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O novo espírito da civilização Janos Biro1 2010 1.

O monstro assimilador revisitado* Uma vez eu disse que o capitalismo é um monstro assimilador, um monstro capaz de assimilar para si tudo aquilo que é usado contra ele, absorvendo todos os discursos que usamos para criticá-lo e todas as ações que visam destruí-lo. Ele usa nossos conhecimentos e meios de ação para se fortalecer e expandir. Nossas estratégias e teorias são transformadas em algo que beneficie o modelo econômico capitalista, e isso é feito sem que nós percebamos ou até mesmo com o nosso consentimento. O processo de assimilação ocorre numa velocidade cada vez maior, porque a cada movimento assimilado ele aumenta sua capacidade de assimilar novos movimentos. Mas o monstro assimilador não tem identidade definida. Por causa de sua habilidade de assimilação, ele está em constante mutação. Logo, ele não é exatamente capitalista, não é representado por este ou por aquele aspecto ou interesse, é uma mistura cada vez mais confusa de todas as coisas. O importante não é exatamente aquilo que o compõe, mas o seu arranjo. Ele pode ser composto de coisas que em si são muito boas, mas que participam de uma estrutura que num todo é insustentável. Essa estrutura não é fixa, mas fluída. Não é mecânica, mas orgânica. Não é linear, mas sistêmica. Comporta contradições sem que isso impeça seu funcionamento. O seu caos aparente revela uma complexa harmonia interna que mantém um número crescente de elementos em desarmonia. Isso dificulta a análise do processo, porque não sabemos distinguir onde a coisa começa e onde acaba. Um exemplo de monstro assimilador aparece no filme Astro Boy (2009). Nele, uma tecnologia criada para a paz é usada para guerra, sai fora de controle, e acaba assimilando partes da utopia tecnológica que a criou para aumentar seu poder destrutivo, ameaçando toda a existência. No filme, a solução é deixar que o monstro assimile o herói, que contém em si a energia contrária ao do monstro. E quando as energias contrárias se juntam, elas se anulam, destruindo ambos. Você pode ver essa mesma ideia em muitas outras estórias e mitos. Mas essa solução não está disponível para nós, porque nosso monstro mistura energias opostas sem se destruir, pois ele não tem um fundamento definido. Ele consegue manter elementos contraditórios dentro de si sem deixar que eles se anulem, usando-os para gerar movimento, tal qual um pêndulo. Ele é contraditório, mas compreende a própria contradição, unindo a tese e a antítese numa síntese evolutiva. Isso é necessário para a sobrevivência de qualquer monstro assimilador pós-moderno. 2. A ascensão da biocivilização Um dos discursos que a civilização assimilou é a crítica feita pelos movimentos que seguem uma visão ecológica e sistêmica da vida. Em 1982, no livro Ponto de Mutação, o físico Fritjof Capra usou uma visão orgânica para contrapor a visão cartesiana presente em vários aspectos da cultura. Essa visão seria a causa de nossos problemas sociais e ambientais. Para perceber como esse discurso foi assimilado, veja
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Bacharel em filosofia e mestrando em sociologia pela UFG. E-mail: janosbirozero@gmail.com A primeira vez que eu usei o termo “monstro assimilador” foi num artigo chamado “Como matar um monstro assimilador”, do livreto “Por uma mudança”, publicado em 2007, mas escrito alguns anos antes. O seguinte artigo está embasado no que aprendi desde então, principalmente com o autor do artigo “Crise do capitalismo global e o ethos da pleonexia”, Anderson Clayton Pires.

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A visão de progresso expressa por Sachs coloca os caçadores e coletores no primeiro degrau de uma escalada para eficiência na produção de comida e energia. Seria preciso resolver o conflito entre sociedade e Estado.como ele é usado pelo economista Ignacy Sachs2. A biocivilização se baseia no uso de biocombustíveis e numa nova era de desenvolvimento rural. 2 As biocivilizações do futuro e o potencial brasileiro. Enquanto as técnicas de produção avançavam. Contudo. e é um dos maiores defensores da convergência entre ecologia e economia. isso exige que o foco do desenvolvimento recaia sobre o campo.ecodebate. Pelo menos é assim que ele espera que aconteça. http://www. por exemplo. graças a uma nova revolução verde3.br/2009/03/05/as-biocivilizacoes-do-futuro-e-o-potencial-brasileiroentrevista-com-ignacy-sachs/ 3 A revolução verde foi provavelmente ainda pior que a revolução industrial em termos de impacto ambiental. E mesmo que isso seja alcançado. isto é. A proposta de Sachs é a emergência de uma nova civilização. que deu origem ao termo “desenvolvimento sustentável”. o que pode ser bem mais complexo do que Sachs faz parecer. criando sistemas integrados de produção de alimento e energia. Para que isso seja alcançado também seria necessário que os interesses da “segurança alimentar” e da “segurança energética” não sejam submetidos aos interesses de indústrias como a petrolífera e a automobilística. O etanol será produzido a partir da celulose de resíduos florestais. a biocivilização. Querer uma nova mudança dessas é ignorar que as soluções civilizadas parecem ser ouroboros. nenhuma alternativa é tão eficiente e versátil quanto o petróleo. substituindo o petróleo. o Brasil poderia ser um pioneiro nessa área. 1982. criador do termo “ecodesenvolvimento”. Pelo que sabemos. Fritjof. soluções que geram mais problemas. Não há nenhuma evidência segura de que isso sequer seja possível. os danos ambientais também aumentavam. Já que a biomassa do planeta é limitada. Trata-se de uma crença no progresso. Tudo que importa são as condições econômicas para manter um processo progressivo. Nenhuma palavra é dita sobre qual é o sentido desse processo. Para isso. graças ao uso de árvores de crescimento rápido que gastam menos água. porque há um retorno para a fonte primária. trata-se um aproveitamento racional e eficiente da biomassa. e não mais sobre a cidade. Capra fala de uma visão que tem o destino de se tornar global. Segundo Sachs. 255. e um retorno à agricultura familiar.com. a questão parece reduzida à economia. resolvê-la depende da distribuição das fontes de renda. Mas como isso poderia ser feito? A sociedade deveria controlar o mercado. 4 CAPRA. Entrevista com Ignacy Sachs. passando pela agropecuária e pela era dos combustíveis fósseis. 2 . destinado a eclipsar a visão de mundo cartesiana em nossa sociedade”4. Teremos veículos mais leves e poderemos conciliar a mobilidade com o desenvolvimento local. mas que se consolidará finalmente como um novo paradigma. seria preciso obrigar o Estado a unir os interesses sociais aos ambientais. deverá haver um equilíbrio entre produção de comida e geração de energia. que resolveria os problemas de emprego e renda. Enfim. se tornariam uma fonte de riqueza inestimável. Mas na biocivilização isso não vai mais acontecer. Portanto se trata do fim da era urbana e industrial. a energia do Sol. e isso seria feito com a produção de biocombustíveis que. Origens da biocivilização É fácil perceber a relação desse discurso com as idéias de Capra: “A nova cultura que está emergindo compartilha uma visão de realidade que ainda está sendo discutida e explorada. Uma vez que a fome não é causada pela falta de produção de alimentos. O ponto de mutação. p. Editora Cultrix. 3.

H. http://www. Este é provavelmente o conceito científico mais importante para o novo espírito da civilização. para aqueles que partem do ponto de vista de que “o homem é a medida de todas as coisas”. porque não se considera como uma verdade objetivamente válida. O agente da mudança é a própria sociedade. que não podem ser derivados da visão anterior. formando um presente eterno. 3 .com/pluriversu/autopoies.segundo a qual a civilização transcende sua forma atual e alcança um novo “estágio evolutivo” que promete nos dar tudo o que desejamos. Ele indica uma nova forma de estudar os fenômenos biológicos. Nada de substantivo pode ser dito sobre aquilo que não se manifesta fenomenologicamente ao indivíduo. que às vezes é chamado de “criatividade” ou “capacidade humana de superação dos limites impostos pela natureza”. A valorização do raciocínio lógico só teria servido para manter uma estrutura de poder e para separar o ‘eu’ do mundo. A mudança será um resultado inevitável do desenvolvimento histórico do próprio capitalismo.html Cultura e Sociedade. Quem discordar disso estará sendo um ideólogo reacionário. Essa visão abandonou as referências universais. mas uma nova visão do homem e da sociedade. Por fim. e por isso não pode ser criticada com argumentos. porque esta não os comporta. numa era que trocou a física pela biologia. que leva em conta a relação entre o todo e as partes. mas é apenas uma nova visão de mundo. O fato de ser uma nova visão é suficiente para que ela se justifique. isto é. Por isso. Ao contrário. Afinal. a revolução cultural seria um fluxo constante de diferentes momentos históricos que se conjugam um após o outro. sendo que nenhum tem 5 MARIOTTI. Este conceito acaba influenciando não apenas a biologia. a verdade depende de um determinado momento histórico. A visão sistêmica sugere que a verdade não é a mesma para todos. na qual a história conspira pelo bem da civilização. mas esse determinismo estrutural não significa que o organismo seja pré-determinado. e por isso pode ser descartado em prol de uma “mudança de mente”. A mudança do indivíduo e a mudança do meio se correspondem. Em outras palavras. Tudo está em mutação. e não existe por si mesma. num processo de ‘autonomia dependente’. A crítica a esse esquema enfrenta a enorme dificuldade de demonstrar qual a distinção entre conhecimento válido e opinião pessoal. o organismo é determinado por sua estrutura. o que restou é o ponto de vista individual. Segundo Maturana e Varela.geocities. sua identidade está na sua organização. O velho paradigma teria gerado os males do nosso mundo. porque ela depende da percepção de um determinado ponto de vista num determinado momento. A organização determina a percepção da realidade. 4. sua autonomia é dada pelo meio do qual dependem. Toda a esperança é depositada no desenvolvimento tecnológico. Mas essa mudança de paradigma depende de uma aceitação prévia de novos pressupostos. é uma abordagem historicista. vendo os seres-vivos como seres que produzem sua própria existência de modo dinâmico. A autopoiese como nova visão de mundo Se quisermos identificar o fundamento dessa nova forma de ver o mundo. A revolução cultural gera uma nova visão de mundo que não precisa ser comprovada. O conhecimento objetivo só se garantia com base na obediência a uma autoridade. e só pode ser entendido a partir do pensamento complexo. 1999. Autopoiese. criando uma visão fragmentada. Ela mesma afirma que não há verdades objetivamente válidas. A distinção entre verdadeiro e falso é substituída pela distinção entre adequado e inadequado em relação ao novo quadro conceitual. não se pode mais falar de conhecimento objetivo. deveríamos olhar para o conceito de autopoiese5.

porque todos podem ser úteis ao todo. As semelhanças de conduta seriam determinadas pelas semelhanças de estrutura. Mas a fenomenologia biológica da autopoiese coloca o indivíduo no centro. o diálogo entre dois indivíduos é possível porque eles partilham um contexto consensual. Ao invés de lutar contra os outros. A autopoiese individual é por isso compreendida como subordinada à autopoiese social. por isso não faria sentido dizer que a preservação do social tem precedência sobre a preservação do indivíduo. pois as estruturas de ambos são comunicantes. Esta circularidade justifica tudo. defende a matemática do “jogo de soma não nula”. Essa seria a base de rejeição ao domínio de uma estrutura social vigente. Há aí uma valorização da eficiência e da produtividade. A nova cultura inspira competência e não competição.prerrogativa sobre o outro. Mas negar a autopoiese da parte seria negar a autopoiese do todo. Mas se um membro se torna improdutivo. isto é. não aprendeu a pensar complexamente. assim como o novo capitalismo. e por isso não tem condições de perceber as coisas dessa forma. não a realidade objetiva. A única base é o próprio potencial aparentemente infinito do homem. os humanos produzem subjetividade por estímulos condicionantes. A velha cultura seria competitiva e excludente. se trata da aceitação da doutrina da síntese dos contrários. O critério de competência não seria excludente porque a competência é um fator estrutural. basta sabermos lidar com o risco crescente e com a mudança contínua. podemos todos ter qualidade de vida. Quer dizer que podemos criar uma cultura em que todos os avanços possam ser usados para o bem da humanidade. A nova cultura. Apesar de cada individualidade perceber uma realidade diferente. que sustenta a filosofia do progresso mútuo. contra a dinâmica da vida. Os indivíduos se entendem porque a conduta de um combina com a conduta do outro. Filosoficamente. já que o comportamento é determinado pela estrutura. Seus defensores esperam que a mudança cultural leve a um auto-aperfeiçoamento individual. a nova cultura seria integradora e inclusiva. a luta pela sobrevivência seria uma luta para superar contingências. Qualquer sistema que descarte membros produtivos seria patológico. O princípio hierárquico de sistemas que contém outros sistemas possibilitaria a compreensão da complexidade da vida. A realidade não é a mesma para todos. Nenhum deles dita normas de conduta ao outro. quantitativo e qualitativo. a vitória de um não depende da derrota de outro. se você não concorda com essa visão mundo. De algum modo. isto é. Autopoiese como princípio Segundo a teoria de Maturana e Varela. que depende de um 4 . 5. são pares estruturados. eles criam a violência contra a autopoiese. coerção. Podemos todos vencer. é apenas porque foi condicionado pelo pensamento linear. Isso garantiria a autonomia dos indivíduos e excluiria a necessidade de submissão ou determinação exterior. vista como algo que impede a autonomia dos indivíduos. quer dizer que perdeu sua autopoiese. a sociedade só pode ser autopoiética se satisfazer a autopoiese dos seus membros. Você também perdeu sua autopoiese. Ao contrário. o assim chamado “fluxo da vida”. As ideias têm que combinar com o paradigma. mesmo porque. de acordo com o próprio paradigma. O diálogo entre um par estruturado é diferente de uma simples transmissão ou transferência de informações. De acordo com os defensores dessa tese. mas sem base objetiva. defendendo que não há indivíduos “descartáveis”. Na natureza não haveria obediência incondicional. nem sequer existe realidade objetiva. A teoria evolucionista aplicada à sociedade serviu apenas para colocar a espécie acima do indivíduo. isto é.

e não o que é dinâmico. O social é defendido a partir da autonomia individual. Bem. é só azar. veja como a fragilização dos laços sociais combina com a proposta dos Clubes de Adoção Mútua no romance A Ilha: “Os nossos sociólogos chamam a isso de hibridação de micro-culturas e dizem que os efeitos são tão bons quanto aqueles que permitem a obtenção de diferentes variedades de milho ou de galinha”7. Nossa sociedade seria um aspecto patológico da vida exatamente porque valorizou o que é estático. e suporta as teses da micro-revolução ou revolução pessoal. São Paulo: Globo. Este pretenso equilíbrio destrói o significado autêntico das coisas que ele tenta unir. É o problema da autonomia e impondo-se como causa de todos os outros. Quando até o não moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional. Acontece que. Não mais a destruição do passado. e logo podemos constatar que Capra crê numa relação direta 6 "A modernidade da qual estamos saindo era negadora. O novo paradigma valoriza essa fluidez como sendo necessária. quando este defende. Trad. como exposto no seu Tao da física.. Mas a força que faz o fluxo da vida correr cada vez mais rápido é a mesma que fragiliza as relações humanas e nos leva à desintegração por um processo acelerado de desestruturação e reestruturação. a nova cultura não descarta nada. Ele estava interessado em distinguir o verdadeiro do falso. Isto reabre as possibilidades de progresso individual. mas sim como você está. quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil. Fluidez como novo imperativo Como se trata de uma síntese dos contrários. Ela cria uma mistura confusa de discursos que não chegam a nenhum consenso senão o de que não há consenso. que a eficiência substitua a tradição. mas não deu nenhum critério senão o pragmático. p. Os tempos hipermodernos. Todas essas ideias são apenas frutos do desenvolvimento da própria cultura civilizada. que um paradigma biológico substitua o físico e que a mística substitua a fé. e sim sua reintegração. passando do seu estágio moderno ou sólido para seu estágio pós-moderno ou líquido6. Aldous Huxley estava interessado na liberdade. que influenciam um novo paradigma político e econômico. Ele foi um visionário da nova civilização. 5 . 2004. Por exemplo. Huxley queria misturar o melhor dos dois mundos. a supermodernidade é integradora. Falou sobre a possibilidade de que a ciência e a tecnologia sejam colocadas a serviço do homem. Gilles. não será culpa de ninguém. 6. do consumo e da individualidade. Logo. e isso é facilmente considerado como verdadeiro por mentes que são herdeiras do iluminismo. e é a base para o discurso da biocivilização. ocidental e oriental. sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado. surge uma fase nova da modernidade. Mário Vilela. em termos de crítica à civilização. 57-58) 7 HUXLEY. Yin e Yang. Aldous. não importa quem você é. ficando restrito a reproduzir técnicas e modelos escolhidos por outras pessoas. São Paulo: Barcarolla. mas também a ecologia a ecologia integral e a ecologia profunda. Ele compreendia que o Estado poderia dominar corpo e mente. p. o consumo de orgânicos e de alimentos integrais porque a agroindústria fez o agricultor perder a liberdade e a criatividade no processo de produção. isso faz pouca diferença. por exemplo. O problema seria o desequilíbrio entre os contrários.. Essas ideias fundamentam não apenas a pseudo-ecologia. A Ilha. 149. Se não conseguirmos nos adaptar a tal fluxo da vida. O produto orgânico representa um uso mais eficiente da energia. fazendo o indivíduo amar a servidão por meio de reforço positivo (prazer) e hipnopedia (aprendizado inconsciente).momento específico e não de uma verdade eterna." (LIPOVETSKY. Enfim. A nova cultura é um produto do liquidificador da pós-modernidade. Mas esse discurso está por trás do ideal de Capra. 2001.

influenciados pelo desenvolvimento da cultura civilizada." (SANTAELLA. Ela toma controle. o nomadismo e a descentralização são produtos do desenvolvimento da civilização. as mestiçagens étnicas. já que a causa não é simplesmente material. e as transforma em funções domesticadas. como um vírus. Ele não está externamente determinado. Não quer dizer que a civilização seja equivalente a um organismo vivo. mas é determinado por sua própria estrutura. p. Sendo uma estrutura fluída. Quer dizer que o que é aceito de volta é aquilo para o qual se criou um espaço dentro da civilização onde aquilo pudesse permanecer “civilizado”8. Por outro lado. de certa forma. seu processo de desenvolvimento e a visão de mundo pressuposta nos conceitos biológicos que ganharam espaço nas últimas décadas. é cada vez mais difícil determinar isso. Ela chega a um grau de complexidade em que passa a depender de um caos crescente para manter-se de pé. É preciso notar que todas essas questões. O monstro está em constante mutação. o nomadismo do desejo. Determinar o ponto histórico em que essas ideias começaram a surgir não é tão importante quanto compreender como elas se reproduzem atualmente. Elas podem ser resultados de um mau uso das nossas capacidades. Relações entre o monstro assimilador e visão sistêmica Revisando o conceito de monstro assimilador como um processo sem identidade definida. a identidade do monstro não está na sua composição. 70) 6 . gerenciar. O que ele não pode criticar é seu próprio arranjo. justamente como prega o paradigma da autopoiese. mas assimilamos as capacidades e habilidades da natureza para expandir nosso próprio poder. que por sua vez é resultado do desenvolvimento de uma cultura naturalista que tem por resultado a biocivilização. de nossas funções vitais. Tal como os seres-vivos vistos sob a teoria da complexidade. Lucia. A questão é o que sustenta essas coisas na estrutura da civilização. De certa forma. mas que se apropriou desse modelo assim como nós nos inspiramos na natureza para criar as máquinas. devemos também considerar a hipótese de que os conceitos com os quais compreendemos os fenômenos vivos tenham sido. 7. São Paulo: Paulus. a civilização não começa há 10 ou 12 mil anos atrás. que é mantida por indivíduos. os hibridismos culturais. os descentramentos da identidade produzidos pelas sombras do outro estão de tal modo entranhados na constituição da nossa cultura que pouca ebulição os debates pós-modernos estavam fadados a produzir em nós. somos agora reintegrados a eles por meio das relações artificialmente criadas num novo estágio da cultura civilizada. podemos fazer a relação entre aquilo que a civilização se tornou no presente. Significa que qualquer dos seus elementos pode ser criticado sem ameaçar o todo. o hibridismo. 8 "As experiências de tempo e espaço movediços e polimorfos. Não apenas imitamos o funcionamento. A civilização é um sistema de crenças. O conhecimento necessário para manter esse processo funcionando parece diminuir. na medida em que o processo começa a ganhar a autonomia de uma máquina programada para reproduzir. Se em algum momento nós fomos separados de alguns desses elementos. 2003. Certamente a civilização possibilita coisas boas. sua estrutura adaptativa.entre autonomia e eficiência energética. ela começa no momento em que essas ideias entram na cabeça de alguém. corrigir e modificar a si mesma. as incertezas políticas. mas na sua organização dinâmica. ou seja. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. tais como a instabilidade.

Se seguirmos essa linha de raciocínio. isso não significa que eu despreze este paradigma. Mas pragas naturais são úteis à natureza. ou de que a crença em algo transcendente seja mais do que um consolo. porque ela faz parte do problema. Não é a civilização que está doente. mas não uma solução para a civilização. Se a crença em algo transcendente não melhora a nossa situação mundana. Conclusão: Seu sistema foi atualizado. da ‘civilização ocidental’ ou de quaisquer falhas em instituições humanas. Em primeiro lugar. Ele não pode evitar a degradação do meio porque é primariamente egocêntrico. Provavelmente o leitor poderá levantar muitas objeções quanto à minha afirmação de que o paradigma sistêmico já foi absorvido pelo monstro assimilador. Só podemos retardar o inevitável. É como se não pudéssemos evitar. você raramente vai encontrar alguém que não se preocupa com a questão ecológica. Se tudo é natural. O verdadeiro motivo parece ser o medo de perder confortos com os quais já nos acostumamos. 2005. nem que ele está degradando o meio em que vive. que você precisa conhecê-lo para compreender o atual estágio da civilização. O problema para os novos ecologistas se resume ao uso eficiente da energia. John N. a civilização também é natural. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais.” (GRAY. com certeza ele inventará um modo de fazer o que deseja sem destruir o planeta. basta pensar diferente. nem o homem é a doença. então não há porque prejudicar a economia. A civilização é a fonte de benefícios injustos que ninguém quer abrir mão. Hoje em dia. Se o conhecimento humano não leva ao bem. E o corolário dessa linha raciocínio é que a vida não tem sentido. Não significa que você pode ser ignorante em relação a ele. mas é o homem que está doente. 9 “A destruição do mundo natural não é resultado do capitalismo global. No máximo. da industrialização. Mas o movimento ecológico também acredita nisso. porque isso seria “jogar fora o bebê junto com a água suja”. vamos apenas fazer parte da fluidez pós-moderna. Eles não negam que o homem faz parte da natureza como qualquer outro animal. Minha sugestão inicial é que se critique a civilização desde seus pressupostos mais básicos. porque a crise econômica pode atingir a todos e piorar as coisas. O ser humano é tão criativo. é preciso ser cético quanto à crença de que o conhecimento possa levar ao bem. Para eles. Record. Parece que as pessoas não querem uma solução para a civilização como um todo. nada pode levar. p. Se ao invés disso atacamos somente este ou aquele aspecto. como se a civilização fosse existencialmente necessária ao homem. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace. Sempre vai haver alguém para nos lembrar que uma coisa não impede a outra. então ela não serve para nada. 8. Logo. diremos que homem é regido por suas vontades. O erro é justamente pagar qualquer preço para preservar aquilo que é dispensável. mas o contrário. podemos lucrar preservando.Lovelock e John Gray9 tendem a ver o homem como uma praga natural ao invés de criticar a civilização. Eles acreditam que a ecologia não pode impedir o crescimento econômico. Eu estou apontando uma solução. sustentabilidade pode ser um bom negócio. ou como se o homem autêntico fosse o homem civilizado. e suas vontades são expressões de suas necessidades. verá empresários preocupados em ver seu crescimento ameaçado por causa de defensores do meio-ambiente. mas ao contrário. nem é a fonte da doença. sua doença afeta o resto do mundo. 23) 7 . O homem é a própria doença. Isso é o que acontece quando se deposita todas as esperanças no homem. o homem não está doente. e a civilização é o sintoma dessa doença.

inteligente.html Cristovam Buarque.com/2010/11/gordura-e-crescimento. aquilo que achamos que há de melhor em nós. Mesmo o crescimento não é mais importante que o desenvolvimento e a própria superação do estágio atual. “Só há uma coisa a fazer: você tem que escolher” 10 Ver o texto “Gordura e crescimento”. As pessoas têm criticado o progresso quantitativo. mas não o qualitativo.. rápido. É um show de comédia de improviso. como indicam os recentes movimentos pelo decrescimento10.blogspot. O monstro não é capitalista. Ele é jovem.Por outro lado a civilização é oriental o suficiente para não se apegar a nada. de http://mentenovacuo. ele simplesmente é. ele combina suas necessidades com aquilo que há de mais atraente. O novo espírito da civilização não rejeita nada.. interativo. Ele vai interpretar qualquer papel para te impedir de vê-lo pelo que ele realmente é. 8 . divertido. Até a necessidade de crescimento pode ser passageira.