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RESENHA DO LIVRO “A CULTURA DO DINHEIRO” DE FREDRIC JAMESON

JAMESON, Fredric. A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalização. 3ª ed. Tradução de Maria Elisa Cevasco e Marcos César de Paula Soares. Petrópolis: Vozes, 2001. "A Cultura do Dinheiro", de Fredric Jameson, representa um estudo direcionado á percepção e ao entendimento do mundo contemporâneo através dos principais tópicos enfeixados no termo globalização, tais como o capital financeiro, a sociedade de consumo, a mídia, a cultura de massas e o pósmodernismo. Para se entender os fenômenos econômicos, sociais e culturais da forma que são expostos é preciso proceder a um exercício de periodização do desenvolvimento do capitalismo de forma a possibilitar o reconhecimento de seus diferentes estágios e esclarecer as relações entre um fenômeno particular e uma totalidade em movimento. Quando a voz geral recrudesce no sentido de que o capitalismo é o estado natural da humanidade, os ensaios de Jameson demonstram que devemos desconfiar do determinismo tecnológico, pois a globalização não seria um desenvolvimento inescapável do livre mercado e que este mesmo está longe de ser livre. Nesse sentido, o objetivo central do projeto intelectual de Jameson é pensar para além da ideologia que aceita o funcionamento do capitalismo e criar condições para que se possa efetuar o mapeamento cognitivo do mundo contemporâneo. A ênfase de "A Cultura do Dinheiro" seria a de que o nosso presente histórico é caracterizado pela fusão entre cultura e economia. Em outras palavras, o capitalismo tardio depende, para seu bom funcionamento, de uma lógica cultural, de uma sociedade de imagens voltada para o consumo. Por sua vez, os produtos culturais são tanto base como superestrutura, produzindo significados e gerando lucros. Em suma, a cultura estaria a serviço do dinheiro. A globalização é apresentada como inexorável - não parece haver vida fora do consumo conspícuo para uns e necessidades negadas para todos os outros. Desta forma, a questão central do debate não é ser contra ou a favor da globalização, mas sim entender o funcionamento do mundo contemporâneo e imaginar alternativas. Fredric Jameson procurou comparar as diferentes definições de globalização e concluiu que seria mais produtivo analisá-las e apresentá-las por

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penetram na dinâmica das relações humana e produzem impacto na produção e organização industrial. Estas inovações são diretas e irreversíveis. Os EUA fizeram um grande esforço para assegurar a dominação de seus filmes no mercado estrangeiro. visto que a população tenderia a resistir ao empobrecimento causado pela nova estrutura. deteriorando os grupos sociais. Gray. Sendo assim. A cultura se torna então econômica. Seria um novo estágio de imperialismo. isto é. um aumento do poder de um governo 2 . A sociedade se torna mais individualista e atomizada. os recursos da globalização abrem espaço para influência cultural norte-americana. minimizando o conceito de família. a roupa e até a indústria cinematográfica. revelando-se impessoal e. o modelo neoliberal seria incompatível com o modelo democrático. A esfera política trata do papel do estado-nação no contexto de mundo global. para ele. econômico e social. Gray afirma que as reformas implantadas nesse período acabaram por empobrecer justamente os grupos sociais que a elegeram. ingressa no mundo inteiro deslocando as formas locais ou tradicionais. O nível econômico se articula com os demais níveis. OMC. controla as novas tecnologias. Segundo ele. Assim. definindo uma agenda política e ditando formas de ação política. o consumismo está integrado como parte da vida cotidiana das pessoas. Esta cultura nasceu nos EUA. onde a autonomia das outras nações diminui cada vez mais. Para tal. de fato. bem como na comercialização do produto e do consumo. a comida. desunificando os vilarejos e vilipendiando as formas orgânicas de organização social. a produção das mercadorias se torna um fenômeno cultural. A globalização da cultura. cultural.meio de um inventário de suas ambigüidades. O nível tecnológico trata da nova tecnologia das comunicações e da revolução da informática. Jameson analiza também uma crítica de tendência mais realista da globalização e do livre comércio feita por J. e os EUA impõem a propagação do livre mercado por todo o globo e realiza o papel de polícia do mundo. que opera através de projetos como NAFTA. reforça os interesses geopolíticos e finalmente dissolve o cultural no econômico e vice-versa. A TV. Ainda na análise de Gray pode-se notar o que seria uma contradição essencial da doutrina do livre mercado: a criação de um livre mercado efetivamente livre de governo envolve uma enorme intervenção governamental e. político. a música. Ambos constatam o que consideram um paradoxo na formação do Sistema Econômico do lisseiz-fair. ele divide a globalização em cinco níveis distintos: tecnológico. a qual se convencionou chamar de “cultura do consumo”. Tomando o exemplo de Thatcher na Inglaterra. Jameson defende que a expansão do poder e da influência da globalização na verdade descreve a expansão econômica e o poderio militar dos EUA. também introduz um problema sério. que lhe permite exportar sua cultura e assim outros produtos. desenvolve-se no Primeiro mundo e hoje é parte integrante do tecido social mundial. generalizando os clãs. por isso mesmo. MAI. A esfera social global é fruto de uma outra dimensão da globalização econômica.

3 . para Jameson. a enorme troca de informações. ou melhor. No entanto esta relação de intercambio cultural seria assimétrica. Isso mostra o papel desempenhado pelo Estadonação na construção de uma política da globalização. Mercadorias se tornam bens culturais. uma versão mais acabada do capitalismo clássico. tem um prestígio que é prejudicial para grande parte da produção cultural doméstica”. tudo isso que hoje identificamos como sintomas da "Globalização" seriam. precisa ser criado através de meios legislativos drásticos e de outras medidas intervencionistas. principalmente no que se refere às práticas cotidianas ou modos de vida. substituto imediato do capitalismo monopolista da Era dos Impérios. que vão além do individualismo corrosivo ou do consumo materialista. Uma vez mais se destaca a necessidade de o Estado criar leis que garantam o livre mercado. Ele ressalta que o mercado livre não cresce naturalmente. A atual realidade desse novo mundo mostra. isto levaria a um pluralismo cultural sem precedente. o autor enfatiza a existência de uma assimetria fundamental entre a cultura produzida nos EUA e as demais culturas. Ele faz uso do termo "desdiferenciação" para descrever uma situação na qual a antiga fronteira entre a produção econômica e a vida cultural foi desaparecendo. associada com dinheiro e com mercadorias. a massificação de todos os povos do planeta” pois “a cultura de massa americana. As consciências que celebram a globalização observam seu caráter unificador e estandardizado. ao contrario da "modernização incompleta". um terceiro estágio que seria o capitalismo multinacional. a dinâmica vertiginosa das transações financeiras. pois uma vez que a produção cultural mundial estaria hoje totalmente integrada. A Cultura se torna mercadoria. apenas manifestações visíveis do capitalismo tardio. Jameson chega a saudar a “democratização da informação” que poderia ser causada pelo processo de globalização. A nova divisão internacional do trabalho. não se defronta mais com nenhum obstáculo a ser superado. Voltando à perspectiva norte-americana. O que se observa ao contrario “é uma estandardização ou americanização da cultura mundial. Para Jameson uma das principais características da pós-modernidade é a transformação da cultura em economia e da economia em cultura. na medida em que produtos culturais são feitos para o mercado. Por intermédio de corporações multinacionais. em maior contato. Fredric Jameson faz uso do termo “pos-modernidade” para fazer uma descrição da época atual em que a modernização. as novas formas de inter-relacionamento das mídias. a destruição das diferenças locais. (Modernismo) o qual por sua vez sucedeu o capitalismo de concorrências de mercado (Realismo). os valores e formas culturais norte-americanas são exportadas de forma sistemática às mais diversas sociedades. O papel da cultura de massa é de transformar os cidadãos em consumidores.centralizado. à medida que apelam para o imaginário libidinal de um público conduzido para tal. mas basicamente estruturado segundo um “estilo de vida”. uma vez seria intrinsecamente afetada pela desproporção de poder entre os paises. em seu estágio mais avançado.

no que parece. em muitos casos. Até onde a globalização trata de hibridismos democráticos? O autor questiona o Mercado como algo positivo para a sociedade e faz uma crítica à visão de Mercado que vem desde os tempos da Renascença e de Hayek. já que em escala global a cultura corporativa é fraca. expressa que o projeto de tecnologia como fator determinante da política social e econômica. Primeiramente. movimentos de defesa das culturas nacionais. o que é necessário à expansão econômica. ou propostas de lazer. que gera. Nos países denominados “terceiro-mundistas”. o que não acontece na maioria do mundo. é a Utopia de um enorme festival global urbano e intercultural. O abuso de recursos espaciais ou culturais em prol de benefícios específicos e particulares. impulsionando positivamente novas culturas. Só que para ele esses efeitos de preservação de identidades brasileiras só se deu devido ao fato de que o Brasil é um Mercado de enormes proporções. No segmento VII do capítulo “Globalização e Estratégia Política”. segundo este autor. tem gerado violências locais capazes de indicar uma reação ou um mecanismo de defesa contra a intensificação dos efeitos da globalização.reproduzido nos meios de comunicação de massa. e é definido por situações econômicas específicas. Jameson diz que a visão da cultura como combinações desordenadas e impuras é contrária à perspectiva de tradicionalismo e isolamento regular de um povo. da manipulação dos desejos. sempre na ordem da satisfação pessoal. descentrado e sem modo dominante. O consumo de maneiras de se viver o corpo. as tradições culturais estão enfraquecidas e. seja através de imagens. O autor critica também os ditos efeitos libertários da cultura de massas. encarado e difundido como uma tendência inexorável (tal como a “desconexão política”) pode despertar. A produção de cultura é a produção da vida cotidiana. o autor evoca algumas reações de resistência ao advento de uma “nova era tecnológica”. Os fenômenos da hibridização cultural celebrada por Nestor García Canclini de contatos ecléticos e empréstimos possibilitados pela globalização são progressistas e saudáveis. uma política ludita. Locais de abastecimento de recursos escassos. Segundo ele. com retorno de precário de investimentos como a região do Saara africano. que identifica livre iniciativa e democracia política como dependentes entre si. Ele também observa que a grande ameaça da identidade e da diferença é a americanização e a produção estandardizados. o trabalho e os relacionamentos. guias de auto-ajuda. Mas ressalva que a percepção de inexorabilidade 4 . resta verificar se as experiências globais estão oferecendo alternativas sociais ou apenas violência repressiva e reativa. dando inclusive exemplos do Brasil. onde o cotidiano tem raízes de valor mais fortes não admitem a inserção de modos de vida. por exemplo. apenas o fundamentalismo religioso parece ser capaz de ter força ou vontade de resistir à “norte-americanização”. inicialmente.

destaca que após o fim do movimento internacional comunista. o fundamentalismo islâmico constitui uma “oposição programática à cultura ocidental. A oposição ao imperialismo americano. porém que por vezes “uma resistência nacional ao neoliberalismo” se transforma em uma “defesa do universalismo americano dos ‘direitos humanos’. conservador”. Após expressar pouca esperança nestas formas de resistência política e cultural à globalização. a “coesão política” possa “ser forjada na luta”. ainda que. fala da Iugoslávia e do Iraque para logo em seguida concluir que nenhum dos dois países “inspira muita confiança na viabilidade de um caminho puramente nacionalista”. contraditoriamente. advoga que a resistência seja progressista. que seria uma forma de resistência ao sistema ou à própria globalização é limitada. “como no Irã e em Cuba”.. Desta. Por fim. com a defesa de seus interesses pela via do protecionismo..) do econômico ao social”.) a tiques antropológicos e estranhezas. esvaziando a luta e seu conteúdo antiimperialista”. o autor frisa a importância da troca eletrônica de informação nos locais onde se manifestaram novas formas de resistência política à globalização. que o autor também ressalta: basear-se no modelo de outro país de resistência política pode ser considerado um projeto nacionalista? O mesmo segmento aborda as formas de resistência cultural e. o autor aponta que “qualquer proposta puramente econômica de resistência” deve “ser acompanhada por uma mudança de ênfase (. Ao tratar de projetos de resistência geopolítica à globalização.desta tendência age como um obstáculo a qualquer política de controle da tecnologia. 5 . segundo ele. muitos dos quais se resumem a uma tradição religiosa”. ou certamente ao ‘imperialismo cultural’ ocidental”. literalmente. O autor pensa ainda que “o estado-nação continua sendo o único parâmetro e o único terreno concreto a luta política” contra um “universalismo” americano que varre as culturas locais. Em outras palavras. chama a atenção para um risco desta forma de resistência: o de reduzir a “substância positiva do que está sendo defendido (. pelo comprometimento das áreas que melhor poderiam capitanear uma “resistência global” (União Européia e Japão) com o projeto americano de livre mercado global e. A resistência não deve conceber o “programa de preservação do coletivo em oposição ao atomizado ou individualizado como um programa retrógrado ou. O conjunto destas proposições gera uma contradição discursiva... novamente. Neste sentido.