OS GÊNEROS DO SUBSTANTIVO NA GRAMÁTICA NORMATIVA E NA DE MATTOSO CÂMARA JR.

A gramática normativa Quanto aos gêneros dos substantivos há diferenças entre as definições da Gramática Normativa (representada nesse trabalho pelo autor Evanildo Bechara) e as definições de Mattoso Câmara Jr. Segundo o gramático Evanildo Bechara, “Todo substantivo está dotado de gênero, que, no português, se distribui entre o grupo do masculino e o grupo do feminino. São masculinos os nomes a que se pode antepor o artigo o (...) e são femininos os nomes a que se pode antepor o artigo a.” (BECHARA, 2005: 131). Não é o fato de existir na língua portuguesa duas palavras diferentes para designar o indivíduo macho e o indivíduo fêmea que nos permite afirmar que existam dois gêneros de substantivos, mas sim o fato de o adjetivo, o pronome, o artigo, etc. se apresentarem em duas formas diferentes para distinguir os pares opositivos. A variação das formas do artigo, adjetivo e pronome que acompanham o substantivo é considerada flexão. Com isso podemos pensar também que a diferença de gênero é caracterizada pela flexão dos substantivos, mas logo no início da página seguinte da citada anteriormente o autor dá uma informação nova e revolucionária: “Só que esta determinação genérica não se manifesta no substantivo da mesma maneira que está representada no adjetivo ou no pronome, por exemplo, isto é, pelo processo de flexão” (BECHARA, 2005: 132). O morfema –a, segundo Bechara, tem uma função cumulativa derivativa que atualiza o léxico, pois na oposição de masculino e feminino além da diversidade de sexo há também a atribuição de certas qualidades semânticas, já que o masculino é considerada por esse gramático como uma forma geral, não marcada semanticamente, enquanto o feminino expressa uma especialização. Podemos ver isso no par barco/barca em que o masculino representa o objeto genérico e o feminino representa uma espécie diferente de barco. Então a distinção de masculino/feminino nos substantivos, representada na morfologia pelo gênero, é feita por um processo de derivação e não flexão. “A distinção dos gêneros nos substantivos não tem fundamentos racionais, exceto a tradição fixada pelo uso e pela norma (...)” (BECHARA, 2005: 133). Percebemos que há uma tênue linha que separa gênero e sexo do substantivo, misturando essas noções. A distinção de sexo nos seres animados se manifesta na diferença de gênero dos substantivos, através: 1. Da mudança de sufixo (gato/gata) ou, 2. Da utilização de palavras diferentes (homem/mulher). Quando não há nenhum destes dois tipos de manifestação formal ocorre que:

Nos estudos do lingüístico e estruturalista Mattoso Câmara Jr. ponte. subdividem-se os substantivos. o autor propõe como solução. Também os substantivos terminados em – e. têm seu gênero determinado pela anteposição do artigo: (a) ponte. por exemplo. vemos que a distinção de gênero nos substantivos da língua portuguesa é um reflexo da noção de gênero utilizada no latim clássico. (o) dente. lente. “ponte” não terminam em –a. em que existe uma forma não-marcada (o masculino) e uma forma marcada (o feminino). palavras como “lente”. segundos os gêneros da seguinte maneira: . pente. Pensando ainda no masculino como uma forma não-marcada. (a) mestra. A classificação dos substantivos quanto ao gênero Na Gramática Normativa. não poderíamos classificá-las como masculinas. (a) loba. diz respeito ao uso do artigo para designação do gênero do substantivo. Ao contrário da gramática normativa. enquanto na forma masculina não existe marca. é o artigo que vai determinar qual é o gênero desse nome: (a) rosa. A gramática de Mattoso Câmara Jr. o que caracteriza um caso de oposição privativa. dente. Dessa forma também. (a) tribo. porém são femininas. como: (o) lobo. já que considerar – o e – e desinências de masculino seria um problema. Sabendo que há nomes do português que são designados por um único gênero. O substantivo se mostra indiferente à designação de sexo (a criança) ou. (o) amor. existe a concordância do artigo (ou outro determinante) com o gênero do nome a que se refere. (o) autor. (o/a) estudante. (a) flor. Já os ditos substantivos comuns de dois gêneros não sofrem flexão e saberemos se o nome se refere a um ser do sexo masculino ou feminino também pela anteposição do artigo: (o/a) intérprete. Outra importante observação de Mattoso Câmara sobre o gênero. Porém a oposição entre masculino e feminino só era percebida nitidamente nos adjetivos. além da flexão através de uma marca morfológica.1. Há um adjunto que acompanha o substantivo para designar o sexo (o artista/ a artista). (o) pente. (o) livro. Afinal. (a) juriti. (a) autora. (o/a) artista. mas após um processo morfológico de eliminação do gênero neutro. Mattoso Câmara considera a mudança de gênero (a variação de morfema zero para morfema –a) flexão e não derivação. (o) planeta. Quanto ao gênero dos substantivos Mattoso Câmara diz que a marcação morfológica de gênero em princípio é uma desinência zero para designar o masculino em oposição a um feminino em – a. (o) mestre. a consideração de – o. 2. Mattoso Câmara ressalta ainda a caracterização redundante que sofrem alguns substantivos. (a) lente. A forma feminina sempre é marcada em – a. (o/a) mártir. (o) colibri. Neste caso. – e como vogais temáticas nominais e a caracterização do feminino com o morfema –a. vamos atestar que. nesse caso.

Ex: O motorista / A motorista Já na classificação do Prof. Mattoso. Nomes de dois gêneros sem flexão: o/a estudante. mas marcantes diferenças entre as noções de marcação de gênero no substantivo entre a Gramática Normativa e a Gramática de Mattoso Câmara principalmente na classificação de alguns substantivos quanto à formação e mudança de gênero e na consideração da marcação ou nãomarcação morfológica em todas as palavras do gênero masculino. o jacaré. Os epicenos designam alguns animais e tem um só gênero. Mattoso Câmara julga mais coerente designar os termos epicenos ou promíscuos como termos de gênero único. Os sobrecomuns designam pessoas e apresentam um só gênero para masculino e feminino. Ex: cobra macho e cobra fêmea. 2. Para diferenciar. ainda. a cobra. sobrecomuns e comuns de dois gêneros. Subdividi-se. de forma indireta. Como vemos. em epicenos.e faz-se a diferenciação através de artigos. . o/a artista. temos : 1. Ex: A criança / O indíviduo Os comuns de dois gêneros apresentam uma só forma para masculino e feminino. pronomes ou adjetivos. Nomes substantivos de dois gêneros com flexão redundante: o lobo/ a loba. Ex: Garoto e Garota Substantivo Uniforme – Refere-se àqueles que possuem uma só forma para indicar tanto o masculino quanto o feminino. considerando-se que há apenas uma marcação de gênero: o feminino (-a). delimitando o sexo. 3. o/a mártir. o algoz. Conclusão Assim podemos concluir que há poucas. a testemunha.Substantivo Biforme – Apresenta uma forma pro feminino. Concluímos também que a gramática normativa considera apenas a derivação na formação do gênero dos substantivos o que na gramática de Mattoso Câmara é chamado de flexão e só em alguns casos dotados de mudança semântica o gênero é formado pelo processo de derivação. a casa. e outra pro masculino. o autor/ a autora. Nomes substantivos de gênero único: o carro. o mestre/ a mestra. utilizamo-nos das palavras macho e fêmea.

História e Estrutura da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna. 2005.filologia.br/revista/artigo/6(16)26-36. Rio de Janeiro: Padrão. J.BIBLIOGRAFIA BECHARA. e ampl. 1975. . 37ª ed.html. Moderna gramática portuguesa. http://www. SANTOS. Acesso em: 05 abril 2008.org. CÂMARA JÚNIOR. Jayme Célio Furtado dos. rev. M. Evanildo.

2008 .INTRODUÇÃO À MORFOLOGIA Nomes: Débora Domiciano Garcia Iracema Iris Gonçalves Liana Maria Bello Mayra Berto Massuda Patrícia Oréfice Araraquara .

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