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PRUFROCK E O U T RA S O B S E RVA Ç Õ E S 1917

A Jean Verdenal, 1889-1915, morto em Dardanelos Or puoi la quantitate Comprender dell’amor ch’a te mi scalda, Quand’io dismento nostra vanitate Trattando l’ombre come cosa salda.1

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Dante Alighieri, Divina commedia, Purgatorio, XXI, 133-136. (N. do T.)

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A canção de Amor de J. Alfred Prufrock2
S’i credesse che mia risposta fosseA persona che mai tornasse al mondo, Questa fiamma staria senza più scosse. Ma però che già mai di questo fondo Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero, Sanza tema d’infamia ti rispondo.3

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Sigamos então, tu e eu, Enquanto o poente no céu se estende Como um paciente anestesiado sobre a mesa; Sigamos por certas ruas quase ermas, Através dos sussurrantes refúgios De noites indormidas em hotéis baratos, Ao lado de botequins onde a serragem Se mistura às conchas das ostras: Ruas que se alongam como um tedioso argumento Cujo insidioso intento É atrair-te a uma angustiante questão... Oh, não perguntes: “Qual?” Sigamos a cumprir nossa visita. No saguão as mulheres vêm e vão A falar de Miguel Ângelo. A neblina amarela que roça as espáduas na vidraça, A fumaça amarela que na vidraça o focinho esfrega E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo, Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta, Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés, Deslizou furtiva no terraço, alçou um repentino salto, E ao perceber que era uma tenra noite de outubro, Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu. E na verdade tempo haverá Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,

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Escrito em Paris-Munique, 1911. (N. do T.) Dante Alighieri, La divina commedia, Inferno, XXVII, 61-66. (N. do T.)

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das tardes. Pois já conheci a todos. E tempo ainda para uma centena de indecisões. Como então me atreveria? E já conheci os olhos. das manhãs.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 45 30 Roçando suas espáduas na vidraça. a todos conheci — Sei dos crepúsculos. mas depois deixam cair uma questão. meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo. gingando sobre um alfinete. Tempo haverá. Tempo para ti e tempo para mim. No saguão as mulheres vêm e vão A falar de Miguel Ângelo. Ou se me sinto alfinetado a colear rente à parede. Antes do chá com torradas. E na verdade tempo haverá Para dar rédeas à imaginação. a todos conheci — Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase. tempo haverá Para moldar um rosto com que enfrentar Os rostos que encontrares. Minha soberba e modesta gravata. “Ousarei” E “Ousarei?” Tempo para voltar e descer os degraus. Como então começaria eu a cuspir 40 50 60 . mas que um singelo alfinete apruma (Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas!”) — Ousarei Perturbar o universo? Em um minuto apenas há tempo Para decisões e revisões que um minuto revoga. Com uma calva entreaberta em meus cabelos (Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”) — Meu fraque. E uma centena de visões e revisões. Mas se me confino a fórmulas. E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos Sobre teu prato erguem. Medi minha vida em colherinhas de café: Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono Sob a música de um quarto longínquo. Tempo para matar e criar.

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.. os sorvetes... 70 80 90 . ao nosso lado. Após as chávenas... E a tarde e o crepúsculo adormecem tão docemente! Acariciados por longos dedos... se quedam lânguidos Com sua leve penugem castanha!) Será o perfume de um vestido Que me faz divagar tanto? Braços que repousam sobre a mesa. Comprimir todo o universo numa bola E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação. Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos De homens solitários em mangas de camisa. a geléia. o chá.. debruçados à janela? Eu teria sido um par de dilaceradas garras A esgueirar-me pelo fundo de mares silenciosos. Lá no fundo estirados. exangues. tive medo. ou a fingir-se de enfermos.. Após o chá.. Percebi quando titubeou minha grandeza. tendo nas mãos meu sobretudo. a todos conheci — Alvos e desnudos braços ou anelados de braceletes (Mas à luz de uma lâmpada. Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise? Embora já tenha chorado e jejuado. Entorpecidos.. Enfim. ou se enredam num xale. Teria valido a pena Cortar o assunto com um sorriso. Entre porcelanas e algumas palavras que disseste. chorado e rezado... Não sou profeta — mas isso pouco importa. afinal. aqui. os biscoitos.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 47 Todo o bagaço de meus dias e caminhos? E como iria atrever-me? E já conheci também os braços. .. E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso. Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada) servida numa travessa. E ainda assim me atreveria? E como o iniciaria? .. E valeria a pena.

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110 120 130 Não creio que um dia cantem para mim. mas algo obtuso. Às vezes. um instrumento de fácil manuseio. Retorno para tudo vos contar.. às vezes. Não! Não sou o Príncipe Hamlet. iniciar uma ou duas cenas.. de fato. enfim.. Envelheço. Andarei com os fundilhos das calças amarrotados. nem pretendi sê-lo. as ruas e os quintais polvilhados de rocio.” — Se alguém. Aconselhar o príncipe. E ao voltar em direção à janela. em absoluto. o que tudo fará Por ver surgir algum progresso. envelheço.. umas para as outras.. contente de ser útil... ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às pressas.. Político. Ouvi cantar as sereias. dissesse: “Não é absolutamente isso.. prudente e meticuloso. em absoluto. Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego? Vestirei brancas calças de flanela. tudo vos contarei. Cheio de máximas e aforismos.” . Se alguém. Não é isso o que quis dizer. Teria valido a pena. Após os poentes. Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer.. Teria valido a pena.” E valeria a pena. Após as novelas. afinal. ao colocar sob a cabeça um travesseiro. Não é nada disso.. e tanto mais ainda? — Impossível exprimir exatamente o que penso! Mas se uma lanterna mágica projetasse Na tela os nervos em retalhos. as chávenas de chá. e andarei pelas praias. . após O arrastar das saias no assoalho — Tudo isso. quase ridículo Quase o Idiota.. Sou um lorde assistente.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 49 100 Dizer: “Sou Lázaro. venho de entre os mortos. Respeitoso.

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Demoramo-nos nas câmaras do mar Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos. . A pentear as brancas crinas das ondas que refluem Quando o vento rasga um claro-escuro nas águas.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 51 Vi-as cavalgando rumo ao largo.

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estranho e raro. que cauchemar! 10 20 4 5 Escrito em Cambridge. (N. talvez. sabes? Não és cego! Como és vivo e sutil!). the wench is dead.. do T. Um amigo que possui tais qualidades. (N. Uma atmosfera de tumba de Julieta Propícia a que tudo se diga. Massachusetts. ato IV. Digamos que estivéssemos a ouvir o derradeiro polonês A transmitir os Prelúdios com a ponta de seus dedos e cabelos.) . E quatro círios na penumbra da sala. “Não sabeis o quanto eles significam para mim. / E além disso. Christopher. O quanto importa que te diga isto — Sem tais amizades — a vida. ou a que nada se enuncie. meus amigos. Quatro anéis de luz no teto a coroar nossas cabeças. O judeu de Malta (1592).” — E de fato as conversas deslizam de mansinho Entre veleidades e suspiros a custo reprimidos Em meio a tíbios timbres de violinos Acompanhados de arcaicos cornetins E principiam.) Marlowe. a rapariga está morta”. The Jew of Malta5 I Entre a fumaça e a neblina de uma tarde de dezembro. Que possui e oferece Tais qualidades sobre as quais arde a amizade.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 53 Retrato de uma Dama4 Thou hast commited — Fornication: but that was in another country. Uns dois ou três. 1909-10. “Tão íntimo este Chopin que julgo deveria sua alma Ressuscitar apenas entre amigos. Aí tens montada a cena — como deverá ser vista — Assim: “Pertence a ti toda esta tarde”. / Mas foi em outro país. que sequer lhe roçariam o viço Polido e arranhado nesta sala de concertos. cena 1: “— Haveis fornicado. E como é raro. encontrar Numa vida feita de tanto entulho. tanto resto e retalho (Pois na verdade o odeio.. do T. And besides.

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na outra borda do abismo. Falemos sobre os fatos mais recentes. não sabes. “Ah. não sabes O que é a vida. podes dizer: aqui muitos falharam. Sinto uma paz infinita.” A voz retorna como a insistente atonia De um violino quebrado numa tarde de agosto: “Sempre estou certa de que entendes Meus sentimentos. que de algum modo recordam Minha vida já sepulta. “Deixas que de ti a vida flua.” Sorrio. És invulnerável. Obstinada salmodia: No mínimo. sempre certa de que os sentes. tu. por meia hora. não tens o calcanhar de Aquiles. 50 60 . meu caro. e nenhum remorso tem E sorri perante aquilo que sequer consegue ver. no torpor de uma tragada. claro está. “Mas com aqueles poentes de abril. alcances tua mão. Vais em frente e. quando triunfas. e vejo o mundo Esplêndido e jovem afinal. a beber nossa cerveja. II Agora que florescem os lilases.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 55 30 40 Entre os volteios dos violinos E as arietas Dos ásperos cornetins Um obscuro tantã em meu cérebro começa Absurdamente a percutir o seu prelúdio. — Respiremos um pouco. Admiremos os monumentos. E sentemo-nos então. e Paris na primavera. Certa de que. uma estrita “nota imprecisa”. deixas que ela flua E cruel é a juventude. Um vaso de lilases tem ela em seu quarto E um deles trança entre os dedos enquanto fala. Acertemos nossos relógios pelos relógios das praças. que a subjugas em tuas mãos” (Lentamente a retorcer o talo de um lilás). E continuo a tomar chá.

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Outro acusado de desfalque bancário confessou.” Ponho meu chapéu: como posso. que pergunta mais tola! Dificilmente o saberias. Repisa uma cediça canção familiar Com o aroma de jacintos a fluir pelo jardim Relembrando coisas que alguém já desejou. Mantenho minha postura E mantenho-me controlado Salvo se um realejo. Estarão certas ou erradas tais idéias? 70 80 III Cai a noite de outubro. “Com que então viajas? E quando voltas? Ora. Em particular.. Um grego é morto num bailado polonês. “Poderás talvez escrever-me?” Por um segundo subiu-me o sangue à cabeça Como se assim eu calculasse este momento.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 57 Mas que tenho eu. pusilânime.. Exceto por uma leve sensação de estar inquieto. Galgo os degraus e giro a maçaneta da porta E sinto como se houvesse subido de quatro as escadas. anoto: Uma condessa inglesa sobe ao palco. exigir satisfações Por haver ela dito o que me disse? Me encontrarás todas as manhãs nos jardins públicos A ler histórias em quadrinhos e a página esportiva. Estarei sentada aqui servindo chá aos amigos. regressando como outrora.” Caiu-me lento o sorriso entre objetos antigos. Hás de achar muito o que aprender lá fora. meu caro. “Tenho-me surpreendido com freqüência ultimamente 90 . que tenho eu. Para dar-te que possas receber de mim? Amizade e simpatia apenas De quem já quase chega ao fim da vida. a martelar mecânico uma escala.

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sua vítrea expressão. todos os nossos amigos. Estarei sentada aqui. a caneta entre os dedos. cedo ou tarde. Se ela morresse e me deixasse aqui sentado. Não colheria ela algum lucro. dançar. e ao voltar percebi. “Eu disse o mesmo para todos. Já que não sei o que sentir ou se o entendo. De repente. e em trevas na verdade mergulhamos. A névoa a cair sobre os telhados.” Senti-me como quem sorrisse.. num encardido e róseo crepúsculo. Bem! E se ela morresse numa tarde qualquer.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 59 100 (Mas nossos princípios ignoram sempre nossos fins!) Por jamais nos havermos tornado amigos. servindo chá aos amigos. Respiremos um pouco. rilhar os dentes como um bugio. de quando em vez. Perdi todo o controle.. E talvez nem demores tanto a fazê-lo. afinal? Essa melodia culmina com uma “agonia de outono” E já que aqui falamos de agonia — Algum direito a sorrir eu teria? 120 . Deixemos que isto fique agora à sua sorte. Estavam todos certos de que nossos sentimentos Poderiam conjugar-se tão intimamente! Eu mesma dificilmente o entendo. Por um momento me perco em dúvidas. Escreverás. Numa tarde enevoada e cinzenta. Tagarelar como um papagaio.. no torpor de uma tragada. Se sou um sábio ou simplesmente um tolo. dançar Como faria um urso bailarino.” 110 E devo então trocar de forma a cada instante Para dar-lhe afinal uma expressão..

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PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 61 Prelúdios I6 A tarde de inverno declina Com ranço de bifes nas galerias. O temporal chicoteia As persianas rachadas e o capuz das chaminés.) Escrito em Cambridge. O fim carbonizado de nevoentos dias. E na esquina de uma rua Um solitário cavalo de coche Bajefa e escarva o solo. De costas te quedaste. Massachusetts. Seis horas. e esperaste. 6 7 8 10 20 Escrito em Cambridge. E agora um convulso aguaceiro enrola Os restos encardidos De folhas secas ao redor de nossos pés E jornais que circulam no vazio Dos terrenos baldios. Massachusetts. 1910. do T. 1909-1910. do T. Imprimindo suas lamacentas pegadas Até as matinais cantinas de café. (N. Pode pensar-se em todas essas mãos Que emergem como sombras embaçadas Em milhares de quartos mobiliados. II7 A manhã se apercebe Dos miasmas de cerveja choca Que impregnam as lajes pisoteadas Da rua recoberta de serragem. (N.) . 1909-1910. III8 Sacudiste da cama um cobertor. Em face de outros mil disfarces Que o tempo reassume a cada passo. (N. E então As lâmpadas dardejam seu clarão. do T.) Escrito em Paris.

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anelaste Em teus cabelos caracóis e papelotes. E curtos dedos firmes a encher cachimbos. Elas bruxulearam contra o teto.) . e a elas se agarram: A noção de algo infinitamente suave De alguma coisa que infinitamente sofre. Sentada à beira da cama. Tiveste uma tal visão da rua Como sequer ela própria a entenderia.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 63 30 40 Cochilaste. do T. e olhos Convictos de certas certezas. Os mundos se contorcem como velhas mulheres A juntar lenha nos terrenos baldios. Enxuga tuas mãos à boca. A consciência de uma rua enegrecida Impaciente por se apoderar do mundo. Sou movido por fantasias que se enredam Ao redor dessas imagens. IV9 Sua alma se estendeu cruzando os céus Que se estiolam por detrás dos edifícios. E estreitaste as pálidas plantas dos pés Entre as palmas de ambas as mãos sujas. e velaste a noite que revelava Milhares de sórdidas imagens De que era constelada a tua alma. 50 9 Escrito em Cambridge. e ri. Massachusetts. Ou a pisotearam insistentes pés Às quatro e às cinco e às seis horas da tarde. (N. 1911. E jornais vespertinos. E quando todos regressaram E a luz escorregou entre as venezianas E ouviste o canto dos pardais nas calhas.

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do T. O lampião dizia: “Olha aquela mulher Ao teu encontro hesitante à luz da porta Que a recorta como um riso escarninho. Uma e meia. 1911. (N. 10 20 30 10 Escrito em Paris. A mola espatifada no pátio de uma fábrica. Repara-lhe a barra do vestido Rasgada e suja de areia. O lampião resmungava.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 65 Rapsódia sobre uma noite de Vento10 Meia-noite. Uma síntese lunar captura Todas as fases da rua. E o canto de seu olho que se arqueia Como um grampo retorcido. Um ramo tortuoso sobre a praia Polidamente carcomido e cinzelado Como se um mundo erguesse à superfície O segredo de seu esqueleto. Sussurrantes sortilégios lunares Dissolvem os planos da memória E todas as suas límpidas tramas. O lampião cuspia. Cada lampião que ultrapasso Pulsa como um tambor fatídico. E através das lacunas do escuro A meia-noite golpeia a memória Como um louco brande um gerânio morto.” A memória expele e disseca Um turbilhão de coisas tortas.) . Rígido e alvadio. Divisões e precisos mecanismos.

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Surripiou e embolsou um brinquedo Que deslizava ao longo do cais. O lampião dizia: “Observa o gato que se achata na calha. Um velho caranguejo na sua carcaça calcária Agarrado à ponta de um graveto em que eu o erguia. O lampião cuspia. A lua perdeu a memória. Tenho visto pela rua olhos que tentam Emergir por entre persianas iluminadas. O lampião zumbia: “Olha a lua. Espicha a sua língua e saboreia Um naco rançoso de manteiga. Sorri pelas esquinas.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 67 A ferrugem que se aferra à forma Que a força deixou tensa e enrodilhada E pronta a abocanhar com uma dentada.” Tal a mão do menino. Duas e meia. O lampião no escuro resmungava. Ela está só.” Aflora a reminiscência De secos gerânios pálidos E de poeira nas frinchas. Alisa os cabelos de gramínea. Suas mãos retorcem uma rosa de papel Que recende a pó e água-de-colônia. Aroma de castanhas pela rua. automática. Pisca um olho tímido. 40 50 60 . Bexigas descoradas ulceram-lhe a face. E de cigarros pelos corredores E de coquetéis nos bares. Três e meia. em companhia De todos os antigos eflúvios noturnos Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro. E odor de fêmea nas alcovas clandestinas. Eu não podia ver atrás dos olhos do menino. La lune ne garde aucune rancune.

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Sobe.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 69 O lampião disse: “Quatro horas.” A última torção da faca. eis um número sobre a porta. para a vida te prepara. a escova de dentes pende da parede. Memória! Tens a chave. Põe teus sapatos junto à porta. dorme. . A cama é franca. A luminária alastra um círculo na escada.

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) .PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 71 Manhã à Janela11 Há um tinir de louças de café Nas cozinhas que os porões abrigam. (N. 11 Escrito em Oxford. E arrancam de uma passante com saias enlameadas Um sorriso sem destino que no ar vacila E se dissipa rente ao nível dos telhados. As ondas castanhas da neblina me arremessam Retorcidas faces do fundo da rua. E ao longo das bordas pisoteadas da rua Penso nas almas úmidas das domésticas Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço. 1915. do T. Inglaterra.

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1915. Caso a rua fosse o próprio tempo e este fluísse no fim da rua.) . Subo os degraus e toco a campainha. Como alguém que o fizesse para dizer adeus a La Rochefoucauld. 12 Escrito em Oxford. Quando a tarde freme languidamente na rua. eis o Boston Evening Transcript”. do T. voltando-me fatigado. E digo: “Prima Harriet. Acordando em alguns os apetites de viver E trazendo a outros o Boston Evening Transcript.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 73 O Boston Evening Transcript12 Os leitores do Boston Evening Transcript Ondulam ao vento como um trigal maduro. (N. Inglaterra.

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PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 75 Tia Helen13 A senhorita Helen Slingsby era minha tia solteirona. E o lacaio sentou-se à mesa de jantar. Ela acaba de morrer e houve silêncio no céu E silêncio no seu cantinho de rua. O relógio de Dresden continuou seu tiquetaque sobre a lareira. 10 13 Escrito em Oxford. Inglaterra. E morava numa casinha próxima a um quarteirão elegante Sob os cuidados de quatro serviçais. Cerraram as persianas e o agente funerário esfregou-lhe os pés — Ele sabia que esse tipo de coisa já ocorrera antes. do T. que fora sempre tão carinhosa enquanto sua patroa era viva. 1915. (N. Mas logo depois o papagaio também morreu. Aconchegando nos joelhos inchados a segunda criada — Ela.) . Os cães tiveram generosamente garantida a sua subsistência.

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Cavalgava pelas colinas e esmagava-as — As áridas colinas da Nova Inglaterra — Caçando a cavalo com a ajuda dos cães No pasto do gado. A senhorita Nancy fumava E dançava todas as danças modernas. 14 Escrito em Oxford. Inglaterra. E suas tias não estavam bem certas do que pensavam a respeito. 1915. guardiães da fé. Sob as prateleiras envernizadas da estante vigiavam Matthew e Waldo. O exército da lei imutável. (N. do T.) .PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 77 Prima Nancy14 A senhorita Nancy Ellicott Andava a passo largo pelas colinas e esmagava-as. Mas sabiam que era moderno.

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” No que toca à viúva do Sr. No palácio da Sra. Gotejando dos dedos da espuma.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 79 Sr. Phlaccus. Sua gargalhada era profunda e submarina Como a do velho homem do mar Oculto sob as ilhas de coral Onde corpos exaustos de afogados flutuam à deriva no silêncio verde. Escutei o tropel do centauro sobre a relva dura Enquanto sua conversa seca e apaixonada engolia a tarde. 15 16 Escrito em Oxford. que novidade! Por Hércules. Apollinax rolando sob uma cadeira Ou arreganhando os dentes por cima de um biombo Cheio de algas marinhas nos cabelos. essa criatura furtiva entre as bétulas. (N. 1916.) . Placcus. o que quer dizer?” — “Suas orelhas pontudas. na casa do Professor Channing-Cheetah. Apollinax15 16 Luciano 10 Quando o Sr.. Apollinax visitou os Estados Unidos Sua gargalhada tilintava entre as chávenas de chá Pensei em Fragilion. ao professor e à senhora Cheetah. do T. E em Priapo atrás das moitas Espreitando a dama a balançar-se.) “Oh. Tentei avistar a cabeça do Sr. Ele ria como um feto irresponsável. “Ele é encantador” — “Mas.. do T. (N. que coisa incrível! Que homem criativo!” Zêuxis ou Antíoco. Ele parece disforme” — “Dele ouvi algo que não consigo contestar. Inglaterra. afinal de contas. Lembro-me de uma rodela de limão e de um bolinho apimentado.

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golpeado por ondulações de músculos desconhecidos. enfim. Eu era tragado por ininterruptas arfadas. concentrei sutilmente a minha atenção para que esse fim fosse alcançado. com extremo cuidado. nas cavernas escuras de sua garganta.. se a dama e o cavalheiro desejarem tomar o seu chá no jardim. . repetindo: “Se a dama e o cavalheiro desejarem tomar o seu chá no jardim.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 81 Histeria Quando ela ria. alguns dos fragmentos da tarde poderiam ser recolhidos. até que seus dentes se reduzissem apenas a estrelas ocasionais aptas a formar esquadrões em treinamento..” Concluí que. Um garçom idoso com as mãos trêmulas estendia apressado uma toalha quadriculada em rosa e branco sobre a mesa verde corroída pela ferrugem. e me encontrava perdido. inalado após cada momentânea recuperação. eu me apercebia de que estava começando a envolver-me com a sua risada e a fazer parte dela. e. se sua respiração arquejante pudesse ser interrompida.

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senhora. A que mais de leve torce nossa tristeza erradia! Com vosso ar indiferente e absoluto.” E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?” 10 17 Escrito em Cambridge. 1909-1910. a Lua! Ou talvez (é fantástico. De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios. partitura que roubamos Para dar forma ao nosso nada. admito) Seja o balão do Preste João que agora fito Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar..” “Vós.) .” E ela: “Como divagais!” Eu. do T. Massachusetts. com que explicamos A noite e o luar.. não! Eu é que de vazios sou apenas feito. A eterna inimiga do absoluto. então: “Alguém modula no teclado Esse noturno raro.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 83 Conversa Galante17 Observo: “Nossa sentimental amiga.” E ela: “Me dirá isso respeito?” “Oh. (N. sois a perene ironia.

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Aperta tuas flores contra ti com doloroso espanto. I.”. Apóia-te numa urna do jardim.19 Detém teus passos no topo da escada. (N. Ela se foi. 10 20 18 19 Escrito em Cambridge. Algum caminho que ambos pudéssemos compreender. Assim teria eu desejado que ele se fosse. 1911.. Atira-as ao chão e volta-te Com uma furtiva mágoa em teus olhos.. que nome te darei. (N..... Eneida. Como o espírito abandona o corpo que o serviu. E pergunto como teriam conseguido unir-se! Deveria eu renunciar a um gesto e a uma atitude. muitos dias e muitas horas Tiraniza a minha imaginação.. Massachusetts.) “Ó donzela... Com os cabelos sobre os braços e os braços cheios de flores. tece a luz do sol em teus cabelos. Tece. Assim teria eu desejado que ela ficasse e sofresse. tece a luz do sol em teus cabelos.PRUFROCK E OUTRAS OBSERVAÇÕES 1917 • 85 La Figlia Che Piange18 O quam te memorem virgo... mas com o outono Por muitos. Virgílio.) . Assim teria ele ido embora Como a alma deixa o corpo ferido e dilacerado. Às vezes tais reflexões ainda assombram A inquieta meia-noite e o tranqüilo meio-dia.. do T. Mas tece. Simples e sem fé como um sorriso e um aperto de mão. Deveria eu encontrar Algum caminho incomparavelmente leve e sutil. do T. 327.

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