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Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564

Ano 5, 2011/2012

O cabimento do mandado de injunção: a omissão inconstitucional e suas espécies
André Ramos Tavares

1. OBJETIVOS DESTE ESTUDO

A preocupação central deste estudo é analisar os termos da proposta de projeto de lei que disciplina o processo do mandado de injunção. porém, dentre as diversas possibilidades de análise existentes1, a partir desse projeto, pretende-se enfocar, aqui, exclusivamente, o tema do cabimento do mandado de injunção, ou seja, este estudo se debruça sobre a inconstitucionalidade por omissão, mas não qualquer conceito genérico ou posição doutrinária, mas sim a inconstitucionalidade por omissão que especificamente se revele como hipótese ensejadora do cabimento de ação constitucional específica. Dentro do tema do cabimento, ademais, será desenvolvida a temática estrita da inconstitucionalidade por omissão, deixando-se de explorar elementos igualmente relacionados a essa dimensão, como a extensão constitucional de certas expressões, utilizadas ainda no âmbito do cabimento desse instituto, como é o caso das expressões “direitos e liberdades constitucionais” e “prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”. o cabimento do mandado de injunção em face de omissões normativas de órgãos e agentes outros que não o legislativo ou o chefe do executivo será analisado em um único aspecto, exatamente aquele aspecto que se refere à chamada inconstitucionalidade indireta por omissão (aqui abordada na tipologia da inconstitucionalidade por missão, não constituindo foco central de análise). O presente estudo apresenta os contornos da ideia de “inconstitucionalidade por omissão” a partir dos pressupostos positivados na constituição brasileira de 1988, ou seja, da inconstitucionalidade normativa por omissão (“falta de norma regulamentadora”, na dicção constitucional). considera-se, pois, a falta da norma regulamentadora, como o pressuposto central (embora não único) para fins de cabimen1

O tema da disciplina única do processo constitucional não é objeto de estudo aqui (para uma visão geral sobre o assunto: cf. Belaunde, Tavares, 2010b: 17-33).
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to do mandado de injunção e nesses termos é que se promove uma análise crítica de projeto de lei e substitutivo que pretendem disciplinar o cabimento dessa ação constitucional, dentro dos limites e recortes acima indicados. Preliminarmente ao ingresso no tema da inconstitucionalidade por omissão serão retomados, brevemente, os conceitos de inconstitucionalidade em geral. Ao trabalhar especificamente com a inconstitucionalidade por omissão, o texto pretende abordar suas diversas possíveis espécies, procurando, com isso, oferecer um catálogo amplo de possíveis categorias ou ocorrências da inconstitucionalidade por omissão. a confecção desse quadro geral (das espécies de inconstitucionalidade por omissão) é compreendida, aqui, como facilitadora de uma compreensão mais segura sobre as hipóteses que podem ser regidas pelo mandado de injunção (cabimento da ação) e por isso foi incluída como um dos elementos centrais deste estudo. A seguir, as observações e conclusões alcançadas ao longo desse desenvolvimento são utilizadas para uma análise crítica das duas propostas legislativas existentes (e a seguir referidas) para a disciplina desse tema.

2. A INCONSTITUCIONALIDADE

A inconstitucionalidade é expressão, em seu sentido mais lato, designativa da incompatibilidade entre atos ou fatos jurídicos (no que se inclui a omissão do Parlamento ou do Chefe do Executivo em sua função normativa) e a Constituição. Assim, como já observei em meu Curso de Direito Constitucional, a inconstitucionalidade “serve tanto para caracterizar o fato juridicamente relevante da conduta omissiva do legislador, que pode dar ensejo, no Direito brasileiro, ao mandado de injunção e à ação direta de inconstitucionalidade por omissão, como também serve para indicar a incompatibilidade entre o ato jurídico (lato sensu), seja o privado, seja o público, e a Constituição. E isso sob seus vários aspectos: agente, forma, conteúdo ou fim.” (TAVARES, 2011: 215). O ato jurídico positivo (considerado inconstitucional), portanto, pode ser uma Lei, uma Emenda Constitucional ou até mesmo um ato administrativo (nesta categoria
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2011/2012. a consequência daquela verificação. De outro lado. seja omissão parcial (existência de norma insuficiente perante a Constituição). comumente é empregada também como expressão designativa da “sanção”. a par de designar o vício. Significa. (.. entre omissão legislativa 2 e Constituição. seja omissão total. a falha. portanto. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. 3. apenas parcela do conceito de inconstitucionalidade. no caso. PRESSUPOSTOS PARA A FORMAÇÃO DO CONCEITO DE INCONSTITUCIONALIDADE E SUAS CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS A inconstitucionalidade das leis exprime “(. a falta de observância com os mandamentos contidos na Constituição. por seu turno. 1994: 62). 2011/2012 devem ser respeitadas algumas exigências adicionais). que é mais abrangente.. A inconstitucionalidade de lei constitui. ou seja. desde que se considerem como contrários à Constituição. em que o ato legislativo é o objeto enquanto a Constituição é o parâmetro” (RAMOS.) o não cumprimento de imposições constitucionais permanentes e concretas” (1993: 1089). o efeito.) assenta em pressupostos totalmente diversos da inconstitucionalidade por ação. que igualmente exprime uma relação de desconformidade. chamo a atenção para um problema conceitual (e não meramente terminológico) pois a inconstitucionalidade. Há. querendo indicar. “(.) uma relação de conformidade/desconformidade entre a lei e a Constituição. Brasília: IDP. neste passo.. 3 . Este estudo pretende abordar especificamente a inconstitucionalidade na omissão normativa. como o termo foi e será empregado neste estudo. Ano 5. nas palavras de GOMES CANOTILHO. A ideia central é plenamente aplicável para a inconstitucionalidade por omissão. A inconstitucionalidade por omissão. a nulidade ou anulabilidade do ato caracterizado como inconstitucional no primeiro dos sentidos. ISSN 1982-4564. “(. 2 Falo em omissão legislativa e não em omissão normativo jurídica por força do recorte realizado neste estudo..... 1994: 62).. nos termos e para os fins do Direito positivo brasileiro.)” (RAMOS.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5.

TAVARES.” (MIRANDA. seja no material. pois. ISSN 1982-4564. Dessa forma.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. que a inconstitucionalidade é um fenômeno atrelado à estrutura hierárquica do sistema jurídico. faltem as medidas legislativas necessárias para tornar exequível aquela norma. 1996b: 518). uma vontade (hipotética) contrastante do Legislador que estava obrigado a editar um ato normativo e não o faz (TAVARES. dirigindo-se para a avaliação dos atos legislativos existentes ou das lacunas jurídicas detectadas a partir desse mesmo parâmetro e de seus comandos. violando-os. A hierarquia das normas. 2006: 200). ii) norma constitucional que imponha dever legislativo que não possa ser concretizado diretamente pelo Judiciário pelos meios clássicos e ii) existência de um ato legislativo ou de uma omissão insuportável perante a norma superior. três são os pressupostos fundamentais para que se possa falar em inconstitucionalidade como conceito operacional vigente em determinado sistema de Direito: i) supremacia do parâmetro (que é a Constituição). como se trata da aferição de conformidade. um sistema composto por uma Constituição que se encontra em posição de superioridade formal (supremacia constitucional) em relação às demais normas (cf. nas circunstâncias concretas da prática legislativa. Certamente que o não cumprimento da Constituição do qual deriva violação significa a presença de um sistema hierarquizado. 2011: 216). RAMOS. 4 . por seu turno. que aqui é considerada como a norma parâmetro. 1994: 62. Resulta claro. Brasília: IDP. na medida em que estas leis ou a falta destas leis não esteja em sintonia com os padrões previamente estabelecidos por aquela (Constituição). A norma não exequível é a norma que gera omissão insuportável. seja em seus OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. pressupõe-se estar diante de um sistema hierarquizado de normas. Ano 5. portanto. remete à ideia de rigidez constitucional. 2011/2012 assim. b) que se trate de norma constitucional não exequível por si mesma. c) que. 2011/2012. Tratando especificamente da inconstitucionalidade por omissão observa JORGE MIRANDA serem seus pressupostos: “a) que o não cumprimento da Constituição derive da violação de certa e determinada norma. Pressupõe-se. Em breve síntese. que a verificação da inconstitucionalidade tem como ponto de partida a Constituição. do exposto. verificada na relação entre a Lei Maior e as demais leis existentes dentro de um sistema ou sua falta. seja no seu aspecto formal. Conclui-se.

e não de fenômeno diverso. Contudo. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. embora possa haver. em virtude do despropósito de comunicar ao Senado com a finalidade de suspender Lei que ainda não existe. categoria diversa. suas hipóteses e as circunstâncias que ensejam a propositura de ação específica (cabimento). Já a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e o mandado de injunção encontram-se calcados na inexistência de ato normativo necessário (e não na chamada lei não recepcionada. ISSN 1982-4564. não revela importância meramente acadêmica ou científica. uma vez identificada e certificada. embora próximo. A inconstitucionalidade por omissão. em determinadas circunstâncias. de inconstitucionalidade. portanto. que também são regulados pelo sistema. 52. a necessidade de se aprofundar no estudo da inconstitucionalidade por omissão como vício. Ano 5. aplicar-se-á ou não a regra do art. os efeitos práticos de sua delimitação são extremamente graves4. como espécie de inconstitucionalidade e pela gravidade desse reconhecimento. acima mencionada.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. que se analisarão os instrumentos colocados à disposição para eliminar essas violações. 2011/2012 objetivos3 (falta da lei ou lei com desvio de finalidade). Esta posição encontra-se baseada em estudo anterior (Tavares. 5 . 3 4 A omissão inconstitucional sempre se revela como uma violação da finalidade da respectiva norma constitucional que suporta a conclusão da inconstitucionalidade. em suas múltiplas facetas. Assim. quando isso não ocorra espontaneamente por parte do Legislador ou do Chefe do Executivo em determinadas hipóteses. rigorosamente falando. 2011: 218). concomitância de ocorrências). segundo a qual “Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público”. se não se tratar de inconstitucionalidade de lei. não se aplica o disposto no inciso X do art. Essa violação ou incongruência. Na verdade. Brasília: IDP. em primeiro lugar. 2011/2012. não se deve furtar a esse comando. apesar da literalidade reportar-se exclusivamente a lei ou ato normativo. Resta imprescindível. A caracterização do fenômeno da inconstitucionalidade. surtirá efeitos próprios. É na inconstitucionalidade como sanção. Também o cabimento da ação direta de inconstitucionalidade fica restrito aos casos em que se trata. uma vez que se trate de inconstitucionalidade ou de fenômeno diverso. como seria o caso da lei não recepcionada. 97 da Constituição.

por infração de uma norma infraconstitucional. sempre podem ser conduzidas em termos de violação indireta da norma hierarquicamente superior àquela violada diretamente. que todas as violações normativas seriam reduzíveis a uma questão de inconstitucionalidade (entendida aqui em sentido amplíssimo). entre inconstitucionalidade e ilegalidade. até se alcançar a Constituição. de mera instrução ou mesmo no nível da lei. de modo que a desconformidade existirá diretamente entre a lei e o ato interposto e indiretamente com referência às normas constitucionais que lhe dão suporte” (RAMOS. por infração de uma norma infralegal. ali formalmente constitucionais. ou a invalidade. que pode ser contemplada nas lições precisas de ELIVAL DA SILVA RAMOS: “(.” (TAVARES. 6 . tendo em vista que a Constituição é sempre o fundamento último de validade de todas as demais normas do sistema.) são ambas violações de normas jurídicas por atos do poder (. o ponto de contato. pois. A inconstitucionalidade. do qual pode surgir a tentação de ampliar a noção desta. a inconstitucionalidade e a ilegalidade “(. 2011/2012.1.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. estejam estas situadas no nível de uma portaria. 2011: 224). ISSN 1982-4564. 2011/2012 4. por assim dizer. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. divergem pela qualidade dos preceitos ofendidos. Brasília: IDP. não suporta tamanha elasticidade conceitual. Como salienta JORGE MIRANDA.. como também ali concluí. ESPÉCIES DE INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO 4. Inconstitucionalidade direta e inconstitucionalidade com ato interposto A questão está bem colocada pela doutrina constitucional para a inconstitucionalidade jurídico-normativa (por ação). sob pena de tornar-se imprestável o conceito..) Não divergem de natureza. Nesse sentido.. 1994: 64).. Ano 5..) a relação de inconstitucionalidade pode instaurar-se mediante a interposição de outro ato legislativo entre a Constituição-parâmetro e a lei-objeto. a ilegalidade. Em outras palavras.. perdendo uma utilidade mínima que justifique sua abordagem específica. aproximando-a à daquela. aqui contidos em lei ordinária ou nesta fundados” (MIRANDA. 1988: 276). como adverti em outra oportunidade. Logo. “fica evidente. está na característica comum de ambos os fenômenos constituírem uma violação de normas em nível hierárquico superior por parte do próprio Poder Público.

dá-se apenas entre a lei e a Constituição. 2011/2012 Ainda com JORGE MIRANDA. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL.. ISSN 1982-4564. um decreto presidencial contrário à Constituição. a omissão pode ocorrer por incumprimento de determinação direta da Constituição ou. sem que ocorra qualquer intermediação de outros atos jurídicos entre ambas. mas apenas em invalidade do decreto tendo como norma-parâmetro.. em inconstitucionalidade no sentido mais estrito do termo.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. pode surgir por incumprimento de lei lastreada diretamente na Constituição.. Assim. que tem se dedicado a explorar a questão da inconstitucionalidade indireta por ação. Em verdade. é aferida em sua constitucionalidade. que.) com a mesma intensidade e a mesma extensão sobre todos os atos. tendo em vista uma funcionalidade mínima do conceito de inconstitucionalidade. no caso. 1988: 277). É claro que. nem que qualquer desarmonia se traduza em inconstitucionalidade relevante para efeito de arguição” (MIRANDA. É o que se dá quando há. v. o decreto acaba violando. Apenas que. se o decreto viola a lei que está de acordo com a Constituição. é ele aqui utilizado para representar apenas e tão somente a inconstitucionalidade direta. transformando-se a inconstitucionalidade indireta. por sua vez. Brasília: IDP. a Constituição. mas igualmente contrário à lei que pretendeu regulamentar. ao contrário. a primeira indagação que surge é a da adequação desta categoria para a inconstitucionalidade por omissão. esclarecer quais seriam as consequências desse uso. Não se nega esse aspecto. 7 . que é decorrência da própria noção de supremacia máxima da Constituição. Ou seja. no caso. O tema não vem sendo devidamente enfrentado pela doutrina. Ano 5. deve-se enfatizar que é indesejável que se projete a inconstitucionalidade “(. indiretamente. cumpre averiguar se a própria ideia de inconstitucionalidade indireta pode ser utilizada para os casos de inconstitucionalidade por omissão e. 2011/2012. rigorosamente falando. A princípio. Esses esclarecimentos sobre a inconstitucionalidade por ação configuram preliminares para bem compreender as espécies de inconstitucionalidade por omissão. numa relação direta. em sendo a resposta positiva. a lei. a categoria aqui analisada parece adequada também aos casos de omissão. g. portanto. e que coloque à norma-objeto outro padrão (intermediário) de validade. em ilegalidade. Não se pode falar. Inconstitucionalidade.

não é o caso. de pronto. pois esta não ingressa em determinadas searas por respeito à partilha constitucional de funções. é uma omissão jurídico-normativa. v. requer. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL.g. não podem ser tratados pelo legislador. em tais hipóteses. ISSN 1982-4564. amplamente apresentadas pela doutrina.. o que a Lei faz. é respeitar a divisão funcional dos “Poderes”. na inconstitucionalidade por omissão. 2011/2012 Assim. ainda assim o fenômeno é o da inconstitucionalidade (por omissão). pois a atuação executiva (administrativa) embora dependente da edição prévia da lei não é atuação (ou falta dela) que se reporte apenas à Lei. uma omissão indireta. e de suas conclusões 5. Ano 5.2. deve ser cronologicamente anterior ao decreto). Contudo. duas são as possíveis ocorrências da inconstitucionalidade por ação. de maneira que assuntos administrativos. para fins de operacionalização. ainda que cruciais para o cumprimento da norma constitucional. em respeito à conhecida cláusula da “separação de Poderes”. Nesse sentido. aparentemente. Ainda que de inconstitucionalidade por omissão indireta se tratasse. Brasília: IDP. Inconstitucionalidade material e formal Basicamente. 2011: 225-228. conclusão esta menos passível de divergência.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. tendo sido editada. A falta deste decreto reflete imediatamente no cumprimento da imunidade constitucionalmente desejada. e que se poderia concluir que só surge em virtude da remissão legislativa. pois demandam atuação executiva necessária. 4. mas. nessa hipótese. se a Constituição determina a imunidade de certas entidades. há o desaten5 Sobre o tema. Numa primeira. Tavares. de se restringir o alcance da inconstitucionalidade para fins de cabimento das ações específicas existentes. cf. 2011/2012. mas é uma falta “de segunda ordem”. um decreto específico que não é editado. Contudo. Assim posta. a necessidade de decreto ou regulamentação executiva está no mesmo nível da necessidade da lei (que. ou seja. há incongruência entre o conteúdo da lei e o conteúdo da Constituição. regulamentar. será uma omissão normativa que é. Numa segunda modalidade. apenas por imposição de lógica do sistema jurídico. Nesses termos. poder-se-ia concluir. nos termos da Lei e esta. 8 . tratar-se de caso semelhante ao da “inconstitucionalidade e ilegalidade” concomitantes.

é questão de legitimidade de partes e de competência jurisdicional. Além das duas ocorrências existe. Facilmente. de onde emana a lei. o conteúdo da lei não está em desacordo com o da Constituição: apenas seu procedimento de formação. ainda. nesses termos. na omissão inconstitucional. também aqui a classificação é voltada exclusivamente para a inconstitucionalidade por ação. E algumas dessas dificuldades (que analiso a seguir) decorrem da própria discussão que existe quanto à chamada inconstitucionalidade (material) por ação. afirma: “Os requisitos formais concernem. Da mesma maneira como ocorre com a classificação da inconstitucionalidade direta e indireta. não é possível aferir regularidade de processo legislativo que não existiu ou falar apenas de conteúdo de lei que não existe. ISSN 1982-4564. a merecer maior detalhamento. tratando da inconstitucionalidade formal.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. do ponto de vista subjetivo. há algumas implicações e problemas. ou extrínseca. 9 . não obedeceu ao procedimento previsto na Constituição. a primeira ocorrência recebe a denominação de inconstitucionalidade material. A questão da competência legislativa. Ano 5. novamente. dessa conclusão.2. Em designações amplamente aceitas pela doutrina. substancial ou intrínseca. Inconstitucionalidade formal por vício federativo não afasta o cabimento da inconstitucionalidade por omissão (concomitante) BUZAID. não se tratando de problema de cabimento. Nesse caso. por seu turno. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. discutir sua pertinência para a inconstitucionalidade por omissão. Contudo. percebe-se que as categorias interessam apenas à inconstitucionalidade por ação. A inconstitucionalidade por omissão ocorre na falta da Lei e. Brasília: IDP. ao órgão competente. 2011/2012. contudo. é denominada inconstitucionalidade formal. cabendo. A segunda (e a terceira). não havendo lei. 2011/2012 dimento do modelo previsto para a elaboração da lei. 4. o problema da falta de competência do órgão legislativo que produziu determinada lei.1. de tramitação no Legislativo. Seria completamente descabido falar em omissão só material ou apenas formal.

e. mais detalhadamente. em razão da pessoa (extensão subjetiva da Lei). uma inconstitucionalidade formal. aqui. 4. apesar de existir Lei. ISSN 1982-4564. Nesses casos. abre-se uma inconstitucionalidade por omissão dos Parlamentos estaduais? A resposta é negativa. 1958: 49).2. contudo. 10 . temporal (elaboração em tempo proibido) e formal em sentido estrito (violação das formas prescritas). Nos três últimos casos. O vício é de competência do centro emanador da Lei (Parlamento federal v. espacial ou pessoal) por ação pode gerar inconstitucionalidade por omissão parcial Tomando-se por base os elementos do âmbito de validade das normas jurídicas (VERNENGO). como ocorre quando um órgão legislativo de uma entidade federativa invade seara própria de outra esfera federativa. em razão do espaço (extensão geográfica da Lei) e em razão do tempo (período de vigência da Lei). 2011/2012. Já NELSON DE SOUSA SAMPAIO (1968: 127) aponta três espécies de inconstitucio- nalidade formal: orgânica (incompetência do órgão). do ponto de vista objetivo. Vamos usar. Caso seja declarada a inconstitucionalidade em abstrato. pode-se distinguir quatro espécies de lei materialmente inconstitucional: em razão da matéria (stricto sensu). sendo a competência privativa dos estados-membros. Em certos casos (não. Essa hipótese. prazo e rito prescritos para a sua elaboração” (BUZAID. pode surgir a inconstitucionalidade por omissão. pois a prática de uma inconstitucionalidade formal por vício de competência federativa não pode afastar uma inconstitucionalidade por omissão em curso. ex nunc. Brasília: IDP. sempre. o caso de lei federal que discipline direitos constitucionais. em todos) a lei ou o ato normativo carregará “sinais” de sua inconstitucionalidade formal. Tratar-se-á. obviamente.2. ao menos. à observância da forma. é de inconstitucionalidade por ação. com efeito ex tunc ou. A inconstitucionalidade material (temporal. a lei federal é inconstitucional.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. 2011/2012 e. Ano 5. de hipóteses de inconstitucionalidade por omissão OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. Parlamento estadual). Não se deve considerar a lei inconstitucional como uma hipótese que afaste o cabimento da ação de inconstitucionalidade por omissão ou do mandado de injunção.

A inconstitucionalidade parcial ocorre também duplamente. Ano 5. com a lei penal mais benéfica. há ou incompatibilidade total-total ou parcial-total respectivamente ou ii) entre a Constituição e a ausência de norma há incompatibilidade total-total ou parcial-total.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. ISSN 1982-4564. Esta inconstitucionalidade por omissão ocorrerá sempre quando o tempo de vigência da lei. pois entre Constituição e ausência de norma haverá sempre uma incompatibilidade total desta ausência com a Constituição OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL.g. 4. v. 2011/2012 parcial (e não mais de inconstitucionalidade material por ação). nas hipóteses de incompatibilidade parcial-parcial ou total-parcial. estabelecido no conteúdo da norma objeto de análise. gerando uma inconstitucionalidade por omissão parcial de dispositivo legal que preveja a incidência para os fatos ocorridos a partir apenas do ano seguinte. quando a Lei prevê que só se aplicará para as situações ocorridas a partir do ano seguinte a sua entrada em vigor. A inconstitucionalidade total ocorre quando: i) entre a Constituição e o diploma legal. referentemente aos anos anteriores não mencionados e que.3. espacial e temporal. Utilizarei como exemplo a questão temporal. uma inconstitucionalidade por omissão.. que seguem a mesma tipologia: pessoal. 11 . Considero essa ocorrência legislativa como inconstitucionalidade parcial por omissão. respectivamente. O vício temporal está na lei. mas gera. 2011/2012. Inconstitucionalidade total e parcial O critério para classificar a inconstitucionalidade aqui é o da extensão que a invalidade assume em relação ao ato normativo ou à lei. por disposição expressa da Constituição. embora o fenômeno seja mais propriamente aplicado entre a Constituição e a lei. para situações de incidência (idênticas à previsão legal) ainda existentes (realidade fática). por exemplo. deveriam ser contemplados por norma legal que pretenda enunciar (enumerar) as hipóteses temporais de incidência da respectiva lei na qual se situa tal norma. para o presente e passado. estiver em desacordo com mandamentos constitucionais. por expressa disposição constitucional no sentido de retroagir. Assim. em circunstância na qual deveria se aplicar para todos os demais anos anteriores. Brasília: IDP.

não incluídas em seu âmbito de validade pessoal. O mesmo pode ocorrer. quanto à questão temporal e espacial. de maneira inválida. ou não. livro. ou a matéria. ISSN 1982-4564. em oposição à nulidade da parte objetiva.4. sendo. ou parte da Lei é inconstitucional (inconstitucionalidade parcial por ação) ou a falta de determinadas normas na Lei é inconstitucional (inconstitucionalidade parcial por omissão). pode levar à inconstitucionalidade por omissão parcial. É a nulidade subjetiva de que fala PONTES DE MIRANDA (1963: 415). Trata-se. Os preceitos podem estar no mesmo artigo. válida a norma em relação às pessoas expressamente indicadas. Insisto no sentido de que a inconstitucionalidade parcial não se refere apenas às partes destacáveis de um texto de lei. 2011/2012. 12 . É apenas este último caso que interessa para este estudo. contudo. Realmente. 2011/2012 (parcial-total ou total-total). no rigor técnico. Contudo. Inconstitucionalidade originária e superveniente Dentro da denominada inconstitucionalidade material. a invalidade da lei está presente. de situação que. é corrente na doutrina a distinção entre inconstitucionalidade originária e superveniente. é inexistência da lei. em virtude de aspecto pessoal. embora OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. dentro do preceito legal. Ano 5. título. dos enunciados. de seus conteúdos. no mesmo inciso. Nessa hipótese. mas é sempre parcial. pois a questão já é a própria questão conceitual da omissão inconstitucional parcial. Brasília: IDP. como visto. pouco importa a maneira pela qual estejam dispostas as normas dentro do diploma legal. a inconstitucionalidade superveniente. como já foi apresentado anteriormente. no mesmo parágrafo. justamente. parte. Podem ainda estar ou não na mesma seção. 4. gerando uma dificuldade conceitual. Nos casos de inconstitucionalidade parcial. Para a caracterização da inconstitucionalidade parcial. A inconstitucionalidade pode ser igualmente parcial quando atinge determinado número de pessoas. subsistindo uma parte da lei que é válida. ao passo que a inconstitucionalidade originária significa que a lei.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. capítulo. a doutrina o faz para distinguir entre espécies que já são substancialmente diversas.

4. utilizando-se a denominação expressa/tácita.5. 2011: 239) Dessa forma. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. a ocorrer quando a Constituição é emendada para fazer-se inserir dispositivo que demanda lei imediata que.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. ISSN 1982-4564. Ano 5. tenho sustentado que é possível usar a expressão “inconstitucionalidade superveniente” ainda com rigor técnico. não se pode dizer. 2011/2012 existente. é inválida. Contudo. só a partir da mudança da Constituição é que se caracteriza a omissão inconstitucional (até então inércia legislativa constitucionalmente irrelevante para fins de cabimento de mandado de injunção ou ADIn por Omissão). já analisada sobre outra categoria. em casos que pressupõem emenda constitucional ou nova ordem constitucional. Brasília: IDP. dizer que a lei não foi recepcionada. Esta mesma categoria deve ser utilizada para a inconstitucionalidade por omissão. deve-se admitir o uso da expressão inconstitucionalidade superveniente. passa a ser incompatível com o novo entendimento conferido à norma constitucional. É por isso que. 13 . “para designar a ocorrência da lei que. para designar tais hipóteses. 2011/2012. de não recepção (não de inconstitucionalidade superveniente). não existindo até então. Portanto. Ademais.” (TAVARES. trata-se de fenômenos substancialmente diferentes: inexistência jurídica e inconstitucionalidade. Ou seja. Nem se pode. e não com a Constituição pretérita. por um lado. O termo inconstitucionalidade deve ser reservado para as relações com a Constituição atual. toma outro parâmetro que não a relação direta ou indireta da lei ou da falta dela com a Constituição. que a inconstitucionalidade nasceu com o próprio nascimento da lei. embora constitucional. Inconstitucionalidade expressa e implícita A classificação que aqui se propõe. Os casos referidos são. por outro lado. tendo em vista a mudança ocorrida por via interpretativa. pode existir inconstitucionalidade por omissão superveniente. em rigor. a inconstitucionalidade superveniente (por força de uma nova Constituição ou de uma emenda constitucional) não deve receber a denominação de inconstitucionalidade.

embora estejam os valores... ou mesmo preponderantemente. 1999: 131). 1958: 46 – original grifado).. também. 2011/2012. o seu texto literal. não é o fato de haver valores consignados constitucionalmente. tem ela de encampar um ou mais deles. que se põe em dúvida o axioma de que a Constituição tem de ser considerada como um todo. visualizar essa realidade através de uma ‘lupa jurídica’ que nos demonstrasse perfeitamente como esses valores entram na Constituição. quando viola o direito expresso. É inconstitucional a lei violadora da Constituição. presente nos princípios deduzíveis da expressão de seus dispositivos” (POLETTI. 1968: 55). 1998: 181). Adotando ainda a mesma solução. leva-se em conta a incompatibilidade da lei com norma expressa da Constituição. o ‘espírito’ do dispositivo invocado” (BITTENCOURT. para quem a inconciliabilidade entre lei e Constituição “(. Brasília: IDP.) que ocorra conflito com alguma norma ou algum mandamento da Constituição. Isso porque. na maior parte dos casos. não obstante a falta de declaração explícita. quer ela disponha contrariamente à letra. 14 . mas que aparentemente se conflitam. inclusive por omissão. Não nos será possível. se revelam e se impõem a partir de um amplo conjunto de normas que os dão por pressupostos” (BASTOS. RONALDO POLETTI averba: “Uma Constituição não é apenas a sua letra. mas também os princípios que a informaram e que. É que por força daquele verdadeiro dogma de interpretação constitucional. Ano 5. E ainda: “Por outro lado. quando a lei é incompatível com o espírito ou sistema da Constituição. contudo. para esse fim. as aparentes colisões hão de se OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. haveria incompatibilidade entre a lei e uma norma constitucional implícita. No caso de inconstitucionalidade implícita. 2011/2012 Ao se classificar a inconstitucionalidade “expressa”... A distinção é acatada por ALFREDO BUZAID. mas. Não há Constituição neutra. como se vê em CELSO BASTOS: “As Constituições são tributárias de um conjunto de opções axiológicas. e indireta. Nem tampouco poder-se-á sustentar que se trata de um ‘subproduto inconsciente’ de quem elaborou a Constituição. não apenas a letra do texto.)” (BUZAID. permanecem no seu corpo. muitos outros haverá que. Também LÚCIO BITTENCOURT enfatiza que para se afirmar a inconstitucionalidade faz-se necessário “(. (. consignados expressamente nas normas constitucionais.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. sob certa forma.) é direta. quer ela fira o espírito constitucional. embora se considere. ISSN 1982-4564. O problema está bem identificado no campo constitucional. Diante dos plúrimos valores que o mundo encerra.

porque “(. político ou ideológico. mas decorrente de seu conteúdo” (POLETTI. Ainda que se fale em “espírito”. e que serviria como uma porta de entrada para aceitarem-se todas as alegações de inconstitucionalidade. por mais infundadas que fossem). pelo Legislativo.. 1998: 131-2). dela excluídas as sociedades de economia mista e as empresas públicas. que se presta às conveniências de cada caso particular. Precedentes. BITTENCOURT. não é aceitável. Na modernidade. ISSN 1982-4564. já ficou estabelecido que “(. ausente do Texto Maior.) A intromissão do Poder Legislativo no processo de provimento OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. 2011/2012 desfazer. para fins de aferição da inconstitucionalidade. destacadas.. pode-se substituir a ideia de “espírito” pela de objetivo (finalidade) constitucional. (.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. como o “espírito da Constituição”. não se faz em termos subjetivos ou ideológicos (entidade autônoma. valendo-se de técnicas elaboradas especificamente com esse propósito.” (BASTOS. 1968: 55) .. sem a indicação de uma única norma constitucional da qual deflua referido “espírito”. 15 . como se pode notar do teor de seus acórdãos. Mas isso não quer significar que se exija a existência de normas constitucionais expressas. antes.. Não se trata de uma entidade abstrata e autônoma. contingente. A inconstitucionalidade é factível em relação ao espírito da Constituição. 2011/2012.. e não a um princípio subjetivo. esse “espírito” há que se expressar de alguma forma mais ou menos intensa. Assim. Brasília: IDP. trata-se de algo que se subtrai dos dispositivos.). deve ser relativo a uma norma ou a um mandamento. da indicação dos Presidentes das entidades da Administração Pública Indireta restringe-se às autarquias e fundações públicas. Tem de se manifestar nas palavras da Constituição (cf. O próprio Supremo Tribunal Federal tem encampado essa teoria. O espírito constitucional decorre da consideração das normas e princípios constitucionais em seu íntimo relacionamento. Ano 5.. Não se trata já aqui de invocar algo vago e impreciso. 1998: 182). A só referência a um “espírito constitucional” violado. Como bem indica CELSO BASTOS. invocável a qualquer momento para justificar um meticuloso estudo por parte de um Tribunal encarregado de averiguar a constitucionalidade das leis.) Esta Corte em oportunidades anteriores definiu que a aprovação. A violação de regras constitucionais não explícitas também revela uma faceta da inconstitucionalidade das leis. É claro que a oposição entre a lei e o “espírito constitucional” não pode estar apenas na mente do julgador.

260-03.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. no fundo de seus valores” (POLETTI. Rel. A escolha dos dirigentes dessas empresas é matéria inserida no âmbito do regime estrutural de cada uma delas”.778/RS. direitos e garantias não expressos na Constituição. tem estabelecido algumas orientações. é elemento extremamente recorrente. o federativo. ainda que digam respeito. RE 95.. expressamente. Em última análise. Ementário 2. “(. 6 Também discutindo o conteúdo de princípio. §2º. constrói-se a partir da plurivocidade significativa dos artigos constitucionais expressos. quando alberga e admite. assinalava o Ministro MOREIRA ALVES que o Tribunal Supremo. a distinção aqui forjada encontra forte supedâneo no art. Min. DJ de 25/06/1982. Eros Grau. Brasília: IDP. ISSN 1982-4564. em grande parte de acordo com os resultados práticos decorrentes da interpretação. não apenas os expressos como também os implícitos. 2011/2012 das diretorias das empresas estatais colide com o princípio da harmonia e interdependência entre os poderes. na realidade. o caso se reduz à questão da inconstitucionalidade das normas construídas a partir do sistema e dos artigos constitucionais. Como acentua ainda RONALDO POLETTI . cuja solução dependerá da prática judiciária de cada sistema jurídico concreto. no caso.).. traçado a partir da sistemática das normas constitucionais. 16 .) em várias de suas decisões. está vinculada a outra questão. Rel. que permitem a elaboração das normas que. sob pena de declaração de inconstitucionalidade. Firmino Paz. agora atinente à interpretação das leis. 2011/2012. implicitamente. não é possível afastarem-se os princípios. por parte do Supremo Tribunal. “(. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. em especial quando se trata da interpretação constitucional.. Ano 5. Para tanto. expressamente.642/MG. 6 7 ADIn 1. Ementário 1. Por fim. apenas aos Poderes Federais. para fins de identificar incompatibilidades com a Constituição. 1988: 187).. Min. integrados todos na ordem jurídica de modo a serem observados. uma das quais é a de que a Constituição Federal. a existência de princípios constitucionais. Essa possibilidade de inconstitucionalidade (implícita ou indireta). A Constituição há de ser interpretada teleologicamente. 7 E chega mesmo o Supremo a falar em “valores suscetíveis de consideração” e em finalidade última do sistema constitucional.333-01. DJ de 19/09/2008. 5º. deve ser seguida pelas Constituições Estaduais”. neles estariam contidas. O que se poderia denominar “espírito” da Constituição. quando estabelece princípios que se consideram da essência dos Poderes.

8 Vide item 4. em sua exposição de motivos. 2º Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta total ou parcial de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. Trata-se de problema conceitual. Considera-se parcial a regulamentação quando forem insuficientes as normas editadas pelo órgão legislador competente. passando a ser apresentado o seguinte texto: “Art.” Percebe-se que o Substitutivo faz a eliminação do termo “parcial”. em inconstitucionalidade. Ano 5. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. Portanto. não enfrentado diretamente pela Constituição. O Substitutivo não menciona. contudo. no Projeto de Lei n. caso aprovada fosse essa redação.” Na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. ISSN 1982-4564. falando apenas em “falta de norma regulamentadora” e não em “falta total ou parcial de norma regulamentadora”. Mas há espaço constitucional para a opção feita pela Projeto de Lei. Parágrafo único. houve mudança. à soberania e à cidadania.3. conforme demonstrado acima8. originariamente. uma escolha objetiva e mais detalhada pelo legislador é necessária para prevenir possíveis divergências doutrinárias e jurisprudenciais. A opção inicial era adequada aos propósitos constitucionais e não cria dificuldades de ordem processual nem incidiria. 17 . a razão do corte na redação do dispositivo mencionado. O PL 6128/09 E SEU SUBSTITUTIVO A proposta encartada. à soberania e à cidadania. Brasília: IDP. 6. incluindo expressamente a “inconstitucionalidade por omissão parcial”? A resposta é positiva. que não vazou preferências a esse respeito. 2011/2012. 2011/2012 5.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5.128/2009 previa o seguinte: “Art. 2º Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. O cabimento do mandado de injunção em face da inconstitucionalidade por omissão parcial clama por maior rigor e segurança face a sua inerente complexidade.

mas por opção política). especialmente em virtude dos efeitos mais amplos (positivos e efetivos) de uma decisão final. a ser cumprido pelo legislador. de verdadeiro dever constitucionalmente estabelecido. embora o Poder Legislativo detenha competência discricionária para legislar (competência geral) e. então o mandado de injunção logrará os seus objetivos” (CANOTILHO. é possível fixar alguns pontos e conclusões acerca do Projeto de Lei em apreço neste estudo. CONCLUSÕES ACERCA DO CABIMENTO DO MANDADO DE INJUNÇÃO Independentemente da discussão acerca do processo constitucional e de seu alcance. através de pressões jurídicas e políticas. limitar a arrogante discricionariedade dos órgãos normativos. mesmo modestamente. se começar a destruir o ‘rochedo de bron ze’ da incensurabilidade do silêncio. Tratase. embora deva haver campo para a atuação política de convencimento (em muitas ocasiões – não se nega – a falta da lei não ocorre por inércia. se. vale ressaltar que. é a conveniência de Lei especificando sua disciplina. Brasília: IDP. 6. se conseguir chegar a uma proteção jurídica sem lacunas. particularmente acerca do cabimento do mandado de injunção em face da ocorrência de inconstitucionalidade por omissão. 18 . O segundo ponto é o de que uma ação específica só pode fazer sentido caso se admita inverter ou reduzir a ocorrência inconstitucional. “Por fim. que ficam calados quando a sua obrigação jurídico-constitucional era vazar em moldes normativos regras atuativas de direitos e liberdades constitucionais. Ano 5. ademais. seria bem vinda e de efeitos didáticos desejáveis no âmbito de tema ainda carente de sedimentação. 2011/2012. através de uma vigilância judicial que não extravase da função judicial. pois. Quanto a importância e propósito do mandado de injunção vale tomar emprestadas as palavras de CANOTILHO utilizadas na obra coordenada por SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA : “Se um mandado de injunção puder. em algumas matérias. ISSN 1982-4564. o certo é que. 1993: 367). especialmente quando a omissão prejudica ou impede o exercício de um diOBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. O primeiro ponto conclusivo para o mandado de injunção.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. que merece destaque. se. posicionamento este recentemente assumido pelo STF. A especificação. 2011/2012 A opção por não especificar hipóteses de cabimento será capaz de abrir margem para a dúvida e questionamentos no uso rotineiro do mandado de injunção. no caso. a Constituição foi incisiva sobre a necessidade de edição (efetiva) de leis. por outro lado.

A mudança da jurisprudência recalcitrante foi uma grande conquista para a cidadania brasileira. propôs. Min. inutilmente” (STF. 2011/2012. observando-se o princípio da continuidade do serviço público (MI 670/ES. adotou solução semelhante. que. como bem colocou o Min. Rel. 37. enquanto não se suprisse a omissão legislativa. pela função normativa da Justiça Constitucional. ao formular supletivamente a norma regulamentadora de que carece o art. Nesse mesmo sentido. EROS GRAU. EROS GRAU. Com essa mudança paradigmática a Justiça Constitucional está a auxiliar decisivamente na operatividade das normas constitucionais. que discutiu o direito de greve de servidores públicos.” (TAVARES. função normativa” (STF. Rel. MI 712-8/PA. já me posicionei no meu Teoria da Justiça Constitucional. em seu voto. para outras situações seme- OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. de 28-6-1989. e concluiu: “Pois é certo que este Tribunal exercerá. MI 712-8/PA. O efeito didático (indireto) dessas decisões. O Min. EROS GRAU).T. em mandado de injunção com esse mesmo objeto (MI 712-8/PA). embora seja espúria. Ano 5. 19 . essa “ideia” existe somente da forma e na medida como está prevista na Constituição (embora seja mais uma cláusula constantemente reinterpretada pelo STF). Min. quando de sua iniciativa exclusiva a deflagração do processo legislativo). com isso.F. é desconhecer a supremacia da Constituição. especialmente por se tratar de um país cujo compromisso constitucional (incluindo os direitos humanos fundamentais) é constantemente relegado a segundo plano. EROS GRAU). decisão de 7-6-2006). VII da Constituição. em tais situações. defendendo a alteração da postura do S. ISSN 1982-4564. no MI 670. sem. MAURÍCIO CORRÊA. afrontar a “separação de Poderes”.783. uma ampla e irresponsável discricionariedade do Legislativo (ou do Executivo. O Min. No entender de EROS GRAU. contudo. já que não há uma separação de Poderes provinda de parâmetros universais. fosse aplicada a Lei n. e a ideia de “fraude à Constituição” uma prática que.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. 2006: 201). quanto à natureza das decisões proferidas em mandado de injunção. Rel. colocou o seguinte dilema: “Importa verificarmos é se o Supremo Tribunal Federal emite decisões ineficazes. 7. decisões que se bastam em solicitar ao Poder Legislativo que cumpra o seu dever. Min. 2011/2012 reito constitucional pelo indivíduo. comumente costuma ser desconsiderada. que trata do exercício do direito de greve no âmbito da iniciativa privada. GILMAR MENDES. Admitir. Em seu voto. o Tribunal estaria exercendo função normativa. Brasília: IDP. gerais ou estanques na História.

São Paulo: Saraiva. A3. Rio de Janeiro: Forense. J. Da Ação Direta de Declaração de Inconstitucionalidade no Direito Brasileiro. a inconstitucionalidade por omissão se apresenta por diversas espécies. BELAUNDE. como a total e a parcial. Alfredo. ed. 1993. Fórum. A. Domingos García. Sálvio de Figueiredo Teixeira). 1958 (Col. Brasília: IDP. Almedina. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. 2011/2012. 1999. Por fim.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. _____. J. C. 21 de fevereiro de 2010a. 2011/2012 lhantes. o Projeto de lei com a redação atual. Por que um Código Processual Constitucional? In: Revista Brasileira de Estudos Constitucionais. ano 4. ed. p. Ano 5. ISSN 1982-4564. São Paulo: Saraiva. Como ficou demonstrado acima. n. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTOS. BUZAID. ao preferir o silêncio sobre as espécies de inconstitucionalidade. p. 1968. CANOTILHO. mas deixa passar a oportunidade de esclarecer e abordar diretamente o tema. rev. ed. Coimbra: Livr. colaborando decisivamente para rapidamente superar a “falta de Constituição” ainda constatada na realidade brasileira. 1993. tratando a matéria de forma genérica. tanto é que o Projeto de lei incorporou parte da jurisprudência do STF reafirmando a atenção e o diálogo entre o exercício dessas duas funções do Estado. Gomes. Direito e Cultura 6). out. André Ramos. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. Mais um código? Folha de São Paulo. TAVARES. _____. 2010: 1011-4). 6. 2. Belo Horizonte. O Contrôle Jurisdicional da Constitucionalidade das Leis (1949). As Garantias do Cidadão na Justiça (Coord. atribuindo-lhe corpo certo e eficiente para desenvolver seu fundamental desiderato. A existência de norma disciplinando o mandado de injunção colaborará para a manutenção da segurança jurídica e a ampla difusão do instituto. São Paulo: IBDC. Lúcio. 17-33. 20 . ed. 2. também não é desprezível (TAVARES. não exclui a inconstitucionalidade parcial e outras modalidades aqui analisadas./dez. BITTENCOURT. Celso Seixas Ribeiro. 16. Direito Constitucional. 2010. permitindo uma devolução às discussões e debates sobre o cabimento dessa delicada ação.

ISSN 1982-4564. 1968. Rio de Janeiro: Borsoi. André Ramos. O Processo Legislativo. rev. Manual de Direito Constitucional. São Paulo: Método. 1988. Ano 5. 2006. TAVARES. 3. ed. t. 2. Elival da Silva. Contributo para uma Teoria da Inconstitucionalidade.. 4. Rio de Janeiro: Borsoi. _____. POLETTI. Tratado de Direito Privado: Parte Geral. ampl. 2011. Coimbra: Coimbra Ed. 2011/2012 CAVALCANTI. rev. MIRANDA. Manual de Direito Constitucional. RAMOS. 2. 1998. ed. 2. São Paulo: Saraiva. 2011/2012.Observatório da Jurisdição Constitucional ISSN 1982-4564 Ano 5. Curso de Direito Constitucional. PONTES DE MIRANDA. _____. rev. 2. Controle da Constitucionalidade das Leis. OBSERVATÓRIO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL. Rio de Janeiro: Forense. A Inconstitucionalidade das Leis: Vício e Sanção. 4. 1995. São Paulo: Saraiva. 6. São Paulo: Saraiva. t. Teoria da Justiça Constitucional. 9. Nelson de Sousa. SAMPAIO. 1996b. ed. MENDES. Coimbra: Coimbra Ed. ed. 1998. Curso de Teoría General del Derecho. 1963. ed. Francisco Cavalcanti. Direitos Fundamentais e Controle de Constitucionalidade: Estudos de Direito Constitucional.. 1994. Jorge. São Paulo: Celso Bastos Editor/ Instituto Brasileiro de Direito Constitucional. 2005. Gilmar Ferreira. Coimbra: Coimbra ed. 1966. t. 21 . Comentários à Constituição de 1946. Do Contrôle da Constitucionalidade. 1996a. e atual. Buenos Aires: Depalma. Direito Constitucional Brasileiro Concretizado: Hard Cases e soluções juridicamente adequadas. _____. J. São Paulo: Saraiva. 1954. Brasília: IDP.. rev. _____. VERNENGO. t. Roberto. Rio de Janeiro: Forense. Ronaldo. _____. Themístocles Brandão.