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CATIVOS DADA NOITE

CATIVOS

NOITE

Loretta Loretta Chase Chase
Loretta
Loretta Chase
Chase

Cativos da noite

Quando o intrigante Conde D’Esmond entra em qualquer ambiente as mulheres desmaiam e os homens chiam os dentes. O Conde está mais que acostumado a essa reação — e tenta tirar o máximo proveito dela. Mas nada o preparou para enfrentar Leila Beaumont e com apenas um olhar a seus dourados olhos fica perigosamente cativado. O que é um problema, já que Esmond não pode se permitir nenhum tipo de distração, por muito apaixonada que prometa ser. Supõe-se que está trabalhando, nada mais nem nada menos, para o Governo Britânico, e seus superiores querem levar adiante a justiça ao corrupto e traidor marido de Leila. E, quando o marido desta, como era de esperar, é assassinado, tudo o que Esmond tem que fazer é deixar Leila livre de toda suspeita e seguir com sua seguinte missão. Mas, livrá-la da forca pelo assassinato de seu marido não é suficiente para Leila. Ela quer saber a verdade

DA DA NOITE CATIVOS Loretta Loretta Chase Chase Cativos da noite Quando o intrigante Conde
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—toda a verdade— sobre o Esmond, um homem que passou toda sua vida mentindo.

DA DA NOITE CATIVOS Loretta Loretta Chase Chase Cativos da noite Quando o intrigante Conde

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Amor e intriga, detrás dos rastros de um assassino. Leila Beaumont é uma bela e fascinante mulher. Também muito forte e inteligente. O conde D’Esmond é um homem atormentado por seu passado negro, que busca sua redenção. Os dois formam um especial casal empenhado em um ato de justiça. Alguém assassinou o marido de Leila e ambos procuram o autor do crime.

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Disponibilização/Tradução: Lariane Santos e Mare Formatação/Revisão: Letícia Soares Revisão Final: Regina Projeto Revisoras Traduções

Janeiro de 1819

Prólogo

O crepúsculo tinha caído sobre Veneza, sumindo nas sombras dos corredores de mármore do palácio. O som de vozes masculinas desconhecidas deteve Leila, uma bela adolescente de dezessete anos, no alto da escada. Eram três homens e, embora não

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

podia distinguir o que diziam, a cadência de suas palavras indicava às claras que não eram ingleses.

Espiou por cima do corrimão finamente ornamentado. Quando seu pai saiu do estúdio, um dos homens avançou para ele. Do alto, Leila só pôde ver o alto da cabeça daquele estranho, que lançou brilhos dourados sob a luz que provinha da porta aberta do estúdio. Sua voz era um murmúrio sereno e amistoso, suave como a seda. Mas a voz do pai não era suave. Seu tom cortante e áspero provocou-lhe um acesso de angústia. Separou-se da balaustrada de repente e correu para sua sala de estar. Com as mãos tremendo agarrou sua pasta de desenho e se concentrou em copiar o intrincado ornamento do escritório. Era a única maneira de não pensar no que estava

ocorrendo no andar de baixo. Certamente não podia ajudar seu pai

se é que

... necessitava ajuda; e, possivelmente, não necessitava. Possivelmente só se sentia aborrecido porque tinham-no interrompido à hora do chá. Fosse como fosse, Leila sabia que não devia se deixar ver. O trabalho que o pai fazia para o governo já era bastante difícil. O que menos precisava era ter que se preocupar com ela. E assim, só com seus companheiros de sempre — a pasta de desenho e o lápis—, Leila Bridgeburton esperou com tristeza a bandeja do chá, sabendo que esse dia, como no dia anterior e o anterior a esse, só traria serviço para um.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite podia distinguir o que diziam, a cadência de suas
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O homem do reluzente cabelo dourado se chamava Ismal Devina e tinha vinte e dois anos. Acabava de chegar a Veneza, vinha da Albania e sua viagem tinha sido bastante desagradável. Dado que havia passado a maior parte da travessia se recuperando de um envenenamento, não estava precisamente de bom humor. Entretanto, seu semblante angelical expressava uma doce cortesia. Não tinha notado a presença de

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Leila, mas seu servente, Risto, ouviu o sussurro das saias e elevou a vista um instante antes que a garota se retirasse. Ao entrar no estúdio de Jonas Bridgeburton, Risto lhe mencionou em voz baixa o que acabava de descobrir. O infalível instinto do jovem se encarregou do resto. Ismal sorriu a seu relutante anfitrião. — Terei que enviar meu servente escada acima para averiguar a identidade da garota? —A inesperada pergunta fez dar um coice em Bridgeburton—. Ou terá você à amabilidade de lhe economizar o incômodo? — Não tenho a menor idéia de ... — Rogo que não ponha a prova nossa paciência fingindo que não há nenhuma garota ou que é uma simples criada — interrompeu Ismal, sem perder a calma—. Quando

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meus homens se impacientam esquecem suas boas maneiras

que, para começar,

...

tampouco são muito elegantes. Bridgeburton cravou os olhos no gigantesco Mehmet; percorreu com o olhar seus quase dois metros de estatura e logo se deteve no semblante cítrico do menos corpulento, mas claramente mais hostil, Risto. Pálido como um morto, o inglês se

...

não vai

dirigiu ao que levava a voz cantante. — Pelo amor de Deus — gemeu—, é apenas uma menina. Você não pode

a ... — Em suma, é sua filha — disse Ismal. Com um suspiro, se deixou cair na cadeira do desordenado escritório de Bridgeburton—. Me permita dizer que é você um pai pouco sábio. Dadas suas atividades, teria que ter mantido à garota o mais longe possível.

— Fiz-o

Ela estava longe ...

Mas o dinheiro acabou. Tive que tirá-la da escola. Você

—Bridgeburton percorreu o estúdio

... não entende. Ela não sabe nada. Acredita que

... com olhos aterrorizados, passando de um rosto desumano ao seguinte. Olhou Ismal—.

Maldita seja, ela acredita que sou agente secreto do governo inglês

um herói. Não lhe

... será útil. Se permitir que esses asquerosos bastardos se aproximem, não lhe direi nada. Por toda resposta, Ismal olhou a Risto. Ao ver que se dirigia para a porta, Bridgeburton tratou de impedir mas com um rápido movimento, Mehmet o obrigou a

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

retroceder. Ismal levantou uma das tantas cartas amontoadas sobre o escritório de Bridgeburton. — Não tem por que se alarmar—lhe disse—. Risto vai lhe ministrar láudano, isso é tudo. Só para estar seguros de que não haverá interrupções enquanto você e eu

negociamos. Espero que tenha a astúcia de não fazer nada fora do lugar. Não queria

deixá-lo sem filha nem tampouco deixar órfã à menina, mas Risto e Mehmet

...

Suspirou fundo—. Lamento ter que dizer que são uns bárbaros. Se não cooperar rápida e plenamente conosco, temo que me seja impossível controlar sua natureza violenta. Ainda com a carta na mão, Ismal meneou a cabeça com um sotaque de tristeza. — As filhas podem trazer muitos problemas. E, ao mesmo tempo, são tão valiosas ... não lhe parece?

** ** **

Leila recordava ter despertado — ou sonhado que despertava— com um ataque de náuseas. Percebeu movimento ao seu redor e ouviu uma voz de homem. Era uma voz tranqüilizadora, mas não a do pai. E não podia acalmar o ardor de seu estômago. Na noite do sonho ou a noite real, a carruagem se deteve e ela desceu dando tombos e caiu de joelhos. Então, mesmo depois de passar a náusea, não quis se levantar. Só desejava ficar ali e morrer. Não recordava ter voltado a subir na carruagem, mas de algum modo devia ter feito porque, quando despertou novamente, encontrou-se em meio a terríveis choques de seus doloridos ossos e seu pobre estômago. Acreditou ter recuperado a consciência porque estava pensando; pensava que os caminhos da Itália não se pareciam em nada aos suaves e planos caminhos da Inglaterra, que as rodas da carruagem deviam ser de pedra ou de ferro, e que os venezianos ainda não tinham inventado os amortecedores. Sorriu fracamente, porque possivelmente tudo aquilo era gracioso. Escutou uma risada afogada em resposta, como se tivesse contado uma piada. E a voz masculina disse:

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— Por fim despertamos? Tinha a bochecha apoiada sobre um pouco de lã. Quando abriu os olhos viu que não era uma manta, mas sim uma capa de homem. Levantou a vista, e esse só e muito leve movimento a enjoou tanto que teve que se segurar na capa para não cair. Depois se deu conta de que não podia cair. Estava sentada sobre os joelhos do homem, a salvo entre seus braços. Era vagamente consciente de que não era correto estar ali, mas ultimamente tudo estava de cabeça para baixo no mundo. Como não sabia o que fazer, se pôs a chorar. O homem lhe colocou um lenço grande e enrugado entre as mãos trementes. —O láudano faz você se sentir muito mal se não está acostumada. Entre soluços e soluços, Leila conseguiu murmurar uma desculpa. O homem a apertou contra seu peito e, bateu brandamente nas costas, deixou-a

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...

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chorar até se cansar. Depois fosse um perfeito estranho.

já era tarde para sentir medo, embora esse homem

— La

...

La

...

láudano —gaguejou logo que pôde recuperar a voz—. P

...

p

...

mas eu não

to

...

to

...

tomei na

...

na

...

nada. Eu nun

...

nun

...

nunca

...

— Não dura eternamente, asseguro-lhe isso. —Lhe tirou o cabelo úmido do rosto—. Dentro de um momento pararemos em uma estalagem, lavará o rosto, beberá um pouco de chá e voltará a se sentir você mesma.

Não queria perguntar. Tinha medo da resposta. Mas se obrigou a recordar que ter medo não ajudava nem tampouco mudava nada.

— Ond

...

ond

...

onde está p

...

p

...

pai?

O sorriso do desconhecido desapareceu. — Temo que seu pai se colocou em graves problemas. Leila queria fechar os olhos e voltar a apoiar a cabeça sobre seu ombro e fingir que

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

aquilo era um sonho ruim. Mas o enjôo estava desaparecendo e em sua mente se

desenhavam lembranças arrepiantes: os três estrangeiros na entrada

de seu pai

a pequena servente tremendo com a bandeja do chá ...

e o desmaio.

... da infusão. E depois o enjôo

a voz cortante

... o estranho sabor

... E então compreendeu, sem necessidade de que o dissesse. Esses homens tinham matado seu pai. Por que outra razão estaria ela nessa veloz carruagem, em companhia de um inglês que jamais tinha visto em sua vida? Mas o homem pegou sua mão, animando-a a ser valente. Obrigou-se a escutar o que

lhe estava dizendo. Tinha ido levar ao seu pai uma mensagem de um amigo e assim que chegou se encontrou com uma servente maltratada que saía aos tropeções do palácio. A pobre mal tinha terminado de lhe explicar que uns estrangeiros tinham irrompido na casa e assassinado ao amo quando ele viu que um dos malfeitores retornava. — Conseguimos apanhar ao bruto por surpresa —prosseguiu o homem— e assim nos inteiramos de que o tinham enviado para te buscar. — Porque eu os vi. —O coração parecia querer sair do peito. Os malfeitores tinham retornado para matá-la. O homem lhe apertou a mão. —Tudo está bem agora. Estamos indo para longe. Jamais lhe encontrarão.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite aquilo era um sonho ruim. Mas o enjôo estava
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—Mas a polícia

alguém deveria

... —É melhor que não. O tom cortante a fez levantar a vista.

...

—Pouco conhecia seu pai — disse o homem—. Mas, parece, relacionou-se com pessoas muito perigosas. E tenho sérias dúvidas de que a polícia veneziana se tome o incômdo de proteger a uma menina inglesa. —Fez uma pausa—. Disseram-me que não tem parentes em Veneza. —Leila tragou saliva.

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— Nem em nenhuma outra parte. Só tinha a

papai. —Lhe quebrou a voz.

... Estava morto, tinham-no assassinado durante o cumprimento de seu dever, como Leila sempre tinha temido que ocorresse desde que lhe tinha falado de sua missão secreta para a Inglaterra. Tivesse querido ser valente e se sentir orgulhosa dele, porque tinha morrido por uma causa nobre, mas tinha os olhos cheios de lágrimas. Não podia evitar o sofrimento, nem tampouco podia evitar se sentir imensa e

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desesperadamente sozinha. Já não tinha ninguém. — Não se preocupe — disse o homem—. Eu cuidarei de você. —Elevou-lhe o queixo e escrutinou seu rosto banhado em pranto—. Você gostaria de ir a Paris? A carruagem estava às escuras, mas havia luz suficiente para distinguir seus traços. Era mais jovem do que tinha acreditado, e muito bonito; seus brilhantes olhos negros a faziam sentir febril e encantada ao mesmo tempo. Só esperava não voltar a desmaiar.

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A

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite aquilo era um sonho ruim. Mas o enjôo estava

— P

P

Paris — repetiu—. A

agora? Po

po

porquê?

... — Não exatamente agora, mas dentro de semanas. Porque ali estará a salvo. — A salvo. Ah. —Afastou o queixo dos suaves dedos dele—. Por quê? Por que faz isto? — Porque é uma moça em apuros. —Seus lábios não sorriam, mas Leila percebeu um sorriso no tom de sua voz—. Francis Beaumont jamais abandonaria a uma garota em apuros. Muito menos a uma tão bonita como você. — Francis Beaumont — repetiu Leila, secando-os olhos. — Sim. E não te abandonarei jamais. Disso pode estar segura. Não tinha nada nem ninguém em quem confiar. Sua única esperança era que aquele homem cumprisse sua promessa.

...

...

...

...

...

** ** **

Quando chegaram em Paris, Francis Beaumont revelou tudo o que a servente havia dito: que esse pai que Leila tanto idolatrava era um bandido traficante de armas roubadas que aparentemente tinha sido assassinado por clientes insatisfeitos com seus

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serviços. Leila gritou que a empregada era uma mentirosa e chorou, prisioneira da histeria, nos braços de seu salvador. Mas umas semanas mais tarde apareceu em cena Andrew Herriard, um advogado, e já não pôde seguir negando os fatos. De acordo com o testamento que lhe tinha mostrado, Herriard era seu tutor. Também tinha em seu poder os papéis privados de seu pai, junto com cópias de documentos policiais que confirmavam com acréscimo o que a empregada havia dito ao senhor Beaumont. A polícia veneziana tinha responsabilizado ao assassinos de seu pai pelo desaparecimento da Leila. Dadas as circunstâncias, o senhor Herriard acreditava conveniente não modificar essa impressão. Embora tivesse desejado, Leila não teria tido nada que objetar a seu sábio e amável conselho. Mas não o desejava. Escutava e assentia com a cabeça encurvada e as bochechas vermelhas de vergonha, consciente de que aquilo era muito pior que estar sozinha no mundo. Era uma exilada. Mas o senhor Herriard se apressou a lhe conseguir uma nova identidade para que pudesse refazer sua vida, e o senhor Beaumont — embora não tinha nenhuma obrigação legal para ela— a enviou a estudar com um professor de arte parisiense. Embora fosse a filha de um traidor à pátria, aqueles dois homens permaneceram a seu lado e se ocuparam de cuidá-la. Em troca, Leila lhes entregou toda a gratidão de seu jovem coração. E com o tempo, em sua inocência, entregou muitíssimo mais ao Francis Beaumont.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite serviços. Leila gritou que a empregada era uma mentirosa
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Capítulo 1

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite serviços. Leila gritou que a empregada era uma mentirosa
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Paris, março de 1828

— Não quero conhecê-lo. —De um puxão, Leila liberou seu braço das garras de seu marido—. Devo terminar uma pintura e não posso perder tempo falando de tolices com outro aristocrata devasso enquanto você se embebeda.

Francis encolheu os ombros. — Estou seguro de que o retrato de madame Vraisses pode esperar uns minutos. O conde d'Esmond morre por te conhecer, preciosa minha. Admira seu trabalho. — Agarrou-lhe a mão—. Vamos, não se zangue. Só dez minutos. Logo poderá sair correndo e fechar-se em seu estúdio. Leila olhou com frieza a mão que sustentava a sua. Com uma risadinha zombadora, Francis a retirou.

Separando-se de seu rosto dissoluto, foi para o espelho de pé

e franziu o cenho

... diante sua imagem refletida. Tinha planejado trabalhar no estúdio, por isso levava sua

entupida cabeleira orlada de mechas douradas atada com uma fita puída simplesmente

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

para limpar o rosto. — Se quiser que dê uma boa impressão, será melhor que me pinte um pouco — disse. Foi para a escada, mas Francis lhe bloqueou o passo. — É formosa — lhe disse—. Não precisa te pintar. Eu gosto despenteada. — Porque é incapaz de apreciar. —Não, porque assim te vê tal como é. Intensa. Apaixonada. —Sua voz era cativante.

Percorreu com o olhar o generoso decote da Leila para logo se deter em seus, por

desgraça, igualmente abundantes quadris—. Uma destas noites

...

possivelmente esta

mesma noite, meu amor

lhe recordarei isso.

... Leila reprimiu um gesto de repulsa e um medo que, disse-se, era completamente irracional. Fazia anos que não permitia que a tocasse. A última vez que Beaumont tentou abraçá-la, rompeu-lhe sua urna oriental predileta na cabeça. Leila lutaria até a morte —e ele sabia— antes de voltar a render-se a esse corpo libertino que tinha compartilhado com incontáveis mulheres e à humilhação que ele chamava fazer o amor. — Não viverá para contá-lo. —Esboçou um sorriso gélido e acomodou um cacho rebelde atrás da orelha—. Acaso não sabe, Francis, que os jurados franceses tendem a ser solidários com as assassinas que lhes parecem atrativas? Ele se limitou a sorrir.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite para limpar o rosto. — Se quiser que dê
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—Converteste-te em uma besta selvagem. E pensar que antes foi uma gatinha tão doce. Mas é dura e implacável com todos, não é mesmo? Se alguém se interpuser em seu caminho, passas por cima dele. É melhor assim, estou de acordo. No entanto, é

uma lástima. É uma coisinha tão adorável

...
...
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite para limpar o rosto. — Se quiser que dê

—murmurou inclinando-se para ela.

Soou uma batida na porta. Francis se separou, amaldiçoando entre dentes. Leila arrumou o cabelo com um prendedor que se afrouxou e correu para a sala, com seu marido pisando nos calcanhares. Quando o visitante foi anunciado, ambos estavam perfeitamente compostos e encarnavam o modelo do casal britânico ideal; Leila, muito erguida, sentada em uma cadeira, e um comedido Francis de pé junto a ela. O convidado fez sua aparição.

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E Leila se esqueceu de tudo, até de respirar. O conde d'Esmond era o homem mais belo que já tinha visto. Na vida real, é obvio. Tinha encontrado belezas semelhantes em algumas pinturas, mas mesmo Botticelli teria chorado de emoção ao contemplá-lo. Os homens intercambiaram saudações por cima de sua cabeça, cujos neurônios tinham deixado de funcionar no momento. — Madame. Uma dissimulada cotovelada de Francis a fez voltar para a realidade. Encantada, Leila ofereceu uma mão ao conde. — Monsieur. O conde se inclinou, roçando apenas os nódulos com os lábios. Tinha o cabelo muito claro, dourado e sedoso, um pouco mais comprido do que ditava a moda.

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Reteve sua mão um pouco mais do que exigia a etiqueta

...

o suficiente para atrair o

olhar da Leila à sua e lhe fazer perder a consciência. Seus olhos eram de cor azul safira escura, ardentes e intensos. Soltou a mão da Leila, mas não seu olhar. — Fez-lhe as maiores honras, madame Beaumont. Pude apreciar sua obra na Rússia; um retrato do primo da princesa Lievem. Quis comprá-lo, mas o proprietário sabia o

que tinha e se recusou vender. “Vá a Paris”, disse-me, “e consiga que lhe faça um”. E precisamente para isso vim. — Da Rússia? —Leila resistiu o impulso de levar uma mão ao coração, que pulsava

descontrolado. Santo Deus. Tinha viajado da Rússia

...

aquele

homem que

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

provavelmente não poderia cruzar a rua em São Petersburgo sem ser perseguido por umas centenas de pintores ansiosos. Qualquer artista venderia seu primogênito recém-

nascido por ter o privilégio de pintar esse rosto—. Não só terá vindo para fazer um retrato, estou segura. A boca sensual se distendeu em um sorriso preguiçoso.

— Ah, bem

tinha alguns negócios pendentes em Paris. Eu não gostaria que

... pensasse que vim sozinho por vaidade. No entanto, o desejo de perdurar é parte da natureza humana. Procuramos o artista do mesmo modo que procuramos os deuses, e sempre com o mesmo propósito: a imortalidade. — É muito certo — disse Francis—. Neste mesmo momento, todos nós estamos decaindo lenta e inexoravelmente. Em um momento, o espelho reflete um homem de aparência agradável na flor da idadde. No momento seguinte, o jovem se transformou em um sapo velho cheio de verrugas. Leila advertiu uma nota de antagonismo lânguido na voz de seu marido, mas o conde tinha prendido por completo sua atenção. Viu brilhar um instante seus olhos ferozmente azuis, e esse fugaz resplendor não só modificou seu rosto a não ser a atmosfera mesma da sala. Em um instante, o doce sorriso da cara do anjo se transformou na brutal gargalhada do muito mesmo diabo. — E pouco depois — disse Esmond, liberando o olhar da Leila e se dirigindo a Francis —, em um banquete para os vermes. Ainda sorria; seus olhos eram genuinamente risonhos, a expressão diabólica tinha desaparecido. No entanto, a tensão ia aumentando. — Nem sequer os retratos duram para sempre — disse Leila—. Dado que muito poucos materiais pictóricos são permanentemente estáveis, estão condenados a danificar-se. — Certas pinturas das tumbas egípcias têm milhares de anos — falou o conde—. Mas não tem importância. Depois de tudo, nós não teremos a oportunidade de averiguar quantos séculos durarão suas pinturas. O único que nos importa é o presente; e espero, madame, que disponha de tempo para me pintar neste presente tão fugaz e passageiro. — Temo que deva ter paciência — interveio Francis, aproximando-se da mesa com uma bandeja de bebidas—. Leila está terminando um trabalho e já se comprometeu a realizar outros dois. — Sou famoso por minha paciência — respondeu o conde—. O czar opinou que eu era o homem mais paciente que tinha conhecido. Ouviu-se um tinido de cristais e ficaram em silêncio até que, finalmente, Francis respondeu. — Você se move em círculos muito altos, muito meu senhor. Acaso é íntimo do czar Nicolás? — Falamos de vez em quando. Isso não é ter intimidade. —O penetrante olhar azul voltou a se posar em Leila—. Minha definição de intimidade é muito mais precisa e específica. A temperatura da sala pareceu aumentar por instantes. Leila decidiu que era hora de partir, houvessem passado ou não os dez minutos acordados com o Francis. Enquanto o conde aceitava a taça de vinho que lhe oferecia seu marido, Leila ficou de pé. — Será melhor que volte a trabalhar — anunciou. — É obvio, meu amor — disse Francis—. Estou seguro de que o conde entenderá. — Compreendo e, no entanto, lamento que deva nos abandonar. —Esta vez, o intenso olhar azul a percorreu de pés a cabeça. Leila tinha padecido muitas inspeções similares para não saber o que significavam. Pela primeira vez, entretanto, um olhar masculino refletia em cada músculo de seu corpo. Pior ainda, sentia uma atração que dominava por completo sua vontade. Mas, por fora, reagiu como de costume; seu semblante se tornou mais frio e cortês, sua postura mais arrogantemente desafiante.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite provavelmente não poderia cruzar a rua em São Petersburgo
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite provavelmente não poderia cruzar a rua em São Petersburgo
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Por desgraça, madame Vraisses lamentará ainda mais a demora de seu retrato — disse—. E é uma das mulheres menos pacientes do mundo.

— E suspeito que você não fica atrás. — aproximou-se mais

...

e o coração da Leila

começou a bater descontrolado. Era mais alto e de compleição mais forte do que tinha

pensado em um princípio—. Tem olhos de tigresa, madame. Não é comum a todos

...

e

não me refiro apenas à cor dourada. Mas você é uma artista, e vê mais do que outros

podem ver. — Creio que minha esposa viu às claras que você está paquerando com ela — disse Francis, indo para Leila. — Naturalmente. Que maior homenagem, ou mais cortês, pode fazer um homem à esposa de outro? Espero não havê-lo ofendido. —O conde olhou ao Francis com expressão de pura inocência. —Ninguém está ofendido no mínimo — disse bruscamente Leila—. Somos ingleses, mas faz quase nove anos que residimos em Paris. No entanto, sou uma mulher que trabalha monsieur ... — Esmond — a corrigiu ele. — Monsieur — repetiu Leila com firmeza—. E, portanto, devo me desculpar e voltar para meu trabalho. — Desta vez não ofereceu sua mão. Em troca, dedicou-lhe uma fria reverência. E ele respondeu com uma graciosa inclinação de cabeça. Quando ia para a porta, que um enrijecido Francis se apressou a abrir, ouviu a voz do Esmond a suas costas. — Até que voltemos a nos ver, madame Beaumont — murmurou acariciadora. Algo reverberou no mais profundo de sua mente e se deteve na soleira. Uma lembrança. Uma voz. Mas não. Se o tivesse visto antes, recordaria-o. Um homem como esse era impossível de esquecer. Concordou, lânguida, e continuou seu caminho.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Por desgraça, madame Vraisses lamentará ainda mais a
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Por desgraça, madame Vraisses lamentará ainda mais a
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Às quatro da manhã, o inesquecível cavalheiro dos olhos azuis descansava recostado no sofá suntuosamente bordado de sua própria sala. Muitos anos atrás, quase sempre da mesma maneira, recostou-se nesse divã para conspirar contra seu ardiloso primo Ali Pasha. Naqueles tempos, o inesquecível cavalheiro se chamava Ismal Devina. Após se fazia chamar como melhor conviesse a seus propósitos. Atualmente era o conde d'Esmond. Seus patronos britânicos, com a colaboração de seus pares franceses, tinham documentado de forma confiável sua linhagem sangüínea e seu título. O francês do Ismal era irrepreensível, como a maioria dos outros onze idiomas que falava. Falar inglês com acento francês não era dificuldade alguma para ele. O dom da palavra era um de seus muitos dons. Com só exceção de seu albanês nativo, Ismal preferia o inglês. Era uma língua assistemática mas maravilhosamente flexível. Gostava de jogar com suas palavras. Tinha-lhe divertido muitíssimo jogar “intimando” e “intimidade”. E madame Beaumont se enfureceu magnificamente. Sorrindo ao recordar seu muito breve encontro, Ismal provou o carregado café turco que tinha preparado Nick, seu servente. — Perfeito — disse. — É obvio que é perfeito. Pratiquei de sobra, não? Apesar de suas palavras, Nick relaxou visivelmente. Embora fizesse seis anos que servia Ismal, não tinha perdido a vontade de agradar. Com só vinte e um anos, Nick carecia da virtude da paciência e não se mostrava particularmente respeitoso, exceto em público. Mas era metade inglês e, em qualquer caso, Ismal já tinha tido muitos serventes complacentes. — Sei muito bem que praticaste de sobra — disse Ismal—. Mesmo assim, estou impressionado. Suportaste uma longa e tediosa noite nos seguindo, a mim e a meu

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

novo amigo, de um lugar parisiense a outro. Nick se encolheu de ombros. — Sempre que houver valido a pena ... — Tem-na valido. Creio que, no decorrer deste mês, conseguiremos nos desfazer de Beaumont. Se o assunto fosse menos urgente deixaria que a Mãe Natureza seguisse seu curso, porque o senhor Beaumont acabará por se destruir a si mesmo. Esta noite consumiu ópio suficiente para matar a três homens de seu tamanho. Nick fechou seus negros olhos. — Mastigou-o ou o fumou? — Ambas as coisas.

— Isso nos abre o caminho. Só tem que adicionar uns grãos de estricnina 1 ou ácido

cianídrico

Diabos, poderia colocar em um pêssego ou em um damasco ou em uma

... maçã ou ... — Poderia, mas não é necessário. Tenho uma absoluta aversão a matar a menos que seja realmente necessário. Inclusive assim, desgosta-me profundamente. E também tenho uma particular aversão ao veneno. Não é próprio de cavalheiros. — Beaumont tampouco foi, digamos, muito cavalheiro, concorda? Além disso, uma dose de veneno nos permitiria nos desfazer dele sem muito escândalo. — Quero que sofra. — Isso já é outra coisa. Ismal levantou a taça, que Nick voltou a encher com diligência. — Demoramos muitos meses em encontrar a este homem —disse Ismal—. Agora que sua cobiça o pôs em minhas mãos, quero me divertir um momento. Tudo tinha começado na Rússia. Ismal estava a cargo de uma investigação quando o czar lhe propôs um problema muito mais complexo e perturbador. As negociações de paz entre a Rússia e Turquia corriam perigo porque o sultão se havia apoderado de certas cartas que não lhe pertenciam. O czar queria saber como e por que aquelas cartas tinham terminado em Constantinopla. Ismal sabia que, por todo império turco, a correspondência era sistematicamente interceptada por espiões. No entanto, as cartas jamais haviam passado pelos domínios do sultão; nunca tinham saído de Paris, estava salvo, de baixo de sete chaves, na caixa de segurança de um diplomada britânico. Um dos assistentes do diplomada atirou em si mesmo antes que o interrogassem.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite novo amigo, de um lugar parisiense a outro. Nick
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Durante os meses que se seguiram, viajando constantemente entre Londres e Paris, Ismal tinha escutado muitas outras histórias de roubos similares, bancarrotas inexplicáveis e perdas repentinas. Resultou que todos os acontecimentos estavam vinculados. Os envolvidos tinham algo em comum: todos eles tinham freqüentado, em um momento ou outro, um modesto edifício situado em uma silenciosa esquina de Paris. O lugar era conhecido, simplesmente, como o Vingt-Huit: “o Vinte e oito”. Sob o amparo de suas paredes o visitante podia, por certa quantidade de dinheiro, desfrutar

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de uma ampla gama de perversões e vícios, dos mais comuns até os mais sofisticados. Ismal sabia, embora não por experiência própria, que existiam pessoas capazes de

fazer qualquer coisa por dinheiro

...

e pessoas bastantes corruptas ou desesperadas

para pagá-lo. E era a Francis Beaumont a quem pagavam. Mas não sabiam, é obvio, e nem sequer Ismal podia demonstrá-lo. Vale dizer que carecia de provas suscetíveis para serem apresentadas diante um tribunal. Francis Beaumont não podia ser levado diante um juiz porque nenhuma de suas vítimas podia se sentar no banco das testemunhas. Como o jovem assistente, todas e cada uma

1 Alcalóide cristalino, branco, muito venenoso, obtido de várias espécies do gênero Estricno, especialmente da noz-vômica. É usado em medicina, sobretudo em forma de sulfato ou fosfato como tônico e estimulante do sistema nervoso central.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

delas prefeririam se suicidar antes que expor seus sórdidos segredos ao escrutínio público. Em conseqüência, Ismal teve que se encarregar do caso Beaumont discretamente e no mais absoluto silêncio, tal como se tinha feito cargo de outros muitos assuntos que preocupavam ao rei Jorge IV e aos seus ministros e aliados. A voz do Nick interrompeu suas reflexões. — Como pensa fazer desta vez? —perguntou-lhe. Ismal estudou o conteúdo da taça, delicadamente pintada. — A esposa é fiel. — Discreta, quer dizer. Teria que estar louca para ser fiel a esse porco corrupto.

— É provável que esteja um pouco louca. —Ismal levantou a vista—. Mas possui um extraordinário talento artístico, e já sabe que o gênio não sempre é de tudo racional. Sua dedicação artística foi uma grande vantagem para Beaumont. O trabalho ocupa quase todo seu tempo e seus pensamentos. Graças a isso, é muito pouco consciente de todos os homens que tentam seduzi-la. Nick abriu bastante os olhos. — Vai me dizer que não a impressionou? A leve risada do Ismal era sincera. —Tive que me esforçar muito. — Porque me pendurem. Tivesse dado qaulquer coisa por vê-lo.

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— Foi muito desconcertante. Como se eu fosse uma estátua de mármore

... Nick meneou a cabeça. — Você nunca é indiscreto

ou um

... retrato a óleo. Forma, linha, cor. —Ismal fez um gesto amplo—. Se olhar para seu belo

rosto, só verá luxúria

... estou sendo um tanto

a luxúria do artista. Converte-se em objeto. É insuportável. E eu indiscreto.

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ao menos não pelo gosto de sê-lo. Aposto que seu único

... propósito era que madame Beaumont não lhe prestasse a devida atenção. — A indevida atenção, quer dizer. A dama está casada e é modesta, e o marido estava presente. No entanto, quando obtive dela uma reação que não era de tudo artística, também ele reagiu. É um homem vaidoso e possessivo. Em conseqüência, desgostou-se. — E ainda por cima tem a coragem de se desgostar. O sacana levou a cama pelo menos a metade das mulheres casadas de Paris. Ismal fez um gesto de desdém. — O mais interessante foi sua surpresa diante meu êxito, em vão, com sua esposa. Não parece acostumado a se preocupar com ela. Mas plantei a semente da dúvida, e a penso cultivar. E essa é só uma das maneiras em que, de agora em diante, atormentarei seus dias e suas noites. Os lábios do Nick desenharam um sorriso zombador. — Não tem nada de mal mesclar um pouco prazer com os negócios. Ismal deixou a taça e, fechando os olhos, recostou-se contra os amaciados almofadões. — Creio que deixarei a maior parte do negócio em suas mãos. Beaumont paga o silêncio e o amparo de certas pessoas que ocupam os níveis mais altos do governo parisiense. Você provocará uma série de incidentes que o obriguem a pagar mais amparo. Os incidentes assustarão e afastarão aos clientes mais vulneráveis. Essa gente paga muitíssimo dinheiro para manter o segredo. Se se sentem expostos, deixarão de freqüentar o Vingt-Huit. Tenho algumas idéias mais, mas as discutiremos amanhã. — Já vejo. Eu me ocuparei do trabalho sujo enquanto você se diverte com a dama artista. — É obvio. Não posso deixar a madame em suas mãos. É metade inglês. Não compreende as mulheres de caráter, e portanto, não pode apreciá-las na sua justa medida. Não saberia o que fazer com ela. E embora soubesse, carece da paciência necessária. Eu, em troca, sou o homem mais paciente do mundo. Até mesmo o czar

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

teve que admiti-lo. —Ismal abriu os olhos—. Te disse que Beaumont quase derruba um frasco de licor quando mencionei ao czar? Então soube, sem indício de dúvida, que tinha encontrado a meu homem. — Não, não me tinha contado nada. Mas não me surpreende. Se não o conhecesse você como o conheço, pensaria que o único que lhe interessava era essa mulher. — Isso é precisamente o que pensará o senhor Beaumont, espero —murmurou Ismal. E voltou a fechar os olhos.

** ** **

Fiona, a viscondessa Carroll, mostrou-se intrigada.

— Esmond

uma má influência? Fala a sério, Leila? —A viúva, de cabelo negro como

... asa de corvo, deu-se a volta para estudar ao conde, que conversava amavelmente com

um pequeno grupo de convidados junto ao recém descoberto retrato de madame

Vraisses. Isso é absolutamente incrível. — Estou segura de que Lúcifer e seus seguidores também eram formosos — disse Leila—. Não esqueça que antes tinham sido anjos.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite teve que admiti-lo. —Ismal abriu os olhos—. Te disse
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— Sempre imaginei moreno a Lúcifer

mais ao estilo de Francis. — Seus olhos

... verdes resplandeceram ao olhar a sua amiga — E esta noite o vejo particularmente sombrio. Envelheceu dez anos da última vez que estive em Paris. — Envelheceu dez anos em três semanas — disse Leila, tensa—. Não acreditava que fosse possível, mas, desde que o conde d'Esmond é seu companheiro de aventuras, Francis piorou. Faz quase uma semana que não dorme em casa. Voltou (melhor dizendo, trouxeram-no) esta madrugada por volta das quatro. Às sete da tarde ainda seguia na cama. Estive a ponto de vir à festa sem ele. — Pergunto-me por que não o fez. Porque não se atreveu. Mas não estava disposta a confessá-lo, nem sequer diante sua única amiga. Ignorou a pergunta e continuou a conversação com ar distante. — Demorei vinte minutos para ajudá-lo a se levantar e a tomar um banho. Não sei como o suportam suas queridas. A mistura de ópio, álcool e perfume é revoltante. E ele não se dá conta de nada, é obvio. — Não entendo por que não o manda ao diabo — disse Fiona—. Não depende economicamente dele. Não tem filhos que possa te ameaçar tirando. E é muito preguiçoso para ser violento. Leila teria querido dizer que existiam coisas muito mais graves que a violência. —Não seja absurda — replicou, aceitando a taça de champanha que lhe ofereceu um servente ao passar. Quase sempre esperava até as últimas horas da noite para desfrutar de sua única taça de vinho diária, mas se sentia inquieta—. O que menos preciso é viver separada do meu marido. Tal como estão às coisas, já bastante me perseguem os homens. Se Francis não fizesse o papel do marido ciumento e possessivo, teria que me tirar isso de cima eu sozinha. E, então, não poderia trabalhar. Fiona lançou uma gargalhada. Não era uma mulher bela em um sentido tradicional,

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mas quando ria parecia, em parte porque tudo nela parecia brilhar: a fileira de dentes brancos e perfeitos, os deslumbrantes olhos verdes, o rosto oval graciosamente emoldurado pelos lustrosos cachos negros. — A maioria das mulheres preferiria um marido complacente — disse Fiona—, sobre tudo em Paris. Sobre tudo quando alguém como o conde d'Esmond aparece em cena. Se tiver que ser franca, não creio que me incomodasse que exercesse sua má influência sobre mim. Mas primeiro eu gostaria de observá-lo de perto. O brilho malicioso de seus olhos se intensificou. — Acreditas que deveria atrair sua atenção? O coração da Leila deu um tombo. — É obvio que não. Mas Fiona já o estava olhando fixamente, com o leque suspenso no ar.

— Fiona, não deve

...

em realidade, já ia despedir-me

...

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Esmond deu a volta justo nesse instante; deve ter interceptado o olhar de Fiona,

porque lhe fez um gesto com o leque. Sem pensá-lo duas vezes, cruzou o salão para elas. Leila raramente se ruborizava. Entretanto, sentia a cara mais quente do que devia estar. —É excessivamente direta — sussurrou a sua amiga. E começou a se afastar. Mas Fiona a agarrou pelo braço. — Parecerei muito mais ousada ainda se me obrigar a me apresentar sozinha. Não

saia correndo, Leila. Não é Belzebu, sabe

Ao menos não o aparenta. —Dimimue a voz

... ao ver que o conde se aproximava—. Diabos, é impressionante. Creio que vou desmaiar. Sabendo que Fiona não ia desmaiar e nem perder a cabeça, Leila apertou a mandíbula e, com rígida cortesia, fez as apresentações de rigor entre o conde

d'Esmond e sua incorrigível amiga. Menos de dez minutos depois, Leila dava giros e mais giros na pista de baile em braços do conde. Enquanto isso Fiona, decidida como estava a estudar de perto Esmond, balançava-se ao ritmo da valsa com um risonho Francis. Enquanto tentava elucidar quem teria disposto assim as coisas, Leila ouviu a suave voz do conde sobre sua cabeça.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Esmond deu a volta justo nesse instante; deve ter
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—Jasmim —disse—. E algo mais. Surpreendente. Ah, sim

mirra. Uma combinação

... curiosa, madame. Você mistura as fragrâncias com o mesmo e peculiaríssimo estilo com que mistura as cores. Leila era cautelosa com os perfumes e o tinha aplicado horas antes. A seu entender, o conde teria que ter estado muito mais perto para poder identificar sua fragrância. Embora, para falar a verdade, estava a menos de vinte centímetros de distância. Muito perto para a etiqueta inglesa, embora de acordo com os limites gauleses. Fosse como fosse, sentia-o muito perto. Em seus muitos encontros desde que se conheceram, jamais a havia tocado, exceto para beijar-lhe a mão. Agora, Leila tinha plena consciência do calor de sua palma apoiada em sua cintura, percebia o lânguido atrito

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da luva sobre a seda enquanto o conde a guiava graciosamente através do salão de baile. — Com as fragrâncias não preciso agradar a ninguém, salvo a mim mesma — disse. — E ao seu marido, é claro. — Seria uma perda de tempo. Francis não tem o sentido do olfato.

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—Em certas circunstâncias, isso pode ser uma virtude

por exemplo ao percorrer as

... ruas de Paris em um abafadiço dia do verão. Mas, em outras circunstâncias, deve ser

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uma pena. Creio que seu marido perde o melhor da vida.

As palavras eram inofensivas. Mas o tom

o tom era outra coisa. A última e única

... vez que Esmond tinha paquerado abertamente com ela tinha sido no dia em que se conheceram. Leila não estava segura de que tivesse paquerado de maneira disfarçada desde então. Possivelmente esse tom que lhe parecia tão sedutor em realidade não o fora. Mas, além das intenções do Esmond, voltou a se sentir arrebatada pelo torvelinho interior que sua suave voz desatava nela cada vez que se encontravam, embora só fosse por um momento. E depois, a habitual pontada de angústia. — Não sei se perderá o melhor da vida — disse com frieza—, mas afeta seu apetite. E parece ir de mal em pior. Creio que perdeu vários quilos o mês passado. — Isso também observei. Leila levantou o olhar. E em seguida desejou não ter feito. Já tinha contemplado aqueles olhos várias vezes e, no entanto, voltaram a apanhá-la e fasciná-la como na primeira ocasião. Era essa cor tão estranha que tinham. Um azul muito profundo para ser humano. Quando pintasse esses olhos, se é que algum dia os pintava, os que não conheciam o Esmond pensariam que tinha exagerado a cor. O conde sorriu. — Você é transparente. Estou-a vendo escolher e misturar seus óleos.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Esmond deu a volta justo nesse instante; deve ter

12

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Leila separou o olhar. — Já lhe disse que sou uma mulher que trabalha. —A caso não pensa em outra coisa? — Uma mulher artista deve trabalhar duas vezes mais que um homem para poder alcançar a metade de seu êxito — lhe espetou ela—. Se não fosse tão obstinada, não teria tido possibilidade alguma de pintar o retrato de madame Vraisses. E, esta noite, teria aplaudido a um artista varão.

— O mundo é estúpido, estou de acordo. E é provável que eu também seja um pouco estúpido. E ela também era, sem dúvida, por ter voltado a olhar aqueles olhos. Faltava-lhe o ar

e se sentia enjoada

E tudo por tratar de falar e dançar ao mesmo tempo.

... — Acredita que as mulheres não deveriam ser artistas? —perguntou-lhe.

— Ai, só me ocorre uma estupidez, que estou dançando com uma mulher formosa que não pode distinguir um homem de um cavalete.

Antes que pudesse responder, Esmond a impulsionou a girar

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que

tão velozmente que

... Leila perdeu o passo e lhe pisou. Quase no mesmo instante, um braço semelhante à correia de um chicote enlaçou sua cintura e a apertou contra uma muralha sólida de músculos. Tudo terminou em menos de um segundo. O conde nem sequer perdeu o compasso; continuou guiando-a agilmente entre a multidão de bailarinos como se nada tivesse ocorrido. Mas um fino fio de suor percorria o decote de Leila, e seu coração batia tão forte que lhe impedia de escutar a música. Era evidente que não precisava ouvi-la nem tampouco pensar no que fazia. Seu companheiro controlava por completo a situação, tão certeiro e seguro de si como no começo. Pouco depois, Leila se deu conta de que também estava vários centímetros mais perto que antes. Sua mente confundida se limpou e o torvelinho de cores que a rodeava se

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que
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transformou em pessoas de carne e osso. Viu que Francis a olhava, e viu que já não ria. Nem sequer sorria. Teve consciência de uma leve pressão em sua cintura, que a insistia a aproximar-se ainda mais. Deu-se conta de que a havia sentido antes e de que devia ter respondido

sem pensar

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que
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como um cavalo bem treinado responde à mais nova tensão das rédeas,

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que

... a mais ligeira pressão dos joelhos do cavaleiro sobre seus lados. Tinha o pescoço suado. Não era uma maldita égua. Tratou de se separar, mas a mão que sustentava sua cintura ignorou seus esforços. — Monsieur — murmurou. — Madame? — Já não corro perigo de cair. — É um alívio sabê-lo. Por um instante temi que não fizéssemos bom casal. Mas, como já se deu conta, era um temor absurdo. Entendemo-nos à perfeição. — Creio que me sentiria mais cômoda e que faríamos melhor casal a maior distancia. — Incontestável, porque então poderia pensar em seus verdes, seus índigos e seus ocres 2 . Logo poderá refletir sobre essas coisas, para alegria de seu coração. Leila o olhou incrédula. — Ah, pelo menos consegui atrair toda sua atenção — sussurrou Esmond.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que

** ** **

Essa noite, Francis

não saiu

para

a

farra com

o

conde d'Esmond; em troca,

acompanhou Leila em casa e a seu dormitório. Deteve-se na soleira um instante, como

decidindo algo; logo entrou na habitação e se sentou no lado da cama.

2 Ocre: Argila colorida por óxido de ferro. O. amarelo: argila amarelada em que, juntamente com o óxido de ferro, se encontra óxido de manganês. O. vermelho: argila que só difere do ocre amarelo em este ser hidratado e aquele anidro.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila separou o olhar. — Já lhe disse que

13

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Nem sonhe passar a noite aqui —disse Leila, pendurando sua capa de noite no armário da roupa—. E se tiver vindo a me exortar ... — Sabia que o conde te desejava —disse Francis—. Finge que não, mas eu o soube ...

desde o primeiro dia. Deus, com essa cara de inocente que tem. Sou um homem que já

viu tudo, mas este conde

Diabos, às vezes me pergunto se será humano.

... — Está bêbado — disse Leila.

— Veneno — murmurou Francis—. É que não o compreende, meu amor? Esse

homem

é veneno.

...

É como

...

—Fez um gesto vago—. Como láudano humano. Tão

... nada de preocupações, puro prazer. Se toma a dose correta.

agradável

tão doce

Mas com ele é impossível saber qual é a dose correta

e, se passar da raia, é veneno.

... Recorda o mal que se sentiu faz muitos anos, a noite em que nos partimos de Veneza?

Assim me sinto

por dentro e por fora.

... Fazia muito tempo que Francis não falava de Veneza. Leila o olhou com desconfiança. Em mais de uma ocasião tinha voltado a casa em pleno delírio, mas nunca em um estado tão lamentável. Quase sempre permanecia em seu mundo de fantasia. Balbuciava incoerências, mas parecia feliz. Puro prazer, como ele mesmo havia dito. Mas agora se sentia miserável, muito sensível e doente. Estava acabado e tinha os olhos inflamados e injetados em sangue. Parecia ter sessenta anos, não quarenta. E pensar que tinha sido tão bonito, recordou com desgosto. Não o amava. Recuperou-se de sua paixão adolescente fazia já muitos anos, e ao Francis não havia custado nada matar o morno afeto que ainda lhe guardava. No

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Nem sonhe passar a noite aqui —disse Leila,
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entanto, recordava o que ele tinha sido e imaginava no que poderia haver-se convertido, lamentava a loucura e a debilidade que o tinham levado a seu estado atual, e se compadecia. Que diabos, até poderia ter-se afundado com ele. Mas a providência lhe tinha dado talento e a vontade necessária para cultivá-lo. E foi abençoada com um tutor sábio e paciente. Se não fosse por Andrew Herriard, também ela seria digna de

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Nem sonhe passar a noite aqui —disse Leila,
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compaixão ...

apesar de todo seu talento e sua força de vontade.

Aproximou-se de Francis e afastou-lhe o cabelo úmido da frente. —Lave o rosto — lhe disse—. Irei te preparar um chá. Francis lhe agarrou a mão e a levou a frente. Fervia de febre. — Esmond não, Leila. Pelo amor de Deus, qualquer um, menos ele. Não sabia o que dizia. De todos os modos, não estava disposta a permitir que a

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e tampouco a sua. —Retirou a mão—. Deixa já de dizer tolices.

... Francis balançou a cabeça.

— Você não entende nada, nunca entendeste nada, e não tem sentido lhe explicar

...

mas isso não

perturbasse. — Não há ninguém, Francis —disse com voz lenta e clara, como se falasse com um menino—. Não tenho amantes, nem sequer pretendentes. Não quero ser a prostituta de

ninguém

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isso porque não acreditaria. Nem eu mesmo estou seguro de acreditá-lo tem importância. Uma coisa está clara, sairemos de Paris.

Leila se dirigiu para a porta. Ia encher a banheira para seu marido. Deu a volta, com o coração palpitante. — Ir de Paris? Só porque esta noite bebeste mais do que te convém? Realmente, Francis ... — Você pode ficar se quiser, mas eu vou. Medita-o um pouco, carinho, se não poder

pensar em outra coisa. Já não estarei aqui para afugentar aos seus admiradores

...

que

é para o que único sirvo agora. Converti-me em um triste guarda-costas. Mas possivelmente tenha decidido que já não necessita um guarda-costas. É óbvio que esta noite não me necessitava. Falando de putas — murmurou—. Isso é exatamente o que seria. Teria que lhes ver as caras das rameiras quando olham ao belo conde d'Esmond.

Parecem vermes devorando um queijo podre. Esse homem obtém tudo o que quer, e a

quem quer

minha

...

e tantas como quer

e nunca custa um centavo. Inclusive você, preciosa

... —Procurou seus olhos—. Pintaria grátis seu retrato, ou me equivoco?

...

A cena que havia descrito Francis era francamente repugnante. Mas também era, e

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Nem sonhe passar a noite aqui —disse Leila,

14

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo o que havia dito dela. Francis não era nenhum estúpido e a conhecia muito bem. Olhou-o aos olhos. — Em realidade você não acredita que corra perigo.

— Não acredito, sei. Mas não pretendo que se dê conta de como perigoso é

Esmond ...

nem muito menos que, se já te deste conta, admita-o. — Ficou de pé—. A

decisão fica em suas mãos. Eu não posso te obrigar a nada. Parto para Londres. Quero

que venha comigo. —Sorriu-lhe com amargura—. Se eu soubesse o porquê. Possivelmente também você seja meu veneno. Leila também tivesse querido saber por que, mas fazia anos que tinha deixado de tentar compreender seu marido. Havia-se equivocado ao se casar com ele, e tinha encontrado uma maneira decente de conviver com seu equívoco. Sua vida poderia ter sido melhor, sim, mas também muitíssimo pior. Desgraças muito mais graves poderiam ter lhe acontecido se Francis não a tivesse resgatado em Veneza. Agora, graças aos bons serviços de Andrew Herriard, não tinha problemas econômicos. Apesar de ser mulher, estava ganhando respeito e fama como artista. Fiona era sua amiga. E, quando

...
...
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo

trabalhava, era feliz. Em linhas gerais era mais feliz que a maioria das mulheres que

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo

conhecia, embora seu marido fosse um libertino sem remédio. E Francis

bem, era tão

bom com ela como podia. Em qualquer caso, não se atrevia a ficar em Paris, nem em nenhum outro lugar, sem seu marido. E sabia que Francis jamais lhe permitiria ficar ali, dissesse o que dissesse.

bom com ela como podia. Em qualquer caso, não se atrevia a ficar em Paris, nem
bom com ela como podia. Em qualquer caso, não se atrevia a ficar em Paris, nem

— Se está decidido a partir — disse com cautela—, é obvio que irei com você. Seu sorriso se tornou quase benevolente. — Não é um capricho, sabe? Falo sério. Iremos para Londres. Antes que termine a semana.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo

Leila conteve um grito. Antes que terminasse a semana

Isso significava que teria

... que deixar de fazer três quadaros. Já conseguiria outros, disse para si mesma. Mas jamais haveria outro conde d'Esmond. Jamais encontraria outra cara como essa. Entretanto, não era mais que isso, um modelo para pintar. E, além disso, duvidava poder fazer-lhe justiça. Seria talvez mais sensato que nem sequer tentar. — Necessita mais tempo? —perguntou-lhe Francis. Leila negou com a cabeça. — Posso arrumar o estudio em dois dias — lhe disse—. Em um, se me ajudar. — Então te ajudarei — disse Francis—. Quanto antes formos, melhor.

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Capítulo 2

Londres, 1828

Os aristocratas franceses não eram os únicos que queriam imortalizar seus semblantes. Uma semana depois de ter se instalado na modesta casa do Queen's Square, Leila já estava trabalhando; e os quadros continuaram chegando, rápidos e em abundância, durante a primavera, o verão e o outono seguintes. O trabalho não lhe deixava tempo para fazer vida social, mas de todos os modos duvidava de poder tê-la. Seus clientes e conhecidos em Londres se moviam em círculos mais exclusivos que os parisienses. Aqui sua posição de artista burguesa era muito mais fraca, e a descarada libertinagem do Francis não tendia precisamente a fortalecê-la. Seu marido tinha muitos amigos. A classe alta inglesa também produzia devassos a granel, era evidente. Mas cada vez o convidavam menos para jantar e dançar com suas mulheres em suas respeitáveis mansões. E, se a alta sociedade não convidava ao marido, não podia —exceto raras exceções— convidar à esposa. Mas Leila estava muito ocupada para se sentir sozinha, e sabia que era inútil se

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite disso Leila não tinha dúvida alguma, acertada. O mesmo

15

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

preocupar com o cada vez mais dissipado comportamento do Francis. Em qualquer

caso, estar desterrada do mundo fazia que fosse mais fácil separar-se dos vícios e as maldades de seu marido. Ou ao menos isso pensava até uma semana antes de Natal, quando lorde Sherburne — um dos inevitáveis companheiros de farra de Francis e marido de sua última retratada— entrou em seu estúdio. O retrato de lady Sherburne ainda não estava seco. Leila o tinha terminado pela

manhã. No entanto, ele insistiu em lhe pagar nesse mesmo momento

e em ouro. A

... partir de então seria dele e poderia fazer com ele o que desejasse. Paralisada pelo

horror, Leila o viu aproximar um alfinete de gravata à imagem de sua esposa e, a estocadas furiosas e frias, mutilá-la. Mas o cérebro da Leila não estava paralisado. Sabia que lorde Sherburne não atacava sua obra a não ser a sua, obviamente, infiel esposa. Não resultou difícil deduzir que Francis tinha-lhe colocado chifres, nem tampouco precisou conhecer os detalhes da aventura para compreender que, desta vez, seu marido tinha cruzado um limite perigoso. Com devastadora clareza, viu que a brecha que separava sua vida da de seu marido se estreitou. Francis a tinha colocado em perigo ao escarnecer Sherburne, e agora estava presa. Se ficasse com ele, seus escândalos arruinariam sua carreira artística; se o abandonava, ele poderia destrui-la. Bastava que revelasse a verdade sobre seu pai, e Leila ficaria na ruína. Francis jamais a tinha ameaçado abertamente. Não tinha necessidade de fazê-lo. Leila compreendia suas regras à perfeição. Não a obrigava a se deitar com ele porque era muito incômod brigar com ela. Leila era sua propriedade exclusiva; jamais tinha se deitado com outro, e jamais o abandonaria. Quão único podia fazer era afastá-se mais possível do Francis. Não mencionou o incidente, com a esperança de que o orgulho fizesse calar Sherburne. Deixou de pintar retratos; desculpou-se dizendo que estava exausta de trabalhar e necessitava um descanso. Perdido na bebida e em seu mundo nublado pelo ópio, Francis nem sequer se deu conta. No Natal deu de presente uns brincos de rubis e diamantes, que Leila usou exatamente durante o tempo que seu marido se dignou passar em casa e depois jogou na caixa de jóias, junto com outros presentes caros e insignificante que tinha acumulado ao longo dos últimos nove anos. Passou a véspera de Ano Novo com Fiona no imóvel que Philip Woodleigh, um dos dez irmãos de sua amiga, possuía no Kent. Quando retornou a casa o dia de Ano Novo ouviu um enfurecido Francis chamar

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite preocupar com o cada vez mais dissipado comportamento do
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gritos aos serventes

Era evidente que tinha esquecido que tinham o dia livre. Subiu a

... sua habitação para recordar-lhe e descobriu, sem muita surpresa, que seu marido

principalmente no dormitório, a

também tinha celebrado a véspera de Ano Novo

... julgar pelo fedor de perfume, fumaça e vinho que a assaltou logo que cruzou a soleira. Enjoada, saiu da casa e foi dar um passeio; primeiro pelo Great Ormond Street, logo pelo Conduit Street até o Hospital Foundling. Atrás do imenso jardim havia dois cemitérios próximos, atribuidos às paróquias de São Jorge Mártir e São Jorge do Bloomsbury respectivamente. Não conhecia nenhuma das almas ali enterradas. E por isso visitava com freqüência. Esses residentes de Londres não podiam incomodá-la, nem sequer na lembrança. Nos últimos meses, refugiou-se freqüentemente no cemitério. Havia passado uma hora ou mais vagabundeando entre as tumbas quando David a encontrou. David Ives, marquês do Avory, era o herdeiro do duque do Langford. Tinha vinte e quatro anos, era bonito, rico e inteligente, e, para seu desespero, um dos mais devotos seguidores do Francis.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Espero não incomodá-la — disse o marquês depois de que tiveram trocado as

saudações de rigor—. Quando Francis comentou que tinha saído para passear, supus que teria vindo aqui. Era você a quem queria ver na realidade. —Desviou seus belos olhos cinzas—. Queria lhe pedir desculpas. Tinha prometido passar na casa de Philip Woodleigh, sei. Leila sabia que tinha sido uma tola por acreditar em falsas promessas, por esperar

que começasse o Ano Novo sóbrio, entre gente decente

e possivelmente conhecesse

... uma jovem em idade de merecer ou, ao menos, amigos varões menos dissolutos.

—Não me surpreendeu que não aparecesse — disse com dureza—. A diversão na casa de Woodleigh certamente era muito familiar para seus gostos.

—Eu

não me sentia bem —lhe disse—. Passei a noite em casa.

... Leila não estava disposta a perder tempo com um jovem tolo e ocioso com tendências auto-destrutivas; mas de todos os modos lhe abrandou o coração e, com o coração, as maneiras. — Lamento que tenha se sentido doente — disse—. Pelo menos, meu desejo se cumpriu; por uma vez, ao menos, não há passado a noite com o Francis. — Então você preferiria que adoecesse mais freqüentemente. Terei que falar com meu cozinheiro e insistir em que me prepare pratos indigestos. Leila avançou uns passos para ele, balançando a cabeça. — Você é um verdadeiro problema para mim, David. Desperta meus instintos maternais. Justamente em mim, que sempre me orgulhei que não os ter. — Chame-os “fraternais” então — Sorridente, reuniu-se com ela—. Soa melhor. E é menos doloroso para meu orgulho masculino, sabia?

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— Tudo depende do seu ponto de vista — disse ela—. Por exemplo, Fiona jamais teve

inclusive a lorde

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Espero não incomodá-la — disse o marquês depois

em conta o orgulho viril de seus irmãos. Leva-os a todos firmes

Norbury, o mais velho

... E pensar que sua mãe jamais pôde fazer nada com eles. —

... Lançou um olhar reprovador a David—. O meu é puramente maternal como é óbvio.

O sorriso do David se esfumou. — Os Woodleigh não são a regra, a não ser a exceção que a confirma. Todo mundo sabe que lady Carroll é o verdadeiro chefe da família. — E você é muito homem para aprovar esse estado das coisas. — Absolutamente. —Lançou uma breve gargalhada—. A única coisa que não aprovo é que você fique a falar dos Woodleigh quando deveria estar paquerando comigo. Aqui estamos, os dois sozinhos, no cemitério. Acaso existe algo mais romântico? David era um dos poucos homens com os que se atrevia a paquerar, porque se sentia a salvo. Nenhuma só vez tinha percebido um rastro de luxúria naquele rosto jovem e bonito. — Já deveria saber que os artistas são as pessoas menos românticas do mundo — replicou—. Não terá que confundir ao criador com suas criações.

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— Já vejo. Terei que me converter em um pote de pintura

ou, melhor ainda, em um

... tecido em branco. Então poderá fazer comigo o que lhe agrade. “Penso que estou dançando com uma mulher formosa que não pode distinguir um homem de um cavalete.”

Leila ficou tensa. E recordou a voz baixa e insinuante, a potência do choque, a

estremecedora conscientiza da força masculina

de seu poder

de seu calor.

... — Senhora Beaumont? —Ouviu a voz preocupada do David—. Se sente mal? Leila afastou aquela lembrança de sua cabeça. —Não, não, é obvio que não. Não tinha percebido como é tarde. Será melhor que volte para casa.

...

Surrey, Inglaterra, meados de janeiro de 1829

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Ismal se deteve na soleira lotada do salão de baile de lorde Norbury, só por um momento. Foi tudo o que necessitou, uma rápida olhada para localizar sua prisioneira. Leila Beaumont estava perto das portas que davam para o terraço. Usava um vestido na cor ferrugem, debruada em azul escuro. O cabelo com reflexos

dourados formava um coque instável na cabeça

...

Incontestavelmente a ponto de se

desmoronar. Ismal se perguntou se continuaria usando a mesma fragrância ou se teria misturado alguma nova.

Não sabia qual das duas coisas preferia. Ainda não feito uma idéia de Leila, e isso o irritava. Pelo menos, seu repulsivo marido não estava com ela. Provavelmente estaria se

desfalecendo nos braços de alguma cortesã borrada e banhada em perfume

ou

... perdido em um sonho de ópio em algum refugio de Londres. Segundo relatórios recentes, seus gostos — ao mesmo tempo que seu corpo e seu intelecto— se deterioraram rapidamente desde seu traslado a Londres. Isso era, precisamente, o que esperava Ismal. Banido de seu sórdido império de

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Ismal se deteve na soleira lotada do salão de

...

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Ismal se deteve na soleira lotada do salão de
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farrapos, Beaumont ia em franca decadência. Já não possuía o engenho nem a força de

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E essa

vontade necessária para levantar outro Vingt-Huit. Não por nada, certamente

era a única maneira em que, graças a Ismal, poderia fazê-lo. Ismal tinha desarmado, em silêncio e até os alicerces, a organização parisiense que Beaumont tinha abandonado com tanta pressa. Os governos envolvidos já não teriam que se preocupar com esse espinhoso problema e o único que ficava por fazer a Beaumont era apodrecer-se pouco a pouco. Tendo em conta as vidas que tinha destruído, o sofrimento e o medo que tinha provocado, a Ismal parecia justo que o miserável morresse lenta e dolorosamente. E também lhe parecia justo que morresse como tinha arruinado a tantos outros; por causa do vício e suas enfermidades, dos venenos que, sem pausa, corroem a mente e o corpo dos mortais. A esposa era outro assunto. Ismal esperava que não partisse de Paris com seu marido. Depois de tudo, o matrimônio era uma mera formalidade. O próprio Beaumont tinha admitido que havia mais de cinco anos que não se deitava com sua esposa. Segundo ele, ficava violenta se tentava tocá-la. Inclusive tinha ameaçado matando-o.

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Ele tomava a brincadeira e dizia que se um homem não podia ter a uma mulher na

cama ...

era ...

então, simplesmente, devia buscar-se outra.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Ismal se deteve na soleira lotada do salão de
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E tinha razão, pensou Ismal, se tratasse de uma mulher comum. Mas Leila Beaumont

ah, bem, era um problema.

Enquanto refletia sobre aquele bonito problema, seu anfitrião foi levou-o de um grupo de convidados a outro. Depois de ter sido apresentado a centenas de pessoas, ou ao menos assim lhe pareceu, permitiu-se jogar outra olhada para as portas do terraço. Viu uma mancha cor ferrugem, mas não conseguiu ver madame Beaumont de corpo inteiro. Estava rodeada de homens. Como de costume. A única mulher que tinha visto seu lado era lady Carroll, e esta, segundo lorde Norbury, ainda não tinha chegado de Londres. Leila Beaumont tinha atracado no dia anterior com uma das primas de lady Carroll. Ismal se perguntou se madame Beaumont o teria visto. Impossível. Um corpulento coque de cabelo negro se interpunha entre ambos. Justo quando Ismal desejava um próspero futuro no Hades, o moço se afastou uns

passos para falar com um amigo. Leila Beaumont percorreu com o olhar o salão de

baile, passando-os rapidamente por Ismal

...

mas logo voltou

para ele

...

e pareceu

surpreendida. Ismal não sorriu. Não o teria feito embora nisso dependesse sua vida. Era muito consciente dela, de seu atordoado reconhecimento —que podia sentir a meio salão de baile de distância— e do torvelinho que esse reconhecimento desatava nele.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Ismal se deteve na soleira lotada do salão de

18

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Abandonou seu grupo com tanta elegância e discrição que outros nem sequer se deram conta de que se foi. Como quem não quer a coisa, ficou conversando com os homens que rodeavam Leila. Fazendo-se de simpático, dizendo tolices com um e outro

e, por fim, chegou ao centro do grupo que Leila Beaumont presidia com as costas muito reta e o queixo elevado. Ismal a saudou com uma leve inclinação de cabeça. — Madame. — Monsieur. —Leila, em troca, fez uma saudação rápida e arisca. Mas, quando o apresentou aos que estavam mais perto, em sua voz palpitaram emoções reprimidas. Seu exuberante peito também palpitou quando, um por um, seus admiradores começaram a se afastar. Mas, por mais que tentou, não pôde escapar. Ismal a reteve cortesmente até que, por fim, teve-a sozinho para ele. —Espero não ter afugentado seus amigos — disse, olhando ao seu redor com fingida surpresa—. Muitas vezes ofendo as pessoas sem ter a intenção de fazê-lo. Possivelmente se deva ao meu deplorável inglês. —Parece-lhe? Olhou-a. Leila estudava seu rosto com penetrante concentração de pintora. Sentia-se cada vez mais incômodo, e isso o irritava. Não podia permitir-se esse tipo de sensações, mas Leila o irritava há tanto tempo que tinha a mente em carne viva. Devolveu-lhe a inspeção olhando-a de cima abaixo. Um ligeiro rubor tingiu as bochechas da jovem.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Abandonou seu grupo com tanta elegância e discrição que
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—perguntou Ismal.

...
...

— O senhor Beaumont se encontra bem, espero

— Sim. — E seu trabalho está indo bem? — Muito bem. — Sente-se confortável em Londres? — Sim. Os monossílabos cortantes, furiosos proclamavam às claras que Ismal tinha tirado a pintura de seus pensamentos. Com isso bastava por agora. Sorriu. — Está desejando que vá ao diabo, possivelmente? O rubor se intensificou. — É obvio que não. Olhou suas mãos enluvadas. O polegar da mão direita tamborilava, inquieto, sobre o dorso do pulso esquerdo. Leila seguiu seu olhar. E sua mão se paralisou imediatamente. — Creio que quis me mandar ao diabo desde nosso primeiro encontro — disse ele—. Inclusive cheguei a me perguntar se não teria fugido de Paris por mim. — Não fugimos — disse ela.

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— No entanto, estou seguro de tê-la ofendido de algum jeito. Partiu sem dizer uma

—Seus olhos

palavra

nem sequer um simples adeus.

... — Não tivemos tempo para nos despedir de todos. Francis tinha muito

... eram precavidos, escrutinadores—. Estava decidido a partir, e quando coloca uma idéia na cabeça não suporta demoras. — Você me tinha prometido um retrato — disse Ismal com voz acariciadora—. Estou muito decepcionado. — Pensei que já se teria recuperado.

Ele deu um passo para ela. Ela não se moveu. Ismal se levou as mãos à costas e inclinou a cabeça. Estava o bastante perto para distinguir sua fragrância. Era a mesma. E a tensão

entre ambos também era a mesma; o impulso

e a resistência.

... — No entanto, esse retrato me deu um bom motivo para vir a Inglaterra —disse—. Em qualquer caso, isso foi o que disse a sua encantada amiga, lady Carroll. E ela se compadeceu de mim, já vês. Não só me convidou a me unir a sua família e convidados neste pitoresco povoado; também ordenou a um de seus irmãos que me

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Abandonou seu grupo com tanta elegância e discrição que

19

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

acompanhasse para que não corresse o risco de extraviar-me.

Levantou a cabeça. Viu um torvelinho de emoções em seus olhos de leoa: irritação,

ansiedade, dúvida

e algo mais, não tão fácil de decifrar.

... — Sim. Bem. Quem parece haver-se extraviado é Fiona. Faz horas que deveria estar

aqui. — É uma verdadeira lástima, porque perderá o baile. A música está a ponto de começar. —Olhou a seu redor—. Esperava que viesse em nossa direção algum cavalheiro inglês em busca de seu par para o primeiro baile. Mas não se aproxima ninguém. —Olhou a Leila—. Certamente alguém já o pediu ... — Conheço meus limites. Se começar agora, não agüentarei toda a noite. Só concedi quatro bailes. — Cinco — disse ele, lhe tendendo a mão. Ela ficou olhando-a.

—Mais tarde

possivelmente.

... —Mais tarde me rechaçará —disse —. Doerá seus pés. Estará cansada. E é provável

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite acompanhasse para que não corresse o risco de extraviar-me.
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite acompanhasse para que não corresse o risco de extraviar-me.
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perca o passo. Já me ocorreu uma vez, se mal não

que eu também esteja cansado e

recordar

... obrigará a implorar, espero? Leila o tomou da mão.

... e jamais voltei a dançar com você depois disso. —Desceu a voz—. Não me

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite acompanhasse para que não corresse o risco de extraviar-me.
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** ** **

— Esta manhã? —repetiu Fiona—. Não pode falar sério. Estiveste aqui menos de dois

dias. E eu acabei de chegar. — Teria que ter vindo antes. —Leila guardou seu vestido cor ferrugem na mala. Estavam no dormitório que lhe tinham atribuído. Eram apenas oito da manhã e a festa tinha terminado pouco antes da alvorada, mas Leila se sentia descansada. Tinha dormido profundamente. Não era surpreendente. Deitou-se com a sensação de haver

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passado cinco anos de trabalhos forçosos

sob a desumana vigilância de Esmond. A

... noite tinha sido uma batalha campal. Para falar a verdade, tivesse preferido um combate real com armas reais. Como brigava contra uma sombra, contra uma indireta, contra uma insinuação? Como era possível que Esmond parecesse se comportar de maneira tão correta e impecável e ao mesmo tempo a fizesse sentir-se tão culpada? Fiona se sentou na cama. — Está fugindo de Esmond, não é isso? — Para falar a verdade, sim. — É uma tola. — Não posso me relacionar com ele, Fiona. Está além de mim. Está além de qualquer coisa. Francis tinha razão. — Francis é um bêbado degenerado. Leila agarrou umas saias, dobrou-as sem cuidado e colocou-as na mala. — Não é nenhum estúpido, sobretudo quando se trata de julgar às pessoas.

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— Está ciumento porque Esmond é tudo o que ele não é

ou o que possivelmente

... pôde ter sido mas jamais voltará a ser. Essa escória não te merece, nunca te mereceu.

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E tampouco merece sua lealdade. Faz tempo que deveria ter tomado um amante. Leila a olhou nos olhos. — Acaso você tem um? — Não, mas só porque não encontrei nenhum que me agrade. Não por respeito a um princípio idiota. — Não quero ser a puta de ninguém. — Puta é uma palavra que usam os homens — disse Fiona—. E está reservada às mulheres. Um homem pode ser sem juízo, um libertino. Soa bem, não? Mas se uma mulher se comporta da mesma maneira é uma puta, uma rameira, uma prostituta ... Deus, a lista é interminável. Uma vez fiz a conta. Sabe que nosso idioma contém dez vezes mais términos desagradáveis ou depreciativos para a mulher que ama o prazer

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20

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

que para seu oposto masculino? É para pensar. — Não preciso pensar nisso. Não desejo pensar nisso. Não me importam as palavras. Não penso cair tão baixo como Francis. Fiona deixou escapar um suspiro. — Nem sequer chegaste a paquerar com seu adorável conde — disse, tentando não perder a paciência—. E ele não te arrastará à cama pela força, querida minha. Dou-te

minha palavra, a cada de meu irmão é uma casa respeitável e pode ficar toda a semana, como pensava, sem ser vítima do tráfico de brancas.

— Não. É que

Ele é traiçoeiro. Eu não

OH, como lhe explico isso? —Leila tirou o

... cabelo do rosto—. É que não se dá conta? Francis tinha razão, como sempre. Esmond

...

faz algo com a gente. É como

ah, não sei. Hipnose.

... Fiona arqueou as sobrancelhas. Leila não podia culpá-la. O que acabava de dizer parecia uma loucura. sentou-se na cama junto a sua amiga.

— Tinha decidido não dançar com ele — disse—. Era a última coisa que queria fazer

...

OH, sei que parece cômico,

é. Ameaçou
é. Ameaçou

...

me

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite que para seu oposto masculino? É para pensar. —

no mundo. Então

mas não

o
o

com

rogando. — Te rogar — repetiu Fiona sem expressão. Leila assentiu. — E, imediatamente, isso se transformou no que menos desejava no mundo. —Ao baixar a vista, observou que estava esfregando o pulso com o polegar. Franziu o cenho. Esmond tinha notado inclusive isso. Nada lhe escapava, estava segura. Nem sequer os mais pequenos gestos que a traíam. Esse gesto lhe tinha revelado que se sentia incômoda, e ele tinha aproveitado. Tinha ameaçado lhe rogando porque sabia — o

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miserável sabia— que ela tinha medo de que a confundisse ainda mais do que já o tinha feito. — Não creio que Esmond tenha a culpa de nada — disse Fiona—. Tem os nervos

destroçados, e isso é obra do Francis

...
...

e do excesso de trabalho, como você mesma

admitiste faz umas semanas. — Importa-me um nada o que Francis pensa ou sente ou faz. Se prestasse atenção a seus estados de ânimo, voltaria-me louca. Sei que respondem ao ópio e à bebida, e portanto os ignoro. É ele quem tem os nervos destroçados. Sempre que se mantenha

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...
...
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pode transformar a casa em pedaços,

longe de meu estúdio, no que a mim respeita

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite que para seu oposto masculino? É para pensar. —

se quiser. Apenas o vejo

... e os serventes recebem um generoso pagamento para

arrumar seus desvarios. — E no entanto prefere voltar para isso? Quando, com só mover o mindinho, poderia ter o conde d'Esmond rendido a seus pés? — Duvido que monsieur atenda prontamente se uma mulher lhe fizer gestos. Suspeito que deve ser exatamente o reverso. Ele faz o que deseja. —Leila se levantou e continuou enchendo sua mala. Apesar dos protestos de Fiona, terminou de fazer a bagagem em menos de meia hora. Pouco depois subia a um carro de aluguel com rumo a Londres.

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** ** **

Chegou a sua casa depois do meio-dia. Trocou a roupa de viagem por um vestido velho, colocou sua bata de pintora e foi ao estúdio. Então, e só então, liberou-se do torvelinho que agitava suas entranhas desde o momento em que tinha visto Esmond no salão de baile do Norbury House. Por sorte, não tinha que decidir o que pintar. Tinha armado uma natureza morta antes de partir e ninguém a tinha tocado. As duas faxineiras do dia jamais entravam para limpar seu estúdio a menos que lhes ordenasse fazê-lo. O conjunto de garrafas, jarras e taças parecia um montão desordenado e infeliz, mas lhe oferecia um exercício pictórico ideal. Teria que olhar, concentrar-se por completo e pintar exclusivamente o que via.

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21

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Olhou, concentrou-se, mesclou as cores e pintou

uma cara.

... Com o coração palpitante, retirou o óleo com a espátula e voltou a começar. Uma

vez mais se concentrou em seu modelo

e uma vez mais apareceu aquela cara.

... E ela sabia por que. O semblante de Esmond a atormentava porque era um enigma. Podia decifrar intuitivamente qualquer rosto, mas não a seu. Seu mistério a tinha perseguido em Paris. Não o tinha visto —e se negou a pensar nele— durante dez meses. No entanto, bastaram menos de dez minutos em sua companhia para que voltasse a se perder no labirinto. Resultava-lhe inevitável tentar compreender o que Esmond fazia, e como o fazia: se seus olhos diziam a verdade ou mentiam, se a doce e preguiçosa curva de seus lábios era real ou uma mera ilusão. Esmond sabia o que ela estava fazendo, e não lhe agradava. Tinha visto a fúria em seus olhos: uma faísca feroz nessas insondáveis profundidades azuis, que tinha aparecido e desaparecido em menos de um segundo. Ele viu que ela tinha espiado por

detrás de sua máscara, e ele não tinha gostado. E a tinha expulso. Com os olhos, com

um só olhar intenso e ardente

e ela tinha retrocedido, como uma gata escaldada.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Olhou, concentrou-se, mesclou as cores e pintou uma cara.
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...

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No entanto, uma parte escura da Leila desejava voltar a se queimar. Possivelmente não foi a artista que havia nela e sim essa parte escura que se deixou cativar por ele. Poderia ter ido, poderia havê-lo saudado e haver-se afastado, mas não o fez. Não pôde. Quis fazê-lo, não quis. Leila não era uma mulher indecisa nem insegura. Entretanto ficou, incapaz de pensar, muito menos de falar, porque se sentia partida em dois. Sim. Não. Vá. Fique. Agora, embora estivesse a quilômetros de distância, não podia tirá-lo da cabeça. Nem sequer trabalhando. Agora ele estava metido em seu trabalho e ela não podia expulsá-lo. A concentração desapareceu e a fúria ocupou seu lugar. Começaram a lhe pulsar as

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têmporas. Jogou o pincel para um lado e lançou a paleta contra a tela

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os óleos e os

... solventes caíram ao chão. Com o rosto banhado em lágrimas de fúria, correu de um extremo a outro do estúdio destruindo tudo em seu caminho. Não sabia o que fazia, e não lhe importava. Tudo o que queria era destruir tudo. Estava arrancando as cortinas das janelas quando ouviu a voz de seu marido. — Maldita seja, Leila, te ouço desde Shoreditch. Deu a volta de repente. Francis estava na soleira, com uma mão na frente. Tinha o cabelo revolto e uma sombra de barba inciante nas bochechas. — Como diabos acredita que posso dormir com semelhante alvoroço? —repreendeu-

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a.

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— Não me importa como dorme — murmurou, com a voz afogada em lágrimas—. Não me importa nada, e você me importa menos que nada. — Deus, escolheu a melhor hora do dia para suas manhas de criança. E que diabos está fazendo em casa? Supostamente foste passar uma semana em Norbury House. Voltou somente para armar um escândalo? Entrou no estúdio e olhou a seu redor. — Um escândalo de verdade, pelo que vejo. Leila levou um punho no coração palpitante; olhou o que tinha feito. Outra manha de criança. Que Deus a ajudasse. Viu que Francis levantava a tela que acabava de pintar. — Deixa isso onde está — lhe ordenou —. Deixa-o no chão e sai. Seu marido olhou o tela. — Então era isto. Está triste pelo bonito conde, é isso? —Jogou a um lado a tela —. Acaso quer voltar para Paris e te converter em um dos tantos vermes que se arrastam em cima dele? Isso quer? O som que trovejava em sua cabeça estava cedendo, mas a fúria e a frustração não tinham desaparecido. Apertou a mandíbula. — Saia — disse—. Me deixe sozinha. — Pergunto-me se o belo conde gostará de se relacionar com uma artista

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22

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

temperamental. Pergunto-me o que pensará dos ataques de fúria da madame. Pergunto-me que método utilizará para tranqüilizá-la. Não há maneira de adivinhá-lo. Talvez te bata. Gostaria disso, meu amor? Poderia gostar, sabia? A algumas mulheres gostam.

Sentiu náuseas. — Basta. Me deixe sozinha. Saia a sussurrar suas imundícies no ouvido de uma de suas putas. — Você mesma foi uma de minhas putas alguma vez. —Olhou-a de cima abaixo—.

Não se recorda? Eu sim. Foi tão jovem e tão doce

e estava tão ansiosa por agradar. E,

... uma vez superada seu acanhamento infantil, mostrou-se insaciável. Era de esperar, não te parece? De tal pau, tal lasca. Leila sentiu que uma garra de gelo lhe prendia o estômago. Desde dia em que tinha

dado a funesta notícia, Francis nunca se referiu abertamente a seu pai. — Isso sim que se preocupa, né? —Francis tirou a vista da tela e olhou Leila. Sua boca viciosa se torceu em uma careta—. Fui um tolo por não havê-lo pensado antes.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite temperamental. Pergunto-me o que pensará dos ataques de fúria
...
...

Mas é que havia tão poucas coisas em jogo em Paris

depois de tudo, o que importa

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... aos franceses o que seu pai fez ou o que foi? Mas os ingleses

Ah, os ingleses são

outra coisa, não te parece? — Miserável. — Não precisava me fazer ciúmes, Leila. Não precisava pintar o rosto de um homem a quem não vê há mais de um ano. Ou acaso o viu? Estiveste-o vendo às escondidas? Estava em Norbury House? Mais vale que me diga isso. Posso averiguar se quiser. Esmond estava ali? —repreendeu-a. — Sim, estava ali! —gritou Leila—. E vim embora. Para evitar suas desagradáveis suspeitas. E se sua suja mente ainda não está satisfeita, pergunte a seus amigos ... pergunte a qualquer. Acaba de chegar à Inglaterra. — E como é que acabou no Norbury House? — Como diabos vou saber? Devem tê-lo convidado. Por que não teriam que convidá- lo? Deve ser parente de meia nobreza. A maioria dos nobres franceses são. A turva careta se endureceu. — Apostaria que Fiona o convidou. Fazendo o papel de sua alcoviteira, como sempre ... — Como se atreve ? ... — Oh, sei muito bem o que ocorre. Essa loba de juba negra adoraria que me convertesse em um corno. — Corno? —repetiu Leila com amargura—. E como se chama o que você me tem feito? Que nome lhe dá à esposa? Ou talvez a palavra esposa seja suficiente humilhação dada às circunstâncias. — O que gostaria de ser? Uma divorciada? —Francis lançou uma gargalhada—. Embora pudéssemos resolver os gastos do divórcio, não gostaria de no mais mínimo, verdade? Por que não? O escândalo poderia fazer maravilhas em sua carreira. — Um escândalo destruiria minha carreira, e você sabe. — Nem te ocorra pensar que não farei um escândalo se tiver uma aventura amorosa.

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— Francis afastou a tela com um pontapé e foi para Leila —. E não creias que não lhe farei pagar isso em particular. Não adivinha como me pagará isso, preciosa minha? Estava a poucos centímetros de distância. A repulsão lhe queimava as entranhas, mas se negou a retroceder. Se duvidasse de sua própria força e de sua vontade, embora fosse por um segundo, ele também duvidaria. Elevou o queixo e o olhou com olhos gélidos. — Não voltará a vê-lo — disse Francis—. Nem tampouco voltará a ver Fiona. — Não será você quem diga a quem posso ou não posso ver.

— Eu te direi o que diabos muito me incomoda

e você vai me obedecer!

... — Por mim pode arder no inferno! Não se atreva a me dar ordens. Não receberei ordens de um asqueroso puto!

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23

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— É uma hipócrita de língua viperina! Deixo-a fazer as coisas a sua maneira, permito que me expulse de sua cama, e olhe o que consigo. Foges para Surrey para envolver entre suas pernas a esse ... — Fecha essa boca repugnante! —Tinha os olhos cheios de ardentes lágrimas—. Fora daqui! Vá se embebedar até perder o sentido! Por que não o faz? Consome esse

veneno que tanto amas! Se intoxique até morrer! Mas me deixe em paz! — Por Deus, se a cabeça não me pulsasse como um motor a vapor, juro-te que ... — Levantou a mão. Leila sabia que, furioso como estava, era capaz de golpeá-la. Mas não retrocedeu nem um passo. Francis ficou olhando sua própria mão. — Mas é obvio que não posso te esbofetear, verdade? Porque te adoro com loucura. —Agarrou-lhe o queixo—. Má garota. Falaremos disto mais tarde, quando tiver se acalmado. Mas não tente me partir a cabeça com um instrumento contundente, de acordo, carinho? Não esqueça que já não estamos na França. Os jurados ingleses não têm o coração tão brando com as mulheres, nem tampouco o crânio. Penduraram

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — É uma hipócrita de língua viperina! Deixo-a fazer
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muitas ...

inclusive às mais bonitas.

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Leila não respondeu. Permaneceu rígida e muda, com a vista cravada no chão até que Francis saiu do estúdio. Não se moveu até que o som de seus passos se apagou no corredor. Quando por fim o ouviu fechar, de repente, a porta de seu dormitório, cruzou o estúdio com passo vacilante e se deixou cair no sofá. Secou os olhos e soou o nariz. Não tinha medo. Se Francis montava um escândalo, ele também sairia prejudicado ... e se daria conta disso logo que se recuperasse dos excessos da noite anterior. Se recuperasse. Se o álcool e os ópios não lhe tinham destruído a razão. Nos últimos dez meses, desde que se tinham mudado a Londres, Francis tinha piorado muito. Alguns dias não se levantava da cama até a hora do jantar. Tomava láudano para dormir e também quando despertava, para aliviar a dor de se levantar. Sempre necessitava de alguma substância como o álcool ou o ópio para acalmar a inquietação, o mau humor, a enxaqueca e outros mal-estares. Sempre necessitava de algo que o ajudasse a suportar esse suceder louco que ele chamava vida. Não devia ter brigado com Francis. Tinha a mente desconsertada. Era como discutir com alguém que acabava de superar a cólera. Não devia ter permitido que a perturbasse. Levantou-se do sofá e agarrou a tela da discórdia. Por certo, não deveria ter tido um ataque de nervos por isso. A culpa era de Esmond, que a tinha feito se zangar. E ela se portou como uma tola: fugindo de Norbury House depois de ter balbuciado alguma tolice sobre hipnotismo com Fiona. Pelo amor de Deus. — Demônios, perderei a cabeça como Francis — murmurou—. Provavelmente estou me contagiando por viver com ele. Ouviu-se um golpe e ruído de cristais quebrados no andar de baixo. — Aí está, pobre infeliz — murmurou, levantando a vista da pintura—. Chuta os móveis. Atira coisas pelo ar. Talvez se tenha contagiado por viver comigo. Endireitou o cavalete, voltou a pôr a tela em seu lugar, tirou novas reservas de tinta do armário, recolheu os pincéis esparramados pelo estúdio e ficou trabalhando. Com a mente limpa pela recente tempestade — embora não podia dizer o mesmo de seu coração—, conseguiu esquecer os traços do sedutor semblante do conde d'Esmond. Enquanto trabalhava, convenceu-se de que podia abandonar Francis. Podia sair da Inglaterra e trocar de nome. Outra vez. Podia pintar em qualquer parte. Só tinha vinte e sete anos. Não era muito velha para começar de novo. Mas pensaria nisso mais tarde, quando estivesse mais tranqüila. Falaria com Andrew. Embora já não fosse seu tutor, seguia sendo seu advogado. Ele saberia aconselhá-la e ajudá-la. Ao ter as mãos e a mente ocupadas, não sentiu o passar do tempo. Só quando terminou a pintura e ficou a limpar os pincéis olhou o relógio que repousava sobre a

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24

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

estufa de lenha. E viu que já havia passado à hora do chá. Tinha trabalhado várias horas em uma calma estranha, benditamente ininterrupta. Mas onde diabos estava seu chá? Estava a ponto de atirar da corda da campainha quando a senhora Dempton apareceu à porta do estúdio com uma pilha de lençóis. Ao ver o estúdio tão desordenado, uma careta de reprovação endureceu seu semblante gordinho. Leila a ignorou. Obviamente, Francis e ela não eram os patrões ideais. Haviam mudado de serventes três vezes nos últimos dez meses. E todos tinham-na desaprovado. — Quando estará preparado o chá? —perguntou Leila.

— Em seguida, senhora. Queria trocar os lençóis do senhor primeiro Beaumont

...

mas

a porta está fechada com chave. A senhora Dempton sabia, por experiência, que não devia chamar. Quando a porta do Francis estava fechada não devia incomodá-lo, a menos que se estivesse incendiando a casa. E a senhora Dempton tinha escutado o que ocorreu quando a senhora perturbou o descanso do senhor. — Então esperará até manhã para que troque os lençóis — disse Leila. — Sim, senhora, mas tinha-me pedido especialmente. E ele disse ao senhor Dempton que tomaria um banho, e a água virtualmente se evaporou de tanto ferver, porque tinha dito ao senhor Dempton que não subisse até que o senhor Beaumont abrisse a porta. A última vez ... — Sim, senhora Dempton. Compreendo perfeitamente. — E além disso, o senhor Beaumont me pediu pão-doce para o chá, coisa que me alegrou, claro está, porque o pouco que come não manteria vivo a um camundongo; mas ali ficaram meus pães-doce, esfriando-se na cozinha, e a água se evaporou, e você esperando ainda o chá, e os lençóis sem trocar. A expressão reprovadora se transformou em franca acusação. A senhora Dempton pensava que tudo era culpa da Leila, obviamente. Leila tinha

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite estufa de lenha. E viu que já havia passado
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brigado com seu marido e ele se fechou em seu quarto a remoer seu mau humor, causando inconvenientes ao pessoal de serviço. Mas certamente tinha dado as ordens depois da briga e, portanto, não se teria

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite estufa de lenha. E viu que já havia passado
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fechado a se lamentar

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite estufa de lenha. E viu que já havia passado

nem tampouco teria tido a intenção de dormir tanto. Leila

... franziu o cenho. O láudano, é obvio. Queixou-se de uma forte enxaqueca. Teria tomado láudano e estaria dormido como um tronco. Não seria a primeira vez. No entanto, sentiu uma pontada de inquietação. — Será melhor que vá vê-lo — disse—. Possivelmente tenha um compromisso mais tarde. Se zangará se fica dormido. Saiu do estúdio e avançou rapidamente pelo corredor rumo ao dormitório do marido. Bateu na porta. — Francis? —Nada. Bateu mais forte e levantou a voz para chamá-lo. Nada—. Francis! —gritou, golpeando cada vez mais forte. Silêncio. Com suma cautela, abriu a porta e olhou. Seu coração se deteve em seco. Francis jazia sobre o tapete junto à cama, sua mão ainda continuava agarrada a mesa de cabeceira derrubada. — Francis! —Gritou outra vez. Embora soubesse que ele não podia escutá-la, que não podia despertar, que já não despertaria nunca. A senhora Dempton chegou correndo depois de ouvir os gritos, deteve-se na soleira e lançou um berro capaz de fazer estalar os tímpanos. — Assassinato! —bramou, separando-se da porta—. Que Deus nos ampare! Oh, Tom, pelo amor do céu! Matou-o! Leila não lhe emprestou muita atenção. Correu para o corpo imóvel de seu marido e,

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite estufa de lenha. E viu que já havia passado
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25

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

ajoelhando-se, tocou-lhe o pulso, o pescoço. Tinha a pele fria, muito fria. Não tinha sequer pulso. Não respirava. Nada. Estava morto. Ouviu os chiados da senhora Dempton no vestíbulo, ouviu os passos pesados do Tom que subia correndo a escada, mas lhe pareceram ruídos vindos de um mundo longínquo. Aniquilada, Leila desceu a vista. Vidros quebrados. Fragmentos do copo de água, lisos e transparentes, e do vidro gravado da garrafa de láudano. As peças de um quebra-cabeça de porcelana azul e

branca

...

a jarra da água.

 

— Senhora?

Olhou o rosto gasto do Tom Dempton.

 

— Ele

ele está

Por favor. Chame o médico. E

... favor. Vá de pressa, tem que ir de pressa.

...

...

e ao senhor Herriard. Rápido, por

Dempton se ajoelhou junto a ela, procurou sinais de vida como a própria Leila o tinha feito, e negou com a cabeça. — O médico não poderá fazer nada, senhora. Lamento-o. Está ... — Já sei. —Compreendia o que tinha ocorrido, embora tampouco tivesse sentido. O médico tinha advertido. Também Francis sabia. Ele mesmo o havia dito: a dose equivocada era veneno. Tivesse querido gritar. —Faça o que lhe pedi — disse ao Dempton—. O médico deve vir a ... a ... Assinar o certificado de falecimento. Papéis. A vida acabava deixando uma esteira de papéis. Quando a vida terminava, colocava-se em uma gaveta o que antes estava vivo. Clandestinamente. Pensar que, poucas horas atrás, Francis lhe estava gritando. Teve um calafrio.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite ajoelhando-se, tocou-lhe o pulso, o pescoço. Tinha a pele
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...
...
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— Vá procurar ao médico. E ao senhor Herriard. Eu ficarei com

com meu marido.

... — Está tremendo como uma folha — disse Dempton. E lhe estendeu a mão—. Melhor

sair daqui. A senhora Dempton ficará com ele. Mas a senhora Dempton chorava a gritos rasgados no vestíbulo.

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—Sua esposa necessita que a cuidem — disse Leila, esforçando-se para que não lhe

quebrasse a voz—. Trate de acalmá-la, por favor

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Mas vá procurar ao médico. E ao

senhor Herriard. Sem estar convencido do todo Tom Dempton partiu. Leila escutou a sua esposa que

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o seguia pela escada. — Ela o matou, Tom — chiava com voz estridente—. Você escutou como lhe gritava e dizia que morrera. Disse que se apodrecesse no inferno, foi o que lhe disse. Eu sabia que isto terminaria assim. Leila ouviu Dempton murmurar uma resposta impaciente, e logo ouviu o barulho da porta fechando com violência. Os soluços da senhora Dempton cessaram, mas não de tudo. E tampouco subiu a escada. A morte estava ali e a faxineira deixava que Leila arrumasse sozinha.

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—Aqui estou — sussurrou—. Oh, Francis, pobrezinho

oh, que Deus te perdoe. Me

... perdoe. Não teria que ter ido sozinho. Eu teria te pego a mão. O teria feito. Você foi

amável comigo uma vez. Por isso

oh, pobre tolo.

... Com o rosto banhado em lágrimas, Leila se inclinou para lhe fechar os olhos. Foi

então quando tomou consciência daquele aroma tão estranho. Estranho

...

e fora do

lugar. Olhou a garrafa de láudano quebrada; o líquido tinha empapado o tapete junto à

cabeça do Francis. Mas não era láudano. Cheirava a

...

tinta.

Respirou fundo e se incorporou, tremendo. Água e láudano. Nada mais. Nada de colônia. Mas ela conhecia esse aroma. Sentou-se sobre os calcanhares e percorreu a habitação com o olhar. Tinha escutado o ruído. O vidro quebrado e o golpe, Francis tinha se chocado contra a mesa de cabeceira e a jarra, a garrafa e o copo se feito pedacinhos. Caindo. Mas ela não tinha ouvido nenhum outro som. Nenhuma chamada de socorro, nenhuma maldição. Só aquele ruído, e depois, silêncio.

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26

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Teria morrido nesse mesmo instante? Inclinou-se sobre o corpo e voltou a cheirar.

Estava em seu fôlego e no ar que o rodeava. Era muito frágil, mas era aroma de amêndoas amargas. Por que tinha pensado em tinta? Não queria pensar, mas se obrigou a fazê-lo. Tinta. O médico. Em Paris. Muito tempo atrás, sim, lhe dizendo que deixasse as janelas abertas. Tinha um tinteiro na mão, cheio de tinta azul. Azul da Prússia. Até o cheiro podia adoecer a um, havia-lhe dito. — Os artistas são os mais descuidados — lhe havia dito—. E, no entanto, passam a vida entre os venenos mais mortíferos. Sabe com o que parece isto? Com ácido prúsico, menina. Ácido prúsico. Os sintomas começavam em questão de segundos. Matava em

minutos. O coração se detinha

...

logo vinham as convulsões

...

e

a asfixia.

Uma

colherada de chá bastava para matar a um homem. Era um dos venenos mais letais, precisamente por ser tão rápido. Isso havia dito o médico. Também era difícil de detectar. Mas deixava um aroma de amêndoas amargas. E isso era o que Leila tinha cheirado. Alguém tinha envenenado Francis com ácido prúsico. Fechou os olhos. Envenenado. Assassinado. E ela tinha brigado com ele. Brutalmente, a gritos.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Teria morrido nesse mesmo instante? Inclinou-se sobre o corpo
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Disse-lhe que se apodrecesse no

“Ela o matou. Você escutou como lhe gritava inferno.”

“Os jurados ingleses

penduraram a muitas

...
...

inclusive às mais bonitas.”

... Um jurado. Um julgamento. Descobririam a verdade. Sobre papai. “De tal pau, tal lasca.” Seu coração pulsava pesaroso. Não tinha saída. Todos acreditariam que era culpada, convenceriam-se de que levava o mal no sangue. Não. Não, não deixaria que a pendurassem. Levantou-se tremendo. — Foi um acidente — disse entre dentes—. Que Deus me perdoe, mas deve parecer um acidente. Tinha que pensar. Friamente. Com calma. Ácido prúsico. Amêndoas amargas. Sim. A tinta. Saiu da habitação sem fazer ruído e apareceu pelo corrimão da escada. Ouviu a senhora Dempton soluçar e falar consigo mesma, mas não pôde vê-la. A voz vinha do vestíbulo, onde estava esperando que seu marido retornasse com o médico. Chegariam a qualquer momento. Leila correu a seu estúdio, agarrou um frasco de azul da Prusia e retornou ao dormitório do Francis em questão de segundos. Com mão tremente desentupiu o frasco e o apoiou de lado sobre o tapete, entre os fragmentos da garrafa de láudano. A tinta se derramou, lançando poderosos cheiros. Os cheiros. Não devia os inalar. O médico lhe havia dito que podiam causar graves danos. Levantou-se e foi até a soleira, embora sentisse o impulso de correr o mais rápido e o mais longe possível. Queria se deprimir, adoecer, algo menos conservar a consciência. Obrigou-se a permanecer onde estava. Não devia sair correndo. Não devia deixar sozinho ao Francis nem tampouco se decompor ou desmaiar. Devia pensar, tinha que se preparar. Concentrou toda sua vontade nisso. Ouviu ruídos embaixo, mas os ignorou. Tinha que se tranqüilizar. Nada de lágrimas. Não podia se arriscar a perder o controle, nem sequer por um segundo. Necessitava toda sua força de vontade. Ouviu passos na escada, mas não se voltou. Não podia. Não estava preparada. Seu cérebro era incapaz de dar ordens a seus músculos. Os passos se aproximaram. — Madame. Uma voz muito baixa, um murmúrio tão baixo que não estava segura de havê-lo

...

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Teria morrido nesse mesmo instante? Inclinou-se sobre o corpo
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

ouvido. Toda a casa parecia estar murmurando. Assassinato. “De tal pau, tal lasca.” “Penduram até as mais bonitas.” — Madame.

Voltou a cabeça lentamente, muito devagar

...

e viu uns olhos de um azul irreal e uma

coroa de cabelo dourado. Não entendia por que estava ali. Nem sequer estava segura de que ele estivesse ali. Não podia pensar nisso nem em nenhuma outra coisa. Tinha os olhos cheios de lágrimas mas não devia chorar, não devia se mover. Se movesse,

romperia-se em pedaços como o copo, a garrafa, a jarra. Fragmentos sinistro quebra-cabeças.

...

peças de um

— Não

não posso —balbuciou—. Devo ...

... — Sim, madame. Leila cambaleou, ele tomou em seus braços. Então se derrubou e, ocultando a cara contra sua jaqueta, pôs-se a chorar.

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Capítulo 3

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite ouvido. Toda a casa parecia estar murmurando. Assassinato. “De

O destino o tinha levado até ali, pensou Ismal. E o destino tinha colocado Leila Beaumont em seus braços. Era evidente que o destino estava fazendo das suas. Sentiu o comichão da suave e despenteada cabelereira de Leila no queixo, e a exuberante maturidade daquele corpo apertado contra o seu. E experimentou um

O destino o tinha levado até ali, pensou Ismal. E o destino tinha colocado Leila Beaumont
O destino o tinha levado até ali, pensou Ismal. E o destino tinha colocado Leila Beaumont

desejo tão feroz, tão urgente que lhe nublou a razão. Mas arrancou sua mente daquela

escuridão palpitante e a obrigou a voltar para dormitório

de cabeceira virada para acima, os vidros quebrados

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite ouvido. Toda a casa parecia estar murmurando. Assassinato. “De

e ao cadáver que ali jazia.

... Como Leila tinha ficado de costas à cena quando ele tomou em seus braços, Ismal

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pôde observar o panorama fatal por cima de sua adorável cabeça: o cadáver, a mesa

e um frasco intacto. A faxineira,

... prisioneira de um ataque de histeria, tinha balbuciado algo sobre um assassinato. Seu instinto lhe dizia exatamente o mesmo. Ouviu passos e olhou o oco da escada. Justo nesse momento apareceu Nick, com uma expressão cortesmente inexpressiva no semblante. Ismal assentiu. Sem fazer ruído, Nick avançou para ele. — Leva-a a uma das habitações de baixo e a faça beber um pouco de conhaque — disse Ismal em grego, com tom severo—. Faz o que seja necessário para que não se mova dali. Com extremo cuidado, Nick tomou Leila dos braços de Ismal e lhe pôs um lenço limpo entre as mãos. —Tudo estará bem, madame. —Tentou tranqüilizá-la—. Não se preocupe com nada. Nós nos encarregaremos de tudo. Prepararei-lhe um chá. Deixe este assunto em minhas mãos — disse enquanto a guiava escada abaixo—. O médico está em caminho. Isso, apóie-se em mim, isso. Tendo deixado a madame Beaumont nas direitas mãos de seu servente, Ismal retornou ao dormitório do dono da casa. Estudou brevemente o semblante arroxeado de Beaumont e lhe elevou as pálpebras. Se tivesse morrido de uma overdose de láudano, teria as pupilas contraídas como cabeças de alfinete. Em troca, estavam completamente dilatadas. Ismal farejou o ar e se voltou para trás, cravando os olhos no frasco derrubado. O aroma mais penetrante era o da tinta, e Ismal sabia que não era saudável. Entretanto, não era um pouco de tinta o que tinha matado ao Francis Beaumont. Embora o aroma que rodeava a boca e o corpo apenas se podia distinguir, o sensível nariz de Ismal o reconheceu. Beaumont tinha ingerido ácido prúsico. Incorporou-se com o cenho

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28

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

franzido.

Que Alá lhe outorgasse paciência. Que Leila tivesse matado a aquele miserável era

muito compreensível; mas, já que estava, poderia haver-se matado também

porque

... era impossível conceber uma rota mais rápida à forca. O motivo, os meios, a ocasião ...

tudo a assinalava. Mas já parecia, e não era possível voltar a fazê-lo com mais astúcia e inteligência. Pelo menos tinha tido o bom tino de derramar a tinta. Isso ajudaria a confundir um

pouco as coisas. E ele se ocuparia do resto. Lorde Quentin, o homem para quem tinha trabalhado em segredo durante a última década, insistiria em que o fizesse. Quentin advertiria, com a mesma celeridade que Ismal, que a investigação seria inevitável. Embora o médico não notasse o aroma do ácido prúsico, certamente observaria as pupilas dilatadas. E pediria uma autópsia. Em qualquer caso, a morte do Beaumont era suspeita graças a detestável senhora Dempton. Apenas Ismal tinha entrado na casa, a desenquadrada mulher se lançou a repetir o que tinha ouvido durante a briga e imediatamente lhe informou que a senhora Beaumont tinha mandado procurar, não só ao médico, mas também a seu advogado. Era incontestável que a senhora Dempton compartilharia suas intrigas incriminatórias com o primeiro que estivesse disposto a escutá-la. E os periódicos se mostrariam mais que ansiosos por se inteirar. Dado que, devido às lamentáveis circunstâncias, a investigação seria inevitável, o melhor seria dirigi-la com muitíssimo cuidado. Só um veredicto era aceitável: morte acidental. A outra alternativa era uma investigação por homicídio e um julgamento público. O Vingt-Huit sairia à luz, desentupindo a caixa da Pandora. As notícias sobre as atividades clandestinas do governo desatariam um protesto público bastante contundente para destituir a todo o corpo ministerial. E embora o governo sobrevivesse ao clamor popular, incontáveis pessoas — não só as vítimas diretas de Beaumont, seus familiares e amealhados inocentes— sofreriam a vergonha e a humilhação públicas. Famílias inteiras ficariam destruídas, no país e no estrangeiro. Em suma, ou permitiam que madame Beaumont se saísse com a sua e não fosse

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite franzido. Que Alá lhe outorgasse paciência. Que Leila tivesse
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ou confrontariam um escândalo de proporções gigantescas.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite franzido. Que Alá lhe outorgasse paciência. Que Leila tivesse

acusada de assassinato

... Rapidamente chegou à conclusão de que não era uma decisão difícil. Saiu do dormitório principal e fechou a porta. Por uma vez, o dever e o desejo se puseram de acordo.

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Durante os primeiros e terríveis momentos no dormitório principal, Leila esqueceu que Andrew Herriard tinha viajado ao continente no dia anterior. Graças a uma tormenta no canal da Mancha, sua mensagem demorou para chegar a Paris. Em conseqüência, Herriard não retornou a Londres até o dia prévio à investigação. Foi diretamente à casa da Leila, sem se deter sequer a trocar de roupa depois da viagem. Esperou que Fiona os deixasse sozinhos na sala para que sua serena amabilidade desse passo à consternação. — Minha querida menina — murmurou, agarrando as mãos da Leila entre as suas. Sua voz amável e o quente apertão de suas mãos afugentaram os demônios que a perseguiam há seis dias.

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— Estou bem —disse Leila—. É

...

uma situação lamentável. Mas não é mais que uma

formalidade, estou segura. — De todos os modos, será um terrível esforço para ti. —Levou-a até o sofá e se sentou a seu lado—. Tome seu tempo e me diga tudo o que sabe, desde o começo. Leila lhe contou a mesma história que lhe tinha contado três vezes ao lorde Quentin, duas vezes ao magistrado e uma só vez a Fiona. Era a verdade, mas não toda. Contou ao Andrew alguns detalhes mais sobre a briga, mas não muitos. Descreveu-a em términos gerais para fazê-lo supor que não recordava do tudo o que tinha acontecido. Não mencionou o aroma de ácido prúsico nem a tinta que tinha derramado.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Inclusive com Andrew, a quem podia confiar sua vida, tinha um só caminho a seguir:

a morte do Francis tinha sido acidental. Sentia-se culpada ao ser consciente de que Andrew ficaria atônito se soubesse o que tinha feito. Encobrir um assassinato era um ato criminoso que Andrew jamais toleraria, além de tudo o que estivesse em jogo.

Leila não era tão nobre. Mesmo se Andrew tivesse encontrado uma artimanha para salvá-la da forca, a verdade sobre seu pai teria saído à luz e arruinado sua carreira. E, como sempre, ela feito alguma coisa para sobreviver. Mas a carreira do Andrew teria saído prejudicada. O gentil advogado jamais tinha revelado às autoridades que tinha encontrado com vida a filha de Jonas Bridgeburton, nem tampouco que tinha dado alguns passos não de todo legais para lhe conseguir uma nova identidade. A carreira de qualquer advogado do montão suportaria uma mancha pequena e muito velha como essa. Mas Andrew Herriard era um dos advogados mais respeitados da Inglaterra, não só por sua brilhante mente de letrado mas também por seu incontável integridade. Estavam considerando fazê-lo cavalheiro, e possivelmente parte do reino. E Leila não estava disposta a permitir que a vida do Andrew ficasse manchada por sua culpa. Além do que ocorresse no interrogatório à manhã seguinte, além do que os médicos encontrassem no cadáver do Francis, não poderiam destrui-la nem afundar Andrew na desonra. Tinha tido seis longos dias para pensar e fazer planos, e, como de costume, tinha encontrado uma maneira de compor as coisas. Leila jamais tinha permitido que Francis a fizesse se sentir como uma vítima. E muito menos permitiria que um montão de arrogantes advogados o tentasse. A única coisa que lhe importava agora era Andrew. Sentiu-se aliviada ao ver que a expressão consternada abandonava seu semblante. Bastou-lhe olhar seus amáveis olhos pardos para saber que acreditava que era inocente. — Foi uma desafortunada cadeia de acontecimentos — tentou tranqüilizá-la Herriard —. No entanto, a aparição desse teu cliente em particular foi um golpe de sorte. Dizem que Esmond tem muito bons contatos, tanto aqui como no estrangeiro. — Conforme parece, bastou com que estalasse os dedos para que lorde Quentin viesse correndo. — Ninguém melhor que Quentin para fiscalizar esta farsa de interrogatório. Farsa ao fim, mas inevitável graças ao irresponsável comportamento da senhora Dempton. Custará-lhe muito dinheiro e trabalho desnecessário ao país. —Ohando o rosto da Leila —. Mas isso são minúcias. Surpreende-me que tenha tido que suportar tantas coisas.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Inclusive com Andrew, a quem podia confiar sua vida,
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Pelo menos te encontrei em boas mãos: lady Carroll é uma amiga devota

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Inclusive com Andrew, a quem podia confiar sua vida,

e esse

...

jovem criado parece digno de confiança. — É o criado de Esmond — disse Leila—. Nick é uma espécie de guarda-costas. Deram-me a escolher entre ele e um dos homens de Quentin. Necessitava de alguém que afugentasse os curiosos. —Explicou que, exceto sua costureira, só David tinha entrado na casa. O marquês a tinha visitado no dia seguinte da morte de Francis e Leila tinha pedido que desencorajasse a todas suas possíveis visitas até depois do interrogatório. — Foi muito sábio de sua parte — Herriard sorriu—. Fez exatamente o que, se estivesse aqui, teria aconselhado. Parece que já não me necessita. — O que mais quereria era não precisar de você— disse ela—. Lamento te trazer tantos problemas. — Não diga tolices — a interrompeu Herriard—. Como de costume, me deixaste poucas coisas para fazer. Atuaste com inteligência e valentia, como vem fazendo há anos. A única coisa que lamento é que este matrimônio tenha exigido de você tanta sabedoria e coragem. Inclusive morto é um problema para você. A simpatia e a compreensão de Andrew fizeram cambalear sua consciência. — Teria tido problemas ainda mais graves se Francis não se casasse comigo —

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Inclusive com Andrew, a quem podia confiar sua vida,

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora se você não me tivesse

perdoado e respaldado

e ajudado a ser uma pessoa melhor.

... Leila jamais esqueceria o dia em que, dez anos atrás, tinha tido que explicar a seu

tutor por que devia casar com Francis Beaumont

embora Andrew desaprovasse o

... matrimônio. Jamais esqueceria a expressão consternada de Andrew quando lhe confessou que já não era virgem. Sua tristeza tinha sido muito mais devastadora para Leila que a irritação e a reprovação para o qual se preparou. Andrew lhe tinha explicado que seu pai era um homem de paixões fortes, e que essas paixões tinham levado o melhor de sua natureza porque se deixou governar por elas. Quando as baixas paixões mandavam, o caminho que levava do prazer inocente ao vício se voltava traiçoeiro e íngreme, e era muito fácil tropeçar e cair. Leila tinha chorado de vergonha por ter caísado tão facilmente e por ter desiludido ao Andrew. Mas Andrew havia dito que ela não tinha a culpa, porque era muito jovem e não tinha a ninguém para protegê-la e guiá-la. Francis Beaumont não teria que haver-se aproveitado dela, mas era habitual que os homens se aproveitassem diante do menor estímulo ou ocasião propícia. Leila tinha chorado ainda mais ao escutar aquilo, pensando que teria animado Francis de algum modo ou ao menos lhe teria brindado a ocasião. Por certo, não o tinha evitado. Apaixonou-se por aquele homem bonito e sofisticado capaz de dedicar tanto tempo a uma moça solitária. — Possivelmente tudo seja para o bem — a tinha consolado Andrew—. Pelo menos

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora

terá um marido que cuidará de você. E agora que descobriu como é fácil é ter um deslize, no futuro estará alerta e terá mais cuidado. Leila lhe prometeu entre lágrimas que assim o faria. Sabia que poderiam havê-la abandonado e jogado nas ruas, como a tantas outras jovens desonradas. Em troca, Francis se casaria com ela e Andrew a tinha perdoado. Mas jamais voltaria a se equivocar. Devia demonstrar que não seguiria os passos de seu pai, que podia governar a natureza corrupta que tinha herdado. E assim o tinha feito. Até agora. — Tudo ocorreu faz muito tempo — disse Andrew, como se lhe tivesse adivinhado o

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora

pensamento—. Não teríamos que recordar isso agora

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora

mas a morte está acostumada a

... remover o passado. —ficou de pé—. O que precisamos é um bule fumegante e uma boa

dose da faiscante conversa com lady Carroll para levantar o ânimo. Eu te darei assessoramento legal e ela, sem dúvida nenhuma, sugerirá infinidade de maneiras de tirar o promotor do sério.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora

** ** **

Graças a Ismal, a investigação sobre a morte de Francis Beaumont foi uma das mais esplendidamente orquestradas da história britânica daqueles tempos. Selecionou pessoalmente os peritos médicos, analisou seus informes post-mortem, revisou as numerosas declarações e decidiu a ordem de chamada das testemunhas. Embora o fiscal e os jurados não soubessem, a investigação terminou quando a primeira testemunha, o conde d'Esmond, concluiu seu testemunho. Sabendo que não se encontrou uma só gota de ácido prúsico no cadáver, Ismal só precisou escavar a credibilidade da senhora Dempton para que o jurado chegasse ao implacável veredicto de morte acidental. Resultou-lhe muito fácil. Tinha descoberto os pontos fracos de Dempton enquanto Quentin a interrogava. Bastou com que deixasse cair um par de comentários traiçoeiros durante seu testemunho, que foram utilizados pelo fiscal quando a interrogou. Ismal abandonou a sala imediatamente depois de declarar e retornou ao pouco momento, caracterizado como um desalinhado oficial. Chegou bem a tempo para escutar a senhora Dempton dizer que seu defunto patrão era um santo e madame

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite murmurou—. E estaria muitíssimo pior do que estou agora

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Beaumont um instrumento de Satanás. Interrogada a fundo, desconcertada-a mulher negou obstinada e chorosamente o que todo mundo —o promotor incluído— sabia: que, dormido ou acordado, Beaumont passava a maior parte do tempo bêbado; que era um habitual consumidor de ópio, tão puro como em forma de láudano; e que estava acostumado a freqüentar bordéis, casas de jogo clandestino e tabagismo. O senhor Dempton foi interrogado imediatamente depois de sua esposa; não adicionou nada importante, salvo que a senhora Beaumont tinha mandado procurar a seu advogado além da um médico. Quentin, que veio depois, suavizou a questão do advogado comentando por alto que, dado que o senhor Herriard tinha sido o tutor da senhora Beaumont, era natural que lhe pedisse ajuda em um momento tão difícil. Os vizinhos, por sua parte, não tinham visto nem ouvido nada. Logo testemunharam os médicos — seis em total—, um por um. Ismal sabia que não tinham encontrado ácido prúsico porque era uma substância quase impossível de se detectar, inclusive na mais favorável das circunstâncias. No caso de Beaumont só se necessitou uma dose mínima; o ácido prúsico e o ópio produziam sintomas cianóticos similares e seus órgãos internos estavam irremediavelmente danificados por tantos anos de abuso. Os peritos médicos utilizaram este fato, e as freqüentes enxaquecas de Beaumont, para explicar a extrema dilatação das pupilas. Dois deles chegaram ao extremo de afirmar que tinha morrido por causas naturais; a dose de láudano não teria resultado fatal, disseram, se não fosse o mal estado em que se encontrava o aparelho digestivo da vítima. Por certo, madame Beaumont tinha sabido escolher o veneno. Mas Ismal não entendia por que não tinha sabido escolher a ocasião. Supôs que tinha atuado no calor do momento. Mas o envenenamento, e em particular esse, requeria premeditação. Beaumont levava várias horas morto quando o encontraram, o qual significava que sua esposa devia ter misturado o láudano pouco depois da briga. Mas como tinha conseguido encontrar tão depressa o ácido prúsico? Acaso o tinha em seu estúdio? Isso indicaria premeditação, e, se esse fosse o caso, certamente teria procurado uma ocasião menos comprometedora para assassiná-lo do que depois de uma escandalosa e azeda briga. O problema era a ocasião. Tom Dempton, no andar de baixo, tinha escutado um ruído no dormitório principal no mesmo momento em que madame Beaumont dizia tê-lo escutado: instantes depois de que Beaumont voltasse para seu quarto e fechasse a porta. Como diabos o tinha feito, então? Tinha-o feito? Tinha que havê-lo feito. Estava a tinta. Mas as outras peças do quebra-cabeça não encaixavam. O problema tinha atormentado Ismal durante os últimos sete dias. Tinha tido que apelar a toda sua força de vontade e a seu orgulho para não interrogá-la e manipulá-la e, valendo-se de seu amplo arsenal de truques, lhe arrancar a verdade. Mas isso equivalia a admitir que estava confuso. E não o estava, isso era seguro. Em dez anos jamais tinha encontrado um problema que não pudesse resolver. Presenciou a investigação, cujo resultado estava decidido de antemão, só para observar Leila e descobrir em um gesto, em um giro da fala, a pista que procurava. Logo chegaria seu turno de testemunhar. E então, por fim, teria sua resposta. Acabava de pensá-lo quando percebeu uma mudança terminante na atmosfera. Olhou para a porta justo quando Leila Beaumont entrava, envolta em uma capa negra como a noite. Atravessou o estreito corredor entre os bancos; só se ouvia o sussurro de sua saia no assombrado silêncio. Quando chegou ao banco tirou o véu, olhou com insolência os curiosos, e cravou no promotor um olhar capaz de reduzi-lo a cinzas. Os homens de toda condição voltaram a respirar. O próprio Ismal ficou sem fôlego por um instante. Pelo Alá, aquela mulher era magnífica. Fogo e gelo de uma vez.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Beaumont um instrumento de Satanás. Interrogada a fundo, desconcertada-a
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Minha, reclamou o selvagem que levava dentro. Tudo há seu tempo, tranqüilizou-o seu eu civilizado. Paciência.

** ** **

A entrada da Leila na sala provocou uma comoção; uma comoção que ela não tinha esperado, mas para a qual se vestiu especialmente. Como odiava que lhe tivessem lástima, vestiu-se da maneira mais impactante que permitia o inevitável luto. Levava um imenso chapéu de veludo, graciosamente inclinado e adornado com longas cintas de cetim. Seu vestido de bombasí negro tinha ombros largos e mangas enormes; a arena, bastante alta, terminava em dois volantes pronunciados que lhe roçavam, precisamente, os tornozelos. As elegantes botas de couro forradas resultaram ser a melhor opção para aquele dia de frio penetrante e aquela sala infestada de correntes de ar.

Como não lhe tinham permitido presenciar o interrogatório das outras testemunhas, não tinha a menor idéia do que se havia dito. Mas, a julgar pela expressão de Andrew, as coisas não deviam estar muito mal para ela. Parecia incômodo, mas não preocupado. Esmond não estava. Leila não tinha voltado a vê-lo desde o dia da morte de Francis. Não sabia se acreditava que era inocente ou culpada, mas sua ausência a fez suspeitar do segundo. Incontestavelmente não quereria manchar seu nobilíssimo nome vinculando-se com uma assassina. Estava segura de que Esmond não tinha dado testemunho, e também de que se teria valido de todas suas influências para evitá-lo. Mas o certo era que ninguém lhe havia dito quem chamariam para testemunhar. Apesar de que, segundo a lei, Leila era inocente até que se demonstrasse o contrário, e de que aquilo era uma investigação e não um julgamento, tinham-na tratado como se acostumava tratar aos suspeitos; quer dizer, tinham-na mantido à margem.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Minha, reclamou o selvagem que levava dentro. Tudo há
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Ninguém lhe tinha informado de nada a Andrew, tampouco

porque possivelmente

... seu advogado teria tido a coragem de utilizar a informação para ajudá-la, que Deus não o permitisse. Miseráveis obscurantistas. Elevou o queixo ao sentir o olhar fatigado do promotor. Respondendo a suas perguntas, Leila deu toda a informação redundante que procurava: seu nome, seu lugar de residência, desde quando residia ali, etcétera. O assistente tomou detalhamente nota de tudo, como se ninguém no mundo soubesse quem era ela. Depois teve que dizer onde tinha estado à noite anterior à morte de seu marido, o meio de transporte que tinha levado de retorno a sua casa, e muitos mais etcéteras ... em suma, exatamente o mesmo que havia dito a lorde Quentin e ao magistrado em repetidas ocasiões. Quando o fiscal lhe perguntou por que tinha cortado sua estadia no Norbury House, uma nota de irritação se deslizou em sua voz. — Com o devido respeito, a informação que busca está em minha declaração assinada — disse. O fiscal olhou um papel que tinha diante do nariz. — Só disse que havia mudado de idéia. Importaria em espraiar-se um pouco em benefício dos jurados? — Fui ao campo descansar — disse Leila, olhando aos jurados—. Mas descansar era impossível. Havia muitos mais convidados do que eu tinha previsto. — E então retornou a sua casa e ficou trabalhando assim que chegou? —O fiscal

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arqueou uma sobrancelha—. Não é um pouco estranho desejava descansar?

...

tratando-se de alguém que

— Dado que não tinha podido fazê-lo, pensei que o melhor seria fazer algo produtivo.

—Claro. E

pôde fazer algo

produtivo?

... Tendo em conta a descrição do estado de seu estúdio feita, ao menos, por meia

...

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

dúzia de pessoas — descrição que o fiscal tinha por escrito diante seus olhos—a pergunta não a surpreendeu. Olhou desafiantes seus olhos inquisidores. — Ao princípio não. Como certamente saberá, tive uma briga comigo mesma e descarreguei minha frustração com os objetos de meu estúdio. E, como também saberá, o alvoroço despertou a meu marido. Logo discutimos. — Poderia descrever essa discussão, senhora?

— É obvio. Os presentes sacudiram a cabeça, como era de esperar. Até esse dia — por mais que lhe pedissem, tentassem persuadir e ameaçassem— Leila se negava descrever a briga. Todos esperavam grandes revelações. — O senhor Beaumont fez vários comentários desagradáveis — disse—. E eu lhe respondi lhe dizendo que se perdesse. As expectativas do público caíram em picado. — Poderia ser mais específica, senhora Beaumont? —insistiu pacientemente o fiscal. — Não — disse Leila. Sua resposta provocou murmúrios e especulações várias. O promotor fulminou com o olhar os presentes. O murmúrio se apagou. Então, com um pouco menos de paciência, perguntou-lhe se teria a amabilidade de explicar ao jurado por que tinha decidido não revelar uma informação tão vital. — Era evidente que meu marido estava sofrendo as conseqüências de uma noite de farra— disse Leila—. Se enfureceu porque o despertei, e além disso tinha uma enxaqueca insuportável. Se não estivesse nessas condições, não teria sido tão grosseiro comigo. E, se não estivesse tão furiosa antes que ele entrasse, eu tampouco teria emprestado atenção a seus comentários mal intencionados, nem muito menos lhe tivesse respondido assim. Repetir os desafortunados comentários produto de um mau momento equivaleria a lhes outorgar uma pátina de verdade e uma importância que não merecem. Mesmo que ambos tivéssemos querido dizer uma mínima parte do que dissemos, não o repetiria. Não lavo minha roupa suja em público. Murmúrios entrecortados entre os presentes. — Respeito seus princípios, senhora Beaumont — disse o fiscal—. No entanto, como bem saberá, sua faxineira ouviu que o intercâmbio verbal entre seu marido e você foi de natureza ameaçadora. — No que a mim refere, a faxineira a que alude não estava em condições de entender nada — disse Leila friamente—. Não foi capaz de me ajudar quando encontrei o corpo sem vida do senhor Beaumont. Ao contrário, teve um ataque de histeria do que só se recuperou depois de ter consumido boa parte do melhor xerez de meu defunto esposo. Houve um murmúrio generalizado e algumas risadas. O promotor resmungou uma reprimenda e imediatamente ordenou silêncio na sala. Voltou a dirigir-se a Leila. — Me permita lhe recordar, senhora, que a senhora Dempton ouviu a referida briga

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite dúzia de pessoas — descrição que o fiscal tinha
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horas antes de padecer esse

eh

ataque de histeria que você lhe diagnosticou.

... — Então não posso aceitar que me atribua ameaças que não formulei — replicou

...

Leila—. Até onde alcançam meus conhecimentos do idioma inglês, e além da vulgaridade da terminologia empregada, “te perca” não é nenhuma ameaça. Minhas palavras foram pouco dignas de uma dama, admito-o. Entretanto, não ameacei com nenhuma classe de violência. E, por certo, não cometi violência alguma, salvo sobre objetos inanimados; meus próprios pertences, em meu próprio estúdio.

— Disse que estava furiosa — insistiu o fiscal—. Mandar a seu marido A indica uma irritação considerável.

...

“perder-se”

— Se tivesse estado tão zangada para machucá-lo

—disse Leila—; coisa que,

... presumo, você está tratando de insinuar, caberia se perguntar por que não cometi um ato violento ali mesmo, possuída pela fúria. Mas a senhora Dempton viu meu marido

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

pouco depois de que saiu de meu estúdio. Estou segura de que lhe haverá dito que não mostrava marcas de abuso físico. Mais risadas, e uma nova reprimenda do fiscal. —Senhora, estamos investigando, porque a lei nos obriga a fazê-lo, uma morte cuja causa é algo duvidosa — disse para acalmar os ânimos—. Estou seguro de que você pensa o mesmo, posto que aceitou se apresentar diante as autoridades. Era evidente que, para ele, um culpado jamais se emprestou ao interrogatório nem cooperado. Leila fazia as dois coisas, e, a pesar da testa franzida, o promotor devia sabê-lo. — A causa da morte não me parece duvidosa — disse—. Aceitei porque outros pareciam ter dúvidas a respeito e não quis impedir que as limpassem como acreditassem apropriados. Entretanto, pensava e continuo pensando que esta investigação implica um desnecessário esbanjamento dos recursos governamentais. — Parece ser que, em seu momento, você foi a única que não teve dúvidas sobre a morte de seu marido. Em seu momento. Esse sim que era uma dada chave. Tudo indicava que a autópsia não tinha produzido evidências claras. — Não foi uma morte inesperada — disse, cada vez mais confiada—. O senhor Beaumont tomava muito láudano, desobedecendo às advertências de seu médico sobre o risco de overdose. Que eu saiba, denomina-se envenenamento por ópio. Para mim era óbvio que meu marido, como seu médico o tinha advertido, envenenou-se por acidente. Não era perjúrio em sentido estrito, disse-se Leila para tranqüilizar sua consciência. Francis não tinha ingerido o veneno de propósito. — Já vejo. —O promotor voltou a olhar suas notas—. Segundo a senhora Dempton, você mencionou um veneno durante a briga. Vai nos dizer agora que o veneno ao que aludiu foi o láudano? — Aludi ao álcool e ao ópio. Por certo, não manifestei nenhuma intenção de

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite pouco depois de que saiu de meu estúdio. Estou
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se isso for o que o preocupa a respeito da declaração da

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envenenar a meu marido

...

senhora Dempton, — No entanto, senhora, compreende como poderia interpretar suas palavras outra

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pessoa? — Não, não compreendo — disse com firmeza—. A menos que essa outra pessoa me considere idiota. Se tivesse ameaçado matar marido, não teria sido tão tola para

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sobretudo sabendo que era

cometer o crime imediatamente depois de havê-lo feito

... mais que provável que os serventes tivessem escutado a suposta ameaça. Teria que

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ser imbecil ou estar louca para ter feito algo assim. Fez uma pausa para que a frase impactasse como devia. Percorreu o salão com olhar arrogante, como desafiando a aqueles homens a acreditá-la louca ou imbecil. Não havia uma só mulher. Só homens. Andrew assentia compreensivamente. A seu lado estava o pai de David, o duque do Langford, com semblante inexpressivo. Estavam os

...

lorde Quentin, inescrutável como

jurados, que a observavam ávidos, ofegantes

sempre

Vários

funcionários

do

Bow

Street

aos

que

reconheceu

Outros

... representantes da autoridade

... uns suspicazes, outros hesitantes. Alguns tinham o

... valor de se sentir envergonhados. Evidentemente tinham pensado que era estúpida, até o último de ... Olhou para um rincão da suja e escura sala, e viu um oficial particularmente desalinhado apoiado contra a parede. Seu gordurento cabelo acobreado pintado de mechas cinza indicava que andaria pelos cinqüenta anos. Uma jaqueta puída e um colete manchado de vinho e graxa cobriam uma barriga inapresentável. Parecia estudar a imundície do chão enquanto se arranhava a cabeça com gesto ausente. Era impossível. Devia ter imaginado aquele brilho de azul irreal. Embora o homem tivesse levantado a vista, lhe teria sido impossível discernir a cor de seus olhos a essa distância. No entanto, estava segura de haver sentido sua força penetrante.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Obrigou-se a voltar para presente. Além do que houvesse sentido ou imaginado, não podia dar o luxo de se distrair. — Não pusemos em questão sua saúde mental nem sua inteligência, senhora Beaumont — dizia o promotor—. Simplesmente tentamos reconstruir com claridade os acontecimentos que precederam à morte de seu marido. — Já os descrevi — disse Leila—. Não voltei a ver meu marido com vida depois de que abandonou meu estúdio. Não saí de meu estúdio para nada desde que ele partiu até que encontrei seu corpo, momento em que a senhora Dempton estava nas minhas costas. Fiquei trabalhando no estúdio, com a porta aberta, até passada a hora do chá. Não teria tido tempo de fazer nenhuma outra coisa, tal como o demonstra a pintura. Esta vez o promotor não se preocupou com dissimular sua confusão. — Perdão, senhora. Que pintura? E o que tem que ver com isto? — Certamente os oficiais da Coroa terão visto a pintura ainda úmida que terminei durante as horas que passei em meu estúdio — disse ela—. Qualquer artista poderia certificar que não foi feita com pressa nem tampouco em um estado de agitação emocional. Se tivesse interrompido meu trabalho para me desfazer de meu marido, não poderia ter produzido essa classe de estudo técnico. Requer concentração absoluta. O fiscal ficou olhando-a durante momento, enquanto o murmúrio se transformava em um zumbido baixo. Olhou a seu assistente. — Será melhor que chamemos um perito em arte — disse. Alguns jurados se queixaram. O promotor os fez calar com o olhar. Olhou a Leila. — Tivesse preferido —lhe disse— que fora mais direta a respeito destes assuntos de um primeiro momento, senhora. Incontestavelmente compreenderá sua importância. Poderia lhe haver economizado à Coroa o esbanjamento de recursos que mencionou antes. —É obvio que pensei que era importante —lhe espetou Leila—. Mas é evidente que ninguém mais o pensou, dado que jamais me formularam perguntas chave. Embora não sou perita neste tipo de indagações, surpreendeu-me que os principais, se não os únicos, focos de interesse fossem minha briga com o senhor Beaumont e a histeria da senhora Dempton. E, embora não entendia por que os boatos pareciam mais importantes que os fatos reais, não eram de minha incumbência dizer aos profissionais como deviam fazer sua tarefa. Tampouco me teria tomado a liberdade de mencionar hoje estes assuntos se não fosse a impressão de que provavelmente seriam passados por cima. — Já vejo — balbuciou o promotor —. Há alguma outra coisa que deseje mencionar, senhora Beaumont?

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Obrigou-se a voltar para presente. Além do que houvesse
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** ** **

Pouco depois, Ismal subiu à carruagem e se sentou frente à lorde Quentin. — Bem, há-nos custado bastante, mas temos nosso veredicto — disse Quentin—.

Morte acidental por overdose de láudano. — É melhor que a investigação tenha sido longa — disse Ismal—. O promotor está satisfeito porque cumpriu ao pé da letra com seu dever. Tirou a peruca gordurenta e a olhou. Leila Beaumont o tinha reconhecido. Nem

sequer Quentin se deu conta, ao menos ao princípio

Mas ela sim, da outra ponta de

... uma sala imensa enquanto estava sendo interrogada por um promotor com mau gênio. Incontestavelmente essa mulher era como o diabo. — E a opinião pública também terá ficado satisfeita, espero. —Quentin franziu o cenho—. Eu não o estou, mas era inevitável. Não podíamos nos arriscar a um veredicto de assassinato. — Fizemos o que era necessário — sentenciou Ismal. —Teria gostado mais se ela não nos tivesse feito ficar como palhaços. Ismal sorriu, melancólico.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Refere-se a pintura? Sir Gregory Williams, o perito em arte, tinha insistido em que desde todo ponto de vista era impossível que a memorada pintura tivesse sido terminada em menos de dois

dias. Se por acaso fosse pouco, negou-se a acreditar que fora obra de uma mulher. Como resultado disso, vários oficiais receberam a ordem de ir procurar amostras do trabalho de madame Beaumont em sua casa. Menos de uma hora depois de ter vociferado seus comentários misóginos 3 , sir Gregory se viu obrigado a se retratar. — Sir Gregory se comportou como um idiota — disse Ismal—. No entanto, teve a dignidade de admitir seu equívoco. Teve que admitir que sim, a dama incontestavelmente tinha pintado aquele estudo de cristalería, e que tanto o tratamento do tema como as pinceladas mostravam um estado mental sereno. Ismal também se viu obrigado a admitir um engano, ao menos internamente. Não tinha tido em conta as implicações daquela pintura ainda úmida. No estúdio, tinha concentrado toda sua atenção nos desastres que tinha feito Leila. Tinha centrado todo

seu interesse em seu temperamento

em sua paixão transbordada.

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... Tinha permitido que a emoção afetasse sua objetividade; um pecado imperdoável. Estava furioso consigo mesmo, e com ela, a causa. No entanto, a expressão de seu semblante não passava de ser ligeiramente divertida. — Foi essa condenada tinta —disse Quentin—. Se não o matou ... — É óbvio que não o fez. — Antes não estava tão seguro. — Pois agora sim o estou. — Se não derramou essa tinta para se proteger, possivelmente a tenha derramado para proteger a alguém mais — insistiu Quentin—. Ou acaso acredita que o maldito frasco estava sobre a mesa de cabeceira, onde não tinha nenhuma razão de ser? Não havia nenhum diário íntimo na gaveta, nem papel com cabeçalho, nem sequer uma pluma. Como explica isso?

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— Possivelmente Beaumont levou o frasco ao dormitório para algo e logo o esqueceu ali. —Ismal encolheu de ombros—. Há milhares de explicações.

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— Mas nenhuma capaz de explicá-la a ela. Uma mulher tão preparada

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—murmurou

... Quentin com semblante pensativo—. Faz com que duvidemos. Realmente terá acreditado que a morte de Beaumont foi acidental? Uma mulher tão inteligente pode passar por cima de algo tão óbvio, inclusive para mim? — Acaso tem importância? —Ismal apoiou a peruca gordurenta sobre o assento—. O assunto foi resolvido, nossos segredos estão a salvo, e nenhum de seus nobres amigos terá que temer uma humilhante investigação por assassinato. — É provável que o assassinato em questão tenha sido obra de um desses nobres amigos aos que se refere — disse Quentin, sombrio—. Embora tenha as mãos atadas e a justiça parece ser alheia a este assunto, eu gostaria de saber quem o matou. — inclinou-se um pouco para diante e apoiou as mãos sobre os joelhos—. E você? Acaso não quer saber quem o fez? Não tem uma longa lista de perguntas que queria responder a respeito deste incômodo assunto? Sim, pensou Ismal. Gostaria de saber como tinha feito aquela mulher para reconhecê-lo. Misteriosamente, isso lhe resultava mais perturbador que ter chegado a uma conclusão errônea. Seu eu civilizado dizia que Leila tinha descoberto seu disfarce porque era uma artista, uma observadora muito mais aguda que a maioria das pessoas. Mas o selvagem supersticioso que levava dentro acreditava que essa mulher era capaz de ver a alma dos homens. Disse-lhe ao selvagem que nenhum ser humano, nem sequer ele, podia ler as mentes nem os corações de seus semelhantes. Ele descobria seus segredos, mas isso não era nenhum poder mágico a não ser simplesmente a sutil capacidade de observar

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3 repulsão mórbida do homem pelas relações sexuais; horror às mulheres.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

e interpretar as quase imperceptíveis pistas oferecidas pela voz, a cara, os gestos.

Ismal jamais se traiu nem dava esse tipo de pistas. Mas ela devia ter distinguido

algo.

... De algum jeito se tinha traído diante ela, assim como essa última semana tinha permitido que de algum modo o desejo afetasse seu intelecto. Aqueles que, de algum jeito e de algum modo não lhe agradavam nada, mas menos ainda lhe agradava a perda de controle que implicavam. Uma vez, dez anos atrás, uma mulher tinha debilitado sua vontade e sua razão. E ainda estava pagando por isso. Não voltaria a arriscar-se a ser destruído. Assistiria ao funeral para guardar as aparências. Logo retornaria ao continente, e, esta vez, esqueceria-a. Disse em voz alta e clara:

— Não. Não tenho curiosidade. Parece que nossos problemas terminaram, e eu estou contente.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite e interpretar as quase imperceptíveis pistas oferecidas pela voz,
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Capítulo 4

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O funeral de Francis se celebrou no dia seguinte da investigação. O conde d'Esmond assistiu aos serviços e logo foi à casa do defunto, junto com outros assistentes. Expressou suas condolências e cavalheirescamente ofereceu que seu servente Nick acompanhasse Leila até que encontrasse substitutos para os Dempton.

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Leila rechaçou cortesmente o oferecimento

para grande alívio do Esmond, disso

... estava infelizmente segura. Suas palavras e suas maneiras eram muito corretas, nem muito frios nem excessivamente quentes. Mas Leila sentia sua frieza tão evidente como se um muro de gelo se houvesse interposto entre ambos. Por desgraça, quando anunciou que um criado do senhor Herriard substituiria provisoriamente aos Dempton, David e Fiona insistiram em que tomasse emprestados a alguns de seus serventes. Fiona se estava pondo um pouco incisiva com o David quando o duque de Langford, que estava a poucos passos falando com o Quentin, tomou a liberdade de dar sua opinião. — O servente do Esmond teve a oportunidade de se familiarizar com os requerimentos da senhora Beaumont durante esta última semana — sentenciou Sua Graça—. Sua presença produziria menos incômdos que a de um novo servente, desde todo ponto de vista. E me atreveria a dizer que você já teve incômdos de sobra, senhora Beaumont. — Tem você razão — disse Quentin—. É a solução mais simples, diria eu. Leila percebeu uma faísca de ira, ou possivelmente desgosto nos olhos de Esmond, mas antes de que pudesse abrir a boca para falar, ele lhe adiantou. — Certainment — murmurou—. De todos os modos pensava retornar a Paris, por isso não haverá o menor inconveniente. Nick se reunirá comigo uma vez que os assuntos domésticos de madame Beaumont estejam resolvidos. Leila olhou Andrew, quem, naturalmente, assentiu em sinal de aprovação. Ninguém contradizia ao duque de Langford. David olhava para outro lado. Até Fiona, que habitualmente contradizia a todo mundo, parecia lhe haver comido a língua o gato. Leila elevou o queixo e sustentou o enigmático olhar azul de Esmond. — Pelo que vejo, ganhaste-me por maioria — disse—. De todos os modos, lamento ter que abusar, uma vez mais, de sua generosidade.

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Esmond respondeu alguma tolice galante, tipicamente francesa, e pouco depois partiu. Ao partir deixou um vazio gelado, e algo muito parecido ao desespero. Nunca, desde aquela noite fatal em Veneza fazia tantos anos, havia-se sentido tão amarga e

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

miseravelmente sozinha. Agora sabia quanto a tinha ajudado Esmond. Andrew lhe tinha explicado até o último pormenor da investigação, lhe fazendo compreender quão desagradáveis teriam sido as coisas para ela se Quentin não tivesse fiscalizado o caso. Tinha planejado expressar sua gratidão a Esmond. Inclusive tinha preparado um discurso breve embora sincero. Mas o muro de gelo que se havia interposto entre ambos lhe impediu de falar. Suspeitava que Esmond simplesmente tivesse sido galante, como sua nacionalidade —e, sem dúvida, alguma tipo de “exigência da nobreza”— o requeria. Entretanto, uma vez completo esse hipotético dever, negava-se a continuar vinculado com ela. Não tinha por que se surpreender, nem tampouco por que se sentir zangada ou ferida. Langford tampouco se mostrou afável. Estava claro que não queria que nem seu

filho nem Fiona — a filha de um de seus amigos mais queridos— se misturassem com uma artista burguesa cuja falta de critério para escolher marido e paupérrima educação tinham provocado um escândalo. Langford tinha deixado claro que até seus serventes eram muito bons para uma mulher como Leila Beaumont ao insistir em que o criado de um estrangeiro se ocupasse dela. O irônico do caso era que Langford não sabia até que ponto Leila merecia sua censura e seu desprezo. Nem tampouco conhecia o muito alto preço que já tinha começado a pagar. Desesperada por salvar sua pele e proteger Andrew, não tinha contemplado as conseqüências de ocultar um assassinato; o isolamento total, a necessidade de cuidar cada palavra, cada gesto, cada expressão por temor a revelar algo indevido — muito provavelmente ao assassino mesmo—, e, o pior de tudo, as amargas pontadas de uma consciência culpada. Não podia olhar nos olhos de seus amigos; não podia olhar nos olhos dos outros sem suspeitar deles. Não via a hora de que seus visitantes partissem, mas lhe aterrava a idéia de ficar só com sua culpa e seus medos. Os visitantes por fim se foram, e estava tão exausta que passou a primeira noite tranqüila. Sentia-se muito cansada até para sonhar. Mas nos dias que seguiram não teve paz. Perdeu o apetite. Não podia trabalhar, não tolerava agarrar um lápis de desenho. Cada vez que soava a aldrava da porta, cada vez que uma carruagem passava pela rua, pensava que era Quentin que vinha a prendê-la, ou o assassino, decidido a fazê-la se calar para sempre. Disse-se que estava histérica, mas a histeria continuou de todos os modos, exacerbada por uns espantosos pesadelos que a faziam temer ficar dormida. Finalmente, uma semana depois da investigação, anunciou a Nick que iria à igreja — São Jorge Mártir estava a poucos passos da casa— e se dirigiu ali. Terminou no cemitério, como tantas vezes. Onde Francis estava enterrado. Ainda não tinham colocado a lápide que tinha mandado fazer. Só se via a terra recém escavada, com alguns flocos de neve, e uma simples marca que indicava o lugar. Não podia chorá-lo. Pelo menos estava além da hipocrisia. Não era a pena o que a tinha levado ali. Contemplou ressentidamente o montículo de terra. Enquanto estava vivo, tinha-a atormentado tanto como ela o tinha permitido; morto, continuava atormentando-a. Se não fosse por ele, não se sentiria culpada nem angustiada nem tão miseravelmente sozinha. — Quem foi? —perguntou entre dentes—. Quem foi o que se fartou de você, Francis?

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite miseravelmente sozinha. Agora sabia quanto a tinha ajudado Esmond.
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Vai sair se bem, sabe? Porque eu fui

...

tinta, já o vê, para dissimular o Então recordou.

...

aroma.

oh, tão estupidamente ardilosa. Um pouco de

Esmond

quase um ano atrás

...

Na festa, quando tinha sido descoberto o retrato de

...

... Uma ínfima gota de perfume, colocada horas antes e quase

madame Vraisses

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

evaporada ...

No entanto, ele tinha identificado todos os componentes.

Compreendeu por que se elevou um muro de gelo entre ambos.

— Cheirou o veneno — murmurou—. Não só a tinta mas também o veneno, e deve

ter pensado que

—Olhou

a seu redor. Que o céu a amparasse. A isso tinha ficado

em um cemitério.

... reduzida: a falar consigo mesma

... O que viria depois daquilo, as reflexões de uma demente? O que pensaria Esmond a

respeito dela? Que se tinha voltado louca, que era uma artista temperamental que tinha assassinado a seu marido em um acesso de fúria? Mas Esmond a tinha ajudado, e ela tinha pensado que ... Não, ela não tinha pensado. Tinha caído em seus braços e tinha deixado de pensar.

Porque ele tinha voltado, como ela tinha desejado do momento mesmo em que partiu de Norbury House. Tinha fugido, sim, e tinha feito bem, mas não podia fazê-lo entender a seu coração. A parte pecaminosa de seu ser desejava o que estava mau.

Tinha desejado que ele a perseguisse e minasse sua vontade e

a levasse longe.

... Teve um calafrio. Tudo era fruto de sua desprezível debilidade, nada mais que isso.

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e naturalmente teria chegado à conclusão de que tinha matado a seu

Em um momento de desassossego e confusão — e sim, de alivio ao vê-lo chegar— tinha perdido o controle, junto com a razão. Perceptivo como era, Esmond haveria sentido a culpa e o terror que a

atormentavam

...

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marido. Tinha recorrido ao Quentin para lhe fazer um favor; mas mais provavelmente

porque, sendo estrangeiro, não conhecia nenhuma outra pessoa vinculada com o governo. Em realidade, jamais se tinha preocupado por ajudá-la. Santo Deus, que estúpida tinha sido. Entretanto, não era para assombrar-se que tivesse confundido os motivos do Esmond, refletiu com amargura. Enganou-se a si

porque, sendo estrangeiro, não conhecia nenhuma outra pessoa vinculada com o governo. Em realidade, jamais se
porque, sendo estrangeiro, não conhecia nenhuma outra pessoa vinculada com o governo. Em realidade, jamais se

mesma do começo. Em um louco acesso de pânico tinha ocultado o pior dos crimes

para salvar sua pele. Nem sequer isso nobre desculpa de proteger ao Andrew

...

para salvar sua preciosa carreira. E quanto à ela tinha sabor de ciência certa que a justiça

... era muito mais importante para ele que as honras e os títulos. Em suma, tinha demonstrado que Francis tinha razão, de tal pau, tal lasca.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite evaporada ... No entanto, ele tinha identificado todos os
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...

até as mais negras profundidades da degradação.

... Aquilo lhe parecia ainda mais aterrador que a forca.

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— Rápido, por favor — lhe espetou me arrependa.

Dez anos depois daquele primeiro deslize abafadiço com o Francis, tinha voltado a cair na desonra. Desastrosamente. E, como era fraca por natureza, seguiria afundando-

se ...

mais, muito mais

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Saiu correndo do cemitério, fez-lhe gestos a um carro de aluguel e lhe ordenou ao chofer que a levasse ao Whitehall.

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e adicionou para seu interior—: antes de que

** ** **

Quando entrou no despacho de lorde Quentin, o semblante do Ismal era a viva expressão da serenidade angélica. Mas tinha um nó no estômago. A culpa era só dela, disse-se, por haver ficado uma semana mais em Londres. Se tivesse partido imediatamente depois da investigação, não se teria visto obrigado a correr ao escritório do Quentin respondendo a lacônico bilhete: “A senhora Beaumont está aqui. Será melhor que venha imediatamente.” Ismal se inclinou diante de Leila e saudou cortesmente a sua excelência. Superada a etapa das formalidades, Quentin indicou a Ismal uma cadeira junto à Leila. Mas Ismal foi para a janela. Leila soube que ia ocorrer algo desagradável. Seu instinto o dizia. O ar parecia palpitar, carregado de tensão. — Lamento que tenha que contar uma vez mais, senhora Beaumont — se desculpou Quentin—. Mas é melhor que Esmond escute a história de seus próprios lábios. —Olhou ao Ismal—. Já expliquei à senhora Beaumont que colaboraste conosco em várias ocasiões e que portanto é digno de confiança. O nó do estômago se fechou ainda mais. Mas Ismal se limitou a assentir.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

Leila cravou o olhar em um enorme peso de papel de cristal verde que havia sobre o escritório do Quentin. — Meu marido foi assassinado — disse sem rodeios—. E tenho feito as coisas más. Interferi com a evidência. Ismal olhou ao Quentin. Sua excelência assentiu. — Refere-se à tinta, suponho — disse Ismal. Leila nem sequer piscou.

— Você soube desde o início — murmurou, sem tirar a vista do peso de papel —. No entanto, nunca disse nada. — A maioria das pessoas deixa a tinta sobre o escritório, não sobre a mesa de cabeceira — disse Ismal—. Entretanto, seu marido podia ter sido a exceção que confirma a regra. — Você sabia que eu tinha levado a tinta ao dormitório de Francis — disse ela—. E

pensou que

—interrompeu-se, ruborizada—. Não tem importância. Eu levei o frasco

... de tinta. —Mordia as palavras em vez das pronunciar, e a ênfase fazia tremer as fitas de seu chapéu negro—. Para dissimular o aroma. O ácido prúsico. Eu sabia que não tinha morrido de overdose. Fez uma pausa e prosseguiu:

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite Leila cravou o olhar em um enorme peso de
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— Sei que fiz errado, mas precisava fazer que a morte de Francis parecesse acidental. Eu não o matei. Porém, jamais me passou pela cabeça que alguém pudesse acreditar que eu o tinha assassinado se a verdade chega-se a saber. — E, em seu momento, não se deu conta de que a senhora Dempton estava mentalmente desequilibrada — disse Ismal com um sotaque de insidiosa ironia. — Dempton era o menor de meus problemas — respondeu Leila com impaciência—. Conheço a diferença entre uma investigação por morte suspeita e uma investigação por assassinato com todas as da lei. A Coroa investiga até o último detalhe, e eu não podia permitir que isso acontecesse. Então o olhou. Seus olhos dourados pareciam arder, febris, contrastando com a palidez de seu rosto. — Meu sobrenome de solteira não é Dupont — disse—. Foi mudado faz anos. Meu pai era Jonas Bridgeburton. As cinco palavras cruzaram o espaço que os separava como um disparo. Ismal sentiu que a habitação girava a seu redor, mas não se moveu. Seu rosto seguiu inexpressivel. A garota. Leila era a garota que Risto tinha visto na escada aquela noite, tanto tempo atrás. Haviam passado dez anos, mas Ismal não o tinha esquecido. Tinham ido ver o Bridgeburton porque Ismal queria se vingar de outro homem. Depois daquela fatídica visita tinha cometido muitas loucuras, que quase lhe custaram à vida. A cicatriz de seu lado dava testemunho disso. De vez em quando lhe doía, quando algo lhe recordava aquele negro período de sua vida. Quase nunca pensava em Bridgeburton. O infeliz só tinha sido um meio para alcançar um fim; uma breve visita, uma partida rápida, e tudo tinha terminado. Mas não. Nada tinha terminado. O destino, pensou Ismal. Não disse nada. Podia controlar seus gestos e seu semblante. Mas não estava seguro de poder dominar sua voz. Ignorando a importância do que acabava de revelar, Leila continuou falando no mesmo tom mordaz. — Possivelmente não tenha ouvido falar dele. Esta semana se fazem dez anos de seu assassinato. Seus inimigos economizaram à Coroa o trabalho de julgá-lo e pendurá-lo. Meu pai era um delinqüente, sabe? Roubava material militar do seu próprio governo e vendia ao melhor comprador. Informaram-me que o governo conhecia uma longa lista de seus crimes. O contrabando e o comércio de escravos eram, se mal não recordar, só duas de suas muito numerosas atividades. —Voltou a olhar o peso de papeis. — Pudemos reunir muitíssima informação a respeito — demarcou Quentin para salvar as aparências. Mas obviamente sabia que aquilo não era nenhuma novidade para Ismal—. Nossos homens estavam investigando Bridgeburton em colaboração com

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

a polícia veneziana quando sofreu o acidente fatal. — Disseram que foi um acidente, mas foi assassinato — lhe espetou Leila—. Desfazer-se dele terá sido um grande alívio para as autoridades. E certamente terão pensado que procurar a seus assassinos era uma perda de tempo e dinheiro. Assim como outras autoridades não tinham o menor interesse em encontrar ao assassino de Francis Beaumont, refletiu Ismal. Porém, segundo o relatório,

Bridgeburton tinha caído ao canal ébrio de absinto e vinho. Certamente não tinha sido

assassinado. Ismal lhes havia dito a Risto e Mehmet que não deviam assassiná-lo

...

mas

isso não significava que tivessem obedecido suas ordens, maldita seja. — Em qualquer caso — prosseguiu Leila—, não importa como morreu papai. Importa

o que era. Eu sabia que, se as pessoas se inteiravam de que meu pai tinha sido um

criminoso, estaria arruinada

mesmo que Francis não tivesse sido assassinado. E,

... dado o curso dos acontecimentos, não podia esperar que ninguém acreditasse que a filha do Jonas Bridgeburton não tinha seguido os passos de seu pai. Em circunstâncias normais, sem dúvida teria caído na ruína. Se não a penduravam antes, refletiu Ismal. Os pecados dos pais quase sempre recaíam sobre os filhos, inclusive em um país tão culto e ilustrado como a Inglaterra. Mas Leila tinha acudido ao Quentin e confessado toda a maldita verdade. E Quentin — que tinha tantas razões como ela para respaldar o veredicto de morte acidental— não tinha tentado convencê-la de que estava equivocada sobre a morte de seu marido. Pelo contrário, tinha mandado chamar a seu melhor agente secreto. — Por que me mandou a procurar? —perguntou Ismal em voz baixa. — A senhora Beaumont quer que investiguemos a morte de seu marido — respondeu Quentin—. E eu estou de acordo com ela. Mas Leila preferia que Esmond não fosse o eleito do Quentin. Podia senti-lo em sua própria carne; uma ira escura palpitava em suas entranhas e invadia a habitação silenciosa, como uma perigosa corrente submarina em um oceano enganosamente calmo. — Se me procurou, é porque não quer que a morte se investigue a plena luz do dia — disse Esmond. — Assim é — respondeu sua excelência—. Já lhe expliquei à senhora Beaumont que recorremos a seus serviços quando estamos frente a um problema delicado. A senhora Beaumont nos tem feito saber que isto poderia resultar muito embaraçoso para algumas pessoas. —Sorriu com amargura—. Conforme parece, não temos outra opção. Leila elevou o queixo, e as fitas de seu chapéu se agitaram. — Permita-me recordar a lorde Quentin que os atos licenciosos de meu marido jamais estiveram restringidos às classes mais baixas da sociedade. Francis era uma influência insalubre. Tinha talento para atrair aos inocentes. Estou segura de que muitos maridos, esposas, pais e mães o preferiam morto. E sei que muitos deles figuram no Debrett'S. Também sei que meu nome não seria o único jogado na lama se houvesse uma investigação por assassinato. Por isso me pareceu conveniente alertar a lorde Quentin a respeito deste problema. — Foi muito perspicaz de sua parte — disse Ismal—. Mas sua perspicácia não lhe serviu para compreender a futilidade de uma investigação secreta? O que faríamos se chegássemos a descobrir a identidade do suposto assassino? Acaso teríamos que julgá- lo e pendurá-lo (ou pendurá-la) em segredo? — Eu não pedi uma investigação secreta — se defendeu Leila—. Sou consciente de que, para salvar minha própria pele, contribuí que o assassino de meu marido ficasse impune. Cometi um engano e quero corrigi-lo. A decisão de como fazê-lo fica em mãos de lorde Quentin. —A fúria que tão educadamente tinha tentado controlar era evidente agora—. Eu não o mandei procurar. Lorde Quentin o fez. Pelo qual me inclino a acreditar que é a ele a quem deve lhe formular essas perguntas. Embora conhecesse as respostas, Ismal se dirigiu ao Quentin. — Milord?

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite a polícia veneziana quando sofreu o acidente fatal. —
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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Digo eu, por que não agarramos o touro pelos chifres de uma vez? —replicou

Quentin, como até o mais tolo poderia ter previsto—. Aceita o caso ou não o aceita? Como se tivesse alguma opção, pensou Ismal, furioso, passeando seu olhar impassível do um à outro. Era evidente que Leila tivesse desejado vê-lo no outro

extremo do planeta

e ele teria desejado agradá-la. Mas não havia ninguém mais que

... pudesse ser encarregado dessa investigação. Ismal era o único que conhecia todos os sinistros pormenores do Vingt-Huit. Além disso, como bem sabia Quentin, tampouco havia ninguém que tivesse tanto que perder como ele se chegava a conhecer a verdadeira origem da Leila. Se aquilo chegava, ou seja, se outro escândalo saisse à luz; um tempestuoso assunto no que Ismal tinha desempenhado um papel protagonista, e pelo que deviam havê-lo pendurado. Tudo era obra do destino. Dez anos atrás, o destino tinha começado a compor esta tenha de aranha. Essa mulher que levava luto de viúva era a filha de Bridgeburton. Essa mulher que fazia pulsar seu coração muito rápido, que convertia a razão em

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Digo eu, por que não agarramos o touro
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caos era a filha de Bridgeburton. Por ela Ismal tinha vindo a Inglaterra, por ela tinha fraquejado contra toda sabedoria e cautela. Ela o tinha miserável até ali, até esse

instante ...

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e ele tinha ficado apanhado na teia de sua vida.

E portanto não tinha mais que uma opção, e uma só resposta para lhes dar.

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— Sim — disse com seu tom mais doce e amistoso—. Aceito o caso.

** ** **

Embora claramente desgostada com a eleição do investigador do Quentin, Leila se viu obrigada a aceitá-la. Quando Ismal anunciou que ia visitá-la essa mesma noite, às oito, limitou-se a assentir. Logo se despediu cortesmente de ambos com tal frieza que Ismal se surpreendeu que o cristal da janela não tivesse congelado. Ficou olhando a porta, que acabava de fechar-se atrás dela. — Não pude evitá-lo — disse Quentin—. Não podia correr semelhante risco. Se me negava, possivelmente teria recorrido a outro. E então sim que estaríamos perdidos.

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— Eu sim que poderia me haver negado — disse Ismal—. Mas você me atou as

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porque o atormenta tanto a curiosidade como a ela sua típica consciência

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Digo eu, por que não agarramos o touro

mãos ...

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Digo eu, por que não agarramos o touro

inglesa. — Possivelmente seja minha consciência inglesa, também. Admito que queira ver Beaumont morto, mas decidi contra uma execução sumária. Do contrário teria contratado há alguém muito menos oneroso que você para concluir o assunto, não lhe parece? Ismal foi para o escritório e agarrou o peso de papeis. — Quando lhe disse que Beaumont movia os fios do Vingt-Huit, você sabia quem era sua esposa? — É obvio. Você não? — Não lhe parece que, se tivesse sabido, o teria mencionado?

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Quentin encolheu de ombros. — Impossível adivinhar o que ocorre no interior de sua mente. Que surpresa, hein? — Eu não gosto das surpresas. — Entretanto reagiu bastante bem — foi à fria resposta—. Como sempre. E, como

sempre, sabe tudo, verdade? E só diz o que quer. Era razoável supor que já a teria reconhecido em Paris. Ismal percorreu o contorno do peso de papel com a gema dos dedos.

— Não a tinha visto em Veneza — murmurou—. Só sabia que havia uma filha

...

supus

que era uma menina. Disse-lhe Risto que se fizesse cargo. Deu-lhe de beber láudano e sei acabaram os problemas. A droga deve tê-la confundido, porque seu pai não foi assassinado. Quando parti da casa só estava bêbado. Fui antes que meus serventes, mas ordenei que não o matassem. —Olhou ao Quentin aos olhos—. Eu não matei ao pai dessa mulher.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— E eu não disse o contrário. Além disso, isso não tem maior importância. Bastante mal causou, de todos os modos. Dadas as circunstâncias, supus que preferiria se ocupar pessoalmente de nosso problema atual. Sim, bastante mal tinha causado. E era evidente que nunca terminaria de pagar sua dívida. Dez anos atrás, Ismal tinha concebido grandiosos planos imperiais. Sir Gerald Brentmor, através de seu sócio Jonas Bridgeburton, havia provido ilegalmente das armas que necessitava para derrubar ao governador da Albania, Ali Pasha. Mas sir Gerald tinha um irmão chamado Jason, que vivia na Albania e era partidário de Ali. Se

tivesse atuado com a cautela acostumada, Ismal teria superado os obstáculos com inteligência. Mas se obcecou com a filha do Jason e nada — nem sequer o ódio flagrante que aquela moça, chamada Esme, professava-lhe; nem o fato de que preferisse abertamente a um lorde inglês; nem a ira de Ali Pasha— o ajudou a entrar em razão. Inclusive depois de que lorde Edenmont levasse Esme e a desposasse, Ismal persistiu em seus loucos planos de vingança contra quem o tinha defraudado. Foi ver Bridgeburton e o obrigou a revelar todos os segredos de seu sócio. Depois, a louca

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,

carreira a Inglaterra

a chantagem a sir Gerald

e o rapto de Esme

e logo tudo o

.... que ocorreu, quando sua família se lançou a resgatá-la. Ismal tinha perdido a seus dois seguidores mais devotos, Mehmet e Risto, em meio de uma feroz briga em um paredão de Newhaven. E tinha estado a ponto de morrer. Merecia que o pendurassem por mais de um motivo. No decorrer de umas horas tinha raptado à esposa de um nobre, tentado matar a seu marido e matado a seu tio. Mas a família não podia denunciá-lo. Um julgamento público teria tirado a luz os crimes de sir Gerald e a mancha de sua traição à pátria teria alcançado a seus familiares, convertendo-os em exilados. As infâmias de Ismal foram silenciadas pelo bem de todos, e o enviaram a Nova Gales do Sul no navio do capitão Nolcott. Quentin interrompeu suas sombrias reflexões. — É óbvio que a senhora Beaumont não o recorda. — Não creio que tenha visto muito antes que Risto advertisse sua presença—disse Ismal—. Se me lembro bem, o vestíbulo estava mal iluminado e só permaneci ali uns

...

...
...
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,
Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,
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minutos. A droga deve tê-la confundido. E além disso, foi a dez anos. É muito tempo. — Se madame Beaumont o tivesse recordado ele teria sabido, embora não dissesse nada. Haveria sentido. De todos os modos, sentia-se incômodo. — Entretanto, é uma mulher inteligente e observadora — prosseguiu—. Será melhor não correr riscos. Terá que advertir à família Brentmor da situação. Nenhum deles sabe que estou aqui. Exceto por Jason Brentmor, Ismal não tinha visto nenhum membro da família desde dia em que o tinham levado, quase morto, ao navio. Seguindo o costume de seu país, antes de partir tinha feito as pazes com todos. De acordo com aqueles rituais, sua alma tinha ficado limpa de vergonha. Mas seu orgulho lhe impedia de enfrentar cara a cara com quem tinha sido testemunhas de sua humilhação. — Lady Edenmont dará a luz a seu quarto filho a qualquer momento, por isso todos se encontram em Mount Eden — disse Quentin—. Salvo Jason, quem está na Turquia com sua esposa. Irei pessoalmente lhes explicar o assunto. Supondo que os prefere longe. — Seria o melhor. Posso controlar minha língua e meus atos. Mas não posso controlar cada palavra nem cada gesto de outros. Não podemos nos nos permitir o luxo de despertar a mais nova suspeita. Ismal voltou para escritório e deixou o peso de papel em seu lugar. — Por isso sempre preferi trabalhar fora da Inglaterra. Uma visita breve não implica

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,
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riscos, mas isto

—Meneou a cabeça—. Poderiam durar várias semanas, possivelmente

... meses. Quanto mais tempo permaneça aqui, maior será o risco de que me

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — E eu não disse o contrário. Além disso,

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

reconheçam. — Além dos Edenmont e os Brentmor, dez anos depois não fica virtualmente ninguém que possa recordá-lo — disse Quentin. Começava a se impacientar—. Quem mais o viu, exceto os marinheiros? Quase todos pertenciam à tripulação do Nolcott e morreram afogados no naufrágio um mês mais tarde. Só houve três sobreviventes:

você, Nolcott e o albanês encarregado de vigiá-lo. Em primeiro lugar, nenhum dos dois está na Inglaterra. Em segundo lugar, é improvável que traiam ao homem que lhes salvou a vida. O naufrágio lhe tinha economizado ao Ismal a humilhação do cárcere em Nova Gales do Sul, e ele tinham contribuído a sua própria causa resgatando aos dois homens que mais podiam ajudá-lo. Nolcott e Baixo lhe haviam devolvido o favor deixando-o escapar

e mentindo ao dizer que se afogou com outros. Mas o destino concedeu a Ismal só

umas poucas semanas de liberdade

até que se topou com o Quentin. Graças à

... detalhada descrição de Jason, Quentin o reconheceu e imediatamente o pôs sob seu amparo. Ismael sorriu fracamente. — Quem dera o fato de ter salvado duas vistas fosse emenda suficiente para você, milord.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite reconheçam. — Além dos Edenmont e os Brentmor, dez
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Quentin se recostou na cadeira. — É obvio que não. A única coisa que pode me satisfazer é toda uma vida ao meu serviço. Por seu próprio bem, é obvio. Do contrário, não sei em quantos problemas teria se metido até hoje. —Sorriu—. Você me obriga a praticar meus dotes de filantropo. — Sei muito bem que não o faz por caridade. Jason comentou que eu era um jovem inteligente e amoral, e você simplesmente viu que podia lhe ser útil. — Do mesmo modo em que você viu que eu podia lhe ser útil. Assim é como devem ser as coisas. Os sentimentos não devem interferir em nosso trabalho. No entanto, nosso trato não lhe veio nada mal. Vive como um príncipe e se acotovela com a realeza. Não terá queixa, espero. Só desse maldito caso que não terminaria jamais e cujas intrincadas pistas o levavam a uma década atrás, à etapa mais vergonhosa de sua vida. — Não, milord, não tenho nada de que me queixar — disse. — E tampouco de que se preocupar. Edenmont e seus parentes políticos estão obrigados a cooperar. Depois de tudo, teriam muito que perder se a verdade chegasse, ou seja, se Jason Brentmor fez algumas coisas ilícitas para assegurar-se de que ninguém descobrisse que seu irmão estava envolto com o Bridgeburton. — Todos tem muito que perder — disse Ismal. — Sim. Bem, conto com que dirigirá este assunto com sua habitual discrição. — Quentin fez uma pausa—. Creio que a senhora Beaumont requererá muita diplomacia. Não parece para nada agradada com o fato de que o tenha mandado chamar.

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— Creio que tinha muita vontade de arrojar seu belo peso de papel contra

alguém

...

—disse Ismal—. Não creio que me dê um quente bem-vindo esta noite. — Pensa que romperá algum móvel, não é? Sobre sua cabeça possivelmente? — Por sorte tenho o crânio bastante duro. Se lorde Edenmont não me pôde romper isso existem razoáveis possibilidades de que madame Beaumont tampouco possa fazê- lo.

— Espero que não. Essa sua cabeça é muito valiosa para nós, e você sabe. —Quentin o olhou de esguelha—. Tome cuidado de não perdê-la, meu estimado “conde”. Ismal esboçou um sorriso angélico por toda resposta. — Compreende a que me refiro, verdade? —insistiu Quentin. — Pense o que queira —disse Ismal. Dito isto, e com uma leve inclinação, saiu do despacho.

** ** **

Apesar das ferventes suplicas de Leila, o conde d'Esmond se apresentou essa mesma

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite reconheçam. — Além dos Edenmont e os Brentmor, dez

45

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

noite em sua casa, as oito em ponto, tal como tinha anunciado. Sabendo que a missão atribuída não era de seu agrado, Leila supunha que haveria passado um momento discutindo com lorde Quentin depois de que ela partisse. Sem resultado algum, evidentemente. Não compreendia por que Quentin dava ordens ao conde. Havia-lhe dito que Esmond era uma espécie de agente secreto, digno de toda confiança, mas não tinha explicado que posição ocupava no governo de sua majestade. Embora lhe conhecesse pouco, tinha esperanças que logo se inteiraria. Quando Nick fez passar ao conde ao saguão, Leila quase não podia controlar o estado de nervos em que se encontrava. O jovem criado se retirou em seguida e, depois de um obscuro intercâmbio de saudações, ofereceu uma taça de vinho a Esmond, oferecimento que o arrumado conde recusou. — Nick me há dito que ainda não entrevistou a possíveis serventes — disse. — Tinha muitas coisas em mente, como por desgraça você sabe. Esmond apertou os lábios. Foi à janela e olhou para fora. — Não tem importância — disse—. Mandarei procurar uma governanta e um mordomo em Paris. — Sou perfeitamente capaz de contratar meu próprio pessoal, monsieur — disse com frieza. Esmond se separou da janela e Leila conteve a respiração. A luz das velas desenhava reflexos dourados em seu cabelo sedoso, e polia os suaves contornos de seu rosto de proporções perfeitas. Sua jaqueta azul, de corte impecável, ressaltava os ombros vigorosos e a fina cintura e dava a seus olhos um tom

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite noite em sua casa, as oito em ponto, tal
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safira escura. Leila desejou ter suas armas — um pincel na mão e um tecido em branco no cavalete— para reduzi-lo a linha e cor, a duas dimensões, a pura estética. Mas estava desarmada, apanhada em uma habitação onde ele se impunha, esse estranho que exigia e concentrava toda sua atenção e desatava um torvelinho de lembranças vergonhosas: o calor de um corpo duro como a rocha apertado, por um instante, contra

o seu

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e aquele aroma, distintiva

a ardente intensidade de um penetrante olhar azul ...

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... e perigosamente dele.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite noite em sua casa, as oito em ponto, tal
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Aquele homem era pura elegância imaculada e cortesia aristocrática, indiferente,

distante ...

e, no entanto, cativava seus sentidos e ela não podia resistir, apesar de sua

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enorme força de vontade. O único que podia fazer era lutar para não perder mais terreno. Segurou a sua fúria com unhas e dentes, como se fora uma corda salva-vidas. Esmond respondeu a seu olhar gélido com um ligeiro sorriso. — Se formos brigar por miudezas, madame, avançaremos com uma lentidão de caracóis. Sei que você não gostou do investigador que lorde Quentin escolheu. — E eu sei que tampouco você gostou— espetou Leila. Esmond manteve o sorriso. — Hão passado duas semanas da morte de seu marido. Qualquer pista que pudesse haver já teria desaparecido. Não se encontraram evidências de ácido prúsico em nenhuma parte: nem no corpo de seu marido nem na casa. Quer dizer, salvo pela tinta. Mas agora sabemos que a tinta não estava no dormitório até que você a pôs ali. Tampouco havia sinais de que forçassem a entrada. Nosso assassino não deixou rastros. Nenhum mísero fiapo. Ninguém viu a nenhuma pessoa (seu marido incluído) saindo ou entrando na casa na noite anterior. Não podemos formular perguntas diretas, pois nos arriscaríamos a que a ira da nobreza inglesa caísse sobre nós e nos esmagasse. Dadas as circunstâncias, parece quase impossível que cheguemos a descobrir quem matou ao senhor Beaumont. Terei que passar o resto de minha vida resolvendo este caso. Naturalmente, estou encantado. Se tivesse tido menos autocontrole, o teria esbofeteado. Tal como estavam às coisas, sentia-se tão furiosa e mortificada que lhe encheram os olhos de lágrimas. Piscou para não chorar.

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Se a tarefa for muito árdua para você — lhe espetou—, lhe diga a lorde Quentin que procure a outra pessoa. Eu não pedi que você fizesse cargo da investigação. — Não há ninguém mais que possa fazê-lo — disse ele—. Como bem sabe, é um assunto excessivamente delicado. Sou o único colaborador de lorde Quentin que possui a discrição que requer o caso. Também sou o único que possui a paciência necessária.

Tenho paciência por dois

coisa que é uma sorte, porque suspeito que você tem muito

... pouca. Acabou de mencionar só uma necessidade menor (serventes de confiança) e você já quer me romper algo na cabeça. Leila sentiu uma quebra de onda de calor subindo pelo pescoço. Deu meia volta, foi ao sofá, sentou-se e cruzou as mãos sobre o colo.

— Muito bem. Mande procurar a esses malditos serventes —resmungou. — É uma medida para protegê-la. —Ismal se deteve frente à estufa de lenha e ficou a estudar a grade—. E também uma questão de discrição. Como temos poucas coisas em concreto, será necessário que falemos e reflitamos freqüentemente. Verei-me obrigado a lhe fazer intermináveis perguntas, algumas delas impertinentes. — Estou preparada para isso — disse Leila. Não o estava. Nunca estaria preparada para ele. — Me apoiando nos dados que você me dê, sairei a procurar mais informação — prosseguiu Esmond—. Logo retornarei e lhe farei mais perguntas. —Olhou-a por cima do ombro—. Compreende? É um processo lento. Muitas vezes terei que passar várias horas aqui. Dado que ninguém deve saber que estou investigando este assunto, minhas visitas poderiam despertar rumores pouco propícios. Para evitá-los terei que visitá-la em segredo, quer dizer, depois de que escureça. Devo entrar e sair da casa sem que me vejam. Desde aí a necessidade de serventes cuja discrição e lealdade sejam indisputáveis. Semanas, pensou ela. Semanas de chegar e partir durante a noite. Fazer perguntas. Investigar. Por que, oh, por que diabos tinha recorrido ao Quentin? Porque a alternativa era ainda pior. Olhou suas mãos cruzadas. — Não posso me arriscar aos rumores. Não poderia pintar retratos em casas

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se a tarefa for muito árdua para você
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...
...

respeitáveis se a gente me considerasse

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se a tarefa for muito árdua para você
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imoral.

— É obvio. A maioria das grandes casas não admite mulheres de reputação incerta. Os ingleses parecem acreditar que as debilidades femininas são contagiosas, enquanto que as masculinas não. —Foi para o gabinete e concentrou toda sua atenção na coleção de objetos orientais—. É por esse motivo que você jamais teve amantes e seguiu vivendo com seu marido. A pesar do torvelinho interno que sentia, Leila esteve a ponto de sorrir diante semelhante definição do dobro moral inglesa. Mas a última frase diminuiu seu entusiasmo.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se a tarefa for muito árdua para você
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— Essa não é a única razão — espetou indignada às costas de Esmond—. Tenho

...

Embora

isso

não

seja

questão

de

sua

minha própria moral, para que saiba

incumbência. — Moral inglesa — disse ele. — Dado que sou inglesa, não vejo que outro tipo de moral poderia ter. — Uma moral prática — disse ele—. Mas você é um claro exemplo da típica consciência inglesa. Seu marido morreu. Isso não é de tudo conveniente, porque a

transforma em uma mulher só que deve se mover ainda com mais cuidado para manter uma reputação sem mácula. O prático seria encontrar um acompanhante discreto que a ajude a passar o interminável período de luto inglês, e logo conseguir outro marido. Leila tragou saliva. —Em troca — prosseguiu—, você procura vingança. Quer vingar a um homem que a humilhou e traiu até a indigestão.

Não podia dar crédito a seus ouvidos. Ficou olhando-o perplexa

...

ou

mas bem

olhando suas costas, porque Ismal se aproximou de uma mesa ornamentada onde

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se a tarefa for muito árdua para você

47

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

havia uma bandeja com licores. Não era isso o que esperava, não daquele homem que se separou dela com tanta frieza, acreditando-a uma assassina. Mas a estas alturas já devia saber que não podia esperar nada. Esmond desafiava toda lógica. Mas não estava disposta a permitir que, com sua atitude, obrigasse-a a ficar à defensiva. — Não importa que classe de homem tenha sido Francis — disse—. Ninguém tinha

direito a matá-lo

muito menos a sangue frio, dessa maneira tão oculta e desprezível.

... Homens muito piores que ele foram assassinados, e os juizes opinaram que os vícios e

o mau gênio da vítima não justificavam o crime. Tampouco creio que justifiquem o que

fiz eu; do contrário, jamais teria recorrido ao Quentin. La

lamento ter demorado tanto

.. em deixar de ser covarde. Compreendo que minha demora lhe pôs as coisas mais

difíceis. — Me parece que é você quem fica as coisas difíceis — respondeu ele—. O que chama covardia é, a meu entender, sensata cautela. Compreendo que tinha muito que perder e nada que ganhar se manifestava suas suspeitas. Não terá que ser muito sagaz para se dar conta. Mas quando as grandes abstrações (justiça, bem e mau, valentia e

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite havia uma bandeja com licores. Não era isso o
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covardia, verdade) entram na equação, ai

então tudo muda.

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... Depois de ter estudado até cansá-los os frascos de licor de Francis, Esmond retornou à janela.

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Leila tentou se concentrar em suas mãos, ou na mesa

em algo menos nele. Não

... pôde. Seus passeios ao redor da sala lhe punham os cabelos em pé. Movia-se com a fluida graça de um gato, sem fazer ruído. A menos que o olhasse, era difícil saber onde estava ou para onde se dirigia ou o que pensava fazer. Já lhe resultava bastante difícil tentar decifrar o sentido de suas palavras e lhes dar uma resposta adequada. — As autoridades foram sensatas e práticas com respeito à morte de meu pai — disse Leila—. Por isso, jamais saberei quem o matou. Que eu saiba, vi a seu assassino e até falei com ele. Não é nada grato conviver com isso. — Lamento-o, madame. Mas Leila não procurava piedade. Desejou que ele tivesse eleito melhor as palavras. A compaixão que notou em sua voz a feriu no mais fundo. — Sei que as possibilidades são remotas — disse—. Mas no caso do Francis é

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diferente. Seu assassino poderia ser uma das tantas pessoas que conheço. Alguém a quem lhe servi o chá, ou com quem jantei. Trato de ser sensata, mas cada vez que vejo alguém não posso evitar me fazer a mesma pergunta. Ponho-me frenética e não deixo de me perguntar: “Terá sido ele?.”

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Esmond deu meia volta. Encontrou-se com o olhar da Leila

e a sustentou.

... — Compreendo que para você seja excessivo conviver com dois mistérios sem resolver. Para mim, a maior parte da vida são mistérios sem resolver. Mas temos distinto caráter, verdade? Seu olhar penetrante a fez estremecer, como se seu segredos fossem criaturas vivas

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite havia uma bandeja com licores. Não era isso o
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que tentassem esconder-se dessa escrutinadora luz azul. — Não creio que meu caráter tenha muito que ver com o problema que temos entre mãos — disse—. A menos que siga suspeitando que matei o Francis. — Essa hipótese me pareceu uma insensatez do começo. E já faz tempo que está

fora de questão. O único enigma era a tinta

e você já o explicou.

... Alagou-a uma sensação de alívio, tão profunda que sentiu vergonha. O fato de que

ele acreditasse inocente ou culpado não teria que ter tido tanta importância para ela.

No entanto, essa preocupação tinha atormentado seus dias e suas noites

porque ele

... a atormentava. Ainda. Esmond via muito, e ela tinha muitos segredos. Só podia rogar que seus penetrantes olhos azuis não os descobrissem. —Isso simplifica as coisas — disse bruscamente—. Eliminou um suspeito. Esmond sorriu. — Agora só ficam várias centenas. Você o que opina? Riscamos lorde Quentin da lista? Leila assentiu.

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48

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

— Se ele tivesse matado Francis, teria tentado me convencer de que estava louca ... e provavelmente me teria mandado diretamente ao manicômio. — Vamos progredindo. Dois suspeitos eliminados. E eu? Possivelmente corri para e desde o Norbury House e de ali a noite anterior, enquanto todos dormiam?

— Não diga tolices. Você não tinha nenhum mo

...

—interrompeu-se em seco. Ardiam-

lhe as bochechas. Com as mãos detrás das costas, Esmond se aproximou do sofá e a observou com atenção. Muito perto. O ar se tinha voltado denso, quente e carregado de tensão. Leila estava segura que Esmond deixava que o silêncio se prolongasse deliberadamente. Porque essa quietude opressiva a voltava mais consciente de sua presença. — Desejo — disse ele, em voz muito baixa. A maldita palavra penetrou com toda sua perversidade no coração da Leila, e ecoou. Parecia reverberar por toda a habitação; era o murmúrio do diabo, tentando-a. — Vamos fingir que não foi assim? —perguntou ele—. Uma mulher como você, tão observadora, fingirá ignorar o que é óbvio? — Não tem sentido discuti-lo — disse com tom cortante—. Sei perfeitamente bem que você não matou Francis. — Mas tinha um motivo muito poderoso. Abrigava pecaminosas intenções para sua esposa. — Você jamais estaria tão estupidamente desesperado — murmurou Leila, olhando- as mãos com o cenho franzido—. Por ninguém. A leve risada de Esmond a fez levantar a vista.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se ele tivesse matado Francis, teria tentado me
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— Concordo em que matar a seu marido não era o caminho mais adequado para alcançar meu objetivo. — Por não mencionar que era muito direto. Seus olhos azuis relampejaram. — Devo interpretar que você preferiria que eu fora mais direto?

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se ele tivesse matado Francis, teria tentado me

— Eu prefiro falar do crime — disse ela—. O contrataram

para fazer isso.

atribuído

ou

o

que

...

...

diabos seja

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se ele tivesse matado Francis, teria tentado me

... —Farei isso, prometo. — Isso é tudo o que de

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tudo o que peço.

... —É obvio — aceitou amigavelmente. — Muito bem, então. —Tinha as palmas das mãos úmidas. Fez como que alisava uma ruga em sua saia—. Supondo que gostaria de começar. — Sim. No dormitório.

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Paralisaram-lhe as mãos. — A cena do crime — disse ele. Havia um sotaque de brincadeira em sua voz. — Pensei que os oficiais tinham revisado todos os rincões da casa — disse ela,

...

depois de duas

tratando de que sua voz não a delatasse—. Espera encontrar algo útil

semanas? — Espero que você encontre algo útil para mim. Você convivia com a vítima, eu apenas a conhecia socialmente. É você quem mais coisas pode me dizer a respeito de seu marido, de seus amigos, de seus hábitos. E além disso é uma artista. Seu poder de observação a converte em uma sócia muito útil nesta empresa. Nas duas últimas semanas a cabeça da Leila tinha sido um viveiro de perguntas, hipótese e especulações. Tinha advertido muitas coisas, mas suas observações não a tinham levado a nenhuma conclusão satisfatória. Preparou-se para cooperar e compartilhar suas observações com toda liberdade e franqueza. Não tinha por que se mostrar relutante a entrar com um investigador no dormitório de Francis. Era coisa de negócios. Nada mais. Esmond já estava na porta. Esperando. Leila ficou de pé. —Confio em que ninguém o terá visto entrar. —Sua voz soava um pouco alterada—. Não seria conveniente, já sabe ...

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite — Se ele tivesse matado Francis, teria tentado me

49

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite

—Sou consciente do que é apropriado e o que não o é —disse ele—. As aparências são o mais importante para vocês os ingleses. Tivesse querido degolá-lo. — As aparências. —Cobriu a distância que os separava com grande rapidez—. É um sarcasmo ou uma insinuação? Notei que é muito hábil com ambas as estratégias discursivas. E com as aparências. Esperava que abrisse a porta, mas Esmond se limitou a olhá-la sorrindo. — E qual de minhas aparências lhe terá chamado mais a atenção, pergunto-me? — disse em voz muito baixa—. Acaso terá sido a da sala de investigação, como oficial? Leila pestanejou. — Santo Deus. Como soube que eu ? ... — Eu deveria lhe perguntar exatamente o mesmo a você. Quentin não me

reconheceu até que falei com ele

com minha própria voz.

adivinhei-o.

... — Eu não sabia — disse ela—. Sozinho

... — Sentiu-o — a corrigiu ele—. Há uma diferença. O coração da Leila pulsava desbocado. —S ou observadora. Você mesmo acaba de dizê-lo. — Senti-me muito desconcertado — disse ele. — Pois bem, monsieur, me permita lhe dizer que me há devolvido o favor. Como diabos se deu você conta? Esmond encolheu de ombros. — Talvez possa ler a mente. — Ninguém pode. — Então o que foi? —Sua voz era apenas um sussurro. Leila advertiu que se aproximou vários centímetros sem que se desse conta. Apoiou a mão no trinco. — Creio que me estão levando por um atalho que não quero seguir — murmurou. Abriu a porta de repente, saiu e se encaminhou para a escada.

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite —Sou consciente do que é apropriado e o que
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Capítulo 5

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Série Canalhas – 02 Cativos da Noite —Sou consciente do que é apropriado e o que
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Ismal tinha plena consciência de que Leila fazia grandes esforços por acreditar que seus motivos eram puramente profissionais. E também tinha plena consciência de que

Ismal tinha plena consciência de que Leila fazia grandes esforços por acreditar que seus motivos eram
Ismal tinha plena consciência de que Leila fazia grandes esforços por acreditar que seus motivos eram

ela não teria que se esforçar tanto se ele soubesse se comportar, algo que tinha razão de sobra para fazer. Em primeiro lugar, era o cúmulo da estupidez se prender — da maneira que fosse— com um envolvimento, homem ou mulher, em uma investigação. Em segundo lugar, de acordo com o código albanês de honra, estava em dívida com ela pela morte de seu pai. Embora seus homens não tivessem matado Bridgeburton, tinham deixado indefesa sua casa em Veneza, facilitando a incumbência do assassinato. Proteger Leila durante a investigação e fazer justiça encontrando ao assassino de seu marido era uma forma de emendar o dano que lhe tinha ocasionado impensado uma década atrás. Utilizar seu formoso corpo para satisfazer sua luxúria era somar o insulto à ofensa. Em último lugar, embora não por isso menos importante, Leila era uma mulher perigosa. Sua lembrança o tinha perseguido sem cessar desde que saiu de Paris, e o tinha miserável para ela contra toda razão. Leila tinha comovido seus sentimentos com tanta intensidade que não só tinha cometido um engano, a não ser um engano

incrivelmente estúpido. O pior de tudo era que ela podia lhe ver o jogo

Não tudo, por

... sorte, e nem sequer uma parte. No entanto, o fato de que tivesse podido ver um brilho

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de verdade demonstrava às claras que era um problema sério. E no entanto a seguia desejando, mais que nunca. E assim, em vez de se comportar como um cavalheiro, tinha-lhe feito propostas sexuais deliberadamente, pondo a prova seu poder de atração fatal contra sua feroz

resistência. O qual demonstrava — se é que ainda necessitava mais evidencia— quão perigosa era essa mulher para ele. Agora mesmo, seguindo-a escada acima, não contemplava a iminente cena do

crime

a não ser seu corpo tentador.

... O negro lhe sentava muito bem, e esse vestido em particular estava diabolicamente bem desenhado. Apesar das ombreiras e as mangas exageradamente grandes — que obedeciam os ditados da moda—, seu arrebatadora silhueta luzia em toda sua atrativa exuberância. A mais fina sarja envolvia seus peitos generosos e firmes, acariciava com sensualidade sua pequena cintura e descendia com elegância sobre a prodigiosa curva de seus quadris. Ismal tinha estudado a incontáveis mulheres, vestidas e despidas, não sempre com atitude distante ou indiferente. Não era imune ao desejo nem desejava sê-lo, porque o desejo era a sala de espera do prazer. No caso da Leila, era um convite ao desastre. Um convite irresistível, admitiu para si ao chegar ao topo da escada. Um solitário abajur de azeite brilhava sobre uma mesa baixa, perto da porta do dormitório principal. A suave luz acariciava os reflexos dourados de seu cabelo e parecia acender faíscas douradas em seus olhos, mas o resto estava em sombras. Assim era o desejo, uma luz incerta e tremente em meio da escuridão da injustiça. Agarrou o abajur, abriu a porta, e permitiu que ela entrasse primeiro. — Pode deixar o abajur na mesa de cabeceira — disse Leila. Tinha a voz quebrada—.

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Não é que haja muito que ver. Menos do que viu antes, disso estou segura. — Me permita vê-lo com seus olhos — disse Esmond. Deixou o abajur e se deteve junto à estufa de lenha, na zona de maior escuridão. Sabia como se fazer invisível. Com ela seria difícil mas, transcorridos uns minutos, se agisse com cautela, Leila esqueceria, ao menos parcialmente, que ele estava ali—. Conte-me o que viu. Leila permaneceu calada um instante, olhando ao seu redor e tentando se recompor. Esmond se perguntou se aquela habitação, pela que havia passado a morte, seria o

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que mais a perturbava

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ou se seria ele.

... — O mais estranho de tudo era a ordem — disse por fim—. A maior parte da casa

estava tão ordenada que pensei que Francis só tinha estado de passagem por aqui durante meus dois dias de ausência. O problema é que duas circunstâncias contradiziam essa hipótese. Uma: suas roupas não emprestavam, nem tampouco estavam tão enrugadas e manchadas como depois de uma noite de farra. Dois: havia muitas garrafas de vinho na cozinha. Sua voz já soava mais acalmada, sua postura era mais relaxada. Ismal adivinhou que não só se havia posto rígida para falar do tema, mas sim tinha organizado seus pensamentos de antemão.

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— Francis não gostava de beber sozinho — lhe explicou—. A única conclusão que posso tirar é que, fosse o que fosse o que fizesse essa noite, não foi o habitual. Ou teve companhia e não armou alvoroço, ou ficou sozinho em casa e não armou alvoroço, ou saiu e se comportou decorosamente. Avançou com decisão até os pés da cama. — Considerei a possibilidade de que tivesse trazido uma mulher a casa, e que ela tivesse sido do tipo das que limpam os desastres que fazem os homens. Mas tampouco

havia sinais disso

Quer dizer, nenhum sinal reconhecível. Francis já tinha trazido

... prostitutas a casa quando eu não estava. E, no entanto, tinha a coragem de se queixar

porque eu me negava a compartilhar a cama com ele. Fez uma pausa muito breve e prosseguiu com voz gelada. — Não tem sentido fingir que outros não sabem, ou que me incomodava que

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soubessem. Preferia que me considerassem uma esposa insensível a uma mulher ligeira de cascos. Como já comentamos, uma reputação de cabeça-de-vento prejudicaria minha carreira. E tampouco me incomodava que tivesse amantes. Melhor elas que eu, pensava. — Mas não sempre foi assim, verdade? —perguntou-lhe Ismal. Tivesse querido morder a língua antes de falar, mas precisava saber. O frio e cínico discurso da Leila o levou a Veneza e à menina que tinha deixado desprotegida. Seu matrimônio tinha durado quase dez anos, o qual significava que se casou com Beaumont pouco depois

da morte de seu pai. Após, a vida lhe tinha ensinado a ser cínica. E embora, até certo

ponto, a todo mundo ocorria o mesmo

...

Ismal

não podia

evitar que isso lhe

incomodasse. — Não, é obvio que não sempre foi assim — respondeu Leila—. Tinha dezessete anos quando me casei com o Francis e estava loucamente apaixonada. Creio que foi fiel durante um tempo. Tinha vinte anos a primeira vez que adverti um perfume alheio e manchas de lápis de lábios em suas roupas. Inclusive depois disso, demorei um tempo em compreender a magnitude de suas infidelidades. Deu a volta para olhá-lo. — É uma questão de grau. Toda esposa está preparada para um deslize ocasional, até para uma amante fixa. Mas Francis era um Don Juan. Com as mulheres lhe

Série Canalhas – 02 Cativos da Noite soubessem. Preferia que me considerassem uma esposa insensível a
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acontecia o mesmo com o álcool, e depois com o ópio. Não podia fazer nada com

moderação. Mas tudo tem um limite

...

ao menos para mim. E o martírio não é meu

estilo. — Os mártires me fazem perder a paciência — confessou Ismal. Suas palavras lhe arrancaram um tênue sorriso.

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