MODELAGEM DE BRISAS E CIRCULAÇÃO VALE-MONTANHA PARA O VALE DO PARAÍBA E LITORAL UTILIZANDO O RAMS Jojhy Sakuragi e Leticia Helena

de Souza Laboratório de Meteorologia – UNIVAP Rua Paraibuna, 75 – Centro - São José dos Campos, SP – CEP: 12245-020 (jojhy@univap.br e leticia@univap.br) ABSTRACT The objective of this paper is to present the simulation of breeze (ocean and mountain) atmospheric circulation over Vale do Paraíba and Litoral, using RAMS (Regional Atmospheric Modeling System). Surface contour such as land/water portion, vegetation type and topography was introduced over 4x4 km grid obtained from MAVALE Project. The interaction of different systems added the complex surface structures is presented in the results of RAMS simulations. Some configurations of breeze fronts after 20 hour integration indicate the possibility existence of thunderstorm area such as observed in real situation. 1. INTRODUÇÃO O regime de precipitação na região do Vale do Paraíba e Litoral é bastante particular devido às suas características topográficas. O vale é circundado por duas serras, a Serra da Mantiqueira a noroeste onde o pico mais alto atinge 2400 m e, a Serra do Mar a sudeste, com 2000 m. Os sistemas que atuam nessa região são: as circulações de brisa vale-montanha e brisa marítima, os sistemas convectivos e os sistemas sinóticos. Nos primeiros estudos realizados sobre a região, a precipitação ocorre devido a forçante orográfica e apresenta um gradiente intenso na Serra do Mar e um segundo gradiente na Serra da Mantiqueira, mas de intensidade menor, pois parte da umidade ficou retida na primeira formação. Este fato pode ser verificado na Figura 1 onde é apresentada a distribuição da normal climatológica da precipitação (Perrella, 1999) calculado no período de (1966-1997) sobre a topografia do Vale.

Figura 1 – Distribuição espacial da precipitação no Vale do Paraíba e Litoral Norte.
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A escala em tons de azul na parte inferior do gráfico indica a porcentagem de terra/água em uma área de 16 km2. Fonte: Adaptado de Souza e Sakuragi (1999). seria facilitado pela existência de uma região com baixa elevação na Serra do Mar. A área de estudo foi dividida em pequenas áreas de 4x4 km e a porcentagem terra/água foi calculada qualitativamente sobre essa área de 16 km2. Aproveitando-se a mesma divisão de áreas ou escala. Este canal tem elevação em torno de 700 m (300 m abaixo dos cumes vizinhos). vegetação. o objetivo deste trabalho é apresentar alguns aspectos da circulação atmosférica do Vale do Paraíba utilizando o modelo de mesoescala RAMS (Regional Atmospheric Modeling System). O levantamento das características superficiais do Vale do Paraíba e Litoral para a resolução de 4x4 km. O resultado final é apresentado na Figura 3.6ºS e 45.. próximo a Caraguatatuba (ponto 73 na Figura 1 ou coordenadas 23. a faixa litorânea e inclusive as ilhas estão bem delineadas. 1619 . O Rio Paraíba do Sul. em hipótese. O resultado é apresentado na Figura 2.A penetração da brisa marítima. PARAMETRIZAÇÃO DA SUPERFÍCIE As condições de contorno da superfície como topografia. Assim. envolvendo a área de estudo foi baseado no mapa de ocupação de solo do Projeto Macrozoneamento da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte do Estado de São Paulo (MAVALE) (Kurkdjian et al.5ºW). A compreensão da dinâmica desses processos contribui para o entendimento e melhoria da qualidade da previsão de tempo em escala regional. formando uma canalização de ventos fortes e úmidos para a região de São José dos Campos (SJC na Figura 1). 2. foi extraído do Projeto MAVALE a cobertura vegetal adaptando-se a legenda utilizada pelo RAMS. é necessário um estudo mais aprofundado utilizando-se de um modelo com alta resolução espacial coerente com a complexidade da superfície apresentada pela região. Entretanto. Figura 2 – Porcentagem Terra/água para a área de estudo com resolução de 4x4 km. as represas. As áreas hidrográficas estão bem representadas mesmo diminuindo a resolução espacial para 4x4 km. porcentagem terra/água são forçantes importantes e devem ser descritas com a mesma resolução espacial do modelo para que a mesma apresente simulações coerentes. 1992).

2000). embora o SP2 da UNIVAP possua 4 processadores (ou nós). elevando o tempo de processamento para 4. RAMS (REGIONAL ATMOSPHERIC MODELING SYSTEM) O RAMS foi desenvolvido pela Universidade do Estado do Colorado para a simulação e previsão de fenômenos meteorológicos em mesoescala (Walko et al. aproximadamente. versão antiga do software que não utiliza a técnica de processamento paralelo. a partir dessa camada. No último levantamento feito por satélite Landsat-5 (INPE. A data para a simulação foi o início do mês de fevereiro para definir o período sazonal da radiação solar. assim como as áreas de vegetação nativa ou Mata Natural. resolução de 500 m. • início da integração: 9 da noite para o mês de fevereiro. 3. e. Os resultados são apresentados a seguir. a vegetação nativa ocupa uma área menor. 40 em Z e 16 no solo. a CPU diminui para 55%. A parte colorida representa a topografia (m) e a variação das cores é a mesma da Figura 1. com 95% de CPU dedicado ao RAMS no nó 1 (o nó 1 é o que gerencia o acesso ao disco rígido). O modelo é baseado nas equações dinâmicas primitivas que governam os movimentos atmosféricos. Algumas adaptações e correções realizadas no DCA/IAG/USP (Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo) foram incorporadas à versão instalada no IBM SP2 da Faculdade de Computação da UNIVAP. A área de ocupação urbana está um pouco superestimada devido a resolução adotada (4x4 km). • sem microfísica e sem parametrização de cumulus. As principais configurações do RAMS foram: • pontos de grade: 63 em X. comparado qualitativamente.3 horas no SP2. 1999). A versão processada é o RAMS 3b.Figura 3 – Vegetação do Vale do Paraíba (Souza e Sakuragi. As linhas azuis indicam a porção terra/água de acordo com a Figura 2 e em cor preta o vetor vento (m/s).5 horas. Quando há processamento em outros nós. 1620 . DISCUSSÕES DOS RESULTADOS O tempo de processamento do RAMS para um hora de integração é de aproximadamente 2. Na figura 4 é apresentado o vento em 1000 hPa para 11 horas de integração. 4.. 54 em Y. • resolução temporal: 4 segundos para ponto de grade e 1 segundo para processos subgrade. • estado básico nulo. 1995). • resolução espacial: 4x4 km e incremento de 100 m + 10% próximo a superfície até a camada 20.

a brisa marítima avança com mais facilidade devido a topografia mais baixa. inicia-se uma divergência. Na Serra da Mantiqueira. A brisa vale-montanha é mais intensa do lado leste da Serra da Mantiqueira devido ao aquecimento pelo sol nascente formando uma área de divergência do vento no vale. como o vento sudeste era mais intenso. entre o continente e a Ilha Bela. No litoral. a brisa marítima penetra mais chegando no ponto mais alto da Serra do Mar (Figura 6).CAR). região relativamente mais alta. a região de convergência ultrapassa a parte mais alta em direção noroeste vencendo o vento de noroeste. É importante observar que a divergência formada entre a ilha e o continente impede o avanço mais forte pela topografia mais baixa que a média (ao norte de Caraguatatuba . Na Figura 5 é apresentado o campo de vento após 13 horas de integração. Uma outra região de convergência surge a leste do vale. Às 10Z ou 7 h (hora local) é o período de máximo resfriamento radiativo. Continuando com a integração. a superfície continental começa a se aquecer e faz com que o vento gire em sentido anti-horário devido a força de coriolis.Figura 4 – Simulação da circulação no Vale e Litoral com 11 horas de integração. A brisa valemontanha também atua. a brisa marítima começa a penetrar e. Com 15 horas de integração (14Z). com mais intensidade na região de UBA – Ubatuba e Ilha Bela. portanto. 1621 . Na parte mais alta da Serra da Mantiqueira. com o vento catabático deslocando-se em direção ao vale. No sul. forma-se uma pequena divergência do vento. Essa região é a parte mais baixa do vale e também “úmida” (vide Figura 2) e faz com que os ventos “subam” em direção oeste. dando origem a brisa marítima e vale-montanha. pode-se observar a brisa terrestre em todo o litoral.

Essa intensificação da convergência poderia explicar a formação de sistemas precipitantes que trazem chuvas intensas em Guaratinguetá e Aparecida (cidade próxima). todas as regiões de convergência avançam em direção à área central do vale. A baixa topografia formando uma espécie de canal facilita esse avanço e essa configuração poderia explicar os sistemas convectivos que se formam ao sul de Taubaté no verão. 1622 .Figura 5 – Simulação da circulação no Vale e Litoral com 13 horas de integração. Outro fato interessante é a convergência que se inicia sobre a pequena elevação a noroeste de Cunha (CUN). a brisa marítima começa a ultrapassar a parte mais alta da Serra do Mar em direção ao vale. a brisa também avança formando uma configuração parabólica. Na Figura 8 é apresentado o campo de vento após 20 horas de integração (19Z). Com mais uma hora de integração (15Z). Na parte sul do litoral. Nessa fase. O formato da frente de brisa na Serra do Mar é bem semelhante ao gradiente de precipitação mostrado na Figura 1. pois o vento contra da brisa vale-montanha é relativamente mais fraco (Figura 7). A região de convergência que se deslocou de leste para oeste próximo a Guaratinguetá (GUA) encontra-se com a brisa marítima. essa configuração de penetração da brisa marítima foi detectada nas imagens do radar meteorológico de São José dos Campos. Em alguns momentos. A brisa marítima avança continente adentro ligeiramente mais intenso ou rápido próximo a Taubaté.

a vegetação e a hidrografia de alta resolução foi fundamental para a simulação da circulação das brisas. O vento analisado foi o de 1000 hPa. deve-se futuramente analisar o vento em coordenadas sigma para retratar melhor o vento de superfície. 5. A configuração da brisa marítima após sobrepujar a brisa vale-montanha é semelhante a distribuição da precipitação na região do Vale e Litoral. Por outro lado. CONCLUSÃO E PERSPECTIVAS As simulações utilizando o RAMS permitem uma análise técnica da atuação de vários sistemas conjugados em uma região como o Vale do Paraíba e o Litoral. O canal formado pela baixa topografia ao norte de Caraguatatuba não condiz com a hipótese de facilitar a penetração da brisa marítima. A convergência de leste foi gerada nas simulações do RAMS e o seu encontro com a brisa marítima poderia explicar as intensas precipitações que ocorrem na região de Guaratinguetá e Aparecida. A descrição da superfície para o RAMS utilizando topografia. A forma da brisa marítima no litoral sul é bem semelhante ao detectado pelo radar meteorológico de São José dos Campos. A presença da ilha de Ilha Bela produz um divergência do vento diminuindo a velocidade do vento em direção ao canal. onde a configuração da superfície apresenta grande complexidade. 1623 . a baixa topografia ao sul de Taubaté facilita o avanço da brisa marítima em direção ao vale. Para uma análise mais correta.Figura 6 – Simulação da circulação no Vale e Litoral com 15 horas de integração.

como subsídio ao Planejamento Urbano. 3. C. 1992. 1999. São José dos Campos. Walko. Perrella.H e Sakuragi. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Tecnologia Espacial no Planejamento Municipal – Urbano e Rural. RAMS – Regional Atmospheric Modeling System. Condições de contorno da superfície para modelagem numérica de tempo utilizando o RAMS. Hertenstein. ASTER Division. com base no atendimento pela Defesa Civil e na pluviometria regional. Macrozoneamento da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte do Estado de São Paulo. R. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) – Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento. IP&D . J. Mission Research Corporation..L. User´s Guide. Version 3b. Universidade do Vale do Paraíba. 1999. Kurkdjian.N.C.F.Uma análise mais profunda deve ser realizada utilizando-se outras variáveis e também ativar a microfísica de nuvens no modelo RAMS na tentativa de simular as atividades convectivas. Estudo e localização das áreas de inundação em São José dos Campos-SP. Souza. INPE: Cachoeira Paulista e São José dos Campos. L. São José dos Campos: INPE. assim como um estado básico coerente com algumas situações típicas de penetração de brisa marítima.O. 1624 .A. Tremback. 176 p. 2000.. Anais: Encontro de Iniciação Científica. 1995. et al.F. 91p.UNIVAP. R. A.J. (INPE-5381-PRP/165).L. M.

Figura 7 – Simulação da circulação no Vale e Litoral com 16 horas de integração. Figura 8 – Simulação da circulação no Vale e Litoral com 20 horas de integração. 1625 .

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