A SEQUÊNCIA DIDÁTICA INTERATIVA NA CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE FORÇA SOB UM OLHAR KELLYANO Charles Teruhiko Turuda

INTRODUÇÃO Quando a professora Marly, organizadora da presente obra, pediu-me para utilizar a Sequência Didática Interativa (SDI) em uma abordagem kellyana para construir um capítulo sobre isso, deparei-me inicialmente com a dificuldade de conciliar essas duas perspectivas. A SDI tipicamente envolve processos sociais e de interação. Opostamente, a Teoria dos Construtos Pessoais (TCP) versa mais a respeito de processos internos e individuais. Não deve ser necessário dizer que eu estava muito enganado nessa minha primeira impressão. Em vez de entrarem em conflito, as duas abordagens se complementam perfeitamente. A fusão de ambas é possível, pois tratam de ensino e de aprendizagem. Além disso, o individual e o social são partes inseparáveis de nós, seres humanos. Desse modo, o objetivo do trabalho descrito nesse capítulo foi o de investigar a aprendizagem do conceito de força numa visão kellyana, através da aplicação da SDI. O relatório apresentado aqui faz parte de um trabalho maior e mais completo. Como pode ser visto na descrição da metodologia, a turma trabalhada foi dividida em três grupos. No presente capítulo, analisam-se apenas um desses três grupos. Isso em nada diminui a profundidade dos resultados encontrados, apenas reduz a apresentação de análises da pesquisa.

1.1 APRENDIZAGEM NA TCP A TCP foi criada por George Alexander Kelly (1905-1967) e sistematizada em sua obra, em dois volumes, intitulada The Psychology of Personal Constructs (KELLY, 1955). É uma

dentro da TCP. 13. 1955. Hall. Deve-se ressaltar que a ideia de Kelly é que o indivíduo ‘interpreta’ a realidade de um modo pessoal e particular.Ciclo da Experiência Kellyano (NEIMEYER. O Ciclo da Experiência Kellyano (CEK). “assumimos que todas as nossas interpretações presentes do universo estão sujeitas à revisão ou à substituição”. Nas palavras do próprio Kelly (1955. esquematiza e resume todo esse processo necessário para a aprendizagem kellyana (Esquema 1). como esse processo de revisar e de substituir interpretações da realidade. 3. Portanto. 1987. Um dos conhecimentos mais essenciais sobre a TCP é a sua filosofia. Nessa perspectiva. p. tradução livre). Investimento no resultado 5. Outro importante aspecto da TCP é que o sujeito sempre revisa a representação e a interpretação que faz do mundo. p. nós devemos compreender essa declaração como revelando mais sobre a pessoa que a emitiu do que sobre a realidade”. Encontro com o evento 4. Lindzey e Campbell (2000. Essa abordagem do ser humano dá a essa teoria o caráter pessoal. p. Aprendizagem pode ser encarada. Confirmação ou Refutação da antecipação ou hipótese . tradução livre).teoria originalmente concebida como uma teoria da personalidade. Revisão construtiva do sistema de construtos 3. Esquema 1 . “cada indivíduo contempla à sua maneira o fluxo de eventos no qual ele se vê tão rapidamente carregado” (KELLY. p. Antecipação do evento 2. criado por Neimeyer. 333) enfatizam essa característica da teoria kellyana: “quando uma pessoa faz alguma declaração sobre o mundo. Para ela. tal como a teoria do desenvolvimento de Piaget. 7 apud NEIMEYER. a aprendizagem só ocorre se essa mudança na representação acontecer. 1985) 1. a aprendizagem na visão kellyana implica mudança na maneira de interpretar a realidade. acabou migrando com certa naturalidade para os estudos da aprendizagem e do ensino. mas.

É a chamada metáfora homem-cientista. ‘investimento’. Na última etapa. ‘confirmação ou refutação’ e ‘revisão construtiva’. a revisão construtiva. Fonte: Boeree (2006. No encontro com o evento. Um evento pode ser um fato. tradução livre). uma pessoa ou um objeto. tradução livre) destaca bem essa comparação entre o homem e o cientista. 5. ‘postulado fundamental’ e ‘corolário da experiência’ fazem parte da TCP. depara-se com a realidade. a estrutura representacional do indivíduo é alterada ou mantida de acordo com o que ocorrer na etapa anterior. Esquema 2 . testa suas hipóteses. o sujeito elabora determinadas hipóteses a respeito de certo evento. ocorre a comparação entre a sua interpretação e a verificação de suas hipóteses. ele se municia de elementos para uma análise. ‘encontro’.O CEK constitui-se de cinco etapas: ‘antecipação’. 5. p. O Esquema 2 elaborado por Boeree (2006. Na confirmação ou refutação. Isso se dá porque a teoria kellyana faz uma comparação entre as atividades cognitivas de um ser humano com as tarefas de um cientista. p.Metáfora do homem-cientista. Esses três termos citados referem-se a três dos onze postulados que . É perfeitamente possível notar a semelhança de todo o processo do CEK com a atividade científica. Cientista Sistema de Construção Homem Teoria } Hipótese Antecipação Corolário da Construção } Observação e Experimento Experiência e Comportamento Postulado Fundamental } Teoria Sistema de Construção Corolário da Experiência Os termos ‘corolário da construção’. Na antecipação. Na etapa do investimento.

Pode-se dizer que se trata de uma metodologia de ensino onde a pesquisa também está presente. modifica o que o primeiro escreveu e negocia essas modificações para que a definição seja aceitável para ambos. como a separação dos conceitos em subconceitos ou tipos. Em relação ao presente trabalho de pesquisa. a aprendizagem kellyana está intimamente voltada para o que acontece com o indivíduo e como este interpreta a realidade. a partir de seus estudos. 1.. A aprendizagem kellyana pode ocorrer quando o autor da definição negocia a ampliação de sua definição e de seu conceito para abranger a definição do mesmo conceito que o outro propõe. Ao contrário da TCP. basta saber que eles descrevem. Modificações nessa interpretação podem ser consideradas como aprendizagens. Esse negociação de significados pode envolver mais do que dois sujeitos. Outras modificações podem ocorrer. . Isso é percebido na seção seguinte que trata da SDI. Essa modificação na representação da realidade implica aprendizagem por parte dos sujeitos envolvidos.2 ENSINO NA SDI A SDI foi criada pela professora Maria Marly de Oliveira. a SDI nasce com um caráter social e de grupo. Como é possível perceber. o que é esquematizado pelo CEK.D. através de palavras. Ph.fundamentam essa teoria. que é mais focada no indivíduo. Esse processo de ensino é bastante rico para a aprendizagem. O processo da SDI baseia-se no esforço conjunto de construir uma definição de um conceito através da negociação de significados. A construção de uma definição de um conceito que possa ser defendida das colocações de outro exige do criador da definição um esforço extra para elaborar para si mesmo uma compreensão mais profunda do conceito trabalhado. Um indivíduo apresenta a sua definição sobre algo a outro que concorda ou discorda do primeiro.

Esse conceito tem uma construção histórica e apresenta alguns aspectos epistemológicos com os quais. somente quando o corpo encontra-se em repouso (v = 0). O conceito alternativo de força proveniente do senso comum afirma que é necessária uma força para que o movimento de um corpo se mantenha. A Mecânica Clássica. A ideia do senso comum é que a força é proporcional à velocidade (v) de um corpo. isso não é verdade. portanto. Força aplicada a um corpo como uma grandeza proporcional à aceleração dele. Se não há forças sendo aplicadas em um corpo. Não há movimento sem aplicação de forças. Há movimento sem aplicação de forças.Na próxima seção. às vezes. Um desses aspectos é a mudança conceitual que deve ocorrer em praticamente todo estudante que ingressa no Ensino Médio. ou seja. parte fundamental da Física. fala-se sobre o conceito de força. baseia-se quase completamente na ideia de força. esse movimento se mantém. Esquema 3 .Mudança na definição de força e na relação entre força e movimento. O conceito é bastante amplo. Se um corpo está em movimento e não se aplica nenhuma força sobre o mesmo. é proporcional à mudança da velocidade e esta pode ser não-nula. mesmo na ausência de forças sendo aplicadas nele. o que ocorre é que o seu movimento não se modifica.3 O CONCEITO DE FORÇA DA FÍSICA Um dos conceitos mais importantes para a Física é o conceito de força. é difícil lidar. defendida pela instrução escolar. A ideia newtoniana. 1. Um corpo pode estar se movendo. então estuda-se-o apenas o suficiente para se entender as mudanças promovidas pela aprendizagem desejadas pelo ensino escolar. Força aplicada a um corpo como uma grandeza proporcional à velocidade dele. . é que força é proporcional à aceleração (a). Pelo conceito newtoniano e clássico de força. sendo nula. A mudança na definição de força é representada no Esquema 3.

descreve-se uma pesquisa realizada no nível superior sobre o conceito de força utilizando a SDI como metodologia de ensino. b) Dividiu-se a turma em três grupos com mais ou menos o mesmo número de alunos. As etapas procedimentais envolvendo os alunos foram as seguintes: a) Cada aluno individualmente preencheu um cartão tamanho A6 com a resposta à pergunta: “o que é força?”. A4 e A5 – de um dos três grupos nos quais a turma foi dividida. já tinham alguma vivência anterior com o conteúdo a ser explorado e estavam revisando-o. Na seção a seguir. em um curso superior. portanto. .4 METODOLOGIA Essa seção descreve como se realizou a pesquisa sobre a aplicação da SDI para o ensino do conceito de força numa análise da aprendizagem sob a visão kellyana. verificar se há transição entre a ideia de força proporcional à velocidade para a de força proporcional à aceleração. c) Instrui-se para que os componentes do grupo compartilhassem entre si as respostas criadas na primeira etapa. Os quatorze sujeitos dessa pesquisa foram alunos na disciplina de Física do curso tecnológico de Petróleo e Gás de uma faculdade particular da cidade de Recife. f) Os representantes de cada um dos grupos formaram um novo grupo. e) Cada grupo elegeu um representante. São alunos. A2. d) Cada grupo elaborou uma síntese tentando contemplar ao máximo as ideias de todos. Verificar a aprendizagem pode ser verificar se há mudança nesse sentido. A análise preparada para esse capítulo abrange os cincos alunos – A1. 1.Esse é um dos mais notórios obstáculos epistemológicos do conceito de força em diferentes níveis de ensino. capital de Pernambuco. em certo consenso. A3. ou seja.

O aluno conversa um pouco com os colegas sobre a atividade que irá se seguir.g) O novo grupo sintetizou em uma única definição a ideia de força da turma inteira. confronta-se com as definições de outros colegas que são diferentes ou idênticas à sua. Negociação dos significados tentando adaptar sua definição com a de outros modifica a sua representação sobre o conceito de força. Construção das primeiras respostas individuais Construção das respostas de grupo Construção das respostas da turma Construção de novas respostas individuais Quadro 1 – Associação entre as etapas do CEK e os procedimentos da SDI seguidos pelos estudantes Etapa do CEK Antecipação Investimento Encontro Confirmação ou refutação Revisão construtiva Procedimento Proposta do professor de Física de trabalhar o conceito de força através da SDI. construiu-se um esquema onde as respostas dadas nas atividades da SDI foram agrupadas e montou-se um quadro comparativo entre as primeiras respostas dadas por cada aluno e as últimas respostas dadas por eles após a SDI. Para proceder à análise das respostas. Fluxograma 1 – Etapas da pesquisa. Escreve uma definição no papel. i) Novamente. todos os alunos preencheram cartões com a definição de força. Durante as negociações. Elabora uma definição de força ou acessa-a em sua estrutura cognitiva. O fluxograma de procedimentos mostra as etapas da pesquisa como um todo. . h) A definição foi lida para a turma toda para verificar se havia concordância. Lembra-se das aulas que teve a respeito do assunto. Leitura pelo aluno das definições de outros colegas do seu grupo.

ocasionando uma ação. É uma ação em um corpo capaz de modificar a sua posição. onde uma pode ser comparada com a outra. A2 Aquilo que faz mover e muda de direção. É tudo o que tem movimento ou não. da página anterior. Aluno Resposta A1 É uma ação.Pode-se associar os procedimentos seguidos pelos estudantes com as etapas do CEK. Quadro 2 . É uma ação vetorial que modifica o estado de repouso ou movimento de um corpo. São atividades que influenciam um corpo de um sistema realizando movimento ou não. Aluno Primeira resposta A1 É uma ação. A3 É uma energia que resulta em mover e parar. A4 É tudo que tem movimento. É tudo que tem movimento. Na próxima seção. apresentam-se os resultados da investigação. Síntese do grupo É uma ação que influencia um corpo a parar ou mover. faz essa associação entre as etapas do CEK e os procedimentos seguidos pelo estudante durante a SDI. No quadro abaixo encontram-se as respostas iniciais de cada aluno e as respostas posteriores à aplicação da SDI.5 RESULTADOS E DISCUSSÃO O esquema que agrupa todas as respostas individuais e as sínteses elaboradas é mostrado no anexo (Esquema 4). O Quadro 1. A5 São atividades que influenciam um corpo de um sistema realizando movimento ou não.Comparação entre a primeira e a segunda respostas individuais. É uma energia que resulta em mover e parar. Força é uma energia onde se define parar ou continuar. 1. A3 A4 A5 Segunda resposta É uma ação que faz move [mover] ou parar. . A2 Aquilo que faz mover e muda de direção.

é necessária uma força centrípeta. não. Mas o que acontece com os indivíduos? Cabe agora à TCP investigar. O aluno A2 disse que força é “aquilo que faz mover e muda de direção”. De fato. Em termos de resultado de grupo. quanto de parar um objeto. Esse termo aparece na síntese. Ao definirem força como sendo “uma ação que influencia um corpo a parar ou mover”. mas. entretanto. não. Ele traz um elemento interessante ao dizer que muda a direção. O aluno A1 definiu força inicialmente como ‘uma ação’. para pará-lo. encontram uma resposta que é idêntica à definição escolar. Este aluno traz a questão de força não ser a causa do movimento. Em vez de definir ‘força’. Com isso. mas não esclarece o tipo de influência que as forças produzem. O aluno A3 respondeu que força “é uma energia que resulta em mover e parar”. Exatamente como o que diz a definição científica. A3. Nota-se.A síntese proposta pelos alunos A1. Nota-se que partes das ideias de cada um encontram-se na síntese elaborada pelo conjunto de alunos. O aluno A5 diz que forças “são atividades que influenciam um corpo de um sistema realizando movimento ou não”. Isso é corrigido na síntese do grupo. O aluno A4 apresentou uma definição muito distinta. Se dissesse que é algo que faz mudar a direção de um corpo em movimento e. Talvez ele tenha querido dizer “aquilo que faz mover e mudar de direção”. Esse termo é inadequado porque é um conceito bem diferente de força. aquilo que muda seu movimento estaria perfeitamente de acordo com a ideia de força centrípeta. . Portanto. deu uma definição para ‘móvel’: “é tudo que tem movimento”. algo que tem a capacidade de acelerá-lo. O trabalho sinergético da SDI alcança uma resposta ótima. A4 e A5 reproduz o que ocorreu após o processo de negociação entre os indivíduos em todos os grupos. para mudar a direção do movimento de um corpo. Esse aluno usa o termo ‘energia’. A2. a resposta dada na síntese é excelente. que há a tendência desse aluno de encarar força apenas como algo para mover um corpo. essa definição estaria bastante próxima da definição escolar. Transmite a ideia de algo que tem tanto a capacidade de mover.

Percebe-se que a resposta do grupo como um todo é excelente. apresentou uma definição de força associada à aceleração. O aluno A5 apresenta uma aparente regressão. Sua resposta posterior parece mais no sentido de apenas mover. Ele tem a ideia de força como um tipo de ‘energia’. Confunde o objeto onde a força é aplicada com um agente que atua sobre o objeto. A melhora em sua resposta foi no sentido de acréscimo. O aluno A2 obteve uma excelente melhora na expressão das ideias. A maioria apresenta mudanças relevantes na significação que dão à realidade. Segundo a TCP. Aparentemente o aluno A3 foi o único do grupo que não modificou sua representação de força. o significado é o mesmo. ele também lhe atribui uma função. Dos cinco componentes do grupo. Nota-se. apenas um parece não ter apresentado modificação na interpretação que faz da realidade. Além de dizer o que é. O que acontece com os indivíduos varia. que há o acréscimo da capacidade de fazer parar. Inicialmente.Para o aluno A1. Nota-se que não houve mudança conceitual. Apesar disso. definia força como algo com a capacidade de mover e de parar. a maioria aprendeu. 1. que não existia em sua primeira resposta.6 CONSIDERAÇÕES FINAIS . houve uma mudança significativa com relação à sua definição de força. Embora utilize palavras bem diferentes em uma resposta e em outra. Retira qualquer sombra de dúvida com relação à capacidade das forças de fazerem parar um corpo também. desde a primeira resposta. entretanto. O aluno A4 parece ter alguma dificuldade para expressar suas concepções sobre força. E destaca a natureza vetorial da grandeza força.

Personal construct therapy casebook. Robert A.. 2012. Gardner.. Teorias da personalidade. 1955. LINDZEY. Maria Adriana Veríssimo Veronese. 1. Pelos resultados da pesquisa. Calvin S. W. 2006. Disponível em: psychology. p. ed.. George. CAMPBELL. An orientation to personal construct therapy. KELLY. George Alexander. . Parece que ainda é necessário fazer alguns ajustes.pdf>. essa diferença. 1. ed. George Kelly. em vez de criar conflitos. In: NEIMEYER. 4. Trad. Nova Iorque (EUA): W. EUA: Springer Publishing Company. Greg J.de/do/pt_kelly. mas é uma junção extremamente válida.Disse-se anteriormente que a TCP tem um caráter individual e que a SDI tem uma abordagem social e de grupo. Acesso em: 19 jan. Robert A. 1987. C. Nova Iorque. NEIMEYER. A aprendizagem. 3-19. Reimpressão de 2008. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.social- HALL. 2000. John B. numa visão kellyana. <http://www. parece conciliar esses dois lados inseparáveis do ser humano: o individual e o social. (Editores).7 REFERÊNCIAS BOEREE. The psychology of personal construts. NEIMEYER. efetivamente acontece nos processos da SDI. Norton & Company Inc.

Esquema 4 . .Respostas de todos os alunos e sínteses.

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