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Educação Profissional: Ciência e Tecnologia | volume 4, número 1, p. 57-60, jul./dez.

2010 EDIÇÃO ESPECIAL | FÓRUM MUNDIAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA E PROFISSIONAL

ENTREVISTA

LUCÍLIA MACHADO > Por Ricardo Coelho & Rafael Voigt

Lucília Machado é Professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais

A organização da educação profissional no Brasil

EPCT | Lucília, a sua palestra abordou os vários temas que estão vinculados à organização da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), entre eles a interdependência. De que trata essa característica e qual a relação dela com a organização da EPT? Interdependência significa que a educação profissional e tecnológica é uma parte da sociedade que não sobrevive por si só. Ela não tem sustentabilidade pedagógica, social e política se não for integrada a um corpo mais amplo, que podemos dar o nome de sistema, do qual fazem parte outras instâncias da sociedade. Essa interdependência é que dá vitalidade à educação profissional e tecnológica. E compreendê-la é fundamental. Para isso, é preciso olhar para a origem da educação profissional e tecnológica e para a sua finalidade. Olhando para a origem, nós temos de responder, como parte de um sistema maior, às necessidades e demandas sociais. Porém, há uma distinção entre necessidade e demanda. Nem sempre as pessoas que têm necessidade de ter educação profissional têm consciência ou conseguem expressar e traduzir essa necessidade em demanda. A demanda é quando se faz a reivindicação, a exigência. E as necessidades sociais são de diferentes origens: jovem, famílias, governos, setor produtivo, movimentos sociais, trabalhadores, etc. Portanto, nós temos uma interligação a partir da origem. E temos também uma necessidade de in-

tegração ao sistema social respondendo pelas finalidades da educação profissional e tecnológica, que é a outra ponta. Essas finalidades dizem respeito ao atendimento, com qualidade social e pedagógica, das necessidades e demandas, garantindo a acessibilidade, produzindo os efeitos necessários em termos de eficácia e respondendo também pela noção e consciência de cuidar do meio ambiente, da sustentabilidade do planeta e das pessoas, garantindo, portanto, requisitos necessários à sua legitimidade social. Atendendo a essa lógica, poderemos, então, passar com maior facilidade pelo crivo do controle social, que diz respeito às sanções, positivas e negativas, que recebemos da sociedade com relação à nossa atuação.

EPCT | Atualmente, a educação profissional e tecnológica está respondendo mais às necessidades ou às demandas? Eu acredito que ela tem problema nas duas dimensões. Se nós compreendermos a necessidade como desenvolvimento integral do ser humano, portanto uma formação integral, e como desenvolvimento das potencialidades e multilateralidade da pessoa, no sentido da dignidade humana, nós podemos dizer que já caminhamos, porém, ainda pouco. Do ponto de vista das demandas, eu acho que a interlocução da

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Entrevista concedida em 26.11.2009

políticos. há. de certa forma. o acesso ao ensino superior. a educação profissional e tecnológica é pensada de uma maneira mais complexa. culturais. EPCT | A educação profissional e tecnológica no nosso país foi estruturada a partir das redes estaduais e municipais. a preocupação de pensar demandas e necessidades do mundo do trabalho. mas das sociedades de classe. ao tratar dos problemas a serem enfrentados pela EPT. com perfis amplos. só que de uma maneira diferente. com status de universidade. prof. As universidades tradicionais não fazem curso técnico. pois existem muitas demandas reprimidas. O mercado de trabalho diz respeito fundamentalmente às relações mercantis de compra e venda da força de trabalho. Nós temos de personificá-lo. Recentemente. Temos hoje a dificuldade de os cursos superiores de tecnologia serem reconhecidos como cursos superiores de igual qualidade que os de bacharelado. a rede é de formação geral. Quem ingressasse em uma linha teria uma destinação social diferente da outra. Esse é o modelo clássico de análise. a criação de uma oferta verticalizada abriu campo para a pesquisa e para a extensão e deu mais sentido a esta riqueza que estava aprisionada. tanto para o trabalhador. ele ainda se figura numa abstração. sociais. independentemente de ganharem o seu sustento. A outra questão que se coloca é em relação às escolas técnicas ou à educação técnico-profissional das redes estaduais a cargo das entidades subnacionais. Há pessoas que trabalham sem. no âmbito da educação profissional e tecnológica. Então. à pós-graduação. porque temos. mais do que vender e comprar a força de trabalho. Portanto. 1. 4 n. os institutos respondem a uma confirmação. Todavia. Nós temos uma maior complexidade dessa rede. que vende a sua força de trabalho. para dar conta de todos os componentes. Por isso. que antes era pensada como uma formação muito restrita e com uma terminalidade muita imediata. hoje em dia. Ela diz respeito à constituição de redes de ensino que são destinadas a públicos distintos do ponto de vista da origem socioeconômica. em que um braço era praticamente independente do outro. Assim. É um diálogo necessário. p. No que consiste essa dualidade estrutural? A dualidade estrutural é um marco constitutivo não só do sistema educacional brasileiro. Foi o próprio mundo do trabalho que trouxe a necessidade de pensar uma outra lógica. Esta foi a forma que se constituiu em quase todos os países os sistemas nacionais de educação. subutilizada. jul. Fala-se muito do mercado de trabalho. Vejo o ensino de excelência que foi construído ao longo desse período e que mostrou que esse acúmulo demandava um novo registro e a necessidade de potencializar todos esses recursos que foram construídos historicamente. a rede é de educação profissional. Brasília. e bem considerada. que estão latentes e ainda não tiveram os canais abertos para a sua expressão. a senhora citou a dualidade estrutural. Entretanto. do ponto de vista das suas múltiplas implicações. saberes e competências que fizeram com que houvesse a necessidade de melhorar a qualidade. As redes estaduais ainda estão muito deficitárias. vender a sua força de trabalho. eu avalio como positivo os institutos federais de educação profissional. com itinerários formativos. Essa é uma diferença fundamental. É essa instância que precisa ser considerada. pois ele envolve a realização humana em atividades que não são necessariamente mercantis.: C & T. elas foram acumulando experiências. foram criados os Institutos Federais de Educação Profissional. A existência de distintas instâncias governamentais responsáveis pela educação profissional não reforça a dualidade comentada anteriormente? Bom. O trabalho é mais amplo. 57-60./dez. Eu acho que existe uma falta de suporte de políti- 58 Educ. As instituições da rede federal de edu- EDIÇÃO ESPECIAL | FÓRUM MUNDIAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA EPCT | Ainda sobre essa discussão da necessidade e da demanda. com um atendimento muito restrito em relação às vagas e à responsabilidade que eles poderiam atender. 2010 . que nós deveremos ouvir e com os quais dialogar. sejam eles econômicos. a uma oficialização de um movimento que já estava ocorrendo do ponto de vista prático. Embora o avanço tecnológico e a ciência tenham dado maior significação para a educação profissional e tecnológica. a questão da divisão social do trabalho nas sociedades em classe repõe a mesma lógica anterior. o trabalho é mais do que isso. considerando esses fatos. uma formação profissional em nível superior. Nós temos cursos de licenciatura que tem uma carga horária idêntica a de determinados cursos superiores de tecnologia. quanto para quem compra a força de trabalho. se a origem for de outros estratos não populares da sociedade. se temos uma origem popular. E não é necessariamente a carga horária que faz com que o curso seja melhor do que o outro. Os institutos federais saem de um diagnóstico em que a riqueza acumulada estava. por força de lei. Hoje. Há pessoas que trabalham porque querem produzir algo de bom e útil para a sociedade. v. Isso é o mercado de trabalho. intelectual e com articulação entre a ciência e tecnologias. contudo. porém. Durante cem anos. ontem. nenhuma responsabilidade no âmbito do ensino médio. Estes possuem personalidade jurídica diferente e um lugar diferente do das universidades tradicionais. este modelo está um pouco mais complexo hoje. com capacidades de desenvolvimento cação profissional e tecnológica são antigas.educação profissional e tecnológica com relação à sociedade ainda está fraca. Falo do estado porque o município não tem.

Educação e Desenvolvimento Local. O Fundef./dez.cas de financiamento o que tem impedido o desenvolvimento dessas redes estaduais. ainda temos dificuldade em reconhecer que a educação profissional também realiza pesquisas. Acredito que a diferença maior entre a pesquisa acadêmica e a pesquisa tecnológica é que a pesquisa acadêmica responde muito pelas questões do por quê das coisas. Nós temos avanços. eles vinham com perguntas e questões muito ligadas à prática profissional: como melhorar a prática profissional deles LUCÍLIA MACHADO 59 Educ. sejam eles econômicos. v. Isso não existe. a experiência já deslanchou. Então. de relacionamento interinstitucional. isto já está acontecendo. Eu estou muito encantada com esse formato de mestrado. para dar conta de todos os componentes. para que os estados também possam desenvolver. nos processos de trabalho. Brasília. cria-se uma perspectiva desses investimentos.: C & T. Este se manifesta de uma maneira muito clara nas experiências de cursos técnicos integrados. 57-60. Por conseguinte. Então. municipais e federais de ensino. mas ainda existe um estranhamento muito grande. A grande vantagem é que as tendências do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no mundo do trabalho estão obrigando esses dois mundos a se encontrarem e promoverem um diálogo numa perspectiva de interdisciplinaridade. O arranjo educacional significa que tanto instituições públicas estaduais. somente. 1. propositiva. Hoje. que são muito artificiais. 4 n. assim como é pouco compreendida a especificidade da educação profissional e tecnológica. ainda que seja muito artificial separar pesquisa básica da pesquisa tecnológica. possam congregar esforços e trabalhar conjuntamente para atender localmente as demandas. veio garantir um aporte. formação básica está se tornando cada vez mais tecnológica e a formação tecnológica mais requisitante dos conteúdos básicos. que seja puramente voltado para o fazer. 2010 . EPCT | Em sua opinião. jul. dentro da filosofia do regime de colaboração. sociais. Eu acho que há espaço para todo mundo. EPCT | Atualmente. E nosso país precisa muito disso. Também o curso de formação de professores. E existe também uma ação importante por parte do governo federal. p. o sistema de educação profissional e tecnológica se integra com os demais sistemas de educação do nosso país? Ainda não da forma como deveria. Isso faz parte da organização. não previa recursos para o ensino médio. eu trabalhei no mestrado e no doutorado na perspectiva acadêmica. que é o programa Brasil Profissionalizado. Volto a dizer que hoje é impossível pensar no profissional técnico. A ideia que ainda prevalece é a de que somente na instância acadêmica é que se realizam pesquisas e que o campo da educação profissional é o campo da prática. que busca exatamente a solução dos problemas. na esfera mais básica. Agora. E hoje se trabalha também com uma noção de arranjos educacionais. Já a pesquisa tecnológica é predominantemente uma pesquisa aplicada. Durante muitos anos. com o Fundeb. O ensino técnico como uma modalidade do ensino médio ainda é pouco compreendido. tecnólogo. a preocupação de pensar demandas e necessidades do mundo do trabalho. Precisa realmente ter linhas de financiamento para garantir o crescimento de pesquisas no campo da educação profissional e tecnológica. exige-se do profissional uma atitude de investigação. que problemas são enfrentados no campo das pesquisas da área da educação profissional? Mesmo que tenha ocorrido avanço no campo da pesquisa. políticos. culturais. que era do ensino fundamental. quanto instituições privadas de ensino. um estranhamento recíproco. Por que isso? Porque a EPCT | Como é a pós-graduação na área da educação tecnológica e profissional? Existe agora um modelo. não tinha também como financiar por parte da rede estadual os cursos técnicos em nível médio. uma atitude de pesquisa para responder aos problemas. porque o programa E-tec – Programa de Educação Tecnológica a Distância – está sendo construído exatamente com esse desenho. do Centro Universitário UMA. De certa forma. Nos IFs também eles se apóiam na noção de arranjo educacional. principalmente de perspectivas solidárias de cooperação. O que é o arranjo educacional? Significa que todas as entidades públicas e privadas são chamadas a trabalhar juntas agora. Então me dei conta de que uma parte dos alunos não se localizava muito bem na proposta do mestrado ou doutorado acadêmico. Eu sou coordenadora do mestrado profissional em Gestão Social. que Há. uma instituição de Belo Horizonte. que é o mestrado profissional. de pôr a mão na massa. prof. a tendência é essa síntese e a abolição das diferenças. hoje em dia. Ele está sendo construído e alguns cursos já começaram.

60 EDIÇÃO ESPECIAL | FÓRUM MUNDIAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA Educ. Contudo. No mestrado acadêmico. como já ocorre em outros países. formando profissionais docentes. no sentido de dar ao Sistema S a oportunidade de conviver com a diversidade de pontos de vista. 57-60. Então. o nosso mestrado profissional visa exatamente dotar o profissional que não está no mundo acadêmico com os conceitos e ferramentas de intervenção e de inovação que permitam melhorar a sua prática profissional. ainda existem algumas questões que. v. no sentido de tornar-se uma instituição que realmente responda às necessidades que os diferentes atores sociais e suas redes sociais representam.ou como responder questões ligadas ao seu contexto de trabalho. mas não é isso que acontece nas áreas de ciências humanas e sociais. Eu acredito que o sistema tripartite pode oferecer uma perspectiva muito promissora. Não acho que seja o caso de passar o Sistema S para a gestão do Estado. com os diferentes interesses. com o grande acordo que se estabeleceu em relação à gratuidade. precisam ser mais discutidas. no meu entendimento.: C & T. fazê-lo mais próximo da sua missão. 1. embora sendo acadêmicos. Não coloco nesses termos. por exemplo. Brasília. Uma delas é a questão da gestão do Sistema S./dez. jul. 2010 . um diagnóstico. Ele também habilita para a docência. Porém. Acredito que o mestrado profissional tem uma perspectiva muito grande de crescimento no Brasil. ele ainda sofre com a tal dualização estrutural da educação brasileira. capazes de dialogar com o mundo do trabalho e de levar a experiência prática profissional aos alunos que estão formando. 4 n. EPCT | Qual a sua opinião a respeito da gestão do Sistema S? Eu acredito que houve um avanço considerável na relação da política educacional pública com o Sistema S. eles conseguem ter essa ponte com as ferramentas de intervenção. Eu acho que foi um avanço muito bom. no máximo. necessidades e demandas da sociedade e. Em áreas propriamente tecnológicas. inclusive. p. É importante lembrar que o mestrado profissional é reconhecido e tem o mesmo valor e status do mestrado acadêmico pela Capes. prof. mas isso é fruto de preconceito de uma sociedade que ainda não conseguiu entender o valor da educação profissional. trabalha-se menos as ferramentas de intervenção e de inovação e mais as questões conceituais. Há alguns que acham que é um mestrado de menos valor. Pois um modelo muito fechado num só braço também inviabiliza certos diálogos sociais que são fundamentais.