Em Viagem Para Belle Reve Com Os Dois Finais2

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EM VIAGEM PARA BELLE REVE
Peça para cinco intérpretes e treze personagens

Armando Nascimento Rosa

(Prémio Nacional de Teatro Bernardo Santareno – 2011)

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Estou na ala violenta da Divisão Friggins do Hospital Barnacle. Eu disse que iria apagar-me e foi o que me aconteceu. Assim que eles me despojaram da minha mala de viagem. Agora vou contar-vos como puder acerca do meu mais íntimo contacto com a morte. Depois de eu me apagar, não sei se voltei a mim ou não. (…) Entrei num tempo de total fantasia. Recordo-me de ter estado preso a uma mesa com rodas. Mas nunca fui medicado. Recuso remeter para a paranóia a minha convicção de que um médico residente tencionava cometer um crime legal contra a minha pessoa, e quase o conseguiu. Eu tive a mais extraordinária das experiências que pode ou não ter ocorrido na noite a seguir às convulsões. (…) Figuras estranhas passaram pela minha porta aberta, num corredor estreito. Não podia acreditar que elas eram reais. Eu pensava literalmente que estava a sonhar. TENNESSEE WILLIAMS, Memórias, 1975

Don’t send me no doctor Fill me up with all a those pills I got me a man named Doctor Feelgood Yeah! Yeah! That man takes care of all my pains and ills His name is Doctor Feelgood in the morning To take care of business is really this man’s game And after one visit to Dr. Feelgood, You understand why I feel good, in this pain. ARETHA FRANKLIN, Doctor Feelgood, 1967

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Figuras dramáticas

TENNESSEE WILLIAMS – Dramaturgo norte-americano (nascido Thomas Lanier Wiliams, daí ser chamado pelo diminutivo Tom) ROSE WILLIAMS – Irmã do escritor IRMÃ CHARLOTTE – Freira e enfermeira no Convento-hospital das Ursulinas, em Nova Orleães OZZIE – Ama afro-americana de Tom e de Rose quando crianças TALLULAH BANKEAD - Actriz norte-americana, amiga de Tom FRANK MERLO - Companheiro de Tom DOUTOR FEELGOOD – Alcunha pela qual era conhecido Max Jacobson, médico, de origem alemã, fornecedor de estupefacientes HENRIETTA LACKS – Mulher afro-americana a quem foi extraída uma colheita de células cancerígenas que ainda hoje se multiplicam em laboratório WALTER FREEMAN – Neuropsiquiatra norte-americano, difusor da prática da lobotomia EGAS MONIZ – Neuropsiquiatra português, inventor da leucotomia (que lhe valeu o Nobel), designada depois por lobotomia pelos que fizeram uma aplicação modificada desta cirurgia SUSIE – Enfermeira no Barnes Hospital, em St. Louis DOUTOR LEVY – Neurologista em serviço interno no Barnes Hospital, em St. Louis BLANCHE DUBOIS – A personagem criada por Tennessee Williams, duas décadas depois do tempo dramático da obra que a celebrizou

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A acção da peça decorre no Outono de 1969, quando Tennessee Williams, então com 58 anos de idade, se encontra internado para desintoxicação. O tempo dramático e o lugar da acção (quarto de hospital) são preenchidos pela sua experiência fantasmática e alucinatória, pelo que a definição da idade aparente dos actores intérpretes, à excepção de Tom, fica ao critério da encenação. A concepção da peça prevê os seguintes desdobramentos cénicos: a personagem de Frank Merlo interpretará Irmã Charlotte e Tallulah Bankhead, e o mesmo actor será ainda Doutor Levy; a intérprete de Rose Williams será a mesma de Blanche DuBois; a personagem de Ozzie interpreta Henrietta Lacks e a mesma actriz será a Enfermeira Susie; a personagem de Egas Moniz assume os disfarces de Doutor Feelgood e de Walter Freeman, sendo este mesmo actor a interpretar Max Jacobson, na penúltima cena.

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Cena 1

Num quarto da clínica de reabilitação, Tom está sentado numa cadeira de baloiço junto à cama. Ele julga encontrar-se em Nova Orleães. Rose aparece.

TOM: Não era suposto estares aqui, Rose. ROSE: Eu pensava que tu me querias ver. TOM: E quero, mas não gosto que me vejas neste estado. ROSE: E que estado é o teu, Tom? TOM: Basta olhar para mim. Não estou visitável para ninguém. ROSE: A Irmã Charlotte deixou-me entrar. Reconheceu-me. Não precisei pedir-lhe nada. Mostraste-lhe fotos minhas, foi? TOM: Sim, Rose. Tu não vieste sozinha até aqui... ROSE: Ah isso é que vim. Apanhei o autocarro à saída do hospício. TOM: A mãe ficou lá fora no jardim? Não quis entrar? (Rose não responde.) É melhor assim. ROSE: Tu não acreditas que eu vim sozinha visitar-te. Não precisei de ninguém para me guiar. Não vejo a mãe há um mês. Já nem tu acreditas em mim... (Amua como uma criança.) TOM: Não quero que chores, Rose. ROSE: Eu não vou chorar, Tom. Eu agora já não choro. Não sinto nada. Passo pelas coisas como se nada acontecesse. Fiquei assim desde a operação. TOM: Eu devia ter impedido que te castrassem a alma. ROSE: Tudo perdeu importância. É uma espécie de anestesia permanente.

ROSE: Pobre é de ti. é mesmo verdade que aqui estou? Ou é apenas o meu desejo que me faz imaginar este cenário? ROSE: A verdade. TOM: Há uns dias. E a felicidade vai acontecer para nós.. a verdade. E disse para comigo. minha doce irmã.. ROSE: Tu tinhas de vir. Vieste para a tua cidade favorita. Desligam-te os fusíveis. O clarinete que uma mulher tocava com o seu trio de jazz. Vais poder ver o cortejo da janela do teu quarto. Tom. Estou afogada nele como os bêbedos da noite em Bourbon Street. Diz-me. Bateste no fundo. Estás de volta à tua cidade. Tom. Tom. Nova Orleães prepara o maior Carnaval do hemisfério norte e nós estamos os dois aqui. Tu já não dizias coisa com coisa. No coração do Vieux Carré. TOM: Pobre Rose. ROSE: Ele foi teu amigo. eu sei que vai. Vais ver. Apanhou-me vulnerável como se recolhe um cão das ruas para a carrinha do canil. Até tu.. TOM: Também estás do lado dele. Uma clínica algures no Arizona. Vieste para aqui e ainda acabam por fazer-te o mesmo que me fizeram a mim. Rose. E hoje é a véspera do Mardi Gras. Tu irás livrar-te dessas drogas que te desfiguram. como se fôssemos crianças outra vez. ROSE: Um frasco de morfina metido na cabeça que verte gota a gota o seu conteúdo.6 TOM: Fui cobarde. quando cheguei. Nunca vou perdoar a esse sacana que partilhou connosco o ventre da mãe. e espeta-to acima dos olhos. ouvi música na rua. Aparece um médico com um picador de gelo. achava que este era um lugar desconhecido.. Que importância tem neste momento? O desejo opera maravilhas. TOM: É um gozo para ele anunciar em público que o mano famoso perdeu o juízo e não pode andar à solta. ROSE: Não te podes queixar. O nosso querido irmão normal internou-me para que eu não volte a injectar-me. . TOM: Não corro esse risco. Mas hoje ao recobrar os sentidos.

lúcida e feliz. muito melhor! Até me apetece sair amanhã mascarada para o meio da multidão. Nunca te ouvi falar assim depois da cirurgia. Quem precisa de festa sou eu.7 TOM: É esse o meu maior medo. Tu estás tão viva! O teu discurso soa articulado demais. Tens de descansar o corpo e a cabeça. mais colorido do que o Mississipi. TOM: Sinto a falta de todos eles. Eu não te reconheço. Rose..) Ah. ROSE: Sinto-me hoje melhor. pela falta de drogas com que costumo anestesiar a vida. TOM: Isso não é nada teu. Tom? Dos teus amantes? Agora estás de férias. ROSE: (Jocosa. Mas isto é muito duro. no silêncio. TOM: Tu brincas comigo. ROSE: (Dançando ainda. sem esses comprimidos que acabam contigo. Tens de aprender a vivêla a sério. Rose. ou se é o meu desejo que te inventa assim. Estás de quarentena. Já tive dois ataques de convulsões. Continua ainda a movimentar-se mesmo quando a música se extingue. Tom! A vida pode ser louca fantasia que nos faz voar sem tirar os pés do chão. Aqui privaram-me disso tudo. ROSE: Tens é inveja. Ele receitou-me injecções que eu dava a mim mesmo. Tu ficas a ver-me da janela. para poder vivê-la. mano.. . Eu não sei se fazes parte do real. É para isso que te internaste nas Ursulinas. Mas tu não podes sair daqui ainda. Aqui estás protegido do maldito Doutor Feelgood. ROSE: E fizeram muito bem.) TOM: Tenho medo que tu sejas apenas um fruto da minha mente alucinada. É preciso evitar uma recaída. Odeio médicos! E esse deve estar ligado a algum negócio de cangalheiro. (Ouve-se música do Mardi Gras e Rose dança em euforia como se seguisse no corso carnavalesco. que tenho estado encerrada em Stone Lodge há uma eternidade. Agora eu… eu acho que não resisto. Não sei viver sem a medicação do Doutor Feelgood.) De quem. Primeiro ganha dinheiro com as anfetaminas que vende aos clientes e depois recebe o pagamento do funeral dos mortos por overdose. Rose. Vou mergulhar nesse grande rio de gente em festa.

(Ambas o ajudam a levantar do chão e conduzem-no até à cama. A freira deixa-te entrar no quarto. Não aguento mais estar assim. (Começa progressivamente a ficar mais ansioso. com repulsa. vamos deitar o seu irmão. Os católicos só pensam no juízo final. TOM: Vocês querem a minha morte. mas ele cai no chão com o corpo em convulsões. Rose.) Cena 2 IRMÃ CHARLOTTE: Então. Devem ser de água destilada. por favor. O Doutor sabe quais as doses certas para mim. Ele tenta tirar um papel de uma bolsa.) TOM: Então ajuda-me ao menos a deitar. Tom! Não vim ver-te ao hospital para te ajudar a morrer.) Vá Sr.) Alguém me ajude. Vamos deixá-lo como novo. (Injecta-o no braço e ele acalma. Isso já passa. TOM: Tu odeias médicos. Sr. Proibiram-me as visitas. mas tu entraste aqui sem problemas. ROSE: Tu precisas é de ajuda médica. interpretada por um actor em travesti. . (O corpo e as mãos tremem desordenadamente. (Rose tenta ajudá-lo a levantar-se.8 TOM: Mas eu dependo dele. Eu tenho o contacto do Doutor Feelgood. Tu vais ser a minha salvadora.) ROSE: Que horror.) ROSE: (Grita. Já não consigo estar sentado.) Menina Rose. (Tom piora e os movimentos alastram a todo o corpo. Essas injecções não prestam. não se finja de cadáver! TOM: Eu já sou um zombie. Segure-o desse lado. Ele anda sempre a viajar. mas ao meter-lho na mão. Eu acho que estou a morrer. Williams.) Por isso é que tu apareceste. ela deita-o para o chão. mana. em trajes de freira-enfermeira. Dê cá o braço. Tu telefonas-lhe e ele encontra-se contigo aqui em Nova Orleães. mana. para o dar a Rose. Williams. CHARLOTTE: Não seja piegas. por favor! O meu irmão está muito mal! (Entra Irmã Charlotte.

Sr.9 CHARLOTTE: Então caminhe até à cama.) CHARLOTTE: Que disparate. . TOM: Tu não digas mal de mim a esta freira do inferno. Tom! CHARLOTTE: Não se preocupe. E pelo vidro da porta vi-lhe a cabeça toda entrapada. Agora já está mais calma. sei bem o que isso é. ROSE: Pois não. CHARLOTTE: O Sr. com as suas próprias mãos. mas não me dê dentadas. ROSE: Infelizmente. E esta clínica não é o palco de um teatro. ROSE: Então. Estava pior que o Treplev quando disparou sobre si mesmo da primeira vez. TOM: E a Charlotte também não se escapa. Williams. mas arrancaram-me o espírito. insultam-nos de tudo. Mas a Rose não mostra efeitos secundários da operação. Eu já estou habituada. TOM: Pois não. (Rose fica sem reacção. Quando estão nesta fase. TOM: Tu nunca arrancaste os teus belos cabelos. Williams? Mas você não é Deus para poder criar as nossas vidas quando lhe apetece. Arrancou durante a noite quantos cabelos tinha na cabeça. Sr. CHARLOTTE: Pobre rapariga. TOM: Eu ainda não estou convencido de que tu sejas real. ROSE: É que hoje estou muito feliz por ver o meu irmãozinho. minha querida. Havias de ouvir a moça da cela ali ao lado. Williams contou-me o seu caso. Gritou a noite inteira. Tivémos de lhe desinfectar as feridas. que foi muito pior. ROSE: O meu irmão sempre foi muito hipocondríaco. A sua irmã veio de longe para o ver e você diz que ela é uma fantasia. E o seu irmão nem é dos piores. Tom. CHARLOTTE: Então eu também sou uma invenção da sua mente. que o meu turno não acabou ainda.

por favor! A Irmã Charlotte não engana ninguém. Eu sempre o tenho tratado tão bem. TOM: A Charlotte tem o nome da primeira enfermeira americana. CHARLOTTE: Deram-me este nome em homenagem a essa brava pioneira. Foi assim que a nossa mãe nos educou. Sou uma mulher de Cristo. Tom? A Irmã Charlotte tem olhado por ti. É esse o disfarce que escolheu para a terça-feira gorda? CHARLOTTE: Você é cruel.) Cena 3 ROSE: Era preciso fazeres isso. porquê? Acha-me assim tão feia. mas nós não podemos dizer em voz alta tudo aquilo que os nossos olhos vêem nos outros. É verdade que ela tem uma cara e um corpo muito masculinos. TOM: É uma megera a fingir-se de santa. mas o seu rosto não tem nada a ver com os retratos dela. A Irmã já se viu ao espelho? CHARLOTTE: Já. . não. mano. (Apanha do chão o papel com o contacto de Max Jacobson e sai de seguida. Não mereço que me humilhe deste modo. ROSE: Tu sempre adoraste as megeras vulneráveis. desde que aqui entrou. TOM: Deixe-se de farsas. São parecidas contigo. TOM: Para o meu gosto.10 TOM: Mas às vezes parece. a começar pela senhora. Até a acho bem apetitosa. Espero poder honrá-la com a minha missão. Parece uma heroína de Stonewall que se escondeu neste convento para fugir à polícia. na presença da sua irmã. ROSE: Tom! CHARLOTTE: Eu não ouvi nada. Sr. enxugando os olhos com um lenço. Williams. Você é um homem travestido de freira. que chefiou este hospício.

) Cena 4 OZZIE: Finalmente. desde o último Outono. Talvez se ele despisse o hábito de freira… ROSE: Então pede–lhe para fazer um strip-tease ao som de jazz. Traz uma caixa de cartão com bolos.) Tu estás tal e qual na mesma como quando partiste. posso beijar os meus meninos. no Tennessee. meu Deus.11 TOM: Eu só fiz isto para desmanchar-lhe a máscara. não foi Ozzie? Essa culpa tem-me acompanhado a vida inteira. É o que eu sou. (Entra Ozzie. TOM: (Abraça Tom. E tenho muito orgulho nisso. E agora até já negros e brancos se podem beijar na televisão. Como estão os meus queridos meninos? TOM: Minha adorada Ozzie. Se ela for mesmo um homem. a trabalhar nos campos de algodão dos meus irmãos. OZZIE: A pele negra disfarça bem o peso da idade. Eu conheço aquele homem travestido. também vou gostar de ver o espectáculo. há quantos anos… ROSE: (Abraça Ozzie. TOM: Tu nunca mais voltaste à nossa casa por causa do que eu disse. era eu tão novinha. . Estava uma freira ali à porta que não me deixava entrar.) Como é que tu me descobriste? OZZIE: Eu nunca deixei de olhar pelo meu menino e pela minha infanta. Mas agora saiu daqui num pranto e deixou-me o caminho livre. Mas não consigo lembrar-me quem é. emocionada. menino! E eu ia dar fé ao dito de um pirralho? Tanta gente me chamou preta escura na vida. Já dormi com ele. OZZIE: Que tolice. uma jovem mulher negra. Há quantos anos. ROSE: O que foi feito de ti em todos estes anos? OZZIE: Ora. Parecia um cão de guarda.

já não sou eu. Eu vi o capitão Kirk a beijar a tenente Uhura n’ O Caminho das Estrelas. O ano passado foi também de luto. Ozzie. quando mataram o nosso herói. mas o modo como vivias cada personagem. ROSE: Ficávamos os dois presos ao teu feitiço. Ozzie. Abriu-se-me uma cova no peito. TOM: Mas tu também tinhas jeito para actriz. menino. no silêncio da noite. menino. TOM: A Rose é viciada em televisão. OZZIE: Não há nada a perdoar. se não tivesse aprendido a ler tão tarde. menino. (Mostrando a caixa que trazia. OZZIE: Não falemos agora de tristezas.12 ROSE: Pois é. também eu. Mas esse beijo na tv é filho de uma tragédia. TOM: O teu perdão deixou-me sem palavras. Ozzie. Foram os melhores tempos da minha vida os que passei convosco. TOM: Mas tu serás sempre a princesa africana que me dita os enredos dos meus dramas. Eu gostava de ter sido escritora. TOM: Foi um vazio tão grande aquele Setembro. e esquecíamo-nos de tudo. ROSE: A Nichelle Nichols é linda como tu. OZZIE: Também eu menina. em que não voltaste para nós depois das férias.) Vejam! Trouxe os bolinhos de gengibre que vocês tanto gostam. Chorei pelo Luther King uma semana inteira. que é um escritor famoso. Ozzie. mano! . TOM: Sinto a falta das tuas histórias intermináveis. como se eu tivesse sido alvejada pelo assassino. OZZIE: É bom saber isso. OZZIE: Agora quem conta histórias é o menino. Fiquei inconsolável. Não era só as histórias que contavas. dos teus contos de encantar e meter medo. ROSE: Bolinhos de gengibre.

mana. TOM: Está bem. OZZIE: Agora é a vez do menino. Rose. TOM: Eu já soube o nome do médico. ROSE: São bolinhos mágicos.) É isso que tu queres. TOM: Eu quero que a Ozzie mostre hoje o seu talento como actriz. ROSE: Não sabia que os fantasmas podiam comer bolo de gengibre. que és a mana mais velha. Mas o homem já deve ter morrido. ROSE: Boa. ROSE: (Alarmada. mano! OZZIE: Estou curiosa para ver o que me acontece. Só assim é que a magia do bolinho faz efeito. não é um desejo egoísta. Ozzie. OZZIE: Mas é um desejo a pensar num amigo. . Quem é que começa? TOM: Começas tu. TOM: Qual é o teu desejo. Era estrangeiro e ganhou um prémio Nobel. E tem de ser dito em voz alta. numa história que imaginei para ela. Ozzie? OZZIE: Eu quero que os meninos possam conversar cara a cara com o médico que inventou a operação que fizeram à cabeça da Rose. OZZIE: E isso que tem? (Comendo o seu bolinho. para lhe poder pedir desculpa. Não se pode guardar segredo.) Eu também já posso estar morta e vocês não dão por isso.13 TOM: Esses bolos são uma lenda da nossa infância. Eu fico para o fim. ROSE: (Pega no bolinho e formula o desejo.) Eu quero que o Tom descubra a verdadeira identidade da Irmã Charlotte. não é? Temos de os comer e formular um desejo. Ozzie? Mas eu não sei se estou preparada para esse encontro.

(Entra Tallulah Bankhead. é uma honra. a responder a Ozzie. TALLULAH: Meu querido. Mas se o menino quer que eu apresente isto hoje. E só em dois lugares se conhecem os amigos: na prisão e no hospital. Ozzie. (Espreita pela porta do quarto. Ele agora é um dramaturgo da alta roda. habituado a privar com as estrelas de Hollywood e da Broadway. minha menina. tu continuas a mesma. Cena 5 (Ouve-se a voz de Tallulah Bankhead. o que é feito de ti aqui enclausurado? Querem tornar-te frade em convento de freiras? TOM: Tallulah! Como é que tu soubeste que eu aqui estava? É um segredo que eu não queria partilhar. O que é que um fantasma não faz em Nova Orleães? Nesta cidade embruxada. Ozzie. ROSE: Vá lá. os mortos e os vivos saem juntos a celebrar o Mardi Gras. Parece ser uma artista de cinema. tenho de ir já estudar o meu papel. Sou uma artista mas não só de cinema.) TALLULAH: Meu querido Tenny. eu tenho uma óptima rede informativa. É esta a história com uma personagem para ti. Eu volto outra vez quando chegar a minha cena. eu não quero desapontar o seu mano. haja um terceiro lugar onde eu gosto de conhecer todos os amigos. interpretada pelo mesmo actor que foi antes Irmã Charlotte.) Toma. ao sair de cena.) O menino tem aqui outra visita. Não sou tola como a . nem mesmo com os amigos. Sou uma artista da vida. Embora. fica mais um pouco aqui connosco. querido. menino. Mas contigo. Vai mais um bolinho? TOM: Ozzie. no corredor.14 OZZIE: Ora. OZZIE: Obrigada. que é na cama. OZZIE: Menina Rose. (Tira de debaixo do colchão um conjunto de folhas dactiloscritas.) TALLULAH BANKHEAD: Acertou quase minha querida. já perdi a esperança.

Não suporto ver-te nesse pijama que as freiras te enfiaram. Não sou eu que arrumo o quarto. Tallulah. Para que me vou eu vestir? Passo o tempo a ensopar pijamas com suores frios. beba qualquer coisa para aquecer o sangue. Rose. desculpe. Tallulah! TALLULAH: Não falemos de mortes. . TOM: Pois foi. toca a vestir um traje decente. onde estão as roupas dele? ROSE: Não faço a mínima ideia. Temos de o arrancar desta cama. TOM: Que queres tu fazer. TALLULAH: Ai. não há nada como um copo de whisky para diluir a melancolia. Rose. O pobre ainda morre de tédio. querida. TALLULAH: Que tristeza. Não tem nada a ver com o pijama do Tom. Estás muito fatalista. Vá. Pela boca morre o peixe e Oscar Wilde. não concorda comigo? Temos de alegrar o seu irmão. não é o café dos artistas.15 Diana Barrymore. querida. querida. Parece mais um colete de forças. ROSE: Eu sei por experiência própria o que é um colete de forças. Tallulah. TOM: Aqui copos só se forem de água. Tens de reagir. querido! Rose. E fui eu mesma que lho ofereci. vamos despir este pijama de mau gosto. Não leve a mal a minha língua solta. querida. TOM: Ela não se matou só por minha causa. querida. querido. Vá. Sou assim mesmo e o seu irmão é um velho parceiro de muitas aventuras. como está? Que boas cores. que se suicidou quando percebeu que tu jamais te excitarias com as suas coxas de trintona sonhadora. Tallulah? Eu não posso sair daqui. Se ao menos pudesse ir nadar ao Clube Atlético… TALLULAH: Ora querido. Não há nada que se beba nesta cela de convento? O menino não sabe receber a visita de uma amiga sequiosa? TOM: Isto é uma clínica. Já falei demais. TALLULAH: Mas querido. a minha língua.

mas eu não acredito. (Insiste na oferta. querido. querida? Eu sei que a Rose é uma grande fumadora como eu. numa clínica como esta. TALLULAH: Vá. Não quer um para si. Ela não pertence ao convento. querida. É a nossa ama de infância. ROSE: Eu venho já. E um dia há-de voltar. ROSE: Isso dizem vocês.) . querida.) O cigarro da paz? ROSE: Guarde os cigarros. A companhia tem pouco dinheiro. vocês vão ver. Aqui não se pode fumar.) Eu faço um sacrifício em honra do nosso doente. A Blanche é uma personagem de teatro. Quero voltar a fazer a Blanche DuBois aqui em Nova Orleães. Tallulah. Isto é um quarto de hospital. para nos pedir contas. ROSE: Fiquem os dois à vontade.16 TALLULAH: Preciso de um cigarro para relaxar. Ajudo-a a decorar o papel que tu escreveste para ela. não é uma pessoa. para lhe extrair a loucura. (Rose sai. Tom despe o pijama e muda de roupa quando Rose se ausenta. Rose? ROSE: Não te preocupes comigo.) Tu agora já não estás sozinho. vá! Preciso falar a sós com o Tenny. TOM: Ficas bem. com o cigarro na mão. TALLULAH: Tu vais pôr as freiras a ensaiar uma peça tua? Que ideia exótica. Eu acho que a Blanche continua viva. TALLULAH: Tem toda a razão. Se quiser fumar. Já estou a ver o título: Irmã Charlotte em telhado de zinco quente! TOM: Não são as freiras. ROSE: A Blanche DuBois… Que será hoje feito dela? Os médicos também devem ter-lhe aberto o crânio. É só a Ozzie. Posso ir ter com a Ozzie. Mas preciso que ele seja generoso com os direitos autorais. (Guarda os cigarros. Eu hei-de descobri-la. TALLULAH: Querida! A menina está um pouco confusa. (Para Tom. Negócios de palco. pela minha mão. pode ir para o jardim.

querido. A culpa que eu dizia é uma culpa de artista. Vais apaixonar-te por ele como eu.17 Cena 6 TOM: A Rose ficou tão estranha de repente. Tu é que és o culpado por ela estar assim. Imagina tu que nasceu na minha terra. Não é de espantar que a tua vida se misture com aquilo que inventas. Tu criaste uma personagem tão intensa que as pessoas julgam tratar-se de uma mulher real. por favor! Eu sei o quanto sofres pela Rose. TOM: A Blanche tem muitas coisas que são tuas. TOM: Tallulah. temos de ajudá-lo a conquistar o coração da América. Não me entendas mal. TOM: E é preciso vires tu massacrar-me com isso? Já basta esta ferida que me sangra no cérebro dia e noite. TALLULAH: Não é isso que eu quero dizer. . nada. não pude fazer nada. tão profundamente triste. TALLULAH: Eu sei. Descobri-o em Provincetown. e tuas também. querido. TALLULAH: Porquê querido? Não estás feliz com a minha visita? TOM: Estares aqui hoje significa que tudo isto é uma ficção do meu delírio. à primeira vista. TALLULAH: Tu és um criador de ficções. Por isso é que a quero viver no palco outra vez. Fazes sempre isso em todas as peças. Encontrei um encenador fantástico. Querido. estou tão triste. Os médicos já lhe tinham feito a lobotomia. Tens de falar com a tua irmã. Agora diz que há-de trazer a Blanche pela mão. Quando cheguei junto da Rose naquele ano maldito. e do mundo. querido. Tens de conhecê-lo. Um Visconti nascido em Alabama. TALLULAH: Pobre rapariga.

TALLULAH: Tu vês homens em todo o lado. mas tu não és Tallulah. let us. offer God the sacrifice Of our minds that he cursed with crime and vice. Of our frames that diseases make dread! Let us offer the tyrant of all.18 TOM: Tallulah Bankhead. É o ar desta cidade de Vénus. let us speak of dirt! God's curse is on our head. TALLULAH: É verdade. Eu sempre adorei despir-me em público.) «Come. And a widow's weeds. (Tallulah interpreta a canção God's curse is on our heads. querido. And a bride's white dress with a stain. Ninguém é perfeito. TALLULAH: Querido. Nem mesmo em pleno Carnaval. Let them be symbols of human strife! Give we God the dirt of the streets Of our spirit. No final. instead Of prayer. Mas agora deixei de fumar. Rose entra e assiste discretamente à cena entre ambos. Não chegaste a festejar o Natal de 68. TOM: És o mesmo homem que há pouco se travestiu de Irmã Charlotte. querido. Não queres ouvir antes um tema do meu show? É uma canção danada para se ouvir num convento. O meu enfisema pregou-me a partida. Os mortos não fumam. eu nunca tive problemas de identidade. To hang in the hall of his palace of pain. TOM: Tallulah. Voltei a respirar outra vez. and the crumpled sheets From the bed of the wife. made mud with our tears. tu dizes ser Tallulah. querido. por favor. Eu sou uma fonte de surpresas. Let our lips irreverence blurt! We are sufferers all. Gosto de tirar a roupa enquanto o canto. tu já morreste há quase um ano. querido. apenas veste um slip preto e retira a peruca. revelando a sua identidade como Frank Merlo. fazendo strip enquanto canta. . Não sei que rainha do vodu me invoca. Nunca se sabe. Estou como nova. Na estrofe final da canção. A funeral pall. mas todos os Sábados à noite eu faço o meu show no Petit Theâtre. Talvez haja um homem escondido em Tallulah.

Apenas tu foste capaz de pôr ordem na minha vida louca. E quanto a ti. Tom. porque nos consome como fósforos. Entrei na idade pedrada. TOM: Sim. Frank. minha querida irmã. que me rodeiam para me sentir vivo. A tua cova foi o meu desamparo. Tom. TOM: Partiste tão cedo. não fui a tempo de impedir que te retalhassem o cérebro. Estou viva ainda. Agravou-se a minha necessidade compulsiva de estar acompanhado. não soube mais o que fazer. Vieste aqui parar para te protegeres do mal que fazes a ti mesmo. Como posso eu esquecer-te? (Abraça Frank. Frank.. the mire of our fears.) Deste-me os melhores anos da tua vida. devo-te tanto daquilo que fiz até hoje. TOM: Por que é que eu trato sempre tão mal as pessoas que mais amo? FRANK: A começar por ti. Frank. desde que nos conhecemos. FRANK: Ainda bem que o reconheces. Tom. minha musa ferida. And the rot of our life!»1 Cena 7 FRANK: E agora. FRANK: Mas vivi o tempo suficiente para me tornar supérfluo a teu lado.. Mas a tua condição é a prova do meu falhanço. E hoje são vocês.19 The dust of our joys. ROSE: Eu não sou fantasma. os fantasmas dos meus mortos. E depois da tua morte. in Poemas Ingleses . TOM: O tempo está sempre contra nós. meu querido Frank. Absorvido por escritas e engates de Verão. Continuo desde lado a fazer-te companhia. Rose. Só compreendi isso quando estavas a 1 Fernando Pessoa. As drogas são o combustível que arranjei para poder lidar com o tempo. descobriste quem eu sou? Ou já não tens memória para te lembrares de mim? TOM: Frank Merlo. Sou um leviano.

Williams.) Cena 8 FRANK: Quem desce aos infernos. Se alguém do hospital me descobre aqui. Eu sei o que estou a fazer. Foi você que deixou o meu irmão neste estado. O meu companheiro precisa dos seus serviços. como um São Sebastião à espera das setas. . Confie em mim. Este hospício de alienados é a última estação. na ausência da Irmã Charlotte. Prefiro ver-te assim.) Não te assustes. tu não podias fazer isto ao Tom. estou a ficar cada vez mais só. FRANK: Não te exaltes. Assim é mais seguro. Frank. FRANK: Quis aparecer-te disfarçado de mulher. Mas veste qualquer coisa. (Fala para o desconhecido..) Podemos ajudá-lo? DOUTOR FEELGOOD: Foi uma freira daqui que me chamou pelo telefone. há seis anos atrás. Dr. Rose. Você não é o Max Jacobson. Ficas com frio nesse corpo italiano.) A tua Tallulah foi genial. Desde que te perdi. para te iludir o tempo. Tire a máscara para que eu possa ver-lhe o rosto. tenho descido aos infernos. Rose. ajudado por Tom.20 agonizar num quarto de hospital como este. FRANK: Fui eu que o chamei. Queres o meu pijama? (Frank aceita e veste o pijama.. DOUTOR FEELGOOD: Não posso. TOM: Eu não estou a reconhecer a sua voz. Mr. Feelgood. ROSE: Não se perdia nada. tu bem sabes. confronta os seus demónios. (Rose grita de susto ao ver entrar em cena um homem mascarado com uma meia caveira que lhe esconde os olhos e o nariz. Sinto falta dela. ROSE: Frank. Traz na mão uma maleta de médico. Este homem é um vampiro. TOM: Travestis não me excitam. em Nova Iorque. TOM: (Protege Rose envolvendo-a nos braços. corro o risco de ser expulso da profissão. É apenas um mascarado que entrou no convento por engano.

não admito que ponha em causa a minha honestidade e competência. assistindo ao que se segue. Williams precisa de continuar com a medicação que lhe dou. Tornei-me espectador dos meus pesadelos. . Costuma apenas drogar as celebridades. interpretada por Ozzie. apenas para me humilhar.) HENRIETTA: Ele pode cobrar o preço da consulta às empresas de remédios que enriquecem à custa das minhas células. DOUTOR FEELGOOD: Minha senhora.21 DOUTOR FEELGOOD: Não. Eu já o tinha avisado. ROSE: Mas ele veio para esta clínica para se proteger das suas drogas assassinas. minha senhora. Ele não é o Dr. TOM: Rose. ROSE: Você não passa de um reles traficante de fármacos. sem intervir. É alguém que se faz passar por ele. Sou eu que o tenho mantido vivo a trabalhar. Chama-se Max Jacobson. Faz parte do meu currículo ter sido médico pessoal do presidente Kennedy. Não pode é misturá-la com álcool. FRANK: O médico que procura é este homem que não quer tirar a máscara. O Sr. Não me parece que aceite fazer consultas grátis (Senta-se algures. A voz não é a mesma. TOM: O meu quarto parece uma estação de perdidos e achados. Jacobson. DOUTOR FEELGOOD: Engana-se. não te enerves. Ele está aqui. Você é um escroque que anda a correr o país para extorquir dinheiro aos seus clientes. HENRIETTA LACKS: Eu venho à procura de um médico com a alcunha de Doutor Feelgood. não está? Viajo atrás dele há muitos dias. por favor. O que pode ele fazer por si? O Doutor Feelgood é um profissional de luxo. Cena 9 Entra em cena Henrietta Lacks.

Mas aquele novelo doía-me de forma diferente. HENRIETTA: Pois. E nasceu aqui. Cresci a trabalhar nos mesmos campos de tabaco. Há uma Henriette famosa que passou por este convento. Henrietta. menina. Mas ainda fizémos o Joe. HENRIETTA: Eu já há muito que sentia um novelo na barriga. Eu nunca vivi em Beverly Hills. Falar das dores atenua por momentos o mal que nos aflige. em Nova Orleães. Ele tirou uma amostra do tumor para análise. Foi a primeira santa mulata da América. TOM: Quem és tu. Henrietta? O que esperas tu deste médico de identidade duvidosa? HENRIETTA: Preciso que ele me receite drogas para aliviar as dores. Eu não sei lidar com feitiçaria. para pessoas da minha cor e gente pobre como eu.22 DOUTOR FEELGOOD: Explique-se melhor! Quem é você. Tinha dores quando ele entrava em mim. O cancro era galopante. Conta-nos o teu sofrimento. Meses depois do Joe nascer. não sou Henriette. Já antes de ter nascido o meu quinto filho. Um médico encontrou um tumor pequeno na minha barriga. Era brilhante como gelatina de uva e sangrava facilmente. mas eu nunca imaginei o destino que iriam ter essas minhas células doentes. O meu nome é Henrietta Lacks. o meu marido. HENRIETTA: A feitiçaria no meu caso é praticada pelos seus colegas médicos. DOUTOR FEELGOOD: A senhora tem de decidir-se. Ando a vaguear em sofrimento e nada consegue combater as dores que sinto. Ou está viva ou está morta. Foi-me destruindo os movimentos e a vida. mas a mim nenhum papa me fez santa. ROSE: Fala. Pensei que fosse doença ruim que o meu marido me pegasse de alguma prostituta. onde os meus avós escravos terminaram os dias. Doente estava eu. Deixei de gostar de estar deitada com o Day. ROSE: Que engraçado. Fui a um hospital em Baltimore. estando morta e estando viva ao mesmo tempo. para me andar a perseguir dessa maneira? Eu não a conheço de lado algum. HENRIETTA: É natural. E eu sou Henrietta. com a morte no corpo. comecei a sangrar fora do tempo. na Virgínia. doutor. O Day levava - .

menina. Não quero mais sentir. mas eu não trato as dores dos fantasmas. Não aguentava a viagem diária. em 1951. nem sabem da sua existência. Estou morta mas o meu sofrimento não tem fim. são extensões vivas do meu cancro. Só sei que foram feitas vacinas e descobertas importantes. HENRIETTA: É verdade. Mas as minhas não morreram.23 me de carro todos os dias. o seu infortúnio pessoal contribuiu para o progresso da ciência. Iriam ser maltratados. coitados. Aconselho-a a procurar um mestre de vodu. Aquele médico em Baltimore recolheu as células do meu tumor e elas nunca pararam de se multiplicar desde então. eu sei lá onde. Henrietta. A minha escolaridade não chega para entender o uso que é feito delas. Chorava de dores e de tristeza por deixar órfãos os meus cinco filhos tão pequenos. E a parte que em mim vive continua a sofrer. Há milhões e milhões de células minhas espalhadas pelos laboratórios do mundo. entregues às mãos de gente estranha. nas indústrias farmacêuticas. Essas células. Não ocupei a cama do hospital durante muito tempo. Nesta cidade não há-de ser difícil encontrar um. Os tratamentos não serviam de nada.. Uma injecção dessas que receita ao Sr. Mas eles. não terminei ainda a minha história. mas era um suplício aquela viagem diária. Não duram muito tempo. nos vinte minutos que separavam a nossa casa do hospital. Tanta gente faz fortuna com as minhas células pelo mundo fora e os meus filhos nem dinheiro têm para um seguro de saúde. ROSE: Henrietta. Eu não morri de todo. Dizem que as células humanas morrem quando estão fora do corpo. Sinto-as ainda como se pertencessem ao meu corpo doente. Ajude-me. o meu marido. Tinha já o tronco queimado das radiações e o cancro proliferava. nunca iria ser capaz de os criar. mas as minhas dores não terminaram. Doutor Feelgood! Faça desaparecer as minhas dores. eu sabia. Eu continuo viva como nunca aconteceu antes a ninguém. . quero esquecer. O Day. Williams deve fazer efeito em mim. Morri com trinta e um anos na maior das angústias. A Henrietta já morreu e eu apenas receito drogas para os vivos. de ida e volta. HENRIETTA: Espere. Um dia supliquei que me internassem. cultivadas como a flor do iogurte em todo o planeta. E se ao menos a minha família tivesse lucrado com as minhas células imortais.. DOUTOR FEELGOOD: Sinto muito a sua tragédia. Arranjaram-me cama no hospital. Acho que morreria mais depressa se continuasse a fazer aquele trajecto infernal. Eu já mal conseguia mexer as pernas.

mesmo que não haja cura no mundo para o teu sofrimento. depois de uma paciente morrer ao ser operada três vezes. eu sou o Walter Freeman. ROSE: Adeus. Henrietta. (Lê o cartão em voz alta.24 DOUTOR FEELGOOD: Isto é surreal. Williams. Vou deixar-vos em paz.) Eu tinha razão. abre-a e revista-lhe o interior como se procurasse algo. especialista em lobotomia. . TOM: Não explica nada. TOM: Obrigado. O Doutor Feelgood sempre teve cocktails de drogas para todos os quadros clínicos. Henrietta. nós já percebemos. HENRIETTA: Seja você quem for.) Doutor Walter Freeman. Se você diz que é o Max Jacobson. Sr. Valeu a pena dares o teu testemunho. médico neuropsiquiatra. HENRIETTA: Adeus. Mas antes de partir quero pedir-lhe uma coisa.) Walter Freeman. A sua vida transformou-se numa peça de teatro inverosímil. Sr. Encontra um cartão e um objecto parecido com um picador de gelo. Eu gostava que o senhor escrevesse uma peça com a minha tragédia no centro da acção. Eu não posso dar injecções a um fantasma. Williams. TOM: Não se vai embora coisa nenhuma. Não me custa nada fazer o papel dele nesta fantasia gótica. Eu já o vi na televisão. E eu também estou a precisar da minha dose. (Tom agarra na maleta do médico. Eu não mereço ser apenas uma aparição efémera numa peça sem intervalo. DOUTOR FEELGOOD/WALTER FREEMAN: Eu posso explicar. Este homem não é o Doutor Feelgood. ROSE: (Aterrada. Sr. já não me importa. Continuarei com a minha dor até ao fim do tempo. Eu vou-me embora. Não me pode ajudar. Mas tiraram-lhe a licença há dois anos. Este homem fez milhares de lobotomias. Pode bem ter sido ele que me operou no passado. Faz serviço ao domicílio. tem obrigação de ajudar esta infeliz. WALTER FREEMAN: Isto é uma casa de loucos. Williams. Este cartão e este objecto denunciam a sua identidade. Então se vocês querem que eu seja o Walter Freeman. TOM: Prometo que não vou esquecer-me de ti. por teres vindo.

por favor. Williams. Talvez no fundo você deseje que eu lhe faça esta simples intervenção. com essa caveira nos olhos. Não quer experimentar? TOM: Você fez um pacto com o Diabo! WALTER: O que eu fiz foram muitos melhoramentos nesta cirurgia. Basta um toque deste instrumento que aperfeiçoei e nunca mais vai precisar do Dr.) Cena 10 WALTER: Sr. Sr. e não acredite nas promessas do Tom. como se o corpo quisesse explodir por todos os poros. Feelgood para o encharcar de drogas. Tudo isto estava ainda numa fase experimental. Walter. Hoje eu faço dezenas de lobotomias por semana com estas varinhas mágicas.) TOM: Frank. Insiste em ver em mim o Dr. A paz e a serenidade irão invadir os seus dias. Vou entrar noutra crise de ansiedade por falta de drogas. Não se compara nada com o tempo em que a sua irmã foi operada. Eu não quero ser assediado por um vendedor ambulante de lobotomias. que modificará a sua vida para sempre. ROSE: Eu vou contigo até à porta. (Imitando a voz de Tallulah. Estes dois devem ter muito que conversar.) Estou a fazer-te um favor. É uma sensação horrível. FRANK: Eu saio também convosco. em descontrole motor. FRANK: Há sempre momentos em que tu preferes a companhia de estranhos. (Começa a tremer. Ele é um completo estranho para mim. (Henrietta sai com Rose. Walter Freeman. Agora é instantânea. WALTER: Mas foi você que assim o quis. querido! (Sai. TOM: Você é assustador. Não suporto este médico maldito. Williams. não há razão para estar com medo de mim. não me deixes a sós com este sujeito sinistro.) .25 FRANK: Adeus Henrietta. TOM: Você está a perturbar-me.

retira-lhe o revólver das mãos e conforta-a com um afago. que dei fama universal a este tratamento fantástico. o maior dos seus discípulos. Fui eu. Sr.) Cena 11 Frank entra no quarto depois de Rose disparar os tiros. Vai sentir-se muito melhor. relaxe. quando existe esta terapia simples e definitiva para os males da mente? Todos os seus pânicos se esfumam num abrir e fechar de olhos. Vá. Vamos aplicar um leve sedativo para não sentir nada. E ficará até ao resto dos seus dias embalado numa doçura de brandos costumes.) Você está muito doente.) TOM: Freeman. Williams. temos de diminuir essa agitação. Williams. recline aqui a sua cabeça. E depois. Dormirá um pouco. Eu levei esta bênção a milhares de lares americanos. Walter Freeman. Rose entra e atinge-o com dois tiros de pistola. Sr. mas eu tenho a solução para o seu problema. Você adora ser penetrado pelo instrumento de um estranho. Mas ele não teve condições para popularizar a sua criação no seu pequeno país. Quero sair deste pesadelo. (Quando Walter se prepara para lhe aplicar a injecção. Rose! Frank! Salvem-me deste médico louco! WALTER: Ora. Mas antes. irá acordar um novo homem. TOM: Foste tu que disparaste. Verá que vai ficar espiritualmente muito mais próximo da sua adorada irmã. . inanimado. Rose? ROSE: (A partir deste momento.) Esse médico ia fazer mal ao meu Tom. Williams. Segura-a nos braços com delicadeza. graças a esta invenção de um cientista português. O corpo não me está a obedecer. o que é que você me vai fazer com esse objecto fálico? Eu não consigo parar de tremer. (Prepara os instrumentos para a lobotomia.26 WALTER: Eu ajudo-o. Sr. Para quê estragar o estômago e o coração com venenos químicos. (Ajuda-o a deitar-se na cama. Rose manifesta o comportamento e o discurso erráticos de uma lobotomizada. Walter cai no chão. Siga o meu sábio conselho.

enquanto esperam sentadas pelo fim da hora da visita. com um olhar fixo e vazio. O revólver da Rose não podia atingi-lo. Mas que fazemos nós com o corpo? ROSE: Enterra-se no jardim.. Rose.) Salvei o meu reino deste perigoso inimigo. TOM: Ó Rose.) TOM: Continuo a sonhar com vocês os dois e tenho muito medo de acordar.. Tom. cavalheiros. TOM: Mas Walter Freeman está vivo como eu e o Max Jacobson também. Vá! Beijem a minha mão. ROSE: A Rose não se importa. sentes-te melhor? TOM: A crise abrandou. TOM: (Para Frank. Sou uma rainha do Sul. Frank! O homem não está morto! FRANK: Não sejas histérico. E tu. Ele entrou no nosso jogo de disfarces.27 TOM: Tu salvaste-me. ou talvez sejam as visitas da clínica que sonham tudo isto. As freiras rezam. ROSE: Eu não sou pobre. FRANK: Mas este homem que aqui vês não é o Max nem é o Walter. Fui eu que lhe pedi. (O corpo do baleado move-se no chão.) Quem sabe se é este médico estranho que nos sonha a todos nós? TOM: O homem mexeu-se. ou talvez seja eu. Sua Majestade precisa de repousar. FRANK: Talvez seja a Rose que sonha.) Onde foi ela buscar a arma? FRANK: A Ozzie emprestou-lha. Ambos podiam ser mortos com dois tiros de pistola. Apenas podemos matar os vivos. meus vassalos! (Ela dá a mão a beijar a ambos e eles entram no seu jogo de faz-de-conta. É um bom adubo para as flores. Tal como eu não sou a Irmã Charlotte nem a Tallulah Bankhead. E este que aqui vês morreu antes de mim. (Senta-se na cadeira de baloiço. TOM: É alguém do mundo do teatro? . Fizeste aquilo que eu não consegui fazer por ti. voltaste a ser a minha pobre Rose.

A tua memória está danificada. OZZIE: Se a Irmã Charlotte se demitiu de funções. alguém tem de substituí-la. A Ozzie vai contar-nos as histórias dos animais que falam. vestida de freira-enfermeira. não é verdade? TOM: Ozzie. mas preciso de ajuda para me levantar e de uma cadeira de rodas. OZZIE: Quem me ajuda a levantá-lo do chão? (Frank e Tom ajudam Ozzie a levantar Egas Moniz e a sentá-lo na cadeira de rodas. (Para o médico.) ROSE: Estou tão feliz. TOM: Meu Deus! É este o médico português que ganhou o Nobel? EGAS MONIZ: Sou eu próprio. ROSE: (Fala como se fosse uma cantilena infantil.) Cena 12 FRANK: Que eficiente.28 FRANK: Não. (Entra Ozzie. TOM: Obrigado. Tom.) A Ozzie comeu o bolinho de gengibre e desejou que a Rose se encontrasse com o lobo mau que inventou a operação que fizeram à cabeça da Rose. minha princesa. Egas Moniz! Chegou a hora de o desejo da Ozzie se cumprir. Vou melhorar mais depressa contigo por perto. E já vestiste o uniforme do convento. FRANK: Abusas das drogas.) Levante-se. querida Ozzie. que bom ver-te outra vez. trazendo uma cadeira de rodas. Dr. OZZIE: Vou ficar aqui em serviço até o menino sair deste hospital. . Ozzie. TOM: Que desejo era? Eu já não me recordo. mas lidou em vida com muitos loucos. OZZIE: Sim.

Arrancaram o tempo da . não foste tu a responsável.29 FRANK: Sente-se confortável? Foi a cadeira que pudémos arranjar. sabe? Tenho vinte e oito anos. Duas balas atingiram-me. com alívio. O seu Frankenstein revoltou-se contra si. Voltei a andar.) TOM: Até já. Vamos saír daqui. Agora já posso tirar a máscara. Preciso de uma cadeira destas por perto.) Adeus. (Moniz beija-lhe a mão que ela estende para ele. (Despede-se do irmão. Williams. Rose. Este paciente não tinha sido lobotomizado. doutor. Moniz. Tom. mas fiquei mal da coluna. ROSE: A conversa deles põe a Rose nervosa. Tinha eu sessenta e cinco anos. (Tira a máscara do rosto e limpa a cara. ROSE: Ozzie. EGAS MONIZ: Não. OZZIE: A Ozzie faz-te companhia. Um doente meu em estado de fúria entrou no meu consultório e disparou oito tiros. ROSE: Frank. (Beija-o na testa. ROSE: Adeus. A Elvira ficou assustada com o comportamento colérico do homem. queres fumar comigo no jardim das Ursulinas? FRANK: Sabes o que te diria a Tallulah? O mortos não fumam. (Frank e Rose riem. Achou que eu não lhe receitara as ampolas certas e puxou da pistola. TOM: No caso desse doente. a lobotomia não o deixou mais calmo. até pareces a mamã. Sobrevivi dezasseis anos.) OZZIE: O tabaco matou o Frank e faz mal aos pulmões da minha menina. EGAS MONIZ: Está óptima. e vingou-se. Temos de lidar com pessoas em estados críticos.) Sou sua filha. está enganado. Dr.) ROSE: Foi a Rose que o deixou paralisado? EGAS MONIZ: Não. Mas é próprio desta profissão. Sr. A minha mulher tinha-me avisado três dias antes que eu não devia recebê-lo na consulta. Rose. querida! ROSE: Mas eu estou viva.

(Ri-se. Williams. a Ozzie e o Frank estão à tua espera. diante do seu espectro. Frank. pai. sem nunca o conhecer. As senhoras do sul nunca se calam. EGAS MONIZ: Esteja descansada. talvez me receitasse a lobotomia. Quero ser escondida dentro d' O Amante de Lady Chatterley. Tom. Desde que me levantei daquela maca. que tenho a ilusão de conversar consigo. Cena 13 TOM: Alimentei tanta raiva por si. Uma rosa pela raiz. E se você fosse agora o meu médico. Sr. não se esqueça de passear pela cidade. em que nada mais haveria a fazer aos pacientes. EGAS MONIZ: De modo algum. Não posso responder por ela.30 minha cabeça. para aliviar o sofrimento. porque apenas atingia a massa branca que liga os lobos frontais ao resto do encéfalo. Rose.) TOM: Rose. Dr. Chamavase leucotomia. não sei que palavras utilize. ao longo de décadas. É por estar pedrado pela falta de drogas. eu sou como aquelas rosas que se guardam secas dentro das bíblias. E tu. A operação que concebi só era aplicada em casos muito extremos. Ouvi dizer que gosta de injectar vinho do Porto no bolbo das rosas.) Doutor. Está um belo dia de sol. E não canse o Tom. Ele é um jovem de saúde frágil. . Ozzie acompanha-os.) Adeus. Nova Orleães é o lugar onde todos os fantasmas se sentem em casa. Mas eu não quero estar fechada numa bíblia. Moniz. Quero que te orgulhes da tua criatura. Foi uma técnica desenvolvida por seguidores meus. (Ri-se. E tinha um outro nome.) Antes de nos deixar. FRANK: (Dá um aperto de mão a Egas Moniz. Pareço a mãe. A lobotomia resulta da operação que inventei. (Frank dá o braço a Rose e saem. e agora aqui. não podes vir para o jardim meter charutos na boca para aborrecer as freiras. Devia vir connosco para o jardim. vou seguir o seu conselho. por favor. (Ri-se. Nunca mais fiz anos. ROSE: Falo demais.) EGAS MONIZ: Obrigado. mas é mais radical nos seus procedimentos.

Ela destinava-se apenas a casos de doença mental muito severa. Já ninguém consegue fechála outra vez. Walter Freeman. Williams. que você fingiu ser há pouco. Os electrochoques eram o recurso comum e universal. TOM: Um entusiasmo muito americano. como já lhe disse. mas não foi só o Walter Freeman que cometeu excessos com a lobotomia. EGAS MONIZ: Não estou a acusar o Walter Freeman.. EGAS MONIZ: Fui diplomata ao serviço do meu país. TOM: O doutor sabe medir as palavras. EGAS MONIZ: Eu apliquei uma técnica terapêutica num tempo em que não havia ainda fármacos que agissem sobre a mente. Ele subscreveu petições para que eu viesse a receber o Nobel. Ele admirava-o muito. mas a ciência falou mais alto que a política. E olhe que não era um espectáculo bonito de se ver. O Dr. . como há hoje. TOM: Eu sei. E ele receitou muitas lobotomias de forma pouco selectiva. Não seria honesto da minha parte. não me faça julgamentos sumários! Eu sou um cientista e não um carrasco. Moniz quer descartar-se da sua responsabilidade.. mas foi o Dr. É como quebrar a casca de uma noz. não gostaria de ouvi-lo a dizer isso.. Sr. Foi arrastado pelo entusiasmo face à terapia que criei. Apenas digo que o Walter aplicou a operação de uma forma que eu nunca faria. Eu talvez não receitasse a operação à Rosemary Kennedy. por favor. TOM: O terrível é quando essas duas funções se confundem. EGAS MONIZ: Não sei se é apenas americano. Moniz que abriu a caixa de Pandora que é o cérebro.31 TOM: O Dr. EGAS MONIZ: O Walter quis fazer da lobotomia uma coisa popular.. como sabe. colocando a lobotomia nas mãos dos seus continuadores. EGAS MONIZ: Sr Williams. TOM: Voltemos ao Walter Freeman.

E depois tinha crises de histeria em que acusava o nosso pai de assediá-la. Um dia. porque é uma criação humana. Moniz. que diziam em voz alta aquilo que a sociedade hipócrita queria abafar a todo o custo. fascinados com o seu invento. Eu já não vivia com eles nessa altura. Os médicos não são deuses. que a sua operação criou? Gosta de ver esses milhares de zombies. como a Rose. Williams. em lenta caminhada. Não posso assegurar o que aconteceu de facto. Dr. que desejam devorar o fantasma do seu criador? EGAS MONIZ: Por que é que me tortura com essa imagem de pesadelo? TOM: Porque a minha irmã Rose podia ter tido uma existência normal. Tiraram a mioleira aos pobres símios. EGAS MONIZ: Os chimpanzés tiveram a sua importância. Transformar doentes indomáveis em bonecos de cera viva. TOM: Mas tantas vezes se comportam como monstros... a sua operação foi um meio cruel para calar milhares de vozes de mulheres indefesas. Nada mais natural para uma mulher solteira da sua idade.. para os quais não havia forma de atenuar os sintomas. Sr. . Mas uma coisa eu lhe afirmo. EGAS MONIZ: Sinto muito o caso da sua irmã... essa história dos chimpanzés que o inspiraram. amputar a emoção a quem a tinha em demasia. mas a ciência também erra. A Rose tinha vinte e oito anos. Dr. Doutor Fausto. mas o que captou mais a minha atenção foi o caso clínico de um homem em que a extracção de um tumor no cérebro obrigou a que as ligações com os lobos frontais fossem cortadas. assisti em Londres a uma conferência que me impressionou..32 TOM: E a multidão de imbecis silenciosos. e eles ficaram tranquilos como ovelhas mudas. TOM: Já sei. quando chegava a casa embriagado. Entre cada três lobotomias. Se não fosse o preconceito puritano da minha mãe que a entregou como cobaia nas mãos dos seus colegas do Novo Mundo. TOM: Foi esse o seu sonho. As vozes do desejo de tantas mulheres que foram mutiladas. como a minha irmã. O homem sobreviveu à cirurgia mas as suas reacções emocionais tinham quase desaparecido. e começou a dizer em voz alta que queria foder com homens. EGAS MONIZ: Você não me vai culpar por todos os que fizeram mau uso da minha cirurgia! A minha intenção era aliviar a vida dolorosa de doentes obsessivos. duas foram feitas em mulheres. Moniz.

onde Tom se reclina. Sr Williams. mas você tem de deitar-se. (Egas Moniz movese na cadeira até junto de Tom e dá-lhe uma mão. não pode negá-lo! Houve presos políticos submetidos à lobotomia para que as suas vozes de dissidentes se calassem para sempre. Sr. Fui como um escritor que necessita ser traduzido noutra língua para alguém o entender. Mas tal não sucedeu assim. Você viveu numa ditadura. Eu não sou um monstro diabólico. cujo aplauso é unânime. Sofro muito com os erros médicos que a lobotomia trouxe consigo. decepção. a radiologia às artérias do cérebro. Sr.) . (Tom piora do descontrole motor.. após a sua morte? EGAS MONIZ: Nada é simples. Moniz! Você devia ter previsto as aplicações perversas para a arma perigosa que punha no mundo! (Tom começa a ficar de novo com tremores. Sofri de gota desde jovem e as minhas mãos mal serviam para segurar a lapiseira. O cirurgião Almeida Lima foi as mãos que eu não tinha. ao contrário do que pensa. O prazer dos humanos em torturar o semelhante nasceu com a nossa espécie. Moniz. Dr.) EGAS MONIZ: Não pode exigir-me o dom da profecia. O comité sueco resolveu imortalizar o meu nome com a operação ao cérebro. Williams. Teria preferido que o Nobel me tivesse sido atribuído por outra das minhas invenções. TOM: Sabe que há muita gente a desejar que o Nobel lhe seja retirado. Imaginei uma cirurgia. seis anos antes de eu morrer. Williams. internada em manicómios. Dr. Jamais entenderá as minhas motivações. E eu não tinha razões objectivas para rejeitar o primeiro Nobel que era dado a um cidadão português. Williams. Você é um artista.33 EGAS MONIZ: Você é um poeta ferido. mas eu não podia operar. TOM: Podemos sempre recusar um prémio que nos oferecem. Sabe-o bem. A terapia que inventei trouxe-me a fama e também muita dúvida. O prémio que eu recebi também lhe pertenceu. guiando-o até junto da cama.) Você tem de descansar. Sr. Eu guiava-o com palavras e ele manipulava o bisturi. por esse mundo fora. Eu não posso sair desta cadeira. muita angústia.. Aquele caso deixou-me a pensar numa solução terapêutica para tanta gente alienada e sem esperança. a que chamei angiografia. EGAS MONIZ: Recusar um prémio destes seria sinal de uma arrogância maior. Sr. amargura. TOM: Mas houve usos repugnantes para a sua terapia. Williams.

Não chegamos a lado algum. Temos de acabar o nosso encontro. EGAS MONIZ: Como se chama essa sua peça? TOM: Bruscamente. sempre valeu a pena visitá-lo. como se se tentasse lembrar de algo. entram no quarto. Williams. Williams. Não sou poeta.. Sr.. respectivamente. em St. Moniz. EGAS MONIZ: Diga. Obrigado. vestido. eu decidi fazer uma ficção com a memória da Rose. Louis. Levanta-se a seguir. lentamente. mas não se exalte. terminada que foi a experiência de alucinação de Tom.. no Verão Passado.. acompanhando as luzes que iluminam agora o quarto de forma inédita. assinalando a revelação do lugar real onde a acção decorre. Quando as luzes se acendem. onde Tom de facto se encontra internado. pelo actor que foi Frank e pela actriz que foi Ozzie. TOM: Eu esperei pela sua morte. EGAS MONIZ: Ainda tem um enfarte por minha causa. EGAS MONIZ: É um belo nome.34 TOM: Obrigado.) Cena 14 Um médico e uma enfermeira do Barnes Hospital. mas soame bem. Williams? Não desejava que eu a lesse? TOM: Não sei explicar-lhe. Afinal. Até sempre. em semisonolência. interpretados. Egas Moniz já se ausentou. Sr. TOM: Queria dizer-lhe uma coisa. O tempo passado não se pode corrigir e eu não posso desfazer o que fiz. para pela primeira vez abordar o tema da lobotomia numa das minhas peças. Tom está levantado e murmura repetidamente uma palavra. Dr Moniz. Fiquei a saber que o maior dramaturgo americano me escreveu uma oração fúnebre. Sr. Dr. (Escuro. Tom permanece encostado na cama. Williams. Sr. . Quando o meu psicanalista me informou da sua morte. EGAS MONIZ: E porquê.

Foi muito atingido pelo furacão Betsy. É altura de desfazer os seus enganos.. Williams. (Para a Ozzie.. Williams tem estado em delírio estes dias. Mas Nova Orleães nunca se dá por derrotada. depois da catástrofe. mas nós não estamos lá.): Não! Não! Eu não quero que isto seja assim. . Sr. Renasce sempre. que arrasou a cidade. Foi para aqui que o Sr.. Sr. E o Halloween é só para o mês que vem. não é verdade? TOM: Frank. Hoje é terçafeira gorda. Grita em desespero. cada vez mais forte. Williams. Sr. Estas batas são os nossos trajes de trabalho. está sempre a trocar-nos os nomes. Sr. TOM: Mas eu julgava estar internado no Convento das Ursulinas.. SUSIE: O Sr. O velho convento só funcionou como hospital nas suas origens.35 TOM: Redenção.. Eu sei que Nova Orleães é a sua cidade de eleição. Que horas são? O corso já deve ter passado pelo Camino Real. Williams? Hoje já está muito melhor.) É um trocista. Eu sou natural de Nova Orleães. sinto muito. Deixei-me dormir. Podia tê-lo visto da janela.. TOM (Treme de novo violentamente. ENFERMEIRA SUSIE: Este é o Dr. Hoje não é Carnaval. Louis. Williams tem imaginação de escritor. Eu quero outra realidade e outra vida. O Sr.. Por que é que vocês não me acordaram? DOUTOR LEVY: Você agora está mais lúcido. nós estamos aqui para o ajudar. Este é o Barnes Hospital em St.. que batas são essas? DOUTOR LEVY: Eu não me chamo Frank. e Ozzie. e eu chamo-me Susie. Fico contente por eu lhe recordar uma pessoa tão querida da sua infância. DOUTOR LEVY: Acalme-se. Williams. TOM: Já sei! Vocês mascararam-se e estão a brincar comigo. redenção.. É natural na sua situação. e encontra-se actualmente encerrado em obras de restauro. Telefonei ao seu irmão para que ele me explicasse quem era essa Ozzie que você me chama sempre. redenção. Não sou Ozzie. Dakin o trouxe.. DOUTOR LEVY: Como se sente. Levy. Inventa visitas imaginárias.

Sr. doutor. com a vossa gentileza hospitalar. Mas aqui não tenho telefone. É preciso protegê-lo de si próprio. DOUTOR LEVY: Sim.) TOM: Eu quero voltar a esse sonho. . Dêem-me o meu Mardi Gras de volta e o quarto das Ursulinas de onde avisto o Mississipi. Louis. A vossa medicina não serve para mim. Williams. O que importa é agarrar-se à jangada da vida. Não quero! Fui tão infeliz nesta cidade. Logo hoje que acordou tão bem disposto… TOM: Calem-se os dois! Eu não vos quero ouvir mais. Guardei o número do Doutor Max num papel.36 TOM: Eu não quero estar em St. (O Doutor Levy faz sinal para que ela não fale mais sobre este assunto. Eu preciso dela para poder sobreviver. Feelgood. A visita dela foi só um sonho seu. mas a Rose não fez caso e a irmã Charlotte apanhou-o do chão. telefono ao Doutor Feelgood e ele dá-me fantasia em doses injectáveis. Mas sou eu agora o seu médico. TOM: Eu quero ver a Rose. Sr. E quando não consigo sozinho. Ela vem sempre ao nosso encontro. Susie. não tenho (Fala com uma espécie de choro na voz. Williams. Eu sei que esta etapa é muito difícil. Sr. Agora não tenho maneira de o contactar. Williams. Estou tão doente. Eu amo a mentira do palco. SUSIE: A Rose está muito longe daqui. Tiraram-me tudo. Não me obriguem a acordar.) Saiam do meu quarto! Saiam! Saiam! SUSIE: Temos de administrar-lhe um sedativo. SUSIE: Assim vai estragar tudo outra vez. Vocês não vão ajudar-me nunca. Não entendem. Você confiou demais nesse Dr. Deixemme entregue ao meu teatro. Ela foi fumar para o jardim. Foi uma peça de teatro que se passou na sua cabeça de poeta. (Conforta Tom) Não chore. Ladrões! Devolvam-me o real que me roubaram! Patifes! Vocês são os ladrões da minha magia. DOUTOR LEVY: Não vale a pena chamar pela morte. Sr. Williams.). Eu temo por ele. Apenas ele me pode tratar. (Grita em crescendo. percebem? Eu não posso ser ajudado a não ser por quem me empurre para o último mergulho.

MULHER NA SOMBRA: Disseram-me que estavas cá. Rose? Que bom teres regressado. MULHER NA SOMBRA: Tu falas tanto. diz-me. O tempo é água sobre as mãos. Mas já estive internada aqui. E eu quis conhecer-te.) Eu odeio estas injecções. em St. Eu não me chamo Rose. TOM: Então não acordei ainda. TOM: Não estou a perceber. nem a Ozzie. TOM: Quem era esse teu cunhado? . com a ajuda de Levy.) Cena 15 TOM: Quem está aí? És tu. Williams. Apareceu-me um casal de bata branca. Eu garanto-lhe que vai. (Williams acalma-se. Ouvir-te é o melhor dos remédios. Levy e Susie saem. Mutação de luzes. Mas a tua voz denuncia-te. DOUTOR LEVY: Desta vez irá sonhar muito. Rose. Não consigo ver-te a cara. Sr. Sabe tão bem quando se acorda e percebemos que a realidade é mais doce do que os sonhos maus. Foste tu que me criaste. Onde foste alugar a fantasia? O cortejo já passou e eu perdi-o. Tu fazes parte do mesmo pesadelo. Escoa depressa e só fica o frio da humidade. Tive um pesadelo.37 TOM: (Susie administra-lhe uma injecção. Rose! Diz qualquer coisa. Estou muito esquecida. MULHER NA SOMBRA: Eu não sou a tua irmã. Estás na brincadeira. mesmo que não faça sentido. Queriam matar-me com a droga da verdade. O meu cunhado expulsou-me de casa. Fala. que o segura. querida Rose. MULHER NA SOMBRA: Passaram muitos anos. Que belo chapéu esse. Um médico e uma enfermeira. Salvaste-me outra vez. TOM: Está tão escuro aqui. As vossas drogas matam os meus sonhos. Diz-me que estamos em Nova Orleães. Uma silhueta feminina surge no limiar do quarto. Essas sombras de pesadelo invadiram-me o quarto e disseram que tu nunca aqui tinhas estado. Louis. nem o Frank. Mas eu acordei porque tu chegaste.

se o disseres em voz alta. tu és uma personagem de teatro! BLANCHE: E não somos todos? TOM: Vou fechar os olhos e quando os abrir.) TOM: Blanche. tu já aqui não estás. Blanche é interpretada pela actriz que foi Rose. Serás tu a Blanche DuBois? BLANCHE DUBOIS: É isso mesmo. (Abre e fecha os olhos. . TOM: Foste um dia expulsa de Nova Orleães? MULHER NA SOMBRA: Sim. TOM: Blanche Dubois. Mas tu tens a cara da Rose! Se até tu me visitas. TOM: Mas do teu nome..38 MULHER NA SOMBRA: Não tenho cabeça para nomes. TOM. mas já foi há muito tempo. Puseram-me esse nome francês. BLANCHE: Porque não quiseste. BLANCHE: Tu não vais morrer agora! TOM: Eu nunca mais soube nada de ti. tu lembras-te? MULHER NA SOMBRA: Sim. sou capaz de recordá-lo. Mau sinal. Eu não quero falar disso.. TOM: Blanche. deixa-me ver-te.) BLANCHE: Podes falar comigo de olhos fechados. Tinhas medo de saber o que me aconteceu. Vieste assistir-me na morte. Não foi bem assim… BLANCHE: Nunca procuraste o meu paradeiro. Eu não me vou embora ainda. Não sei porquê. A minha sanidade é irrecuperável. mas continua a vê-la junto de si. (Sai da penumbra e aproxima-se dele.

querida Blanche. Eras uma mulher à minha medida. Criaturas inquietas que escapam das normas. BLANCHE: O tempo acaba connosco. Sabes. aconteceu. Estive cá internada. Blanche. como tu e eu somos. . Aconteceu-te o mesmo que ela. Eu conheço estes corredores. Estou leve. TOM: Não foi isso que sonhei para ti. fui sempre apaixonado pelos seres em derrocada.39 TOM: Isto é uma conversa de loucos. Fiquei assim. TOM: Não. Mas nada se sabe sobre o teu internamento. Estou vazia. As pessoas são outras. eu não escrevi isso para ti. e acabam esmagadas pelo deus deste mundo. TOM: Que amigo é esse? BLANCHE: Ele já aí vem. BLANCHE: Nós estamos no manicómio. TOM: Tu não és a mesma Blanche que eu criei um dia. O Eléctrico termina com um médico amável que te vem buscar a casa da tua irmã. TOM: Fizeram-te a operação? (Faz um gesto apontando a cabeça. O espaço é o mesmo.) BLANCHE: O que é que tu achas? TOM: Eu receio que sim. Sou uma boneca suspensa no arame. BLANCHE: Agora já sabes. TOM: Como é que vieste aqui parar? BLANCHE: Foi um amigo que me trouxe. BLANCHE: Bingo! TOM: Também a ti… BLANCHE: Estava escrito. Por isso é que me apareces com a imagem da Rose. Uma bela à beira do abismo.

Max? . TOM: Que médico é esse de que falas? (Blanche vai à porta do quarto. (Dr. Eu cumpro as minhas promessas. já te esqueceste? TOM: E vieste com a Blanche? Ela é tua paciente? MAX: Eu não a conhecia. Criaste-a para depois a destruíres. Sou médico. Mas eu estou esquecida. TOM: Como é isso possível? BLANCHE: Fazes tantas perguntas. Ele atende clientes nas escadas. Não te vais demorar aqui. desta vez com um visual semelhante ao Max Jacobson histórico. Ela telefonou-me esta manhã e disse-me que precisavas de mim. Cena 16 TOM: Max! Um velho e desejado amigo. BLANCHE: As memórias da Blanche são todas da infância em Belle Reve. pois não. Deixei em aberto o teu futuro. Feelgood entra em cena. Talvez nada… O meu amigo médico diz que sim. Como é que entraste aqui? MAX JACOBSON: Pela porta do hospital. O Max prometeu que me levava a visitar Belle Reve. Eu não quis ditar-te a sorte. Abriram-me o crânio e o futuro fechou-se. Vou chamá-lo. TOM: Não. TOM: Também falhei contigo. Que posso eu fazer por ti agora? BLANCHE: Não sei. Blanche. não vais? MAX: Vou sim. Blanche.) Chamam-lhe Doutor Feelgood.) BLANCHE: Entra! Estamos os dois à tua espera. que podes. Vais levar-me à plantação.40 BLANCHE: Fizeste à tua Blanche o mesmo que esse deus ruim. BLANCHE: Fizeste mal.

41 MAX: Descansa. empenhado em deixar-me assim como elas. rapariga. que já não sabe fazer obras-primas. Tom.. se não fosse este desejo brutal de escrever peças. . TOM: Está bem. Com cara de quem não dorme há três dias. Mesmo que a Broadway as rejeite e os críticos me humilhem. Max.) Ele chamou-me rapariga… TOM: Tenho precisado tanto de ti. Já me chegam os problemas que tenho. vazio e imbecil. O monstro da lobotomia persegue-me. O que se passa contigo? MAX: Deixa lá. Deixá-los dizer que sou . MAX: Foi uma ideia que eu tive. Talvez vos ajude. Max. MAX: Mas eu não venho ajudar-te a fugir. são coisas minhas. O médico aqui sou eu. BLANCHE: (Para Tom.. TOM: Que tipo de problemas? Estás amarelo. não te esqueças! TOM: O que é. TOM: Ajudar em quê? MAX: A suportar a vida. Blanche? BLANCHE: O Max é que sabe as palavras certas. MAX: Sentes-te em baixo? TOM: E tenho alternativa? A Blanche aparece-me no mesmo estado em que se encontra a minha Rose. Eu não queria vir para aqui. O que eu quero mesmo é que trates de mim. Diz-lhe aquilo. Foi o meu irmão que me forçou a entrar neste presídio. Temos de falar com o Tom e depois partimos em viagem para Belle Reve. Eu estou confusa.Um drogado e um bêbado devasso. TOM: É para isso que me serve a escrita. Eu já estava morto. É um torturador metódico. BLANCHE: Eu não sou imbecil. umas a seguir às outras.

TOM: E que me dás tu em troca. . Tom? É essa mulher que tu tens de procurar na tua escrita. TOM: Treze anos não é muito tempo. Louis. Mas eu já não sei chorar. Max? Injecções nas veias para me adiar a morte? Não sei se é um negócio justo. MAX: Ao fim de treze anos viremos os dois pedir-te contas desse trabalho.. MAX: Tens de aceitar este desafio.42 somente a sombra do que fui no passado. BLANCHE: Ele não está a fugir. Tu podes contar a história da sua vida. MAX: É essa a única maneira de salvares a Blanche. se os médicos a tivessem ajudado a superar a crise sem lhe abrirem o crânio? Que mulher seria ela hoje. O Max vai passear comigo a Belle Reve. TOM: Salvá-la? Não percebo. TOM: Recriar outra Blanche? Não sei se terei tempo de vida para fazer o que me pedes. TOM: Isso diz-te ele. MAX: Precisamente. mas que podia ter sido. MAX: Tens vida sim. O que tu podes escrever é a história alternativa de Blanche Dubois.. Agora eu devia chorar. O que teria sido a sua vida. TOM: Não! Não! Para isso já me chega o pesadelo real em que vive a minha pobre irmã. MAX: A Blanche precisa da tua mentira. Blanche. Continuas a acreditar nas mentiras dos homens. Inventar a outra Blanche que triunfou sobre a sua ruína. Imagina que ela nunca tinha sido submetida a esta cirurgia. Porque a sombra que sou não desiste. Tom. Dou-te treze anos para o fazeres. Garanto-te que tens. BLANCHE: Inventar a mulher que não fui. Pareces mais um pregador do que um médico em fuga. depois de ter sido internada aqui em St.

para preparar o braço. estou mutilada. Max? TOM: É um segredo mais bem guardado do que a fórmula da coca-cola. TOM: Como posso eu dar-te aquilo que perdi? MAX: Continuas um mestre na arte do diálogo. BLANCHE: Tom. . BLANCHE: Eu sou tão esquecida. Dás-me treze anos de vida em troca de uma obra que eu não sei se consigo já escrever. confinada a um hospício como este. MAX: Óptimo. mas temos de partir. (Max prepara a agulha com o soluto de um frasco que retira da maleta. Não. A dor da vossa perda numa ficção de gente derrotada. analgésicos e placenta humana. (Tom arregaça a camisa. Blanche. Chegou a hora da injecção.43 TOM. Tom. mas isto não chega para dar uma segunda vida a Blanche Dubois. Tu contas-me agora e se me perguntares a seguir eu já não sei. BLANCHE: Isso é uma receita muito complicada. TOM: É dela que eu preciso para arrebitar. Gente no exílio vivo da sua própria pele. Tom. MAX: Vês. O que aqui vês é uma mistura certa de anfetaminas e esteróides. não te esqueças de mim! TOM: Como posso eu esquecer-te. Já começaste a cumprir o que te peço. medula óssea e células de origem animal. Dá-me de volta o sonho e ficarei feliz. hormonas e vitaminas. Talvez eu projecte outra mulher sobre vocês duas. Talvez eu escreva um drama em que ambas se confundam como agora.) MAX: Hoje vou revelá-lo só para ti. Blanche? Tu tens a cara e a figura da Rose. Não quero viajar de noite. Mas vais prometer-me que não contas a ninguém. TOM. BLANCHE: Já não sei sonhar. não sei. Assim não podes informar a concorrência.) BLANCHE: De que são feitas as tuas injecções. Isto é um pacto diabólico.

Foi uma imprudência.) BLANCHE: Adormeceu depressa. Não posso arriscar a que me morram mais clientes. TOM: O comprimido é muito forte. esta era a última. tenho este comprimido. Não aguentas tratamentos de choque. Blanche ri. Não te culpes. (Blanche traz-lhe um copo com água para Tom tomar o comprimido. imagino. para espanto e desânimo de Tom.) TOM: Um comprimido para dormir. Tom. BLANCHE: Vamos embora. É só isto que tens para mim? MAX: Tu estás fraco. TOM: Eu bem dizia que tu andas a fugir. TOM: O fotógrafo abusou dos teus shots. Belle Reve vai acalmar-te desse stress em que tu andas. quem precisa disto sou eu. MAX: Para ti. Já não vos estou a ver bem. TOM: Tu gozas comigo. MAX: O Shaw era muito novo para morrer. alemão danado. Tenho a polícia já a investigar-me. Tom. (Max injecta-se a si mesmo no braço. Estou à tua espera há tanto tempo e tu agora tratas de ti e desprezas um paciente. (Tom cai num sono profundo. Tenham cuidado com a estrada. MAX: Não. o fotógrafo dos Kennedy. Max.44 MAX: Não Tom. Tu achas que ele vai criar outra Blanche? TOM: Não sei. miúda. MAX: Ando a fugir de mim mesmo.) TOM: Trouxeste mais doses na mala. divertida. não foi? . E lá ninguém te conhece. TOM: Quem é que morreu nas tuas mãos? MAX: Mark Shaw. Engole-o e descansa. Mas ao menos tentámos.

DOUTOR LEVY: Sabe. o nosso escritor não está ainda em condições de receber visitas. murmura em voz alta como quem está a sonhar. doutor. nos mesmos lugares ocupados antes por Blanche e por Max.) DOUTOR LEVY: Como é que ele tem estado? SUSIE: Tem dormido o tempo todo. doutor. Quero verificar se houve progressos. Deseja vir ver o irmão ao hospital. Às vezes. absolutamente nada. Por enquanto. Cena 17 (Doutor Levy e Susie encontram-se no quarto de Tom. doutor. DOUTOR LEVY: Óptimo. Fim . Tom continua a dormir na mesma posição. Avise-me assim que ele acordar. E havemos de voltar. DOUTOR LEVY: E percebe-se alguma coisa do que diz? SUSIE: Nada. o Sr. SUSIE: Assim farei. mas eu pedi-lhe um pouco de paciência. Dakin Williams telefona-me todos os dias. MAX: Daqui a treze anos. Susie.45 BLANCHE: Pois é.

46 Versão alternativa para o final da peça (a partir da cena 15) .

Estás no Barnes Hospital em St. Eu sou como Atena. que descobriste. MULHER NA SOMBRA: Eu não sou a tua irmã. Eu não tenho filhos. Rose! Diz qualquer coisa. Os homens com que fodi não tinham ovários. Salvaste-me outra vez. Onde foste alugar a fantasia? O cortejo já passou e eu perdi-o. Não consigo ver-te a cara. Rose. Blanche é interpretada pela actriz que foi Rose. Tive um pesadelo. Estás na brincadeira. O médico e a enfermeira disseram-te a verdade. Louis e hoje não é terça-feira gorda. TOM: Que parvoíce. TOM: Não acordei ainda. Rose? Que bom teres regressado. Tu não sonhaste com eles. a deusa grega. MULHER NA SOMBRA: Eu não sou a Rose. Tom. Que belo chapéu esse. Escoa depressa e só fica o frio da humidade. Rose. Fui parida pelo teu crânio.) . Ouvir-te é o melhor dos remédios. Tom. TOM: Blanche DuBois! Tu és a Blanche DuBois! BLANCHE DUBOIS: Até que enfim. Sou a tua filha. Essas sombras de pesadelo invadiram-me o quarto e disseram que tu nunca aqui tinhas estado. Tom. querida Rose. Sabe tão bem quando se acorda e percebemos que a realidade é mais doce do que os sonhos maus.47 Cena 15 TOM: Quem está aí? És tu. nem o Frank. Nenhuma mulher me deu à luz. O tempo é água sobre as mãos. brancas e nuas à caça de caçadores. Tu fazes parte do mesmo pesadelo. Apareceu-me um casal de bata branca. Queriam matar-me com a droga da verdade. MULHER NA SOMBRA: Não sejas grosseiro. Eu sei que és tu. nem a Ozzie. Eu nasci do sonho que um dia criaste. A única diferença é que Atena era uma virgem guerreira sem vida sexual. (Sai da penumbra e aproxima-se dele. Mas eu acordei porque tu chegaste. Mas a tua voz denuncia-te. TOM: Está tão escuro aqui. Um médico e uma enfermeira. mesmo que não faça sentido. Fala. Só faltava mostrarte o meu cartão de identidade. Não insistas. diz-me. MULHER NA SOMBRA: Não. E não estamos em Nova Orleães. Diz-me que estamos em Nova Orleães. E eu sou mais parecida com as ninfas dos bosques.

mas continua a vê-la junto de si. BLANCHE: É natural. Tu não calculas. Vou fechar os olhos e quando os abrir. tão desnorteada. TOM: Mas eu nunca mais soube nada de ti. Tive tanta sorte com ele. depois dos médicos me levarem para o hospício. Graças ao médico que me tratou. não fizeram. Fizeram-te a operação? (Faz um gesto apontando a cabeça. (Abre e fecha os olhos. TOM. TOM: Isto é uma conversa de loucos. Eu estava tão carente. TOM: Isto não está a suceder comigo. tanto. Blanche ri-se.. Eu não me vou embora ainda.) BLANCHE: Podes falar comigo de olhos fechados. tu ignoraste o destino da tua Blanche. A minha sanidade é irrecuperável. Se até tu me visitas. BLANCHE: Porque não quiseste. As pessoas são outras. TOM: Como vieste aqui parar? BLANCHE: Eu conheço bem o piso onde te encontras. Estar aqui foi para mim como uma temporada na montanha mágica. Tinhas medo de saber o que aconteceu comigo. Eu não sou o Pirandello. Já faleceu. mas o espaço é o mesmo. TOM: Tu também não és a mesma. tu já aqui não estás. Neste hospital.. Vieste assistir-me na morte. Blanche. . Tens a cara da Rose. Houve melhorias desde que cá estive internada. Não te reconheço. Mau sinal. Tom. Escapei à lobotomia. Eu conheço-te. Não foi bem assim… BLANCHE: Tu nunca procuraste o meu paradeiro. voltei a ser quem era. Ajudou-me tanto. Tom. Era uma excelente pessoa. deixa-me ver-te. divertida. Estamos no manicómio.) BLANCHE: Não.48 TOM: Blanche. Melhor do que ninguém. Enquanto as actrizes me tornavam numa lenda dos palcos. BLANCHE: Tu não vais morrer ainda.

Eu mereço isso de ti. Blanche. TOM: E vieste cá recriminar-me por isso? BLANCHE: Não. Mas Blanche não se esgota no Pulitzer e no filme do Kazan. querida Blanche? BLANCHE: Eu quero que continues a escrever a minha história.49 TOM: Custa-me a crer. e tu adoeces de ansiedade por não aguentares a competição contigo mesmo. Tom. . BLANCHE: Usaste a minha ida ao fundo para fazeres uma obra-prima. Eu vim aqui para perdoar o teu desprezo. Mas tu pareces um dos meus antigos amantes. Empresto a minha alma às actrizes que continuam a estrear-me em muitas línguas. Tom. TOM: E como esperas tu fazer isso? BLANCHE: Serei de novo a tua musa inspiradora. Mas a minha vida. mas com uma condição. Seja em drama. Tu sempre foste uma fantasista. Abandonavam a minha cama assim que me viam o rosto sem pintura à luz do dia. BLANCHE: Toda a gente espera de ti um novo Eléctrico. seja num guião para cinema. porque quero ajudar-te. Tu conheces a origem do teu mal. Tom. nunca mais te interessou. Eu acho que estás a dourar o teu passado. TOM: A mais célebre das minhas personagens regressa para ser minha psicanalista. Eis um bom enredo para uma peça falhada. seja em conto. BLANCHE: Que sabes tu do meu passado? TOM: Sei o suficiente para te ter tornado inesquecível. TOM: Não estarás a exagerar? BLANCHE: Sabes bem que não. Mas eu voltei hoje. Grande parte da tua fama é a mim que a deves. depois de saíres de Nova Orleães. TOM: Que condição é essa. É uma doença da psique. O jogo dos acasos trouxe-me de volta a esta clínica. Eu continuo a batalhar por cada dia.

Somos almas gémeas. um rapaz e uma rapariga. Com apenas dezanove anos. vais ver. É pena nunca o teres conhecido. meu Deus! O meu estado de delírio agrava-se. mas muito mais forte. Foram muitos anos de agressão doméstica.50 TOM: Tiveste uma recaída e vens internar-te outra vez. O público é uma criança feroz. Tom. Esmurrou a minha irmã Stella e partiu-lhe o maxilar. A guerra insana roubou-lhe a vida na flor da mocidade. As minhas personagens resolveram internar-se no mesmo hospício de loucos onde eu estou. e tu não sabes a tragédia que entrou na casa deles. A Jessy nasceu primeiro. Uma mulher que sente hoje compaixão por quem outrora a tentou destruir por completo. E que veio dizer a esse homem – assim. olhos nos olhos . Tom. TOM: O que é que aconteceu ao pobre rapaz? BLANCHE: O Mark era um jovem adorável. BLANCHE: Desta vez. Como eu te compreendo. Eles perderam o filho mais novo. É terrível. Stanley Kowalski está internado nesta ala psiquiátrica. O . mas tu vais contar-me. quando voltar a mastigar. Não podes inventá-las sempre deprimidas. Tom. nem do seu poder de atracção animal. Herdou a força física do pai. As personagens transformam-se. BLANCHE: Aí está o teu engano. TOM: A Stella perdoa-lhe tudo. Aborrece-se com muita facilidade. BLANCHE: Sim. Ela diz que não o quer ver mais na vida. acho que não. TOM: Então que Blanche é esta que eu tenho na minha frente? BLANCHE: Uma Blanche muito mais velha. Foi chamado para o serviço militar no Vietname. Blanche. TOM: Que horror. A Stella estava grávida dela quando tu escreveste a peça. Mas agora só me resta uma sobrinha. O seu alcoolismo tornou-se perigoso para os que o rodeiam. TOM: Não sei. BLANCHE: A Stella e o marido tiveram dois filhos. Uma mulher que veio visitar ao hospital o mesmo homem que a violou há muitos anos atrás.que já não tem medo da força bruta dele. mas tinha o carácter jovial da minha irmã. O Mark e a Jessy.

. O caso de Stanley não tem remédio. O Stanley não foi à manifestação em Washington. Depois quando termina. ela vem comigo. Em vez disso. Um magnate do petróleo acaba de comprar Belle Reve e eu. Perdeu o emprego e a fé nas pessoas. Vou realizar o sonho da minha velhice. fabricada por escritores como tu. e gritasse a sua raiva na rua contra a guerra. Talvez o seu tempo já tenha terminado. Se ao menos ele reagisse como a Stella.51 Stanley não conseguiu aceitar a morte do filho. TOM: Que é isso. TOM: Belle Reve? Como foi isso possível? Assaltaste algum banco para reaver a propriedade? BLANCHE: Belle Reve vai ser um complexo turístico para gente requintada. is give peace a chance /All we are saying . Mas não me consegues roubar a felicidade que sinto. Não sei se alguém o pode ainda salvar. BLANCHE: Vai fazer-te bem. (Canta o refrão de John Lennon. como um deus negligente.. assim que tiveres alta. Apenas a ficção dos actores. E essa só dura algumas horas. percebemos que foi tudo uma ilusão. Afogou-se em álcool dia e noite. Agredia a Stella. E levas a Stella atrás para te fazer a comida e as limpezas. como eu. Tom.) «All we are saying . BLANCHE: Escarneces de mim. a Stella e a Jessy iremos tomar conta da mansão que já foi . Mas ninguém pode trazer os mortos de volta a esta vida. Tom. eu vou regressar a Belle Reve. TOM: Não me digas! Encontraste finalmente um noivo que te aceita em casamento. Precisas de sair do poço em que estás.. ficou fechado em casa a beber e a gritar em silêncio pelo nome do filho. onde os hóspedes possam desfrutar dos prazeres da vida do sul. Blanche? Perdeste a confiança nos médicos daqui? BLANCHE: Não sei. TOM: E tu vens pedir-me um pouco mais de ilusão. A minha sobrinha tem formação em hotelaria e vai ocupar-se da gestão do empreendimento. is give peace a chance». Eu quero que venhas passar uma temporada comigo e com a Stella.. TOM: Vocês agora vivem juntas? BLANCHE: A partir de amanhã. Nem imaginas...

BLANCHE: Não digas uma coisa dessas. querida Blanche. Gostou da surpresa? TOM: Doutor Max. mas já fui. Blanche? BLANCHE: O magnate que comprou Belle Reve é cliente do Dr. e do marido. como é possível ter entrado aqui? MAX: Um médico encontra sempre meio de chegar onde quer num hospital. Eu dava anos de vida para ter aqui o Dr. graças a um amigo que nos é comum. TOM: E tu. TOM: Que amigo é esse.52 nossa.) Cena 16 BLANCHE: Tom! Tu vais escrever a continuação da minha vida e eu realizo-te um desejo proibido. É esta a minha proposta. com uma das suas injecções revigorantes. desta vez com um visual semelhante ao Max Jacobson histórico. tal filha. Feelgood traz o contrato para tu assinares. . Já não preciso da euforia fabricada que elas dão. Para a Stella será uma boa terapia. Imagina que ele estava ali escondido a ouvir-te e cumpria o teu desejo. BLANCHE: Não sou. O Dr. para superar a perda do filho. E como é que convences o magnate a contratar-vos? BLANCHE: Ele já está convencido. TOM: Como eu te invejo. Feelgood entra em cena. (Dr. MAX JACOBSON: Olá Sr. TOM: Credo! O homem ainda não morreu. também és cliente dele? Tal pai. Feelgood. TOM: Tu não estás a falar a sério. Max Jacobson. Deixei as anfetaminas. Williams.

MAX: Eu redigi este contrato a pedido da Miss Blanche. Ela faz questão que o Sr. TOM: Isto é o argumento de um filme de horror. Eu sinto-me a morrer. BLANCHE: Treze anos é um número mágico. (Tom lê o documento que Max lhe entrega. antes de eu tratar de si. Feelgood garante-me treze anos de vida e eu em troca deverei escrever a biografia que falta sobre Blanche DuBois. tu tens de prometer que vais cumprir o meu pedido. Williams. TOM: E se em treze anos eu não for capaz de fazer o que me pedes? MAX: Nesse caso. Blanche? BLANCHE: Nada mais fácil.53 TOM: Como é que tu conseguiste trazê-lo. . BLANCHE: Não. BLANCHE: O meu maior feito foi ter sobrevivido a mim própria. Isto é um pacto demoníaco. e passámos por St. Williams o assine. em viagem para Belle Reve. TOM: Doutor Max. virei reclamar-lhe a sua vida. Williams precisa. é apenas o filme da vida.) TOM: O Dr. Gostava muito que tu conseguisses fazer o mesmo. A única diferença é que tu já sabes de antemão o tempo que te resta. MAX: Eu trago a dose certa que o Sr. Louis para te visitar. TOM: Tu estás a ser dura para mim. Tom. Tu já não és a Blanche vulnerável que eu retratei em teatro. (Prepara a injecção. Vamos os dois no carro dele. Sr. já sabe aquilo que espero de si. Tom.) BLANCHE: Mas antes. TOM: Acredito. BLANCHE: Eu conheço-te melhor do que a mim mesma. Tom.

) BLANCHE: O que é que tu lhe aplicaste.) Adeus. Tu devias ter-me avisado antes! MAX: Lamento muito. em Laurel. Blanche. que nos deixa ligados à corrente. TOM: É o humor do desespero. (Saem ambos. Blanche.54 TOM: Então tenho de começar imediatamente.) . TOM: Estou-me a sentir mal. Max aplica uma injecção no braço de Tom e ele cai adormecido na cama. tu sempre amaste os estranhos. Não me faças esperar mais. O título agrada-te? BLANCHE: Troças de mim. (Começa a dizer em voz alta o que anota num caderno de rascunho. Dr. BLANCHE: Que pena. Já se faz tarde. Bons sonhos te visitem. recepcionista sénior no Belle Reve Hotel. (Blanche faz sinal de assentimento com a cabeça. BLANCHE: Ora Tom. A tua personagem já não me pertence. Eis a protagonista de uma peça patrocinada por um magnate do Texas. Nem me pude despedir do Tom. Max. Como queres tu que eu regresse a uma mulher que desconheço? Tu és uma estranha para mim. BLANCHE: Pronto. Ele está muito fraco. Blanche. Tom. Precisa de dormir. E tudo o petróleo levou. Mississipi. para ele cair no sono tão depressa? Não foi decerto o teu cocktail habitual. meu querido dorminhoco. deixa lá. Temos de partir para Belle Reve. Escuro. por favor. MAX: Tive de alterar a mistura.) Blanche DuBois. Max. (Beija Tom na face. dê-me isso para eu aguentar mais treze anos.

doutor. DOUTOR LEVY: Sabe. Avise-me assim que ele acordar. doutor. Dakin Williams telefona-me todos os dias. o Sr. absolutamente nada. Fim . Deseja vir ver o irmão ao hospital. o nosso escritor não está ainda em condições de receber visitas. nos mesmos lugares ocupados antes por Blanche e por Max. Susie.) DOUTOR LEVY: Como é que ele tem estado? SUSIE: Tem dormido o tempo todo. Por enquanto. SUSIE: Assim farei. Às vezes. Tom continua a dormir na mesma posição. DOUTOR LEVY: Óptimo. murmura em voz alta como quem está a sonhar. Quero verificar se houve progressos. mas eu pedi-lhe um pouco de paciência. DOUTOR LEVY: E percebe-se alguma coisa do que diz? SUSIE: Nada.55 Cena 17 (Doutor Levy e Susie encontram-se no quarto de Tom. doutor.

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