me que contavas usá-la para atrair o Vlad!” “Ela disse-te o que ela é? E quanto a essa história do Vlad, tu estás bem?! Achas mesmo que eu ia contar a alguém o que ela é? Usá-la assim?! Mas está tudo maluco hoje?! Parece que toda a gente tem um plano diferente do meu! Primeiro aquele bando de vampiros resolve invadir o castelo lá em cima em vez de esperar pelo vosso sinal, e agora vocês em vez de esperarem lá fora andam aqui sozinhos a desbravar caminho. Como é que achaste que era boa ideia entrarem aqui só os dois?! E onde é que está a Rita??” “Ela fugiu porque pensou que ias usá-la como moeda de troca com o Vlad. Os outros estão a lutar lá em cima contra as tropas do Vlad?” “Não sei, acho que sim… eles atacaram às cegas e se calhar tropeçaram mesmo neles. Não sei!” “Bem, que confusão! Este tem que ser o assalto menos tático em que eu já participei! Primeiro temos que ter a certeza que isto está vazio e que não é uma armadilha e segundo, como é que os outros entraram, se é que conseguiram entrar. E terceiro, onde é que está a Rita?!” “E eu gostava de saber o que tem de especial essa Rita e porque é que poderia eventualmente interessar-me?” Eu gelei. E se até àquele momento não sabia se não conseguiam ouvir-me porque estava coberta de roupa e eles ocupados a discutir, agora não fazia ideia de porque é que o Vlad estava a ignorar a minha presença. Pensei repetidamente que aquela era uma excelente altura para fugir, mas não consegui descolar da parede. Eu até estava longe, mas conseguia ouvir a conversa com uma clareza incrível - o medo estava a ampliar a minha audição. Eu estava demasiado longe para ver o que se passava mas ouvi um urro, o brandir de armas e finalmente o característico som de metal contra metal. Esta era sem dúvida a melhor altura para fugir, mas um grito de dor vindo do Arzel prendeu-me ali. O meu lado racional não conseguia entender-se com o emocional: o racional queria fugir para bem longe dali e eu estava tentada a 132

simpatizar com ele, mas o emocional dizia-me para ficar e ajudar o meu amigo. Morrer a lutar se fosse preciso, porque eu não ia perdoar-me se fugisse sem tentar ajudá-lo. Seríamos três contra um… ele estava claramente em desvantagem, certo? Tirei alguma da roupa que trazia vestida e que podia limitar-me os movimentos, mas nem senti frio. Empunhei a espada e pela primeira vez na vida rezei - não fazia mal ter uma ajuda extra. Tentei limpar a minha mente de todos os pensamentos parvos que pudessem surgir e pensei apenas em usar o factor surpresa para desferir um golpe mortal à primeira. Corri de novo para o que parecia ser a sala de jantar e não tive qualquer dificuldade em identificar o Vlad - até porque ele estava de costas para mim e os outros não. Ataquei com tudo o que tinha, mas ele desviou-se no último segundo e a espada só apanhou o braço. Mesmo assim consegui cortá-lo pelo cotovelo num movimento que precisou de muito mais força do que seria de esperar. A pele do homem era uma carapaça ou quê?! Com a respiração claramente alterada, voltei-me para ficar de frente para ele e lado a lado com o Vicente e o Arzel. O Arzel tinha a cara coberta de sangue, mas não me parecia estar ferido a sério. Quanto ao Vlad, ele era realmente parecido com o quadro que aparecia repetidamente na internet: era moreno, tinha cabelo encaracolado que lhe caía pelos ombros, cara triangular muito ossuda e um bigode horizontal que desafiava as leis da gravidade. Mas ao contrário do que o quadro mostrava, ele era muito bonito e os olhos verdes brilhavam de surpresa e fúria. Infelizmente para mim, parecia que ele era destro ou pelo menos ambidestro porque não precisava da mão que jazia no chão para empunhar a espada. “Rita… ora ora, quem diria? Muito prazer.” Os olhos dele passaram de furiosos a luxuriosos quando viram os meus - ele sabia. “O prazer é todo teu.” Rosnei. E sem tempo para mais conversas, ataquei de novo. O Vicente e o Arzel seguiram-me com esperança renovada e desta vez o Drácula estava claramente em desvantagem: nós éramos três e tínhamos seis braços úteis. Infelizmente o homem era incrivelmente rápido e forte, e a pele dele parecia impenetrável. Eu era a mais forte mas não conseguia acompanhar a velocidade dele, e o Vicente que conseguia acompanhar a velocidade não tinha força para feri-lo mortalmente. O Vlad acabou por recuar sob a nossa pressão e nós continuámos a tentar encurrá-lo, enquanto várias peças de mobília voavam pelo salão. Entretanto comecei a ouvir o som de outra batalha, seria o resto da nossa cavalaria? Será que eles tinham mesmo encontrado outra entrada? Pelo menos isso explicava porque é que o Vlad estava a lutar connosco sozinho; ou a guarda dele estava ocupada ou ele não precisava de guarda - esperava que a correta fosse a primeira. No primeiro momento de descanso que demos ao Vlad no meio dos nossos ataques concertados, ele usou a única mão que tinha para fazer uma coisa que eu julgava impossível: tanto a mão dele como as nossas roupas romperam em chamas.

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“F*da-se, o que é isto??” Gritei enquanto tentava apagar o fogo nas minhas calças. “Ha! Ninguém te disse que eu tenho uns poderes extra? Como controlar e cuspir fogo?” O Vlad começou a rir-se mas o riso nem era sinistro, era perfeitamente normal. À minha volta as coisas começaram a ficar ligeiramente desfocadas, eu via as tapeçarias a arder, ouvia os gritos mas as imagens não estavam nítidas porque tinham aquelas habituais ondas de calor a distorcer a imagem. E eu estava definitivamente com muito calor. Tentei manter a calma, mas dentro de mim alguma coisa estava a mudar com o medo, a dor e o calor infernal das queimaduras. Sem pensar, só ouvi a espada cair e reparei que não conseguia segurá-la porque me tinha transformado. Pelo menos a transformação tinha apagado o fogo na minha roupa e quando voltei a olhar para o Vlad, reparei que ele estava a olhar-me deliciado. Sem pensar muito, saltei com todo o meu novo peso e ataquei como um tigre: direita ao pescoço do Vlad e não larguei. Eu estava apoiada nas patas de trás e tinha claramente o dobro do tamanho dele, mas ele não se desequilibrou nem caiu para trás - uma nova amostra de que era estupidamente forte. O sabor do sangue na minha boca nem me preocupou, mordi mais e agarrei-me a ele com força até sentir as minhas garras a rasgar-lhe a pele - eu estava a ganhar. Ele gritou de dor e as chamas apagaram-se instantaneamente à nossa volta. O Arzel foi o primeiro a recuperar e atacou o Vlad pelas costas, o que o fez cair de joelhos. Sem largar o pescoço do Vlad, que deitava sangue como uma fonte, comecei a sentir que podíamos realmente ganhar. Infelizmente, a minha felicidade foi de curta duração e tive direito a uma segunda surpresa no que tocava ao Vlad: quando olhei para baixo não estava a morder o pescoço de uma pessoa mas sim um longo pescoço coberto de escamas que pertencia a um dragão. A um dragão absurdamente grande. O ‘cuspir fogo’ que ele tinha mencionado minutos atrás começou a fazer todo um sentido demasiado literal. E agora já sabia porque é que a pele dele era tão dura! F*da-se, f*da-se!! Transformar-se em animais mitológicos era fazer batota! Ainda que a ordem do dragão a que o Vlad pertencia tivesse agora outro significado. Olhei desesperada para o Vicente, mas ele também parecia ter sido apanhado de surpresa. Tentei aguentar-me agarrada ao pescoço do dragão o máximo possível para abrir ainda mais a ferida por onde o sangue escorria livremente, mas ele começou a cuspir fogo e a bater as asas - eu acabei por desequilibrar-me e cair. Pus-me de pé num sopro, parecia que o fogo não me atingia mas só podia falar por mim: o Vicente tinha as mãos todas queimadas e enquanto o Arzel parecia estar a dar conta do recado, da carapinha dele já só sobravam uns filamentos. Eu nem queria acreditar: um vampiro que controlava fogo e que se transformava num dragão que cuspia fogo a uma velocidade incrível - se ele funcionasse a querosene era coisa para sair cara. E ao cuidado das autoridades romenas: quantos fogos florestais teriam sido causados pelo Vlad num ataque de tosse?! Depois de um momento para recuperar o fôlego - porque os vampiros 134

também se cansavam - voltámos a reunir-nos de frente para o dragão. Eu estava habituada a olhar para as pessoas de baixo, mas o dragão era mesmo enorme e fazia-me sentir um tigre em miniatura, menos mal que o salão não tinha altura suficiente para ele levantar-se completamente. Apesar das minhas tentativas para relaxar, eu sabia que só eu é que podia fazer frente ao dragão mesmo que na verdade não tivesse grandes hipóteses. Ataquei uma e outra vez sempre focada na ferida no pescoço do dragão, mas só arranquei pedaços das asas e não consegui fazer nenhum estrago a sério. Pior ainda, a ferida parecia estar a fechar e já não escorria sangue. Distraí-me quando entraram uns trinta vampiros de costas no salão, pareciam estar também a lutar contra qualquer coisa que eu não conseguia ver. O dragão aproveitou a minha distração e varreu-me do chão com a enorme cauda dele até atirar-me com força demasiada força - contra uma parede. A pancada foi tão forte que eu tive a certeza que a minha caixa craniana nunca mais ia ser a mesma. Amaldiçoeime por ter baixado a guarda e foi um milagre ter sobrevivido ao choque contra a parede, mas não tinha dúvidas de que tinha sobrevivido: doía-me tudo para caraças. Demorei uns segundos valentes a recuperar e quando a consciência voltou em pleno, reparei que o Vicente estava a defender-me com o corpo dele e que eu tinha mãos e pernas. A contusão tinha sido valente porque eu estava de volta à minha forma mais vulnerável e o dragão também reparou nisso. Estava ainda no chão num ângulo muito pouco natural quando vi uma bola de fogo a vir na nossa direção. Cruzei os braços à frente da minha cara como se os meus braços conseguissem parar aquele ataque vindo diretamente do inferno, mas quem na realidade o parou da pior forma foi o Vicente que acabou por cair para o chão com queimaduras terríveis. Saiu-me um rugido de raiva da garganta e quando dei por mim estava de volta às minhas quatro patas - a minha cabeça não estava suficientemente partida para parar a minha transformação. Olhei à minha volta agora que os meus olhos tinham voltado a focar, e vi que a cabeça do dragão estava perto do chão junto do Vicente. O Vlad nem reparou que eu estava de volta quando saltei de novo e desta vez não falhei. O dragão chiou horrivelmente e isso deu-me um ânimo extra para enterrar as garras tão fundo quanto possível e seguiram-se os dentes que voltaram a abrir a ferida até o sangue jorrar em repuxo. O dragão começou a abanar o pescoço para ver se eu caía e eu arranquei-lhe algumas escamas conforme tentava segurar-me, mas agora haviam zonas em pele viva e eu contava aproveitá-las ao máximo - ia tornar-me na maior carraça que ele alguma vez tinha visto. Segurei-me como se a minha vida dependesse disso até porque dependia mesmo - e comecei finalmente a sentir que o dragão estava a enfraquecer. Porra que já não era sem tempo!! A ferida não parava de jorrar sangue e ele deixou cair o pescoço da altura do teto numa tentativa de esmagar-me contra o chão. Comecei a duvidar que a minha cabeça ganhasse um segundo assalto contra a pedra, mas o que me fez ficar sem ponta de sangue foi ver o Vicente por baixo de mim! O Vlad estava a atirar-me contra o Vicente que estava desmaiado no chão!! Era impossível que ele sobrevivesse ao embate, mas eu ia provavelmente sobreviver se ele me amparasse a queda. Fechei os olhos com força e só não comecei a chorar porque decidi gastar essa 135

energia a arrancar outro pedaço do pescoço do dragão antes de cairmos no chão. A minha queda foi subitamente travada a uns centímetros do chão, pouco depois de ouvir o som de uma lâmina a furar um corpo duro. Sem saber o que se tinha passado, e sem querer desperdiçar aquela oportunidade, arranquei mais um bife ao pescoço do dragão para manter ferida bem aberta e saltei para o chão para ter a certeza que não aterrava em cima do Vicente. Dei meia volta rapidamente para não ficar de costas e vi o meu primeiro milagre de Natal: o Arzel estava debaixo do pescoço do dragão a segurar uma espada que estava literalmente dentro do animal e a rodá-la conforme podia, eu mal via o Arzel debaixo daquele duche de sangue preto. Corri para o Vicente, mordi-lhe o casaco e arrastei-o para longe dali. Não resisti a dar-lhe uma lambidela, mas o cheiro a queimado perturbou-me e voltei-me rapidamente para o dragão. Tão cego na vontade de vencer-me, nem se preocupou com o outro vampiro que por ali andava. E ainda bem que ele atirou o pescoço com força contra o chão porque só fez com que a espada do Arzel entrasse bem fundo - eu só via o punho. O Arzel era realmente o melhor lutador de todos nós: estava no sítio certo à hora certa e a vitória era dele. Sem conter a minha alegria, e porque o dragão ainda não estava morto, saltei de novo para cima dele e aterrei no pescoço por cima do local onde a espada tinha entrado. Consegui uma coisa que nunca tinha pensado que podia fazer: transformei-me a meio do salto e foi com duas pernas que caminhei sobre o dragão. Olhei à minha volta e percebi que, tirando a respiração agonizante do dragão, todo o salão estava em silêncio e a outra luta estava suspensa. Os vampiros que tinham ficado na ligação entre os dois salões estavam boquiabertos a ver em primeira mão um combate entre um dragão e um tigre - não me admirava se começassem a distribuir pipocas. Mas o que eu queria mesmo era uma espada longa e gritei para que me atirassem uma. Choveram algumas e tive que desviar-me de outras, mas na sua maioria aterraram no dragão e abriram-lhe ainda mais feridas no dorso ele estava incrivelmente mais fraco. Eu já achava que o dragão estava mortalmente ferido, mas não resisti a levantar a maior espada que me atiraram e a enterrá-la com força em linha com a espada do Arzel. Os meus olhos deviam brilhar como nunca porque eu sentia uma aura dourada à minha volta. Fiz sinal ao Arzel e num movimento sincronizado - e bastante esforçado - cada um de nós rasgou e cortou para o seu lado até que as espadas saíram do interior do dragão e a cabeça dele rolou solta no chão. O corpo aguentou-se uns segundos de pé, mas acabou por cair inanimado pouco depois, no que me pareceu ser um movimento em câmera lenta. Eu ainda estava em cima dele e caí também para o lado da pata que estava cortada a meio - o antebraço que eu tinha cortado ao Vlad. Aterrei de pé, mas as minhas pernas fraquejaram incrivelmente. Acho que a única razão para não me deixar cair foi o orgulho de saber que tinha demasiados olhos pousados em mim. Tentei lançar um ar de desafio aos restantes vampiros que continuavam ali, como a indicar que estava capaz de vencer qualquer um que tivesse a ideia 136

peregrina de tentar vingar a morte do Vlad - se é que eles sabiam que aquele era o Vlad. Alguns repararam finalmente que estavam há demasiado tempo a olhar ora para mim ora para o dragão e começaram a falar entre eles, mas ninguém arredou pé. Eu desisti de pensar que algum deles ia atacar-nos e cheguei-me perto do Arzel porque tinha medo de ir ver como estava o Vicente. O Arzel estava sentado no chão a fazer uns movimentos estranhos - talvez a colocar o ombro no sítio. “Estás bem?” Ajoelhei-me para ficar ao nível dele. “Sim nina, voltaste por nós!” E deu-me um grande abraço apenas com um braço que acalmou parcialmente o meu nervoso miudinho. “Foste tu que mataste o Vlad, Arzel! Como te sentes?” “Cansado nina, muito cansado! Nunca pensei que saíamos vencedores daqui hoje! Eu não te disse que o que importava era a qualidade e não a quantidade?” Eu sorri porque tínhamos sido três contra um. “Quem são aqueles?” E apontei para os vampiros que continuam a apreciar a cena - os reality shows deviam fazer um sucesso junto dos vampiros. “Amigos, inimigos… tanto faz! De momento estão todos do nosso lado. Quer dizer, por agora fazem todos parte do grupo do Vicente. Como é que ele está?” “Não sei, ainda não tive coragem para ir ter com ele. Ele meteu-se entre mim e uma bola de fogo e ficou extremamente queimado.” Estremeci ao recordar aquele momento e o Arzel deu-me um sorriso de compreensão, mas acabou por levantar-se e aproximar-se do Vicente. Eu fiquei na mesma posição, sem conseguir reunir coragem para aproximar-me de nenhum dos dois. O Arzel virou o corpo inerte do Vicente - que estava ainda na posição em que eu o tinha deixado - e não fui capaz de ver mais. Virei-me de costas e obriguei-me a olhar para cima para evitar que a minha torneira privada de lágrimas se abrisse à bruta. O salão estava construído com madeira de qualidade e era bastante arejado apesar de ser soterrâneo, até para um dragão tinha espaço! As imobiliárias deviam considerar usar esta última frase como um possível slogan. “Rita?…” O meu coração saltou e eu virei-me sem pensar, seria possível?! Corri para ele e aterrei de joelhos ao lado da cabeça dele - felizmente falhei a cabeça. “Vicente? Eu estou aqui! Está tudo bem, tu salvaste-me!” “Rita…” A voz dele era tão fraca que umas lágrimas fugiram-me dos olhos, e nisto o Arzel fez-me um sinal e afastámo-nos um pouco. “Eu sei que precisas de descansar e que perder sangue nunca é aconselhável, mas ele precisa do teu sangue para recuperar.” “Não!!” Os ouvidos do Vicente não pareciam estar queimados. “Então Vicente? Tu tens queimaduras de terceiro grau com certeza! Não 137

vais sobreviver se…” Eu não precisava de nenhum incentivo extra e pus o meu pulso na boca do Vicente mas ele escondeu os dentes. Mais teimoso do que um burro, livra! Inspirei fundo e gesticulei ao Arzel para furar-me o pulso, literalmente. O Arzel teve imenso cuidado - e talvez também uma grande dose de autocontrolo - mas lá me mordeu e caiu um fio de sangue pelo pulso abaixo. As presas do Vicente voltaram a sair, provavelmente porque ele sentiu sangue nas imediações, e eu não hesitei em espetar o meu pulso naqueles dentes gigantes - doeu para caraças, mas funcionou! Acho que fiz toda a espécie de caretas enquanto o Vicente me deixava anémica, mas nem um ‘ui’ deixei escapar. Senti-me um pouco como o Marcel Marceau em sofrimento atroz, mas o Arzel fartou-se de rir. O Vicente estava definitivamente a gostar do pitéu, mas eu era muito pequena e aquilo não podia durar muito mais. Quando comecei a sentir tonturas, fiz sinal ao Arzel que segurou a boca do Vicente aberta e tirou o meu pulso com todo o cuidado. Olhei para baixo receosa de ver o meu pulso esfrangalhado, mas tirando umas picadas e uma zona mais vermelha onde o sangue se tinha concentrado, não se notava nada. Parecia uma picada de mosquito, incrível! A minha atenção voltou-se de novo para o Vicente que parecia estar de facto melhor, e tinha um sorriso nos lábios. “Vicente? Sentes-te melhor?” “Eu sabia!” E riu-se, o que era bom sinal. “Sabias o quê?” “És doce… sabes a After Eight!” Eu fiquei sem reação - talvez por causa da falta de sangue - mas o Arzel rompeu numa gargalhada. Ali estava eu ajoelhada ao lado de um dragão decapitado a tentar salvar o meu namorado com os meus glóbulos vermelhos, e a coisa mais simpática que lhe tinha ocorrido era comparar-me a um chocolate que sabe a pasta de dentes! E ainda achava piada ao facto… Há dias em que uma pessoa não devia sair de casa. Deixei os dois a rir e levantei-me devagarinho, mas felizmente as minhas pernas não sentiram vontade de mandar-me ao chão. “Eu estou pronta para ir embora, consegues trazer o Vicente connosco?” “Sim, mas primeiro há uma coisa que quero fazer.” “O quê?” “Uma fogueira.”

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Como acaba tudo bem Não sei se os vampiros são religiosos ou extremamente cuidadosos, mas a um sinal do Arzel toda a gente ajudou a levar a cabeça e o corpo do dragão (ainda que às postas) para fora do castelo e começou a bela de uma fogueira que soltava um cheiro esquisito à brava. A meu pedido, as celas foram também esvaziadas e os restos mortais enterrados numa vala comum. Por mim estavam bem em qualquer lado desde que não ficassem a apodrecer ao monte dentro de uma cela. “Não consigo decidir se isto cheira a porco chamuscado ou a couves a cozer.” Comentei com o Arzel. “Explica-me lá porque é que estamos a queimar o dragão? A cabeça podia crescer de novo? Ele podia ressuscitar numa iguana?” “Na verdade é mais como medida de prevenção, ele transformava-se num dragão e tu transformas-te num tigre… Quer-se dizer, não custa nada ter a certeza que este já não volta, não é?” “Quem com fogo mata, com fogo morre.” Depois de partilhar as minhas palavras de sabedoria, encolhi os ombros e retirei-me para perto do Vicente. A recuperação dele estava a ser incrível e eu conseguia ver a pele a regenerar-se a cada minuto! O Vicente estava sentado no chão encostado a uma árvore e estava quase de volta à cor habitual, o cabelo é que ainda ia demorar uns dias… ou meses. “Então, estás a gostar do fogo-de-artifício?” “Gostei mais do momento ali atrás quando resolveste ignorar as minhas ordens… de novo.” Suspirou. “Mas desta vez salvaste-me a vida e de uma forma bem saborosa!” Eu corei sem saber porquê e até estava surpreendida por ter sangue suficiente para isso. “Como é que sabias que o meu sangue era doce?” “Hum… é um segredo! Mas eu mais logo conto-te se prometeres que não dizes a ninguém, combinado?” E piscou-me o olho - ele estava de volta! Voltei a abraçá-lo gentilmente e beijei-lhe a testa, estava mesmo feliz que ele estivesse vivo! De alguma forma até batia o contentamento que sentia por ter vingado a minha mãe, um pouco como o Steven Seagal a vingar a família que teima em morrer. Mas eu tinha uma família extra em casa e contava fazer as pazes com ela. Sentei-me ao lado do Vicente e dei-lhe a mão, já era de noite e o céu estava estrelado, mas fazia um frio terrível! A fogueira dava algum alento mas não era o suficiente. “Rita, eu sei que pensaste que eu ia usar-te como isco… mas quantas vezes é que tenho que repetir-te a mesma coisa? Eu nunca te faria vir à Roménia para entregar-te de mão beijada ao Vlad, já devias saber isso. Eu pensei em usar-te na batalha assim que te vi transformada mas foi na 139

excitação de ter finalmente uma vantagem sobre ele. Eu nunca pensei em usar-te como moeda de troca, ok?” Eu acenei com a cabeça. “Mas tenho que confessar-te uma coisa: teres voltado para trás para ajudar-nos - mesmo achando que te tínhamos traído - é a maior prova de amor que já me deram!” Tive que engolir em seco. “É para compensar todas as vezes que me salvaste, assim estamos quites!” Apertei-lhe a mão com força, não queria voltar a pensar em fugir dele. “Prontos para retomar a caminhada para o jipe?” Eu acenei ao Arzel que sim e ajudei o Vicente a levantar-se, ainda que ele já começasse a parecer mais saudável do que eu. O único senão era o frio de rachar que se fazia sentir e eu tinha deixado a maior parte da minha roupa, assim como o meu colete refletor, dentro do palácio. Como que a ler os meus pensamentos, o Arzel deu-me o casaco dele. “Tens direito a ficar com ele durante dez minutos e depois trocamos, ok?” “Oh, obrigada!” E comecei a rir-me. “O que foi?” “Estava a lembrar-me de que quando te conheci só queria ar fresco!” “Só por lembrares-me disso, tens direito a menos cinco minutos de usufruto do casaco.” E depois olhou para o Vicente que ia a dizer qualquer coisa. “E apesar de seres o meu chefe, agora sou eu que dito as regras e vais manter esse casaco em cima de ti durante o caminho todo!” O Vicente ficou deveras chocado com aquela reação e eu desatei a rir. Se tivesse uma saia e uns pompons, estava agora aos pulos e a soletrar em voz alta ‘Go Arzel!’. Depois de uma caminhada que demorou décadas, chegámos finalmente ao jipe. Eu tiritava de frio e nem conseguia endireitar as costas ou esticar os dedos, mas não tinha coragem para reclamar - os vampiros estavam azuis. Entrámos os três a correr para o jipe: o Arzel para o lugar de condutor e eu e o Vicente para o banco de trás. Desejei fervorosamente que o motor do jipe aquecesse depressa porque senão o sangue nunca mais ia voltar ao meu dedo grande do pé esquerdo. O Arzel lá pôs aquela máquina da Grande Guerra em marcha e a temperatura subiu ligeiramente - mas continuava negativa. A meio da viagem, o Vicente começou a tremer de frio encostado a mim - se calhar ele não estava tão bem como parecia. “Vicente, estás bem?” “Sim… é-é só-ó frio.” Inspirei fundo e meti o meu mindinho à frente da boca dele. “O que é isto?” “Sangue quente.” “Do teu mindinho que está parcialmente congelado?” “Vais armar-te em esquisito?” “Não, mas preferia uma zona mais quente…” E deitou-me um olhar que me fez duvidar do eventual estado de hipotermia em que ele se encontrava. 140

“Mas como é que um ser tão poderoso sofre tanto com o frio?!” “Defeito de fabrico?…” O Arzel riu-se e eu senti uma ligeira picada na perna, quando olhei para o meu colo não queria acreditar. “Vicente!! Então, já nem se avisa?! Temos que redigir um manual de bons modos no que toca a morder pessoas!” “Eu nunca mordo ninguém a menos que seja necessário… ou incrivelmente delicioso!” E a cara dele mostrou o sorriso de uma criança que tinha acabado de encontrar o armário onde os avós escondem os chocolates. “Tens que ter em conta que eu não acho os After Eight nada de jeito.” “Mas é exatamente como tu és: doce com um toque de rebeldia! E tão pequeno que me faz sempre querer outro e outro…” “Já vi que já recuperaste porque tens as faces bem rosadas, livra-te de chegar perto de mim outra vez! A minha medula vai precisar de vários dias para compensar o sangue que perdi hoje!” E depois lembrei-me da promessa dele. “E agora que só estamos os três, explica-me lá como é que sabias que eu era doce?” O Arzel voltou a rir-se com vontade e eu comecei a ficar preocupada com a resposta. “Ah… isso. É que… hum… sabes, parece haver uma estreita ligação entre a doçura do sangue e…” “E…?” “O cheiro dos pés.” O Arzel não conseguiu segurar uma gargalhada enorme e eu corei de novo até à raiz dos cabelos. Ok, o perfume dos meus pés não era propriamente da Chanel, mas também não era fedorento! Sem saber o que mais dizer, nem como defender a honra dos meus pés, deixei-me estar caladinha até chegarmos ao hotel. Assim que chegámos, tentámos atravessar a receção o mais depressa possível para ninguém reparar que estávamos cobertos de terra, pó, cimento e sangue… muito sangue. O Arzel entrou no quarto e apagou-se numa cama, mas eu obriguei o Vicente a tomar banho não só porque ele cheirava a chamuscado mas também porque queria desinfectar-lhe as feridas. E sim, também queria tomar banho com ele. “Se eu soubesse que tinha direito a estes mimos todos já me tinha queimado mais cedo!” “Ha ha! Só tens direito a estas mordomias à primeira, da segunda enchote de gelo!” Ele sorriu e apertou-me contra o peito dele. “Afinal como é que os outros encontraram a entrada para o palácio?” “Nem vais acreditar: eles atacaram o castelo em massa e dois ou três caíram no poço do pátio. O poço só lá está como decoração mas por baixo existem uns tantos túneis. O primeiro que caiu morreu mas os outros dois que lhe caíram em cima sobreviveram e sentiram o cheiro de outros vampiros. Depois avisaram os que estavam na parte de cima do castelo e todos juntos entraram e atacaram o palácio pelo lado oposto ao que vocês entraram.” “Completamente à sorte… incrível!” “Sim, nada como a tua sabedoria e excelente faro.” Na brincadeira beijou141

me o nariz. “Acredita que a entrada que descobriste era muito mais simpática do que a queda de vários metros a que os outros se sujeitaram apenas porque não esperaram pelo sinal…” Ri-me a imaginar o monte de vampiros que se deve ter formado no fundo do poço. De momento não sentia qualquer simpatia por vampiros sem ser por aqueles dois com quem partilhava o quarto. Ah e pelo Ezequiel também, claro. No dia a seguir apanhámos um voo de Bucareste para Lisboa e mesmo com uma escala, eu estava feita uma acérrima defensora da comodidade de viajar de avião. Assim que chegámos a casa, fui tomada em braços pelo Louis que parecia realmente satisfeito por ver-me de volta. O Vicente resolveu ser territorial e afastou-o de mim. “Então Ferdinand? Só estivemos fora uma semana!…” “Nem sabes como estou feliz de que estejas de volta sã e salva!” E voltou a tentar abraçar-me mas o Vicente não o deixou chegar perto desta vez. “Sã e salva? Como assim?” Ok, cheirava oficialmente a esturro - e não, não era o Vicente. “Peço desculpa, mas eu sei o que ela é! O Sr. Vicente também, não é assim? E está a cuidar dela, certo? É que eu não passo de um cozinheiro, não posso fazer muito mais do que vigiá-la e tratá-la bem! Há anos que andava a vigiá-la, mas depois a Rita desapareceu de repente e demorei imenso tempo até saber onde ela estava e voltar a vê-la.” “Vigiá-la??” O Vicente estava a adotar uma atitude mais ofensiva do que defensiva e eu resolvi intervir. “Ferdinand, quer explicar-se melhor por favor? Isso assim não soa lá muito bem!” Usei o nome verdadeiro dele para mostrar que estava a falar a sério. “O teu pai… err… a tua mãe era como tu, és igualzinha a ela!” Alguém que conhecia a minha mãe e estava vigiar-me durante aquele tempo todo?! Saltei para perto do Ferdinand determinada a arrancar-lhe tudo o que ele soubesse. “A minha mãe? Continue.” Era mais uma ameaça do que um pedido, mas ele não pareceu importar-se. “O meu irmão Antoine perdeu-se de amores pela tua mãe e ela por ele, tu és filha dos dois e portanto a minha sobrinha. Só que o Antoine morreu ao tentar salvar a tua mãe quando ela foi levada. Eu nunca soube quem a levou, mas descobri que ela tinha conseguido salvar-te a tempo e pôr-te a cargo de um casal que parecia considerar-te filha deles. Nunca entendi como ela fez isso, mas não quis colocar-te em perigo e nunca te disse quem eras. Fiz-me amigo do teu novo pai para ir sabendo de ti. E apesar da tua rebeldia natural, não parecias apresentar nenhuma característica especial e portanto comecei a relaxar e a achar que não eras como a tua mãe.” Ele parou para respirar. “Mas quando desapareceste, entrei em pânico e comecei à tua procura como um louco, até que reparei naquele rapaz - o Ezequiel - que mudou a tua família para outro sítio e eu resolvi começar a segui-lo. E foi assim que dei com aquela casa na floresta. Depois apresentei-me como possível cozinheiro e nem queria 142

acreditar na sorte de poder partilhar casa contigo! Cozinhar para ti e ver que estavas bem sossegou-me e resolvi de novo que ainda não era altura para contar-te nada, parecias feliz.” “Eu bem que achei estranho ter um cozinheiro tão bom disponível, mas a agência parecia ser de confiança…” O Vicente estava mais a falar para ele do que para nós. “E é, tive que cobrar um favor a um amigo para conseguir chegar aqui através deles. E estava tudo a correr bem até que comecei a achar que todo aquele treino ia eventualmente acabar por transformar a Rita, eu vi nos olhos dela que afinal ela era como a mãe. E era isso que eu queria confirmar quando me apanharam a rondar a casa à noite. Na altura pensei que talvez só te transformasses de noite. E pronto, comecei a ganhar coragem para contar-te que era teu tio, mas depois mudámos de casa e vocês desapareceram, pura e simplesmente desapareceram! Pensei que te tinha acontecido o mesmo que à tua mãe, mas o Sr. Vicente não estava morto em lado nenhum da casa e não haviam marcas de luta. Nem sabes o alívio e a felicidade que é ter-te de volta sã e salva! Prometi ao meu irmão que nunca te ia deixar sozinha!” Eu nem sabia como digerir as notícias. Primeiro não sabia quase nada sobre a minha família e agora de repente até tinha um tio! Acabei por abraçálo com força e estava capaz de obrigá-lo a contar-me a história dos meus pais tintim por tintim naquela noite, mas o Vicente arrastou-me para o quarto para descansar. E ele tinha razão, aterrei na cama sem tirar a roupa sequer. A casa era tão confortável e quentinha! Nos dias que se seguiram descobri que me sentia mais em casa na casa do Vicente do que na minha - que tinha uma decoração muito moderna desde que tinha sido revistada - e por isso só lá voltei para ir buscar a minha tralha e despejá-la em casa do Vicente. A Ana e o Ezequiel também estavam a pensar em viver juntos, o que era extremamente esquisito porque ela continuava a acreditar que ele era um agente secreto. Os meus pais voltaram para a casa deles e não sei se o Vicente ou o Ezequiel ajudaram nalguma coisa, mas eles estavam muito mais simpáticos e eu comecei a sentir-me novamente filha deles. O Natal estava à porta e eu tinha tanto para agradecer naquele Inverno que senti que tinha que organizar uma festa de Natal e reunir toda a minha família alargada. Depois de muito pedinchar, o Vicente lá me deu autorização para usar a casa da floresta e decorei tudo de cima a baixo. A árvore de Natal ao canto da parede envidraçada que dava para o rio ficava um espanto, assim como toda a iluminação no meio da floresta - aquela casa tinha sido desenhada para o Natal. À hora do jantar de dia 24 começaram a chegar os convidados. Primeiro os meus pais que apareceram um pouco mais cedo porque a minha mãe insistia em explicar ao Louis como fazer o bacalhau. Eu já tinha subornado o meu tio e do menu constava antes polvo e peru, mas ela insistia no bacalhau. O Arzel chegou pouco depois carregado de presentes, abracei-o e caíram todos ao chão mas ele dava na mesma um excelente Pai Natal. O Sr. Vítor, o alfarrabista, também aceitou o meu convite para jantar 143

connosco e veio à boleia com o Arzel. Já em cima da hora do jantar apareceram a Ana e o Ezequiel muito enamorados e também com alguns presentes a reboque. Quem visse a quantidade de prendas debaixo da nossa árvore de Natal nunca ia suspeitar que não havia uma única criança - com menos de dez anos - naquela casa. O jantar chegou finalmente mas comemos mais doces do que propriamente peru, polvo ou bacalhau. Falámos e rimos imenso, eu tirei algumas fotografias e continuámos alegremente à espera das doze badaladas. A meia-noite chegou finalmente e eu não tive coragem para dizer ao Arzel que preferia ser eu a distribuir as prendas, portanto foi ele que leu todas as etiquetas e que entusiasticamente distribuiu os presentes. “E da Rita para o Vicente temos aqui um presente enorme!” O Vicente recebeu-o com um sorriso amarelo e começou a desembrulhá-lo. “Uma televisão! Exatamente o que eu queria!” O pessoal riu-se com vontade. “Arzel, abre agora o meu presente para ti porque tem a ver com o do Vicente.” O Arzel pegou no pequeno embrulho e desembrulhou-o genuinamente curioso e cheio de vontade de ver o que era. Quando viu a consola e os microfones do karaoke, ele saltou literalmente de alegria e envolveu-me num grande abraço que também incluiu os microfones. E tal como os putos, correu a montar a televisão, a consola e os microfones. O Vicente olhou para mim com um ar reprovador e eu encolhi os ombros - afinal eu era capaz de desafinar tão bem como o Arzel! O meu tio achou muito estranho receber um DVD da ‘Pequena Sereia’ no meio de roupa e utensílios de cozinha, mas eu garanti-lhe que ele ia gostar do filme e talvez até achasse piada a uma personagem em particular. Por volta das três da manhã já quase toda a gente se tinha ido embora e havia papel de embrulho por todo lado, além de pedaços de peru na alcatifa. Dos convidados restava apenas o Arzel ainda colado ao microfone a ‘suicidar’ vários clássicos e já com a voz nitidamente rouca. O Vicente tinha adormecido enrolado numa manta no sofá - mais um milagre de Natal porque dormir durante aquele desafinanço todo era só para duros - e eu resolvi que ainda tínhamos tempo para mais um dueto assassino de outra música de Natal: que tal a ‘Natal de Évora’ e os seus versos impronunciáveis? “O menino está dormiiiiiiiiiiindo….” FIM

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