Universidade do Porto - FEUP

Geologia e Captagens

Apontamentos da Disciplina de Geologia e Captagens do Curso de Climatologia e Hidrologia da Universidade do Porto

Abílio A.T. Cavalheiro - Prof. Catedrático 19991999-2010

Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I

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1. INTRODUÇÃO – OBJECTIVO DA DISCIPLINA.

incluindo as constrições legais em que se movem. • Em suma, estabelecer pontes conceptuais que facilitem o diálogo entre protagonistas com formação diferenciada e cujas acções, em última instância, vão condicionar o sucesso da utilização das águas minero-medicinais junto do paciente.

A circulação da água subterrânea dá-se através de formações geológicas dos mais diversos tipos. A água subterrânea que após um longo percurso no interior da crusta acaba por ressurgir nas fontes ou é captada em profundidade, apresenta características físico-químicas condicionadas pelo seu percurso nas formações geológicas que atravessou e, consequentemente, das espécies minerais com que interagiu durante esse percurso, num ambiente físico-químico determinado. A presente disciplina de Geologia e Captagens do Curso de Climatologia e Hidrologia, destina-se à pós-graduação de licenciados em medicina, pretende leccionar os conhecimentos de hidrogeologia necessários à sua futura actividade em estâncias termais.

O curso divide-se nos seguintes grandes capítulos: Capítulo I e II– Revisão de alguns conceitos fundamentais em mineralogia e em geologia; Capítulo III – Noções básicas de hidrogeologia; Capítulo IV – Águas termo-minerais. No primeiro e segundo capítulos procurarse-á relembrar alguns conceitos básicos da mineralogia e da geologia, a fim de estabelecer uma base mínima de conhecimentos necessária ao entendimento dos capítulos seguintes. No terceiro capítulo será abordada a hidrogeologia, numa perspectiva naturalista e qualitativa, embora se faça uma breve referência a alguns modelos matemáticos muito compactos que sintetizam conhecimentos existentes naquela área.

OBJECTIVO DA DISCIPLINA: • Dotar o licenciado em medicina com um conjunto de conhecimentos que permitam uma visão de conjunto das realidades naturais que estão subjacentes ao aparecimento das águas mineromedicinais. • Dotar o licenciado em medicina com um conjunto de conhecimentos genéricos dos métodos e das técnicas que enquadram os procedimentos dos profissionais responsáveis pela prospecção, pesquisa e exploração das águas minero-medicinais,

Finalmente, no último capítulo será abordado o tema das águas termominerais, com uma descrição geral dos fenómenos que estão na sua origem e com uma breve descrição das ocorrências no nosso país. Dado o pouco tempo disponível, optou-se por nestes apontamentos apresentar os temas de uma forma ilustrada, com texto relativamente reduzido, a fim de poder ser complementado com notas tiradas pelos participantes ao longo do curso. Os participantes ficam assim com um texto básico e com imagens usadas no curso.

Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro - FEUP 1999-2010

Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I

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2. CONCEITOS BÁSICOS DE MINERALOGIA. Entende-se por mineral uma substância inorgânica formada naturalmente, com estrutura cristalina, propriedades únicas e uma distinta composição química.

Diversas variedades de quartzo (SiO2, hexagonal)

Os minerais são os principais constituintes da parte inerte da crusta terrestre (não viva). Formam-se, na generalidade, por processos inorgânicos.

A maior parte das rochas são constituídas por partículas minerais ligadas umas às outras. Na figura seguinte pode ver-se um granito constituído fundamentalmente por quatro minerais: quartzo, dois feldspatos e mica.

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Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 3 Ágata – SiO2 coloidal Mica preta (biotite) Plagioclases (feldspato) Feldspato potássico Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 Plagioclases (feldspato) Areia com quartzo e granada .

Solo constituído por argila. lado a lado. cavidades negras = chumbo. Bossas brancas = enxofre. em particular por argilas. fazendo encolher. O microscópio electrónico permite observar essas estruturas. Os minerais têm uma determinada composição química e estrutura cristalina. como um harmónio. Com efeito a retenção específica depende da área por unidade de superfície que é tanto maior quanto menor for a dimensão média dos grãos dos minerais integrantes do solo. a imagem de microscópio electrónico e um modelo tridimensional da galena. Fotografia de microscópio electrónico da cauliniteelectrónico da caulinite Os solos constituídos por materiais arenosos deixam-se atravessar facilmente pela água isto é. os aglomerados de cristais de argila.FEUP 1999-2010 . enquanto que os solos constituídos por materiais de Modelo tridimensional do arranjo cristalino da galena Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . apresentam uma maior capacidade de retenção. na figura seguinte pode ver-se a estrutura da galena observada com microscópio electrónico. um determinado arranjo molecular tridimensional. A agricultura seria muito mais difícil sem a presença das argilas! Galena. as raízes abastecem-se na água retida pelas argilas. A figura seguinte mostra.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 4 granulometria mais fina. nos períodos em que não está seco. isto é. quartzo. granada e mica Os minerais de argila aparecem em cristais microscópicos que abundam nos solos. a estrutura em lamelas justapostas (ver figura seguinte) facilita o aprisionamento de água. quando o solo seca. apresentam baixa capacidade de retenção. O aparecimento de fendas no solo por contracção dos minerais de argila facilita o arejamento do solo e facilita a penetração das raízes. a água anteriormente aprisionada evapora-se.

o âmbar. já que sofreram uma transformação operada pelo homem. não se consideram como tal. o gesso e o vidro. um determinado grupo de diferentes espécies minerais por exemplo. não é considerado como sendo um mineral. •uma determinada série de minerais. podemos dar uma definição do mesmo como devendo ser um elemento ou um composto químico formado mediante um processo inorgânico natural. Talvez que a maior limitação na definição de mineral resida no facto de ele dever ser um elemento ou um composto químico. os óleos. o cimento. A pérola e a concha da madrepérola. De esta forma ficam eliminadas as misturas mecânicas. Agora que referimos o que inclui e o que exclui o termo mineral. que lembra o verde da água do mar. constituem o testemunho mais importante da história da Terra. “em geral podem ser considerados minerais os materiais que constituem as rochas da crusta terrestre e. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . anfíbolas piroxenas ou micas.FEUP 1999-2010 . como tal. “ Alguns exemplos que ilustram os conceitos anteriores: A espécie mineral espodumena distingue-se das outras espécies minerais pelas suas propriedades únicas físicas e químicas A variedade do berilo designada “água marinha” é um mineral que se distingue dentro da espécie “berilo” pela sua cor verde característica. o aço. química e estruturalmente ao rubi no seu estado natural. • uma determinada variedade de mineral de uma mesma espécie. física.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 5 Os mineralogistas usam o termo mineral indiferentemente para significar: • Uma determinada espécie mineral. ortóclase. Outra limitação imposta aos minerais é serem de origem inorgânica. deve ser possível expressar a composição de um mineral por uma fórmula química. Assim ficam eliminados o carvão. O objectivo fundamental do mineralogista é o de desvendar os aspectos históricos. ainda que homogéneas e uniformes. não são classificadas como minerais. por exemplo quartzo hialino e quartzo fumado. químicos e físicos da crusta terrestre. Segundo Dana [1]. ainda que todos eles derivados de minerais naturais como matéria prima. Ainda que seja possível haver variações dentro da fórmula química. ainda que química e estruturalmente sejam idênticas aos minerais aragonite e calcite. espodumena. ainda que se apresentem naturalmente na crusta terrestre. ainda que seja idêntico. por exemplo plagioclases. O rubi sintético. Desta forma. por exemplo. pelo que a denominação mineral e o estudo da Mineralogia limita-se a materiais de origem natural.

cuja estrutura cristalina é a mesma. até à anortite pura Si2Al2O8Ca. cuja composição varia desde a albite pura. de acordo com as quantidades relativas de albite e anortite: %Albite 100-90 90-70 70-50 50-30 30-10 10-0 %Anortite 0-10 10-30 30-50 50-70 70-90 90-100 Meionite Albite Si3AlO8Na Oligoclase Andesina Labradorite Bitounite Anortite Si2Al2O8Ca É costume. que formam uma série isomorfa.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 6 O grupo escapolite apresenta apenas duas espécies.FEUP 1999-2010 . Há toda uma série de minerais cuja composição química varia entre a albite (NaAlSi3O8) e a anortite (CaAl2Si2O8). Si3AlO8Na. Mineralogia Química. que são feldspatos triclínicos. piroxena ou mica. A escapolite é um grupo com apenas duas espécies minerais: marialite e meionite. havendo diferentes composições químicas. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Esta designação costuma dar-se a uma amostra de mão ainda não identificada completamente. calco-sódicos. Mineralogia Descritiva e Mineralogia Determinativa. esta série designa-se por plagioclases. Mineralogia Física. Há grupos com numerosas espécies. para efeitos de sistematização. designa um conjunto de espécies minerais. Neste caso a série subdivide-se em seis termos arbitrários. como é o caso das plagioclases. apresentar o estudo da mineralogia nas seguintes divisões: Cristalografia. Marialite Um grupo de minerais como por exemplo anfíbola.

de faces cristalinas planas bem expostas. sendolhe impossível. durante a cristalização. Os minerais. resultando desse facto o aparecimento. CONCEITOS DA CRISTALOGRAFIA. Bravais em 1848 provou que existem apenas catorze tipos de redes espaciais. a olho nu. com faces bem desenvolvidas.FEUP 1999-2010 . apresentam uma estrutura interna ordenada em padrões repetitivos. com poucas excepções. as estruturas regulares desenvolvem-se por extensas regiões do espaço. se as faces aparecerem imperfeitamente desenvolvidas denomina-se subédrico. conhecidas actualmente por redes de Bravais. se deslocado de um ponto para outro homólogo da rede cristalina. Neste caso o sólido cristalino. quando as condições são favoráveis. se um observador imaginário se deslocasse ao longo de uma rede cristalino. no caso de não surgirem designa-se por anédrico. O que caracteriza a regularidade do estado cristalino é a repetição na vizinhança dos átomos que se situam nessa rede.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 7 1. distinguir um do outro. As catorze redes critalinas de Bravais Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . deveria notar padrões de vizinhança repetitivos. designa-se por euédrico.

Fluorite 5. como por exemplo: dureza. uma escala comummente usada é a escala de durezas de Mohs: 1. reacção com ácido. caracterizar e. magnetismo.FEUP 1999-2010 . brilho. hábito. Corindo hialino 10. fractura. Calcite 4. Ortóclase 7. consequentemente. Topázio 9. risca. Diamante Outro hábito cristalino da pirite Como consequência da regularidade da estrutura espacial Passam-se a referir muito brevemente algumas das propriedades que permitem caracterizar os minerais: Como consequência da geometria e das ligações existentes entre os átomos da rede cristalina surgem as diferentes propriedades físicas e químicas que permitem. densidade. etc… Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Gesso 3. conjuntamente. identificar as diferentes espécies minerais.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo I 8 Exemplo: dureza Um hábito cristalino da pirite Dureza – resistência que a superfície de um mineral oferece a ser riscada. Apatite 6. cor. clivagem . Talco 2. Quartzo 8.

cristalizou em profundidade. por ciclos de gelo .degelo. As rochas ígneas resultam da consolidação do magma. ao contrário da anterior. sedimentares e metamórficas. Costuma-se dividir as rochas em três tipos fundamentais: ígneas. irá constituir a rocha extrusiva.FEUP 1999-2010 . após arrefecer. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 1 2. O quadro anterior evidencia um ciclo de transformação muito frequente. Vejamos agora uma situação típica de meteoração de uma rocha ígnea. em plena fase da extrusão da lava vulcânica que. CONCEITOS DE GEOLOGIA Na figura anterior pode ver-se uma rocha ígnea extrusiva. Na figura anterior aparece representada uma formação basáltica e na figura seguinte uma intrusão granítica que. mais tarde.

pelas correntes marinhas. dos glaciares. do vento. pela água..Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 2 pelo vento pelos glaciares A erosão pode dar-se por acção da água.FEUP 1999-2010 . etc… Os materiais erodidos podem. ser transportados. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . em seguida.

ser litificados.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 3 Quando o meio perde energia. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 . por compactação. os materiais transportados sedimentam. Os sedimentos podem. em seguida. por cementação dando origem a rochas sedimentares.

FEUP 1999-2010 . em seguida. Em seguida apresentamos uma classificação possível. Outras relações genéticas possíveis: Ao longo dos tempos têm sido adoptadas diferentes classificações das rochas eruptivas. iniciar-se um processo de metamorfismo da rocha sedimentar. Acção da pressão e do calor: metamorfismo. metamórficas e sedimentares.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 4 Se as condições forem favoráveis pode. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

doleritos. c/ plagioclase ácida) – gabros. silvite. Fosfatadas .calcáreofosfatadas. dioritos e andesitos (sem quartzo e c/ortóclase) dioritos e dacitos (s/quartzo. basaltos (s/quartzo e c/plagioclase básica) CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS SEDIMENTARES • Detríticas – – • siliciosas (calhaus e conglomerados grosseiros) areias.turfas. tripoli.sal gema. riolitos. Calco-magnesianas dolomias e calcáreos dolomíticos. fosforite. Carbonosas . traquitos. grés ou arenitos Químicas – – – – alcalinas .calcário.calcáreos.silex Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . ortófiros. petróleos – • Neutras Granitos. pórfiros quartzíticos.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 5 UMA POSSÌVEL CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS ERUPTIVAS • Ácidas (com quartzo abundante + órtoclase) • Biogénicas – – – – siliciosas . carvões. cálcicas . gesso e anidrite. retinitos – – • Básicas sienitos. Siliciosas .calcáreo-siliciosas.FEUP 1999-2010 . betuminosas. Cálcicas .

micaxistos. calcoxistos. quartzitos micáceos. gnaisses.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 6 UMA POSSÍVEL CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS METAMÓRFICAS • Paraectinitos (origem sedimentar) – – – – • série argilosa.quartzítos.argilítos.FEUP 1999-2010 .antracite. leptinitos Série carbonatada mármores. Série siliciosa . serpentinitos Série carbonosa . grafite Ortoectinitos (origem eruptiva) – – Série granítica . sericitos e cloritoxistos.ortognaisses e ortoleptinitos Série gabrodioríticaanfibolitos e piroxenitos Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

Nas figuras seguintes surge a evolução da configuração dos continentes actualmente aceite.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 7 A DERIVA DOS CONTINENTES. aliado aos estudos de paleomagnetismo e de paleontologia vieram tornar muito forte e dificilmente contestável a hipótese de deriva dos continentes.FEUP 1999-2010 . O reconhecimento por sonar em meados do SEC XX permitiu obter levantamento batimétrico dos fundos oceânicos. que. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 8 Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

FEUP 1999-2010 .Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 9 Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

como no passado. a movimentação das placas continentais faz-se sentir pela actividade sísmica. Essa actividade origina fracturas. que.FEUP 1999-2010 .Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 10 Actualmente. cujos picos são os terramotos. no seu início podem nem apresentar movimento: Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

podendo então ser falhas normais: ou inversas: Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 11 Mas que. constituindo as assim designadas falhas: As falhas podem permitir a movimentação vertical dos blocos. mais tarde. permitem a movimentação relativa dos blocos por elas definido.FEUP 1999-2010 .

A direcção e a inclinação das falhas aparecem representadas nas cartas geológicas por simbologia intuitiva.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 12 consoante os blocos apresentam movimentos de escorregamento gravítico ou de cavalgamento “contra” a gravidade.FEUP 1999-2010 . bem como outras informações estruturais Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

FEUP 1999-2010 .Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo II 13 A legenda também contém informação relevante. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

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Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III

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CONCEITOS DE HIDROGEOLOGIA 1. INTRODUÇÃO A Hidrogeologia é um dos ramos especializados da Geologia. Exemplos de disciplinas científicas que se inter-relacionam ou fazem parte da Geologia : • Astronomia – a Terra no Universo • Geofísica do globo - Constituição interna da Terra. •Geoquímica - A distribuição dos elementos químicos na Terra. • Mineralogia - Estuda os minerais constituintes das rochas. • Petrologia - Estuda a composição, origem e história das rochas. • Geodinâmica interna - Estuda a tectónica, a sísmica e o vulcanismo. • Geodinâmica externa - Ciclos erosivos, erosão e sedimentação, fenómenos meteorológicos e oceânicos. • Meteorologia • Fotogeologia A Hidrogeologia ocupa-se da água subterrânea e das sua relação com as unidades geológicas em que circula. São subsidiárias da Hidrogeologia, para além das ciências básicas, entre outras, as seguintes disciplinas ou ramos de conhecimento:

•Climatologia - enquadra o estudo do ciclo hidrológico. • Petrologia - enquadra o estudo das propriedades das rochas enquanto unidades portadoras de água. •Geologia estrutural - enquadra o estudo da circulação da água em meios fissurados. • Geoquímica - enquadra as relações entre a composição da água e das rocha por onde esta circula. •Mecânica dos meios contínuos enquadra o estudo da circulação da água em meios porosos, quando o meio contínuo considerado é a água. Permite estudar o comportamento do maciço rochoso submetido a tensões, sendo o meio contínuo neste caso uma simplificação do próprio maciço rochoso. •A Estatística, nomeadamente nas análises de séries temporais relacionadas com a climatologia •A Geoestatística, que estuda as variáveis regionalizadas. •A Análise Numérica, enquanto ferramenta matemática para resolução das equações às derivadas parciais dos modelos hidrogeológicos. •As ciências da computação nas suas ligações com: - Análises de dados - Representações gráficas - Simulação numérica •Microbiologia •Química Analítica. Etc….

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de acordo com o esquema seguinte. É possível. na maioria das situações.FEUP 1999-2010 . O corte assinalado ESE-WNW aparece na figura seguinte. da infiltração da água precipitada pela atmosfera. sendo corrente distinguir as zonas representadas na figura seguinte. A água de circulação subterrânea resulta. pelo menos durante os períodos de estiagem. dos petrologistas. está separada da zona saturada por uma zona intermédia.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III 2 2. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .. Apenas podemos deduzir a quantidade de água que se infiltra por uma equação de balanço. que não coincide obrigatoriamente com a hidrográfica. Na figura seguinte aparece um modelo hidrogeológico interpretativo da região Aveiro-Vagos. zona não saturada e uma zona saturada de água. dos mineralogistas.. A superfície do solo. que é o de bacia hidrogeológica. da autoria do Doutor Bernardo Barbosa. etc. considerar uma O conceito de bacia hidrográfica tem um correspondente para a água subterrânea. não podemos basear essa estimativa em leituras directas. Modelação hidrogeológica Com o concurso dos geólogos. O ciclo da água aparece representado de uma forma naturalista na figura seguinte. Se pretendermos estimar os caudais de água que se infiltram ao longo do tempo numa dada bacia hidrogeológica. que está em contacto com o ar. é possível construir modelos hidrogeológicos que constituem sínteses interpretativas muito úteis no estudo das águas subterrâneas. realizado pelo IGM (Instituto Geológico e Mineiro).

Na figura anterior podemos ver um solo que se apresenta impermeável à água. No fim de cada mês realiza-se o balanço água infiltrada = água precipitada – evapotranspiração real. Para esse efeito considera-se que existe uma reserva de água disponível no solo. que entram com a temperatura do ar. se deixa atravessar facilmente pela água. correspondente à zona de solo que fica entre a superfície e a zona freática. Ainda para cada mês calculase a evapo-transpiração potencial. o escoamento subterrâneo pode obter-se indirectamente subtraindo à água precipitada a água que sofreu evapotranspiração e a água que abandonou a bacia hidrogeológica pelos cursos de superfície. não se dá infiltração para a água subterrânea. Com efeito define-se porosidade total como sendo o seguinte cociente: ω= volume de vazios volume total de meio poroso Enquanto que porosidade efectiva ou porosidade cinética se define como sendo: ω= volume de vazios por onde pode circular a agua volume total de meio poroso Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . consequentemente. caso exista água disponível no solo. com o estado higrométrico do ar. A água precipitada mede-se nos udómetros. A saída superficial consegue medir-se através da medição dos caudais dos cursos de água. Não significa que no primeiro caso o solo não seja poroso.Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III 3 Parâmetros relevantes hidrogeológicos mais Existem diversos quantificadores que permitem caracterizar as formações geológicas quanto à sua aptidão como unidades portadoras de água. isto é. obtendo-se assim uma estimativa da água infiltrada. a evapo-transpiração que poderá dar-se. A primeira noção é a de porosidade. com a insolação. Enquanto que essa zona não for saturada. Este processo repete-se ao longo dos meses do ano. Assim. um que se deixa atravessar com alguma dificuldade e outro que apresenta grandes fissuras e que.FEUP 1999-2010 . Um procedimento comum para realizar o referido cálculo é fazer um balanço para cada um dos meses. A evapo-transpiração consegue estimar-se através de fórmulas previsoras. no fim de cada mês qual a água que se infiltrou. Percebe-se assim que o grau de precisão da estimativa que se faz da infiltração da água subterrânea é bastante falível. etc…. apurando.

.13% Rochas compactas com fendas largas calcários e dolomites ……….. Esse facto está patente no gráfico seguinte. 35 . 0.1.47% lodo lacustre …………..47% areias misturadas .…22 .0. a água ficar prisioneira por adesão superficial aos minerais constituintes da matriz porosa.FEUP 1999-2010 . grés …………. • • • • • • granitos. Para efeitos práticos tudo se passa como se a porosidade que interessa à circulação da água ficasse reduzida de forma drástica.37 . 36% solos de cultura ……. para meios porosos constituídos por poros muito pequenos.37% areias uniformes ….28 . 45 .84 .12. A figura seguinte mostra como as forças de adesão superficial variam com o afastamento da água em relação à superfície do grão mineral. 0. 0. …3... xistos. 26 ..40% areias finas ………….…44 .4% Rochas porosas e permeáveis • • • • • Percebe-se assim que para calibres muito pequenos a uma mesma porosidade total corresponde uma menor porosidade efectiva.65% Porosidade efectiva Alguns valores típicos de porosidade total: Rochas compactas com fendas estreitas Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .1.56% diabase.02 . incapaz de circular. 1 . 55% aluviões …………….Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III 4 A razão da distinção entre aquelas duas porosidades decorre de. gnaisses……0.85% quartzitos ………….44% gesso ……………….36% calcários oolíticos ….53 13. 48% Rochas porosas e impermeáveis • • • argilas ………………. gabros…..

Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III 5 Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

6 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Vê-se. A água desloca-se dos pontos de maior coluna hidráulica para os de menor. o parâmetro que caracteriza essa propriedade. para uma mesma porosidade efectiva. Mesmo estabelecendo a distinção entre porosidade efectiva e porosidade total. pode haver diferenças substanciais na facilidade com que a água se escoa através do meio poroso. ficamos com U= ∆h Q =K A L designando-se U por velocidade de filtração. permite obter esse valor: v= U ωc ∆h designaL se por gradiente hidráulico. é fácil constatar que. Se estivermos interessados em saber qual a velocidade média real com que a água atravessa o meio poroso. que tem o seu homólogo na condutividade eléctrica e na condutividade calorífica. Q= AK ∆h L lei de Darcy Esta última expressão costuma-se designar-se por lei de Darcy. sendo i o gradiente hidráulico i = O conceito de condutividade hidráulica. condutividade hidráulica K .FEUP 1999-2010 . Com efeito U representa a velocidade com que a água atravessaria o meio se ele fosse 100% poroso. ou cinética. por si só. que a porosidade não chega. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . tendo sido designado por U = −K . Se naquela expressão passarmos a área para o primeiro membro. pelos exemplos anteriores. deveremos recordar-nos que a porosidade efectiva. que chegou às conclusões anteriores quando estudava as fontes da cidade de Dijon em 1856. inversamente proporcional à distância que tem que atravessar no meio poroso L . porque nos indica por unidade de comprimento qual é a perda ou ganho de coluna hidráulica que está a ocorrer. o caudal variará também. pelo que a lei de Darcy aparece por vezes escrita na forma O cociente adimensional É possível verificar experimentalmente que o caudal de água é directamente proporcional à área da secção do meio poroso A e à altura da coluna de água do permeâmetro ∆h . Um aparelho experimental que se pode usar para o efeito é o permeâmetro representado na figura seguinte. para caracterizar a maior ou menor facilidade com que um meio porosos se deixa atravessar pela água. Se variarmos o tipo de meio poroso. i ∆h e L o sinal menos indicando que o sentido do escoamento se dá dos pontos de maios para os de menor coluna hidráulica.

a nível local.0. se considerarmos blocos de grandes dimensões. aquitardos. Apesar de não servirem para nelas serem instaladas captações. A uma maior porosidade efectiva corresponde. Uma grande porosidade total pode não corresponder a uma boa condutividade hidráulica.013 m/dia Areia ou grés de grão médio ……. aquicludos. as rochas podem dividir-se em aquíferas. sob o ponto de vista da sua exploração. Têm interesse enquanto formações adequadas à instalação de captações. A lei de Darcy foi estabelecida experimentalmente para meios porosos em pequeno. O conceito de porosidade pode continuar a aplicar-se. Vejamos algumas relações entre porosidade total e condutividade hidráulica: A porosidade é adimensional A condutividade hidráulica exprime-se em [LT-1] (m3/m2/s). Porosidade em pequeno e porosidade em grande – meios fissurados. para o mesmo tipo de formação hidrogeológica. uma maior condutividade hidráulica. Nesta situação diz-se que a formação geológica apresenta porosidade em grande. para meios em que os poros apresentam pequenas dimensões (alguns milímetros). a água acaba por impregnar a matriz rochosa. Exemplo argilas. tem as dimensões de uma velocidade. isto é. Valores indicativos da velocidade da água subterrânea Na figura seguinte aparece um permeâmetro especialmente construído para pôr em evidência a linearidade da queda da coluna hidráulica dentro do meio poroso.7 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III contribui para o esclarecimento das propriedades dos aquíferos. Exemplo: aquífero coincidente com uma camada sedimentar de areia. a circulação da água frequentemente faz-se sobretudo através Argilas …………… 0 .0003 m/dia Areia fina ………… 0. aquitardas e aquicludas: Aquífero .FEUP 1999-2010 . Ainda mais impermeáveis que os aquicludos podem. a nível regional ter uma acção de recarga não negligenciável. Assim. 7.5 m/dia Gravilha grossa …………………… 35 m/dia Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Desde que estejam localizadas na zona saturada.tardare : tardar -> a água armazenada pode ser cedida lentamente. que pode apresentar porosidade efectiva muito baixa. da ordem das dezenas ou centenas de metros. podem desempenhar um papel essencial na recarga dos aquíferos com que contactam.30 m/dia Areia grossa ou gravilha siliciosa 2 m/dia Gravilha média ……………………. ainda assim. 0. Aquitardo . Aquicludo . Aquíferos. de fracturas preexistentes.fero : levar -> formações geológicas em que as rochas circulam facilmente. isto é. podem apresentar diferentes condutividades hidráulicas e diferentes porosidades cinéticas. No caso dos maciços rochosos constituídos por rochas compactas. enquanto entidades portadoras de água. As rochas.cludere : fechar -> absorvem a água mas não permitem a sua circulação.

As figuras seguintes ilustram diferentes tipos de aquíferos.FEUP 1999-2010 . designando-se então por aquífero livre.. caso em que a superfície do aquífero está livre. ou a água apenas está retida na base. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . aquíferos em meio fissurado. etc. Livre Confinados Suspenso Aquífero livre Livre e confinado Além destes consideram-se também os aquíferos. consoante a água se encontra contida entre um tecto e um muro relativamente impermeáveis. considera-se também o caso mais raro de aquíferos cativos.. basicamente. que são depósitos de água fósseis. dois tipos de aquífero. caso em que o aquífero se designa por confinado. Além destes. no sentido em que não há percolação e consequente renovação da água ao longo do tempo e os aquíferos suspensos.8 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Exemplos de aquíferos Há. que são assim designados por a sua superfície livre ficar acima do nível freático vizinho.

FEUP 1999-2010 . Nas figuras seguintes podem ver-se diversas situações que enquadram o surgimento de fontes. Rebaixamento topográfico Fontes no contacto permeável/impermeável Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .9 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Fontes As fontes estão de um modo geral associadas a soluções de continuidade geológicas.

10 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Fontes no afloramento de uma falha Rebaixamento do solo em terreno cársico Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

diaclases) Alinhadas no afloramento de uma fractura ou falha Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .11 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Fontes alinhadas (1 .FEUP 1999-2010 .

12 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Fonte num vale de erosão Fonte numa falha e num dobramento Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

FEUP 1999-2010 .13 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Fonte com origem num rio subterrâneo Piezometria na zona de recarga e de descarga de um aquífero livre Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

são menos vulneráveis à contaminação.FEUP 1999-2010 .(cursos de água e lagos) • propriedades dependentes do solo e da atmosfera • Temperatura dependente da temperatura média do ar. As águas superficiais e subterrâneas apresentam as seguintes características distintivas: Águas superficiais. são muito vulneráveis sob o ponto de vista da contaminação. como por exemplo em granitos.14 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III As fontes apresentam um caudal desfasado em relação aos valores da precipitação. • Matérias em suspensão. vales secos. que por vezes circulam à superfície As fontes localizadas em formações intrusivas. alargamento progressivo das fissuras por dissolução. regatos e rios subterrâneos. A água circula através de diaclases. orgânicas e inorgânicas: efeito de filtragem Materiais em dissolução dependentes das formações geológicas que atravessam As fontes localizadas em formações cársicas. reduzido escorrimento superficial dificulta abertura de vales secundários. permeabilidade crescente (aumenta em profundidade) drenados pelo nível do vale principal da região. Com efeito a hidrogeologia dos terrenos calcários caracteriza-se por: • • • • • • • permeabilidade em grande. A temperatura da água subterrânea reflecte a temperatura das zonas que atravessa. É costume distinguirem-se as seguintes zonas do solo: • Zona influenciada pelo calor atmosférico: zona de heterotermia heterotermia diária : 1 a 2 metros heterotermia anual: 15 a 40 metros de profundidade • Linha neutra Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . dado o efeito filtrante resultante da passagem da água através da matriz da rocha. O regime de precipitação é cíclico. Se a água que acorre para a diaclase provier da matriz da rocha. orgânicas e inorgânicas • Materiais em dissolução dependentes das formações geológicas que percorrem à superfície e da composição das águas subterrâneas que as alimentam Águas subterrâneas • • • • Propriedades dependentes das rochas por onde circulam Temperatura dependente da temperatura das formações que atravessam Matérias em suspensão. com um período correspondente a um ano. a fonte correspondente apresentará grande pureza bacteriológica.perspectiva geológica e hidrogeológica. que abastecem a fonte. Caracterização da água . sendo as diaclases por sua vez alimentadas pela circulação microscópica da água na matriz da rocha. caracterizadas pela existência de cursos de água subterrânea onde a circulação é rápida e muito frequentemente em regime turbulento.

C3H8.15 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III • • Zona influenciada pelo fluxo de calor do interior da terra. controlo por análise química e bacteriológica. (Ca. • pressão . CH4. incolor. pode ser perfeitamente filtrada de qualquer microorganismo em suspensão. estabelecer hipótese sobre o percurso das águas subterrâneas que a alimentam. A qualidade do filtro natural pode verificarse indirectamente: • • • constância de caudal da fonte.FEUP 1999-2010 . inodora. nitratos. indirectamente. Percebe-se assim que a medição da temperatura de uma fonte constitua uma informação importante que permite. silicatos. KCl.aumenta a dissolução de gases com o aumento de pressão. funciona como um filtro que retém as partículas em suspensão. sabor agradável. se percolado pela água de infiltração. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . compostos de ferro. clara. límpida. temperatura crescente em profundidade A presença de fendas e de passagens francas no subsolo impede a acção de filtragem. C2H6. Uma nascente cuja temperatura sofra variações anuais indica uma influência da zona heterotérmica do solo: 15 a 40 m de profundidade. acção de concentração pela evaporação. Composição química Caracterização química da água subterrânea Gases mais frequentes: N. • Uma nascente cuja temperatura sofra variações diárias atravessa zonas muito superficiais. H. constância da composição química. Ar. • clima: acção de dissolução pela chuva. 33ºC/m: Zona de homotermia: da linha neutra para baixo. constância de temperatura. Uma nascente cuja água apresente uma temperatura praticamente constante revela uma predominância de águas provenientes de profundidade. SiO2. arejada. Sais: CaCO3. constância da limpidez. • • A filtragem natural O solo. NaCl.Mg)CO3. O. logo está muito sujeita a contaminação. CO2. He. CaSO4. dependendo do gradiente geotérmico (20 a 40m/ºC). NH3.aumenta a dissolução de sais com a temperatura. …. Factores que intervêm na composição química da água: • terrenos que atravessa <-> tempo de contacto • temperatura . Se a passagem da água se fizer pela matriz de uma rocha. Qualidades exigidas às águas Água potável: fresca.

Águas subterrâneas .medíocre • 10 000 -100 000: impura • >100 000 . Tanto num caso como noutro.muito impura Águas para consumo humano • Águas de rios e lagos . a localização da captação no aluvião beneficia de um efeito de diluição de eventuais contaminantes esporadicamente transportados e difundidos no rio. sempre que são lançadas em redes públicas devem ser tratadas a fim de prevenir possíveis contaminações nos depósitos e canalizações da rede pública. As relações entre as encostas do vale e o aluvião aparecem ilustradas na figura seguinte. No caso da figura anterior a encosta é impermeável. que envolvam caudais apreciáveis. em abastecimentos particulares. são realizados os seguintes estudos. • No caso da figura anterior verifica-se que a encosta é permeável. podendo assim existir um caudal subterrâneo nos períodos de estiagem em que o rio se apresenta seco.excessivamente pura • 10-100 : muito pura • 100-1 000: pura • 1 000-10 000 . H = h + t = d h.necessitam de tratamento prévio para precipitação de partículas em suspensão e para desinfecção. directamente do aluvião. do nível do mar. pelo que a água presente no aluvião provém do abastecimento feito pelo leito do rio.16 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Quanto à pureza bacteriológica (microorganismos / cm3): • 0 -10 . sendo muito sensível à diminuição de t. Se bombearmos a água através de uma captação. h = t / ( d − 1) H − espessura total de agua doce h − profundidade de agua doce abaixo do nivel do mar t − altura da toalha de agua doce acima do nivel do mar d − densidade da agua do mar Pesquisa de águas subterrâneas Nas situações de abastecimento de populações. é necessário ter em conta a presença de uma cunha salina que pode contaminar o aquífero onde se está a bombear água para abastecimento das populações. A água para abastecimento humano muito frequentemente é captada em vales de rios.FEUP 1999-2010 . total ou parcialmente: • Estudo hidrogeológico da região Na expressão anterior verifica-se que a altura de água doce abaixo do nível do mar h depende da altura de água doce acima Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . pelo que o aquífero livre representado por N descarrega as suas águas no aluvião. o nível assinalado por t é rebaixado e consequentemente h diminui.em certos casos podem ser usadas directamente. No caso das ilhas ou das zonas costeiras.

nas regiões calcárias estudos experimentais Determinação de itinerários: exame da temperatura. permuta iónica. Pesquisa geofísica. ozonização). No caso das fontes localizadas em aquíferos livres emergentes. 10 a 100m transversal de uma vala ou galeria de drenagem. dependendo do seu estado inicial. • Abastecimento de água potável A água antes de ser consumida pelas populações humanas deve receber um conjunto de tratamentos. filtração. filões ou falhas.bacia hidrogeológica. As figuras seguintes ilustram as soluções construtivas mais vulgares. Estabelecer perímetros de protecção perímetro imediato de 10 a 250 m em volta da nascente. turfeiras ou charcos na base de encostas. Pesquisa por fotografia aérea. terrenos aluvionares. exame de caudal.17 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III • • • • Identificação de indícios : sinais meteorológicos e biológicos. exame da composição química. desinfecção por agentes químicos (tratamento pelo cloro. aquitardos. uso de NaCl. aparecimento de determinada vegetação contrastante. linear. Exemplo de algumas obras de captação. Principais parâmetros que afectam a capacidade de um aquífero • • • • • • • Tipo de aquífero . barreira impermeável. Pesquisa mecânica • • correcções químicas: floculação e precipitação. perímetro geral .livre ou confinado Possança do aquífero Condutividade hidráulica do meio poroso Coeficiente de armazenamento Fronteiras . análise bacteriológica. raios ultravioleta). … Grau de exploração Clima . da ordem de 25 m em volta do poço. correcções biológicas e bacteriológicas: desinfecção por agentes físicos (luz solar. crostas calcárias ou ferríferas. tornando-a menos vulnerável a contaminações. circular. eventual dessalinização.infinito. Finalmente eliminam-se as captações que se localizem em zonas que apresentem risco eminente de contaminação Para a captação eleita: • • Determinar a origem da água . a captação limita-se a proporcionar um isolamento da água. contactos. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . uso de corantes (fluoresceína). aquicludos. que pode incluir alguns ou a totalidade das seguintes correcções: • correcções físicas: decantação. O consumo por habitante costuma estimarse em cerca de 200 l/dia.precipitação. evapotranspiração -> infiltração A pesquisa mecânica deve ser finalizada com a realização de ensaios de bombagem.FEUP 1999-2010 Captação simples .

Regularização por sifonagem Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . haverá vantagem em regularizar o caudal. Quando a drenagem do aquífero se faz predominantemente através da própria fonte.18 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Captação por travessa Barragem interna Captação por poço Barragem externa Barragem interna Captação por galeria As fontes por vezes apresentam caudais bastante baixos na estiagem e demasiado altos no período das chuvas. conforme aparece nas figuras seguintes. internas ou externas.FEUP 1999-2010 . através da implantação de barragens.

Na figura seguinte aparece representado uma captação deste tipo com o respectivo cone de depressão. isto é. porque funcionam simultaneamente como reservatórios de água.processo mais corrente. que acabam por cair na albraca da captação de onde são removidas mais tarde.FEUP 1999-2010 . apresentam. em determinadas regiões. porque a água superficial apresenta episódios de contaminação. da ordem de dois decímetros. que atingem profundidades da ordem das dezenas de metros. grandes diâmetros. com descarga da coluna de água ascendente. é limpo. Cone de depressão piezométrica em torno da captação O furo. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Nas última décadas surgiram e implantaram-se firmemente captações caracterizadas por terem um pequeno diâmetro.19 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Captações por poços e furos Em muitas situações capta-se a água antes de ela emergir espontaneamente. • por injecção de ácido desenvolvimento químico (raramente usado). dependendo a sua forma e dos conhecimentos construtivos da respectiva região. • por pistonagem – processo que consiste em fazer subir e descer um pistão que movimenta a água em sentidos opostos. Algumas das captações apresentadas anteriormente podem localizar-se em antigas fontes. a fim de desobstruir o caminho da água numa auréola em torno da captação. Muitas vezes as captações são colocadas onde anteriormente existiam fontes naturais. O desenvolvimento é levado a cabo recorrendo a diverso processos: • sobre-bombagem. Existe uma grande variedade de execução de poços. da ordem das centenas de metros. porque é necessário aumentar o caudal de abastecimento. • por lavagem com jacto de água da zona de tubo ralo. As obras de captação realizam-se por algumas das seguintes razões: • • • • porque não há fontes que possam ser usadas. uma vez realizado por um equipamento pneumático ou hidráulico. • ciclos de bombagem interrompidos. é desenvolvido. porque é necessário assegurar uma maior constância da composição físico-química da água. mas atingindo grandes profundidades em relação aos poços tradicionais. movimentando as areias dos interstícios do meio poroso vizinho da captação. da ordem da dezena de metros. • por ar comprimido . Estas últimas captações designam-se por furos. • ciclos de bombagem e de recuperação. Os poços tradicionais.

o que facilmente se constata pela diminuição do caudal que apresentam. cuja representação gráfica foi atrás apresentada. passando à situação a). Na figura seguinte está representado um corte de uma captação. condiciona a velocidade com que a água aflui à captação. elevando-se o nível ao longo do tempo. que eleva a água do interior da captação para o exterior. permite prever o rebaixamento em torno de uma captação que está a bombear um caudal Q numa captação localizada no meio de uma ilha – problema do poço no meio da ilha cujo raio é R. d) atingido o nível máximo. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . dada a transmissividade do aquífero T. designada por bomba de fundo de furo. que permitem controlar os períodos em que a bomba está desligada ou ligada. Nas zonas onde se pretende captar água. No caso do aquífero confinado existe um cone piezométrico.FEUP 1999-2010 . que coincide com o período das chuvas. o ciclo é o seguinte: a) água a ser bombeada e o nível no interior do furo a ser rebaixado. No caso de uma captação que está a ser permanentemente bombeada. A seguinte fórmula.20 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Finalmente é revestido com um tubo impermeável que permite isolar as zonas do furo que devem ficar isoladas. colocam-se tramos de tubo com aberturas. As zonas onde está representada a entrada de água correspondem a zonas de tubo ralo. comprometendo a eficácia da captação. essa velocidade não deve ser excessiva – exploração gananciosa – sob pena de se dar o arrastamento de pequenas partículas minerais que acabam por colmatar as grelhas através das quais a água entra no tubo. c) água a recuperar dentro do furo. para um ponto que diste do centro da ilha r. Dentro do tubo instala-se uma bomba submersível. Simultaneamente é instalado no interior do furo um sistema de sensores de nível. a bomba é de novo accionada. devida a Dupuit. facultando-se assim a entrada da água para dentro do tubo. são realizados trabalhos de desenvolvimento das captações que se encontram parcialmente obstruídas. durante o período de menor escassez de água. b) atingido o eléctrodo de mínimo a bomba é desligada. O grau de rebaixamento imposto pelos eléctrodos de mínimo e de máximo. normalmente designadas por tubo ralo. Esporadicamente. Equações dos poços A título de mera curiosidade passamos a referir algumas equações que descrevem matematicamente a circulação da água subterrânea.

Contudo. para efeitos práticos se pode Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . supôs-se que o tempo que decorreu desde o início da bombagem foi infinito e que o cone piezométrico está com uma forma inalterável. as fórmulas de Dupuit continuam a ser válidas. é frequente recorrer-se ao As expressões até agora apresentadas foram obtidas para regime permanente. a situação de um poço centrado no meio de uma ilha perfeitamente circular é algo que nunca se encontra na prática. ou seja.21 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III h( r ) − H = Q r ln 2πT R A transmissividade T de uma aquífero de condutividade hidráulica em toda a espessura é igual ao produto dela pela possança do aquífero. desde que se substitua o raio da ilha pelo raio de influência. Na figura anterior supõe-se que o aquífero confinado coincide com a zona sombreada. representada a cinzento. A figura seguinte representa um poço no meio de uma ilha porosa. Assim. conceito de raio de influência. do aquífero livre. a variação do rebaixamento não se dá de forma linear com o caudal: h2 = H 2 + Q r ln πK R As expressões anteriores não aparentam ter qualquer interesse prático. Na situação real não existe uma ilha mas sim um aquífero que. problema do poço em aquífero livre no meio de uma ilha.FEUP 1999-2010 . A expressão anterior significa que o rebaixamento do nível piezométrico varia linearmente com o caudal bombeado da captação. para situações de uma captação localizada num terreno do interior. como sendo a distância a partir da qual se deixa de sentir a influência do rebaixamento induzido por uma captação. A partir da expressão de Dupuit para aquífero confinado é possível obter-se o cone de de depressão representado na figura seguinte. em relação ao nível piezométrico da zona onde a captação está instalada. É evidente que este tipo de situação resulta das necessidade inerentes às hipóteses simplificadoras que permitem obter soluções analíticas para um determinado problema. isto é. Com efeito. Neste caso. onde a água percola através livremente.

para o qual também é possível obter solução analítica e. o rebaixamento piezométrico em torno da captação ao longo do tempo. nesta situação o cone de depressão vai evoluindo ao longo do tempo.22 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III considerar infinito. a partir dela.. Neste caso já não se está na presença de regime permanente.FEUP 1999-2010 . mas sim de um regime transitório. atingindo zonas sucessivamente mais distantes da captação. Atenção à escala vertical! Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . que aparece nas figuras seguintes.

ineti. Excluídas: águas minerais naturais e águas de nascente . de 16 de Março Depósitos Minerais: Decreto-Lei nº 88/90. Pesquisa e Exploração de Recursos Geológicos LEI-BASE: Decreto-Lei nº. Prospecção.Dec. etc. DL 90/90. de 16 de Março Águas Minerais Naturais: DecretoLei nº 86/90.. de 16 de Março Massas Minerais (Pedreiras): Decreto-Lei nº 270/2001. termominerais. b2) Águas do litoral e salobras utilizadas para criação b3) Águas do litoral e salobras utilizadas para fins aquícolas . Prospecção. a2) Águas subterrâneas destinadas à produção de água para consumo humano. são consideradas como um recurso geológico. Em http:/www. águas para fins terapêuticos. ….águas conquícolas. pesquisa e exploração de águas de nascente. c) Águas balneares.pt pode ser consultada a legislação aplicável (2005) Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . DL84/90. que têm legislação específica: Prospecção. de 16 de Março Águas de Nascente: Decreto-Lei nº 84/90. b1) Águas do litoral e salobras para fins aquícolas . que se integram no domínio público do Estado. d) Águas para rega. a3) Águas de abastecimento para consumo humano..águas piscícolas.Lei 236/98 ARTIGO 2 Categorias de água 1. 90/90. DL86/90.23 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo III Classificação da água segundo a legislação portuguesa (águas não minerais) Legislação portuguesa . A exploração das águas minerais. as seguintes categorias de água a) Água para consumo humano: a1) Águas doces superficiais destinadas à produção de água para consumo humano. estão enquadradas na Legislação sobre Prospecção.águas piscícolas. pesquisa e exploração de recursos geológicos. águas para recarga de lençóis freáticos. que se integram no domínio privado. b) Águas para suporte da vida aquícola: Águas doces superficiais para fins aquícolas .igm.FEUP 1999-2010 . de 16 de Março Águas Minero-Industriais: Decreto-Lei nº 85/90. São definidas. em função dos seus usos principais.. de 6 de Outubro Petróleo: Decreto-Lei nº 109/94 de 26 de Abril isto é. de 16 de Março Recursos Geotérmicos: DecretoLei nº 87/90. pesquisa e exploração de águas minerais.

.38 . mas estendeu-se às estâncias balneares com águas com temperatura normal. Os trabalhos romanos de aproveitamento das águas eram frequentemente realizados com grande mestria.. nas localidades onde existiam fontes termais estas foram naturalmente aproveitadas para banhos cujas propriedades terapêuticas acabaram por ser identificadas.…………….8ºC Gerês ……………….1 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Águas termais As águas termais ou termo-minerais gozaram durante muitos séculos de uma grande reputação curativa. onde são aquecidas. haveria tempo para ser estabelecido o equilíbrio térmico com as zonas superficiais da crusta. se a ascensão fosse lenta.. O termalismo. Os Romanos tinham uma especial predilecção pelas fontes termais.…………. são águas que vêm de regiões profundas da crusta. nas regiões por onde o seu império se estendeu. Numa perspectiva meramente física. nomeadamente na Itália. com uma cultura marcadamente hedonista.7 a 46. França. repouso e contacto com a Natureza que faculta. tendo muitos deles sobrevivido até aos nossos dias.68. dedicou grande atenção às actividades de lazer. por cada 33 metros que se desce na crusta.59.…..4ºC Moledo………………………. Eis algumas temperaturas de emergências termais portuguesas: • • • • • • • • • Açores . onde os grandes balneários públicos tinham uma grande importância social. que inventariaram e captaram.Ilha de S.7ºC Vizela …………………….42.67ºC Alcachefe ……………………. Ásia Menor.FEUP 1999-2010 . recebem aquela designação as águas que tradicionalmente são usadas com fins terapêuticos. cujas virtudes lhes são atribuídas como provenientes da sua temperatura e da sua mineralização.Pedro do Sul (a mais quente) …….39.. Portugal. durante a segunda metade do século XX sofreu um certo declínio. após o que ascendem rapidamente por fracturas existentes nas rochas. com efeito. baseada muitas vezes em crenças cientificamente difíceis de aceitar ou rejeitar. em parte pelas componentes de lazer. desde que os avanços da medicina propiciaram a cura de doenças para as quais anteriormente só oferecia meros paliativos. etc… A civilização romana. Dada a sua utilização ancestral.. Argélia..………………………. Na maior parte desses balneários a água era aquecida pela combustão da lenha. em relação à temperatura na nascente. O nome advém de muitas dessas águas apresentarem uma temperatura anormalmente alta. a temperatura sofre um incremento de um grau. Já nos finais do século XX recuperou um pouco.. pode usar-se a seguinte classificação para as águas : ÁGUAS FRIAS T<20ºC ÁGUAS TÉPIDAS 21ºC<T<30ºC ÁGUAS QUENTES 31ºC<T<35ºC ÁGUAS MUITO QUENTES T>35ºC A designação de termas aplica-se às instalações onde se utilizam águas para fins terapêuticos. Miguel ……….9ºC As águas termais que apresentam uma temperatura superior à temperatura média das outras águas. em média.7ºC Chaves.1ºC Caldelas…………. mais frias.49.…………30. É um dado conhecido que.……………………….15-98ºC S.………………………. pujante no século XVIII e XIX. A sua termalidade é uma das características que normalmente as distingue e que despertou o interesse das populações desde remotas eras. Espanha. Facilmente se constata que a Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .68ºC Aregos…….31 .

FEUP 1999-2010 . Nas páginas Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . em que tg é o gradiente geotérmico. termais e de águas de mesa.2 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV profundidade mínima de proveniência de uma água termal pode ser estimada por: profundidade = (tnascente − tambiente ) * tg seguintes aparecem cartas das nascentes minerais. caudal. No Quadro I apresenta-se um resumo com dados sobre temperatura. que tem o valor médio já referido de 1ºC/33m. podendo nas regiões vulcânicas assumir valores de 1ºC/5 a 15m. caracterização química e localização geológica das principais águas termais portuguesas.

3 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

FEUP 1999-2010 .4 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

FEUP 1999-2010 .5 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

5 8.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .2 23 24.1 32.orlas ceno-mesozoica Sulfatadas Cálcicas .2 21.Submeseta setentrional Carbonatadas cálcicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .orlas ceno-mesozoicas Carbonatadas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .8 15.Submeseta setentrional Carbonatadas sódicas frias .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta meridional Carbonatadas cálcicas .Submeseta setentrional Hipossalinas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas . sódica .8 48.Submeseta setentrional Carbonatadas sódicas frias .orlas ceno-mesozoica Hipossalinas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .orlas ceno-mesozoica Sulfuradas sódicas .Submeseta meridional Hipossalinas .carbonatada.orlas ceno-mesozoica Cloretadas .Submeseta setentrional Carbonatadas sódicas .7 28 35.2 25 22.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Cloretadas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .8 21.Gemil Caldas de S.1 34.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Pedro do Sul Termas de S.4 49 26.submeseta meridional Sulfúrea .5 18.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .FEUP 1999-2010 .Vicente Termas de Unhais da Serra Fadagosa de Nisa Termas de Cabeço de Vide T ºC 14.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .5 19.submeseta meridional Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .5 45.orlas ceno-mesozoica Cloretadas .1 26.cloretada.9 67.8 16.8 30.orlas ceno-mesozoica Sulfuradas Cálcicas .1 19.8 19.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Jorge Caldas das Taipas Caldas de Vizela Termas do Carvalhal Termas do Eirogo Termas de Entre-os-Rios Termas de S.Submeseta setentrional Sulfatadas Cálcicas .RESUMO DAS PRINCIPAIS TERMAS Q l/h 163 25000 2800 39500 240 6250 10800 990 5200 100 8300 40000 51300 14800 5000 36000 180000 1200 64800 10800 48500 2088 1850 4100 20000 30000 36000 36000 1800 3960 15000 9000 8100 10200 5700 860 36000 950 5500 9000 7900 PORTUGUESAS Termas do Vale da Mó Caldas de Monchique Termas de Castelo de Vide Termas de Caldelas Termas de Melgaço Caldas Santas de Carvalhelhos Termas de Pedras Salgadas Termas de Vidago Banhos da Azenha Termas dos Cucos Termas da Piedade Termas do Vimeiro Termas do Luso Termas da Ladeira de Envendos Caldas do Gerês Termas de Monfortinho Termas da Curia Termas de Monte Real Caldas da Rainha Banhos de Alcachefe Caldas de Aregos Caldas de Canaveses Caldas do Carlão Caldas da Cavaca Caldas da Felgueira Caldas de Manteigas Caldas de Moledo Caldas de Monção Caldas da Saúde Caldas de S.orlas ceno-mesozoica Cloretadas .6 28 18.8 17. sódica .2 28.2 61.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .3 67 18.orlas ceno-mesozoicas Hipossalinas .5 50.Submeseta setentrional Sulfuradas sódicas .8 47.5 48 23 30.Submeseta setentrional Sulfúrea .3 24.6 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV QUADRO I .orlas ceno-mesozoicas Carbonatada sódica .5 Tipo Carbonatada magnesiana .9 31 15.5 35.

A localização geológica referida na última coluna do Quadro I pode ser identificada na figura seguinte.FEUP 1999-2010 . Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .7 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV A partir do quadro anterior obteve-se a curva com a distribuição da frequência dos caudais e das temperaturas que aparecem nas figuras seguintes.

FEUP 1999-2010 .8 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

9 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

A orogenia desta região é bastante intensa e nela estão representados os movimentos orogênicos de todas as idades. Beira-Alta e Beira-Baixa. As rochas dominantes nesta região são os granitos e os xistos.10 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV As regiões geológicas em que se costuma dividir o território continental aparecem referidas na carta anterior e são: • Submeseta Setentrional Compreende as zonas a norte do Tejo e as províncias do Minho. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 . Trás-os-Montes. Douro.

Na situação anterior a água circula por simples pressão hidrostática.98807 0. Todos os casos anteriores podem ser descritos sinteticamente como tratando-se de circuitos em V.8628 0. Então. sem que exista uma diferença de cota entre a zona de recarga e a zona de descarga. próximo de M. que impede a água de afluir à superfície. após o que as águas passam a circular por um sistema de fracturas mais abertas. que facilitam a sua ascensão. Assim.9393 0. T ºC 0 25 50 75 100 125 150 175 200 225 Densidade 0. Em A dá-se a infiltração através de uma rede de fissuras de pequena dimensão.95838 0.89195 0.11 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV CAUSAS DA ASCENSÃO DAS ÁGUAS TERMAIS. que permita o aquecimento das águas. Com efeito a densidade da água líquida diminui com o aumento de temperatura. o circuito MB passa a funcionar como um circuito de descarga das águas que em M atingiram a sua temperatura máxima. Estas situações podem ser explicadas pelo efeito de termosifão. A figura seguinte ilustra uma situação típica. Constata-se que em determinadas zonas existem águas termais que brotam espontaneamente. As águas infiltradas. Na zona ACNM é suposto estar-se na presença de uma zona geológica pouco fracturada.99708 0.FEUP 1999-2010 .99987 0. em que por um dos lados se dá a descida e pelo outro a subida da água. visto B estar a uma cota inferior a A. costuma invocar-se um circuito descendente lento.83 Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Conforme referimos anteriormente.977489 0. que conseguem ascender rapidamente através de caminhos preferenciais coincidentes com fracturas. em determinado momento do seu percurso. As duas figuras seguintes mostram esquematicamente situações em que a água circula por diferença de cota entre o ponto de recarga e o de descarga. conforme se pode constatar na tabela seguinte.9173 0. as águas termais têm a sua origem no aquecimento profundo de águas de infiltração. atingem a fractura profunda MB. como o ponto B está a uma altura menor que A.

mesmo em situações em que a cota da descarga seja superior à da zona de recarga.. Quanto aos circuitos preferenciais por onde a água ascende à superfície é possível identificar os seguintes: 1) Emergência por diaclases ou juntas 2) Emergência por dobramentos 3) Emergência por superfícies de contacto 4) Emergência por falhas 5) Emergência por filões Numa dada região com manifestações de termalismo.FEUP 1999-2010 . A presença de gases também podem contribuir para bombagem por emulsionamento da água quando sofre descompressão durante o caminho ascendente. como tendo uma origem hipogénica a partir do próprio magma. ou seja. a diferença de carga hidráulica entre a saída e a entrada explica a movimentação da água. bem como da viscosidade (efeito de termo-sifão) Assim. Em resumo. as causas que explicam a ascensão das águas termais são as seguintes: • • • • Pressão hidrostática Força expansiva do vapor de água Presença de gases na água (bombagem por emulsão) Diminuição de densidade da água quando aquecida.12 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV 250 0. muito frequentemente a fonte Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Certos autores explicam a origem da água termal em certos casos como sendo água juvenil.794 cujo gráfico aparece a seguir A água ao ser aquecida diminui a viscosidade o que facilita ainda mais a sua circulação ascendente. É também invocada a explicação de a água ser forçada a circular no circuito ascendente pela pressão do vapor de água sobre-aquecida no vértice do V. ainda que a entrada e a saída se encontrem a cotas idênticas.

O controlo das águas termais torna-se mais difícil se a sua emergência se fizer na base de um aluvião e de forma difusa. por exemplo num vale. A mineralização pode ser explicada pela natureza das formações geológicas que a água atravessa. caso se revelem necessárias.13 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV aparece numa zona em que haja alguma depressão topográfica. Sucede frequentemente que as fontes termais descarregam no fundo dos rios que por esse facto aumentam de temperatura em determinado ponto do seu percurso. As águas termo-minerais são ora quentes. no caso de a água profunda ser mais mineralizada. Por exemplo. Propriedades das águas termominerais. A figura seguinte referente ao bolhão de Plombiers. é um exemplo desse efeito. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . que pode ser medida facilmente pelo resíduo seco. etc. em que a recarga do aquífero é menor. as águas das fontes termominerais classificam-se em: • Salinas – devem a sua mineralização a uma simples dissolução dos sais contidos nos terrenos que Esta mistura com águas superficiais é uma fonte de muitos problemas para os responsáveis técnicos dos estabelecimentos termais. segundo L. Acresce que na época termal as populações acorrem ao local. em do centro para a periferia se verifica uma diminuição de temperatura da fonte. tanto maior quanto mais afastada estiver da fractura condutora principal. Com efeito as águas superficiais são mais sujeitas ao risco de contaminação. de Launay. conseguir-se baixar a contra-pressão do bolhão. para aumentar o caudal pode. Bolhão de Plombiers ( Vosgues) Os efeitos contraditórios que se fazem sentir durante o período balnear muitas vezes são os seguintes: As necessidades em caudal são maiores quando se está precisamente na estação seca. por vezes apresentam as duas propriedades em simultâneo. nomeadamente: • • • • Descompressão dos gases Influência do ar exterior Abalos sísmicos Infiltrações de água no ramo ascendente do termo-sifão O estudo da variação da temperatura pode identificar a sua origem e sugerir correcções. pela percentagem de sais. em determinadas situações operatórias. ora mineralizadas. A variação da temperatura das fontes termo-minerais pode dever-se a outras causas.FEUP 1999-2010 . junto ao mar. Sob o ponto de vista químico as águas têm surgido diversas classificações. A sua maior ou menor abundância pode ser até certo ponto ser estimada pela temperatura e. no sopé de uma montanha. Quando a água se aproxima da superfície sofre por vezes uma mistura com as águas superficiais. mas ao baixar-se a contra-pressão no bolhão pode facilitar-se a invasão do aquífero por águas superficiais contaminadas. aumentando o risco de poluição por sistemas de esgotos defeituosos ou com capacidade insuficiente.

cloreto de sódio. fluo-bicarbonatas.14 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV atravessam. A sulfuração provém das pirites. • Uma outra classificação de composição química correntemente usada divide as águas em: a) Bicarbonatadas: Sódicas: carbo-gasosas. nitratadas. ferro-bicarbonatadas. Cálcicas. o que obriga a frequentes limpezas na zona de emergência. que. que originam as incrustações que podem a prazo provocar o deslocamento das emergências. Reagindo quimicamente com os terrenos. fluo-bicarbonatadas. pela intervenção de matéria orgânica e de determinadas bactérias e que apresentam um carácter mais ou menos sulfurado. sulfatadas. cloretadas ou cloro-sulfuradas. sulfato de cálcio. a alcalinade deve-se à presença de silicato e carbonato de sódio. Cálcicas: carbo-gasosas. • Hipossalinas – caracterizadas por apresentarem uma quantidade muito pequena de sais minerais dissolvidos. bicarbonatadas. d) Cloretadas: bicarnonatadas. sem que se verifiquem reacções químicas em que intervenha. cuja presença pode explicar-se pela libertação de gases de origem vulcânica profunda. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . designadas por sulfuradas cálcicas e sódicas. Estas águas apresentam também mineralização em sílica quando são muito quentes. aparecendo sulfureto de sódio que por decomposição origina algum gás sulfídrico livre. sofrem redução próximo da superfície. Quando emergem estas águas precipitam o carbonato de cálcio na zona do bolhão. sulfato de ferro. e) Ferruginosas: As fontes agem sobre os terrenos que atravessam de duas formas: f) Radioactivas. facilmente solúvel. exemplos são as águas que transportam carbonato de cálcio. • Sulfuradas sódicas – são alcalinas e características das zonas onde as rochas sódicas predominam. Cálcicas. clori-carbonatadas. De um modo geral apresentam-se pouco mineralizadas. passando-o a bicarbonato. carbo-gasosas. magneso-bicarbonatadas. • Depositando sais por precipitação. por exemplo. Nitratadas. sais de magnésio. etc… São as águas sulfatadas cálcicas ou sódicas. b) Sulfurosas: Sódicas: fluoradas ou fuosulfuradas. • Carbonatadas – Caracterizam-se por possuírem anidrido carbónico dissolvido em quantidade apreciável. o ácido carbónico. noutras situações. c) Sulfatadas: Sódicas. O anidrido carbónico presente promove a dissolução do carbonato de cálcio. clori-bicarnonatas.FEUP 1999-2010 . sulfídricas.

15 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Exemplo de alguns modelos interpretativos de circuitos termais Bolhão de Caldelas Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 .

Suíça. Yverdon Circuitos de ascensão .16 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Circuitos de ascensão .emergência por dobramentos.emergência por diaclases e filões Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .exemplo. Cantão de Vaud.FEUP 1999-2010 .

17 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Captação das águas termais As captações termais revestem quase sempre um carácter bastante diferente das outras captações. que deve ser cuidadosamente estudado e acompanhado. por uma questão de aumento da pureza dessas águas. Não se deve aumentar o caudal baixando o grau de mineralização. as próprias características químicas das águas termais podem ser drasticamente alteradas se evitar a sua mistura. mas a não ser em regiões inexploradas do planeta. já que isso corresponde à mistura com águas superficiais. se realizar uma captagem muito perfeita em profundidade. que lhes confere as propriedades que as caracterizam. existe um conjunto de métodos de prospecção que podem indicar locais a serem sondados mecanicamente. captações de particulares “acertam” involuntariamente com veios daquelas águas.FEUP 1999-2010 . tornando-a inadequado para a utilização tradicional. Aqui surge um problema muito delicado e que deve ser resolvido de forma muito cuidadosa e ponderada. em certos casos. alterando-lhe a composição original. ela consiste na construção de dispositivos que permitam controlar a sua termalidade e o grau de mistura com águas não termais que brotem no mesmo local. visto que a alteração dos níveis de descarga pode conduzir à alteração das características físicoquímicas das águas. em situações de alteração de comportamento. que podem conter impurezas que vão contaminar as águas termais. No caso de recurso termais profundos não postos em evidência por fontes. fracturas. Se. em zonas do terreno onde a sua emergência seja facilitada. A característica que distingue os circuitos termo-minerais dos exemplos então apontados reside na maior profundidade atingida pela água no seu circuito entre a zona de carga e a zona de emergência da fonte. as águas sulfatadas cálcicas. para. com um mínimo de tentativas. ficam carregadas com uma pequena percentagem de gás sulfídrico. No que se refere à captação. é o que acontece com aquelas águas termais que devem algumas propriedades particulares à natureza dessas misturas. que a irá isolar das águas superficiais. entrando em contacto próximo da superfície com lenhites. Em todo o caso. Sucede ainda que. Cada captação termal é um caso particular. normalmente correspondentes a zonas erodidas de menor cota topográfica. os pontos fulcrais que devem ser observados na construção de uma captação são os seguintes: Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . que desde longa data estão identificadas e utilizadas. Por exemplo. Exemplos esquemáticos interpretativos da origem das fontes foram já apresentados no capítulo anterior. 2 – Captação propriamente dita. 3 – Armazenamento e utilização da água termal. dobramentos. contactos. com tal acção poder-se-á alterar completamente as características da água. de um modo geral as populações conhecem emergências termais espontâneas. Da prospecção das águas termais não nos iremos aqui ocupar. As fontes termo-minerais surgem em diaclases. Em seguida vão ser descritos diferente exemplos de captações termais. poder ser correctamente corrigida. As etapas envolvidas são as seguintes: 1 – Prospecção da água termal. Não raramente em zonas de águas minerais ou termais.

caso não se proceda assim. • Fontes termais inter-estratificadas. de origem não termo-mineral. que. ainda assim há duas situações a distinguir: • O bolhão situa-se na rocha compacta. galerias. em muitos casos. a intrusão de aquíferos superficiais poluídos. eventualmente. Nesses casos é necessário ter em atenção que a necessidade de maiores caudais não vá provocar. isolando as águas que dele emergem das águas circundantes. em que se podem distinguir pelo menos dois grandes grupos: • Fontes termais provenientes de fracturas. O controlo do nível de captagem é de particular importância nas épocas de maior risco de contaminação. trabalhos subterrâneos. à medida que a experiência o possibilitar. não aparecem com nitidez à superfície. a) Captação de águas termais numa fractura acessível No caso de as águas não transportarem quantidade apreciável de gases dissolvidos a solução construtiva é relativamente simples. Estabelecer um nível de captagem. poderão apresentar fortes variações em mineralização e em termalismo. por rebaixamento. Com efeito as substâncias minerais em solução promovem o ataque das paredes dos tubos. Os métodos para ir buscar as águas termo-minerais à sua origem dependem das condições de emergência. Quando a água provém de fractura nítida. • O bolhão localiza-se em profundidade numa rocha compacta mas apresentase difuso. serem reparadas. pelas variações de carga hidráulica induzirem diferentes repartições de caudal das águas termo-minerais e das águas de mistura.FEUP 1999-2010 . deverão ser usados tubos adequados às características físicoquímicas da água. As canalizações devem ser facilmente visitáveis a fim de sofrerem inspecções regulares e. No caso de a água ser Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Normalmente realiza-se uma pequena obra de protecção em torno do bolhão.18 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV • • Procurar estabelecer um modelo da fonte termo-mineral. ainda que incompleto. ter em atenção o tipo de solo de cobertura das fracturas. canalizada. poderão aparecer várias emergências. O nível de descarga das águas do bolhão pode. que aflora à superfície ou muito próximo da superfície e pode ser facilmente isolado através de trabalhos relativamente simples e a água captada com relativa facilidade. procurando impedir que águas de outra proveniência se misturem com a água termo-mineral. consoante a carga hidráulica sazonal. identificar a sua intersecção com a superfície topográfica e escolher um ponto de saída que seja favorável. esse modelo irá ser progressivamente aperfeiçoado e transmitido às gerações vindouras. em muitos casos. Se Métodos de captação A captação é realizada através de poços. ser regulável. provenientes de um aquífero confinado inter-estratificado. em particular identificar a fractura ou do sistema de diaclases. é um precioso auxiliar de raciocínio. Um modelo explicativo. neste segundo caso pode ser muito difícil identificar e isolar o local onde o bolhão se localiza. recoberta por um aluvião. que. que coincidem muitas vezes com o período de estiagem. sendo então mais adequado condicionar a emergência com contra-pressões hidrostáticas. ainda que com algum carácter especulativo. As galerias de acesso são revestidas com alvenarias ou com paredes betonadas.

Essa fractura localizase a uma pequena profundidade. que impedem a água do gnaisse de se escapar (ver figura seguinte). limpar a fractura e construir uma cuba que sobe da base até à superfície e que isola as águas profundas das águas superficiais. encaixado em tufos porfíricos do Culm. penetrando até ao ponto onde o gnaisse se apresenta intacto. existe uma fonte já anteriormente captada pelos Romanos. No tempo de Luís XIII foram realizados trabalhos suplementares inúteis. Ver figuras seguinte. Côte-d’Or. A fonte de Boubon-l’Archambault (Allier) encontra-se num maciço de gnaisse. rodeado e recoberto por sedimentos pérmicos impermeáveis. Este maciço de gnaisse é atravessado por pequenas fracturas filonianas com baritina. a uma profundidade de 5 a 6 metros. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . celestite. Nesse micro-granulito existe uma fractura preenchida por pórfiro com quartzo globular. de forma a impedir todo o contacto com as águas superficiais. por cima de cada emergência. com uma proporção notável de sódio e de lítio proveniente dos granitos alcalinos da região. Assim a água quente chega com uma pressão hidrostática considerável e afasta a água fria. ao longo da qual emerge uma fonte termal. O trabalho romano consistiu em cimentar toda a fractura. Vejamos alguns exemplos.19 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV se pretende aumentar o caudal faz-se com que o bolhão descarregue a um nível mais baixo. Em Maizières. muitos dos quais extraídos de L. que se localiza num maciço microgranulítico. constituindo uma espécie de chaminés de captação. de Launay. construíram-se três cubas que ficaram como que suspensas.FEUP 1999-2010 . consistiu em fazer um poço. nos pontos mais baixos aparecem diversas saídas de águas termais. caso contrário aumenta-se ao nível de descarga. fluorite e galena. Segundo a direcção NW-SW existe um filão encaixado no gnaisse. retomado nos nossos dias. o trabalho romano.

Outra solução construtiva. onde se localiza a fonte de Evaux e que a determina. A fonte de Evaux (Creuse) encontra-se localizada num grande filão de quartzo do Maciço Central (60 Km de comprimento) que drena uma grande quantidade de águas subterrâneas. a fim de constituir um reservatório com um plano de captagem mais elevado. em que se colocou uma camada isolante de betão sobre um bolhão recoberto previamente com um leito poroso.20 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Foi construída um dispositivo (ver figura da direita) tipo chaminé. Quando as fracturas são bem localizadas pode-se realizar a captação como mostra a figura seguinte. seguida da construção de uma campânula em betão. contendo assim as águas da fonte. Os Romanos fizeram uma espécie de barragem nos aluviões do vale. continua a descer para jusante. O vale. Para evitar a mistura com as águas superficiais. A água fica em carga e o caudal fica reduzido. deixando um pequeno número de orifícios. podendo ser aumentado por descarga do reservatório. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .FEUP 1999-2010 . o terreno foi recoberto com uma camada de betão. consiste em realizar uma pequena obra de rebaixamento e de limpeza das fissuras do bolhão. que se refere às Caldas da Cavaca.

brota no fundo do vales do Tamina. tratar a água e posteriormente promover a dissolução do gás na parte final do circuito. que intersecta a fissura G. Noutros casos apenas se constróem barreiras para isolar as águas onde as infiltrações podem ser maiores. Apesar deste trabalho ter conseguido captar a maior parte da água que anteriormente se dispersava por diferentes fontes. Trabalhos mineiros Quando as fontes termais são múltiplas. nomeadamente gás carbónico. ainda assim alguma continuou a escapar-se pelo leito do rio. umas perenes. Esta técnica aplica-se quer para utilização balnear quer para engarrafamento. A fim de regularizar os caudais construiuse uma galeria horizontal. para evitar os problemas causados pela presença de gases em excesso na água dentro das canalizações. o problema é mais delicado.21 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Tanques sucessivos Águas gasosas No caso de as águas terem dissolvidos gases. algumas permanentes. dependendo da tipologia da nascente. conforme aparece na figura seguinte. Existem diversas soluções. nomeadamente poços. que tem por objectivo isolar a periferia de infiltrações de águas estranhas à nascente. Por vezes recorre-se a dispositivos análogos ao da figura seguinte. outras com variações sazonais. Por exemplo a fonte de Ragaz ou Pfoefers (Suíça). que origina os chamados golpes de aríete. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Em certos casos constrói-se em torno da zona fissurada por onde nasce a água um conjunto de cintas estanques.FEUP 1999-2010 . outras intermitentes. que simultaneamente drena as outras fracturas secundárias. por vezes realizam-se trabalhos mineiros. sondagens e galerias. é frequente efectuar-se uma separação prévia do gás. Dependendo do tipo de água mineral. em que a água é transportada pelo tubo de cota mais baixa a e o gás pelo tubo b. actualmente construídas em betão armado. b) Captação de águas termais provenientes de uma fractura com bolhão dificilmente acessível. As águas surgiam dispersa por diversas fontes.

as águas termais escapavam-se através do leito do rio. que aumentou a carga hidráulica sobre o leito do rio. Evidentemente não se deve exercer uma contra-pressão hidrostática excessiva. a água fria invadia as fissuras das águas termais. A água fria funciona assim como uma forma de selar determinada zona. em 1838 a água termal saía no leito do rio. isolandose a primeira parte da captação que neles se instala. As fontes difusas são assim isoladas por contrapressões que. localizadas em determinadas zonas impedem a água termal de nascer em determinadas áreas. Em muitos casos procura-se o veio termal através de poços ou sondagens. muito mais eficiente que seria se fosse cimentada. Este método baseia-se no facto de a água quente e a água fria não se misturarem quando em contacto em tempos relativamente curtos. se promove a saída. passando a água termal a sair toda pela galeria captante. consiste em recorrer ao método das pressões hidrostáticas.FEUP 1999-2010 . quando o rio baixava. A figura seguinte mostra um exemplo desse procedimento e refere-se a uma captação realizada no bolhão de Salus. ou que se localizam em aluviões profundos. que brotam de forma difusa por uma miríade de fissuras. sob pena de a água fria se ir introduzir nos veios termais. Sistemas de pressão hidrostática No caso das fontes termais que se dispersam por uma área relativamente alargada. por rebaixamento hidrostático. construiu-se uma barragem. misturando-se então de forma indesejável com a água termal. Um método muito interessante de controlo das fontes termais particularmente bem estudado e divulgado pelo engenheiro francês François de Neufchâteau. Quando o rio ia cheio. não é possível realizar trabalhos do tipo dos anteriormente apresentados.22 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV A fim de evitar essas fugas. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . Em Ariège. havendo outras onde. visto não ser possível delimitar as fontes termais. nas fontes de Ussat.

Construiu-se então uma grande cuba de parede dupla. representada na figura seguinte. Constatou-se experimentalmente que nenhuma mistura existia entre a água quente e a água fria. Espanha).23 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Neufchâteau teve então a ideia de usar a água do rio para fazer uma cintura hidrostática. consistindo num canal que era cheio a partir do Ariége. Acumulando água fria no recipiente externo F. conseguiu impedir que a água termal captada em A B e C se escapasse das fracturas e que a água fria se intrometesse nas fissuras secundárias daquelas fontes. Em Cestona (Biscaia. Para evitar a mistura. com veios de água quente e de água fria. sobreelevando a água desse canal de uma altura suficiente. exerce-se uma pressão hidrostática que obriga toda a água a sair pelo tubo central C.FEUP 1999-2010 . há uma série de diaclases. fez-se uma tentativa de construir uma série de reservatórios que se revelaram inúteis. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .

24 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Em Bagneres-de-Luchin. Outros dispositivos de regulação por pressão hidrostática podem ser vistos nas figuras seguintes. criou-se assim uma contrapressão de barragem das águas frias. Em primeiro lugar foram identificados um conjunto de pontos de emergência mais importantes. Traçaram-se galerias a determinado nível. obrigando as águas quentes a convergir numa galeria central C através de um único veio. que intersectaram as fontes termais. com veios granulíticos. Para esse efeito construiu-se uma galeria circular exterior F que se encheu com água cuja pressão era regulada por eclusas.FEUP 1999-2010 . após o que se traçou a galeria G que intersectou diferentes fontes termais. Restava resolver o problema da mistura das fontes termais com as fontes de água fria. Este conjunto de galerias atingia vários quilómetros. S’ e S’’ na figura seguinte. representados por S. Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro . As águas provenientes desses veios dispersam-se num conjunto de pequenas fontes. existe uma formação xistosa. em seguida uniram-se as galerias umas às outras. muito fissurada.

1994 8. 1996. Albert Mabillot .Guide Pratique .T. C. 1980 7. Fetter .1986.Le Forage d'Eau . L.25 Geologia e Captagens – Curso de Climatologia e Hidrologia – Capítulo IV Bibliografia principal: 1.1899 3. 3 CD-ROM editados pela Tasa Graphics Inc.Béranger .Recherche et Aménegement des Sources Thermo Minérales .Apontamentos para o Curso de Hidrologia e Climatologia .1973 2. The Wonder of Rocks and Minerals.Edit-Offset -Saint-Etienne. Alberto Morais Cerveira .Hidrogeologia Quantitativa.Groundwater Hydrology for Academic Press . Abílio A.W. 6.Librairie Polytechnique CH. Plate Tectonics and How the Earth Works. Cavalheiro .Quantitative Hydrogeology . The Theory of Plate Tectonics. 4.FEUP 1999-2010 . 5.FEUP 2002. Ghislain de Marsily . Diversas imagens tiradas da Internet Abílio Augusto Tinoco Cavalheiro .Apontamentos da disciplina de licenciatura em Engenharia de Minas e Geoambiente .Applied Hydrogeology Prentice Hall.de Launay .Geologia e Captagens .

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