GRAÇA EM FORMA DE CHAMADO

(Excerto extraído do livro Chamado ao Discipulado de Karl Barth)

Começaremos novamente declarando que o chamado ao discipulado é a forma particular da convocação, pela qual Jesus divulga e revela-se a indivíduos para os reivindicar e santificar como sua possessão e como suas testemunhas no mundo. Possui a forma de um chamado de Jesus dirigido a eles. Significa o advento da graça, que está divulgada e revelada em Jesus, é a reconciliação do mundo com Deus, esta reconciliação é, então, a plenitude da salvação. Mas à medida que os enquadra nesta convocação, a graça tem a forma de chamado, o Evangelho a forma da lei. A graça que vem a eles sugere que podem fazer algo, i.e., seguir a Jesus. A graça desta maneira comanda. Jesus está buscando pessoas para servi-lo. Ele já as achou, as elegeu e as ordenou a este fim. Eles já são seu povo, mesmo enquanto os reivindica. Ele, por conseguinte, estabelece um relacionamento particular aos comissioná-los. Jesus assim o faz em sua autoridade como Filho do Homem, o Senhor deles, que pode, assim, escolher e já o fez como lhe apraz, dirigindo-se a eles. Ambos, Jeremias e Paulo, entenderam que desde o ventre materno foram escolhidos para o ministério em que foram comissionados. Jesus já é o Senhor daqueles que ele chama para segui-lo. E os comissiona como tais. Os comissiona como aqueles que já pertencem a ele. Isto é o que constitui a força irresistível de seu chamado. É por isso que não pode haver nenhuma oposição legítima a ele. É por esta razão que não pode haver indagação, de sorte alguma, da parte daqueles que são chamados: de nenhuma capacidade ou habilidade para realizar aquilo para o qual foi comissionado; de nenhuma fé latente; de nenhuma preparação interna ou externa. É por isso que não pode haver nenhum questionamento ou auto-seleção da parte daqueles que seguem. É por isso que aqueles que são chamados não podem pensar em impor exigências, visto que são preparados para obedecer a seu comando. Apenas porque o comando de Jesus é a forma da graça que concretamente vem à pessoa, é emitida com toda a liberdade e soberania da graça, contra a qual não pode haver nenhuma objeção legítima, da qual ninguém é digno, para a qual não pode ter nenhuma preparação, a qual ninguém pode eleger, e em face da qual não há qualificações. Desobediência ao comando de jesus: “Siga-me”, como no caso do jovem rico em marcos 10.17-18 e paralelos, é um fenômeno absolutamente terrível em sua impossibilidade. Provoca a pergunta dos discípulos: “Quem poderá, pois, salvar-se?”, visto que aí é revelada de longe a regra mais comum da atitude natural, ou sobrenatural, da humanidade a este comando. Em face ao comando de Jesus dado a uma pessoa, desobediência é inconcebível, inexplicável e impossível. Por outro lado, podemos perguntar quem é o homem Levi para que quando Jesus o avista na coletoria (Marcos 2.14-15), de uma só vez o convoque com o mesmo comando “Segue-me”? Quanto precisaríamos ler e por quanto tempo pesquisaríamos, se fôssemos tentar explicar o porquê Levi, tendo em vista sua moral e suas qualificações religiosas, é comissionado e prontamente procede em obediência. Nós só podemos abandonar a tentativa. O segredo de Levi está em quem o chama. Novamente, é nos dito em Lucas 9.57-58 sobre um homem, que ao encontrar Jesus no caminho propõe: “Seguir-te-ei para onde quer que fores.” Ele provavelmente é alguém que escolheu fazer isso baseado em sua própria iniciativa. E a resposta de Cristo foi o terrível ditado sobre as raposas que têm covis, e as aves do céu, ninhos, “mas o Filho do Homem – a quem ele iria seguir – não tem onde reclinar sua cabeça.” Ele não imagina que é isso que ele pensa poder escolher. Ele não sabe quão terrível é o risco, no qual ele se compromete, ao tomar tal escolha.

Ninguém pode decidir que este é o seu caminho, ou escolher tomar este caminho. O que Jesus pretende com seu “Siga-me” pode ser escolhido somente em obediência ao seu chamado. Podemos ver isto pelas palavras de Pedro: “Senhor, se é tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas” (Mt 14.28). Sem ser convidado por Cristo, ele não poderia realizar tal feito. Já ressaltamos que não pode haver condições. O homem mencionado em Lucas 9.61-62 carecia de verdadeiro discipulado, não simplesmente porque ele se ofereceu a Jesus por opção própria, mas porque ele também expôs uma condição: “Deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.” Aqueles que se oferecem para serem discípulos estão, obviamente inabilitados a estabelecerem as condições pelas quais farão isto. Uma prontidão limitada não é prontidão alguma quando estamos lidando com Jesus. Está claro que este homem também não sabe o que realmente é fazer esta escolha. Certamente, não é o seguir a Jesus. Seguir a Jesus consiste em um comando incondicional, e assim não pode ser aceito se não for incondicionalmente. A resposta de Jesus deixa claro que essa pessoa não pode ser considerada como um discípulo: “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”.

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