Alcântara Machado

MANA MARIA
1 - Vá perguntar pra mana Maria. Era assim desde que a mãe morrera. Era assim a propósito de tudo. Mana Maria é que resolvia, mandava, punha e dispunha, fazia, desfazia. E Ana Teresa obedecia. Quando Dona Purezinha morreu, deixou Ana Teresa com dez anos. Tinha duas tranças compridas e com uma delas quis enxugar as lágrimas diante do cadáver da mãe. E foi ai que sentiu pela primeira vez a nova autoridade. Mana Maria deu um puxão na trança e lhe pôs um lenço na mão: - Enxugue com o lenço. Lenço seco. De fato a coragem de mana Maria foi uma coisa que admirou toda a gente. Não derramou uma lágrima. Não teve um gesto, uma expressão de sofrimento. Ninguém esperava tanta fortaleza de ânimo num corpo tão franzino. Dona Purezinha agonizou seis meses com um cancro no piloro. Era gorda, foi ficando magrinha. Também era boa, paciente, e foi ficando má, impertinente. Parecia que tudo nela morria, menos os olhos que enxergavam uma sombra de poeira na cômoda e os ouvidos que percebiam lá longe, na cozinha, o bater de um prato na pia. Em torno dela foi se fazendo um silêncio que já era de túmulo. Primeiro se suprimiu o piano de Ana Teresa. Para ela foi uma alegria. Mesmo a aula de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Religião, Desenho e Caligrafia, tudo ensinado por Dona Mercedes, passou para o porão. No porão vivia. Subia para almoçar, lanchar. jantar, dormir. Fora disso, mal punha os pés na escada que conduzia â copa, uma criada, a irmã, o pai, alguém falava: - Não venha que mamãe está doente. Era o estribilho. Pegava no voador, rodava dez metros no cimento do jardim, uma janela se abria: - Não faça barulho! Mamãe está doente! Na mesa, não queria sopa ou queria pão com manteiga e açúcar: - Seja boazinha. Olhe que mamãe está doente. Aos poucos se habituou. Ficava no quarto grande do porão horas e horas vendo a arrumadeira passar roupa. Também ia visitar o galinho garnisé. Corria atrás dele, ele não se deixava pegar, ela dizia: - Não faça barulho que mamãe está doente.

Até que chegou também o dia do garnisé. O canto dele incomodava Dona Purezinha. Foi para a faca. E Ana Teresa nem direito de chorar teve porque mamãe estava doente. Já era sossegada de natureza, ficou uma santinha na opinião da cozinheira. Parecia gente grande. Amorteceram com algodão a campainha da entrada, a campainha do telefone. Todos se entendiam por gestos. Joaquim Pereira pensou até em imitar o vizinho senador que quando a mulher esteve para morrer arranjou uns grilos que não deixavam os choferes tocarem cláxon nas imediações. Mas desprovido de qualquer influência política desistiu da idéia. Ana Teresa passou a fazer parte do silêncio: se perturbava quando falavam perto dela. Quase no ouvido da professora segredava as capitais dos Estados do Brasil. E ficou com o hábito de responder movendo a cabeça, sacudindo os ombros, movendo as mãos. A boniteza dela não entristeceu: ficou indiferente, perdeu a vivacidade, ficou distante. Uma madrugada mana Maria acordou Ana Teresa. Como estava, de camisola e descalça, foi levada até o quarto de Dona Purezinha. O pai a ergueu nos braços, molhou de lágrimas o rosto dela, abraçou forte, beijou muito a filha. Depois falou: - Venha beijar sua mãezinha que foi pro céu. No quarto estavam um padre, o médico, a enfermeira, tio Laerte e a mulher dele, tia Carlota. Ana Teresa sacudida pelo choro agarrou na mão da morta, deu um beijo. Porém silencioso. Alguém falou: - "Pobrezinha". Com certeza tia Carlota que a tirou do quarto. Ana Teresa viu no fundo do corredor uma vela acesa nas mãos de mana Maria. Teve medo, dobrou o braço no rosto. Voltou carregada pro seu quarto. Ainda ouviu mana Maria falar: - É bom que tio Laerte vá encomendar o caixão. Na hora do enterro é que mana Maria não a deixou enxugar os olhos com a trança. Foi o primeiro gesto de mando. E por isso Ana Teresa nunca mais esqueceu dele. Era um quadro que ela via sempre. Sobretudo de noite, no escuro, de olhos fechados, na cama: a sala repleta, o caixão muito alto e florido, a cara barbuda do pai, o jeito duro com que mana Maria lhe puxou a trança, lhe deu o lenço. Lenço seco. E três dias depois, logo de manhã cedo, Ana Teresa teve a revelação física de mana Maria. Até então nunca reparara direito na irmã. Quer dizer: reparara sim, mas sem compreender. Nessa manhã ela principiou a compreender. Pela primeira vez a viu de óculos. E isso já foi uma surpresa. Nunca suspeitara da existência daqueles óculos de aros de tartaruga. Nunca, nunca mana Maria pusera os óculos na presença dela. Pois mana Maria a recebeu assim, de óculos. Estava com a costureira e mandara chamar Ana Teresa para tomar as medidas. Ana Teresa ficou em pé, no meio do quarto, imóvel, com os olhos nos óculos. A arrumadeira entrou, Ana Teresa olhou para ela e viu também nos olhos dela a mesma surpresa dos óculos. Nunca, nunca mana Maria aparecera de óculos para ninguém. Ana Teresa se deixou dominar por aqueles vidros redondos, aqueles aros de tartaruga manchada. Sentiu a autoridade daqueles óculos. Aumentou nela o respeito que já tinha pela irmã mais velha e que a levava instintivamente a chamá-la mana Maria. Não Maria simplesmente. A irmã, quinze anos mais velha, impôs-se desde logo ao respeito de Ana Teresa. E esse respeito se exprimiu como de regra por um título: mana Maria valia por Doutora Maria, Excelentíssima Senhora Baronesa Maria, Sua Majestade a Rainha Maria. Sempre a chamou assim. Ana Teresa olhava os óculos. Depois disfarçou, olhou as mãos. Mãos magras, unhas bem tratadas, mãos esquisitas. Magras demais. Depois bruscas. Faziam tudo depressa. Ajeitavam o cabelo com um repelão. Ana Teresa olhou os cabelos. Eram

ondeados. Eram pretos. Pretos demais. E não eram cortados. Todas as moças usavam os cabelos cortados. Todas. Mana Maria não usava. Mana Maria enrolava os cabelos na nuca. E o penteado quase cobria as orelhas. Só se viam os lóbulos. As sobrancelhas eram grossas. Grossas demais. E o nariz também era ossudo demais. E os dentes? Os dentes não se viam. Mana Maria falava sem mostrar os dentes. Ana Teresa não achava mana Maria bonita. Mas aqueles óculos, passada a surpresa, eram bonitos. Iam bem para mana Maria. Ana Teresa não sabia direito o que era mas já agora lhe parecia que mana Maria sempre usara aqueles óculos. E ficava melhor assim. Ficava completa. Mana Maria olhou num papelzinho, falou pra costureira: - O uniforme pra sair tem gola branca. Uniforme? Ana Teresa não compreendeu. Nem mana Maria lhe explicou nada. Só dias depois é que o pai com ela no colo contou tudo: - É muito bom. É o melhor colégio de São Paulo. As internas são tratadas como filhas. Falou outras coisas, reparou nas lágrimas da filha, enxugou, parecia triste. E disse: - Eu por mim não punha você interna. Mas sua irmã quer. Ela é que é a mãezinha de meu bem agora. Precisa fazer como ela quer, obedecer em tudo, ser bem boazinha pra ela. Como pra mamãe antes de ir pro céu. Igualzinho. Foi para o colégio. Mana Maria a deixou entre a madre superiora e a madre prefeita no dia seguinte ao da missa de sétimo dia. Passaram antes pelo cemitério. Colocaram umas flores entre as coroas murchas do enterro, rezaram, tocaram para o colégio. Mana Maria corajosa como sempre. Conversou com a superiora, pagou o primeiro semestre adiantado, virou-se pra irmã: - Então até domingo. Ana Teresa com os olhos chorosos deixou-se beijar na testa, beijou mana Maria no rosto, abraçaram-se. Mana Maria se desprendeu com uma recomendação: - Tenha juízo. No domingo voltou com o pai. Ana Teresa recebeu-os com uma reverência: - Bonjour; mon cher papa. Bonjour, ma soeur. - Já fala francês? Joaquim Pereira ficou radiante. Mana Maria falou quase todo o tempo com a superiora. Na saída disse para a irmã: - Você precisa caprichar melhor no desenho. Ana Teresa prometeu caprichar. E na despedida repetiu a reverência: - Au revoir, mon cher Papa. Au revoir, ma soeur.

Voltando para casa mana Maria repetiu as informações da superiora: ótimo comportamento e ótima aplicação, havendo o que dizer somente quanto ao desenho. Joaquim Pereira se admirou: - Por que que você não disse pra menina os elogios? Mana Maria respondeu: - Eu sei o que faço. Joaquim Pereira reprovou em silêncio aquela dureza. E para dizer alguma coisa: - Que é que você acha de eu comprar um Ford? Mana Maria perguntou: - Pra quê? - Que pergunta. Pra quê? Pra usar. Mana Maria como que esboçou um sorriso. Joaquim Pereira não disse mais nada. 2 Diante da mulher conservou sempre uma atitude de inferioridade. Morta a mulher não teve dificuldade nenhuma em reconhecer na filha mais velha a herdeira de Dona Purezinha, no governo doméstico. Quando conheceu Dona Purezinha era terceiro-escriturário do Serviço Sanitário. Seu pai, que era agente de seguros e juiz de paz da Consolação, lhe arranjou esse emprego dias antes de morrer. Joaquim herdou uma casa, uma caderneta da Caixa Econômica, acusando um saldo de sete contos e coisinhas, um seguro de vinte contos e os nove volumes encadernados da Genealogia Paulistana de Luís Gonzaga da Silva Leme. O pai também enviuvara moço. Era homem austero e tratava o único filho severamente. Tinha dois orgulhos que manifestava cem vezes por dia, com e sem propósito: - Você vem dizer isso a mim, descendente de bandeirantes? A mim, que fui amigo do Coronel Mursa? Ora tire seu cavalo da chuva! Joaquim guardava do pai uma lembrança nada afetuosa. Ela vinha sempre com uma bofetada e uma desilusão. Bofetada, porque certa vez durante o jantar se permitira com a ingenuidade dos dezesseis anos pôr em dúvida a justiça de uma sentença de que o pai se vangloriava. O juiz de paz estourou: - Como, seu cachorrinho? Eu descendente de bandeirantes, amigo do Coronel Mursa, receber lições de um frangote! Cale essa boca, já, imediatamente! Joaquim se dispôs a não dar um pio. Mas o pai continuou a falar, a gritar, a invocar a sua progênie bandeirante e a sua amizade com o Coronel Mursa, ele se irritou e disse muito atrevido:

Daí por diante cada vez que o pai falava na sua amizade com o Coronel Mursa. mas dos professores que não lhe ensinaram a história de sua terra.Eu estou morre não morre. da Democracia e do Brasil. Joaquim percorreu a folha encardida. Na segunda página. Joaquim leu com toda a atenção: "O Coronel Mursa simboliza a espada gloriosa que fulgurou nas lutas da Independência. Mas Joaquim fitava o assoalho humildemente. No fundo tinha ódio dessa amizade. Simpaticão. da República. então. Olhe aqui: João Duarte Pereira Castro.Leia para se instruir. Ouviu o pai dar um berro com a criada. 20 de novembro de 1889. o filho falasse: . Embaixo: Homenagem à Junta Provisória. Prudente de Morais e Rangel Pestana. gente de tutano. Olhe aqui neste outro volume." Virou a folha. Sim senhor. tio-bisavô. Dois títulos. por causa da bofetada..Está vendo. Depois (conversa puxa conversa) falou na sua progênie bandeirante. Estava mais calmo e estendeu ao filho uma folha de jornal amarelecida. Na boca.. Olhe: um Aguirre. vinha o elogio do triunvirato. você é menino. uns leões. Aí levou a bofetada. Parou. Abriu a porta. Passos de novo. . No dia seguinte quis devolver para o pai mas o pai falou: . Disse: . Joaquim? Título Cordeiros de Paiva. não deixar ninguém pisar em você! Foi no quarto. E foi trancafiado no quarto. o Zé-Povinho de chapéu erguido. Nós somos primos desses Cordeiros de Paiva. Na primeira página.Se o Coronel Mursa fosse vivo o senhor falava com ele e arranjava tudo! A coisa foi tão inesperada que o juiz de paz olhou desconfiado para o filho. é bom que saiba quem foram seus avós para amanhã. não. ramalhetes de flores com laços de fita. No fundo a culpa não é sua. com as marcas das dobras bem acentuadas: . quando eu já não estiver no mundo. voltou com dois volumes da Genealogia Paulistana. irmão de um seu tio-avô. venceu na Guerra do Paraguai e ajudou a implantar a República. casou com uma Cordeiro de Paiva. O que não impediu que num domingo de tarde. Mas tem mais. E o velho exultou: . Depois um silêncio. o filho abaixava os olhos. João Afonso. Joaquim guardou. homem de peso! Não há mais disso hoje em dia! Depois recapitulou com todos os detalhes a história da famosa amizade. O pai saiu sem fechar a porta à chave. se demorou na contemplação do Coronel Mursa. minha bisavó por afinidade. Títulos Aguirre. casou em segundas núpcias com a bisavó paterna de sua mãe. pombas voando.Guarde para você que eu tenho vários exemplares. o título do jornal e a data: São Paulo. Em volta: leões deitados.Que dúvida! Homem de peso. Depois as passadas dele pelo corredor indo e vindo. O resto era meio alegórico: uma mulher com barrete frígio na cabeça segurava um ramo de café com a mão direita e com a esquerda levantava um facho que iluminava três medalhões com os retratos do Coronel Mursa. Era aquele.. queixando-se o pai de certo tenente do Exército que lhe devia cem mil-réis e se recusava a pagar. portanto.Ninguém nunca ouviu falar nesse Coronel Mursa que o senhor. sua tataravó. combateu nas campanhas do Prata. Nunca se esqueça que você tem sangue de Aguirres nas veias e é ligado com os Cordeiros de Paiva. Há pouco .

Não existe nada no mundo. Pina Menichelli suicidou-se no sexto ato e ele na saída encontrou o Albertino. Fechou-se no quarto. como vai? Albertino ficou conversando com Dona Filomena. Jogou na latrina.Vá se divertir. falou: Minha mãe! Coitada de minha mãe! Beijou o retrato. passo apressado quase correndo. Não. A que horas ele voltaria? Passaria a noite no bordel? Abanava a cabeça. Descendente de bandeirante. papai. não queria ver o pai. É impossível. Nada. Joaquim o acompanhou até lá. Meu Deus é impossível. Vinha um pensamento perverso. atravessou a rua.. Não era bem isso. disse para o Albertino: . Sentia uma precisão de chorar. Tinha pena da mãe. Mas então. Dona Filomena! Joaquim deu meia volta rápida. Espera um pouco que já te mostro. papai num bordel. O pensamento dele ficava suspenso. estou me sentindo mal. Dona Filomena! Joaquim espiou e viu o pai sentado diante de uma garrafa de cerveja. Pouco depois de meia-noite o pai chegou e Joaquim dormiu mais aliviado. Albertino quis retê-lo pelo braço. amigo do Coronel Mursa. Levantou-se. Por fim deu uma nota de vinte mil-réis para o filho. ele se desenvencilhou brutalmente... olhos no chão. Tirou a folha de jornal. Mas então. Mas não dormiu. Chorou. Pensou: meu pai na putaria.Vou me embora. Uma voz de mulher falou: . Veja lá que responsabilidade. Que coisa besta. Um homem que falava tanto na sua seriedade e mais isto e mais aquilo. Que coisa. Sorriu por dentro. Dona Filomena veio abrir a porta: . Mas então. se jogou de novo na cama. cabeça baixa.. com uma gorda de cabelo vermelho no colo. esbarrou em Dona Filomena que vinha fechar a porta. O Albertino conhecia uma casa na Rua das Flores. Joaquim enfiou pelo corredor. se arrependeu: o pai podia chegar. Entretanto o respeito que até então tivera pelo pai não diminuiu pelo menos exteriormente. já era noite: . dobrou a esquina.Olha essa porta aberta. A gorda gritou: . Abriu uma gaveta da cômoda. Picou a folha em pedacinhos... Apagou a luz.A senhora deixou a porta aberta! Faz favor de fechar. atirou-se na cama. pegou o retrato no criado-mudo. Amigo do Coronel Mursa. Aí lhe deu uma curiosidade má. ele expulsava com outro ainda mais perverso. É impossível..Que é que querem? Ah! Albertino. E se lembrava da mãe.. e sofria. Quando o juiz de paz falava nos avós bandeirantes ou na sua histórica amizade com o Coronel Mursa Joaquim no fundo . Um homem como papai com uma vagabunda no colo. Estendeu o braço. Pôs a mão na chave da porta. meu Deus do céu! Pôs o retrato no criadomudo. meu Deus. foi para casa. como você. Mas então.paulista hoje que se possa orgulhar de sua nobreza. Não há nada. Joaquim beijou a mão do pai e foi se divertir no Cinema Bijou. Tomou o bonde. O mal-estar que passou a sentir na presença dele aumentava até a atitude humilde.

E no primeiro aniversário de sua morte já foi Purezinha que colocou um ramo de cravos no túmulo e providenciou sobre a missa. e não tinha ânimo para enfrentar. amigo inseparável do Coronel Mursa.sentia uma espécie de volúpia em apresentar aos seus botões o reverso da medalha. Paciência.. quinze anos já passados de sua morte. Gozo da vida. alugando a casa deixada pelo sogro. Até que meses depois. E o filho rematava: . e que freqüenta bordéis baratos. Nada disso. emprestando dinheiro sob hipoteca em pequenas parcelas para render juros mais altos. Maria não aprovava. Satisfazia bem aquela ânsia de gozo que se apoderara dele viúvo. O melhor era fazer como todos os homens. até recém-casados. Purezinha. cabeça do casal. vendo o pai chorar diante do túmulo da mulher. Como o Ciancullo barbeiro que com mais cinqüenta contos fechava o salão e ia fazer il signore. e bebedor de cerveja com polaca vagabunda no colo. O melhor era fazer como. no dia de Finados. uma conquista. coitada. Paciência. ele era moço ainda. seu herdeiro na contingência de semelhantes fraquezas. Escolhia horas . como. gesto brusco e decidido.Um paulista como eu.. Bancar o milionário. Daí a timidez de suas primeiras aventuras. Felizmente deixava uma substituta. direto.. ele se conformava. foi um cão de tão fiel. comprando o palacete em que Ana Teresa nasceu. depois primeiro. Daí a poucos anos se aposentaria.. nome com que ele dourava a sentida sordidez dos coitos pagos à vista. até casados.. O pai morreu com setenta e dois anos num dia de São João. um Fordinho fechado. Morrer daquele jeito. aplicando o dinheiro do seguro. Como é que havia de fazer? Casar? Ele já pensara nessa solução mas esbarrava na oposição da filha mais velha. E o filho continuava com o pensamento: . das coisas materialmente boas da vida. economizando. Aí está. era disfarçar a miséria do mundo. 3 Por isso Joaquim Pereira não se atreveu a insistir na compra do Ford. tudo. Mas ela morta. Às vezes se lembrava do pai e como que se revia (em lugar do juiz de paz) no quarto da Rua das Flores com uma gorda de cabelo vermelho no colo que mandava dona Filomena fechar a porta... É isso mesmo. que ele sabia fatal. ficava neste mundo miserável. E já tinha um plano de vida feito. Então sentia uma vergonha inexprimível de ser homem. tudo.. sua filha de palavra medida e dura. olhar firme. de autêntico sangue bandeirante. Joaquim por mais que expulsasse a lembrança amarga daquela noite da Rua das Flores era constantemente perseguido por ela.. ele começou a compreender esse dualismo em que ele próprio cairia mais tarde. Foi fiel.. Que esperança. depois chefe de seção. homem como o pai. Atentava no jeito frio e agressivo da filha e desistia logo de qualquer idéia a respeito de novo casamento.. O pai acrescentava: . Inclusive e sobretudo no capítulo das mulheres. E assumiu discricionariamente o governo do lar. Parecia um criminoso. como o pai.. Como também foi Purezinha que arranjou com o parente deputado a promoção do marido para segundo-escriturário. Não era o único. autoritário. para Purezinha. Uma aventura. O pai falava: ... Entretanto era coisa que lhe apetecia bem.

E acrescentou: .Não é isso! Não era e a filha sabia que não era. a menos que a filha não concordasse em receber o aluguel. O pai bandoleiro não parava mais em casa. deu uma risadinha (a filha calma. A lembrança da Rua das Flores não o largava.Minha casa. tal e qual Ana Teresa. acentuando bem: . discutia negócios com ele. O pai objetou generosamente que não dava renda pois era residência deles. Inutilmente procurava se confortar com a idéia de que não tinha filhos. Ela explicou: . compreendeu. Foi no quarto. Definitivamente sumiu diante da filha. fica também dona do prédio. Repetiu. . E se arrependeu. Por ocasião da partilha no inventário de Purezinha. Joaquim acedeu: . era melhor que ficasse na sua meação. lia o Código. Mas mesmo quando lhe agradavam (e o pai chamando-a assim lhe agradara) ela dava um jeito pra responder com uma bicada certeira.Você é de fato a dona da casa. Ela é que conversou com o advogado. voltou com um exemplar encadernado do Código Civil Brasileiro. Tinha o estômago delicado. comia sempre em casa. Discutia as questões do inventário com tanta segurança que o pai um dia se espantou.Eu quero morar na minha casa. Porque Purezinha é que comprara o Código. Um dia se surpreendeu chamando a filha de mana Maria. repetiu: mana Maria. exigia um quarto bem trancado. tapava o buraco da fechadura.Eu o envelheço tanto assim? Custou a compreender. O olhar de mana Maria exprimiu a satisfação de quem se sente bem compreendido. E isso de aluguel é bobagem. quis corrigir logo em seguida. mana Maria fez questão de ficar com a casa onde moravam.adiantadas da noite. falou: . se exasperava quando custavam para abrir a porta e ele ficava sujeito às olhadas dos transeuntes. Incrível. Teve um sonho horrível em que o pai o espiava como ele o vira.Você é sua mãe escarradinha. A filha disse: . Mana Maria só o via durante as refeições. O pai estourava de admiração: . Ele nem se lembrava mais de que o tinha em casa.Como você quiser. olhando para ele). não teve jeito.Conheço as leis de meu país. Inutilmente. Mana Maria respondeu: . Pois mana Maria descobrira o Código.

com prática dos hospitais de crianças de Berlim. Deve ser isso. A escarlatina cedeu. Hoje foi um dia cheio de serviço. 4 Nas férias de fim de ano Ana Teresa caiu doente de escarlatina. Dr. nem triste. ar. Mana Maria perguntava na mesa: . Ana Teresa já estava perfeitamente boa e o médico prosseguia nas visitas. Estava habituada a obedecer.Médico moderno. Recebia as coisas boas e más com a mesma mansidão. você quis médico moderno. mostrar um tiquinho que fosse de vontade. Mana Maria tirou os óculos. Nada de excesso. Ana Teresa voltou para o colégio nem alegre. Ar. costuma deixar marca. . Samuel Pinto para mana Maria. fixou-o na criada.Desculpe não ter vindo mais cedo. . recomendou o Dr. Nunca lhe passou pela idéia discutir isto ou aquilo. Mas mana Maria telefonou para o Dr.falou o pai.Você quer banana ou laranja? Ana Teresa respondia: . Pensou: . Uma noite.Faça entrar. muita ventilação durante a noite. mandou abrir as janelas do quarto. Mana Maria estranhou. Joaquim queria chamar o velho Dr. Ainda quando houvesse também pêra e esta lhe apetecesse mais. é agüentar com a exploração . Samuel.estabeleceu os quinhões dela e de Ana Teresa (favorecendo esta) e concluído o inventário passou a tomar conta de todos os negócios. O Dr. Até nas coisas mínimas. Aceitava sempre o que lhe ofereciam e quando lhe concediam o direito de escolha se decidia sempre pela última oferecida. Se a pergunta fosse laranja ou banana ela diria banana. Tibúrcio que receitava calomelanos a três por dois e já tratara da menina por ocasião de uma coqueluche. Viena e Paris. Só se é para garantir o cliente. Ficou um momento imaginando o que seria. Samuel Pinto.Esquisito. ginástica.O que será? Mas disse: . Alimentação sadia. exprimir suas preferências.Laranja. já fazia quinze dias que Ana Teresa tinha ido para o colégio. recém-chegado da Europa. Samuel Pinto pedindo a conta. Então mana Maria escreveu um cartãozinho para o Dr. Mana Maria resolvia por ela e ela aceitava a resolução. Joaquim comentou: . levantou o olhar do livro. Samuel falou logo: . passou diante do espelho sem nenhuma olhadela e foi receber o médico. E ele a mandou bem módica. Do pai inclusive. Escarlatina é moléstia traiçoeira. a criada anunciou o Dr. Samuel chegou. Ana Teresa se levantou. Tratamento moderno.

Samuel esboçou um sorrisozinho. Mas pretendia (talvez em breve) voltar para lá. foi o recado que me deram. Daqui de casa não se fez nenhum chamado. Estava mentindo. poria o atrevido imediatamente no olho da rua. Que penetração psicológica a de Dona Maria. Sozinha.Que terra? . com um livro na mão arregalou os olhos num bruto espanto: . As frases tornaram a sair fáceis. sentado no sofá. Ele ia traduzir. as mãos paradas no colo. talvez com um simples olhar. Era visível. sua negligência. todos. descansadas. Dr. Naquele livro que ele tinha ali. a uma educação perfeita. Sentia até que precisava casar. E se ousasse ela não apelaria para ninguém. Mana Maria reparou (como já fizera durante as visitas a Ana Teresa) na voz cantada que abria as vogais. Seria mesmo em francês. Samuel (como se percebesse o nojo nascente de mana Maria) cortou os elogios e confessou que não tinha noiva. Ele não ousaria tanto. Que é que deu em mana Maria? Ela não sabia ou não queria saber. Dr. Pois não é exato? Mana Maria não disse nem sim nem não. Samuel agora se estendia sobre os criados em geral. Mas pensava seriamente em casar. Como é que adivinhara que ele era solteiro? Porque não usava anel? Não. Dr. Mana Maria imóvel. sem elevar a voz.Sergipe. era a maior riqueza a que o homem pode aspirar. porque hoje em dia poucos maridos o usam. E esse dom aliado à cultura. sua insolência diante dos patrões) se decidia diante do menor gesto do intruso a dar um grito que faria vir dos fundos da casa a copeira. O fato e que disse: . um romance francês. Dr. que lhe parecia admirável. Que extraordinário espírito observador. Mana Maria perguntou: . o olhar parado. dizia o já dito procurava palavras. homens e mulheres. como dizem com acerto os italianos. Dr.Com certeza deixou uma noiva lá? Qualquer coisa iluminou os olhos miúdos do Dr.E mana Maria muito calma: . Não. arrastava os erres. considerava aquele moreno meio careca. deviam acalentar.Oh! mil desculpas. Já gaguejava. está visto. Na terra dele é que a gente ainda encontrava empregados como os de outrora. mana Maria (Dr. sem nenhuma exceção. Não: traduzir é trair. que lastimava o engano de sua enfermeira. Ela bem que estava percebendo.Mas deve haver engano. humildes e fiéis. Samuel e ele readquiriu a desenvoltura do princípio. subitamente ruborizado. rever o seu berço. redondas. Estava radicado em São Paulo. Samuel perdia aos poucos o desembaraço dos primeiros instantes. Não havia dúvida: admirável espírito de observação. Que é que o teria levado ali? Impossível. prolongava as tonais. Mas Dona Maria havia de prometer primeiro que não caçoaria do francês dele. a arrumadeira. havia uma frase sobre o casamento. por exemplo. Samuel tinha saudades daquela terra. Samuel. Mana Maria (tomada de uma idéia que ela pensava perversa) em vez de prometer falou: . uma alemã ainda não muito familiarizada com a língua portuguesa. O casamento era um ideal que todos. a cozinheira.

E se levantou olhando o Dr. amarrou nervosamente. Para o atrevido compreender. Então viu claro o que tinha a fazer. Ou por outra: estava relendo. arrependeu-se.Ou então. Samuel concordou em que não era coisa original mas não é só o original que é admirável. Mana Maria lhe estendeu a mão. Quero um apartamento com champanha e mulheres. pediu papel e barbante para a copeira (qualquer um serve!) embrulhou. Mana Maria recusou. Mulheres. Afinal que atitude era aquela? Para que ferir o moço com tamanha grosseria? . O livro só. ele tomava coragem) fez questão que Dona Maria ficasse com o romance. imenso prazer. pôs a mão no livro. Sem uma linha que fosse de agradecimento? Agora ela não ia abrir o embrulho. 5 Fechou a porta. Um tango dizia assim. Disse: . Olhou o livro. Só prazer. Ele já tinha lido. eu mesmo virei buscar. E devolveu o livro. cerrando. do futurismo? Mana Maria. Escreveu: Ao Senhor Doutor Samuel Pinto. tamborilou os dedos na capa amarela do romance. Ou Dona Maria por acaso seria adepta das idéias modernas. Depois telefonasse que ele mandaria buscar. Veio com os óculos postos. Escreveu o endereço. Francamente. Foi cerrando os olhos. Dr. Ficava ali em ótimas mãos. sentia-se que ele levava consigo uma porção de coisas que desejava falar. pôs o livro na mesa. E esta agora? Virou-se. hesitou um instante. Sem incômodo nenhum. cerrou.Vou já.Eu mesma leio. Mana Maria falou: . o inferior. Já com o chapéu na mão. Apartamento. Pegou no livro. Num átimo procurou ler no rosto do Dr. conservando os óculos. fez um gesto vago. Mandava levar amanhã cedo. Lesse com todo o vagar. fazendo muitos gestos. acrescentou: . desculpou-se pelo incômodo que dera. entre o barbante e o papel. Com licença um segundo. Não. A palavra deflagrou a imaginação de mana Maria. Samuel. de novo o superior. E a copeira (com quem ela trocara duas palavras rápidas quando foi buscar os óculos) apareceu pra dizer que a pessoa que Dona Maria mandara chamar estava na cozinha esperando. Dr. pôs o olhar na Paisagem de Outono da parede. E Dona Maria que não se preocupasse em ler depressa. Todos os santos dias ouvia no rádio. Apartamento. Procurou o endereço na lista telefônica. lastimou mais uma vez o equívoco da enfermeira e tomando coragem (falando. Ele. Não. Deu uns passos. Atrevido? Mana Maria pesou a palavra. positivamente não levaria o livro. Residência ou escritório? Mandava para a residência. Mordeu o lábio superior. champanha e mulheres. Foi.Acho banal. com a voz meio alterada. Colocaria o cartão por fora. Samuel a impressão produzida. pesou-a bem. Teria telefone? Tinha. Vou buscar meus óculos. se a senhora me quiser dar a honra de trocar impressões sobre ele. Samuel tornou a perder o jeito. Levantou-se também. Dona Maria veria que livro admirável era. Não colocaria nada. Champanha e mulheres.. Leu.

Diante do espelho passou os dedos pelas sobrancelhas. em vez. molhou a pena no tinteiro. Agradecer o livro e dar o nome do livro. Estão voltando do seu passeio matinal. Desfez o embrulho. Rasgou o cartão. foi até a janela.Mana Maria sentou-se diante da secretariazinha. abriu o livro. deu duas voltas na chave. no banheiro. E nas coisas da casa exigia asseio e ordem. O pai dele. É carregada sem sentidos para o castelo. Mas também se desse ele seria capaz de aparecer para discutir. De repente (na pagina 27) Bismarck. Bochecho e gargarejo com água oxigenada. Assim em duas linhas daria sua impressão. Começou a pôr a data por baixo do nome.Ficará defeituosa? O jovem médico mais uma vez abana a cabeça: . Estava resolvido o assunto. lia o livro. Nunca hesitara assim. Ela correu a casa inteira para ver se a criada fechara todas as portas e janelas. E acabou deixando tudo como encontrara: cada coisa no seu lugar.. Enquanto que o médico redobra sua . O visconde trata de apressar o casamento. veio até o meio do quarto. Um parque: já se sabe o que é. Não. Furiosamente escovou os dentes. falar no livro.. Queria tudo limpo e no seu lugar.. Precisava agradecer o livro. Foi para o banheiro. o cão pastor alemão. era riquíssimo. Tinha a mania da higiene. pula também. Agora. Abriu a porta. São noivos. O pai dela estava na iminência de uma ruína. O carrilhão da sala de jantar deu dez horas. Pereira. Vivia lavando as mãos. Que não porque ela gostava do feitio esportivo do noivo. Escreveu: Com os agradecimentos de. O pai desesperado pergunta: . Nunca. olhou para o espelho. continuava a toalete rigorosa. pula diante dos cavalos. da janela até a porta que dava para o corredor. parou.. tirou da gaveta um cartão de luto. E deu um jeito no penteado. Ela e ele voltam de seu passeio a cavalo. Levantou-se. Que sim na intenção do pai. Senão um estranho que visse o cartão não saberia que agradecimentos eram aqueles. Principiou pulando a descrição do parque porque detestava descrições. escovando as unhas. Rasgou o cartão. E amanhã cedo mandava. Assim afastaria todas as suspeitas ruins. Antes da meia-noite estava lido. Muito que bem.Fratura dupla no terço superior do fêmur. ele não precisava aparecer para perguntar. Pegou outro. Agora. Andava sempre com um lenço na mão e não sentava numa cadeira sem antes passar o lenço nela. Escreveu São Paulo e parou. o noivo mal disfarça sua repugnância. Por que não ficava na primeira idéia? Como sempre? Levantou-se.A ciência tudo fará para evitar tamanha desgraça. Leu uma porção de vezes: Com os agradecimentos de Maria H. o pé falseia. Levantou-se. escreveu por cima do nome: Com os melhores agradecimentos de. Fechou-se no quarto. E há uma cena horrível em que a aleijadinha ignorante de seu defeito faz um esforço supremo (quer receber o noivo levantada) deixa a cama. Foi para a escrivaninha de novo. Conheceram-se num baile. Como de costume: furiosamente. Mas na página 98 a ciência depois de mil esforços inúteis se declara vencida: aquela flor de uma estirpe milenar ficará com uma perna mais curta que a outra. ela dá um grito e tomba sem sentidos. ela cai na areia branca da alameda. Ia ler o livro. E o dela se espanta. Na página 43 o jovem médico abana a cabeça e diz para o visconde: . Pronto. Dez e pouco. Deitou-se. O embrulho já estava desfeito. Casamento de conveniência? O autor dizia que sim e que não.

Dobrou a esquina. . Junto de uma árvore. Precipita-se a catástrofe: a filha aleijada. o amor também vela. Meia-noite e um quarto. Sentiu um peso nas pernas. Aos poucos porém foi percebendo que as tetéias eram duas com exclusão sua. Dejanira e Alice fingiam que não gostavam. diziam. terras. Com o rosto em fogo passou. bate na porta da filha. triste documento de um invertebrado moral.Ainda está acordada. Onde as gracinhas choviam. a um quarteirão da Escola.0 17. Com passagem forçada pelo Ginásio Piratininga.dedicação. uma feia. Mana Maria reconheceu logo os namorados. parque. A ciência só? O autor insinua que o amor. se juntavam. tudo vendido em hasta pública. Na calçada do Ginásio Piratininga os estudantes formavam grupinhos. Romance bobo. tocavam para a Escola. E se remoeu de despeito. mana Maria? Está sentindo alguma coisa? . até aumentava. Estava lendo. Alice estava esperando no n.Vamos passar agora pela outra calçada. Um dia não encontrou Dejanira na porta do 53. aumentava de propósito. uma. onde lado a lado figuravam os antepassados (quatro com o bastão de Marechal de França) o visconde estoura os miolos no momento exato em que pisavam as escadarias do castelo as autoridades judiciárias que iam proceder ao inventário dos bens. Mana Maria gostava sem fingir que não. bem mais perigoso que o físico. não viu Alice no número 17. Mana Maria propôs: . Mana Maria não insistiu. havia dois casais parados. Mas as amigas não concordaram. a mãe de Dejanira informou que ela já tinha saído.Maria! . E a irmãzinha informou que Alice já tinha saído. não escondia sua fealdade. o visconde arruinado. castelo.Boa noite. Virou do lado direito. E agora um médico queria casar com uma. A ciência vela. De que modo resistir a tamanha dor e tamanha vergonha? Na sala dos retratos. . A página 167 é toda ela a transcrição da carta em que o esportista rompe o noivado. Tocou a campainha. Tetéias. E como o visconde julga enojado. .Boa noite. Ela saia de casa. Passava fingindo não ver? Passava. Mas feia que sabia que era feia.Nada disso. Tetéias. Um médico se casava com uma aleijada. Joaquim Pereira entra em casa. O choque moral é tremendo. dobravam a esquerda. E na página 233 um moço de ciência e uma moça coxa (casados horas antes) pelo portão dos fundos deixam o castelo (já propriedade de um fabricante de conhaque) para uma vida modesta de trabalho e rica de afeição. Dejanira chamou: . Dois ginasianos mais ousados passaram a se dirigir diretamente a Dejanira e Alice. Por que motivo? Mana Maria se revia indo para a Escola Normal com Dejanira e Alice. Apagou a luz. Mas o amor vela.0 53. Dejanira já estava esperando na porta do n. Mana Maria passou por eles completamente despercebida. Mais nojo ainda lhe causa a insistência dos credores cuja sanha o projetado casamento amenizara um pouco.

Quis lecionar. Entretanto sua amizade com Dejanira e Alice esfriou. Ela recusou. Indiferente . Mana Maria levava a coisa ao extremo: passava o dia inteiro sem por os olhos num espelho. queria ganhar por outro. O que perdia por um lado.Nem se virou. no juízo e no trato. supressão de jóias. E chegava. O Professor Tadeu. . aterrorizando a classe com sua energia. Acabaria com aquela indecência de alunas sapecas. insistiu pensando ser amável mas magoando-a ainda mais: . Por respeito dela. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. um. Disse para elas: . italianinha suja. Mal se cumprimentavam passados poucos dias. Veio nela o desejo de ser a primeira em tudo.Até logo! E sem querer ouvir o que elas falavam passou pelos moços já de chapéu na mão (era de ironia o olhar que lhe dirigiram. Até o físico lhe ajuda. Era respeitada. dizia. uma.. O diploma é uma espécie de arrimo que você guarda para se um dia precisar. Na saída viu os dois estudantes no mesmo ponto em que de manhã os descobrira com as amigas. . Pensou mil vinganças. quarteirões atrás de uma saia qualquer. E se maltratava. Mas Dona Purezinha não consentiu: . Aparentemente se masculinizou: sapatos de salto baixo.. Dona Maria. Um pequeno sacrifício por dia. autor da peça. inspetora. uma mulatinha até.Não vejo outra. sabe Deus o quê. Não tem importância. abolição do decote. a indicara como a única aluna capaz de fazer bem o papel. aconselhava o vigário. tudo enfim. Ela não ouvia nenhum. Daí por diante ia sozinha para a Escola e sozinha voltava para casa. Apostava consigo mesma: Chego na esquina antes daquela gorda. dois. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Até em frivolidades.Tudo? Mana Maria respondeu com duas pedras na mão. não. ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha. Era Filha de Maria. E ganhava. apressou cada vez mais o passo. E a comédia não se representou por falta de quem encarnasse o pai da ingênua. Também professoras que davam maus exemplos. Não era desejada. E a explicação na Escola foi um sofrimento para ela. chegou ofegante em casa.Não. Por ocasião das festas de formatura de normalista recebeu um golpe doído com a sua escolha para fazer de pai da ingênua na comédia Quem com Ferro Fere. para a vagabunda. três. Vontade de se olhar no espelho e não se olhar. Logo chegaria a diretora de grupo. a ser representada no Teatro Municipal. Deu então de reparar na atitude indiferente dos homens para com ela. sem beber água. Alunas só. Também se tornou severa para as mulheres. encontrando-se com os namorados nas vizinhanças das escolas. Umas levianas e umas idiotas. Foi ai que se tornou a primeira de sua classe. Veio depois a moléstia da mãe. cartas anônimas avisando os pais por exemplo. burríssimo. O Professor Tadeu. sem comer carne. Mas atentou na mesquinhez delas e desistiu. por exemplo. Quantas vezes ela andava. cachorros).ou respeitosa? Dava no mesmo. Severíssima porém justa. um espírito de emulação que a levava a passar na frente de todas as mulheres que encontrava na rua. mangas compridas. Grande pena. mana Maria. Porque ela gostava de se imaginar lecionando.

O Dr. dia e noite lidando com remédios. Samuel para marido? Que é que lhe fazia deixar em suspenso esta pergunta como se fosse absurda? De repente lhe veio a idéia de vingança. Eram três horas quando ela perguntou para o empregado: . 6 Levantou-se às mesmas horas do costume. só voltava às cinco. Hesitou entre o cinema e uma volta vagabunda pela cidade. tudo isso não era natural. Tudo isso era querido. Não eram ainda oito horas e ela já tinha o livro embrulhado. Samuel Pinto. Qualquer hora que dormisse por mais tardia acordava sempre bem cedo. aquela mania de contrariar a moda. aquela maneira deselegante de se vestir. O cavalheiro à sua esquerda murmurou: Perdão! E puxou a aba do fraque. entretanto fiz assado que era o mais difícil. Um orgulho besta (ela sabia). ouvindo descomposturas mas terminando sempre por impor sua vontade à doente. Mana Maria sorriu dentro dela: chegou tarde. em nada inferior aos outros homens que conhecia. Usava pencine. A indicadora mostrou com uma lâmpada o único lugar vazio. quase se arrependia. Mana Maria se sentara na aba do fraque. Samuéis. No cabaré fumarento Greta Garbo diante de um cálice vazio cismava com o olhar distante. devolve o romance Le mariage d'Huguette que leu com interesse.ela feita enfermeira. olhou o relógio de cabeceira: uma e meia da madrugada. Não há dúvida. Seu pensamento se fixava aí: ela era desejada para mulher. Tinha traçado uma linha de vida e dela nada a afastaria. Em frente. Luz. Pescadores barbudos decepavam com um só golpe certeiro a cabeça dos peixes prateados. Justo no momento em que o olhar distante como que por acaso se cruzou com o do seu admirador a mão do homem do fraque se pousou com hesitação na perna de mana Maria. Meia-noite e meia ou uma hora da madrugada já? Acendeu a luz. Não me traí. Nem que fosse para falar no telefone. Recusando o casamento. Mana Maria percebeu a agitação do homem do fraque se remexendo na poltrona. Ela sabia perfeitamente. Uma estupidez pura e simples. Por uma manobra sutil desviava a questão que mais importava: a do casamento. E uma sujeita de boina fazia o possível para desviar a atenção do companheiro daquele olhar distante. E a orquestra tocava a Serenata de Toselli. agradecida. Aceitava o Dr. O abandono de toda e qualquer vaidade feminina. Um pulo. E de tudo isso ela tirava orgulho. Uma estúpida vingança. Apagou a luz. ela ia e o maltratava? Aos poucos lhe veio uma doçura de pensar que um homem. Olhou o cartaz: Greta Garbo em Mulher Vendida. Cinema. E lhe ficava (como sempre) a volúpia de pensar: Eu poderia fazer assim. Pior: se maltratava. não se vingaria de ninguém. Com um cartão entre a capa e o frontispício: "Maria H. E ela sem sono. Recusando o casamento que lhe ofereciam ela se vingava da indiferença com que os homens sempre a trataram. Havia momentos em que hesitava. Naquela tarde precisava falar com o advogado por causa de um inquilino atrasado. devia dizer." Mandou levá-lo logo depois do almoço. Nem cem Drs. sofrendo impertinências. Pereira. Mas uma revolta tomou-a toda e fez esta pergunta: por que tarde? Então a primeira vez em que um homem dela se aproximava com um sentimento que não era de indiferença. a desejava para mulher. Uma bela vingança. Nem o Dr. o Cine Universal engolia um homem de fraque. um começo de escândalo e mana Maria precipitadamente . E o Dr. E se me sacrifiquei foi a mim mesma. mas era essa a sua volúpia. Tobias está? Não estava. Saiu. Samuel com aquela visita inesperada. Porém dizia: eu quis assim. Mais: uma volúpia (ela sentia). aquela dureza diante dos homens. O homem do fraque. E avisou a copeira que não estava em casa para o Dr. Detestava vampiros. E aquele espírito de educadora se condensou todo na educação de Ana Teresa. E se deliciava. Samuel.

Na rua se perguntou se fizera bem em não esbofetear o imundo.Por nada. Estava feito na vida. E mostrou com o dedo. E mana Maria cada vez mais calma. 7 Joaquim Pereira tirou o chapéu. Ia visitar tia Carlota. dormiu sossegada. Cinco no máximo. mexendo no jardim. Que quinze dias de prazo. ora! Por se tratar de seu médico moderno! Mana Maria pôs o jornal na mesa. verificando a conta do empório. mais dona de sua vontade. De repente lhe veio essa idéia. Mas fora melhor assim. Mas como sempre a hipótese de um casamento era sumariamente afastada. concluiu uma blusa de tricô. não tirava o pensamento do Dr. O telefone tocou. Vida estúpida de isolada. Aí está. E o olhar perdeu a dureza tranqüilizando o chefe de seção do Serviço Sanitário que começou logo a alinhar as vantagens de uma viagem de estudos aos Estados Unidos por conta da Missão Rockefeller. Não tinha ninguém. E sentiu perfeitamente na perna esquerda um peso. a irmã no colégio o ano todo.demandou a saída. Pois mais duas telefonadas inúteis deu o Dr. mais mana Maria. Não havia segunda intenção nenhuma nas palavras dele. Samuel. O que sentia era um misto de indignação e de nojo. O advogado ficava para outro dia. desviou seu pensamento do Dr. Samuel Pinto. Mana Maria ouviu e comentou: . executasse. Fizera bem. Dr. Samuel Pinto. Samuel Pinto. olhou de novo para o pai. Não tinha mãe. Pensava que não era bem isso. E se não pagasse. mais senhora de si. o vaso de flores. uma pressão. depois a criada bateu na porta. Não.Tem uma notícia aí que interessa você. Não queria saber de homem e acabou-se. Mana Maria leu e fincando o olhar no pai: . Que esperança. Samuel quisesse. Que esperança. Um táxi passou. Tomou-o e mandou tocar para casa. Naturalmente o governo. Era o advogado.Interessa por quê? Joaquim desconcertado por aquele olhar tão duro balbuciou: . Arrepiou-se. Vivia sozinha. Quanto à clientela. assim que ele voltasse o incumbiria da fundação de hospitais. Samuel Pinto já telefonara duas vezes. E se respondeu que sim. o que o Dr. sentou-se na cama. Se contra a vontade atentava nela. Cachorro. Samuel Pinto fora escolhido entre muitos candidatos e isso demonstrava o valor dele. Já não ia visitar tia Carlota. endireitou uma cadeira. estendeu o jornal para mana Maria: . ouviu pacientemente a conversa inútil do pai. Samuel desaparecia. nada. Tinha o Dr. A criada informou que o Dr. jantou bem. ou nomearia diretor-geral. Fechou-se no quarto pensando que devia ter esbofeteado o cachorro. todo o bem-estar que lhe produzia (quisesse ou não quisesse) a certeza daquela inclinação do Dr. Uma vontade de bater. Nem de homem nem de coisa nenhuma. nem era bom falar. Que coisa mais esquisita: não tinha amigas. Ainda que a mão fosse do marido e o marido fosse o Dr. Dando ordens na cozinha. Samuel aquele dia. Deixou o telefone mais calma. não tinha amigas. Já não se sentia tão sozinha. Começou a andar (deu mais uma volta na chave do armário. se levantou. o pai na rua o dia inteiro. as almofadas). Ia estudar a organização de hospitais de crianças.

Até que uma tarde Joaquim Pereira chegou em casa com a notícia de que o Dr. Joaquim falou: . porque o Dr. E ele . Samuel estivera no Serviço Sanitário. A pretensão do Dr. Samuel dera a entender. Que diabo. Não custava nada dar um jantar. Conversa bonita. Não custava nada fazer uma gentileza para o moço.Você me põe numa situação! . em francês? Mana Maria confirmou percorrendo o jornal da tarde que o pai trouxera. Sem nenhuma emoção pendeu para a primeira hipótese. E inteligente. em mana Maria. Mana Maria pôs o jornal no colo: . Mana Maria parece que já estava implicando com o moço que tratara tão bem de Ana Teresa e cobrara tão pouco. Ele não sabia que o Dr. Dentro de três meses partia para os Estados Unidos. Que diabo. Joaquim se queixou: . Samuel tinha estado há pouco tempo com mana Maria. não a preocupava mais. Viagem de núpcias à custa da Missão Rockefeller? Despeito por causa dela? O espírito crítico em mana Maria era bem mais forte do que qualquer sentimento de vaidade. quer dizer.ele por sua vez prometera. Todos os santos dias o Dr. Houve um equívoco e ele pensou que o tinham chamado. Pela primeira vez diante da filha. Joaquim Pereira tentou uma resistência. Logo. ele era muito delicado. Samuel antes de embarcar para os Estados Unidos precisava passar uns tempos no Rio e quem sabe mesmo dar um pulo até Sergipe. Mana Maria examinava as unhas. não falou claramente mas deixou perceber que teria grande prazer nisso e tal. Dr. não fizera um convite franco. É verdade.Você não me contou nada.que é que havia de fazer? .Não. Vinha encantado com o Dr.Se a gente oferecesse um jantar para ele hem? Que tal? Mana Maria detrás do jornal respondeu: .. Samuel fazia questão fechada de apresentar suas despedidas pessoalmente para mana Maria. Ficava o desejo dele de se casar com ela. E apesar dos protestos do pai não disse mais nada. Estava aprendendo inglês. Não perdia tempo com coisas inúteis.Pois ofereça o senhor o jantar num restaurante. Samuel. Ele se falava em jantar é porque o Dr.Política. Ele me disse até que lhe emprestou um livro. Falara muito em Ana Teresa. quer dizer. Pensasse bem. moço educado. E isso era coisa resolvida. Mana Maria sem erguer o rosto virou os olhos na direção do pai: . E Joaquim lembrou: . Logo. morta.Não. Um momento ela pensou na possibilidade de qualquer relação entre os propósitos casamenteiros do médico e aquela viagem. papai. Samuel telefonava para ouvir da criada que Dona Maria não estava em casa e nem dissera a que horas voltava. Samuel era coisa inútil. Que moço mais amável. mas insinuara também que possivelmente jantariam juntos e tal. um romance ou não sei quê.

Mas o senhor não vai ser grosseiro.Sabe de uma coisa? Ele me pediu sua mão em casamento! Pronto! Acha pouco? . o senhor está dando importância a uma coisa que não tem nenhuma! .Que cabeça! Ele quer saber se você gostou do tal livro! Mana Maria veio com outra pergunta: . é uma coisa que não está em mim. com o nervosismo do pai. papai.Acho idiota. quem? Joaquim se impacientou: .Ah! bom! Você não vê as gentilezas! Ah! bom Então não discuto mais! . . . percebeu claramente que sob aquela insistência inacostumada havia uma intenção oculta não pensou num pedido formal de casamento.Isso você diz. Mesmo quando. papai? Que nervosismo é esse? Homem! . Pela primeira vez o pai chegara a enganá-la por uns instantes. dissera do seu desejo de constituir família. .Bem menos difícil do que o senhor pensa. Agora eu tenho que dar uma resposta amanhã para o moço! Imagine a minha cara! Eu não sei ser malcriado.Ora.De-tes-tei! E a queixa voltou: . quem! O Dr. Nem ela podia imaginar que o Dr. que é que você quer que eu faça? . Naturalmente o Dr. E Joaquim Pereira pegara logo a coisa no ar.Durante algum tempo jantaram em silêncio. Samuel. . não vejo onde estão as gentilezas do moço.Mas. Samuel! Então mana Maria destacou as sílabas: .Como.Nada. que nem falou para ela. Houve um momento porém em que Joaquim Pereira fez um gesto bem mal fingido de quem se lembra de repente: . elogiando-a.Tem! Como é que não tem? Então o moço se desfaz em gentilezas e eu vou ser grosseiro para ele? . Depois.Mas quem é que está discutindo.Ele. Samuel Pinto ousasse tanto.Você me põe numa situação! . nada? .

Nunca pensara na possibilidade de um casamento para mana Maria. Puxou o relógio: oito horas.. voltou.O quê? Essas interrupções (ela sabia) o desconcertavam sempre. Pôs as mãos nos joelhos tomou coragem. Que maçada. A copeira veio arranjar a sala. Joaquim se levantou.. Como todos os dias..Não derrube a cinza na toalha. .Agora o silêncio punha entre os dois uma distância imensa.Vai escovar os dentes. que a Ernestina.Papai.Você pensou bem? . disse baixinho o que pensava: . teve um ímpeto carinhoso de levantar a cabeça de mana Maria pelo queixo. De fato: entrou no banheiro. Mana Maria aproximou o cinzeiro: . pós as xícaras de café na bandeja.Mas eu não compreendo. saiu. . Mana Maria fingiu ajudar: .Vamos para a saleta.Porque eu não pretendo me casar. papai.Mas não foi aceito por quê? . Joaquim acendeu um cigarro. Sua filha era um monstro. Uma calma irritante. Nada. Que maçada. como se aquele dia fosse igual aos outros. Mana Maria dobrou os guardanapos. parou ao lado da filha.Mas que é que eu vou dizer pro moço? . Uma coisa aqui que eu. papai. é melhor dar por encerrado esse assunto. Mana Maria surgiu logo: . Era pedida em casamento e ia escovar os dentes. Por isso engoliu o resto: . Mana Maria sentou no sofá. deu com ele.Que o pedido não foi aceito. Mas agora que uma oportunidade se oferecia todos os seus instintos casamenteiros de pai acordavam. . O senhor se irrita e não adianta nada. O pai pensou: . deu alguns passos. Não compreendia aquela atitude da filha. Nunca a realizara casada. Aquela calma incrível o punha fora de si. reprimiu-o. Joaquim hesitou um pouco e sentou ao lado. E se irritava diante da oposição da filha. Pensou e se arrependeu envergonhado. . Tinha um encontro na cidade às nove.Nada. precisa acabar de tirar a mesa..

mana Maria apontou com o dedo: .Muito que bem. Mana Maria falou devagarinho: . E boa noite que preciso sair. Arquitetava e destruía planos. Ficou com o fósforo apagado na mão. Não deu a si mesmo tempo para arrepender e disse: . o senhor mesmo não sustentou há pouco a utilidade de um homem em casa? E me incumbe de uma coisa que cabe ao senhor? Ao senhor e mais ninguém? Qual o quê. você ama alguém! .Mas. deixe disso.Olhe ali o cinzeiro.Ora. Mana Maria reconheceu imediatamente o Joaquim Pereira de sempre: . Mas lhe custava se declarar vencido.Mana Maria. Mas um homem em casa sempre representa alguma coisa. papai. De repente lhe veio uma idéia.O senhor está falando sério? Joaquim perdeu o jeito de uma vez. E por mais que se esforçasse não conseguia esconder o que lhe ia por dentro. Não podia com a filha.Porque não. . papai. Depois lhe veio uma idéia: . Você que responda pro moço como entender. E se amesquinhava com a certeza humilhante de sua fraqueza.Eu sei que você não precisa dos conselhos da ajuda de ninguém nesta vida. Tudo nele se revoltava contra a decisão de mana Maria.Você é sua mãe escarrada. nunca vi! E acendeu outro cigarro. Estava infeliz.Você já refletiu sobre sua vida? Você já pensou na possibilidade de ficar só no mundo com Ana Teresa? Mana Maria se contentou em sorrir. Não digo mais nada Mas também lavo as mãos e não me meto mais nisso. que diabo! Mana Maria com a boca semi-aberta sacudiu a cabeça primeiro. depois fincou o olhar nas pupilas do pai: . Deu dois passos na direção do guarda-chapéus. Joaquim teve um gesto de desanimo. quis guarda-lo na caixa. E ó pai (atentando no ridículo do argumento aos olhos de quem sempre soube se governar por si) procurou corrigir: . O tom era tal que ele mudou de tática: .Amanhã no almoço a gente continua isso. O melhor era se confessar mesmo vencido. Era inútil. Só teve uma saída: ..Mas não pretende por quê? .

Mana Maria falou: . de perigo. deu um soco no teclado (. E era mesmo uma criança.Deus não me deu filho (dizia tio Laerte) mas me deu uma mulher que é uma menina perfeita: esposa e filha ao mesmo tempo. abriu a bolsa. E às outras mulheres. antes de fechar a porta.Você também acha? Quando ela era moça toda gente dizia isso. olhando o espelhinho ajeitou as ondas. Assim executava tudo.Até logo. dava uma impressão de desordem.Até lá. . Já no terraço.Não. Até amanhã.Não. E nunca ia até o fim. prefiro ficar com ele por causa da ondulação . Só a presença de tia Carlota faz bem pra gente. .Bom dia! Sentaram-se no sofá. A ela. Tirou. . Tocava um tango à maneira dela: velozmente.respondeu tia Carlota.disse mana Maria. abria uma exceção para aquela criatura alegre que a divertia.É uma lata este piano!). Joaquim balbuciou: . . . disse um dia. então! Purezinha não sabia que ainda depois de casada a irmã com sua presença fazia bem aos homens. Mana Maria (antes que a criada lhe anunciasse a visita) ouviu da copa o som do piano: tia Carlota na certa. até a enternecia que nem uma criança. A mãe falou: .Quero dizer: até logo. Os moços. 8 Tia Carlota vivia sorrindo e mostrava dentes bonitos. sofria de asma e nunca soube o que era trabalho.Tire o chapéu . Mal percebeu a entrada de mana Maria. trepidamente. você pense melhor.O travesseiro é bom conselheiro. Mana Maria tinha um fraco por ela.E sem esperança nenhuma: . Era quinze anos mais velho do que ela.Como queira. fosse o que fosse. severa com as mulheres (sobretudo do temperamento da tia). meia volta no tamborete e um pulo: . E com a mão no trinco: . . é melhor tirar. Mana Maria.

passava nas pestanas. . estalou as unhas. . Este nariz é a minha diferença. sento na mesa.Pronto! Já estou farta! Que será.Estou. puxou por sua mãe! Como vai Ana Teresa? . fez a boca. . E mais um pouco de pó-de-arroz.Não se toma chá nesta casa? .. desfez. cruzou as pernas. acariciava o cabelo com a mão. fez. . fez.Então vá providenciar enquanto eu dou inspeção nas unhas. Agora as pestanas.Fartura? É o que você pensa. . dois fios. E de novo o penteado. demorou o olhar em mana Maria: . Penteava. Perto da janela.Agora um pouco de pó-de-arroz.Toma-se! . passava a escova. desfez.Eu acabo não tocando mais piano por causa destas malditas unhas! Não há dia que não lasque uma! Que horror! Que é que tem para o chá? Uma porção de coisas gostosas? Ótimo. minha filha! Acendeu um cigarro. o lápis na direita.Você não tem um espelho decente nesta sala? Então vou no seu quarto.Você está lendo livros comunistas.Fartura. Agora as sobrancelhas. hem.Que horror! Ali! é verdade! Seu pai me falou que você tem um romance estupendo que um tal Dr. é inútil! Você. Estou com uma fome! Você não pode imaginar como a Etelvina está cozinhando mal! Quase não almocei. . não acabava mais. Tenho horror de nariz vermelho! E você? Mana Maria nem respondeu. perco a fome! Vejo um vestido bonito. Maria? Em tudo eu sou assim! Estou com fome. Agora de novo a boca. engoliu um pedacinho de bolo. sim. suspirou: . Também eu para dona de casa não tenho jeito mesmo.Para fazer a boca prefiro o da bolsa. Pinto lhe deu! Você quer me emprestar? .Vamos pra outra sala? Tinha alguns livros sobre a mesinha redonda. Molhava a escovinha na boca. com a bolsa aberta bem erguida na mão esquerda. compro o vestido. me enjôo logo! Que será? .Vai bem. Maria? . Um minuto depois mana Maria voltou encontrando tia Carlota bastante contrariada. . Tia Carlota tomou dois goles de chá.

.Não caso porque não gosto do médico e não quero casar. tão vivo.. .Por que é que você casou com tio Laerte? .. .Isso mesmo: Samuel.Sabe de uma coisa? Você faz muito bem! Não gosta dele.Foi ele sim. Mas não vale a pena falar em coisas tristes.Quando é que esteve com ele? . olhou mais de longe os cabelos. queima sozinho) tornou a pegar nas mãos da sobrinha. Foi emprestado. Ergueu-se. não precisa de amparo de ninguém.Nada. Ismael Pinto? . Tia Carlota percebeu a estranheza: . . Vou dar o fora. .Bom.Para que essa cara. .Ora essa. está visto! . não foi dado. não case! Depois. Mas isso não tem importância. . Por quê? . não se usa mais porta-chapéus de gancho!) olhou de perto a boca. .Seu pai que disse! . arranjou um ar grave: . Pensava que você não dava importância a dinheiro.Você precisa reformar estes móveis.Não dou mesmo. porque gostava dele. você tem dinheiro. . . Responda pra mim. porque queria casar. Ah! não! Isso não! O protesto foi tão pronto. Porque.Nem que precisasse.Vamos! Responda! Por que é que você não quer casar com o Dr.Como isso? ..Ora essa. Achei ele preocupado! Tia Carlota de repente pegou nas mãos de mana Maria: . Tia Carlota esmagou o cigarro no cinzeiro (Abdulla tem esse defeito. suspirou. Desprezo dinheiro.Já devolvi. que mana Maria estranhou. Minha missão está cumprida.Por quê? Papai é que lhe encomendou essa pergunta.Não é Ismael: é Samuel.Pois é isso. .Ontem. E não tem nada de estupendo. foi até o porta-chapéus (. Jogo fora logo. Gasto tudo quanto tenho. Dinheiro para um é lixo.

. .Fique mais um pouco falou.Viúva Alegre? . Me dá uma raiva! Eu não me acho feia.. infelizmente! E riu. por exemplo. Uma coisa séria. Um filho. Mana Maria sentia isso.Você não sente às vezes vontade de fazer uma loucura? Não sei bem dizer. Hoje estou nos meus dias. Também é a última caixa. apunhalar gente na rua? Eu sinto. Mas também essa maravilha que dizem!. de tela.Você se engana! Detesto que me olhem! Toda a gente me acha bonita.Por quê? Fez um sorriso amargo. . Todos os gestos e atitudes de tia Carlota eram convencionalmente elegantes. Mana Maria não achou graça. pintei o sete! Este maldito cigarro. de pernas trançadas. a toda a hora.Está bem. Então se queixou da vida. Estava farta da vida. gritei com os criados. uma coisa assim como se jogar pela janela.. Briguei com Laerte. . a mão que segurava o cigarro à altura da boca. E de repente: . talvez a necessidade de um desabafo.Fico sabendo.Ainda não. igualzinha. Uma coisa que lhe encha o tempo. quebrar tudo. cotovelos fincados no regaço.Sabe que é isso? .Mas era evidente o desejo de ficar. estava farta de ouvir elogios. . nos desenhos de capa de revista.Você precisa arranjar uma ocupação qualquer.. Não sabia? . mana Maria via sempre.Por quê? Você quer saber por quê? Porque não há mais dinheiro! Ah! Senhor! É melhor não ligar pra esta miséria de vida! Foi para o piano. percebia na tia a vontade. . Quem fuma seus males espanta. acendeu mais um cigarro: . se a gente não toma cuidado. Só isso é que ouvia em toda a parte. . Aquela figura sentada no bordo do sofá. o busto inclinado para a frente.. queima os dedos. .Está doida! Basta o marido! Você ainda quer me dar um filho! Deus me livre! Largou o piano. tia Carlota.Que olhar é esse? Nunca me viu? Não gosto que olhem para mim! Mana Maria sempre pensou o contrário. Fico se você me deixar fumar um cigarro. nos retratos de estrelas cinematográficas. .

Tia Carlota guardou o lenço na bolsa. É isso mesmo. De forma que este inverno não podemos sair de São Paulo. E toda ela moderna.Isso que eu disse é brincadeira minha. Você precisa se casar..Se eu pudesse diminuir um pouquinho estes seios! Operação eu não faço. E os olhos umedeceram logo porque em tia Carlota as lágrimas eram fáceis como a alegria. Foi preciso ir para o quarto de mana Maria onde havia deixado a bolsa com o lenço.Isso não. Recusaria? Recusaria. . Mas tia Carlota continuou: . Mas eu não. . . Mulher foi feita para casar. arqueou os braços. Até que ontem ele me contou a verdade. Ia dirigir a conversa para outro lado.. tia Carlota ia falando: . . aproximou-se.Que criancice. Esse de hoje por exemplo é novo. Quer dizer: você por exemplo é o tipo da mãe. Não houve outro jeito senão falar: .Já há tempos eu via Laerte preocupado.Se você soubesse a apertura em que nós estamos. Não tenho saúde. tenho medo. Vai muito bem para você. . virando a cabeça de forma a concentrar as lágrimas no canto do olho para chupá-las com a pontinha do lenço torcida. Esse assunto de dinheiro não agradava mana Maria. Mas não são muito exagerados.É sim. .Não. passou as mãos pelas cadeiras. você não acha? . colocou-se de viés e sem tirar os olhos do espelho: . tia Carlota! Para que mandar fazer mais vestidos? Você já tem uma coleção enorme.E ter filhos.Que idéia! No jardim tia Carlota perguntou: .E de vestidos. Tia Carlota começou a pôr o chapéu.Não é possível. Então chegou a vez de mana Maria rir.Você não acha que ele me engorda um pouco? . então.. Veja você que situação! Mana Maria sem dizer palavra esperava o momento da facada. não tenho jeito e agora também já não tenho dinheiro. nem se fala! Aí mana Maria falou: . De pé.Não ria não. estava mesmo em frente do espelho grande do guarda-roupa.

Tabac Blond.É verdade! Vocês vão jantar comigo quinta-feira? ..Como.Você não vai se vestir? . Mana Maria acompanhou-a até o automóvel. Em cinco minutos eu me apronto.Casamento? Seu pai na certa aparece hoje a noite para saber o resultado. Depois. . perfumava o lenço.Então. Mas positivamente não estava.Você sabe que eu gosto de comparecer na hora marcada. bem? .Vamos! . que pressa é essa? .Está bem.Não se esqueçam! Às oito horas! Mana Maria fechando o portão pensava no presente de aniversário para tia Carlota. Joaquim se demorou pagando o táxi. voltava para a saleta onde a filha lia um jornal da tarde.Fique descansada. dava uma escovada no cabelo.Nada. como a filha não se movesse da calçada. E chegaram. Não fale nada com ele. 9 Joaquim Pereira ainda não eram sete horas e já atropelava a filha: . Ia para o quarto. papai.Mas. Um vidro de perfume? É.Olhe que já são sete horas! Mana Maria pousou o jornal no colo: .É cedo. .Nada feito? . . nada feito? . Acho uma falta de educação a gente chegar tarde. Já o chofer batera a porta quando tia Carlota se lembrou: .Fique sossegado que nós chegaremos a tempo. que eu tenho ainda de comprar cigarros na esquina. falou: .Vá entrando. nada feito? . . .

Já se conhecem. Samuel Pinto. Humilhou-a.. fincou o pé. Tio Laerte veio ao seu encontro.Com licença. . etc. .Zangada propriamente. E sorriu. uma censura indignada. para sua grande surpresa.Mana Maria entrou. a fez pensar que vinha avisada pelo pai ou ao menos com o espírito preparado. Tia Carlota ficou sem jeito. Está tudo certo.Vem já. . . Mana Maria viu o rubor.. faria um escândalo. Surpresa. membro do Instituto Histórico e Geográfico. Samuel lhe fora anunciada horas antes. .: .Ora. A mulher do Major Nicolau contava as graças do neto. Tia Carlota estava na sala de jantar às voltas com um vaso de flores. Mas foi um segundo.Venha tirar o chapéu. Esperava uma palavra de protesto. Instintivamente teve um movimento de recuo. falou entregando o presente: . E quando o médico afogueado e sorridente observava que há muito não tinha o prazer de a ver. Samuel Pinto estendeu a sua.Olhe. .Não. Falou mesmo em indecência. E logo no hall. Samuel.Já.Eu não quero saber nada. Boa noite. . não. E isso mesmo pretendia explicar para mana Maria. deu com o Dr.. O Dr. Ela protestara a princípio. sentado entre tio Laerte e um irmão deste. O sorriso doeu em tia Carlota. Nem isso.Ao menos você não está zangada com comigo? . Mana Maria apertou a mão do major. Visivelmente contrafeito. para que você foi se incomodar? Muito obrigada. eu lhe dou minha palavra de honra que o convite ao Dr. Antes assim. seu ar de indiferença. Mas o marido. Mas a calma da sobrinha. doutor. Foram para o toucador. E ela cedeu certa de que a sobrinha se indignaria. qualquer coisa assim. .Para você perfumar seu aniversario. . Mas eu faço questão que você saiba. . Tia Carlota se enrubesceu um instante. Major Nicolau.O Joaquim? .Eu estou lhe perguntando alguma coisa? . A presença do Dr. A responsabilidade não era dela. Maria.. não é verdade? falou tio Laerte.

Mas bastou para que ele percebesse o desastre. Um segundo. perguntou para mana Maria: . Joaquim foi o último a entrar.Espargo.Gosto muito. Uma porta envidraçada separava-a do hall. Delas é que você ouviu dizer aspargo! . Mas eu juro para você que seu pai e Laerte é que arranjaram essa embrulhada. muito bemeducada. Voltaram para a sala de jantar. O major falou: . pois não? Mana Maria não respondeu.Ignorância. . Você não gosta? perguntou tio Laerte. Samuel à sua direita e para junto deste mana Maria se deixou empurrar por tio Laerte.É espargo que se diz? Sempre ouvi dizer aspargo.Façam o favor. .É.Ana Teresa como vai? ..Você está enganado! Ouvi dizer de muita gente boa. Laerte só me avisou faz umas duas horas. não soube. Do outro lado da mesa redonda bem em frente ficou o pai.Guardo uma excelente impressão dela.Vai bem. Fique descansada que isso não tem importância nenhuma. . O major deu duro na mulher: . Mana Maria sentiu. homem? Quis dizer qualquer coisa.Imagine! É como se fosse filha dela! . Samuel entrou na conversa: .falou tia Carlota. Era verdade. Dona Ester. De forma que um mal-estar horrível tomou conta dele. O Major Nicolau caçoou: . . Sem saber bem o que fazia olhou o relógio. eu não sei o que você está pensando. Deve lhe dar muita satisfação. Seu olhar se encontrou com o da filha. sorriu desenxabido.. E me proibiu que prevenisse você. Nunca a tia lhe falara naquele tom de sinceridade. .Esta sopa é de milho verde? .Já deve estar mocinha. Tia Carlota colocou o Dr.. Tia Carlota falou: . obrigada. Parece espargo. Dr. Maria. se tanto. Uma menina muito dócil. . mulher do Major Nicolau. Parecia um menino chamado para receber o castigo da travessura.Acredito. . sim senhora! Aspargo falam as cozinheiras.Olhe.Que é isso? Está com pressa.

. . que desviara o seu.Se o senhor gosta de História.Se não fosse esse jantar eu não teria com certeza o prazer de cumprimentá-la antes de minha partida? Mana Maria não abaixou a dela para responder: . A razão daquela presença cerimoniosa. . minha senhora. . piorou-a dirigindo-se ao cunhado: .Com você eu não me zango nunca.Mas que discussão! exclamou tia Carlota. não vá se zangar.Transmitiram sem me tirar de todo a esperança. arrastada: .Para que saber o futuro. O major arranjou um ar galante: . Mana Maria sentiu o rosto afogueado. Dona Ester e tia Carlota atacando os maridos que fora de casa vendem alegria e no lar implicam com tudo. A discussão sobre os maridos mal-humorados havia cessado.Mas eu creio que lhe dei uma resposta bem clara ao seu pedido de há dias. Samuel. Só se não lhe transmitiram.Com certeza não teria mesmo esse aborrecimento inútil. Estou brincando.Bravos! aplaudiu o major. .Guarda toda a zanga para mim. Não cedemos diante do primeiro obstáculo não. Tia Carlota querendo salvar a situação. de cumplicidade acanhada. tem aqui um entendido. se patenteava grosseiramente mesmo aos olhos desprevenidos do major e sua mulher.. Deixa isto para o Instituto Histórico. Nicolau. Samuel sorriu amarelo: . foi logo às do cabo: .Aborrecimento? A senhora sabe perfeitamente que não seria. A resposta saiu tímida. Quem sabe História sabe o futuro. nós do Norte somos tenazes. Em torno dela era visível o mal-estar. Havia em todos um ar de condescendência contrafeita. num mau humor constante. Nicolau. Depois. agora? Depois cartomante também sabe sem estudar História.Que tristeza é essa. Insensivelmente abaixou a voz que tremeu um pouco. até então disfarçada. Mana Maria com o olhar posto no pai. Joaquim? Não disse uma palavra até agora. O Dr. Samuel achou azado o momento para conversar em voz baixa com mana Maria: .A História é mestra da vida. Dr. E começaram então a discutir. Dr. O que amargou profundamente a mulher: .

segunda intenção. O major falou: . Mana Maria foi ganhando um nojo enorme daquela comédia toda. E a consciência disso tornava sem importância o resto.Aposto que o senhor vai se aborrecer. Samuel tem toda razão.. Samuel achou oportuno se dirigir a mana Maria: .. Dona Ester contava graças do neto para o cunhado.Os filhos completam a felicidade. Dr. O olhar de tia Carlota era um olhar de subentendidos. Carlota. ..Ah! Bom ! você pensa assim. Uma leviana. Só o sentimento de sua superioridade dava a mana Maria a calma necessária para não estourar.Muito ao contrário . Mana Maria discutia educação infantil com o major.. Até que uma risada mais alta e demorada de tia Carlota desviou para ela a atenção de todos. tia Carlota e o médico pegaram a conversar entre sorrisos. mana Maria defendia a educação religiosa. Ou então era dessas que de repente cortam a ponte que elas mesmas lançam. .. Samuel. Estava arrependido. Dona Maria? . Punha reticências. na frase mais banal. . Naturalmente tinha amantes. E com o nojo tinha pena do pai.. Era visível.Mas o Dr. motivo nenhum para tristeza..As crianças são o encanto do mundo.Eu? Eu estou. Inutilmente. e jantar podia durar a noite inteira. . do papel triste que ele fazia ali. o pedido de explicação da filha. Inteiramente voltada para o major. Não tenho. seu vizinho da direita. Tia Carlota estava de veneta: . Doutor Samuel aos poucos foi se entregando à sedução. a vida inteira. não vai se divertir. . Tia Carlota não tinha vontade nenhuma de conhecer os Estados Unidos.pensou sublinhar com malícia o major. É verdade que o senhor vai estudar. . Olhar que encorajava. Dr.Só que o doutor se esqueceu dos filhos .Acredita ainda no teu amor e uma cabana! Ninguém achou graça. a censura fatal que o humilharia.. Joaquim. O amor se contenta com pouco. Ela era a mais forte.Que é que você entende por felicidade? Felicidade para mim é não pôr desgraçados no mundo Aí está! . ouvindo. Uma mulher perigosa. . Como um derivativo. Mas Laerte não se decide.A senhora prefere a Europa? .Tenho uma vontade louca de conhecer a Europa. fingia prestar atenção a Dona Ester.disse Dona Ester.Sabem o que o doutor acaba de me confessar? Doutor Samuel ficou uma pinóia. a senhora não acha. sem dizer palavra. E temia as conseqüências. E o mal-estar voltou. acabar de uma vez com a farsa.. Ela era a mais forte. O médico passou a odiar tia Carlota.

Meu netinho também. Porque o velho vai para Deus purificar-se das misérias do mundo. . a princípio irritado. Dona Ester emocionada quis falar: . A infância e a velhice são as coisas mais sagradas deste mundo porque são as que se encontram mais perto de Deus. Dona Maria? Era a chave de ouro. é que ele fizera a comunicação com tanta grandeza de alma proibida pela criança.Lembra-se.Bravos. Sobretudo a primeira. E naqueles olhos infantis de expressão puríssima. Tratava ele uma menina. E ele ia comunicar isso àquela que dia e noite na cabeceira da criança se desdobrava em desvelos verdadeiramente maternais.aparteou tio Laerte. com a notícia de que a febre ainda não cedera. fez o elogio da criança.Mas foi tia Carlota que respondeu: .exclamou o major. Joaquim! Também para você. acreditassem. é o que conforta e sustenta os homens. livre ainda das misérias terrenas. depois visivelmente deliciado com as próprias palavras. Um dia. Sim. quando seu olhar se encontrou com o da doentinha. Só depois de se retirar do quarto. Mas não pôde concluir." . e que naquele momento se achava de costas para o leito. Ele punha na salvação do corpo o mesmo ardor que um sacerdote poria na salvação da alma. . Era órfã.. E com razão. . Por quê? Porque a criança é o futuro. ele leu claramente um pedido a que não pôde deixar de se submeter: o pedido de não dizer nada.Belas palavras.falou Dona Ester. bastante eloqüente.É o que eu sempre sustentei! Desses gestos só uma criança é capaz! Admirável! Admirável! E sem saber bem o que dizia: . Samuel. sim senhor ! . Era um prazer.É isso mesmo! "Lasciate ogni speranza. de não afligir a enfermeira dedicada. E a criança vem pura de Deus. Mas seria repetir o que está na consciência de todos. acreditassem. Isto é: não era dos que curavam por obrigação. Mas tinha ao seu lado quem lhe fizesse as vezes de mãe e de mãe extremosa.Para os médicos de crianças principalmente! Então o Dr. doutor ! Eu sempre pensei assim! . Porque o marido cobria sua voz: . pondo seu dever de médico acima de tudo.Meus cumprimentos.. Podia. curar uma criança ele não poderia dizer que era um prazer... que a febre tornara ardentes. Sim. Na porta do inferno. verificou que a doentinha ainda estava com febre. Maria! . Para o Dr. com mero fito de lucro. Os povos de civilização superior têm o culto da criança. Samuel. examinando o termômetro. Ele poderia citar mil casos de sua clínica para provar a superioridade da criança. Contaria um fato só. aquilo que os anima ainda na hora da morte: a esperança. Do leito de uma criança doente ele nunca se aproximou sem piedade e nunca se afastou sem proveito. vítima de pertinaz moléstia infecciosa. Não. E partidas do coração. .

Sempre foi de fato uma menina de muitos sentimentos. marido.Muito obrigada pela felicidade e pelo latim! É latim. como não! De forma que depois de um ligeiro protesto de tia Carlota (para quem era bobagem essa história de saúde) se fez um silêncio de expectativa. E alto para o irmão: . o major tomou a palavra de copo erguido: . Samuel se declarou comovido no seu agradecimento. Seu Laerte. Dr. E reparou que mana Maria mal ergueu o copo sem levá-lo aos lábios. A criada surgiu com uma bandeja de sorvetes. Tio Laerte falou: .Tem.A admiração que sempre lhe causava a facilidade oratória do Doutor Samuel quebrara o embaraço mudo do chefe de seção do Serviço Sanitário: . Mana Maria perguntou sorrindo: .Como é. Joaquim e a filha concordaram.É nesse copo comprido que servem.Creio que é hora da saúde. Ana Teresa! Felizmente. Pousados os copos. Feito o quê. não desse de hoje.Carlota. O major achou o sorvete ótimo. A criada encheu os copos. . Tem ainda uma saúde. Falou no ouvido do major: . houve nova saúde levantada pelo major que desejou muita prosperidade para o caro Joaquim e suas gentilíssimas filhas.Futurismo. Mana Maria procurou uma saída para aquela cena ridícula. O major observou: .Espere um pouco. À felicidade do Doutor Samuel e ao bom êxito de sua próxima viagem! Dr.Sua cozinheira que fez? Tia Carlota falou: . não é? . Dona Ester em vez do esperado elogio perguntou: .É? Você acha? Não terá champanhe? Eu não vejo taça! .Tem diferença? Mas não obteve resposta porque tio Laerte bebia à saúde de Dona Ester. Samuel adiantou que nunca tomara tão bom.Do bom! Daquele que se ensinava no meu tempo. não tem champanhe para a saúde? . filhos e netinhos. queira receber os nossos votos de muita felicidade! Ad multos annos! .

. . sem remédio.preferiu tio Laerte. . minha senhora. minha senhora! . Era a vingança.Então é certo o que dizem? Os médicos só acertam no diagnóstico e conseguem curar quando se trata de doença alheia? Quando eles mesmos ficam doentes não sabem se tratar? Com mulher daquele tipo ele não sabia lidar.Mas eu não estou brincando. Não falha. E francamente acho seu caso desesperador. . Tinha sempre na lembrança o que lhe dissera sua mãe sobre as donas da alta sociedade: são as piores. Sentada na cadeira de vime depois que o Dr. Melhor ser cínico.No hall . Samuel lhe acendeu o cigarro compôs seu olhar mais perigoso e disse baixo: ..Podia ser de confeitaria.Ora! Morda aqui! E a minha experiência amorosa onde é que está? Se quiser eu lhe servirei de médico-assistente.Não se brinca assim com os sentimentos alheios.Êta mulher.Meu olho de clínico. Samuel ganhara fama de terrível ironista. .. O major se zangou: . Tia Carlota desviou o rosto. meu Deus! Quando é que confeitaria já fez sorvete assim? Dona Ester ostensivamente deixou o sorvete pela metade. Tia Carlota se levantou. disse num sorrisozinho: . Naturalmente fruto de uma experiência que me falta.Ora.Que é que a senhora quer insinuar com isso? Ela fingiu impaciência: . demorou o olhar na sobrinha que conversava com Dona Ester. . o Dr. ..Perdoe a minha brincadeira de há pouco.Você acha? Estranhou o você. Com ironia não ia. minha senhora! Eu é que lhe peço perdão de contrariar suas teorias amorosas.Café aqui ou no hall? . Acadêmico na Bahia.Quem mais? .. encarou o doutor. franziu as sobrancelhas. Não era a primeira vez que verificava isso. Não.

Que é que o senhor acha? O Dr. um.. Sentia-se humilhado. A questão é que conhecia a filha.. dizia Batávia.Então não quer casar mesmo? . foi para junto da sobrinha. Samuel não quis achar nada: . Samuel. .Hein. Então o major e Joaquim se aproximaram do médico. você manda falar comigo. Quem sabe fará bem. A criada entrava com o café. E foi então que tio Laerte sugeriu convidar o pretendente para o jantar de aniversário da mulher.Sob o ponto de vista da eugenia. Retirava-se.Veja você. sentiu remorso. A Maria acaba cedendo. acrescentou: um e quinhentos.Joaquim não descobria um jeito bom. E era uma de suas manias: não dizia Holanda. Joaquim (como sempre) relutou em aceitar a idéia. pois não? Joaquim pela milésima vez disse que sim. dominando â vontade aquele homem sem nenhuma.Se ela ficar zangada. Levantou-se. Era homem que se humilhava com facilidade mas não inutilmente. Com certeza tia Carlota percebeu isso no jeito nervoso dele. Quando Joaquim timidamente. O Dr. ele perguntara: O casamento é de seu gosto. . Samuel não estava disposto a discutir o que quer que fosse naquele momento. De forma que Joaquim concordava sem entender direito. Despedia-se secamente e retirava-se. Tio Laerte guardou o cheque e ouviu as queixas de Joaquim. ela disse: . Mas de que forma? . Mas isso era abandonar a luta e não era de seu feitio abandonar uma luta.Não sei não. por exemplo. Então o seu orgulho doía. Disse. Enquanto o médico procurava tomar uma resolução. E com redobrada segurança prosseguiu em suas considerações.Ah! Então fique tranqüilo. E Dr. Esta ficaria por conta dele. obteve dele que arranjasse um encontro com a filha: . O que confessou sumamente envergonhado.É um ignorante. Samuel ia ser malcriado. Recusar um partido dessa ordem! . por meias palavras. Logo. Tinha (ia dizer três) mas insensivelmente saiu um. Seria um caso interessante a estudar. tenho certeza. pensou o major. . doutor? Não é verdade? O Brasil colônia da Batávia! Que colosso.E ele continua firme? Firmíssimo. Nem até então fora vencido em nenhuma. Cinco Joaquim não tinha. . Joaquim cedeu: . Você não conhece nortista. Andava à procura dele quando lhe apareceu o concunhado para pedir depois de uma conversa muito longa cinco contos de réis por quinze dias. .Em todo o caso experimente uma xícara de café. E ficou em paz com sua consciência.Eu a convencerei. O major desenvolvia um de seus temas históricos prediletos: a vantagem que resultaria para o Brasil se tivesse vingado a colonização holandesa. Positivamente. lhe comunicou a resposta da filha ao pedido de casamento. Mas o cunhado avocou para si toda a responsabilidade: .Dr. Contou o embaraço em que estava.

Nicolau? E informado do que se tratava deixou o grupo das mulheres para discutir com o irmão. . Sentou-se no canapé de vime ao lado de mana Maria. doutor. Fazia umas objeçõezinhas que ele mesmo sabia idiotas para o major responder com vantagem. .. .Maior que a Inglaterra! Tio Laerte perguntou: .Sente-se. O olhar malicioso de tia Carlota irritava-o. Dona Ester traçava um plano de educação para o netinho: . Não tinha outro assunto. Mas como dizer o que queria na presença das outras? Se não o deixavam a sós com ela por que aquele jantar? Tia Carlota falou: . eles veriam! Preferia matar meu filho a entregar para os bandidos! O senhor não é comunista? .Que é que é maior que a Inglaterra. comunicou logo o plano ao Dr. Nada de botar o menino desde cedo num colégio. minha senhora! A sociedade não prescinde dessa célula que é a família e o comunismo destroi a família! Ainda há pouco li um estudo.Sou adversário decidido do comunismo. A melhor educação é a que se dá em casa. O Dr.Assim.Que idade tem ele. minha senhora? .Olhe que é a última tentativa que eu faço. Comigo. Tinha umas pernas bonitas a sem-vergonha..Já disse para os confrades do Instituto Histórico e estou pronto a repetir onde e quando queiram: se o Brasil tivesse passado para o domínio da Batávia seria hoje o primeiro país do mundo! Joaquim arriscou uma pergunta tímida! . Samuel se decidiu e entrou na conversa das mulheres.Eu já disse para Nini. . Samuel garantiu que nem era necessária outra.Maior que a Inglaterra? .Vai fazer quatro anos em agosto. O que ele fazia sempre para pôr em destaque os conhecimentos históricos do major. sim. sua grande admiração. Samuel. recusou os agradecimentos dele.. Apertou agradecido a mão do concunhado (podia ter dito dois contos). Dona Ester falava do netinho. Dizem que os comunistas na Rússia separam as crianças das mães.Oh! uma criança linda! Só queria que o senhor visse! Por enquanto ele não tirava os olhos de mana Maria. Dr. Aquela mulherzinha estava se divertindo à custa dele. . E entregava os pontos? Não entregava.É forte? .

papai. como todos nós. se levantou. E em geral só gosto do que me pertence. E abandonando o caminho que para outras seria o mais agradável ou o menos desagradável (para ela também.Não. papai. Tia Carlota gosta de brincar. quem sabe. os erros do regime capitalista e quer. Dona Ester se sacudiu toda na cadeira: .Brincadeira de tia Carlota.Você falou comigo? Tia Carlota não deixou a sobrinha responder: . Vamos? Tia Carlota teimou: . minha filha! É verdade? . onde seria sozinha.Não é nada. Levantou-se. o dela. Eu tenho um instinto de propriedade tremendo. Papai. não se sentava mais. Joaquim perguntou de mansinho: . Se papai quiser ficar.Não admito! Que horas. Você é comunista. ar de tonto. vamos indo? Disse num tom tão brusco que assustou tia Carlota. Percebe.E vou para ela.. Maria. . O que é meu é meu. não queria saber) escolhia o outro. Mais uma vez (tinha consciência disso) decidia o seu destino. São horas. A idéia lhe veio de repente. hesitando.Não! Eu não posso acreditar que Maria seja comunista! Que horror. Joaquim não dizia palavra. Doutor Samuel interveio: . eu vou sozinha.. .Comunista aqui só existe a Maria. ela falou. minha casa que já são horas. deixe de ser boba! . A filha decidiu por ele: . meu Deus! Mana Maria sossegou Dona Ester: .Não é não. Samuel. Joaquim! Pode continuar sua conversa! Mana Maria se arrependia mas não cedia. incomodou Dona Ester.Não acredite.Tia Carlota interrompeu: .Que horror. . empalideceu o Dr.Não. coisa nenhuma! Sente-se. Não poderia morar numa casa que não fosse minha.Dona Maria naturalmente é uma inteligência aberta às reformas sociais. .

Freud. queria dormir. minha senhora? . A senhora nunca ouviu falar em Freud? . teimoso (eu gosto de homem teimoso). Foi pôr o chapéu.Ela teria ficado aborrecida com o negócio do comunismo? .A conversa sobre o comunismo parece que contrariou a moça.. Mana Maria disse que não. Papapá. você não me conhece! . não vai não. Quer dizer: todo metido a sebo. minha senhora pra cá.É. O Doutor Samuel pôs um profundo sarcasmo na voz: .Não foi isso não. medicina é sacerdócio.Você quer saber de uma coisa? Você tem toda a razão. mas faça um esforço e fique mais um pouco.Raiva por quê? Enquanto a sobrinha punha o chapéu (foi um segundo). .. papapá.Pois Freud explica o caso perfeitamente. Pensei que ele tinha agradado você. esses nervosismos subitâneos. passara a tarde inteira na cidade fazendo compras. Mas não guarde nenhuma raiva de mim.. Tia Carlota aprovava a resolução da sobrinha: . minha senhora pra lá.Pois eu pensei o contrário. Eu conheço bem esses temperamentos. Freud explica isso.Fique papai. Não tem importância. É um bocó de mola.Está bem. mas um bocó. . .Como.Por quê? Porque brinquei com ele? . . Naturalmente tio Laerte quer jogar. Eu tomo um táxi. Depois. falando difícil. Tia Carlota seguira a sobrinha.Eu compreendo sua vontade de ir embora. papapá. . . essas explosões.Xii. . Quer dizer. minha senhora! A razão é outra. que estava de fato cansada.Não. Com licença. Dona Ester falou baixinho para o Doutor Samuel: . calçava as luvas (nem arranjara o rosto). Maria. família é não sei quê. Mana Maria (estava nervosa) falou: . se levantara muito cedo.. feio! Parece um sapo.Quem? ..

meu Deus! Mana Maria quis chamar um táxi. .Até qualquer dia.Quer deixar mesmo a gente tão cedo? . Apertou a mão mole (mana Maria desconfiava de quem não punha energia no aperto de mão) de tio Laerte: .Vá com Deus. já vai? . .Você precisa marcar um dia para conhecer ele.Sorriu. . Mas um automóvel não admito. Mana Maria apertou a mão do major: . . Eu mando levar você. . Tia Carlota era diferente.Qualquer dia telefono.. acrescentou com um brilho nos olhos: . Ninguém se sentia à vontade.Preciso.Não deixe mesmo de telefonar. Apertou a mão de Dona Ester (mana Maria detestava beijos): . Mana Maria falou e abriu a porta: .Como os homens são idiotas. . . Agora era o momento difícil da despedida.Já.Não. .Boa noite. Mana Maria não aceitava nada de ninguém: .Para quê? Eu vou bem de táxi. É o cúmulo. .Quando eu quero de verdade ninguém resiste. Um marido eu compreendo que se recuse. Era uma menina louca.Não. O chofer está aí para isso. major.Boa noite.Então. senhora. E para o netinho também. .Eu imagino. Outra qualquer dizendo isso irritaria mana Maria. .Lembranças para Nini..

De dia a atenção se perde no bonde que passa. Estava por ora livre do que ele mais detestava no mundo: uma explicação. de atropelamentos. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. Mas era evidente que se sentia mais forte. 10 Felizmente para Joaquim o Doutor Samuel logo depois da saída de mana Maria retirou-se também. readquiriu a fala. examinar. nuns olhos. jardins. Só falaria se provocada. E seria uma conversa desagradável. Só uma ligeira inclinação de cabeça. Dobrou a esquina. embasbacar. O licor aumentou o seu bem-estar. Tia Carlota acompanhou-a até o terraço: .Até logo. Ele não saberia exprimir (não era literato. no pregão dos vendedores ambulantes. É possível parar. A pé para fazer um pouco de exercício. E quanto à filha.Apertou a mão do Doutor Samuel sem dizer palavra.Não. Os homens dormem: a rua vela. O pai não tocando no assunto. De noite ganhava outro relevo na sua solidão. remate rápido de um aborrecimento. árvores. disse para o pai: . Com um ligeiro puxão. . doutor? .Desse você está livre. não há respeito humano. se convenceria de que malhava em ferro frio.Muito prazer. Ouvia os próprios passos. mais homem. E a rua: postes. De noite. Já meia-noite passada tomou o caminho de casa.Táxi.. pediu para a cunhada tocar. Não há perigo de esbarros. via a própria sombra. Com certeza ele o procuraria no Serviço Sanitário.. foi qualquer coisa. o número das de moradia. tio Laerte por delicadeza retirou a proposta. tio Laerte propôs que se jogasse bridge. Não se justificava mais a presença dele. até logo. uma certeza mais grata de sua realidade. erguer a cabeça. Sem telefonar primeiro era arriscado. ele reteve a mão enluvada murmurando: . na casca de banana. A gente vê perto e vê baixo. tudo muda. Foi comoção. Foi uma despedida fria. Ninguém. desafiou os campeões presentes para um bridge bravo. . Samuel ficaria para o dia seguinte. era ninguém. Doutor Samuel não jogava. .Eu peço licença para me retirar. Até lá o homem se acalmaria. De dia se anulava na multidão. Paciência. E no caso eram duas. graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Joaquim se sentiu aliviado. o único homem.Então. Eu não demoro muito. num palavrão. Mas a filha estaria dormindo quando ele chegasse em casa e o Dr. ele compreendeu: . ele a conhecia. A vista se alonga desembaraçada. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio. Se fosse ver a Zoraide? Não. não havia mais conversa que pegasse. num anúncio. ela também não tocaria. cismar. fachadas. ela se desembaraçou.

Dobrou a esquina. Embriagado.Estou.Não posso. Mas Joaquim ajudou. saiu na disparada. O vulto colou-se à árvore. . as esquinas mais misteriosas. Deserta a cena.Es-pe-re. teve pena. tinha pavor de bêbados. Ninguém. seu! Está vendo a lua? Responda. Era o Platão de Castro. Alguém. Detestava bêbados. Tarde demais. Platão? Não parou. o cheiro dos jardins é mais forte. Lua cheia.Pode passar.Não. silenciosa. Quero propor uma coisa para você.Então vamos latir para ela pensar que é cachorro. foi erguer o bêbado. as calçadas mais largas. Tirou a palheta. não? Responda. . Segurou o braço de Joaquim. trânsito livre. pesadamente desceu ao leito da rua.Como vai.Espere aí um pouco! . Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Era como se a rua dissesse: . . quase o derrubou. Joaquim apressou o passo. . vive o cenário. a feitura das casas mais branda. seu canalha! Quis correr.Ó Pereirinha! . Platão! . Platão gritava: . empurrou o bêbado. Depois na noite vazia.Tenho. Está vendo a lua? . Depois se equilibrou na guia do passeio. Estou com pressa! Platão berrou: . Agora o bêbado olhava o céu. na mesma calçada.Vá dormir. Ainda distante. . Depois ergueu a palheta. Os homens são prisioneiros das casas.Dobrou a esquina. Está reintegrada a rua na posse de si mesma. Joaquim puxou o braço. a desfiguram os homens de dia. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens.Agora não tenho tempo. . Joaquim se voltou. . cadeado no portão. tranca na porta. cambaleando. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. .Fique ai. estatelou-se nos paralelepípedos.Não tem pena dela. A imaginação tem campo livre. Melhor atravessar a rua. no gozo de sua liberdade.Não precisa me ajudar! Eu me levanto sozinho. .

No meio da rua. . Empestava a calçada. .É a sorte de hoje! É o cavalo com 43! Adelaide largou escova. nos postes. Conheceu logo sem . quando Adelaide lhe entregou a carta. Pensando bem. O que ela tinha de mais bonito era o andar. Pátria.Pereirinha. . 11 Adelaide. Mana Maria lia no Estado o crime passional que agitara o bairro da Moóca enlutando dois lares húngaros. nas fachadas. do Doutor Laurindo de Sá. balde e pano. De sandálias sem meia. Que horror. riu de seu quase tombo. olhava o número das casas.Tem resposta? . foi soar em outra freguesia. Ele não pegaria em armas para defender a pátria. entregou para o italiano dos bilhetes duzentos réis embrulhados num papelzinho. Um mulato de palheta com uma carta na mão. Dobrou a esquina.Ele não me disse para esperar é porque não tem. A sereia da Assistência uivou numa rua próxima. O italiano de preto tapou o sol com o maço de bilhetes para ver o aeroplano. não há nada como ter uma casa: a casa da gente. Cozinheiras iam e voltavam da feira carregando cestas. A poeira subia em caracol. passaram os quatro filhos menores impúberes. Nunca imaginou que pudesse haver porão fedido como o da viúva do médico italiano. se equilibrou. Imaginem aquela perfeição debaixo da terra apodrecendo. Um cheiro de gato.É a Paulista com 100 contos! Último inteiro para hoje! Adelaide desceu depressa a escada de mármore. furou a nuvem de olhos fechados. Joaquim tapou com o lenço nariz e boca.Garrafeiro! Garrafa vazia! Garrafeiro! A viúva de quimono curto veio mostrar as pernas gordas na calçada.. insistiu inutilmente diante do 52 (Adelaide não deu importância). Peireirinha! Seu animal! Seu bandido! Seu bêbado! Dobrou a esquina. pátria. correu para dentro de casa. cantava lavando o terraço. se esborrachava nas arvores. . bobagem. Escorregou na casca de banana. Para que pensar nessas coisas? Mas pensava sempre. Coisa mais provocante. A carroça com a mudança pobre rodava devagarzinho. entregou para Adelaide espiando no portão o envelope cor do céu. portuguesa peituda. era um sofrimento. E sentiu em toda a sua plenitude essa delícia que é chegar. Mas atacassem a casa dele para ver. A moreninha do 79 suicidou-se três dias antes com lisol. Até logo. podem falar o que quiserem. você não é poeta. De Purezinha então só podiam restar ossos. uma escadinha. impossível. Atravessou a rua pensando que a noite não estava assim tão quente. os chinelos estalavam nas calçadas. A magnólia plantada por Purezinha estendia um ramo sobre a calçada. Ninguém. Três varredeiras da Prefeitura. . A cometa do tripeiro soou na esquina. acompanhados pela criada vesga.Estado! Fanfulla! Fôôôlha! O caminhão da Antártica passou sacudindo as casas.

contava os níqueis com uma esperançazinha louca de que tivesse mais. sinto-me forte e pertenço a uma raça de bravos que a adversidade não abate e atemoriza. Contava todos os dias. que se pressuroso me mostrei às vezes.Pois sim. a letra das receitas: tome de duas em duas horas diluído em um cálice de água. que tenho a certeza será mais um triunfo na minha carreira. E todos os dias o abria. Mana Maria disse para si mesma que não era assim. Mas também podia ser que não fosse o que pensava. Recusastes e eu. Mas depois dessa carta só tinha nojo. Depois se debruçou na janela. quando o outro se afastava. A vossa atitude nenhum golpe representou para mim. Samuel. recibos de impostos. Samuel Pinto. Tinha um ar canalha e chupava um cigarro. Sou moço. Sujeitinho besta. Assim não quisestes talvez para felicidade minha!. Coitado. abriu a secretária. o meu talento. Não! Almejo precisamente desiludir-vos sobre o mal que porventura pensais haver-me feito e tirar-vos assim qualquer possibilidade de remorso. foi por instigação de vosso pai. Se vos disserem que sofro. Aquilo era uma cusparada de vencido. ao meu lado. . é que a estava deixando hesitante. capaz de vos tornar menos cruel e monótona a existência e concretizar dignamente os vossos sonhos de mulher.nenhuma surpresa a letra esparramada do Dr. como senhora do meu lar cristão. para vos desvendar um coração alanceado e pedir-vos misericórdia. estendido no cimento. por maior que seja a vossa precisão. Mana Maria fazia questão de guardar aquela cusparada idiota. . Não sabia com quem se metera. deitando sangue pelo nariz. Ferido no seu orgulho quis humilhá-la. Seu Manuel jardineiro (um dia por semana ela o tratava para arranjar o jardim) podava devagar uma roseira. contas do colégio de Ana Teresa. guardou ao lado de outros papéis. E de novo a indecisão como acontecera com o livro: lia não lia." Ficou com a carta na mão avaliando o despeito enorme dele. Sabia o que estava dentro. cesta vazia debaixo do braço. que na luta retempero minhas energias de brasileiro digno e profissional honrado.. menos por mim. cuspiu-lhe nas costas. embora certo de que não refletistes bem sobre a excelsitude do destino que. pois. Não vos preocupeis comigo. contai.Seu Manuel. O que apanhou. sempre.. Posso vos assegurar até. E onde quer que me conduzam o meu trabalho. Vosso respeitoso servo. com o pensamento voltado para Aquele que julga todos os nossos atos e intenções mais recônditas. não quero insistir. Pensar isso foi o suficiente para deliberar logo abrir o envelope. que sou homem e sei vencer na vida. escondia a chave debaixo do colchão. nas vésperas de uma viagem. Ela podia ainda guardar uma lembrança de certo modo simpática do desgraçado. sob palavra de honra. lia não lia. a minha capacidade e a minha estrela. Foi para o quarto. tomado do nobre desejo de vos dar companheiro dedicado e fiel. vos esperava! Não vos dirijo esta. Quando menina tinha absoluta certeza da soma que o cofre continha. que sois mulher e tendes necessidade de um amparo outro que não o paterno ou o fraterno. Ela vira uma vez na calçada de sua casa uma briga de meninos. Enchia quatro páginas e dizia assim: "Senhorinha! O vosso orgulho ou a vossa mórbida indiferença recusaram a proposta honesta que eu fiz. do que por vós. com os meus sentimentos cristãos de solidariedade humana. Conversando com o entregador mulato da Confeitaria Esmeralda. não acrediteis. Essa maldita história. o senhor não entende nada de mulher! .

abruptamente. Resolveu ver quem havia morrido.É. Porém a tragédia passional do bairro da Moóca não a interessava mais. Passar do preto para o branco. isso tinha a certeza de que era. Troncos . Era e acabou-se. um molho grande. Sobrepostos. Deus me livre! . mas foi um instante só. ainda fora do automóvel deu o endereço para o chofer: . A conversa do jardim a perturbava. Pediu um táxi fechado. mais forte que a sua vontade. Numa das reviravoltas comuns de seu espírito. . Seu Manuel.Pois aqui onde me vê já tenho papado muitas e nunca tive motivo de queixa. da fraqueza. rapaz. mulher do interior. não conhecia nenhum. apodrecendo jazem. Dentro do vasto quadrilátero de muros altos. Essas coisas. talvez prosseguisse entre detalhes canalhas. Falecimentos. Não há como mulher do interior! Seu Manuel sacudia a cabeça. Seu Manuel cortava periquitos perto do portão.Não entende não. Não. Olhe. o verde-escuro deles acaba oscilando em ponta. ela deixou a janela. Era lixo. que a retinha no momento exato da condescendência.Consolação. Como a areia das ruas retas. que a fazia sempre retroceder na hora de dar o último passo. arrancou mana Maria da janela. Envergonhada. Ali cada um se despede do atropelo e da confusão da vida. sentou-se. Correu os nomes. ouviu a Maria gritar a ordem ao jardineiro. .E porque o senhor não sabe o que é coisa boa. . seu Manuel: mulher do interior a gente derruba ela. mulato imundo. levantou-se decidida a ir visitar o túmulo da mãe. Jogou o jornal no sofá.. de vergonhoso que aquilo lhe dava. Então aquele domínio sobre si mesma. vestindo-se depressa. E gozou malvadamente a interrupção da conversa indecorosa. o que fosse. Ora que estupidez. da derrota.Cemitério? . chama a polícia. Acredite no que estou lhe dizendo. imediatamente! No quarto. incomodada. ela cai sempre de jeito. ao vento. Chamou a copeira: . Mana Maria achou que devia sair da janela mas ficou escutando. lado a lado. Deu nela vontade de voltar para o crime dos húngaros. Mas sem demora. quer dinheiro. prontinha! . Conta cá como é essa caída assim tão jeitosa.Explica isso melhor. fingiu pressa. pegou o jornal. ia acabar com ela. a pedra dos túmulos alveja sob o sol que murcha as flores. Não podia precisar a sensação de proibido. uma quentura no rosto. Os ciprestes montam guarda. a revoltava. tem seu lugar na morte. limpar-se neste das impurezas daquele.Diga pra Seu Manuel cortar umas dálias. não adiantava esclarecer que espécie de lixo. ela sem olhar mal respondeu ao cumprimento respeitoso dele. depois os passos do mulato do armazém na direção do portão. Voltou para o escritório. não podia admitir essas coisas na sua casa.Mulher da capital é besta. nenhum ar triste e sim frio de limpeza e ordem.

Também acanhamento. a dominadora. Não. A italiana de papoula no chapéu preto parou também.. biblioteca. Pôs as flores nos dois vasos de mármore. Aquele de esfinge deve ser de sírio. Não chorara. Era falso. Não: era verdadeiro. ficou pensando... as sepulturas feias. Por isso não podia casar. papai. O homem levou a mão no chapéu. ". contra todos.Não: esfinge. Tem água no regador? Ponha nos vasos. Ave Maria. Em nome do Padre. Não disse? Família Yasi. Prosseguiu de rosto fechado. Ajudada pela enfermeira.Coragem. sustinha entre os dedos da que morria a vela acesa da agonia lhe veio a decisão de não chorar. nelas encostou a testa. debruçada sobre o leito.Está satisfeita com o meu serviço? É um túmulo de que não descuido. ajoelhou-se. Quando todos se puseram de joelhos no quarto mal-alumiado e só ela de pé. admirou. nem quando o pai voltou (ele sim. A serviço do quê? De sua memória. do Espírito Santo. A que resistia contra tudo. perguntou: . mamãe. não há igualdade. Os ruídos da rua atravessam o silêncio de arquivo. É belo! Não teve vontade de rir. fez o que ela mandou. . apoiou os cotovelos na lápide. cheia de graça. Quebrou à direita. . Padre Raimundo dizia: A melhor oração é a que o coração improvisa. ela vestira o corpo magro da mãe ouvindo as marteladas dos homens da empresa funerária na sala de visitas. bem tratadas. silêncio de morte. naquela família que Dona Purezínha dirigia sem oposição. só pensar na missão a cumprir. as sepulturas bonitas. juntou as mãos. vá descansar. Ela tinha coragem e não precisava de descanso.Estou. quebrou à esquerda." ." Alguém parou junto dela. Amém.. contra ela mesma. as sepulturas pobres. as sepulturas ricas. chorando) e lhe deu a chave presa numa fita roxa para guardar: . Nem de sorrir. cruzes. Ajoelhou-se. maltratadas. Grandes palavras. . Levantou-se. Ela era a forte. Os que passam lá fora tiram o chapéu.É um leão? Informou de má vontade: . os que entram pisam de leve. "Em nome do Padre. depósito. Sentiuse ridícula.Ah sei! Finge de leão. do Filho. estacou. Amém. e na hora da nossa morte.partidos. a incorruptível. Mana Maria ia notando os túmulos novos. Por isso tinha de ser dura. nem quando ele saiu pela porta do terraço.. E não chorou. do Filho e do Espírito Santo. Nem quando o caixão florido se fechou. Amém. anjos em prece.Ia justamente procurar o senhor. a atitude não é propriamente de respeito mas de cerimônia. Eu lhe devo um mês? .Minha filha! . Ela substituía a mãe naquela casa.

amparado por dois moços também chorosos.. Como um caixão.. Na área principal deu com um enterro que chegava...... . Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão... Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira... descansavam alegres..... Uma de cada lado segurando na alça........ o lenço nos olhos... O sino da capela tocou... Mana Maria deu 400 réis para a negra velha.. Pouca gente...Eu pago já. Estava um pouquinho comovida. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Atrás do caixão um velho caminhava. mana Maria foi andando devagar.Ia amanhã à sua casa buscar o dinheiro.. Não costumava dar esmolas não.. ...... No enterro dela não viria ninguém. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte... . Mas sentiu que ali devia dar. na esquina tomou um táxi. .. Morreria num hospital.. Apressou o passo. ..... Olhou o relógio: 11 horas.. Para não dar trabalho para ninguém... O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?).

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