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Aquele amor tinha nascido do ódio, ele fora resultado daquele horrível segredo, que quase levou Tanya à loucura. O casamento dela com Jake Lassiter entregou o seu destino nas mãos daquele homem que nunca soube perder. Logo após o enlace, Jake Lassiter partiu para bem longe, deixando-a com um filho que pouco sabia do pai. Seis anos marcaram esta ausência e consolidaram a solidão e o sofrimento de Tanya. Neste período, apenas um punhado de linhas em algumas cartas diziam que Jake Lassiter estava vivo. Um dia ele volta, e Tanya precisa dizer a verdade, para romper as algemas daquele segredo.

UM AMOR FEITO DE ÓDIO Janet Dailey Show me Publicado originalmente em 1975 pela Mills & Boon Ltd., London Um mistério que só Tânia sabia, obrigou-a a casar com aquele homem rico e cruel.

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CAPITULO 1

A estrada asfaltada acompanhava a cordilheira, serpenteando em direção a Dewey Bald. Por vezes, algumas clareiras permitiam que os viajantes vislumbrassem as montanhas Ozark, de Missouri. Variados tons de verde coloriam as colinas, desde as gritantes cores do cedro até o verde-claro das árvores recém-formadas, num arranjo tão espetacular quanto o desabrochar do outono. Esse mundo florescente era iluminado ainda mais pelo roxo dos ipês e pelo branco dos lírios. No solo, o aparecimento de novas flores anunciava a proximidade da primavera. — Podemos parar no mirante de Sammy? Aquela vozinha curiosa desviou o olhar de Tanya Lassiter da estrada e do panorama à sua frente. Tanya sorriu, admirando aqueles olhinhos azuis inquisidores, que se voltavam para ela tão sérios. Finos cabelos castanhos cobriam a testa do menino, suavizando o efeito do queixinho pontudo. Qualquer mulher gostaria de ter um filho tão lindo e inteligente quanto o seu John, pensou Tanya voltando a atenção para o volante, num ímpeto de satisfação. John estava com sete anos e qualquer pessoa gostaria de ter um filho tão peralta, feliz e curioso quanto ele. Quem poderia negar o pedido daqueles olhinhos confiantes, que faziam

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lembrar o azul do céu no verão, tão diferentes dos de Jake, o pai de John, cujos olhos tinham o brilho metálico do aço? — Podemos? — insistiu John. — Sim, por alguns instantes — concordou Tanya, relaxando os lábios que se haviam cerrado. — Mas a vovó nos espera para o jantar. Não podemos chegar tarde. Não houve o menor entusiasmo na reação de John, o que fez com que Tanya se voltasse para ele. O menino olhava pela janela do carro, pensativo. As sobrancelhas de Tanya arquearam-se e depois voltaram ao natural, pois ela sabia que John logo lhe falaria sobre suas preocupações. Estacionaram o carro e enquanto ela trancava as portas John esperou, impaciente, a alguns metros. O colete de Tanya combinava com as listas cor de ferrugem das calças e com a blusa creme, de mangas compridas. Deixando a direção e fechando a porta, ela ajeitou os cabelos e foi ao encontro do garoto, que vestia uma jaqueta azulclaro e blue-jeans. Caminharam algumas centenas de metros, até a grande rocha cinzenta, da qual se via Mutton Hollow e o velho caminho, na verdade uma trilha muito antiga. Tanya e John formavam um par contrastante: ela alta, graciosa e feminina; ele a exibir toda a vitalidade infantil, numa miniatura de homem. Enquanto John foi diretamente até a pedra

numa postura elegante. mas ela podia se esconder dos olhares dos motoristas que passavam pela estrada logo abaixo. e foi pousar num galho. e uma uma personalidade extrovertida. Mas em determinados momentos — como Tanya — gostava de ficar só. mais acima. O tráfego era basicamente local. Tanya observava o sol se pondo vagarosamente no oeste. Às vezes Tanya sentia que. grande curiosidade. sobre a rocha.4 cinzenta. Aquela era a estação em que os pássaros . era um excesso de preocupação. John era sério e pensativo demais e vivia muito na companhia de adultos. Um pássaro cortou o ar. Aquele lugar não lhe permitia avistar o vale. John era como ela. Envolveu o próprio corpo com os braços e permaneceu assim por alguns instantes. A invasão de turistas viria mais tarde. divertida. aparentemente. na verdade. sociável. Tinha. o garoto admirava o panorama. Tanya sentiu uma dor repentina surgir dentro dela. na colina. entregue a seus pensamentos. Em pé. Tanya reconhecia que sua preocupação. ele não tinha a menor dificuldade em se relacionar com os colegas. ao lado da companheira. Recostada no declive do morro. com o sol do verão. Tanya procurou o aconchego de umas pedras em forma de concha. De certo modo. entre crianças da mesma idade. Mas na escola. Por isso. diante dela. até que a dor se acalmasse. aos sete anos. com as pernas separadas e as mãos nos quadris.

de um castanho-claro quase aloirado. Não havia a menor vaidade em reconhecer sua própria beleza. Ele lhe pertencia e jamais lhe poderia ser tomado — enquanto ela ainda estivesse casada com Jake. uma fêmea de sua espécie que. penteados para trás num estilo que realçava suas feições. John era a única boa recordação que se salvara de seu casamento. poderia transformar a fria beleza de seu semblante em reluzente magia.5 se acasalavam e Tanya reconheceu que aquele desejo intenso que ela procurava reprimir só poderia ser saciado por um companheiro. Tanya lembrou-se amargamente de que um único detalhe permanecia: sua repugnância por Jake Lassiter. nariz arrebitado e uma boca quente e sensual que. que mantinham trancafiadas as paixões que existiam abaixo da superfície. com algumas mechas naturais cor de mel. Nada restava da menina assustada e vingativa que visitara aquelas colinas sete anos antes. o homem cujo nome ela carregava. A influência e o exemplo de sua sogra. E Tanya era linda. Mas eram seus olhos cor de mel. . transformando-a numa mulher equilibrada e sofisticada. com um sorriso. aos vinte e seis anos. A mais simples e antiga verdade da vida. com uma criança nos braços. Júlia Lassiter. Cabelos longos. salpicados de ouro. precisava de um macho para amar. Maçãs do rosto um pouco salientes. Ela era uma mulher. haviam apagado aquela imagem de colegial.

— Danny Gilbert disse que ele deve estar morto ou preso. — O coração bateu um pouco mais forte. mas acabou deixando escapar um riso nervoso. — Mas eu quero saber se ele está mesmo vivo! Neste momento John a encarou. mas não houve nenhum outro sinal de que a pergunta a houvesse inquietado. John acomodou-se no chão.6 — Mamãe! Tanya abriu os olhos e se ajeitou. confuso. senão ele viria para casa. arrancando pequenos tufos de grama que brotava. John — respondeu Tanya. sentando-se com o corpo ereto. enlaçando os joelhos com os braços. e seus olhos azuis estavam sérios e perspicazes. — Eu tenho mesmo um pai? Apenas por um segundo o choque da pergunta se estampou no rosto de Tanya. Ele não está preso. — Claro que tem. Por que você me faz essa pergunta? — Tanya tentou sorrir. — Fale. ele está vivo. — Sim. Você mesmo já apanhou as cartas dele com o carteiro. ao lado dela. está? . meu filho.

Eu não consigo me lembrar dele. Ele trabalha para o seu avô. . e a companhia de seu avô está supervisionando o trabalho. procurando disfarçar o nervosismo. mas se fora depois de uma semana. recusando a explicação com um tom de desapontamento. — Ela não se atrevia a lhe dizer que Jake tinha vindo por um mês. ele não está preso. — Vovó disse que eu tinha três anos. — Mas por que ele nunca vem para casa? — perguntou John. temendo que ele percebesse que ela não queria falar sobre Jake Lassiter. — Todo mundo sai de férias. Ele está em algum lugar na África.7 — Não. — Ele virá para casa um dia — respondeu Tanya. lembra-se? Há uma grande barragem. — Ele anda muito ocupado. Por que ele não pode tirar umas férias e vir visitar a gente? — Foi o que ele fez uma vez. querido. Seu pai está lá para garantir que o trabalho seja bem feito. uma ponte ou coisa parecida sendo construída por lá. — Eu ainda era um bebê — protestou John. — Tanya segurou os ombros magros de John e o abraçou. — E por que nós nunca vamos visitá-lo? Ele não quer nos ver? — a cabeça sedosa se afastou das mãos que a acariciavam e John olhou fixamente para a testa franzida de Tanya.

Um rápido suspiro de aliviado escapou de seus lábios.. — Eu só perguntei quantos anos eu tinha quando ganhei aquele elefante de marfim. haveria mais uma anotação contra ela no livro negro de sua sogra. — Eu sabia que você acabaria dizendo alguma coisa assim. — A situação política de lá não nos permite. a gente . você já conversou sobre isso com sua avó? — perguntou ela... Se isso tivesse acontecido. — Talvez.8 — Você. — Não — disse John. — O rancor quase adulto de sua voz açoitou-a como um doloroso golpe de chicote.. encolhendo os ombros de uma maneira muito significativa. engolido em seco e odiando a sugestão que começava a se formar em seus lábios.. hesitante.. Sim. quando a escola tiver acabado? — quis saber John. — É que. — Talvez.. procurando encontrar uma forma de recusar o pedido. Tanya se lembrou da pergunta da criança dias antes.. mas não lhe dera muita importância. sem reforçar a opinião de que Jake não queria nada com o filho. impaciente.. Você me disse que papai tinha trazido de presente para mim. — Ela vacilou desesperadamente. — acrescentou ela.. — A gente pode visitá-lo no verão. seu pai.

um vínculo de pai e filho. evitando compartilhar o amor de John com o homem que ela abominava. eu sei que virá. não poderia fazê-lo em consideração a John.. tenho certeza de que ele virá. fitando-a com uma certa expressão de esperança. — John levantou-se com um sorriso estampado no rosto. na estrada do lago que os levaria para casa — que podemos garantir que ele volte aos Estados Unidos. principalmente se você lhe pedir. Por mais que ela quisesse ignorar a existência do marido. mas mudou de idéia quando olhou para o rosto do garoto. o olhar dela fixou o dedinho torto.9 possa escrever uma carta a seu pai hoje à noite e ver se ele dá um jeito de vir para casa por umas duas semanas. Apenas por ocasião do Natal e de aniversários ela fazia com que John enviasse cartões de agradecimento pelos presentes que chegavam pelo correio. no verão. não é porque nós vamos escrever — disse Tanya alguns minutos depois. — John. — Se for mesmo possível. — . — Tanya jamais tentara propiciar qualquer correspondência entre pai e filho. Sem querer. — Você acha que ele viria? — perguntou John. — Eu sei. Mas ele virá. — É melhor irmos para casa. John voltou-se para a mãe. a marca de nascença que confirmava o direito que ele tinha ao nome de Lassiter.. Intimamente ela esperava que não. — A firmeza na voz do menino fê-la lembrar-se de que havia entre ele e o pai uma ligação muito forte.

se não for possível neste verão. — Seria bom se ele viesse agora. Lassiter. Eu tenho certeza. Pode ser que ele não consiga sair de lá.D.. havia se aposentado parcialmente. Agora que o sogro de Tanya. eu tenho pensado que talvez ele ache que eu não ligo para ele. — Pouco mais de uma semana — corrigiu ela. porque assim o Danny Gilbert ia ver que eu tenho um pai de verdade e que ele está mesmo na África. apesar de tê-lo tratado como tal desde pequeno. Patrick . Mas não conte com isso. por ver o carro tão conhecido. com o coração na mão. ou no Natal. — A gente poderia escrever essa carta depois do jantar? — Podemos. quem sabe ele possa vir no outono. visitando o escritório da firma em Springfield apenas duas ou três vezes por semana. os olhos brilhando também. Por via aérea — concordou ela. Se ele souber quanto eu quero vê-lo. J. — E vamos mandar a carta de avião para que ele receba logo? — Está bem. mamãe. — continuou John —. relutante. Ele a fitou sério. — Faz um século que ele não aparece. John. mas super moderna. sim — prometeu Tanya. Patrick Raines não era na verdade tio de John. ele virá. — O carro do tio Patrick está na porta — anunciou ele. eufórico.. ao ver o El Dorado prateado em frente à casa rústica. — Bem.10 Sabe.

menos no título. Um sorriso acolhedor formou-se nos lábios dela ante a calorosa saudação de Patrick Raines. Fora a persuasão do sogro que trouxera Jake de volta. quatro anos antes.D. quando Jake voltasse aos Estados Unidos. — Sua mão procurou a dele naturalmente. estava ainda interferindo. para uma permanência malograda. — Então você realmente sentiu minha falta — disse ele com evidente satisfação. o poder fosse transferido para as mãos de seu único filho vivo. cumprimentando os avós e o homem moreno e bonito que se aproximou de Tanya. Tanya sentiu o coração palpitar ao ouvir a voz potente de Patrick na sala próxima. Quando ela e John chegaram ao vestíbulo cuidadosamente polido. de modo que. — É ótimo vê-lo novamente. — Ao ver seu carro. John comentou que você não aparecia há séculos.11 Raines era o cabeça da firma em tudo. Ela não conseguia manter uma conversa cordial nem se sentir bem na mesma sala em que ele estivesse. Tanya tinha a impressão de que J. John adiantou-se. Tanya estava prestes a responder quando a sogra interrompeu a conversa. Mas ninguém jamais esteve isento do clima hostil e desencorajador que cercava Jake e Tanya. desfrutando o toque firme e prolongado que reavivou o brilho dos olhos castanhos do rapaz. Patrick. .

— Demos um passeio que demorou mais do que esperávamos — respondeu ela calmamente. era na verdade muito sofisticado. sabendo muito bem que Júlia esperava por ela.D. Os Lassiter poderiam perfeitamente manter uma . apesar de simples. uma figura marcante de homem. —Dêem-nos alguns minutos para que possamos nos lavar e desceremos em seguida. — O jantar está pronto? — Estávamos terminando nosso aperitivo — respondeu J.12 — Já estávamos pensando que vocês tinham se perdido. levantando-se do sofá de veludo. Arranjou os cabelos de modo que caíssem ondulados sobre os ombros. Trocou a calça e a blusa por um elegante vestido vermelho e azulmarinho. alto como seu filho. sabendo como Júlia gostaria de ouvir um relato completo de todos os movimentos deles. voltando-se para a mulher que segurava as mãos de John com firmeza. com uma moldura de cabelo cinza-azulado. Tanya dirigiu-se imediatamente à cozinha. Seus olhos fitaram o rosto aristocrático. mas que se fixou em Patrick. — Tanya estendeu a mão para John e lançou um sorriso aos três. e Tanya estava certa de que a sogra o fazia porque sabia como isso a irritava. Por onde foi que você e o Johnny andaram? — Somente Júlia Lassiter tinha o costume de chamar John de Johnny. Esse penteado.

Suas refeições eram requintadas. sem uma poeirinha. acatara o desejo de Jake de que ele e Tanya tivessem quartos separados. A casa estava sempre impecável. mas com um toque de simplicidade que satisfazia plenamente ao paladar de seu marido. Não dissera uma só palavra de recriminação quando Jake se fora. uma cozinheira ou um jardineiro. cortar a grama. Suas roupas jamais perdiam botões e sua combinação nunca aparecia abaixo do vestido. era cuidado apenas por Júlia. Ela mesma fazia ou orientava o serviço e Tanya reconhecia que. muito embora ela permitisse que Tanya ou seu próprio marido executasse as tarefas mais desagradáveis. poucos dias depois de trazer Tanya . mas a casa de Júlia Lassiter era seu castelo particular. como. nem comentara qualquer coisa sobre o bebê que ele havia reconhecido como seu filho. por exemplo. Sem contestar. sem um fio de cabelo fora do lugar.13 empregada. Não havia nada que ela não pudesse fazer tão bem quanto as melhores empregadas. O jardim. sem um borrão de batom nos lábios. Júlia era perfeita. Júlia não era apenas excelente esposa e dona-de-casa. mesmo nos cantos mais inacessíveis. nesse plano. Mantinha-se elegantemente arrumada. Nem uma vez sequer ela questionara Jake quanto à garota acanhada que ele trouxera para casa como sua esposa. de muita imaginação e criatividade. mas também a mãe perfeita.

e. ele foi cético e reprovou o casamento do filho com ela. Lassiter era um milionário dos mais poderosos. O pai de Jake. após tantos anos juntas na mesma casa. jamais houve uma demonstração de afeto ou amizade que quebrasse a frieza dos olhos de Júlia. J. Embora ele nunca tivesse perguntado nada sobre o relacionamento de Tanya e Jake. poucos anos depois.D..14 para casa. pois aquele segredo era apenas dela. Ainda assim Tanya tinha a sensação de que era tolerada na casa de Júlia por causa de John. astuto e observador. ele acompanhou a transformação de uma moça recém-saída do colégio numa verdadeira dama. enquanto ele estivera fora. no entanto. ela imaginava que ele conhecesse as circunstâncias em que o casamento ocorrera.D.D. Tanya dissera uma única vez que Jake seria capaz de enfeitiçar uma serpente. nem nos anos seguintes. Lassiter. Gradativamente sua reprovação se transformara em respeito e admiração. que se tornara o centro das atenções da avó. J. Estendera sua mão amiga a Tanya. E Tanya o guardava tão .D. Quando ela trouxe John a sua casa pela primeira vez. Como homem de negócios. era mais honesto e aberto em relação aos seus sentimentos. Naturalmente ele não deveria saber de toda a verdade. J. soube que tal habilidade fora herdada de seu pai. Tanya achava que a sogra se dirigia a ela com uma certa aspereza na voz. e depois de conhecer J. ninguém duvidava disso. era diferente.

Ela enfrentaria qualquer inferno para que John tivesse um nome. John sentou-se ao lado da avó e J. As mulheres gostam de receber elogios. Júlia já havia servido a entrada do jantar quando Tanya chegou à cozinha. Mas isto só lhe fora possível graças à compreensão e afeição do sogro. . O marido dela estava na África por um período indeterminado. que lhe permitia tecer fantasias a respeito de um homem bonito e charmoso como aquele. Ela sorriu ao homem que se sentava à sua frente e ele correspondeu com outro sorriso. e Patrick Raines era divorciado havia três anos. uma família e futuro. — Você é muito gentil. Patrick era o único homem qualificado que conhecia e isso condizia com sua romântica e secreta paixão natural. Havia uma inegável corrente de afinidade entre eles.D. — Você está maravilhosa com esse vestido. puxou uma cadeira para que Tanya ficasse à sua direita. e não pôde conter a admiração que sentiu por ele. cada vez que o olhar dele pousava sobre ela. Tanya e Patrick se encontravam com certa freqüência. por isso. notando que seus cabelos estavam ficando grisalhos. mesmo que não sejam verdadeiros — respondeu Tanya delicadamente. Os Lassiter costumavam convidar os executivos de sua empresa e.15 cuidadosamente quanto zelava por John. Tanya colocava à prova todas as suas emoções. mas qualquer outro lhe cairia bem — observou Patrick.

não faziam qualquer referência ao seu relacionamento. Ambos se viam como um homem e uma mulher. embora considerasse o marido insuportável. — Você ouviu muito bem o que seu avô disse. Tanya desconcertou-se um pouco com a resposta. — Mamãe não permite que se fale de negócios à mesa. procurando amenizar o tom de sua repreensão. à África do Sul. perguntou animado: — Você disse que foi à África. percebeu. mas a moral conservadora de Tanya jamais lhe permitiria ignorar a aliança de brilhantes na sua mão esquerda. em sua inocência. — Eu não sabia que você estava viajando. tio Patrick? — John! — interrompeu Tanya. desviando o olhar.D.16 Durante os poucos minutos que passavam a sós. Uma regra da casa. Patrick — e ela apanhou a colher. mas tão pouco que apenas J. pela firma — uma pequena pausa — e outra. . — Uma viagem rápida à Escócia. desviando o olhar para a esposa na outra extremidade da mesa. mais longa.D. Espere até terminarmos. nem seu voto de fidelidade. Patrick — disse J. John. Mas Tanya sabia que aquilo não era uma simples amizade entre duas pessoas. — Diga-me onde você esteve desta vez. Como se alguma coisa pudesse nos fazer esquecer sua deliciosa sopa de cebolas. com delicadeza.

— Ele abaixou a cabeça para tomar a sopa. — Que bom que você aprova — disse J. — Antes que você e John chegassem — disse J. pois John só queria perguntai pelo pai. o que sem dúvida aconteceria. .. — Ótima idéia — concordou Tanya. Geralmente ela procura uma outra desculpa qualquer para esse tipo de comemoração. Talvez a sogra tivesse razão. Júlia.. dia oito de maio. — Se o tempo estiver muito bom. mas Tanya não queria que o nome de Jake viesse estragar o jantar.D. no pátio. mas Tanya sabia que o interesse do garoto pelo pai voltaria a aflorar assim que terminassem a sobremesa. Um rápido olhar para Júlia indicou exatamente de onde surgia o malestar que pairava no ambiente. tomando a iniciativa.17 — Está bem.D. como um perito em conversas à mesa — nós estávamos discutindo a possibilidade de fazer um belíssimo jantar festivo para comemorar nosso trigésimo quinto aniversário de casamento. Suas flores vão estar brotando e isso seria o ideal — sugeriu Tanya. — Mamãe achou que seria de mau gosto programar uma festa para comemorar nossas bodas. poderemos fazer a festa lá fora. Tanya percebeu que Júlia tinha achado a repreensão descabida. Ela ainda não estava pronta para anunciar à família sua intenção de escrever a Jake pedindo-lhe que viesse. notando um ar de má vontade nos olhos da sogra. com uma piscadela.

— Eu não sabia que ele estava trabalhando em dois projetos. eu estive com ele. John também saiu. — Como vai a execução do tal projeto? — continuou ela. procurando disfarçar sua inquietação. recostou-se no sofá e aguardou a resposta. para buscar qualquer coisa no quarto.D.18 — E você poderia fazer aquele peixe assado de que eu gosto tanto — acrescentou J. Isso deve lhe tomar todo o tempo. Tanya se encarregou do café enquanto a sogra foi atender. Durante todo o jantar discutiram os demais detalhes da festa. — Sim. procurando saber se haveria uma possibilidade de Jake aceitar o convite para visitálos. comes e bebes. . convidados. sem esconder seu nervosismo — quando você esteve na África você viu Jake? A seguir.D. decoração. — Patrick.. — O que ele está terminando ou o que começou agora? Sem perceber. — Que projeto? — perguntou Patrick secamente. —. ela suspirou aliviada.. servido à americana. O telefone tocou quando Júlia ia servir o café na sala de estar. — começou ela. Era para J. deixando Tanya e Patrick a sós. correndo os dedos pela porcelana chinesa.

Ela voltou-se e deparou com um belo par de olhos azuis. Uma das primeiras coisas que ela admirara em Patrick fora sua recusa em prestar qualquer serviço superficial a J. Com isso não precisou explicar os verdadeiros motivos de suas perguntas. o que excluiu a participação das duas mulheres. Ele era dono de seu próprio nariz e jamais hesitara em contestar as opiniões de J. mas por enquanto Jake tem que ficar correndo de um lugar para outro para acompanhar a execução. ela se dera conta de como tantas pessoas reverenciavam a riqueza e o poder dos Lassiter. . J.19 — Lonnie Danvers é um assistente muito capacitado. Durante os muitos anos em que vivera com os sogros. Como Júlia parecia preocupada com algum pensamento íntimo. para satisfazer o olhar curioso de Patrick. Uma mãozinha a tocou nos ombros. já que agora a volta de Jake parecia tão remota. se ele sentisse que precisava dele. Mas sua independência não ia a ponto de não procurar um conselho do velho experiente.D. Havia mais do que charme e inteligência por trás da bela fachada que conquistou Tanya. desculpou-se com um sorriso e iniciou uma breve discussão de negócios com Patrick.D. Tanya aproveitou a oportunidade para analisar aquele homem moreno que se sentava à sua frente. Lassiter. sempre que seu ponto de vista o exigira.D. Tanya alegrou-se com a volta de Júlia á sala. entrou na sala logo depois da esposa.

A curiosidade deles fez com que o silêncio pesasse no ar. Júlia. com ironia: — Eu também acho. confuso. . — Acho isso ótimo. — Ir fazer o quê. ao se aproximarem do quarto da Tanya. mamãe? — O pedido de John só fez sentido para Tanya. Por isso mesmo eu sugeri a John que escrevesse. Levantou-se. — Eu vou escrever uma carta para meu pai. Tanya encarou a sogra e disse. alterando a voz e chamando a atenção dos dois homens. Tanya enrubesceu quando notou que todos os olhares se dirigiam a ela. Johnny — comentou Júlia com firmeza.D. Ela não queria estender a discussão e nem permitir qualquer interferência de Júlia ou J. querido? — interrompeu Júlia. tomou John pelos ombros e se retirou com ele da sala. não quer? — perguntou o garoto. Patrick apenas desconfiava de sua prevenção contra o marido. Com toda a frieza possível.20 — A gente pode ir fazer aquilo agora. mas os pais de Jake sempre tinham sabido disso. como se quisesse provocar a nora. — Sua voz infantil estava cheia de importância. — Você quer escrever a carta. pedindo que ele venha nas férias.

— Mas aquelas não se parecem comigo. e eu estava banguela — protestou ele. sorrindo. Tanya também estava nela. John não era a única pessoa na fotografia. E isso era responsabilidade do pai. — Por favor. sofisticada.. Uma pontinha de culpa a invadiu enquanto procurava entusiasmá-lo. procurando um meio de evitar que John mandasse a fotografia. que John estava numa idade na qual precisava da assistência de um homem. — Ele tem suas fotos da escola — disse ela gentilmente. assim papai poderá ver como estou crescido e forte.21 — Quero. e com os cabelos esvoaçantes.. — Achei que a gente poderia mandar esta fotografia que o vovô tirou quando eu ganhei a bicicleta. embora relutante. enquanto ela fechava o envelope contendo duas cartas: a de John pedia de coração a volta de seu pai. a dela mencionava as dúvidas repentinas . vamos mandar esta? — suplicou John com seus olhos azuis. uma fina flor da sociedade. — Nós dois vamos escrever para ele. Uma hora depois seu sentimento de culpa havia diminuído. e Tanya não soube mais como recusar seu pedido. Pelo que Patrick dissera. John — respondeu ela. Uma parte dela admitia. era improvável a vinda de Jake. sim. rindo. John tirou do bolso uma fotografia e a entregou à mãe.

se ele realmente viesse. mas para o bem de John toleraria sua presença. — Eu o comprei especialmente para as bodas de seus avós hoje à noite.22 de John em relação ao pai. . — Você gosta deste vestido? — Com uma volta graciosa ela mostrou a leveza do chiffon alaranjado à altura dos joelhos. Ela detestava Jake Lassiter pelas coisas que ele fizera no passado. Ao selar a carta. CAPITULO 2 — Você está muito bonita. Tanya sentiu que as alfinetadas de sua consciência haviam diminuído. Os cabelos estavam penteados para trás e dois brincos dourados enfeitavam seu rosto. — É incrível. sugeria que ele fizesse o possível para visitá-los por algumas semanas. Ah. se eu pudesse ir à festa — suspirou ele. mamãe — disse John quando Tanya colocou a televisão portátil sobre a escrivaninha de seu quarto. E Tanya tinha certeza quase absoluta de que ele não viria. se o trabalho assim o permitisse. De maneira impessoal.

Aquela história de voltar às dez horas era apenas uma desculpa. — Está bem. Os quartos que Tanya e John ocupavam ficavam numa ala separada da casa. em tom de brincadeira. muito embora nem um nem outro quisessem interromper a rotina noturna. Seu interesse por filmes de faroestes era típico de um menino. . Acho que o filme de hoje é um faroeste — disse Tanya. Quase todos os outros programas o aborreciam.23 — Pense nos ótimos programas de televisão que você perderia. — Alguns convidados já chegaram. pois ele preferia curtir as suas próprias aventuras. — É mesmo? — os olhinhos de John brilharam. respondendo ao aceno quando ela se retirou para o corredor. porque John se considerava crescido o bastante para não ser controlado. — Apague as luzes às dez horas — recomendou Tanya. Você promete que vai ficar -direitinho? — Claro — respondeu ele prontamente. o que dava a John e Tanya um certo grau de privacidade. e originalmente deveriam ser usados como quartos de hóspedes. A suíte dos Lassiter ficava do outro lado da casa. mamãe — respondeu ele. — Volto para ver se você me obedeceu.

de pedras e madeiras naturais. A campainha tocou quando Tanya chegou ao vestíbulo. Sheila tinha vinte e dois anos de idade.D. Naquela noite havia até uma espécie de brilho no olhar de Sheila e Tanya chegou a crer que sua acolhida deveria ter sido um pouco mais fria e formal. estou feliz por você ter vindo! — exclamou Tanya. J. Naquela noite a casa estava repleta de convidados. Júlia — disse ela. — Eu atendo. pois comprara as terras ao redor para gozar de um certo isolamento. estendendo a mão para cumprimentar a irmã de Patrick. não tinha vizinhos. .24 A estrutura da casa propriamente dita. apenas quatro a menos que Tanya. Abriu as pesadas portas de madeira para que Patrick Raines e sua acompanhante — uma morena de corpo pequeno e delicado — entrassem. mas esta nunca fora aceita pela irmã de Patrick. ficava na extremidade de uma península que avançava sobre o lago Table Rock. Havia também um ancoradouro particular e uma casa de barcos. pegando a echarpe branca que completava a beleza morena da jovem. Os amigos do casal gostavam muito do lugar e jamais rejeitavam um convite. — Seu vestido está divino — completou. ao ouvir os passos da sogra que vinha da cozinha. — Sheila. — Parece totalmente sem vida perto do seu — comentou Sheila enciumada.

— interferiu Patrick. ajudando a sogra a dispor os pratos na mesa. J. sem conter a expressão de espanto e admiração em seus olhos.D. Júlia Lassiter achava que uma piscina poderia alterar a estética do jardim. Não havia piscina porque o lago estava a apenas cem metros de distância. encostando-se no estofado e colocando seus braços no encosto. ao constatar a presença de Tanya em seu belíssimo vestido alaranjado. O vestíbulo percorria toda a largura da casa. Além disso. Lassiter pediu licença ao casal com o qual conversava e se aproximou para cumprimentar os recém-chegados. cercado por um jardim. Foi um alívio quando Patrick apareceu trazendo dois drinques e disse a ela que se sentasse e descansasse. Júlia surgiu alguns minutos depois. Os outros convidados estão reunidos lá fora no pátio. até as portas movediças de vidro que se abriam para o pátio. trazendo uma bandeja de salgadinhos muito bem decorada..25 — Espero que não estejamos atrasados. retirando os pratos já servidos e conversando com os casais presentes. Tanya passou mais uma hora e meia atendendo à porta.. perto . — Eu não sei por que o velho não contrata um buffet — disse ele. — De maneira alguma. Quando os três se juntaram aos demais convidados.

embora ela não o demonstrasse. — Mas assim Júlia não receberia os devidos elogios. A melodia lhe transmitiu um desejo muito grande de se deixar . Tanya prestou atenção e reconheceu os acordes de Sentimental Over You. desviando o olhar das arandelas que iluminavam o pátio para o reflexo de luar sobre a superfície do lago. sem desviar os olhos. — Eu provavelmente teria convidado mais pessoas e serviria apenas um filé grelhado. — Seria muito menos trabalhoso para você e Júlia. Ela ficou um instante em silêncio.26 dos ombros de Tanya. — A noite está linda! — Muito — replicou. — A música que estão tocando foi muito bem escolhida. tão distante e mesmo assim tão próxima. mas é verdade. o suficiente para perturbá-la. Se esta festa fosse servida por um buffet. — Pode deixar — Tanya teve que se esforçar para não se envolver pela magia daquela boca. É o jeito dela. — E qual é o seu jeito? — perguntou ele suavemente. — Convide-me para sua próxima festa — sugeriu Patrick sorrindo. — Parece-me que seria maravilhosamente íntima. Sei que é maldade de minha parte. ignorando a presença dos outros. ela estaria supervisionando cada detalhe.

segurando-lhe as mãos e fazendo com que ela se levantasse. — Provavelmente.27 envolver pelos braços de um homem. agora perigosamente muito próximo. ainda que apenas por alguns instantes. A deliciosa sensação de ser conduzida por um homem lhe provocou uma pequena vertigem e ela percebeu que seu rosto estava enrubescendo. muitos — respondeu Tanya. limitando-se a lhe afagar o pescoço com a mão. — Quantos olhares curiosos atrairíamos se fossemos dançar naquele canto vazio? — perguntou Patrick. Apenas Sheila olhou para eles. — Tanya! — A suavidade da voz de Patrick fez com que ela erguesse os olhos e fitasse o rosto dele. que não exigiam concentração. pelo tom de voz ou pela maneira como ela o olhava. surpresa com a proposta e imaginando que Patrick havia percebido sua excitação. segurando-a tão próxima a ele quanto a etiqueta o permitia. nem se lembraria agora que se deixava levar por Patrick. Ele dançou com passos simples. de modo que Tanya sentiu a firmeza de sua mão na cintura. . mas ela resistiu a esse impulso. A carícia de sua respiração nos cabelos dela fê-la querer encostar no seu peito. com um brilho no olhar. — Vamos correr esse risco — sugeriu ele. Pareciam envolvidos por uma espécie de magia. Tanya não se lembrava de quando um homem a tivera nos braços pela última vez.

28 — Você é tão linda — sussurrou Patrick. — Será que eu estou errado? — perguntou Patrick inseguro. afastando-se um pouco. — É.. é impossível — disse ela debilmente. — Você não deve dizer nada — respondeu ela. isso não vai nos ajudar em nada. Ela queria desesperadamente que ele lhe roubasse toda e qualquer desculpa. como um verdadeiro homem. não diga nada — pediu ela. tocando-lhe os lábios com os dedos. — Por favor. — Você não se sente atraída por mim? . — Jante comigo na semana que vem. depois de beijá-los. Tanya sabia que ele poderia convencê-la de que seu casamento não passava de um documento. mas apenas por um momento. Um breve silêncio pairou entre eles.. não precisamos jogar um com o outro. como um cavalheiro que abatesse todos os dragões. sem muita convicção. Por um momento de fraqueza ele quis esquecer toda e qualquer convenção social. — Seu pedido era quase uma súplica e seus olhos a fitavam de maneira possessiva. — Patrick. olhou-a profundamente. — Tenho me calado por mais de um ano. Mas será que eu preciso dizer alguma coisa? Somos adultos. Patrick os segurou e. O brilho intenso de seu olhar fez palpitar o coração da moça. — Eu posso encontrá-la onde você quiser.

— Que espécie de controle tem Lassiter sobre você? — perguntou ele rudemente. mas não queria que aquela conversa inútil terminasse. juntos e ao mesmo tempo separados dos outros convidados. — Qualquer mulher se sentiria atraída. por quem ela começava a se apaixonar. deveria conhecer os motivos que a levaram a se casar sem amor com aquele homem que agora estava distante. O difícil é resistir a essas qualidades. a última nota do piano ainda soava nos ouvidos de Tanya.29 A canção terminou. — Seu rosto enrubesceu. — Jake não exerce qualquer controle sobre mim. Você é forte. Nem mesmo Patrick. bonitão e sem compromisso e com posição definida. segurando o isqueiro dourado para acender um cigarro. — Minha vida é problema só meu. Ela sabia que deveria ter permanecido na companhia dos demais convidados. Eu o acho muito atraente — acrescentou ela calmamente — e por isso mesmo não quero encontrá-lo em outro lugar. — Por que temer um homem que você só vê sete dias a cada sete anos? Eles ainda estavam no recanto escuro do pátio. quando ela se sentiu desprender daqueles braços irresistíveis. mas ela se manteve fria. — Nem mesmo se eu quiser que sua vida seja minha também? . — E eu que não me intrometa — completou ele.

— Precisamos de gelo para o bar. Ao se aproximar das portas de vidro encontrou Júlia Lassiter. A distância entre eles diminuía. — Pois não. Tanya voltou-se para olhá-lo. sem ninguém que lhe desse apoio e Patrick era tão forte. com a voz trêmula de angústia e dúvida. — John precisa de um pai — prosseguiu ele. Você pode providenciar. — Com licença. preciso ver como está John. . Tanya? — Eu vou apanhar — disse Patrick. atraente e se mostrava carinhoso! Cerrou os lábios para que nenhuma palavra a fizesse render-se. tocando no seu ponto mais fraco — mas não alguém que seja apenas um nome.30 Ela estava sozinha havia muito tempo. que estava logo atrás delas. Patrick — sorriu Júlia. — Muito obrigada. Júlia — respondeu Tanya. — Tudo é justo. — Isso não é justo — queixou-se ela. como Jake. — Dê um beijo no Johnny por mim. temendo não resistir à tentação que a instigava tão de perto. procurando não se mostrar confusa.. surpresa por tê-la seguido. A voz de Patrick soou junto aos ombros de Tanya. — Tanya quer dar uma olhada no John.. — Ela apressou-se. que estava à sua procura.

onde a tomou nos braços. Tanya mal pôde mover-se de medo. esforçando-se para parecer natural. atordoada e surpresa com aquela voz cuja arrogância ela reconheceu imediatamente. Patrick segurou-a pelos ombros e levoua para um canto da sala. — Jake é um louco por deixá-la — murmurou. mas Patrick os calou com um beijo carinhoso. Seus lábios quiseram protestar. que deixou Tanya sem fala de tanta emoção. — Você demorou muito. Ela já não é mais sua. Tanya já não se lembrava de que ele era tão alto e forte. ainda com um cigarro na mão. Saiu da sombra que o ocultava.31 Havia apenas um facho de luz penetrando o vestíbulo. Antes que ela se afastasse. — Há bastante gelo no congelador — disse rapidamente. Sem acreditar no que estava acontecendo. Lassiter — disse Patrick. Tanya voltouse para Patrick depois de fechar as portas corrediças. Não houve resposta. — Acho que sou mesmo. ela viu o homem que se encostava no portal da sala. procurou um cinzeiro e apagou o cigarro. com pose de quem ainda era senhor da situação. Jake aprumou-se. Ele parou onde a luz mostrava . Tanya afastou-se abruptamente de Patrick. Um suspiro emocionado desprendeu-se dos lábios de Patrick quando ele se afastou um pouco e segurou o rosto de Tanya para fitar aqueles olhos apaixonados.

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completamente suas formas aristocráticas. O moreno de sua pele destacava o brilho metálico de seus olhos azuis. — Venha cá, Tanya — disse ele, com voz firme. Seu olhar a prendeu e Tanya se aproximou automaticamente, quase que hipnotizada por sua presença, incapaz de controlar seus passos e os sentidos. Parou a alguns centímetros de distância, examinou o rosto dele, notando as mudanças deixadas por aqueles últimos quatro anos. Havia naquele rosto uma expressão de indiferença que ela não notara antes. A marca da juventude tinha desaparecido e fora substituída por traços mais grotescos, resultantes de duras

experiências. Jake ainda era um belo rapaz, só que agora as rugas sobressaíam. O que o fazia atraente eram as características de virilidade e masculinidade, com um toque de evidente cinismo. Jake e Tanya observaram-se por um longo instante. — Pode sair agora, Raines — disse ele com certo sarcasmo, sem tirar os olhos de Tanya. O som da porta do vidro se fechando aliviou Tanya do choque que a fizera calar. Em seus olhos havia um brilho de desdém. — Nada mudou — disse ela, cerrando os lábios.

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— Minha cadelinha adorável — disse ele, segurando-a selvagemente pelos ombros e cravando os dedos no frágil tecido do vestido. — Não era bem essa a acolhida que eu esperava de minha adorável esposa. Ele a puxou contra o próprio corpo, até que todos os seus músculos a comprimissem e prendeu os dedos de Tanya com as mãos, antes que eles o atingissem e torceu os braços dela contra as costas. Cobriu-lhe os lábios com uma brutalidade que contrastava com a doçura do beijo de Patrick há poucos instantes. Seus lábios estavam presos contra os dentes e ela sentiu um gosto de sangue. Jake apertou-a ainda mais, fazendo com que ela sentisse uma vertigem. Tanya não teve forças para lutar e Jake continuou desfrutando daquele prazer sádico. Deixou-a finalmente, vitorioso por tê-la conquistado tão facilmente. — O que houve? — Caçoou, rindo-se descaradamente, ao ver o esforço de Tanya para recuperar o fôlego. — Por acaso não foi tão delicado quanto o dele? — Seu porco! — exclamou ela, apagando o sarcasmo do rosto dele com um tapa certeiro. Com a rapidez de um bote ele apanhou a mão dela e a apertou como se amassasse um pedaço de papel. Com a outra mão, agarrou-a pelos cabelos e lhe puxou o corpo rígido para junto do seu. — Eu sabia que sua finura não passava de uma farsa! Você ainda é a mesma fera indomável que eu trouxe para esta casa há sete anos!

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— Solte-me! — gritou ela, com os olhos ardendo de ódio pelo jeito com que ele prendera seus cabelos. — É melhor deixá-la, filho! — A voz de J.D. Lassiter veio do pátio. Um canto da boca de Jake curvou-se desdenhosamente ao notar o alìvio de Tanya, salva finalmente ou, pelo menos, assim o julgava, de seu marido. — Um minuto só papai — respondeu ele, arrogante. — Só quero que minha esposa saiba como é bom que eu esteja de volta. — Cada palavra de Jake era marcada pela ironia. Seus braços reduziram a pressão sobre ela. As pálpebras de Tanya tremiam, na expectativa de que aquele tratamento desumano logo estaria terminado. Então, através de seus longos cílios, ela subitamente viu uns cabelos castanhos, antes que seus lábios fossem tomados de novo. A boca dele era sensualmente conhecedora do assunto. Tanya não respondeu nem resistiu, paralisada pelo fogo interno antes que ela pudesse se recobrar o suficiente para tentar se livrar dele. O ódio iluminou seus olhos, o que provocou um riso breve e cínico em Jake. O dedo dele em riste tocou-lhe levemente a ponta do nariz. — É assim que se recebe um homem de volta ao lar, meu bem? — disse ele, sorrindo exageradamente e lhe voltando as costas, antes que ela pudesse reagir. Dirigindo-se ao pai, Jake acrescentou: — É bom estar em casa novamente, papai.

sorrindo. Já era hora de você voltar.D. segurando as mãos do filho.. — Maldita festa! — A voz de J. Aquele último beijo mostrara claramente que ele não vivera uma existência de celibatário nos últimos anos. — Não consigo lhe dizer o quanto estou feliz por vê-lo — disse J. . — Mamãe vai ficar tão feliz em vê-lo! — disse J. olhando de relance a expressão de choque no rosto de Tanya. — Essa idéia me veio à cabeça nestes últimos dias — respondeu Jake. abanando a cabeça e observando Jake como se estivesse diante de um oásis. emocionado. depois de caminhar longamente pelo deserto. estava embargada pela emoção.35 Tanya observou o caloroso encontro entre pai e filho. — Tenho vontade de mandar todos embora. num tom enigmático. Seu corpo ainda tremia com a violência de suas emoções e suas mãos caíram ao longo do corpo.D. recusando-se a se deixar provocar pela evidente referência à cena testemunhada entre ela e Patrick.D. — E nunca com tanta força quanto esta noite. e a sutil crítica de Jake apenas acentuava sua raiva. impotente. enquanto ela cerrava com certa força os punhos. — E eu pensei que você tivesse mandado matar o bezerro para comemorar minha volta para casa — acrescentou Jake. A boca de Tanya contraiu-se com firmeza.

papai — confirmou Jake.36 — Teria mandado mesmo. parecendo fitá-la com indulgência. afetuosamente. aproximou-se de Tanya e colocou o braço sobre seus ombros. Tanya? — perguntou. ela o encarou com altivez. Tanya desejava ardentemente que houvesse alguma maneira de acabar com aqueles comentários de duplo sentido. ele nos faz ainda mais jovens. O sorriso dela foi trêmulo. — Você sabia. Em retribuição. — As portas do pátio se abriram e os . embora Tanya ainda notasse em seus olhos a dureza metálica de sempre. enquanto ele dizia: — Tanya provavelmente ficou mais surpresa com minha chegada do que você. soltando a mão de Jake e voltando-se para a nora. sem ter que se rebaixar para lhe responder no mesmo nível. ordenara ao filho que a soltasse. Tanya percebeu uma certa preocupação dele em relação a ela e seu bem-estar. — Isso foi algum presente previamente escolhido para nosso aniversário de casamento? Pelo ar de alegria no rosto do sogro. Sentindo no ar a disputa silenciosa entre os dois. — É verdade. — Sua esposa é uma jóia rara — disse ele sorrindo. mas sincero. J. — E aquele seu filho.D. Um pouco de sua raiva se desvaneceu quando ela se lembrou da maneira firme com que J.D. que permanecia estática. se tivesse sabido — respondeu o pai secamente. — Estou tão surpresa quanto você.

— Jake! — A voz falhou. Júlia Lassiter mal pôde se dar conta da surpresa que esperava por ela. — Quando você chegou? — Você sabia que ele viria.? — Nem imaginava.D. imaginando que talvez algo me impedisse de vir.37 três olharam para a mulher que entrava. J. O sangue de Tanya lhe correu frio nas veias ao ver o belo sorriso da sogra. — Chega de lágrimas — brincou Jake. . sem que Jake pudesse ter feito qualquer comentário. sorrindo por entre as lágrimas que não pudera conter. erguendo o queixo da mãe gentilmente. mãe — disse Jake em voz baixa. — Eu não quero que elas enfeiem o rosto da mãe mais linda do mundo. — Estou tão feliz — disse Júlia. — Jake a abraçou e ela começou a chorar de felicidade. Parabéns pelo aniversário de casamento. e ela deu um passo em direção ao filho. — Cheguei. beijando carinhosamente o rosto da mãe ainda molhado —. mamãe! — Eu não disse a ninguém — explicou Jake. o mesmo que um dia a cativara. — Olá.

D. meu filho..38 — Até quando você vai ficar? — O olhar de Júlia procurou Tanya e esta percebeu que a sogra temia que ela lhe tomasse Jake novamente. Um súbito sentimento de solidão a invadiu. erguendo a cabeça com orgulho e sentimento de independência. você precisa. E ela queria que as coisas continuassem assim. encostou-se nela para se sentir segura. — Na voz de Jake havia um tom de aspereza. — Calma lá. pensou. O espelho na parede oposta refletia a palidez de seu rosto. vamos deixar essa discussão para depois. Tanya sentiu-se livre para sair discretamente do vestíbulo e ir pelo corredor até seu quarto. Quando Júlia monopolizou a conversa. ameaçando corroê-la por dentro. colocando as mãos nos ombros da esposa —. Ela sabia que ali não era seu lugar e que só toleravam sua presença por causa de John. formando um círculo que deixou Tanya de fora. Mas assim que fechou a porta. — Jake. sob o pretexto de ver como estava John. Ela fechou os olhos.. — Ainda não resolvi direito. Temos que dar graças a Deus por ele estar aqui. numa tentativa de aplacar o vazio que a de Jake havia alterado completamente o seu estado . mamãe — interrompeu J. Os três Lassiter pareciam atrair-se mutuamente. Ela foi obrigada a admitir que a chegada repentina emocional..

Lá. a ponto de não atender ao que a consciência lhe ditava e deixar-se levar pelo beijo sensual do homem que ela abominava.39 tomava. Apenas duas semanas antes ela se sentara nas rochas. percebera o quanto precisava de um companheiro. bem na estação de acasalamento. Racionalmente ela fora capaz de ver como suas defesas falharam quando estava por se livrar das mãos dele. Os anseios de sua carne a haviam tornado fraca. se é que se podia considerar aquilo um abraço. perto das montanhas de Dewey Bald. O imprevisto da volta. por dois homens. a cena íntima que ele presenciara e seu assalto a sangue-frio haviam se unido para jogar ao chão toda e qualquer atitude defensiva por parte dela. Ao abri-los. As circunstâncias tinham impedido qualquer controle. Por que razão ela se lembrava claramente do toque provocante de Jake e apenas vagamente da doçura de Patrick? Então foi dominada por um sentimento de vergonha e desgosto. . Tanya sempre acreditava ser capaz de exercer um total controle sobre seus sentimentos. viu que o reflexo no espelho revelava um sorriso autodepreciativo. Após sete anos de total abstinência de carinho. Pelo menos por sete anos ela achara que isso seria possível. Agora sentia que sua inquietação resultava do fato de estar merecendo a atenção de um homem. ela fora beijada três vezes na mesma noite. Alguns instantes antes ela fora humilhada com a punição do primeiro abraço de Jake.

mas o couro cabeludo ainda estava dolorido com o forte puxão de Jake. mais do que nunca. Demorou-se um pouco antes de beijá-lo na testa e murmurar um boa-noite. porque agora parecia mais impetuoso.40 Agora que Tanya percebera quanto era suscetível ao carinho de qualquer homem. havia se convencido de que seria necessária uma grande habilidade para lidar com aquele tipo de sentimento. Tanya conseguiu se recompor razoavelmente. Ela sorriu com amor e se aproximou da cama de John. Apagou a luz e deu um passo em direção à porta. Algumas escovadelas rápidas colocaram o cabelo em ordem. para cobri-lo com a manta. O banheiro privativo comunicava-se com o quarto de John. longe da civilização. Jake Lassiter era um homem perigoso. que dormia profundamente. Seus atos mostravam que ele poderia obter o que desejasse e Tanya concluiu que essa ousadia era fruto da experiência de alguns anos passados em regiões primitivas da África. Ele estava com as mãos . mas a televisão fora desligada. Passados alguns minutos em que ela examinou a situação. A raiva retrocedera e ela apanhou a escova da penteadeira sem tremer. quando sentiu que seu coração gelava: a luz do quarto foi acesa e ela viu a figura longa e magra de Jake estendida na sua cama. A luz do abajur no criado-mudo ainda estava acesa. Tanya fez sua toilette e espiou sorrateira para o garoto.

com indiferença. — Não entendo por quê. um branco que envolvia desde seus ombros largos até o limite das calças marrom-escuras. — Você não esperava que eu voltasse. aberta no pescoço. A virilidade de Jake atingiu-a com a força de uma explosão corporal. — Você não vai me expulsar de sua cama? — perguntou ele. Eu lhe escrevi uma carta por semana. . juntar seu reflexo ao de Tanya. em tom provocativo. não esperava — respondeu ela. — É. muito mais do que você. — A voz de Jake já não parecia sarcástica. ao mesmo tempo. preferiu tomar uma atitude mais calma. não é? — Jake virou as pernas para a beirada da cama de modo a sentar-se e. indo até o espelho e ajeitando as pontas dos cabelos com um pente. no espelho. Tanya engoliu as palavras grosseiras que iriam fazer exatamente aquilo. Eu ouvi um concerto de trombetas ao receber sua carta. Ao invés disso. O azul da colcha de cetim realçava ainda mais o branco da camisa de Jake. — Você fala como se eu nunca tivesse escrito. percebendo o olhar irônico de Jake. sobre os quadris finos. — Para quê? — perguntou.41 cruzadas sob a nuca e olhava para Tanya com uma expressão irônica e preguiçosa.

O fogo que lhe saía dos olhos acompanhou Jake. — Se você tivesse escrito.42 — Uma carta? Você chama aqueles bilhetinhos impessoais de cartas? — Jake gargalhou alto. apesar de seu esforço para se controlar. — Suas cartas diziam apenas: "Levei John ao dentista. John talvez não aparecesse com a idéia ridícula de que não tem pai! — Ela não pôde conter a emoção. O que você queria que eu respondesse? "O arado quebrou?" "Eu saí com os rapazes para beber algumas cervejas?”. Como deve ter doído escrever aquela última carta lembrando-me de minhas obrigações como pai! Tanya preferiu não responder o que lhe vinha à ponta da língua. não é? Teria sido muito mais cômodo para você se eu nunca mais voltasse para casa. com o esforço que fez para me manter tão negro quanto sua lembrança me pinta? ." "John adorou o primeiro dia de aula. insuportável. — Se eu quisesse fugir à responsabilidade de pai." Jamais um "como vai" ou "como tem passado?". que se ergueu e ficou atrás dela. envolvendo-a com um olhar desdenhoso e frio." "John está aprendendo a nadar. apenas tornaria muito pior aquela situação. só mesmo algumas notas breves para cumprir seu real dever. — Você teria preferido isso. — Ou você se esqueceu disso. jamais teria me casado com você! — Aquela declaração costumeira fez com que a cor sumisse do rosto dela.

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Os olhares se cruzaram no espelho. — Eu jamais sugeri que você assumisse aquela posição que lhe foi oferecida na África — respondeu ela calmamente. — Nem jamais lhe pedi que ficasse. — Por que você se casou comigo, Tanya? — Os olhos dele se estreitaram de tanto dissabor. — Desde o início, jamais houve nada além de desdém em seus olhos, quando você me olhava, e um desejo secreto de que eu morresse logo. Você jamais deu uma chance para que o nosso casamento fosse adiante. Por que então eu deveria ficar? John era apenas um bebê. Ele precisava da mãe, mas não de mim. E você deixava bem claro, cada vez que me olhava, o quanto me odiava. — Eu nunca lhe pedi que se casasse comigo — lembrou ela. — Apenas lhe pedi que reconhecesse John como seu filho. — Assim que você colocasse as mãos no meu dinheiro, fugiria para o lugar mais remoto, levando meu filho com você para que eu nunca mais o visse. — O comentário dele fê-la corar imediatamente. — O motivo que me levou a casar com você é o mesmo que tenho para não me divorciar. Quero meu filho, mesmo que para isso tenha que aturá-la. Era a vez de Tanya rir sarcasticamente. — Seu filho tem sete anos. Ele nem imagina como é o pai, nem está seguro de sua existência. Como é que você concilia esse fato com o grande amor paternal que diz ter?

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Uma contração repentina no maxilar de Jake mostrou que ela tinha atingido o alvo com um tiro certeiro. — Estamos casados há sete anos — disse ele friamente. — E para mencionar uma velha piada, parece que foi ontem, e você sabe que porcaria de dia foi ontem. O tempo dá sempre um jeito de passar. Tenho que admitir que não pretendia ficar fora tanto tempo, mas é nesta idade que John precisa mais de ambos os pais, conforme você mesma mencionou naquela carta. Você também envelheceu, Tanya. — Jake lhe tocou a cintura, obrigando-a a voltar-se e ficar de frente para ele. — Aquelas curvas que senti contra meu corpo hoje eram de uma mulher madura. Ela olhou para os braços dele em sua cintura e o encarou, aparentando certo desgosto, quando, na verdade, seu coração parecia querer saltar do peito. — Não adianta insistirmos nesta discussão — respondeu Tanya com voz apagada. Eu já devia ter voltado para a festa. Ele a segurou mais forte, ao perceber que Tanya pretendia se afastar. — Patrick Raines é seu amante? — O duro olhar metálico desmentia a naturalidade da voz. — Não. — A negação categórica fora muito rápida e o sangue lhe subiu à cabeça. — Hoje foi a primeira vez. — Tanya engoliu as palavras

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restantes, aborrecida consigo mesma por ter permitido que Jake lhe cobrasse explicações. Um sorriso largo de triunfo apareceu nos olhos de Jake e ele não pôde ocultar a satisfação que sentia: — Então quer dizer que eu cheguei a tempo! — Você voltou somente por causa de John — respondeu Tanya com voz firme. — Eu não estou me esquecendo dos motivos que me trouxeram aqui — concordou ele ironicamente. Apanhou a jaqueta que jogara numa cadeira, vestiu-a e fez uma reverência displicente a Tanya. — Devemos voltar à festa

CAPITULO 3

Júlia foi a primeira a vê-los, quando Jake e Tanya chegaram às portas de vidro. Aproximou-se deles, estendendo a mão para se apoiar no braço do filho, com um olhar embevecido. — Você chegou a ver Johnny?

Tanya reconhecia que. mesmo usando roupas adequadas.46 — Ele estava dormindo — explicou Tanya. — Eu o vi assim que cheguei — disse ele. Havia uma aura de poder e autoconfiança em Jake que anulava qualquer restrição de praxe. Todos os outros homens usavam terno e gravata. — Não é uma graça? — perguntou com certa alegria Júlia. procurando mantê-la a seu lado. e Tanya continuou a remoer aquele pensamento. perguntou-se ela. — Ele se parece com Jamie quando era criança. Ainda assim. Seria aquilo um elogio?. Não há dúvida de que Johnny é um verdadeiro Lassiter. embora achasse aquele pensamento um tanto descabido. — Não há mesmo — concordou com muita firmeza Jake. lançando a Tanya um olhar inexpressivo. ignorando o repentino silêncio de Tanya. Ele pousou a mão na curva dos quadris de Tanya. enquanto era apresentado a alguns amigos dos pais e revia velhos conhecidos. mas Jake lhe tocou o braço de leve e a impediu de continuar. Era uma maneira sutil de lhe lembrar . ante a surpresa de Tanya. ele estaria chamando atenção. Alguns convidados notaram com certa alegria a presença de Jake. e Jake se destacava-se entre eles com seu colarinho aberto. — Ele me parece um menino e tanto. — Ele adormeceu antes que os índios do filme ganhassem a luta depois da revolta.

. quando Tanya notou que Patrick se aproximava. divertindo-se com o olhar insinuante de Sheila — e eu nem imaginava quantos motivos tinha para voltar. não é? Ele já sabe que o papai voltou? — Ele estava dormindo quando Jake chegou. voltando-se para ver o beijo carinhoso que Sheila dava no rosto de Jake. — Não estou tão feliz quanto John vai ficar — respondeu ela. depois de tanto tempo no exterior". Eu teria guardado segredo. — Eu ainda não havia decidido — respondeu Jake. acompanhado da irmã. tentando evitar os comentários dos convidados sobre a chegada inesperada de Jake. e isso a deixava pouco à vontade. — Você é o homem das surpresas — disse Sheila. Tanya deu um jeito de tomar o lugar da sra. num tom provocativo. tentando evitar o olhar de Patrick. Osgood acabava de dizer: "Você deve estar felicíssima com a volta do marido. mas seus movimentos se detiveram quando ela ouviu o som estridente da voz de Sheila.47 que ela era sua esposa. Osgood. Tanya começou a esquivar-se das mãos de Jake. tentando evitar que Patrick notasse aquela atitude possessiva. A sra. — Bem que poderia ter dito que viria. — John é seu filhinho.

que eu acabei desistindo de acompanhá-lo e fiquei mesmo na África. — Eu fui para o exterior no mês passado e fiquei conhecendo Jake. divertindo-se com sua expressão de surpresa. Tanya olhou para Jake. viajando entre a Europa e a África. Sheila tinha quinze anos. ele andava tão ocupado. com um olhar de interrogação. — O Patrick não lhe contou? — perguntou ela com falsa inocência. — E era — confirmou Patrick. que se mostrava confuso. Teria sido muito desagradável se Jake não tivesse me acompanhado. pois eu estava precisando de umas férias. quando Tanya e Jake se casaram. cuja aparência não demonstrava perturbação alguma. e a seguir para Patrick. — Sheila olhou para o irmão com uma ternura forçada. — Na verdade. diante das insinuações de Sheila. quatro anos antes. — Eu o convenci a levar a irmãzinha. Sheila olhou para Tanya de soslaio.48 Que Tanya soubesse. — Eu pensei que se tratasse de uma viagem de negócios — disse Tanya. . Jake e Sheila não se conheciam. e era impossível que Jake a tivesse conhecido na sua única viagem aos Estados Unidos. O sangue subiu à cabeça de Tanya.

mas ele me explicou que alguns dos trabalhadores não viam mulher há tempos. — Eu quis visitar a construção que Jake dirigia. ter conseguido uma folga para acompanhá-la. achei melhor tomar conta da irmã do gerente geral da firma. — Foi ótimo para você. mas achou as insinuações de Sheila muito desagradáveis. e lhe apertou a cintura com firmeza. — Creio que Sheila teria se divertido mesmo sem minha companhia — respondeu Jake. — Foi isso então que você fez? — disse Sheila com malícia. o que provocou um sorriso satisfeito nos lábios de Sheila. — Que bom que você achou a companhia de meu marido tão divertida — disse Tanya. — Mas já que eu tive uma folga. lançando um olhar significativo à garota. olhando timidamente para Jake. o trabalho . sem ninguém com quem passear. numa tentativa de controlar os nervos diante da provocação de Sheila. Jake. Além disso. procurando ser natural.49 — Patrick não me disse nada disso. — Tomou conta de mim? Jake percebeu que Tanya respirou fundo. e não havia necessidade de excitá-los. Tanya não sabia ao certo o que pensar. — Não fizemos muitos passeios — respondeu Sheila. — O tom em que falou sugeria que o marido também não havia mencionado nada sobre o fato. — Teria sido horrível se você se visse abandonada num país estranho.

Raines. Você me fez lembrar as compensações que teria ao voltar. Será que eu servi de apoio para apressar sua decisão? — De uma certa maneira. Jake então fitou Tanya com um sorriso que não condizia com a frieza estampada no seu olhar. — Por ambos os motivos. Tanya não conseguiu livrar-se das mãos de Jake.. Jake? — perguntou Patrick.. Tomada de ódio. — Danvers tem experiência necessária para lidar com o projeto. Por detrás da fumaça do cigarro. — Por quanto tempo você vai ficar. Fique tranqüilo. Ele só decidiu voltar para casa depois que eu já tinha saído de lá.50 estava quase terminando e todos voltariam logo para casa. Ainda bem que Jake não resolveu aplicar essas restrições a si próprio. eu não deixei nenhuma bagunça por lá. — Deu uma tragada forte no cigarro e concluiu: — É bem possível que eu fique aqui por muito tempo. Mais do que nunca ficara claro que a preocupação com o filho não fora o único fator que o trouxera de volta. Obviamente Sheila era mais um motivo. procurando não alterar seu tom de voz. Os dois homens olharam-se de cima a baixo. o rosto de Jake parecia ainda mais arrogante. . — Você me pergunta por mera curiosidade ou como executivo da firma? — Havia um desafio perspicaz no olhar de Jake.

Estas palavras só serviram para confirmar o que Tanya já sabia: Sheila achava que a decisão de Jake merecia uma verdadeira comemoração. — Quero que o meu seja bem festivo — pediu Sheila com entusiasmo. mas não o decisivo. — Vou ajudá-la — ofereceu-se Patrick. Ela apertou o aparador do bar com tal violência que os nós de seus dedos ficaram brancos. de repente. para que não houvesse dúvida quanto à sua verdadeira intenção. saboreando o impacto que a notícia causara. Concentrou-se no cigarro. percebendo que precisava de uma dose medicinal de álcool para se recuperar.51 Escolhera cuidadosamente cada palavra. . Pouco antes ele dissera à mãe que não sabia por quanto tempo ficaria. Patrick entrou no barzinho para preparar os drinques. Teria a presença de Sheila influenciado sua decisão? Parecia óbvio que sim. Mas. — Acho que isso merece um drinque — disse Tanya. aproximando-se. como se adivinhasse que as mãos de Tanya estavam trêmulas demais. Jake não pretendia explicar mais nada. o que tudo indicava. — Com licença. mas seria essa a verdadeira razão? Tanya não tinha dúvidas de que Sheila era um dos fatores.

abaixando a voz para que ninguém mais a ouvisse. Começo a achar que não é bem assim. Nem mesmo quando escrevi. sorrindo com ironia. como se não acreditasse no que ouvia. — Você pediu a ele que voltasse? — interrompeu Patrick. — Um pesadelo. eu tinha a impressão de que você não se importava com o que Jake pudesse fazer enquanto estava fora. rapidamente. todo mundo sabia o que estava acontecendo. — Francamente — continuou ele. Eu mal pude crer que ele estivesse ali. digamos.. — Você quer saber por que eu não lhe disse que Sheila e Jake tinham. Nunca pensei que ele pudesse voltar assim de repente. bem longe dos seus olhos. ao perceber que Tanya não sabia o que responder —.52 — Por que você não contou que Sheila tinha viajado com você? — perguntou ela a Patrick. — Os olhos de Tanya imploravam que ele compreendesse. — Eu tive que fazer isso. O menino começou a . — Hoje você me deixou lá feito um bobo e correu para o lado dele — disse Patrick. — Ele não significa nada para mim — negou ela. — Não por mim.. — Eu fiquei assustada. se conhecido? — Sua perspicácia tornava tudo mais difícil para Tanya. mas por John. menos eu. Eu simplesmente me senti uma idiota. — Tanya passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso.

eu.. Que mais poderia fazer? Você me disse que Jake andava muito atarefado... . — Mas é que eu fico pensando no que pode acontecer quando vocês dois estiverem a sós no quarto. Jake? — perguntou Patrick..53 dizer que Jake devia estar morto ou preso. eu me lembro — suspirou Patrick. muito ferida. — É. — O quarto dele é do outro lado do corredor... Tanya ficou irritada com a insinuação e se apressou em apagar imagem dela nos braços de Jake. porque Jake não dava notícias. — O que é que vocês cochichavam? — Pode ser scotch com água. eu achava que ele não conseguiria atender ao pedido de John. — Você ainda não preparou os drinques. Insistiu para que escrevêssemos ao pai e lhe pedíssemos que viesse. daqui a pouco. Raines? — A voz de Jake cortou o ar. ignorando a intervenção da irmã e lhe entregando a bebida.. — Scotch com água vai bem — respondeu Jake. Tanya procurou imitar qualquer sinal de culpa por estar conversando com Patrick. — Minha nossa. Ela se voltou e deparou com os olhos do marido. cheios de rancor. Nós não.. Eu esperava que. vocês são a própria imagem da culpa — brincou Sheila.

. Sem perceber a troca de olhares entre Jake e Sheila. agora que está de volta? — Antes de mais nada. — Digamos. Tanya mal sentia o sabor do drinque. . como Patrick a observavam em silêncio. e sempre havia alguém interessado para conversar com Jake. — Como é. Jake? — exclamou um rapaz. — Eu encontrarei um jeito de preenchê-lo — aflorou nos lábios de Jake. — Desejo conhecer melhor meu filho. Brindaram e todos começaram a beber..54 — A que vamos brindar? — perguntou animadamente Sheila. Tanya se afastou um pouco. quando ele percebeu o que os olhos de Sheila prometiam. dando-lhe uma palmada amigável no ombro. por melhores dias e um porvir mais ameno. — É uma pena que ele esteja em período de aulas — murmurou Sheila. Estavam de pé. mas evitando qualquer troca de olhares com o marido. pois sentia que tanto Jake. o rapaz acrescentou. — Você vai ter muito tempo livre durante o dia. Estava arrependida de ter escrito a carta que o trouxera de volta. o que ajudava a aliviar a tensão. — O que pretende fazer. que o evitou. ao lado do bar. — sua volta ao lar? — Vamos pensar em algo que seja um bom motivo para todos nós brindarmos — sugeriu Jake. ficarei um pouco com minha família — respondeu ele. desviando o olhar para Tanya. sem abandoná-los totalmente.

— Jake é quem traça os planos — disse ela.. — Claro. tocando-lhe o braço. Não é mesmo. não poderiam incluí-la. — A gente se vê? — Sim. os Smith já estão de saída — disse-lhe a mãe. — Jake. Sheila! É melhor irmos andando — pediu Patrick dando um dos braços à irmã. — Venha despedir-se deles. Inclinou-se para Tanya. ao perceber o sorriso arrogante e satisfeito do marido. até as portas corrediças. em tom de ironia. quaisquer que fosse. Estava confusa demais para poder discordar sem se deixar trair pela incoerência. a gente se vê! — respondeu ela. sorrindo.55 rindo: — Imagino que sua mulher terá planos para vocês dois. — Eu nunca considerei Tanya compreensiva — declarou Jake. Mas Jake sabia que seus planos. senhora Lassiter? O rosto de Tanya perdeu a cor. — Se minha mulher fosse compreensiva assim rapaz. distraidamente. que se curva aos anseios do homem. sem se importar com o fato de estar sendo o tipo de mulher submissa. — Desculpou-se com os companheiros e saiu por entre os convidados.. Sheila limitou-se a sorrir enquanto fazia um gesto de — acrescentou o . — Vamos.

e ela suspirou aliviada. Não havia a mínima brisa. — Eu escapei quando eles se distraíram. com seu manto de estrelas. A saída de ambos pareceu pôr fim à festa. pois todos os convidados começaram a se retirar em seguida. de onde se avistava o céu. Saboreava a beleza do momento. — Sem olhar para ela. Mas não havia nem sinal dele quando o último casal se retirou despedindo-se. Uma sombra afastou-se da escuridão e desceu a escada de pedras. quando deparou com a pequena luz de um cigarro aceso. provavelmente com Jake.56 despedida. temendo que Jake voltasse antes de os últimos convidados saírem. por entre as árvores. . Tanya ficou tensa. Ainda se ouviam vozes no vestíbulo e na parte da frente da casa. Tanya foi até a extremidade do pátio. ao ver o reflexo da Lua iluminar o rosto bronzeado de Jake. colocando copos e pratos num carrinho para depois levá-los à cozinha. e a pálida lua. Tanya não tirava os olhos da porta. O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo gemido distante de um animal. Tanya não queria correr o risco de encontrá-los na sala e permaneceu no pátio. o que significava que a sogra e o sogro estavam ocupados. Ao repetir as palavras de despedida. — Pensei que você estivesse se despedindo dos convidados. Jake entrou no pátio vazio e se acomodou numa das cadeiras almofadadas.

— Isso não tem muito a ver com o Jake Lassiter que eu conheci. mas se limitou a beber o que restava no copo. — Por quê? — perguntou Tanya. Deve ser um ótimo lugar para encontros furtivos. como buscasse algo bem no fundo. ou ainda quer mais? — Nunca passo do primeiro drinque. — Na verdade eu estava cansado — disse ele com impaciência indisfarçável. Ela geralmente passa o verão no iate de Patrick.57 tragando pela última vez o cigarro. mas Tanya não conseguia sentir piedade dele. Apanhou o copo e colocouo no carrinho. — Você queria descobrir uma maneira de se encontrar com Sheila às escondidas? Não deve ser difícil. — Você terminou. concentrou sua atenção no copo vazio que ele segurava. . Ainda segurava um copo e ficou olhando para ela. que fica num dos ancoradouros. sentindo uma vontade enorme e tratá-lo como ele a tratara a noite toda. Em vez disso. com ironia. Jake parecia querer torcer-lhe o pescoço. — Não diga! — exclamou ela. Havia marcas de cansaço no rosto de Jake. antes de apagá-lo num cinzeiro. — Não se esqueça de que fiz uma longa viagem.

E menos de um ano depois. que não conseguia me lembrar de nada.58 — É provável que não. Eu me lembro de ter conhecido uma moça adorável e tímida. Procurou se controlar. Mas nós não conversamos muito. só para poder mergulhar naqueles olhos lindos. Tanya abaixou os olhos e sentiu uma dor de estômago. A primeira parte ainda permanece relativamente clara. . Esse tipo de experiência tem um efeito muito marcante em qualquer homem. mas suas mãos estavam trêmulas. fazendo de conta que dançava. — A memória é amiga da gente. percebendo que ela reagira em silêncio — o que você recorda daquela noite. Eu me lembro de uma noite em que bebi tanto. Bloqueia todas as lembranças desagradáveis. Jake inclinou-se sobre ela e seu belo físico se destacou sobre a jaqueta. na festa de Sedália. Ele não pareceu nem um pouco desconcertado com o que ouvira. uma garota me esfrega um bebê no nariz e diz que é meu filho. — A bebida não apagou tudo o que houve naquela noite. Eu ainda me lembro de como ela ficou vermelha quando elogiei seus cabelos. sem lhe dar tempo para responder. antes de conseguir encará-lo. — Tudo naquela noite foi desagradável? — perguntou. e de a ter convidado para dançar. Tanya ainda permaneceu cabisbaixa. Eu apenas a tive nos braços. — Eu sempre quis saber — continuou Jake.

Ela então fugira de Jake. — Do que você está tentando me convencer? — quis saber Tanya amargamente. — Você prometeu me procurar no fim da semana seguinte — disse ela. assustada com sua reação e com o desejo que lhe ardia por dentro. e do segundo. sem saber como reagir diante do sarcasmo com que Tanya o acusava. uma porta de aço se fechara em sua mente. terno. — Tanya. — Foi melhor assim.. e nós dois sabemos disso. em acusação e com veemência. . Lembrou-se do primeiro beijo. Tanya só teve que fechar os olhos para reviver a sensação agradável de estar nos braços dele.. — Que você realmente se interessou por mim? Que eu significava algo para você? Eu valia mais do que um simples programa noturno? Jake sacudiu-lhe os ombros. Depois. — Meu irmão morreu num desastre de automóvel.. apagando todas as outras lembranças daquela noite. eu. Eu não poderia ter ido! — gritou ele..59 A voz dele se tornara suave. fazendo voltar o tempo até aquela noite. tão violento. — Você jamais teve essa intenção. não foi? Jake lhe soltou os ombros e passou as mãos pelos cabelos.

não? — Ele sustentou o olhar impedindo que Tanya abaixasse os olhos. Eu só queria algum dinheiro para pagar as contas. até que de repente nos encontramos.. e depois você queria . — Não é verdade. O que me levou a lhe contar sobre ele foi. Nem com o casamento você me perdoou. não — protestou ela. o poder de Lassiter. Você e o seu dinheiro de Lassiter.. o nome de Lassiter! Primeiro fui tratada como uma qualquer e deixada de lado. Eu praticamente havia me esquecido de você. — Eu lhe contei porque queria que você se humilhasse. Eu não pretendia me casar com você. Mas era o que eu pretendia fazer. Era uma dívida que você queria me impor. mas quando soube de John ameaçou tirálo de mim. depois que ele morreu. até que nos encontramos por acaso. nada mais importava. até que Jamie morreu. que sentisse um pouco de culpa e da vergonha que eu sentia..60 — Eu nem lembro de ter prometido que a procuraria. Mas você queria o bebê.. — Nisso eu acredito — concordou Tanya. — Seu ego ficou ferido por que eu a tive e depois esqueci. Para ser franco. — É por isso que você me odeia. ainda magoada. Os músculos da garganta se contraíram e ela teve que se conter um pouco antes de continuar. — Eu não queria que você soubesse de John. fazendo-me pagar for uma noite de leviandade.

com visível impaciência. . é nos tratarmos como amigos. Jake? — disse ela. — A resposta é "não". Você mesma concordou com isso quando escreveu aquela carta. Nós jamais vivemos como duas pessoas casadas. — Disse que deveríamos tentar. Jake. ou melhor. para poder ficar com John! Você quer o impossível! A expressão no rosto de Jake estava alterada. que nós dois procuremos fazer. — Ela sentiu que ele estava muito próximo e se afastou..61 que eu o perdoasse por me obrigar casar com você. eu não quero que você vá para a cama comigo. — Não vai dar certo. e eu não creio que me considere totalmente repulsivo. O que eu quero que você faça. cresceu na garganta de Jake. Você é uma mulher bela e desejável. acho bom começarmos logo. — Você nunca se esforçou. por mais que duvidasse da minha vinda. — Que eu vá para a cama com você? Um barulho cínico. semelhante a uma gargalhada. — Eu nunca disse que daria certo! — exclamou ele. com medo nos olhos. — Eu sei que você acha que o sol dos trópicos me esquentou o sangue — respondeu ele com ironia.. Casamento nenhum dá certo se as duas pessoas envolvidas não se esforçam. — O que você está querendo. Para o bem de nosso filho.

Tanya sabia que Jake jamais se desculpava. e isso a deixou um pouco mais calma. acendendo outro cigarro.62 e não como inimigos. Acho que devemos conhecer um ao outro como realmente somos. ou trégua. A defesa de Tanya provocou um sorriso divertido. observando-a com os olhos semicerrados. — Eu provavelmente lhe devo desculpas pelo modo com que a tratei. Nós podemos ser marido e mulher apenas no nome. voltando-se para as sombras da noite. Acho que vê-la nos braços dele feriu meu amor próprio. e sua fria insolência não ajudou nada. mas eu ainda a considero minha. mas precisamos enterrar o passado. . — É uma teoria excelente — concordou Tanya. com uma indiferença cuidadosamente estudada. de modo que ele não visse seu olhar melancólico. — Você quer dizer quando eu a peguei beijando o Raines? — perguntou ele. ou seja o que for. Chame isso de um período de tentativa. — E então? O que acha de um período de tentativa? — repetiu Jake. — Eu até poderia concordar com isso se você não tivesse se comportado tão mal esta noite. — O nome dele é Patrick. sem qualquer noção preconceituosa. apenas admitia que deveria fazê-lo.

na África. . há horas em que um homem precisa de uma mulher. Ele pareceu hesitar antes de responder. — Embora admitisse haver uma intimidade entre ele e Sheila. por mais que isso desagrade você. sabendo que no fundo ele recusaria sua sugestão. e essa é a única explicação que vou lhe dar. — Nosso acordo seria estritamente entre nós dois.63 — E Sheila? — perguntou ela. — De hoje em diante. — Quanto a Sheila. Jake não parecia sentir qualquer remorso. E provavelmente vocês se conheceram muito bem. — Não? — disse ela. O gosto de mel vicia — acrescentou ele. enquanto estiveram juntos. não creio que ele se satisfaça apenas vendo-a de longe. — Você está dizendo que não vai procurar Sheila? — Você está dizendo que não vai procurar Patrick? — respondeu ele rapidamente. hoje. — Ela não entra na história. provocando em Tanya uma reação de incerteza. sorrindo com ironia. — Eu já disse que não o tenho visto! — Tanya estava nervosa. pois era evidente que Jake acabara de insinuar que ela não tinha escrúpulos. — Você me pareceu bastante contente em vê-la. colocando em dúvida a veracidade da afirmação.

— Acho que essa seria a melhor solução para nós. o que poderá acontecer? — Tudo continuará como está. depois de dois ou três meses. não é? — Os olhos de Tanya não conseguiam ocultar o quanto ela se sentia insultada.64 — Mas isso não vem ao caso. — Não há muita escolha. — Se. a gente sentir que nosso casamento não tem chance de sucesso. ele já havia sumido escuridão do jardim. envolta por uma nuvem de fumaça. — E se eu não concordar com essa trégua. — A resposta de Jake ficou pairando no ar. — E o que acontecerá se. eu ainda o detestar? — perguntou ela. no fim desse período de tentativa. Você ainda não disse se vai aceitar minha proposta de trégua. — Divórcio? — Tanya gostaria de saber por que aquela palavra custara tanto a lhe sair da garganta. teremos que analisar as alternativas — respondeu Jake. — Depende de como você vê a coisa — disse ele calmamente. . Quando ela se voltou para lhe dizer que necessitava de mais tempo. — Pense bem e me responda daqui a dois dias.

sem mesmo saber por quê. O pior é que ela não conseguia odiá-lo. lembrando-se do que acontecera na noite anterior. Uma depressão estranha parecia sombrear aquela manhã. parando para recuperar o fôlego. levando a mão à cabeça. Ela suspirou cansada. e somente quando abriu os olhos pôde se lembrar do motivo: Jake estava em casa.65 CAPITULO 4 Tanya virou-se de costas. A porta se abriu e John entrou correndo. Jake voltara com a intenção de ficar. havia apenas o medo da repercussão que sua volta traria e a horrenda impressão de que o convívio diário poderia fazê-lo descobrir o segredo que ela guardara com tanto cuidado. que doía insistentemente. . Com um breve resmungo ela enterrou a cabeça no travesseiro. Os raios de sol penetravam pela janela de seu quarto. Ela não poderia mais ignorar a existência do marido. Pulou na cama. enquanto Tanya se sentava.

apanhando o penhoar para cobrir a transparência de sua camisola. — É. . — Não o acorde. Quando ela chegou à porta. John! — Ela o chamou com carinho e saiu da cama. Está dormindo no outro quarto. vestido apenas com calças azul-marinhas. Tanya corou. John estava excitado demais para perceber que o sorriso de Tanya era certamente forçado. John — sussurrou ela com firmeza. que logo baixaram. John estava diante do quarto de Jake. havia um suave aroma de sabonete. do outro lado do corredor. pareciam exigir respostas igualmente rápidas e precisas. — Quero ver! Antes que Tanya pudesse se mexer. o garoto já havia corrido para a porta.66 — É verdade mesmo? Meu pai chegou? Vovó disse que sim. e Tanya o alcançou. ele está aqui. ao se sentir observada por aqueles olhos azuis. com uma das mãos. — Espere. rápidas e precisas. segurando a maçaneta. Tinha o peito e os cabelos molhados. Só então entendeu por que John ficara perplexo. até encontrar o menino. Onde está ele? As perguntas. Parou logo na entrada. No ar. Jake estava entre o quarto e o banheiro. apoiando as mãos nos ombros dele para retirá-lo do quarto.

com os olhos brilhando. Tanya observava os dois. caminhou Finalmente. A resposta de Jake foi um simples e inequívoco "sim". — Você pode crescer até mais do que eu — respondeu. mas sem a tensão do primeiro. Houve outro momento de silêncio. Tanya percebeu que estava prendendo a respiração. Ajoelhou-se. para ficar da altura do menino. sabendo que eles tinham se esquecido completamente de sua presença. com uma ponta de dúvida. — Eu vou ser alto assim quando crescer? — perguntou sério. um lento sorriso que transformou sua rude aparência numa expressão de incrível carinho. Quando chegou diante do pai. ergueu a cabeça para poder vê-lo. como se pudesse receber uma resposta negativa. Mas ele nem se moveu em direção ao menino. Você é o John.67 — Bom dia. sem tirar os olhos do homem cuja presença tomava conta do quarto. John. Jake sorriu. Estavam tão próximos um do outro. maçaneta porta vagarosamente em direção a Jake. O quarto John permaneceu soltou a envolto no mais da absoluto e silêncio. . não? — perguntou Jake. Soltou o ar e retirou as mãos dos ombros de John. A sedosa cabecinha castanha confirmou. — Você é meu pai? — perguntou John. com igual seriedade.

— Porquê? — A acolhida de John não foi das mais entusiastas. Jake ergueu-se vagarosamente.. Eu não. — Não. fechando o penhoar na altura do pescoço. — Você esperava que ele se jogasse nos meus braços? Eu teria me decepcionado se isso tivesse acontecido.68 mas não se tocavam nem falavam. sem jeito. Um deles estava de pé. Não . com uma expressão compreensiva e confiante. — Você já tomou café? — perguntou Jake. mas estancou junto à porta e. e o outro ajoelhado. Por que você não corre e pede à sua avó que coloque mais um prato na mesa? Podemos comer juntos. — Ela baixou a cabeça.. — Sinto muito — murmurou Tanya. explorando o rosto do estranho que era seu pai. papai! — Girou nos calcanhares e saiu em disparada pelo corredor. John disse que sim com a cabeça e se virou para sair do quarto. olhando para Jake. — Eu temo que ele não o conheça muito bem. disse numa atitude adulta: — Que bom que você veio. Em seus olhos havia a calma de um céu de verão. rompendo o silêncio. — Nem eu. Sou um estranho para ele.

— Você pensou sobre o que conversamos ontem à noite? Uma trégua amigável seria a melhor coisa para John. Com o canto dos olhos. ela não conseguia se concentrar no que Jake estava dizendo.69 gostaria de que me desse confiança e afeto só porque lhe disseram que sou seu pai. Tanya podia ver o movimento regular de respiração no peito nu de Jake. — Na verdade. juntou o que tinha de forças para enfrentar a reação do marido. Tanya suspirou. quando ela respondeu: — Não podemos ser amigos. — Dê-lhe um tempo para me conhecer. Passou os dedos pelos cabelos. Tanya. Até certo ponto. — Eu nunca disse que poderíamos ser amigos — corrigiu ele. — Depois. Nem ouviu os passos sorrateiros que trouxeram Jake para perto dela. Jake. eu seria o primeiro a assumir que isso é praticamente . O presente é muito valioso quando você faz por merecê-lo. Não conseguira anular a distância entre o pai e o filho. pois sentia uma enorme atração física por ele. — Acho que você tem razão. Sua pulsação se acelerou quando ela percebeu o quanto ele estava perto. A voz de Tanya soou como um rouco sussurro.

— Não suporto isso! Seus olhos. para se proteger de um eventual abraço. . erguendo instintivamente as mãos. depois de sua resposta. Não estava preparada para a súbita mudança no tom de voz com que Jake lhe falava.70 impossível. uma voz suave como o contato do veludo sobre a pele. notaram que os punhos de Jake se fechavam. entre as pálpebras semi-abertas. tornando-a vulnerável. — Não sei. com voz trêmula de raiva. — Quero apenas uma convivência pacífica. Seus sentidos não conseguiram lutar contra o desejo de ser aninhada naquele peito musculoso. A seminudez de Jake evocava uma reação primitiva em seus sentidos. com um gesto inconformado. — Será que estou pedindo demais? — perguntou Jake. — respondeu Tanya. por sentir que seu corpo a traía. segurandolhe o braço.. Tanya cerrou os olhos e recuou para fugir ao encantamento. — Não me toque! — disse ela por entre os dentes.. Tudo o que quero é livrar-me desse clima hostil que existe por nossa culpa. Ela imaginava que haveria uma tempestade. menos para aquele onde estava o marido. A leveza de seu robe não pôde impedir que ela percebesse o ardor do toque de Jake. olhando para todos os cantos do quarto.

— Por fora você dá a impressão de ser uma linda mulher sensual. fazendo-a aproximar-se mais. com orgulho. Lembrou-se então de que não poderia permitir que Jake descobrisse o quanto ela era vulnerável ao carinho de um homem. na antecipação de serem possuídos. — Você vai ter que me provar isso. A respiração pareceu lhe faltar. — Não é verdade! O olhar sedutor que Jake lançou paralisou-a. quando todos os instintos a impulsionaram a fugir. — Em seu tom de voz havia um convite para que ela se lançasse em seus braços. a fim de provar o que dissera. mas dentro não há nada. só gelo! — Não! — protestou ela. atraída por uma força magnética irresistível. Seus olhos a examinaram da cabeça aos pés. consciente de que seu problema era exatamente o oposto. os lábios dela começaram a doer. . o de se sentir vulnerável demais às atenções de um homem.71 — Como é que eu pude me casar com uma sangue de barata como você? — Jake sentiu que desprezava não só a ela como a si mesmo. incapaz de deixar tais palavras imerecidas sem resposta. Quando o calor da respiração de Jake lhe tocou o rosto e o contorno sensual de sua boca surgiu diante dos olhos de Tanya. quando ela se aproximou de Jake. de matarem o desejo por tanto tempo reprimido. Ele a cativou com o poder do olhar.

contudo. abotoando botão por botão. vestiu a camisa calmamente. fitando-a com complacente satisfação. sem saber se devia ficar ou se retirar. sem dar importância ao que estivera perto de acontecer. . meu bem. Jake. Tanya estava cabisbaixa e segurava o peito de Jake. que a prendiam como barras de ferro. Fica para a próxima. aproximou-se de Tanya. Depois de relaxar os braços. — Não se preocupe — murmurou ele desdenhosamente. virou-se para o filho e disse: — Já estou indo. John surgiu na porta do quarto e seus olhos se estatelaram.72 Jake percebeu que ela pretendia se afastar e estendeu os braços de forma a impedir que isso acontecesse. ao ver o casal que parecia se abraçar. — Não tente fugir exatamente agora. Tanya permaneceu imóvel. avassalada por uma onda de humilhação e vergonha. Piscou duas vezes antes de gaguejar o recado: — Vovó disse que o café está pronto. tentando impedir que ele se aproximasse. com os braços enrijecidos. — Não haverá uma próxima — retrucou ela. disse: — Você tentou. ergueu-lhe o rosto e. John apoiava-se ora num pé ora no outro. Antes de sair do quarto com o filho. Ouviram-se passos no corredor.

Bastaria isso para que John se voltasse contra pai. — Por que você está chorando? — John lançou um olhar acusador a Jake. mamãe? — Estou. Depois lhe soltou o rosto e saiu. respirando fundo antes de se dirigir àquele rostinho apreensivo — . — Eu estou chorando de alegria — começou ela a explicar. John? — Você vem. — Pronto. acrescentando com mais calma: — Eu ainda tenho que me vestir. na mesma moeda. Com uma palavra ela cortaria qualquer possibilidade de relacionamento entre eles. — Mas seu sorriso triste a desmentiu. por todo o mal que ele lhe causara. Vá andando com seu pai. — Você está bem. sem demonstrar qualquer emoção. Uma única palavra. Sentiu a mãozinha de John lhe tocar o braço. Seria tão fácil pagar a Jake. que observava a cena em silêncio. Ela enxugou uma lágrima teimosa que rolava pela face. mamãe? — Não. estou bem. — Tanya engoliu o soluço. Jake sabia muito bem o quanto o filho a amava. Por um momento houve um sentimento de vingança.73 Jake moveu as sobrancelhas. sim. num gesto de descrença. E isso dava a ela um enorme poder.

— Seu café deve estar esfriando. caso chovesse. Mas Jake ainda olhava para Tanya.. Os dias que se seguiram à volta de Jake foram rotineiros. acenando para que Jake o seguisse. enquanto ele a sondava um pouco. mas manteve a cabeça erguida. — Deu-lhe um tapinha trêmulo no rosto. Às vezes iam pescar. ou mesmo na casa em frente ao lago. Durante o dia.estou chorando porque estou muito feliz. jogar bola ou. Feliz porque seu pai está de volta. John. e ele jamais poderia ver a depressão nos olhos da mãe. . — Corra. mamãe — concordou. que logo se transformou num sorriso amplo. Sua preocupação era própria de uma criança. papai — chamou ele. antes que sua avó mande uma comitiva para buscá-lo. Tanya pensou que Jake talvez pudesse ter percebido que ela o declarara vitorioso mesmo antes de iniciar a batalha. assistir à televisão e jogar damas.. em Springfield. enquanto John estava na escola.74 . — Vamos. Por um instante houve uma expressão de incerteza no rosto de John. antes se virar para alcançar o menino. Jake ficava com o pai no escritório da firma. Ela se sentia vencida. À tardinha dedicava-se a John. — Eu também. Mas nem todos os louros da vitória seriam dele.

. e o dela já estava terminando. Tremia. Chegavam a ficar a sós. só de pensar quais seriam as conseqüências. Mas em vez da sogra viu um homem alto e moreno que tentava chegar até onde ela se encontrava.75 O final da noite era o que Tanya mais receava. Evitava estar com ele mais do que o necessário para manter as aparências diante dos sogros. ela percebeu que não havia pensado em Patrick Raines um minuto sequer. se concordasse com um período de tentativa. que ficara de apanhá-la. apavorada. Tanya olhou ao seu redor. ao ver aquele homem de rosto forte e bonito. tentando identificar a sogra. mas apenas momentaneamente. e conseguiam manter uma conversa agradável. cujos cabelos já se tornavam grisalhos. Mas ela sentia que Jake apenas aguardava o momento apropriado para exigir um acordo. para se conhecerem melhor. Com uma ponta de culpa. E somente o seu orgulho a impedia de fugir. Naquele sábado. cada vez que ele entrava em qualquer cômodo onde ela estivesse. Nessa hora. Cada mulher tinha se oferecido como voluntária para um plantão de três horas. Sentiu um arrepio por dentro. desde a noite em que Jake voltara. Jake estava sempre com os pais. Tanya conseguira excluir-se do passeio graças a um compromisso assumido anteriormente: ela iria ajudar num bazar beneficente organizado pela igreja. Jake levara John a passear de barco.

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— Patrick, o que você está fazendo aqui? — perguntou ela, sorrindo com naturalidade. — Eu estava com seu sogro. Encontrei Júlia e ela me disse que vinha buscá-la. Então resolvi me oferecer para vir no lugar dela. Você está pronta? Tanya despediu-se de sua substituta, que já tomava posição junto à mesa coberta de bolos e tortas, e foi com ele até o automóvel. Patrick abriu-lhe a porta, gentilmente, e deu a volta, para se sentar à direção. — Tenho sentido sua falta — disse Patrick, simplesmente,

engrenando a marcha à ré e saindo do estacionamento. — Parece que faz mais de uma semana que não o vejo — respondeu Tanya, sinceramente, sentindo o vento bater levemente contra seus cabelos. — Eu não tinha certeza de ser bem recebido, se viesse. Sei que Jake não gostaria de me ver — afirmou ele rindo, mas sem achar isso engraçado. — E eu fiquei imaginando se a volta dele teria modificado seu modo de pensar. Patrick trazia no olhar uma pergunta que Tanya não queria enfrentar. Uma semana antes, quando Patrick resolvera romper o silêncio, ela imaginara que eles teriam de se encontrar assim, às escondidas. Mas naquele momento ela se sentia pouco à vontade e sem vontade de morder o fruto proibido.

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— Você sabe que, para mim, será sempre bem-vindo — respondeu, fingindo não notar o profundo significado de sua colocação. — Ele tinha que voltar logo agora?! — resmungou Patrick, segurando o volante como se o esmagasse. — Você já está se esquivando. Eu tenho percebido isso. Eu tenho observado como, nas festas, você sempre dá um jeito de colocar o indivíduo em seu devido lugar, quando ele vem com intimidades. Eu achava que você sentia alguma coisa por mim. Com uma ponta de culpa, ela se deu conta de que alimentara as ilusões de Patrick. Na verdade, ele exercia uma forte atração sobre ela, mas Tanya temia as conseqüências. — Eu sinto... quero dizer, eu poderia sentir — corrigiu-se

imediatamente. As palavras quase tropeçariam umas nas outras, na pressa de serem pronunciadas. Ela deliberadamente respirou fundo, numa tentativa de se controlar. — Não é só em mim que eu tenho que pensar, Patrick. — Você está falando de John? Bom, não se pode dizer que Jake tenha sido um pai para o menino. — A culpa é tanto minha quanto de Jake. — É difícil de aceitar — suspirou ele. — Você acredita em amor à primeira vista?

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— Não! — A violência de sua resposta a surpreendeu, e Tanya se lembrou de como se deixara levar pelo charme de Jake, alguns anos atrás, antes de ele destruir tão completamente suas ilusões em relação à vida e ao amor. — Não. Não acredito — repetiu mais calmamente. — De certo modo, eu acredito. Eu ainda estava casado, quando a vi pela primeira vez. Mesmo naquele tempo eu a achava atraente. Sempre tive a curiosidade de saber coisas a seu respeito. Não conseguia entender por que razão os Lassiter procuravam manter a imagem do casamento perfeito entre você e Jake, quando, na verdade, você nunca o visitou e ele nunca veio vê-la. Comecei a ficar enciumado, imaginando que você teria um amante. Eu não consegui entender a razão disso até que descobri que queria ser esse amante. Foi quando comecei a notar a solidão em seu olhar. Você se sente só, não, Tanya? Esse autodomínio é apenas uma defesa, não é? — Todo mundo é um pouco só. — Foi só o que ela conseguiu dizer, antes de jogar a cabeça para trás, mostrando orgulhosamente que para ela tanto fazia. — E seus familiares? Quero saber tudo sobre eles — afirmou Patrick, decididamente. — Você era órfã? — Não exatamente. Meus pais morreram quando eu tinha dezenove anos. Eu já vivia sozinha e me sustentava naquela época — respondeu Tanya, sem demonstrar o quanto lhe era penoso voltar ao passado.

O que houve. com um princípio de dor de cabeça.79 — Algum irmão ou irmã? — Eu tinha uma irmã mais nova. — Morreu de pneumonia pouco depois de perdermos nossos pais. foi mais ou menos assim. ela quase lhe contou a história toda. se você disser onde eu fico nessa história. — começou Patrick. — Eu até aceito mudar de assunto — suspirou Patrick. detalhadamente. — Eu. Deve ter sido uma época difícil. — Você tinha uns dezenove anos quando se casou com Jake. — Às vezes é um erro tentar levar um casamento adiante pelo bem de uma criança. . — Por favor. meu amor? Você se apaixonou só por se apaixonar e só mais tarde descobriu que estava errada? Diante da atitude de Patrick. mas preferiu se conter. Esse é o tipo de problema difícil de contornar.. — Tanya desviou o olhar para a paisagem. vamos mudar de assunto — interrompeu Tanya.. É exatamente o que você está tentando fazer. numa atitude apaixonada e de teimosia —. Já pensou em se divorciar? — Jake e eu discutimos essa possibilidade. — É. Eu sei que você aceitaria o primeiro ombro que se oferecesse.

Sem protestar. manchado de nuvens brancas. Tanya. . ela deixou que ele colocasse o braço sobre seus ombros e esperou que aquilo lhe transmitisse algum conforto. sob o azul da tarde. — Implorar não faz meu gênero — sussurrou Patrick —. — E então. — Ela penteou os cabelos para trás das orelhas e ficou admirando o reflexo das colinas nas águas do lago. Tanya? — Não sei. de onde se avistava o lago Table Rock. mas eu quero você. que ela quase deu uma risada histérica. — Ainda não tive tempo para pensar. Os lábios que lhe beijaram os cabelos e lhe acariciaram a testa provocavam uma sensação incrível. a coisa não lhe pareceu mais tão engraçada. Eles estavam sentados lado a lado. Tanya. Patrick colocou a mão no ombro de Tanya. mas não tão avassaladora quanto o carinho de Jake. não vou me contentar em olhá-la de longe. Suas palavras foram tão parecidas com as de Jake. Patrick diminuiu a velocidade e estacionou no acostamento.80 Eles já haviam entrado numa estrada secundária que os levaria à casa dos Lassiter. Depois de tê-la tocado. — Eu sou um homem. Mas depois de fitá-lo bem no fundo dos olhos. Mas sua incerteza parecia crescer. puxando-a mais para perto.

Todas as emoções se esvaíram ao se ver entregue a ele. e futuro.81 Ela gemeu um "não" decidido. Mesmo quando ele a deixou. — Você está pedindo que eu abandone Jake para me casar com você? — É exatamente isso que estou lhe pedindo. e eu a respeito por isso. Eu sei exatamente como você se sente em relação a seu filho. — Agora você entende o que representa para mim? — perguntou ele com a respiração irregular e ofegante. uma educação adequada. Você quer que ele tenha um lar. . Mas essa passividade não o fez desistir. não lhe negou um olhar apaixonado. Acho que ele me aceitaria como pai. — Ele sorriu para ela ternamente. E ele me viu muito mais do que ao próprio pai. Tanya mal pôde crer ao que ele propunha. desviando o olhar para não se deixar levar pelo charme de Patrick. Os Lassiter podem lhe oferecer tudo isso e mais a segurança de uma família. — Mas eu nem sei ao certo se o amo — respondeu ela baixinho. — Eu seria capaz de me ajoelhar e repetir cada palavra. Basta que você diga uma palavra e eu também serei capaz de dar tudo isso a ele. Mas os braços de Patrick a prenderam quando ela tentou se afastar. ao perceber que os lábios de Patrick procuravam os dela. John gosta de mim. — Eu também não quero um romance às escondidas.

como eu quero que a gente se conheça melhor para poder conquistar seu amor. — Você nem imagina. . O olhar desligado de Jake ao sair do carro. Diga com sinceridade que você concorda. acrescentou: — É realmente um lugar e tanto. — Apreciando a vista? — perguntou ele. mesmo que seja por meia hora ou pelo tempo que você conseguir. Ela se sentiu protegida. Os quatro se olharam com certo espanto e Jake disse algo a Sheila que estabeleceu um mal-estar repentino em todos. Tanya. Sentiu um frio no estômago quando viu Sheila ao lado de Jake. dandolhe uma palmada amiga na mão. — Não fizemos nada de errado. a sós. e desviando o olhar para o lago. — Patrick fazia de tudo para que ela não se sentisse persuadida a tomar uma decisão. Eu quero encontrá-la assim. Tanya preparou-se para ouvir um sermão. Ela foi interrompida pelo som de um carro que se aproximava. Jake lhe abriu a porta e os encarou ironicamente. meu amor! — Eu não sei quando. — Não há nada a ser explicado — disse Patrick em voz baixa. de nada serviu para aliviar o susto de Tanya ou o bater descontrolado de seu coração.82 — Eu seria o último a lhe pedir que deixasse um marido que não ama por outro que também não ama. sem ninguém para nos ouvir. Tanya viu como Patrick ficou exaltado e se voltou para o outro automóvel.

Tanya. Eu me diverti muito. que correspondeu com um duvidoso "talvez". se não quisesse. Foi bom termos nos encontrado. Jake — reclamou —. Jake tomou-a pelo braço. Obrigada pelo convite. Talvez a gente possa repetir a dose. aparentemente sem o mínimo de pressa. A expressão de incerteza no rosto de Patrick dizia a ela que não aceitasse. — Sheila se cansou de esperar por vocês. — Obrigada por ter vindo me buscar — respondeu. quando Sheila jogou um beijo para Jake e entrou toda saltitante no carro do irmão. com um desafio brilhando de novo nos olhos. Então eu me ofereci para levá-la. Antes que Tanya se arrependesse. querendo dizer que não se importaria. dirigido apenas a Jake. A última frase se fez acompanhar de um sorriso enfeitiçador. afastando-a dos cuidados de Patrick.83 — Muito bonito — concordou Patrick. Tanya se aborreceu ainda mais. . Sheila ficou visivelmente irritada por ter que ceder seu lugar a Tanya. O carro de Patrick já ia longe quando Jake. entrou no seu. mas Tanya sorriu. Você vai comigo. — Eu bem que gostei da idéia de você me levar para casa. Com isso economizaremos a viagem. mas entendo que você deve estar louco para ficar com seu filho.

apesar de não estar nos planos — respondeu Jake. enquanto Jake. — Por um acaso ela foi. — Que pena você ter prometido levá-lo. Esse tom de censura não agradou a Tanya. acendia um cigarro antes de dar a partida. enquanto almoçávamos. sim. com um sorriso zombeteiro. — Nosso encontro aconteceu por motivos mais respeitáveis que o seu — retrucou Tanya — Respeitáveis? — ironizou Jake.. — O coitado do John deve ter sido um peso bem grande. John e eu a encontramos por acaso. O tempo que ficamos juntos foi tão inocente quanto o que você passou com Raines.. Você quer fazer o favor de explicar isso? Ela se ajeitou no assento. — retrucou ela ironicamente. — Claro que vocês não tinham John para ficar de guarda.84 — Ela foi com você e John? — perguntou Tanya. Tanya procurou disfarçar para que ele não notasse seu sentimento de culpa. Talvez a coisa não tenha sido lá tão inocente — continuou Jake com certa frieza. como sempre. mostrando ceticismo. — Era a Sheila que não estava nos planos. Seu físico musculoso sobressaía por dentro da calça bege-claro e da camisa de malha azul. .

irritada. Sua chegada foi bem inconveniente — retrucou. — O que foi que você respondeu? — Isso é problema meu. — Ela baixou a cabeça num gesto de embaraço. — É meu problema também. Mas logo se acalmou e ficou observando a brasa do cigarro. — Por quê? — Porque não tive chance. pelo menos como pai de nosso filho. — Se você insiste. e queria saber por que se sentia assim. deixando Tanya surpresa com a indiferença de seu tom de voz. Eu nunca pensei que ele fosse agir tão rapidamente — disse ele. eu não dei resposta alguma! — Sua irritação voltou tão depressa quanto havia desaparecido. Ela chegou quase a lhe dizer que tinha aceitado a proposta. . Mas o olhar penetrante de Jake a impediu de mentir. a reação de Jake foi a de quem se irritara bastante. — O que você teria respondido se eu não tivesse atrapalhado? — insistiu Jake. Por um momento. — Frisou bem o nome — Se não como marido. —Tenho que reconhecer os méritos daquele homem.85 — Patrick me pediu em casamento. senhora Lassiter. Ficou decepcionada com a fácil aceitação por parte de Jake.

— Não. Não valeria a pena gastar tanta energia por nada. — Não me parece que você o ame. temendo dizer algo de que se arrependesse depois. não quero — disse com firmeza. — O que eu já sei de você me desagrada. negativamente. — Mas eu não conheço você — protestou ela. Aos poucos. Tanya nem se mexia. preciso de tempo para pensar — disse ela. mantendo a cabeça erguida. — O comentário se fez acompanhar de um sorriso provocativo. . Você conhece o Raines há tanto tempo quanto a mim. — Você quer dizer que nosso casamento não vale nada? — Que nome você dá a uma situação em que as pessoas não conseguem ficar juntas num mesmo lugar.86 — Não sei. E deu de ombros quando ela confirmou: — É. — Você quer me conhecer? — Jake perguntou de tal maneira que ela sentiu um tremor. Se o amasse não precisaria de tempo para pensar. talvez você tenha razão. — E você não pode alegar que não o conhece. porque a tensão é tão grande que elas podem explodir de um momento para outro? — É isso mesmo o que você pensa? — Jake não pareceu se perturbar muito com as palavras de Tanya. ela conseguiu se controlar e balançou a cabeça.

Parou na extremidade do ancoradouro e se debruçou na grade. Era uma noite lânguida. ou latidos distantes de cães. Um passeio solitário pela margem do lago era muito mais convidativo. Ela decidira não deixar que seus problemas invadissem a beleza da noite. junto ao ancoradouro. onde se encontravam Jake e os pais. A lua minguante refletia-se no lago e Tanya ficou a contemplar a água. . escutando ruído de seus passos. Milhões de estrelas brilhavam no céu. Uma brisa suave acariciava as copas das árvores. Grilos e cigarras entoavam suas canções. de modo a olhar para as profundezas ocultas da água. úmida e parada. entregando-se ao luar. Caminhou sobre as pranchas de madeira. interrompidas de quando em quando pelos pios de corujas. cedros e nogueiras. quente. Ela acabara de pôr John na cama e não se animava com a idéia de ir até a sala. um sem número de carvalhos. mas não chegava a tocar o rosto de Tanya. e os raios da lua prateavam o caminho de pedras por onde ela passava.87 CAPITULO 5 Tanya saiu para o pátio.

Tirou a fita que prendia os cabelos e os acertou novamente para trás. Tanya já sabia que o intruso era Jake. Virou-se e pensou em alcançar a . Tanya estava completamente só. entrando na água. mergulhou com as braçadas rítmicas de uma nadadora experiente. colocou-as perto da toalha e desceu a escada. chegasse até ela. Antes que pudesse se arrepender. Aquela era a única habitação naquela enseada e não se viam luzes de barco vagueando. — Eu não sabia que as sereias falavam. Depois do primeiro arrepio provocado pela água fria. Correu os olhos pelas vizinhanças da casa dos barcos. tirou as roupas. Mas o frio se tornou um pouco mais intenso e ela voltou ao ancoradouro. Mesmo antes que a frase. foi dominada por uma sensação de gozo deliciosa. — Quem está aí? — gritou com voz assustada. Durante alguns minutos ela nadou e boiou nas águas enluaradas. então.88 Uma agradável sensação de calor tomou conta de seu corpo. que Tanya apanhou e estendeu ao lado da grade. dita com suavidade. Na cabine do ancoradouro havia sempre uma toalha. Quando ia subir a escada. Uma sombra movimentou-se rapidamente diante dela. contrastando com o frescor da água. Adaptou-se à temperatura da água e. temerosa de encontrar algum intruso. percebeu que não estava sozinha.

por favor. Jake deu alguns passos e se abaixou para apanhar a toalha. — A ordem parecia um apelo. mas sabia que estava cansada e fazia frio demais para que o conseguisse. — Ah! Então não é uma sereia?! — brincou ele com tom de ironia — É só a senhora Lassiter exposta à lua! A água deve estar bastante fria.89 outra margem. pelo menos me jogue a toalha. e ela não sabia por quanto tempo ainda teria que ficar nadando. . pois a profundidade não lhe permitia ficar em pé. com jeito de quem estava gargalhando por dentro. embora lhe parecesse que o olhar de Jake penetrava a escuridão. O frio da água já começava a lhe paralisar os braços e pernas. odiando-o por tê-la pego em situação tão humilhante. — Se você não quer ir embora. Jake. — E está — disse ela tremendo de frio e raiva. acentuando a brancura dos dentes que se mostravam num sorriso aberto. você não vai ter com que se enxugar. — Depois eu resolvo esse problema — retrucou. O luar clareou o rosto de Jake. — Saia daí. Tanya estava agradecida pelo negro da água que escondia sua nudez. — Se eu a jogar. olhando para ela. — Você quer ir embora para eu poder sair? Mas Jake continuou encostado na grade. Segurou-a nas mãos e olhou para Tanya.

Num pulo de gato avançou para ela. ela mesma virou-se e amarrou a toalha bem firme na altura do busto. depois de ter passado alguns anos na África. — Nem sempre é preciso tirar a roupa de uma pessoa ao seduzi-la. Quis mandá-lo virar de costas. Era impossível nadar e se enrolar ao mesmo tempo. — Eu já vi muitas mulheres nuas. — A suavidade da voz não escondeu a curiosidade que a afirmação de Tanya despertara. Uma vez mais Tanya se deu conta de como ele era alto e forte. Ela teve que chegar até a escada para se apoiar e enrolar a toalha com as mãos livres. — Quanto pudor — caçoou Jake. — Sua peste! — Jake não poderia ter reagido de outra forma. um pouco longe. ainda mais agora. sem lhe dirigir o olhar. — É muito engraçado que a mãe de meu filho esteja dizendo isso. enquanto Tanya fazia uma verdadeira ginástica para subir a escada.90 Ele atirou a toalha na água. . Odiou Jake por não tirar o olho dela. de modo que ela tivesse que nadar um pouco para agarrá-la antes que afundasse. com a água. mas sabia que isso só serviria para mais uma piada. Em vez disso. e quase caiu. Procurou um jeito de ser coerente e ainda assim protestar. cravou-lhe os dedos nos ombros violentamente. Mas a toalha pesava muito. — Mas não me viu — gritou Tanya. passando por ele. Tanya gelou ao perceber a seriedade do que dissera.

. Havia algo naquela postura orgulhosa e solitária que encheu seu coração de dor. percebeu que não poderia deixá-lo daquele jeito. mesmo sabendo que a aspereza das palavras era a única arma de que dispunha. eu não me lembro. surpresa com sua capacidade de provocá-lo ainda mais. Sentindo-se mais segura. carregando toda a culpa sozinho. parcialmente envolto pela toalha. — Não. Não me lembro mesmo — admitiu por entre os dentes cerrados. — Por que você insiste em insinuar que eu a violentei? Ergueu o rosto para poder encará-lo em sua fúria. — Por Deus. — Afastou-se. por sua vez. os seios salientes e maduros. Jake. Tentou não se deixar tomar por tal sentimento e se dirigiu à casa dos barcos. trocou o sentimento de aversão por uma espécie de orgulho e autoconfiança. — Você não consegue se lembrar. levando a mão ao pescoço. a cintura bem demarcada e os quadris harmoniosamente desenhados.91 desenvolvendo uma musculatura rígida. Quando chegou à porta. Tanya começou a apanhar suas roupas. não é mesmo? — contestou. Mas não tirou os olhos de Jake. Não pôde evitar um exame completo e vagaroso do corpo dela.

Mas o ruído de passos cessou e ela acendeu a luz. ele se virou e apagou o cigarro com o pé. e entrou na casa dos barcos. — Não foi violação — disse ela. aliviada. depois. Sem se mover. — Deve haver uma toalha no assento traseiro do barco. esperou que Jake viesse lhe cobrar uma explicação mais convincente.92 — Jake — chamou-o baixinho. A toalha molhada caiu ao chão e ela apanhou suas calças verde-musgo. lamentaria. Ela não poderia passar a noite na casa dos barcos. Ele se voltou para ela. Jake estava na extremidade do ancoradouro. deixando de lado as calças para enxugarse. Quando acabou de se vestir. e seus cabelos castanhos refletiram o luar. Quando Tanya saiu e bateu a porta. Olharam-se por alguns instantes e então ela se pôs a caminho da margem. Tinha um pé no assento e usava o joelho como apoio para os braços. . Mas não havia escolha. Imediatamente ela procurou a toalha. temendo encontrar problemas que fugissem ao seu controle e que ela. onde havia um banco. Um toque na porta fê-la cobrir-se com as calças. ela hesitou diante da porta. Tanya — disse Jake do lado de fora. A fumaça do cigarro formava uma nuvem que lhe encobria parcialmente a cabeça. ouviu os passos que se aproximavam. Assim que ela fechou a porta. — Já achei — respondeu.

Seus . Você não precisava ter reconhecido que mentiu. Seus pais devem ter sido maravilhosos. — Por favor. sozinha. — Ela imediatamente parou de caminhar. não vá embora. — Ele a alcançou e Tanya se virou. — Eu nunca faria isso — respondeu Tanya. — Você é uma mulher muito especial. Mais uma vez o ar se encheu da mesma magia que os envolvia sempre. sentiu o coração palpitar. — E eu ainda não lhe agradeci — continuou Jake — por não ter sido parcial quanto a mim e John. Quisera tê-los conhecido. — É dever de um menino respeitar o pai. Uma outra mulher teria usado o menino para me conseguir de volta. Não entendia por que tinha agido daquela maneira. não quero falar daquela noite. com o esforço de manter e cuidar de um bebê recém-nascido. Algum impulso de dentro para fora a fizera falar. Eu não tinha percebido até agora como você é especial. Nem teria chegado ao ponto de exaustão física e mental. Tanya sabia que se os pais fossem vivos. — Eu só quero que você saiba que aprecio sua honestidade. Mas ao tentar lhe pedir com os olhos que não fizesse mais perguntas.93 — Tanya. Ela baixou a cabeça para evitar o feitiço. Jake. ela jamais teria desposado Jake.

que ele envolveu com as mãos. Antes que ela pudesse responder. A fumaça do cigarro. Tanya rendeu-se completamente aos carinhos dele quando as bocas se tocaram. Milhões de luzes faiscaram por detrás de suas pálpebras . Com os polegares começou a fazer movimentos absurdamente sensuais. amor. Tudo o que Tanya queria era estar nos braços dele. E esses pensamentos a fizeram tremer. o odor masculino. Começava a perder toda e qualquer resistência.94 pais a teriam ajudado. Ele se aproximou um pouco mais e fechou a jaqueta na altura do pescoço. Jake tirou a fita que prendia os cabelos de Tanya e estes lhe caíram sobre os ombros. Não me impeça. — Você é linda — murmurou. tudo fazia com que ela quase perdesse os sentidos. Talvez ele jamais soubesse que tinha um filho. Ela então se sentiu como se estivesse diante de uma fogueira. o calor do corpo dele impregnado na jaqueta. E Tanya correspondeu. Fê-la erguer o rosto com uma leve pressão no queixo. — Eu tenho que fazer isso. Jake correu os dedos por entre os cabelos até o pescoço. aproximando-a ainda mais. Foi submissa ao beijo apaixonado que lhe lavava o corpo. — Você deve estar com frio. espalhando sensualidade por todas as fibras de seu ser. ele já havia tirado a jaqueta e lhe protegido as costas.

Ela teve que se render ao ardor dos lábios dele. Entregou-se à firmeza do corpo dele. o coração batendo cada vez mais forte no peito. fê-la apoiar a cabeça em seu vasto peito. eram insaciáveis. Com o cuidado de quem sabe o que faz. Percorreu-lhe o rosto com a língua. levando as mãos ao seu pescoço para acariciá-lo com o fervor de quem tinha aquele direito. Tanya sentiu-se mulher — a mulher que sabe exatamente da fraqueza que sente no corpo quando este lhe diz que precisa conhecer inteiramente um homem. Com os braços ele a prendeu mais ainda. Lentamente. enquanto que a cabeça girava numa vertigem. conquistando sua fraqueza com segurança total. com cuidado. e com as mãos começou a fazer-lhe um carinho trêmulo. contudo. Os impulsos dele. segurando-a com a sensação de a estar possuindo. A jaqueta caiu por terra. Correu-lhe as mãos pelas costas até a cintura e os quadris. contornando suas formas femininas e tocando-a com o firme e rígido contorno de seu próprio corpo. até penetrar-lhe a boca novamente. Tanya se entregou ainda mais. Estavam numa onda de calor que emanava deles mesmos. Jake soltou os lábios dela e.95 fechadas. já que não mais precisavam dela para aquecer os corpos. fazendo-a gemer por aqueles momentos de prazer e gozo. o fogo que os unia. explorando-a toda. As batidas do coração de Jake soavam como complemento para as do seu . Jake penetrou-lhe a boca. A totalidade de seu desejo fê-la esquivar-se defensivamente afastando-o com as mãos.

Jake. Cravou-lhe os dedos nos braços. — O que você quer dizer? . olhando-o de frente. A segurança da mão dele é que impediu que ela novamente caísse sobre seu peito. dando-lhe uma sacudidela. apesar da escuridão. — Você ainda acha que nosso casamento não vale a pena? Nesse momento. ele recuperou o ritmo normal da respiração. ciente do poder que ele exercia sobre ela. mais do que nunca na vida. Por fim. — Olhe para mim. — Impossível? — disse ele aborrecido. — É impossível.96 coração. embora soubesse que trazia nos olhos o desejo de se deixar possuir. Tanya queria que o casamento deles fosse real. ela ergueu o rosto. As lágrimas lhe invadiram os olhos ao sentir um nó no coração. Mas obedeceu. Tanya — ordenou Jake. Jake então pôde ter certeza de que a conquistara. Com um suspiro ela meneou a cabeça negativamente. — Poucas vezes ela se sentira mais abatida. — É por isso que existe uma corrente de energia no ar quando estamos juntos? — Sorriu ao perceber. que ela corara. Suspirou fundo ao afastá-la um pouco. Relutante. Uma paz sublime envolveu-os por muito tempo — nenhum deles queria jamais que aquele momento tivesse fim.

97 — Não pode dar certo. — Eu não espero isso — disse ela. com medo de que ele achasse que ainda era tempo de fazer aquilo. Tanya. — Você provavelmente me mandaria de volta à África. para nunca mais perder sua submissão. por favor — cortou ele repentinamente. não. como estranhos. — Eu não posso aceitar isso — respondeu ele. desanimada. dando de ombros. eu lhe peço. — implorou Tanya. com arrogância. . Você mesma disse que John precisava de um pai. Pois ele precisa de uma mãe também. — Eu devia tê-la possuído agora. que você espera? Não. — Por favor. — Parecia fraca e desanimada. — É tarde demais para fazer o tempo voltar. — Há muitas coisas a meu respeito que você desconhece. Jake. — Ela deu um passo para trás. — Ela hesitou. — Estou procurando entendê-la. — Não. — O que é. não responda. e então apressou-se em encobri-la. então. mas você torna tudo mais difícil. — Ele parecia querer invadir as camadas mais profundas do pensamento de Tanya. — E eu não o conheço. Você não pode esperar que a gente passe o resto da vida compartilhando uma criança. temendo as perguntas que sua afirmação provocaria. — Você não pode deixar as coisas como estavam? — Não — disse ele decididamente.

Foi o que eu disse na noite em que cheguei. — Não sei. . Não sei se podemos ter um futuro juntos. Foi por isso também que eu não fiz amor com você agora há pouco. — Talvez à Antártica. Se você não quer ficar sozinha comigo tão cedo. Primeiro tem que me provar que é impossível..98 Apesar de tudo. Jake! Não sei mesmo. Jake parecia preocupado.. vamos imaginar eternamente como tudo seria se nosso casamento tivesse dado realmente certo. e se fosse? O que ele ganharia com isso? — Neste exato momento. — John me perguntou se você não viria conosco. como a Sheila. Tanya. Há poucas chances de que ele seja um verdadeiro sucesso. Ela foi incapaz de impedi-lo quando ele a fez voltar-se para olhá-lo de frente. A gente precisa de tempo para se conhecer melhor. — Ela gostaria de ter concordado. de vez em quando. Mas. acho que não poderia encontrar um guardião melhor que um garoto de sete anos de idade. o que temos é um filho e uma certidão de casamento. — Mas eu sei que se a gente nunca procurar saber. ao menos para descobrir se a atração entre eles era apenas física. mas eu sou um Lassiter. Tanya sorriu diante do senso de humor de Jake. desta vez — sugeriu. — A voz solene de Jake a atingiu por trás. E eu ainda não estou devidamente convencido disso. Eu não sei se isso vale para você.

. mas eu. A mãe sempre lhe dissera que é difícil estabelecer o limite entre o amor e o ódio. . — Jake a salvou da tentativa de se expressar corretamente. sem querer reconhecer a sensualidade dos lábios dele. Tanya engoliu em seco. a resposta lhe escapava. . um estivesse disfarçado no outro. — A menos que você me peça para fazer amor com você. diante do silêncio dela. Talvez durante aqueles anos todos. com um repentino sentimento de paz a coroar o compromisso. — Eu não me importo de ser beijada. Suas dúvidas em relação à conveniência de sua decisão foram momentaneamente esquecidas. eu. — Você vai concordar com minha proposta de nos conhecermos melhor? — Concordo com a sua proposta — disse Tanya.99 Por tantos anos ela havia se jurado que o odiava. Uma marca de impaciência estampou-se no rosto de Jake. — Se você está com medo de que eu vá me aproveitar da situação. naquele momento. — Não é isso — respondeu ela depressa. eu lhe dou minha palavra de que não vou encostar a mão em você. E. A segurança e a certeza de Jake se chocavam com a atitude indefesa de Tanya. . — Não vamos fazer nada além do que fizemos hoje. pois já sabia que viver com ele sem jamais se aproximarem fisicamente seria intolerável.. Jake parecia ler seus pensamentos.

. perguntando a si mesma se não se teria feito de boba novamente. — Pronta para voltar para casa? Tanya confirmou. sem rancor. certa de que ficar ali significava brincar com a tentação. Tanya riu com bom humor. sabendo que cada célula do corpo dela pedia e queria que ele a tomasse. — Você não vai se arrepender — disse Jake baixinho. O beijo foi breve. ela notou o quanto ele estava contente e triunfante. Mas não percebeu que ela tremia de emoção. pois se baixou para apanhar a jaqueta e tornou a lhe proteger as costas. — Acho que você seria até capaz de transformar água em uísque. se quisesse. não? Jake deu-lhe tempo de responder.100 — Isso merece um beijo para selar nossa proposta. Ele tinha as mãos nos ombros de Tanya e sentia que ela tremia. mas baixou a cabeça ao encontro de Tanya. mantendo-a junto dele enquanto atravessavam o caminho apertado do ancoradouro. — É até capaz que você descubra que eu não sou de se jogar fora. Um arrepio de alegria tomou conta dela ao perceber que ele colocara o braço em volta de seus ombros. E pelo caminho. como se lesse os pensamentos dela. mas longo o suficiente para fazê-la pulsar mais rápido enquanto os lábios estavam unidos.

hein? — disse o pai. depois de lançar a Tanya um olhar de surpresa. Estou um pouco cansada.D. Tirou a jaqueta de Jake das costas. — Com licença. — Que noite linda... Ele tinha nos lábios um sorriso de satisfação. impedindo que Tanya fizesse qualquer outro comentário. que se soltou dele. pai" cumprimentou Jake. Ela percebeu. — O problema é que eu não sou água. Lassiter apareceu de repente. J. Tanya não estava disposta a ficar conversando sobre o tempo. Parecia haver algo de muito íntimo no olhar de Jake quando lhe disse boa noite. não deve ser tão difícil transformá-la em minha esposa! Ela poderia até concordar. — Mas não é uísque que eu quero — retrucou Jake ao chegarem ao pátio. Jake aceitou esse afastamento e deixou o braço cair ao longo do corpo. enquanto admirava a calma do lugar e a beleza da noite. . Estou. olhando para Tanya. como se aparecer abraçado à esposa fosse a coisa mais natural do mundo. "Oi. — Estivemos passeando no lago — disse Jake.101 — Se é assim. Acho que vou me deitar. mas não queria admitir isso.

diante da alegria estampada pelo filho. Duas horas da tarde. no começo. Tanya. que Tanya se sentiu culpada por não tê-los acompanhado outras vezes. Nem uma só vez Jake deu a entender que ele estava certo ao imaginar que John ficaria contente com aquilo. às vezes na companhia do pai. na maioria das vezes só. A sombra de um falcão riscou o solo. E era tão evidente. Ela se assustou ao notar como começara a aguardar a vinda de Jake. um passeio para pescar. Tanya foi apanhar a correspondência. quando já estava próxima da caixa de correspondência. em Springfield. achou que Jake estava lhe dando uma oportunidade de desistir. o que era ridículo. com John. Jake chegaria de seu trabalho. Olhou para o . como se nada tivesse acontecido. pois ele não era o tipo de homem que permitiria que alguém não cumprisse a palavra.102 CAPITULO 6 A primeira semana depois do acordo passou calmamente. Houve um programa. Às cinco horas. Apenas trocou alguns olhares satisfeitos com Tanya. bem diante de seus olhos. E o menino demonstrou uma imensa alegria em ter os pais com ele.

O dia seguinte já seria quarta-feira. ao meio-dia. num dos envelopes. entenderei que foi realmente impossível. Mesmo antes de abrir. Com o coração nas mãos ela leu o bilhete: "Encontre-me quarta-feira. só para lhe dizer algumas palavras formais e impessoais. Ela poderia não ter tanta sorte na próxima vez. Ela mal teve tempo de resolver se iria encontrá-lo. Não ir seria o mesmo que adiar as coisas. já sabia de quem era. Resistiu ao impulso de correr até a casa para lhe telefonar. lhe chamou a atenção. E como Tanya nunca tivera motivos para procurá-lo. — Tenho dó da vítima — ela disse em voz alta. e ninguém e folheando vários envelopes e folhetos de . abrindo a caixa de correspondência propaganda. o sinistro silêncio de sua aproximação fê-la tremer. admirando a graça e a leveza de seu vôo. Nos últimos dias tentara escrever uma carta ou um bilhete para Patrick. A secretária dele era muito eficiente e seria impossível chamá-lo sem dar o nome. Não havia dúvidas de que era endereçada a ela e não a Júlia. Patrick provavelmente mandaria outro bilhete do mesmo gênero. Patrick. Se você não estiver lá.103 céu. seu interesse repentino seria uma ótima desculpa para comentários. no restaurante Persimmen. e outra pessoa o veria primeiro. Ela já fora fazer compras em Springfield algumas vezes. Mas ao mesmo tempo. O nome dela.” Tanya colocou o envelope no bolso da calça.

muito menos Jake. Acabou decidindo que iria encontrar Patrick. alguma coisa. à noite. Quem sabe outra hora? — Fica para outra hora. — Pode ser que eu não consiga me livrar do trabalho. inclusive por Jake. então — concordou Tanya. Almoços atualmente são verdadeiras reuniões de negócios. pois ele sugeriu: — Por que você não me encontra na hora do almoço? Imediatamente a fisionomia de Tanya mudou. Era muito mais provável que Jake entendesse a recusa como uma resistência a estar sozinha com ele. — Pensando melhor. Quando. Algo lhe dizia que ele seria incapaz de compreender. a notícia foi recebida com a maior naturalidade.104 suspeitaria de nada se ela saísse naquela quarta-feira. sem que ninguém soubesse o motivo da viagem. . Gostaria de explicar que o motivo não era bem esse e contar exatamente por que iria se encontrar com Patrick. lhe dizia que ele não tinha nada a ver com aquilo. Mas ela não se safaria tão facilmente quanto imaginara. ela anunciou que iria às compras no dia seguinte. contudo. Teria ele desconfiado que Patrick seria o motivo da recusa tão óbvia? Ela duvidava disso. Que desculpa ela daria para recusar o convite? A própria demora da resposta valeu como tal. é bom você não contar com isso — acrescentou ele. dando-lhe a chance de se esquivar.

Fez o possível para se esquecer de como estava se sentindo. até virar chuva forte. Escondeu o rosto com a sombrinha e só ficou segura quando chegou à porta do restaurante. Tanya preparou o espírito para o encontro. e penteou o cabelo num coque que lhe caía bem. Respirou fundo para aliviar o frio que sentiu no estômago. Decidiu vestir-se de azul-marinho. mal pôde acreditar: aquela figura sofisticada de mulher era ela mesma. Ouviu-se um trovão à distância.105 O céu estava totalmente encoberto. ela escondia nervosismo e se sentia apreensiva. Mesmo assim. Era meio-dia em ponto quando deixou a sombrinha e a capa na entrada. apesar das razões ingênuas que a levaram a isso. sem tirar a beleza nem ressaltá-la. Se fosse um dia de sol. sentiu-se mal. Ao sair do carro não deixou de olhar em volta para ver se alguém a estava observando. um vestido discreto. Foi em direção à recepcionista. dando uma olhadela no salão à procura de Patrick. quando se olhou no espelho do carro. o que fez com que a garoa caísse cada vez mais intensamente. ela estaria se escondendo atrás de óculos escuros. Não poderia ter havido cenário mais melodramático para seu encontro furtivo com Patrick. por trás daquela imagem fina e estudada. . depois de ter atravessado as poças de água no estacionamento. Ninguém desconfiaria que. Como nunca tinha feito coisa igual.

— Por aqui.. Apesar da decoração gritante. onde muito dificilmente eles seriam vistos. Patrick levantou-se para recebê-la. Você saberia dizer se ele já está à minha espera? — O senhor Raines. Ele fez menção de tocar as mãos de Tanya.. — Faremos o pedido mais tarde — acrescentou Patrick.. As poltronas estavam dispostas de tal maneira que formavam uma concha. — A senhorita aceita um aperitivo? — Não! Um cafezinho. mas ela .. Ao ver o interior do restaurante ela entendeu por que Patrick havia escolhido aquele lugar. por favor. amarelo e branco. um semicírculo que protegia os ocupantes do olhar de curiosos. havia um ar de intimidade no local. A mesa de Patrick ficava no fundo.. claro — confirmou a outra. mas foi interrompida por uma garçonete que chegou à mesa. pensou consigo mesma. — começou Tanya. em verde. — para acalmar os nervos. sim. — Eu. — Achei que você não viria — disse ele. por favor. — Duas — respondeu Tanya..106 — Quantas pessoas são? — perguntou a mulher gentilmente. procurando dispensar a garota. — Eu tenho um encontro com o senhor Raines.

— Eu e Jake resolvemos ver se nosso casamento ainda pode funcionar. planejada em benefício do garoto. Mas eu não posso mais me encontrar com você assim. Como se explica esse interesse repentino em fazer a coisa funcionar. — Sinto muito. — Eu só vim para lhe dizer que essa é a primeira e a última vez que vamos nos encontrar. resolvi procurá-lo pessoalmente para lhe dizer. mas me pareceu muito fria e racional. Tanya. — O que você disse? — Uma total descrença sublinhou suas palavras.107 as tirou da mesa e pôs no colo.. — O quê? — A ira de Patrick a invadiu. Gostaria que a gente se encontrasse de outra maneira — desculpou-se ele.. Por isso. — Tanya parou e viu a preocupação estampada no rosto dele. — Tanto faz — retrucou ela nervosamente. depois de sete anos de separação? . — Por quê? — perguntou ele com um tom de incredulidade. — Sinto muito que você esteja tão pouco à vontade. Patrick. — Você me disse que seu casamento com o Lassiter era uma farsa. — Eu tentei lhe escrever uma carta explicando. Ele segurou fortemente a mesa. procurando se controlar. Nenhum dos dois falou enquanto a garçonete não trouxe o café.

por causa de John. — Concordei. — Se você vê a coisa de maneira tão pessimista. Então a confiança e o afeto que ela ganharia nos próximos meses poderiam ser destruídos. porque Jake deixou claro que. — É até improvável que dê certo. . o divórcio seria a única alternativa. se depois de uns meses de tentativa a gente ainda sentir que não dará certo. Com essa explicação a ira de Patrick diminuiu. — E isso deprimiu Tanya. Jake jamais se divorciaria de mim. Como é que ela o prenderia. — Vocês nunca pensaram em divórcio antes? — Não. — Os Lassiter têm um sentimento muito forte de laços familiares. porque concordou? Seus motivos eram incertos demais para comportar um exame cuidadoso. Se ela estava se apaixonando por Jake. chegaria uma hora em que ela não conseguiria mais enganá-lo. Acho que agora Jake sente que o divórcio não implicaria a perda da confiança ou afeição do filho. como suspeitava. nem tentei colocar John contra o pai. Desde que Jake veio para casa descobriu que eu nunca falei mal dele para John.108 — Nós não estamos simplesmente fazendo nosso casamento funcionar — corrigiu Tanya prontamente. reagindo ao rude sarcasmo de Patrick. A menos que eu quisesse abandonar meu filho. senão através de John? E será que ela faria isso sabendo do desgosto que causaria a Jake? Tanya tomou fôlego.

Mas onde eu entro nessa história? Ela sabia que essa pergunta acabaria surgindo. angustiado. Patrick. sorrindo. — Não é preciso dizer mais nada. concluiu ele.. Sei que você tem consideração por mim. Mas Patrick era o irmão dela e deveria saber. — Você acredita que Jake não vai mais procurar Sheila? A pergunta de Patrick fê-la esquivar-se. Ela não sabia se Jake e Sheila ainda se encontravam. ele já sabia o que lhe estava reservado. — Eu não sei se eles ainda estão se encontrando — respondeu ela surpresa com a calma com que o fazia.109 — Perdoe-me por ter ficado irritado — disse Patrick. a não ser no dia em que foram fazer o passeio de barco. — Sinto muito.. — Acho que não devo vê-lo mais — respondeu ela. — Por acaso eu devo esperar? — Mesmo antes que ela respondesse. . — Agora eu entendo por que você concordou com a proposta do Lassiter. — Não! Eu não estou pedindo para você esperar. Algum instinto lhe garantia que seria inútil lhe pedir que esperasse. procurando fazer com que ele percebesse o quanto suas intenções eram realmente sérias. Sinto mesmo. — Isso não altera minha decisão de não me encontrar com você outra vez.

Acho bom almoçarmos — disse Patrick. O que aconteceria se Jake os visse? — O que é que a gente faz agora? — É impossível sairmos sem sermos vistos. mas acabou deixando quase tudo no prato. — Então perguntou cinicamente: — Quer dizer que ele não deve saber que você veio me ver? — Não — murmurou ela temerosa. chamando a garçonete para fazer o pedido. — Ele acabou de entrar. Ele está com o tal de McCloud. — Acho que não. não faria sentido. antes que Tanya se virasse. A impressão era de que o tempo não passava. um homem de Denver. Não. que já se sentia culpada pelo que dissera. em voz baixa: — Você contou a Jake que viria aqui? — Claro que não! — respondeu ela categoricamente.110 — Consideração por você! Deus meu. Acabaram de se sentar. essa foi a maior anedota do ano. sentindo um leve mal estar. Tanya começou a comer a salada. — Ele nos viu? — sussurrou Tanya. considerando-se que não havia mais nada a ser dito e não era hora de se falar da vida alheia. Parecia que Jake estava fazendo hora para almoçar. e Jake está de costas para nós. Não olhe para trás! — avisou ele. . — Patrick evitou o olhar de Tanya. Conversar. uma hora daquelas. Então ele disse.

Sabia que ele jamais entenderia qualquer explicação. — Boa sorte. E Jake estava no volante. O carro parou junto de Tanya. Ela nem se preocupou em usar a sombrinha dali ao carro. — Vão mesmo. antes de atravessar até o estacionamento. ela lhe estendeu a mão. A chuva diminuíra. antes de deixar o restaurante. Esperaram dez minutos antes que Patrick a levasse à entrada para pegar a sombrinha e a capa. olhando rapidamente para a mesa de Jake. ela reconheceu o Seville azul-claro: era seu próprio carro. — Em que hotel vocês vão se encontrar agora? . — Não tanto quanto eu — respondeu ele. — Sinto muito que tudo tenha acabado assim.111 — Acho que vão sair — avisou Patrick. apertando-lhe a mão um pouco mais. Temos que fazer uma horinha por aqui. A expressão de fúria em seu rosto fez com que ela sentisse um frio na espinha. Acho que você vai precisar. Automaticamente andou até a porta aberta. Tanya se sentia como se estivesse escapado da pena de morte. Patrick. Parou no corredor para deixar um carro passar. Tanya contou até cem. Restavam agora uma fina garoa. Agora já não poderia fugir. Tanya. — É melhor sairmos separados — disse ele. Conforme o veículo se aproximou. — Também acho — concordou Tanya. Inconscientemente. Jake desceu e deu a volta para abrir a porta. Com dificuldade.

— Onde é que você pensa que vai? A resposta de Tanya foi rápida. Tanya correu para dentro de casa. — Jake segurou o pescoço de Tanya. Mas o pior era a humilhação de ouvir uma acusação falsa. Alguns minutos depois eles já estavam na estrada. — Eu gostaria de lhe torcer o pescoço. Jake a sacudiu com violência e ela começou a chorar. diante da garagem. A viagem foi uma verdadeira tortura. e ela não se importou de magoar Jake ainda mais: — Telefonar para Patrick avisando que não vou mais. Ela sentia muito mal e não se importava com o excesso de velocidade. Queria chegar a seu quarto antes que perdesse o controle e as lágrimas lhe lavassem o rosto. Assim que ele parou o automóvel. Tanya percebeu que Jake a levava para casa. as palavras pareciam fugir-lhe da boca. Agarrou-a pelo braço. como se fosse levar adiante a ameaça. Cada vez que ela se enchia de coragem para lhe dar uma explicação.112 O orgulho ferido de Tanya a impediu de esbofeteá-lo. — O trato que fizemos . Percebeu que havia provocado o leão com vara curta e agora estava amedrontada. O silêncio de Jake a feria mais do que suas palavras. fazendo-a parar. Jake a empurrou para dentro do carro e bateu a porta. Mas Jake foi mais rápido.

ainda procurava um sinal de falsidade no rostinho assustado de Tanya. — É verdade. Jake.113 não incluía um amante. apertando ainda mais a garganta de Tanya. — Eu não tolero mentiras — retrucou ele. — Eu achei que seria mais delicado contar a ele pessoalmente o que havíamos decidido. O que você queria fazer? Ganhar os dois ao mesmo tempo? — Fique sabendo que eu não queria ganhar ninguém — gritou ela. rindo. e não me interessa se você acredita ou não. — Sua maluca — disse Jake. — Se isso não for verdade. indignada. todavia. Ela fez um esforço enorme para conseguir recuperar a calma. como se fosse indiferente que ela estivesse aos prantos ou não. Ela fechou os olhos. Jake — murmurou ela. — Quando eu a vi naquele restaurante com Raines e percebi por que você entrou em pânico ontem . Eram os "mais cedo ou mais tarde" de Jake que assustavam Tanya. abrindo os olhos quando ele soltou sua garganta. enquanto enxugava uma lágrima que lhe desceu furtivamente. — Fui me encontrar com Patrick para dizer que não iria vê-lo mais. sentindo uma lágrima escapar e correr pelo rosto. eu descubro mais cedo ou mais tarde. Jake ficou impassível. como se estivesse resolvendo um problema crucial da empresa. — Um suspiro lhe cortou a voz.

— Obrigada. Jake ergueu as mãos. — Sentia que Jake acompanhava cada um de seus movimentos. Não tinha forças. . — Então você acredita? — Tanya sentiu-se mais leve. mas procurou olhá-lo de frente. Havia algo em sua expressão que dizia a Tanya que a raiva tinha passado. desta vez. quase tocando-a nos ombros. A única coisa que eu tinha na cabeça era vocês dois se encontrando num lugar público. Ela não esperava que ele reagisse tão favoravelmente e estava-surpresa. — Agora eu sei que não. peço perdão. quase fui lá para quebrar a cara de vocês dois. Rad McCloud teve que repetir tudo o que dizia porque eu não conseguia prestar atenção. — Acredito. O contato de seus dedos era sedutor. mas deixou-as cair. Eu deveria ter-lhe dado tempo para se explicar melhor antes de julgá-la. como um ser humano. A vontade que ela tinha era de jogar-se nos braços dele até que a mágoa passasse por completo. — Eu deveria ter lhe contado o que pretendia fazer.114 à noite quando eu lhe pedi para se encontrar comigo. — Não foi assim — protestou ela. — Reconheço que estou errado e. — Tomou-lhe uma das mãos e a segurou com carinho.

Ela percebeu quando a sogra se dirigiu ao vestíbulo para receber o marido e o filho. ouviu o motor do carro em movimento. — Não. Ouviu também o tropel ligeiro de John. sorrindo com dificuldade. Terminando de arranjar a . — Mas veja bem. esse incidente infeliz acabou nos ajudando a descobrir coisas a nosso respeito. — E eu aprendi que você não é o tipo de mulher que me trairia. — Você não teve tempo de ir às compras — lembrou Jake. caminhando em direção à porta. porque eu não admito que me façam de bobo. Na verdade eu não preciso de nada — respondeu Tanya. mas ao chegar à porta. obrigada. que percebera a chegada do pai. — Sua expressão era amigável. Jake deu marcha à ré e saiu. — Acho que já imaginava isso — confessou ela. Fico feliz por você ser honesta. Tanya estava pondo a mesa do jantar quando ele voltou acompanhado do pai. Ela achou que Jake a seguiria.115 — Ainda não chegamos ao ponto de confiar um no outro — disse Jake. mas espero que tenha percebido que também sou capaz de reconhecer quando estou errado. — Eu tenho mesmo que ir a Springfield e você poderia aproveitar a carona. — Como assim? — perguntou Tanya. — Você sabe que eu sou temperamental. Tanya.

— Oi. Imediatamente. — É um presente — respondeu alegremente Jake. como se soubesse que a arrumação era uma desculpa para Tanya não olhar para ele. Com passos firmes Jake foi se aproximando da sala de jantar. ela começou a desfilar as frases rotineiras de cumprimento. Ele vinha vê-la. — Que bonitas — disse John. já. e Tanya prendia a respiração. que repetiu a mesma pergunta. — Pondo a mesa — replicou Júlia. não poderiam ser mais perfeitas. — A mesa me parece ótima — comentou. — O que você trouxe aí. Sua expressão de calma se transformou em surpresa ao ver o buquê de rosas alaranjada. menos animada. — Onde está sua mãe? — Não sei — disse John.116 mesa. O jantar fica pronto já. mas preferiu ficar na sala de jantar a ouvir as vozes. Disfarçou para que o contentamento não ficasse tão claramente estampado em seu rosto e continuou a ajeitar os talheres. Ouvi quando você e J. . ela se lembrou de que poderia ter ido recebê-los também. animada. embora não fosse necessário. Jake. chegaram.D. seguida por John. Jake? — perguntou Júlia. Ele entrou e parou atrás dela.

ela apanhou o buquê.. — Tanya percebeu.117 — São para você — disse Jake. — Você não é uma criança que se possa comprar com um presente. Tocou uma pétala para se assegurar de que era verdadeira. mas devemos evitar mágoas futuras. por que as rosas? — Ela queria a todo custo saber os motivos de tão repentina generosidade. — Então. sentindo de perto o aroma das rosas. emocionada. — Simplesmente porque eu queria trazer rosas especiais para uma mulher especial. baixinho. — Gosta? — São lindas — respondeu Tanya. Tanya — sorriu ele fazendo com que o coração dela quase saltasse do peito.. Meio sem jeito. lançando-lhe um olhar tímido. — Não podemos compensar a dor que nos causamos no passado. — Não vai pegá-las? — A gentileza do gesto o havia transformado totalmente. que as rosas eram uma forma de Jake se retratar por ter perdido a calma. — Mas não precisava ter se incomo. . com uma certa mágoa. ela não poderia se sentir triste. Está bem assim? — Depois dessa resposta. então. — Foi com boa intenção — respondeu ele.

e Tanya. sem perceber que falava em voz alta. Cheia de curiosidade acompanhou os movimentos de Tanya quando ela entrou com as rosas. — Mas não é a mesma coisa — disse ela rapidamente. como se esperasse uma explicação da nora. você já recebeu buquês? — brincou ele. enquanto Jake acariciava algumas pétalas. mesmo sabendo que isso poderia ser importante. Os lábios tocaram-se numa breve carícia. . — São lindas. como sempre. — Eu também acho que não é a mesma coisa — concordou ele. — Ninguém jamais me deu flores — sussurrou. Aproximou-se da pia.118 — Está bem — respondeu Tanya. prefiro levá-las para o meu quarto. corou e procurou uma forma de disfarçar a emoção que sentia. Júlia. revelando uma nova faceta de sua personalidade. como se tivesse recebido um tapa em troca de uma gentileza. Júlia estava na cozinha. — Certamente. Júlia Lassiter se afastou bruscamente. afastando-se depressa e saindo da sala. — É melhor colocá-las na água — disse. — Tanya não queria compartilhar o primeiro presente de Jake com a família. pondo-se a admirar uma rosa. não? — disse Júlia finalmente. — Por que você não faz um arranjo no vaso japonês? — Se você não se importa. mas não houve explicação alguma.

embora a outra não fizesse o mesmo. Tanya suspirou. mas simplesmente uma gentileza da parte de Jake. Contudo. é claro que você pode levá-las para seu quarto. Ela sabia que não eram rosas vermelhas. um amor que ela evitava. recusando-se terminantemente a mudar de idéia. as rosas do amor. sabendo que os botões alaranjados ficariam muito bem entre as cores exóticas do vaso. — Claro — respondeu Júlia. Afinal de contas. Não poderia mais ocultar o amor que sentia pelo marido. Tanya pegou a rosa que Jake tocara e a colocou dentro da Bíblia que fora de seus pais — o único objeto que ela havia herdado. Era só uma sugestão. Era um consolo saber que o amor não seria amor. E estava .119 — Bem. sem se sentir obrigado a isso. na solidão de seu quarto. foi para você que Jake trouxe as flores. por achar que seria eternamente doloroso. — Seu tom magoado insinuava que ela merecia muito mais um presente daqueles. a menos que ela o desse a Jake e o recebesse de volta. para mostrar a Tanya que era capaz de dividir suas coisas. isso não importava tanto quanto o fato de que ele tinha lhe dado alguma coisa. sorrindo com serenidade. — Mesmo assim eu posso usar o vaso japonês? — pediu ela delicadamente. Mais tarde.

Tanya? . — Você e Jake parecem estar se dando muito melhor — comentou J. Tanya aceitou o convite e afundou na almofada. colocando fumo no cachimbo. — Você não odeia mais meu filho. dizendo que pretendia agradecer mais uma vez pela gentileza. Mas foi o sogro que ela encontrou. descobrindo que ele estava certo: era mesmo uma noite tranqüila. eu não o estou procurando — mentiu ela. — John está dormindo e eu resolvi tomar um pouco de ar fresco antes de ir para a cama. — Não. dando-lhe uma piscadela. Por muito tempo permaneceram em silêncio. E acrescentou. — Ar fresco é bom para todos — disse J.. Procurava enganar a si mesma. — Sente-se! A noite está tranqüila. Confortavelmente acomodado numa poltrona do pátio iluminado pelo luar. sem esperar a resposta: — Ele está no escritório dando uma olhada em plantas e especificações de um novo projeto. desconcertada com a perspicácia do sogro.. o cheiro do cachimbo era o único sinal de que ela não estava sozinha. na esperança de encontrar Jake. — Você está procurando Jake? — perguntou ele. Apontou-lhe uma cadeira. entre uma baforada e outra. não é mesmo. Tanya foi até o pátio. Acho que ele não se importaria de ser interrompido.D.120 decidida a nunca lhe confessar que sentia algo mais além de atração física.D.

— Talvez vocês consigam até fazer desse casamento um sonho possível! — Eu. . — Ou talvez o destino dê um jeito de colocar as coisas dentro das perspectivas corretas.D. O destino às vezes dá um jeito de estragar a vida de um homem pelo simples fato de ele ter cometido um erro lamentável. J. — Pode ser verdade — disse Tanya. — Os olhos começavam a lacrimejar.121 — Não — respondeu ela sem vacilar e tentando pôr fim à conversa. não. — A voz do velho ficou mais animada. — Quando chegou aqui pela primeira vez. todas as suas atitudes demonstravam que você o odiaria até o fim da vida. e eu acho que Deus não os está fazendo este ano. não contaria com isso. Seria exigir demais de um voto feito sem amor. — As palavras saíram do coração dolorido. se fosse você. E um amor como esse. — O amor é como o cedro. — Sei que você está tentando me garantir que algo de bom pode acontecer depois de sete anos. capaz de transpor obstáculos. — Acho ótimo você pensar assim. mas não alimente suas esperanças. lugares onde parece não ter chances de sobreviver. é uma coisa muito preciosa. Cresce nos lugares mais incríveis. antes mesmo que ela começasse. Uma pessoa não pode condenar outra o resto de sua vida por causa de um erro. — Um amor assim seria um milagre. — Por favor.

CAPITULO 7 Os dois garotos falavam e se agitavam ao mesmo tempo. — Eu também — intrometeu-se Danny Gilbert. — Primeiro nós vamos à "Mansão do Vovô" disse Jake. mas Tanya já estava se levantando e correndo para dentro de casa. — Eu quero ir no Trem-Fantasma! gritou John. Ela não poderia permitir que um sonho impossível tomasse conta de seu coração. — Mansão do Vovô! — repetiu Jake categoricamente. pois sabia de antemão que garotos daquela idade são mesmo endiabrados. preocupado. difíceis de dominar. Numa visão realista.122 — Eu não tive a intenção de perturbá-la. Tanya ria por dentro.D. Jake finalmente levou dois dedos à boca e soltou um assovio estridente. — Depois a gente contorna o parque passando pela Roda-Gigante até o Trem- .. imaginando que John iria reclamar. sabia que ele jamais se realizaria. minha filha — disse J. fazendo com que se calassem.

— Que dupla de peraltas! — Eu estava aqui pensando se você sabia em que ia se meter quando sugeriu a John que trouxesse um amigo ao parque — disse ela. está? — Eu deveria ter percebido melhor que a sua loucura era bem programada.123 Fantasma. as crianças simplesmente aceitaram a idéia e caminharam em direção à bilheteria central. desde que as aulas terminaram e puderam sair mais vezes com John. Não era por causa do sol de junho nem porque ficava mais atraente em seu terninho de cor acaju. — Você não está achando que eu vou levá-los ao Trem-Fantasma. enquanto caminhávamos pelo parque. Tanya sentiu um rápido arrepio de prazer quando Jake lhe tocou o braço. Aquilo era resultado da amizade que se desenvolvera entre ela e aquele homem que era praticamente desconhecido. — Aquele Danny é um menino extremamente curioso — comentou Jake. — Eu tive a impressão de que estava num interrogatório. observando como as crianças compravam os ingressos da CasaMaluca e entravam com a maior displicência. . rindo. O sorriso de Tanya só serviu para ressaltar o ar radiante de seu rosto. — Como ele parecia amigável.

— E não se esqueça dos elefantes — disse Jake. — Por falar no diabo. com um sorriso zombeteiro. tigres e zebras. — Está feliz por eu ter voltado? — Poucas vezes ele precisava tanto daquela resposta. . — Acho que John está satisfeito só de tê-lo em casa. Acho que você deixou John muito desapontado quando contou a Danny que a maioria dos animais selvagens estava sendo preservada e guardada em reservas — comentou Tanya. lá vem ele. — Você deveria ter me prevenido de que Danny era o garoto que instigara John a escrever a carta que me trouxe de volta. — E as girafas.124 — E estava mesmo. Daí todas aquelas perguntas sobre leões. — E você? — perguntou ele. divertindo-se com a lembrança. — Como é bom ser útil — disse ele. — Danny Gilbert era o garoto que duvidara seriamente de que John tivesse um pai. sem exigir qualquer tipo de explicação. sorrindo. — Ela achou interessante o comentário de Jake. procurando-a avidamente com os olhos. Eu teria inventado uma história gigantesca de um safári nas selvas da África. — Há momentos em que sua presença é muito conveniente — replicou Tanya. e muito menos que ele estivesse vivendo no meio da África. recusando-se a responder à pergunta com seriedade. — Você é uma excelente babá para John.

caçoando e olhando para trás.. . que a segurou com firmeza. agora? — perguntou Danny. enquanto gaguejava um "desculpe-me" muito sem graça. ruborizada. quase sem fôlego. sem prestar a mínima atenção por onde andavam. — Para a confeitaria — respondeu Tanya. — Temos uma formiguinha no meio da multidão — brincou Jake. Ela se assustou e olhou para ele. ele e John começaram a correr.. e foram correndo em direção a Jake e Tanya. — Nada disso — explicou ela.125 Danny e John saíram do brinquedo eufóricos. Duas minutos cada um depois os quatro um saíram pedaço ruidosamente de da mastigando pé-de-moleque adolescentes vinham em direção a eles. Quinze confeitaria. — Vamos passar na ponte que balança. — E agora o que vamos fazer de especial? — perguntou John. Jake e Tanya os seguiram com passos mais lentos. fazendo a mesma algazarra com que haviam entrado. — A gente pode ver os índios de madeira. Uma delas quase colidiu com Jake. fresquinho. — Eu gosto de vê-los fazer os doces. Como Jake concordou.

não. — afastou-se um pouco para olhá-lo de outro ângulo — que você é arrogante demais para ser um pão. As meninas cochicharam qualquer coisa quando se puseram a caminhar e Tanya sorriu com a maneira como as meninas cumprimentaram Jake. — Você concorda com elas? — perguntou ele. Tanya percebeu que o velho charme Lassiter tinha feito mais uma conquista.. ao soltar os ombros dela. — Ora. você está fazendo charme — acusou ele. para provocá-lo. — Eu acho. O toque de Jake fê-la tremer de emoção. como se não o conhecesse de cor. — Tentou livrar-se das mãos de Jake. numa tentativa de impor seu protesto. sem se importar muito. — Qual a razão desse riso? — perguntou ele. — Tanya Lassiter..126 — Para mim. — Não estou. fingindo certa irritação. Uma risadinha acompanhou suas palavras quando Jake a pegou pela cintura. na ponte. foi um excelente momento de prazer — disse Jake. debruçados no corrimão. Os meninos estavam logo adiante. aquelas meninas acharam você um pão! — ironizou ela olhando de soslaio. Ela fingiu examinar seu rosto. com um vasto sorriso no rosto. . piscando um olho.

John — concordou Jake. Alcançaram os garotos na loja de esculturas e juntaram-se aos jovens. — Acho que seria ótimo. que estudava cada detalhe da escultura.. — Se estes são os únicos motivos que você tem para não querer que eu a beije. mas não havia ninguém nas proximidades. então vou esperar um momento mais oportuno — concordou. eu não estou conseguindo ver os meninos. — Jake.. — Tem razão.. a fim de apreciar o trabalho que estava sendo feito. e vai ter que arcar com as conseqüências — disse ele.. disse: — Eu invejo esse índio.127 — Está sim. Será que a vovó iria gostar? Não... mexendo carinhosamente no cabelo do filho com afeição. — E. — Que tal colocá-lo de guarda lá no vestíbulo de casa? — perguntou Jake a John. Era exatamente da altura de Tanya. passaram em frente ao índio de madeira. — Ela olhou em volta. tem gente perto. vestido de peles. com o cocar de penas. Virando-se para Tanya. orgulhoso e austero. . na saída. dando-lhe um beliscãozinho amigável na bochecha. com um sorriso curioso. olhando para os lábios dela. e com os braços fortes dispostos na frente do corpo. ela iria dizer que isso é horrível — concluiu ele. — Por quê? — perguntou ela. balançando a cabeça conformado.

Virou-se para Jake com um sorriso planejado. Ela sabia que. Tanya estava prestes a concordar. O calor do corpo dele a aquecia quase como os raios de sol. mas acho que eles ficariam histéricos lá dentro. — E você? — perguntou ele. mas aquilo a perturbou mais do que podia imaginar. o que lhe roubou as palavras. procurando evitar que Jake a deixasse ainda mais confusa. Jake estava em pé. Você e Danny vão sozinhos — ordenou o pai. quando sentiu a mão de Jake no ombro. ele estava apenas fazendo charme para ela. Daí a pouco eles estavam encostados na grade que separava o jardim da entrada da tal Mina Oculta. . — Oba! A Mina Oculta! — gritou Danny. Tal comentário atingiu Tanya profundamente. sabendo que os garotos adorariam a idéia. Danny e John desapareceram no túnel. — Vocês querem visitar a Mina Oculta? — perguntou ela. — Queria sugerir o Poço do Visconde.128 — Porque eu não tenho o coração de pau que ele tem. Felizmente os meninos estavam por ali. suavemente. e ela desviou a atenção para eles. — Vocês dois vêm com a gente? — perguntou John com a esperança de ter a companhia dos pais. afinal de contas. bem atrás dela. — Não.

Para dizer a verdade. . — Eu nunca pensei nisso.. — Você tem um coração de pau? — Claro que não — riu ela. o que eu respeito e admiro. tentando fazer piada da pergunta dele. Eu já sei que é uma mãe excelente. Estou falando de uma esposa de verdade. demonstrando um aspecto zombeteiro — Eu não disse que estou apaixonado. A brisa lhe levantou uma mecha do cabelo e Jake a colocou para trás da orelha de Tanya. — Digamos que eu me apaixonasse por você. Afinal.. Tanya tremeu de surpresa e medo. simulando calma.129 — E eu o quê? — Ela voltou o rosto para Jake. mas só encontrava a presença marcante dele. — Você é uma mulher linda. Você tem uma maneira conservadora de ver as coisas. A gente tem se dado bem ultimamente. o que você faria? — perguntou Jake. Olhou em volta como se procurasse uma saída. — Não vejo razão para você não ter pensado nisso — continuou Jake. não sei bem o que faria. Estou só fazendo uma suposição. apesar de estar tremendo de emoção. Tanya sentiu-se totalmente perdida. possui a maioria das qualidades que eu procuraria numa esposa. — Não fique tão nervosa — brincou ele.

antes que as palavras dele pudessem desafiá-la. para não se descontrolar. chego a pensar que seria ótimo se ele tivesse um irmão.. quero dizer.130 — Agora é você quem está fazendo charme comigo — brincou Tanya. — Eu não consigo pensar direito quando você faz isso. ou uma irmã com trancinhas loiras. ainda mais. com um sorriso malicioso.. . — Decida-se.. mais ela se envolvia. Agora que estou em casa. fazendo-a encostar com certa força no seu peito. — Depois dessas semanas que passaram você ainda acha difícil me amar? — Não. Quanto mais ele falava.. é.. É sim ou não? — Por favor. — Não.. — A carícia dele na orelha de Tanya fazia com que ela perdesse os sentidos e impedia o desenvolvimento coerente de idéias. Quando olho para John. afastando-se dele. A idéia de um lar. Mas ele a puxou pelos ombros.. e uma esposa que me traz chinelos é muito tentadora.. — Pode ser — concordou ele sem resistências.. — Por que não? — sussurrou-lhe aos ouvidos. — É um passo na direção certa — disse Jake. mas suas pernas já começavam a enfraquecer. — Mas o que eu disse é verdade. não fale assim — pediu Tanya. Jake — disse nervosa. uma família.. começando a se afastar. quero ficar.

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— Isso não significa nada. Todo ser humano reage a uma carícia — corrigiu ela, sem muita convicção. — Eu gosto de você. Acho-o um ótimo pai. Você é bastante atraente. Mas não quero complicar minha vida me apaixonando por você. Jake estava meio confuso e um tanto curioso para saber o que aquilo queria dizer. — Como é que seu amor por mim pode atrapalhar sua vida? A mim parece que simplificaria tudo, já que você é casada comigo. — Você não pode entender — protestou ela, percebendo que estava presa na armadilha que ela mesma fizera. — Estou tentando — respondeu Jake pacientemente. — Talvez você possa me explicar. — Não — respondeu ela, sacudindo a cabeça em desespero. — Acho que não. — Por que não? — Jake começava a ficar impaciente. — Porque eu não quero! Pelo menos não agora. — Eu não estou brincando com você, Tanya — disse ele com calma. — Falo sério quando proponho que nosso casamento venha a dar certo. Não tem sido fácil, mas a gente conseguiu deixar de lado o passado. Não fique se apoiando naquela amargura toda. Só vai servir para tornar o futuro ainda mais insuportável.

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— Eu sei — confessou ela com tristeza no olhar. — Mas há coisas que a gente não consegue esquecer, por mais que tente. — Você tem que tentar, meu amor. Se não fizermos tudo para superar o passado... — Você mesmo disse, Jake, que demoraria um bocado. Querer nem sempre significa poder. — Você acredita que a gente ainda tem uma chance? — perguntou ele com esperança. Tanya percebeu que ele estava mais perto. — Às vezes... às vezes acho que sim — confessou ela, notando que havia uma grande tristeza estampada nos olhos semicerrados de Jake. — Acho que vou ter que transformar esse "às vezes" em "quase sempre" — acrescentou ele confiante, sabendo que seria capaz de fazer isso com um piscar de olhos. — Ah, se isso fosse tão fácil! — Tanya baixou a cabeça e Jake lhe segurou o queixo com delicadeza. — Tudo o que você tem a fazer é acreditar em nós. Nunca lhe pedi para cuidar de tudo sozinha. Eu acho que o casamento não depende cinqüenta por cento de um e cinqüenta por cento do outro. O sucesso depende cem por cento de cada um de nós. — Você não acha que está exigindo muito?

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— Você não acha que está fazendo uma tempestade num copo d'água? — O melhor que pôde fazer foi responder com uma pergunta de igual quilate. — A gente pode tornar tudo mais fácil, se quiser. Vamos deixar a coisa como está em vez de colocar o carro na frente dos bois. — Confiança cega no futuro? — sorriu Tanya. — Você não acredita que eu lhe daria segurança? — Mas Jake percebeu que Tanya não se sentia preparada para responder a essa pergunta. Em lugar disso, ele a tomou pela mão. — Lá vêm os meninos. Prepare-se para o pânico. O Trem-Fantasma é o próximo divertimento. Trem-Fantasma, Casa da Árvore, Cruzeiro na Selva — fizeram todos os passeios menos o trenzinho.Pararam para ver a construção de uma cabana de madeira, a fabricação de velas e o trabalho de um artesão. Na casa de fiação, havia uma mulher que mostrava o uso de uma roca, transformando a lã em fio. Quarenta voltas da roca completava uma meada. E havia um disco perfurado, o que facilitava o trabalho. Um pedaço de madeira caía na fresta do disco depois de quarenta voltas, o que queria dizer que uma meada estava pronta. Foi John quem deu a entender que o passeio havia terminado. — Estou com fome, mãe — declarou insinuando uma proposta que estava bem de acordo com a vontade de Danny. — Eu também, mamãe — disse Jake, apoiando o pedido dos meninos, em tom de brincadeira.

— Lindo. pratos de papelão e talheres de plástico. refrigerantes e uma torta gelada. . — Você agüenta? Ou chega de montanhas por hoje? — Eu nunca recuso uma visita àquele lugar. não? — comentou Tanya. Jake não queria concordar antes de saber a opinião de Tanya. fazendo-a chegar mais perto. — Vamos até o topo da montanha ver as estátuas — gritou John. dando-lhe a mão para se levantar. Jake sorriu e perguntou: — Onde vai ser esse piquenique? — No Parque das Águas — sugeriu Tanya. por mais cansada que esteja — respondeu ela. A cesta estava repleta de frango. Quando já estavam no carro. Jake passou-lhe a mão pela cintura. batata frita e outras guloseimas. — Pois vamos ao Parque das Águas — concordou Jake. E os gulosos satisfizeram logo sua fome.134 — Solta um lanche aí. assim que terminou de "limpar" o prato. tentando ocultar o jeitinho tímido com que recebera a brincadeira de Jake. Até John e Danny ficaram em silêncio. E na geladeira de isopor ainda havia maionese. impressionados com a beleza do lugar. seu moço — disse ela.

E os caçadores disseram que os exploradores franceses e espanhóis passaram por ela. Os colonizadores disseram que os caçadores a usavam antes deles. o nome calha bem: a trilha do tempo do onça. a trilha já existia. sentindo a respiração dele contra sua cabeça. enquanto admirava o panorama. — Papai. — Sério demais às vezes — completou ela distraidamente. John deu a entender que compreendia e continuou a observar a paisagem. qual é a idade dessa trilha do tempo do onça? — Você acaba de responder à sua pergunta — sorriu Jake. — Ela é do tempo do onça. como se tratasse de um negócio importantíssimo —. papai — quis saber John. É impressionante como elas ainda não foram invadidas pelas garras da civilização. guiados pelos índios que já a conheciam há tempos. — Porquê? — Bem. E os índios disseram que outros já haviam passado por lá antes. quando os colonizadores chegaram aqui. Como você vê. — Ele é um garoto muito inteligente — disse ele em voz baixa. lá pelo século dezenove. indo de Matthews até Dewey Bald e daí para frente. . sabe-se lá até onde.135 — Os geólogos dizem que as montanhas Ozark são as mais velhas do continente.

. Teria Jake percebido isso? — Olhe. meu bem — disse ele acariciando ternamente os cabelos de Tanya com os lábios. — Eu sei que não — disse ela.136 — Ele me parece um garoto saudável e normal. — Mas é o que acontece quando você tem que ser mãe e pai ao mesmo tempo. de modo a poder fitá-lo. — Assim que entrar o outono. procurando um pretexto para distrair a atenção de Jake. envolvendo-a por trás. mesmo que haja alguém olhando. — Isso não é mais preciso. — Um dia — murmurou Jake — eu vou acabar aceitando o convite desses lábios. Ela se apoiou nele e tombou a cabeça para trás. — Você parece que se preocupa demais com ele. que se puseram a brincar de pegapega. Tanya era sempre muito sensível a esse tipo de comentário. um pé de caqui — mostrou ela. — Jake queria sentir que o filho era mesmo o que significava para ele.. A paisagem já não oferecia novidade para os meninos. — Fechou os braços.. temendo que fosse afundar o corpo de Jake. — Acho que sim — concordou ela prontamente. podemos colher alguns — disse ele. deixando o sorriso de felicidade se abrir lentamente no rosto.

— Aqui vale tudo — brincou Jake. como se não lhe fizesse nenhuma diferença.. faria a troca. sempre estabanado e correndo mais que Danny. Acho bom ficar por perto. — Isso não vale — protestou ela. — Posso trocar meu canivete pelo Pepe do Danny? Ele disse que.137 — Boa idéia — concordou Tanya. não fosse a chegada de John. Tanya caíra na armadilha. — Agora é tarde — riu Jake. procurando entender melhor o nível dos negócios. — A gente já assumiu um compromisso para o outono e você não tem escapatória. quem é o Pepe? — quis saber Tanya com certa curiosidade. vai? — perguntou Jake. pelo canivete. então? . Tanya teria argumentado. — Será que a gente não está pensando num futuro muito distante? — sussurrou ele. — Posso trocar pelo canivete.. bichinho de estimação — respondeu Danny sem querer esticar o assunto. Posso? Hein? Posso? — Antes de mais nada. — Minha mãe disse para eu me livrar dele — disse Danny. — Espere aí! Você não vai querer abandonar seu bichinho de estimação. — É o meu.

Ele contou que as da selva são venenosas. — respondeu Tanya. não! — proibiu ela. vá! — insistiu John..138 — Não sei. — Não adianta insistir. tarântula. mas essas por aqui. — Não têm veneno. mas compreensivo. — Pepe é a minha. — Tarântulas são mansinhas. quase mordendo a língua para não ser obrigado a confessar. não dói nada. — Mas que raio de Pepe é esse? — Que raio? — repetiu Danny. É como pernilongo. sendo logo interrompida por Jake. Danny — chamou. sem titubear. Só que elas sobem pelo braço e outras coisas mais.. Foi papai quem disse.. quando mordem. John — intrometeu-se Jake. — Sua mãe disse não. Muito tristonho. Assim que a dupla seguiu adiante. só de pensar no monstrengo. John pareceu acatar a ordem do pai sem rancor. vacilante. — Ah. Tanya sentiu um arrepio de novo e começou a friccionar os braços. — Definitivamente. — Vamos.. mãe! Deixe. mãe — interrompeu John. . — Uma aranha? — Tanya sentiu um arrepio pelo corpo. — Eu guardo no quintal.

— Com um pouco mais de incentivo. mas eu não suporto esses bichos. — Não me importa se são inofensivas. sentido outro arrepio. Sei que é bobagem. .139 — Eu nem quero pensar naquela coisa horrorosa subindo pelo meu braço. ela perdia a fala quando Jake a provocava. — Mas aí você me usaria como assassino oficial de aranhas — sugeriu ele rindo. O coitado ficaria sem canivete e sem a aranha. Até por causa de um pernilongo eu pulo assustada em cima da primeira cadeira. assim que você descobrisse — brincou Jake. — Foi a melhor proposta do dia. — Como sempre acontecia. — Acho que. examinando-lhe detalhadamente o corpo de formas tentadoras. eu seria capaz de lhe fazer outras — acrescentou ele. — Bem. — Dou graças a Deus — concordou.. de-se por satisfeita que John tenha pedido antes de fazer a troca. — Acho que está na hora de levarmos Danny para casa.. Credo! — Coitadinha! Tem medo de aranha? Tem? — Morro de medo — declarou com nojo.

. Mas quando foi o começo? Ela só sabia que o tinha guardado por muito tempo. pensou consigo mesma. despediu-se dela ao chegar em casa. junto ao medo. Se pelo menos tivesse contado logo no começo. a resistência de Tanya.140 — Você sempre dá um jeito de desviar o assunto. — Foi mesmo. sem exigir mais do que ela poderia oferecer. Tanya começou a acreditar que ele queria amá-la como pessoa. ficou de mãos dadas com ela enquanto estiveram juntos. Uma porção de coisinhas aparentemente sem importância. Ele era sempre muito gentil e sensato. e não apenas como a mãe de seu filho. o que tornaria mais difícil a compreensão e o perdão de Jake. Jake foi mais atencioso com ela. o que já estava se tornando um hábito. Depois de passarem um dia quase todo juntos.. Mesmo assim. enquanto se espreguiçava numa poltrona. mas muito significativas. o relacionamento pareceu melhorar consideravelmente. A porta do pátio . aumentava na mesma proporção que o amor. Ficava cada vez mais fácil receber um beijo de boa-noite. quando vistas como um todo. O clima do relacionamento era uma verdadeira agonia. em vez de simplesmente incluí-la num cumprimento dirigido a todos. cada vez que sentia uma brecha de felicidade de ambos. — Tanya não respondeu. digamos que esse foi um grande dia. — Pois bem. que se tornava mais insuportável em função do segredo que ela quase revelava.

— Jake está por aí? — Ele ainda não chegou — respondeu Tanya. — É muito importante? — perguntou Tanya. fechando-se imediatamente. Ele disse que chegaria cedo hoje. no braço de Tanya. muito atraente em seu terninho vermelho. Os lábios rubros de Sheila a desafiaram: — Que pena. tudo bem? — Sheila cumprimentou Tanya e sorriu. — Pode mesmo? — disse Sheila como se Tanya estivesse lhe fazendo um grande favor. e eu esperava encontrá-lo por aqui. — Eu tenho mesmo que ir. — Eu poderia telefonar. — E acrescentou em tom de lástima: — Eu queria tanto vê-lo. enquanto fitava o luxuoso relógio cravejado de brilhantes. . Você sabe se ele ainda demora? — Não sei. mas não gosto de me intrometer enquanto ele está com o filho. o que chamou a atenção de Tanya. — Eu posso dar o recado. odiando a possessividade de Sheila.141 se abriu. não. — Você não quer esperar? — Não — disse Sheila. — Oi. Seus olhos se arregalaram ao perceber que Sheila acabara de entrar. — Tanya sentiu-se superior a Sheila e não deixaria que a outra percebesse que Jake não lhe dava satisfação de seus horários.

142 — Quanta gentileza de sua parte. comigo. eu dou o recado — confirmou ela secamente. Ele talvez queira dar um pulo até lá. Algo na expressão de Tanya revelou o ciúme e a insegurança que ela sentia. pois Sheila parecia muito satisfeita quando acenou um adeus e saiu. e não às duas. O local não poderia ser pior. à uma hora. Diga que simplesmente não serve. Tanya estava nervosa demais para confiar no que iria dizer. É praticamente inacessível. — Pode deixar que eu vou dizer a Patrick que você mandou lembranças. — Obrigada — disse Sheila. — Tanya estava a ponto de cortála em pedacinhos. enquanto insistia num caso com a outra? A visita inesperada de Sheila parecia responder a essas perguntas afirmativamente. Eu mesma me encarrego de contar os detalhes no sábado. — Houve uma confusão incrível de horário que combinamos para o encontro no clube de campo. Diga para Jake. — Sábado. acrescentando antes de sair: — Ah! Já ia me esquecendo. Tudo o que acontecera nos últimos meses teria sido uma farsa? Será que ele queria iludi-la. Pode deixar. para ver o terreno. A vista é péssima e o próprio terreno é amontoado de mato. Eu fui ver o terreno que ele queria comprar. . Jake jamais mencionara o fato de estar interessado num terreno. que é à uma.

Ela disse que deixou John na casa de um amigo que fazia anos. obtendo apenas um sorriso amarelo por parte de Tanya. — Um néctar gelado para a minha deusa do sol — disse ele. quando fosse apanhar John. os olhares de Jake a deixariam tonta. Como Sheila dissera que Jake voltaria cedo. . Morrendo de ódio. Demorou um pouco até que a porta se abrisse e Jake entrasse com dois drinques gelados nas mãos. Eu sabia que não haveria oportunidade melhor para ficar a sós com minha mulher. Ele não pôde deixar de notar as belas pernas de Tanya. pois ela sabia que eram falsos. só poderia ser ele. Sugeri que mamãe trouxesse papai para casa mais tarde. mas resolveu ficar esperando no terraço. o short branco e o bustiê azul.143 CAPITULO 8 Fazia menos de meia hora que Sheila partira quando Tanya ouviu um carro chegar. ainda mais agora que sabia do romance com Sheila. Os óculos escuros disfarçavam a raiva. mas não agora. Tanya fez menção de ir encontrá-lo. — Mamãe esteve no escritório hoje para almoçar com papai. Em outra ocasião.

as palavras de Jake a fariam realmente feliz. indiferente. como quem não quer nada. — Jake começava a se enfurecer com a ironia de Tanya. — O que ela queria? — perguntou. — Ela disse por quê? — Ela deixou um recado. ela não veio me ver. simplesmente não serve. Ela sabia que. ao mesmo tempo. Disse também que vocês poderiam dar uma olhada em outros terrenos nesse sábado. — A notícia provocou um breve silêncio e um ar reservado no rosto de Jake. — Recebi uma visita muito curiosa. — Tanya percebeu que Jake não estava surpreso. hoje à tarde — disse ela. Estava preste a se sentir mal. Achou divertida a seriedade do marido. . — Disse que viu aquele terreno por que você estava interessado. — Na verdade. em outra época. Explicou qualquer coisa a respeito de um matagal e estrada de terra. e. observando-o atentamente por trás das lentes escuras. sábado que vem. Era você que ela procurava. mas você deve saber. Ela não disse qual.144 Tanya levantou-se bruscamente da poltrona. tamanha a ansiedade que a situação lhe provocava. É para você encontrá-la à uma hora no clube de campo e não às duas. curioso e. segundo ela. — Não diga! Quem? — Sheila Raines.

— Faça o que eu digo. mas não faça o que eu faço! É isso que vale para você. irritada. Ele avançou sobre ela como um tigre. demonstrandose aborrecido — E parece que você não interpretou a coisa muito corretamente. certo? Eu já estou sabendo de tudo. Você disse que não suportava ser enganado — ela riu ironicamente. acho que agora não é mais preciso. — Eu já sei que você é capaz de me enganar e tentar me convencer de que não há nada de errado. mas eu me recusei a levá-lo a sério. — Você só sabe o que Sheila lhe contou — disse ele. agarrou-a pelo braço e a sacudiu. Eu deveria ter me lembrado de que sua palavra não vale nada. . — Vamos poupar as explicações! — gritou Tanya. Patrick me contou que você mantinha encontros com Sheila. Eu aceitei sua palavra de que faria de tudo para que nosso casamento desse certo. — Naquele mesmo dia. — Algo dizia que seu humor estava alterado. não é? É assim que você deve ter se sentido no dia em que me viu com Patrick. — E não há! Não o que você está pensando. soltando a tensão que a dominava até aquele instante. O sangue ferveu e subiu à cabeça de Jake. — Bem.145 — Eu pretendia lhe contar essas coisas hoje.

Isso já não importa mais. mas ela o impediu. você negou a resposta quando eu lhe perguntei. Mas. agora que eu conheço a verdade que existe entre vocês. — Como eu devo ter parecido ingênua — disse Tanya. Talvez eu mesma tenha me enganado. A raiva dava-lhe uma força física acima do normal. — Mas você não conhece a verdade! Você nem quer ouvir a verdade! — Jake. pois sua figura lhe pareceu formidável. Eu. Ele não se incomodou com aquela interrupção. pelo menos. Jake fez menção de falar. irritado já começava a desanimar. Tanya se soltou. — Não! Por favor. Você está me acusando e julgando sem me ouvir. Ouviu-se o toque estridente do telefone. — Quantas vezes acreditei plenamente em suas palavras! E você sempre me fez de boba. Você nunca disse que abandonaria Sheila. — Já ouvi suas mentiras pela última vez! — Você está fazendo o mesmo que eu. aliás. Agora você ainda quer que eu acredite em mais uma historinha inocente para despistar o romance que Sheila deixou tão claro. mereço um pouco de sua confiança.146 — Agora você vai ter que me ouvir. o que significa que foi mesmo uma mentira disfarçada. sem poder evitar as lágrimas de angústia que lhe invadiam os olhos. . não fale. com a mesma rapidez. — O porte alto e másculo de Jake fê-la tremer.

Jake o apanhou e falou ao aparelho. em cima da mesinha. — Tanya. — Repita o que você acabou de me contar. pelo menos pensava que sim. Depois que ele saiu enraivecido. que a obrigava a entrar no vestíbulo. — Venha cá. sem a menor emoção na voz. até que a porta do pátio voltou a se abrir. pai — e então passou o fone a Tanya. estremecendo-a. ainda tensa e sem conseguir olhá-lo de frente. fora do gancho. o ódio de Tanya começou a se esvair. pois sentia no coração uma dor insuportável. contrariado. Limitou-se a negar com a cabeça. deixando atrás de si um ar tenso e a frieza do olhar de Tanya. Ou. — A sua querida Sheila disse que telefonaria mais tarde. Quase caiu em prantos. Já sem o apoio de seu espírito vingativo.147 — Acho bom você atender — aconselhou Tanya. onde estava o telefone. ou então eu a trago à força! Algo lhe dizia que ele faria aquilo mesmo. por saber que contava apenas com alguns minutos de intervalo para se fortalecer até que Jake voltasse. aproximou-se dele. Não se atreveu a livrar-se da mão de Jake. se ela recusasse novamente. Jake entrou na casa. por favor venha cá — pediu ele com energia. . Ela não se deu ao trabalho de responder. debruçou-se na grade do pátio.

— Deu uma boa gargalhada. apanhando o fone de volta.. — Tanya imaginava exatamente o que ele estava sentindo. mas ela estava atordoada demais para ouvir o que dizia. Tanya olhou para Jake. não se esqueça de avisar Tanya. Lassiter ecoou surpresa. teimosa como é. o que a melindrou. — A única coisa que eu disse é que a reunião dos executivos e engenheiros foi transferida para a uma hora do sábado. não se esqueça de apanhá-la com minha secretária. — Mas. — Obrigado. Será uma reunião bastante informal.D.D. pai — disse Jake. Ela provavelmente vai querer arranjar alguém para ficar com John. Ele continuou a falar ao telefone. vai fazer sucesso com as vendas. — Sua mãe acaba de me lembrar que Sheila deixou uma lista de terrenos à venda na minha escrivaninha. Como eu não venho ao escritório. . O que há de tão complicado nisso? A tensão do corpo dela baixou. cuja expressão era austera e fechada.148 — Repetir? — A voz de J. A raiva ainda lhe manchava o brilho metálico dos olhos azuis. Procurava uma desculpa para sua atitude. cuja voz distante chegou também aos ouvidos de Tanya. para a qual todas as esposas também estão convidadas. — Espere um pouco — disse J. Eu nunca imaginei que ela fosse conseguir a licença da corretora. Beleza e perseverança formam um belo par. pois agora reconhecia que havia cometido um erro gravíssimo.

O torpor começou a deixá-la quando uma mosca posou de leve em seu braço e depois voou. até ouvir as explicações de Jake. Sentiu-se como uma criança perdida que fugira e agora queria voltar. erigidas no decurso de sete anos. E foi o que Jake imaginou. reconheceu que deveria ter deixado suas dúvidas em suspenso. Na altura das rochas. deitou-se nas pedras e ficou a olhar o azul do céu. beirando o lago. Mas o ciúme era tanto que ele talvez nem tivesse acreditado. Quando finalmente se acalmou. empurrou as pedras que a machucavam. Inconscientemente. Não agora.149 — Desculpe-me. Ela não conseguia enfrentá-lo. ela parou. embaçando-lhe a visão. que sacudiram seu corpo até que a última lágrima cedesse. os pés mal sustentavam o peso do corpo que cedeu — e então ela pode chorar em paz. a penúria e a frustração. Suas desculpas não compensariam as coisas horríveis que ela dissera. As lágrimas correram pelo rosto. libertaram-se numa torrente de soluços torturantes. A aflição. até impedila de ver por onde ia. Jake! Eu sinto muito mesmo — disse baixinho. depois de tê-lo julgado mal. Tanya levantouse para se livrar da mosca e então sentiu um pavor horripilante: . Alguma coisa lhe roçou a perna uma ou duas vezes. Enquanto corria pelo caminho que levava ao lago. antes de se virar e sair. Voltou a incomodá-la até que ela a espantasse com as mãos.

congelada pela visão da aranha. nem percebeu que estava gritando o nome de Jake sem parar. — Eu estou aqui. e ela o agarrou pela cintura. Aterrorizada. — Não há nada a temer. — Tudo bem. Fique calma. Mas quando o bicho começou a se arrastar por suas pernas. . com voz suave. — Você está calma agora? — perguntou ele carinhosamente. baixinho. que se preparava para atravessar o obstáculo em seu caminho — as pernas de Tanya. Jake abraçou Tanya ainda mais forte. — Eu ainda sinto aquela coisa subindo em mim — disse. que a protegeram. Tanya resmungou que sim. Jake — murmurou Tanya num lamento. nada vai acontecer. isso não é nada — disse ele. e sentiu um calafrio lhe percorrer o corpo todo. Não se preocupe. e pelas mãos que lhe acariciaram os cabelos enquanto o susto não passava. penteando-lhe o cabelo para trás das orelhas. — Jake. ela soltou um grito estridente. sem retirar o rosto do confortável contato com o peito de Jake.150 deparou com uma enorme tarântula cabeluda. Só percebeu a mão que jogou a aranha longe e os braços que a ergueram. nem ouviu o tropel de quem corria em sua direção. Ficou estarrecida de medo e nem conseguiu se mexer. A aranha sumiu — assegurou ele. Logo ela foi envolvida pelos braços de Jake.

151 — Eu sei que é besteira ficar com medo destas pequenas coisas. — A gente não vai falar nela agora — disse. enquanto lhe acariciava o rosto. — Você não está em condições de conversar sobre isso. — Você já me perdoou? — perguntou Jake calmamente. Ela riu meio sem jeito. — O quanto você quiser e sempre que me pedir — concordou. amável e feliz. Demorou muito ainda. segurando-lhe o queixo e acariciando seus lábios com o polegar. . Jake. As pernas estavam fracas e inseguras. — Porquê? — Porque eu não estava aqui para cumprir o meu papel de assassino oficial de aranhas — caçoou. até que Tanya soltasse a cintura dele. mas o abalo já tinha passado o suficiente para ela ter consciência de que ele a abraçava com muito carinho. — Eu quero que você saiba que reconheço como estava errada por não deixá-lo explicar — insistiu. Abrace-me um pouco mais. — Claro que sim! Eu pensei que você falava da Sheila. mas eu não consigo evitar. — Acho que já estou bem.

Não tirou a mão do braço dela até que chegassem. e sentindo-se como ela se sentia agora. você quer andar até a casa ou eu devo carregá-la nos braços? — É melhor eu ir andando — confessou Tanya. — As densas pestanas disfarçavam o calor que emanava dos olhos dele. a gente vai ter uma conversa. fingindo provocá-la. seria capaz de ser imprudente em suas carícias. — Você não se sente mais segura em meus braços. e vagarosamente calou o beijo. trazendo-a para seus braços outra vez. ciente de que se ele a levasse. ele a levou ao quarto. — Eu sei — concordou ela. — Entre. — Quando você terminar.152 — Eu disse que a gente conversaria depois — disse ele. — Você é teimosa — sorriu ele vagarosamente. Com os lábios úmidos tocou os dela sensualmente e brincou com eles até que cedessem. Jake lhe segurou as mãos. — Aceito suas desculpas. procure tomar um banho e refrescar-se — sugeriu. . hein? — brincou. — Agora. Mas quando ela o abraçou de modo a beijá-lo mais fundo. — Mas eu precisava dizer como eu me senti. E. sentindo que necessitava do perdão do Jake. e riu por ela não ter respondido. lá dentro.

— Eu devo ter parecido uma boba — segredou. mas acabou esquecendo. — Eu gostaria de superar esse medo infantil de aranhas. Seu porte alto imperava no quarto. Tanya acabava de se enxugar e vestir o roupão de cetim pérola quando ouviu baterem na porta. para livrá-la da sensação de uma aranha no corpo. A idéia de uma ducha. — Pode entrar — disse ela. para poder raciocinar. tirando a toalha enrolada na cabeça e penteando os cabelos com os dedos. era mais convidativa. Ela estava muito abalada emocionalmente. Colocou-o na penteadeira e começou a escovar os cabelos. Olhou para trás e viu que Jake carregava um rolo de papel azul. — Assim está muito melhor — opinou Jake. .153 — Que conversa? — perguntou ela. Seria sobre Sheila? Tanya ficou pensativa. detendo-se na entrada do quarto. sem responder. Tanya não podia deixar de notar o belo exemplar de homem que estava diante de seus olhos. Mas aquelas tarântulas são tão perigosas! Sua calma voltara e ela estava grata por isso. — Você já não parece mais assustada. voltando-se para tomar um gole de refresco. que agora parecia pequeno. mas Jake fechou a porta. Entrou e lhe entregou um copo de limonada gelada.

mas. reconhecia o que aquelas palavras implicavam. — Tanya mal podia crer no que ouvira. os banheiros e os quartos. a cozinha e o lugar onde iriam a geladeira. — Então é melhor dizer o que acha deste projeto. — Não é simplesmente uma planta — corrigiu ele —.. o fogão.. — Jake não lhe deu oportunidade de fazer qualquer comentário. é a planta de nossa casa. — É uma planta — disse Tanya. — Venha ver. Talvez haja alguma coisa que você queira mudar.154 — O que é isso! — perguntou. acho que não faz mal nenhum contar-lhe o resto da história. o lugar reservado para a lareira e a área de serviço. Ele ficou de lado enquanto ela olhava para o papel. — O que você quer dizer com nossa casa? — Você já não está cansada de morar com meus pais? — perguntou. mas você não gostaria de ter sua própria casa? — É claro. Começou logo a lhe mostrar onde ficavam a sala de visitas e a sala de estar. — Já que Sheila insistiu em lhe dizer que eu estava interessado num terreno. — hesitou. — Você gosta? — concluiu. . — Não que eu não os ame. enquanto Jake o desenrolava na cama.

Por muito tempo Jake lhe esmagou os lábios. O cetim era como uma segunda pele a lhe cobrir a nudez. Tanya sentia as mãos do amado explorando-lhe o corpo. — Há muito que quero fazer isso — sussurrou junto ao ouvido de Tanya. Calou-se antes que caísse por sobre o encanto da casa de seus sonhos. O coração de Tanya parecia querer saltar do peito ante o toque sensual de Jake. — Você não acha que já está na hora de termos um pouco de privacidade em nosso casamento? Ela de repente ficou tensa. com medo de falar e de calar-se. afastando o cetim. ela segurou o rosto de Jake e lhe roubou um beijo... Jake! — suspirou inevitavelmente.155 — É linda — murmurou — mas. cativando-o e deixando-se cativar totalmente. Gemendo de prazer. admirou seu rosto e percebeu exatamente quanto o amava. — O que houve. beijando-a por todo o rosto como se cada traço fosse precioso para ele. enquanto a acariciava intensamente. com a . até que Tanya se sentisse um poço de desejos. Imediatamente ele a tomou nos braços. a nuca. amor? — Ele ergueu o rosto dela para senti-la melhor. cheio de paixão e desejo. dos quadris aos ombros. ele lhe beijou o colo. Ele mordiscou sua orelha e depois lhe beijou o pescoço. — Ah. Em movimentos harmônicos e sensuais. amoldando-a ao corpo dele. Olhou para ele.

resistindo à pressão das mãos dela. Tanya sentiu Jake envolvê-la pela cintura e prendê- . Tanya não teria resistido. Lágrimas lhe queimaram os olhos. logo acima dos pêlos escuros que lhe cobriam o peito. Jake — exigiu. Com um soluço doído. num sussurro provocante. Ela correu os dedos pelas costa dele. enquanto se erguia para alcançar os lábios do amado. dominado pela paixão e excitado com a reação de Tanya. cravando-os nos músculos que a apertavam num abraço. Jake afastou os lábios dos dela e lhe beijou a testa. Relutante. — Eu quero algo mais que beijos. — Você não imagina como é difícil manter o controle para me impedir de fazer amor com você — disse Jake. — Tanya — gemeu Jake. ela afrouxou o abraço de Jake. Levou-os então ao colarinho desabotoado da camisa. A vantagem era só de Jake. — Beije-me. afastando-o para beijar-lhe o pescoço. penetrando-os brutalmente. Desviou os olhos da tentação que era aquela boca rubra e buscou a resposta nos olhos dela. que procuravam levá-lo de volta aos lábios sedentos.156 violência de sua paixão. para conhecer o alcance de seus desejos. Agora ele lhe dera uma escolha e o medo cortou o coração de Tanya como um golpe de faca. Se ele tivesse optado por possuí-la.

— Por favor. — Oh. não diga mais nada — implorou ela. sabendo que seu amor era tão forte quanto o de Jake. — Deixe-me terminar. desejando que aquele momento de ternura jamais terminasse. porque de agora em diante eu não quero mais reviver o passado — Ele tomou . amor — murmurou Jake. pois assim ele não podia lhe ver o semblante amargurado. estreitando seu abraço para senti-la mais junto ao corpo. e sim a raiva que ela sentiria depois. Só sei que estou apaixonado por você muito mais do que qualquer indivíduo é capaz. — Eu amo você. eu. Não é apenas atração sexual que sinto. Jake! — O nome era um grito de protesto vindo do coração de Tanya. Tanya sabia que Jake queria agir. querida — pediu ele roucamente —. Ainda bem que agora ela estava de costas para ele. em vez de dizer coisas. querida. Houve um instante de hesitação. — Não diga nada. Sei lá. Não era a relação que ela temia. — Não tenha medo... Acho que sempre a amei. — Jake. Tanya deixou seu corpo relaxar contra o dele. Ouça apenas — pediu ele com doçura. apesar de querê-la desesperadamente. — Não diga nada.157 la contra seu corpo.

Depois. é preciso que você entenda que meu irmão e eu éramos muito chegados.158 fôlego. principalmente quando eu a vi com um bebê nos braços. — Primeiro. Tanya. Por isso fingi estar mais interessado no bebê. Não que John não fosse um dos motivos. mas eu queria voltar. — Eu não voltei simplesmente por causa daquela carta. eu me recriminei por não tê-la procurado antes. mais linda que nunca. Eu sabia que você queria me ver longe e que eu a deixasse definitivamente em paz. Você. mas eu não conseguiria. . com o feitiço de seus olhos e seus cabelos dourados. A lembrança que guardei daquela moça tímida que conheci se enfraqueceu por causa das emoções. — Tanya reconhecia o quanto ele sentira a falta do irmão e lamentara tudo aquilo. Éramos muito mais que irmãos. Talvez o amor entre ambos fosse bastante forte para superar a raiva e a hostilidade do passado e capacitá-lo a entender por que ela o havia ludibriado todos esses anos. aquela mulher linda da fotografia. Ele era tão jovem. até que Jammie morreu. com toda uma vida à frente. Ela foi só uma desculpa. Mulher que me perseguira por sete anos. As afirmações de Jake lhe provocavam prazer e amargura. Eu não me lembro de ter dito que voltaria na noite daquela festa. Eu queria realmente ver meu filho. — Eu me tornei cínico e rude. quando eu a vi. Mas antes de tudo eu queria ver minha esposa.

— Isso é o que importa em nosso casamento: sua honestidade. repentinamente. como se isso fosse aliviar a dor de ambos os corações. Tornou-se a base de meu amor por você. se ele era meu filho. que era incapaz de mentir para mim — Acariciou-a levemente no pescoço. que batia tão feliz. Foi uma das primeiras coisas que amei em você. não! — implorou Tanya. você me perdoaria por isso? — Não há nada a ser perdoado — respondeu ela com certo fervor. mesmo sem me lembrar de como ele fora concebido. . naquele apartamento.159 Abraçou-a com força. enfraqueceu. Eu não me convenci nem quando você mostrou o dedinho torto. você novamente confirmou e seus olhos brilharam. Só mesmo quando fui ao apartamento em que você morava eu o aceitei como meu filho. — Não. Minha querida. que você sabia da riqueza dos Lassiter e pretendia dá-la a seu filho ilegítimo. marca de nascença dos Lassiter. — Quando eu lhe perguntei. procurando voltar-se para fitá-lo. Ela quisera que o chão se abrisse e a engolfasse. mas ele a manteve na mesma posição. O coração. Naquele momento eu vi que você não estava mentindo. Jake. — Eu jamais vou me esquecer do primeiro impacto que sofri quando você disse: "Não o reconhece? É seu filho!" No início eu achava que era mentira.

— Durante um momento de hesitação. — Eu a forcei a casar-se comigo. — Entende por que é que eu tinha que lhe dizer tudo isto. poderia perder para sempre seu amor. soltando-se dos braços de Jake. Jake. Honesta! Honesta! Essa palavra lhe soava como um patético escárnio. querida. Agora seria impossível dizer toda a verdade. — Você não vê que isso não importa? — Amor. Havia só uma saída para tal situação. que foi? — A surpresa e a preocupação gentil na voz dele só fizeram aumentar sua dor. — Oh. Jake! — Balançou a cabeça de um lado ao outro. A culpa é toda minha. . Se revelasse como estava longe de ser o que o marido supunha. ele gentilmente enlaçou a cintura dela. eu é que fugi. angustiada. Não foi você quem me afugentou daqui. Só sei que me odiei pela humilhação que você deve ter sofrido por minha causa. eu me lembrava do quanto você me detestava. Sua suposta honestidade era o que Jake mais admirava nela. querida? Eu tinha que ser honesto como você sempre foi comigo. Você não tem culpa de nada. Ao vê-la. — Por quê? Por que você teve que me dizer tudo isso? — soluçou ela. Já nem tenho certeza se foi por meu filho ou para tê-la como esposa. Ele a odiaria por isso.160 — Eu não a culpo por odiar-me no início — murmurou Jake.

droga! Não é! — Seus dedos se enterraram na pele macia dos braços de Tanya. — Eu sei que você me ama. forçando-a a encará-lo. — É isso que você está querendo dizer? — Estou dizendo que realmente quero me divorciar — respondeu ela com bastante firmeza. mostrando-se enraivecido. — Divórcio? — repetiu ele. Confesse! — Pare. ao mesmo tempo que ele a puxava com força para perto de si. Jake segurou-a pelos ombros. incapaz de olhá-lo nos olhos. Jake! — Tanya colocou as mãos contra o peito dele e tentou afastá-lo. não é piada. — Por favor. — Quero uma explicação! . quero o divórcio.161 mas não tanto quanto se descobrisse a verdade. — Isto é alguma piada? — Não. — Não é suficiente? — Não. descrente. Ele a olhou como se não a visse. — A expressão de raiva é surpresa no rosto dele a amargurou ainda mais. Quero o divórcio. dando um passo para eliminar a distância física entre ambos. e sei que há um momento você me queria tanto quanto eu a você. Você não é uma mulher promíscua. — Não sou tão inexperiente para não saber quando uma mulher me quer. — Eu disse que te amo! Será que você está tentando me dizer que não me ama? — perguntou ele.

por favor! — Não acredito — disse ele friamente. mas Jake a impediu. — Você sempre foi louca por meus beijos — disse ele. Agora ele não a enfeitiçava com o olhar. Fez menção de beijá-la.162 — Você está me machucando. Ele ficou a fitá-la por muito tempo. — E farei você me amar! Ele a levantou nos braços. mas ela recusou. As plantas e os projetos foram afastados e Jake a atirou sobre a colcha de cetim. enquanto procurava prender as mãos de Tanya. seu bruto — murmurou ela. e a carregou até a cama. Vou continuar querendo o divórcio. Os olhos de Tanya começaram a lacrimejar. A rudeza com que ela fora carregada afrouxara o cinto do robe e este se abriu. tornando inúteis os esforços de Tanya para se soltar. —Isso não vai mudar nada. Jake. parecendo querer engoli-la com os olhos. assustada com a expressão de crueldade que aparecera no rosto de Jake. . não faça isso — pediu ela com voz trêmula. Instintivamente. Por favor. ela procurou se cobrir. — Por favor. exibindo suas belas pernas bronzeadas. Jake. deitando-se sobre ela. Jake. — Eu te amo — repetiu ele. — Eu não tenho forças para impedir.

ouviam-se muitas portas batendo. As olheiras de Tanya eram uma evidência de que ela também não dormia. temendo a aspereza do pai. Jake jamais compreenderia. eu te amo. do outro lado do corretor. Passava horas a fio acordada. Em prantos. Uma raiva persistente o perseguia como uma sombra. Mas não o fez. — soluçou ela. Mas .D. ela ouviu os passos rápidos que se afastavam da cama. pois Jake se recusava a ficar no mesmo cômodo em que Tanya estivesse. olhando para o teto. Eu te amo. — Jake. pois constantemente ouvia movimento no quarto. que culpava Tanya pelo fato de que o filho saía antes do café e só voltava após o jantar. J. Tanya chegou a pensar que ele nem sequer dormia.163 — Dane-se! — gritou. A porta do quarto se abriu e fechou com um estrondo. Assim. pensando que talvez devesse atravessar o corredor e dizer a Jake o quanto o amava. onde quer que ele fosse. com o rosto no travesseiro. acredite. e deixou-a só na cama. Até mesmo John evitava aproximar-se dele. ela sofria com as noites de insônia e as atitudes de Júlia. era o único que chegava a se compadecer dela. CAPITULO 9 Nos dias seguintes.

— Eu pensei que talvez pudesse levá-lo — sugeriu Tanya. sem saber ao certo por que o fazia. e daí? — Jake lhe lançou um olhar seco através do espelho.. Tanya nem sabia que ele já estava em casa e. como uma forma de aliviar sua tensão. O coitado do John era quem sofria mais com aquele clima hostil. Tanya concordara. — Você vai sair? — perguntou ela. O terno. Ela ia a caminho do quarto de John para verificar se tudo estava em ordem. — Danny Gilbert convidou John para passar a noite com ele.164 até mesmo ele parecia acusá-la. relutante. que ele jamais conhecera anteriormente. pois desejava tê-lo sempre por perto. vendo-se obrigada a dizer qualquer coisa.. mas parou. Ele a viu pelo espelho. enquanto acabava de ajeitar a gravata. Jake estava de pé em frente ao espelho dando um nó na gravata listrada de azul e prata — um toque complementar para o terno cinza que vestia. Danny Gilbert o convidara a passar aquela noite em sua casa. . no entanto. — Vou. parecia realçar a cínica aspereza de suas feições bem delineadas. quando passou pelo quarto de Jake e deu uma olhada lá dentro. — Sim. muito elegante. parecia que ele se preparava para sair. Fez menção de continuar.

acho que sim — disse Tanya meio sem jeito. Ele não entende bem porque você raramente fica em casa e. — Talvez você devesse esclarecer o porque. — Por favor o quê? — sorriu ele. amor e um nome. virando-se para ela. Tremeu ao murmurar um fraco "desculpe". Tanya. Na volta. está invariavelmente sempre sozinho. Você recusa os dois! E nem tem a decência de me explicar os motivos — concluiu ele com evidente desgosto. sem se comprometer. — Jake. Tanya conseguiu enxugar as lágrimas provocadas por Jake e recuperou a calma. Logo depois ela ouviu os passos de Jake no corredor.. quando fica.165 — Não dá para outra pessoa levá-lo? — perguntou ele. Sem saber como. — Bem. quando ele saiu.. — Mas John ficaria contente se você o levasse. procurou não entrar na casa. o suficiente para poder levar John até a casa dos Gilbert. embora lhe ocorressem muitas. — disse ele ironicamente. por favor! — Ela não queria que ele levasse tudo a ferro e fogo. Ela não disse uma palavra. até o . Rodeou-a. — O que você espera de mim? Por acaso eu devo me desculpar por nada ter dado certo? Há duas coisas que um homem pode dar a uma mulher. porque não queria que espelho algum reduzisse o efeito de seu olhar desdenhoso e fixo. e voltou diretamente para o quarto.

compadecendo-se de Tanya. — Você está chorando. — Não foi nada — disse. soou por detrás dela. sorvendo tudo em rápidos goles. Ela desejava ficar só. Tanya foi até a grade e fixou o olhar no lago espelhado. Ela obedeceu. — Queima a gente por dentro — sorriu. e devolveu o copo ao sogro. encolhendo os ombros.D. — Mas vai lhe fazer bem — acrescentou J.. — A voz suave de J. — Eu não sabia que tinha gente aqui. — Tome — disse J.166 pátio. fazendo-a virar-se bruscamente. sentindo ainda na garganta o efeito do álcool. Beba de uma vez. Pouco importava se Júlia iria precisar de sua ajuda no preparo do jantar. Ela enxugou as lágrimas com as mãos. — Obrigada — disse ela com voz rouca. Nem mesmo se preocupou em enxugar o rosto. além das árvores. dando-lhe a bebida que trazia na mão.D. Lágrimas de autopiedade lhe saltaram dos olhos. nos fundos. sentindo-se com o direito de derramar algumas lágrimas. — Você precisa disto mais do que eu. .D. ao se lembrar da confusão em que se transformara sua vida. filha — murmurou ele.

Jake provavelmente descobriria mais tarde. Ela achava que J.D. Ele tem sido um verdadeiro animal para com todos. J.. para amainar a dor aguda que o nome de Jake lhe causava.D. não é? — Mais do que uma rusga — confessou ela. mas nem confirmou. — Você prefere não dizer. — Você parece que está apaixonada por meu filho. — Tanya sentiu a curiosidade que o sogro demonstrava. É isso? — provocou J. fazendo com que ela continuasse a segurar o copo. — Você e Jake tiveram uma rusga. — Eu pedi o divórcio. havia uma expressão amiga e de muito calor humano. — Não tinha dúvida de que era isso mesmo. — E você sabe que ele a ama? — Sei — admitiu ela com dificuldade. ao mesmo tempo.D. nem negou.D. E.167 — Você pode precisar de outra dose — murmurou J. não acreditaria se ela mentisse e negasse seu amor por Jake. .D. foi pego de surpresa. respirando fundo. se dissesse. — Você me consideraria muito intrometido se lhe perguntasse o motivo da rusga? — No rosto de J. não está? Ela lançou um breve olhar ao velho. Não poderia.

Por isso fui averiguar as coisas sozinho. Ele não discutiria o assunto comigo. — Jake sabe que você não é a mãe de John? O copo escorregou das mãos de Tanya e se estilhaçou ao chão. O medo e o susto paralisaram-na. . — Co. — Digamos que eu não estava tão disposto quanto meu filho a acreditar que aquela moça estranha que nunca víramos e de quem nunca ouvíramos falar era o que dizia ser. com firmeza.. — Olhou-a muito docemente. — Por que será que Jake nunca pediu para ver a certidão de nascimento de John? — Um dia ele pediu! disse Tanya. não! — disse J.168 — Por quê? — Por motivos pessoais — justificou ela. a não ser para confirmar que o bebê nascera antes do casamento.D. ao certo. como é que você sabe? — gaguejou. Também não sabia. Você poderia estar blefando e tentando fazer o menino passar por filho de Jake. sem conseguir acreditar no que estava acontecendo.. — Mas eu não mostrei. levando a mão à garganta numa tentativa de se proteger. se o bebê era mesmo meu neto. — Obviamente. — Posso lhe fazer outra pergunta? — Qual? — Ela não conseguia olhá-lo de frente.

Além disso. — Ele estava bêbado — disse Tanya. — Ele não se lembra de nada daquela noite. eu pude notar o quanto você amava o menino. mas ele respondia que John era filho dele. qualquer coisa a respeito de sua irmã.169 — Você pode imaginar o susto e o choque que senti quando vi o nome de sua irmã como mãe de John — disse J. Sugeri algumas vezes. — Por que você não lhe disse a verdade. Perguntei. com um sorriso estranho. — Quando é que você descobriu que Jake não sabia? — Quando eu o convenci a voltar para casa. Eu imaginei então que ele soubesse a verdade. minha irmã. um dia. eu não tinha a menor chance de ficar com o garoto. Toda a amargura já se esvaíra e ficara a tristeza em seu lugar. — E eu sabia disso. nem chegou a pegá-lo . como se fosse seu próprio filho.D. porque ele era o pai de John e. em minhas cartas a ele. — Porque ele disse que queria o filho. — Por que você não demonstrou que havia descoberto a verdade? — Você e Jake estavam casados legalmente. e ele disse que não a conhecera. além de ter me conhecido. Deanna. Tanya? — perguntou ele com calma. que poderia haver algo que ele desconhecia. com o nome e a riqueza Lassiter para ampará-lo. Eu adorava o John. — Respondeu o velho. — Tanya engoliu em seco.

. Quando o último soluço esmoreceu. como é que posso agora dizer a ele que vivo essa mentira há sete anos? — Acho que é preciso. Vou servir de mediador no início — sugeriu J. Você o tem rejeitado estes anos todos.D. meu filho não pode ficar mais magoado e furioso do que está. realmente. — Minha querida nora — aconselhou J. D. Ele era o meu bebê e Jake o teria tirado de mim! Ela caiu em prantos e foi amparada pelo sogro. Tanya assoou de leve o nariz e confirmou. filha — disse ele. — Só não sei se conseguirei enfrentalo. trêmula. — Eu entendo. com ternura —. Acha. de modo a aliviar o pranto da nora. — Eu darei um jeito de trazê-lo ao escritório amanhã. assim tive que cuidar dele. que ele vai odiá-la ainda mais se você disser a verdade? — Acho que não — concordou. ele lhe emprestou o lenço de linho branco. Ele me odiaria por isso. que a confortou a fez sentir-se melhor. ou se ele aceita conversar comigo. — Não consigo — disse ela.170 no colo. Jake sempre disse que sou honesta. — É. Teve uma pneumonia no hospital e morreu. que sempre digo a verdade. — E agora você está com medo de contar a Jake o que fez. às sete da noite.

171 — Talvez. agora você me dá a sua palavra de que vai contar tudo a ele? — Dou-lhe a minha palavra que contarei — suspirou Tanya. Foi até o vestíbulo. Trocou de roupa três vezes.. Ela estava de preto e usava um coque no cabelo. apesar de saber que isso só prolongaria seu sofrimento. — Jake consegue ser mais teimoso que a mula mais teimosa de Missouri. mas depois achou que isso seria covardia.. Agora que o sogro conhecia a verdade. mal conseguindo equilibrar-se. Às seis e meia da noite seguinte Jake ainda não havia chegado. Parecia pronta para ir a seu próprio funeral. Ele é capaz de não vir. que se encarregasse de falar com Jake. Tanya torcia para que ele não viesse. Tanya quase pediu a J. — Pode ser — concordou ele.D. Foram a noite e o dia mais longos que ela enfrentara. mais medrosa do que confiante. do . sorrindo. Jake também acabaria sabendo. talvez fosse melhor você nem dizer que vou estar lá. não pôde conter um riso nervoso. sem conseguir se decidir por nenhuma. e sentiu que as mãos tremiam. se souber que vai me encontrar. Pôs um pouco de maquilagem. As dez para as sete saiu para o corredor. Tinha um foco de tensão na nuca. mesmo que ela não lhe contasse. Bem. devido ao seu estado de nervos. atravessou-o e entrou no escritório. tentando ocultar as olheiras sem nenhum sucesso. Quando se olhou no espelho.

mas o tique-taque do relógio persistia. Tanya já estava a ponto de ficar histérica. — Tudo vai passar. Os olhos de Tanya tremeram quando a porta da frente se fechou. — Daqui a pouco tudo passa. recostado na cadeira. estava sentado à escrivaninha.172 outro lado da casa.D. — Sim — murmurou ela. Já se passavam dez minutos. J. — Ele ainda não chegou — disse Tanya da porta. Podemos esperar juntos. Alguém bateu na porta e Tanya se sentou na beira da poltrona. sentiu um mal-estar no estômago e achou que ia passar mal. que parecia protegê-la por todos os lados. Já eram sete e meia quando ouviram um carro chegar. prejudicada apenas pelo tique-taque do relógio ao aparador. — É.. com um lápis sobre a escrivaninha. — Ainda não chegou.D. chamando a atenção de J. a olhar o vazio. J.D. O velho lhe respondeu com um sorriso calmo. . começou a tamborilar com insistência. — suspirou ele. como se buscasse segurança. É melhor você se sentar. Ficou atenta aos passos de Jake no corredor. Era uma sensação agradável. Ela afundou no estofamento de couro.. Tanya cravou os dedos no braço da poltrona e olhou para o sogro. enquanto esperava impacientemente que alguém chegasse até a porta.

Tanya ficou petrificada ao olhar o corpo másculo de Jake. Ela quase perdeu o fôlego. . suas calças justas e a camisa semi-desabotoada. Mas foi para o rosto dele que Tanya olhou. ainda molhado por causa do banho. Tanya sofria por saber que Jake não suportava ficar na mesma sala com ela. — Desculpe o atraso. — Resolvi me lavar antes. O cabelo brilhava nas mais variadas tonalidades do castanho.D.D.173 — Entre — disse J. Quando a porta se abriu. indicando a Tanya que ficasse sentada. — Você não vai sair — insistiu o pai. o que denotava sua recusa em permanecer onde quer que Tanya estivesse. com os músculos do braço à mostra ao segurar a porta. Fez menção de sair. de traços bem feitos e tão atraente. — Eu pensei que você estava sozinho. Desculpe. Calou-se e fitou o pai com seriedade. pai — disse ele sem a menor sinceridade na voz. sem admitir recusas. — Nem Tanya. que revelava o bronzeado de sua pele. — Olhou para Tanya com total indiferença e frieza.. — Volto quando você estiver só — retrucou Jake. — Volte aqui — ordenou J.

. filho — disse J. — Mas isso não é de sua conta. sem alterar a voz. pai — disse Jake. — Vamos acabar logo com isso — reclamou.174 — Não tenho intenção de desrespeitá-lo. Ninguém mais se atreveria a provocá-lo. entre e sente-se. — Se você pretende bancar o conselheiro matrimonial. até que Jake se voltou para ela com fogo nos olhos. — Tenho compromisso para o jantar.. .D. mas ela sabia que aquele comportamento era apenas o jeito como o leão se preparava para o ataque. — Peço licença para discordar de você. Feche a porta. — Eu tenho interesse pelo futuro de meu neto. que baixou os olhos diante de tamanha maldade. — Ela sabia que apenas o pai de Jake era capaz de lhe dar ordens assim. eu sugiro que antes converse com Tanya — grunhiu Jake. lançando um olhar ferino à mulher. Ainda estava de costas para o velho e falou por entre os dentes cerrados. — E você liga? — provocou. o que me deixa envolvido na questão. — Já sei. Jake fechou a porta e foi sentar-se na cadeira perto da de Tanya. olhando para o relógio. com Sheila? — Tanya nem percebeu que havia perguntado em voz alta. — Já conversei. parecendo querer relaxar. Esticou bem o corpo. e é por isso que pedi que você viesse aqui.

— Isso é comovente! . — Lágrimas! — zombou Jake. Ela olhou para o sogro como se ele fosse seu pai. O espírito vingativo de Jake fez com que Tanya se levantasse. que eu estou aqui? — perguntou Jake.175 — Parem com isso — reprimiu J.D. — Não estamos aqui para trocar insultos.D. se for isso. enquanto as lágrimas lhe queimavam os olhos. Era uma demonstração de como ele a menosprezava! — Tanya — a voz gentil de J. chegou até ela. ou o quê? — Tanya sentia que essas palavras lhe cortavam a carne. — A gente vai discutir como fica o divórcio. exatamente. Ouviu o barulho de um isqueiro e sentiu o aroma do cigarro. prometendo-lhe todo o seu apoio. com todo seu semblante de cinismo. Tanya baixou a cabeça para não se expor ao desdém do rapaz. — Eu acho que não consigo — disse ela. quero que você saiba que não vou lhe dar um centavo de pensão e pretendo brigar o quanto for necessário para ter a tutela de meu filho. soltando uma baforada que invadiu a sala. Ambos obedeceram. — Por que é. segura e confortadora. — Porque. apertando as mãos uma na outra nervosamente.

. Mas nem aguardou uma resposta e continuou indagando. torcendo para que ele começasse logo a dar a dolorosa explicação.D. incapaz de suportar a briga entre pai e filho. — Não quero que vocês fiquem gritando um com o outro por minha causa! — Você tem sido um entrave ao meu relacionamento com minha família desde que nos casamos. Tanya olhou desesperadamente para o homem atrás da escrivaninha. Tanya — disse J. Eu já estou cansado desse suspense melodramático. — Você nem sabe o que está acontecendo! — Sei mais do que você! — retrucou o pai no mesmo tom de voz. — E se você calar a boca. Por que deveria ser diferente agora? — O sarcasmo de Jake atingiu-a com a fúria de uma chicotada. — Parem de se agredir! — Gritou Tanya.176 — É claro que consegue. — Agora conte a história que você quer contar. — Eu não sei como começar — gaguejou ela. vai ouvir poucas e boas também. Mas o sogro apenas fez sinal para que ela fosse adiante. — Por que você insiste em se intrometer? — Jake quase explodiu. lançando um olhar de reprovação ao filho. — Isto se meu arrogante filho calar a boca e nos ouvir.

esperando impacientemente que ela continuasse. procurando uma reação ao que acabara de dizer. você disse que admirava minha honestidade. — É sobre John.177 — Diga de uma vez o que você tem a dizer. — Você torna tudo muito mais difícil. Jake. apagando violentamente o cigarro no cinzeiro no lado da poltrona. Afastou-se ainda mais dele e ficou cabisbaixa. Eu não fui honesta com você. — E quando é que você fez minha vida ficar mais fácil? — perguntou ele com frieza. Jake — respondeu Tanya. zangada. quando falávamos — começou baixinho —. Olhou para ele apreensiva. — O que houve com John? — perguntou ele. . porque eu quero sumir daqui! — disse Jake. aliás eu o tenho feito acreditar em algo que não é verdade de maneira alguma. — Mordeu os lábios para impedir que os soluços lhe escapassem do peito. Respirou fundo e procurou enxugar as lágrimas que molhavam o rosto. Ele a observava. enquanto ela se lembrou de como o vinha tratando. — Outro dia. Houve um momento de silêncio.

Ele estava tão perto dela. e mesmo assim tão longe. — Isso não faz sentido.178 Com o canto dos olhos. Fez um esforço para olhá-lo de frente. — Ele é seu filho. Submissa à força de Jake. — Que loucura é essa? O que você está dizendo? — Gritou ele. — Se você não é a mãe dele. Tanya notou que ele estava sério e atento. sacudindo-a. Apertou-lhe os ombros com as mãos e fê-la erguer-se até apoiar-se na ponta dos pés e quase colar o rosto no dele. — A testa dele se enrugou. do que é que você está falando? — John não é meu filho. Mal essas palavras foram pronunciadas. — Você está querendo que eu acredite que ele não é meu filho? — Não — murmurou ela entre as lágrimas que lhe rolavam no rosto novamente. Eu não sou mãe dele — repetiu Tanya enfaticamente. Jake se levantou e correu para ela em desespero. ela compreendeu o direito que ele tinha de segurá-la com tanta violência. Eu nunca menti sobre isso. — Então. . — Ele não é meu filho. então quem é? Ela engoliu o nó que lhe apertava a garganta e baixou a cabeça. num gesto de descrença.

— Eu não posso acreditar numa palavra! — É verdade. — Ela está dizendo a verdade. sofrendo mais ainda quando ele tornou a lhe apertar o braço. — Deanna Carr é sua irmã? — perguntou. Ela confirmou com um movimento da cabeça. fazendo-a cambalear. — Como é que você sabe disso? Não vá me dizer que acredita nessa história maluca — zombou enraivecido. com calma. — É mentira! — disse ele categórico.D. — Por quê? — disse ele com rispidez. desesperada. filho — interveio J. sem dúvida obtivera uma cópia. Juro — sussurrou ela. — Eu não acredito. O velho não respondeu imediatamente. apanhou um documento de cima da escrivaninha e mostrou-o a Jake. O sogro. e Jake voltou-se para ele. — Eu acho que você ainda não viu isso — disse calmamente. Ela imaginou que era a certidão de nascimento de John. alguns anos antes.179 — Minha irmã — murmurou. — Não! — gritou Jake. totalmente paralisada. Tanya esperava. — Por que você me fez acreditar que era a mãe de John por tanto tempo? . Jake voltou-se para ela. enquanto Jake lia o papel. Soltou-a abruptamente.

Eu não conseguiria que ele fosse reconhecido legalmente como meu filho. Na mesma hora o papel foi jogado num canto da sala. — A raiva o fez vibrar. que se fazia ouvir tão alto quanto o coração de Tanya.180 — Porque você é o pai. nem um lugar decente para morar. Cada músculo de seu corpo refletia a violência e a tensão do momento. Jake — disse baixinho. A sala se encheu de um silêncio sufocante. eu tive que conviver com a idéia de que você tinha dado à luz um filho ilegítimo. Eu não tinha família. Você o teria tirado de mim. virando-se e saindo do escritório às pressas. — Você está pedindo demais — declarou. Ela não conseguiria enfrentá-lo nunca mais. depois do sofrimento que lhe causara. CAPITULO 10 . porque Jake Lassiter é o pai dele. — Em primeiro lugar — disse Jake com uma calma enervante —. — E agora você ainda me vem dizer que a mãe era uma mulher de quem eu nem me lembro! Amassou a certidão com as mãos. nem meios para me manter e para sustentar a criança. Tanya não pôde evitar um soluço. — Sinto muito.

Tanya passou por ela rapidamente. meu filho! O que está havendo aqui? Que aconteceu entre você e Tanya? . seguindo-a. observando com tristeza a expressão de choque no rosto de Júlia. Ela não podia parar. Devia. agora.181 — Tanya! A voz firme de Jake chamou por ela. que Tanya quase foi de encontro à sogra. mas ela não parou. volte aqui! Jake a desprezava por ter rejeitado o amor dele. que saíra apressadamente para o corredor ao ouvir a voz estridente do filho ressoando pela casa. — Tanya. E ela não conseguia achar uma única razão para culpá-lo. queria estar bem longe. — Jake. Tal era a necessidade de alcançar a segurança de seu quarto. abominá-la duas vezes mais. queria fugir. A voz da sogra seguia-a em sua corrida. mesmo quando a voz autoritária chamou insistentemente pelo seu nome de novo. por saber como ela o tinha usado nos últimos sete anos. Seus passos se tornaram mais rápidos quando ouviu o som dos dele no corredor.

182 — Não agora. Tenho direito de saber o que está acontecendo em minha casa! — respondeu Júlia. bastante irritada. trancando-a sem perceber. Jake. vá embora! — Abra a porta ou eu juro que a arrombo! Você tem que me escutar Ela hesitou por alguns segundos.. — Abra a porta. mãe — disse ele passando por ela impaciente. O clique da chave ecoou alto no súbito silêncio. — Quero saber o que está havendo. Quando a maçaneta se moveu em resposta ao som. indo em direção ao quarto.. — Por favor. ela se afastou depressa. Um instante depois ela ouviu os passos de Jake chegarem à porta e viu a maçaneta se mover. — Mas eu quero saber. enquanto lutava para . agarrou a maçaneta com a mão trêmula e destrancou a porta. — Deixe-o — disse J.D. ergueu a mão. Tanya! Ela se encolheu de medo. com voz calma. Onde está John? — No jardim. J. para aquietá-la. os olhos marejados de lágrimas. Tanya ouviu a última frase no momento em que abria a porta do quarto e a fechava rapidamente atrás de si. — Eu lhe contarei tudo.. vá embora.D.

183 reunir forças a fim de poder suportar a inquisição dele. . E encarou a dureza impenetrável daqueles olhos azuis. a fim de que elas não a traíssem. antes de ouvir a porta se fechar. afirmativamente. e esperou que ele falasse. Mesmo de costas para ele. pois não o merecia. — Olhe para mim. quase como uma súplica. Tanya — ordenou Jake em tom áspero. Tanya sentiu sua presença. se continuarmos a conversar. entrelaçando as mãos trêmulas. sem saber como a rigidez com que se reprimia lhe marcava os traços. não após ter abusado da confiança dele daquela maneira. — Você vai se atrasar para seu jantar. — No momento em que eu saísse. Jake entrara no quarto. — Não podemos resolver isto amanhã. — Acabaremos essa discussão agora — acrescentou ele. decidiu não chorar nem tentar fazê-lo se apiedar dela. contendo a raiva. Jake? — perguntou. você arrumaria as malas e deixaria a casa — disse ele entre dentes. confirmando o que tinha sido apenas uma hipótese na cabeça dela. piscou para esconder as lágrimas. ela olhou para o teto. Silenciosamente. e Tanya meneou a cabeça. Muito vagarosamente ela virou. Respirando profundamente.

e estou envergonhada por não lhe ter contado a verdade mais cedo. — A partir do momento em que cometi o erro de lhe dizer que ele era realmente seu filho e percebi que levaria tal coisa a ferro e fogo. com desprezo. elevando o queixo instintivamente. — E a idéia de ser a senhora Lassiter não a animava? — caçoou Jake. — Eu não fingi que ignorava serem os Lassiter uma família rica e muito respeitada na cidade. — Aposto que sim — ironizou Jake. . — Você conseguiu de alguma forma convencer meu pai da sinceridade de seus atos. Eu já lhe disse isso — respondeu ela com voz magoada. pois sabia disso — respondeu. descobri que não teria escolha.184 — Não sei o que mais lhe dizer — sussurrou Tanya. — Eu me casei com você por causa do nascimento de John. — Convencê-lo de quê? — Por que você se casou comigo. — Nem depois que você morasse numa casa bonita. mas ainda tem que me convencer. Eu o amava como se ele fosse meu próprio filho. usando roupas com as quais você nem sonhara antes? Nada disso pesou na sua decisão? O orgulho fê-la irritar-se. — Só posso lhe dizer que sinto muito tudo que aconteceu. livre de problemas financeiros. sendo membro da família Lassiter.

O nó na garganta impossibilitou-a de falar por alguns instantes. — Eu a aceitava como sendo a verdadeira mãe de John.. a não ser para John. Jake foi até a janela. Passando a mão pelo cabelo. — Se você quiser me rotular de leviana. — Forçou-se a olhar bem no fundo dos olhos dele. — Eu não sei por que ainda acredito em você. mas a verdade é que acredito depois de saber de toda a história — confessou ele nervosamente. Eu sabia plenamente que tinha. — Obrigada — disse finalmente. Jake não se conformava. interrompendo-a apenas para sacudir a cabeça. — Quero saber mais sobre aquela noite. — É engraçado como você acabou usando tudo para você mesma — sugeriu ele ironicamente. .. — Eu só posso lhe assegurar que a minha preocupação maior era o futuro de John. As mãos escorregaram para dentro dos bolsos da calça. e olhou para o vazio lá de fora. Mas pensar que ela é alguém de quem eu nem me lembro. eu não posso impedi-lo. — Mas eu não posso obrigá-lo a acreditar que nada disso importava. Jake fitou-a por muito tempo. Ele é inocente e tinha o direito a isso tudo.185 ponderadamente. Jake. Tanya. Eu acreditava nisso. impelido pelo dissabor que o dominava.

— Disse. — Você me beijou na pista de dança algumas vezes. — Ah! Jake — murmurou ela. quando você me tirou para dançar. Ela acariciou as costas dele com o olhar e desejou sentir o contato daqueles cabelos macios. Ela não poderia negar — Deanna e eu fomos ao baile juntas. resistindo. ela estava com alguns amigos — começou ela. Gostaria de abraçá-lo e apagar a dor que ele sentia. Eu nunca conhecera ninguém como você. Você estava muito bonito e charmoso. com firmeza. pois você participou desde o princípio dessa história — pediu ele. bem. a sua irmã lhe disse que eu era o pai? — insistiu. mas a última delas. Fiquei assustada com algo que crescia dentro de mim.. — O que realmente aconteceu naquela noite? Conte tudo o que sabe. Fiquei assustada com o .. Quando você me conheceu. Tanya percebeu que ele queria saber cada detalhe da história. Cada vez que me olhava parecia me tirar o fôlego. — Por que você fugiu de mim? — Parece tolice agora — suspirou Tanya. — Acho que ela não estava por perto. ainda um tanto hesitante. sem sair de frente da janela. — Ela. foi diferente.186 A seriedade da voz dele anestesiou-a. Mas Jake pedira que ela o punisse mais.

. ao meu lado? — Não — respondeu Tanya. Se a menina não quer. Eu queria que você nunca parasse de me beijar. o rapaz da entrada. — Dennis. Mas eu não podia sair porque Deanna não estava comigo.187 que eu mesma sentia. Nossos pais nos tinham deixado usar o carro deles.. — Onde você estava? — Fui para o carro. E eu comecei a me sentir como uma boba por ter complicado tanto um simples beijo. Eu fui até lá e a vi do seu lado. — Você tem certeza que ela estava comigo? — perguntou Jake com certa dúvida — Será que ela não poderia simplesmente estar em pé... Daí ele disse: "É melhor avisar sua irmã. e eu fugi. e eu corri para lá com a intenção de ir embora. — Respirou fundo ao recordar a sensação estranha daqueles momentos. E então ele disse: "Não é aquele cara que estava dando em cima de você agora há pouco?" Eu não me lembro se respondi. procurando desfazer o nó na garganta. . me seguiu. A atração que eu sentia me amedrontava. — Quando voltei. porque eu ainda fiquei me torturando um pouco mais no estacionamento. Perguntei por Deanna e ele me disse que ela estava no bar. não imediatamente. Então voltei. Esses Lassiter não perdem tempo. — Eu a procurei — disse Jake com uma estranha indiferença na voz. eles logo arranjam outra”. vi um rapaz que conhecia perto da entrada.

mas sabia que deveria continuar. Ela era uma exclusividade Lassiter. — Mais tarde eu falei com Deanna em particular. Poucas semanas depois nossos pais morreram num acidente e. Disse que já era crescida o bastante para saber o que fazia e mandou-me embora. — Como é que você teve certeza de que sua irmã estava comigo? — Quando resolvi me aproximar de vocês. nem escreveu. depois. . Tudo o que me dizia era que você iria vê-la no fim de semana seguinte. nem telefonou. depois disso. mais ainda. — E é por isso que você me desprezava tanto — perguntou ele friamente. — Como eu não consegui o que queria com você. Eu fui. Jake bufou e rapidamente voltou o olhar pela janela para não demonstrar o seu ódio. não? — Jake deixava transparecer no rosto o dissabor que sentia. mas ela não me deu ouvidos. Tanya preferiria parar. um rapaz veio tirar Deanna para dançar.188 Jake voltou-se imediatamente para ela: — E você acreditou nisso? — Naquele instante acho que acreditei. Você a abraçou e disse que ele desse o fora. usei a sua irmã. Foi isso que você pensou. Tentei alertá-la a seu respeito. Mas você não foi. Eram umas cinco da manhã quando ela chegou em casa. ela me disse que estava grávida.

Para mim isso significava um divórcio. não sei se dava para confundir. — Você concordou com a idéia de fazer nosso casamento dar certo? Era só pelo bem de John. lá fora.189 — Como é que eu não me lembro? — disse Jake irritado — Ela se parecia com você? Será que eu a confundi com você? — Ela também era morena e um pouco mais baixa que eu. Ultimamente eu acreditei que . — respondeu Tanya calmamente. apoiando a mão no vidro. Jake deu as costas para ela e puxou a cortina. — Você bebeu feito um louco enquanto estava comigo. sem tirar os olhos de John que agora rolava pelo gramado. — Ou o gosto pela vingança era tão grande que você queria fazer eu me ajoelhar a seus pés? Tanya recuou. há uma semana. O silêncio tomou conta do quarto e Tanya ouviu a própria respiração. Hoje. e viu John brincando distraidamente com um cachorrinho de pelúcia. também? — Não. — Por quê? — começou Jake finalmente. — Por quê você não disse antes? — respondeu Jake. e tinha um copo na mão quando o vi com Deanna. No começo eu concordei porque você prometeu que estudaríamos outras alternativas. Era o que eu queria. — Há sete anos eu diria que sim. isso já não é verdade. caso não funcionasse. até mesmo há um mês.

eu queria entrar num buraco bem fundo e desaparecer. — Por que você se incomodou em me contar? Ou foi papai quem a forçou? — Ele me disse que eu tinha que contar — reconheceu ela. — Se eu não contasse e me tornasse sua verdadeira esposa. Tanya fechou os olhos por alguns segundos. Por que não? Inconscientemente ela olhou para a cama. antes que você descobrisse como o enganava. ou pelo menos que entenderia por que eu menti no início. — Você poderia ter-me deixado acreditar que John era seu filho. — Você acabaria descobrindo cedo ou tarde que eu. que você me reservaria algum afeto. Tirou do bolso um cigarro e levou-o à boca. você faria algo mais além de me beijar. não tinha dado à luz seu filho.190 tínhamos a possibilidade de um bom casamento. — Você subestima suas habilidades — riu Jake. . deixando a janela e andando para onde ela estava.. baixando a cabeça.. — Olhou para ele novamente e empalideceu... — Quando você me disse as principais razões pelas quais me amava.

que ele a segurasse assim para sempre. — Eu queria que você me perdoasse — disse Tanya. não — protestou ele imediatamente. rogando que ele nunca a deixasse partir do seu convívio. compreendendo exatamente por que ele duvidava da sinceridade de seu amor.191 Jake não conseguiu tirar os olhos dela. — Mas meu amor por você nada tem a ver com ele. Jake! — Não.. . Você não está me dizendo que. — Por quê? Por causa de John? Você ainda o quer? — Eu amo John — reconheceu ela. prendeu os olhos dela com os seus. encostando a cabeça nos cabelos dela. Eu sei que você não vai me perdoar por tê-lo enganado. sem querer que ele fosse embora. — Ela envolveu a cintura de Jake. levando as mãos aos ombros de Tanya.. querido. pelo que fiz com você e sua irmã. — e suspirou profundamente quando leu a resposta no rosto dela.. — Sou eu quem precisa ser realmente perdoado. Aproximou-se dela um pouco e. Mas eu te amo. Tanya sentiu sua boca lhe acariciar os cabelos. — Eu não estou mais aborrecida com isso.. — Eu te amo tanto. Num movimento convulsivo ele a puxou contra si. Acredite em mim. enquanto o coração palpitava. E ela se entregou. — Você quer dizer. enquanto ele repetia o nome dela ternamente. mas parecia não entender exatamente o que Tanya queria dizer.

se a visse. — Você tem uma fotografia dela? Talvez. — Não é maravilhoso. . Apanhou a carteira e procurou entre as fotografias. Todo o amor que a queimava por dentro brilhava em seus olhos. Seu tormento obrigou-o a tocá-la. até deparar com a de Deanna. Já era péssimo pensar que eu a tivera em uma noite de muita bebedeira. — A sombra daquela noite me persegue. entre a gente. As mãos que a tocavam caíram. Ele olhou bem e sacudiu a cabeça negativamente. Não me lembro de ter visto mais ninguém. eu pudesse me lembrar. — A bolsa estava na penteadeira. — Na carteira. Tanya sentiu a agonia dele como se fosse a sua própria.192 — Mas ele está aí. Tanya. mas eu nunca tive uma mulher que ainda fosse virgem. a gente se amar? — Droga. ainda mais agora que sei o quanto você se sacrificou pelo meu filho. Jake procurava controlar-se para não ser imprudente. Entregou-a a Jake. A única coisa em que pensei a noite toda foi em você. será que você não entende? — Irritado ele tirou as mãos dela de sua cintura. Eu não sei por que ainda espero que você acredite. e ele retrocedeu um pouco. Não podemos fingir que não aconteceu. — Eu te amo. num gesto de quem estava confuso.

meu nome? — Acho que sim — respondeu. Eu estava magoada e ferida. devolvendo-lhe a foto. — Pense bem — disse ele. olhando para Tanya bem de perto. Eu não queria falar em você. — O que você está tentando dizer? — Estou perguntando se foi com Jake Lassiter que ela disse que estivera. um pouco confusa. — Você a reconhece? — perguntou ansiosa. — Por que ela o chamaria assim? . — Ela disse que ficou comigo naquela noite? Quero dizer. ou se você concluiu que era. — Não me lembro. — Ela tem seu sorriso. — Ela não teria me chamado de Jamie? — Jamie é seu irmão — disse Tanya. Tanya começou a colocá-la de volta na bolsa quando Jake a tocou na cintura. Olhou para a foto novamente depois para Tanya. eu especificamente. — Espere! — ordenou bruscamente.193 — Não me é totalmente estranha — disse ele.

baixa. que nem consigo me lembrar se ela era alta. É claro que ela confirmou. — Quando foi que ele morreu? Não a hora. . procurando por você. Quando John nasceu. — Para onde ia Jamie na noite em que morreu? — Não sei. mas eu pensei que estivesse com você. magra. mas o dia. com a cabeça cheia de dúvidas. com veemência.194 — Porque meu irmão estava comigo naquela noite. mas eu estava tão tonto. hesitante. — Eu sei que ele conheceu uma garota lá. Jamie apresentou-me a moça — concluiu Jake. Acho que tinha um encontro perto de Springfield. gorda ou careca. e nunca mais falamos em nomes. segundo a sua história. — Mas eu o vi com Deanna! — Havia mais alguém conosco? — Não me lembro — confessou. Foi o Jamie! — Gritou ele. a única coisa que perguntei foi se o pai era aquele Lassiter que ela conhecera no baile. O rosto de Jake começava a se aclarar. — No fim de semana seguinte ao baile. — Quando ela disse que estava grávida. aquele no qual eu deveria me encontrar com Deanna. quer dizer. — No sábado. Eu me lembro mais ou menos que não voltamos juntos para o hotel.

— O carro dele trombou a caminho de Sedália. — Acho que jamais teremos certeza — suspirou Tanya.195 Deanna estava tão mal. Acho que foi naquela noite que me apaixonei por você. Talvez eles tenham se apaixonado. querido. que eu mesma forneci os dados para a certidão de nascimento. A semelhança com Jamie é impressionante. — Pelo menos para ficar com a consciência tranqüila. — Não é tão difícil crer. e sua mãe já mostrou fotografias suas e de Jamie quando bebês. com um sorriso tristonho nos lábios. — Se houvesse meios gostaria de saber de tudo há sete anos — queixou-se ele. perdoe-me! — Calma. . pelo menos por algum momento que guardo até hoje — reconheceu ela. Jake. não podemos garantir o contrário. Gostaria de acreditar nisso — murmurou Jake. — Sabemos que John é um Lassiter. — Mas. vamos com calma. — Ah. O seu nome! E durante todos esses anos eu o culpei — disse Tanya horrorizada. — Tanya sorriu. Quisera acreditar que ele ia visitar Deanna. Jake tomou-a nos braços carinhosamente. um pouco mais aliviada. aconchegando-a contra si. — Não temos certeza se foi Jamie. — interrompeu ele.

não com palavras. porque ele nasceu e cresceu onde era impossível. aconchegando-se nos braços do amado — que tudo isso fortaleceu nosso amor. — Um beijo alucinante tocou-lhe a boca enquanto as mãos percorriam o corpo de Tanya.196 — Eu a amo. FIM . Você não acha? Jake respondeu com gestos. Acho que eu a teria amado de qualquer jeito. Tanya. — Mas também é verdade — disse ela. — Poderíamos ter descoberto a verdade sobre Jamie e Deanna naquela época e não ter sofrido toda a amargura e hostilidade que enfrentamos.