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Curso de Licenciatura em Enfermagem

3º Ano – 1º Semestre

Psicologia V

Gravidez
Desejada

Não Desejada

Discentes:
Cátia Fonseca nº 29142
David Marques nº28806
Jorge Carapeto nº 28813
Marisa Salvador nº21828
Pedro Cordeiro nº25050

Faro 2006
Curso de Licenciatura em Enfermagem
3º Ano – 1º Semestre

Psicologia V

Gravidez
Desejada

Não Desejada

Docente :
Celeste Duque

Discentes:
Cátia Fonseca nº 29142
David Marques nº28806
Jorge Carapeto nº 28813
Marisa Salvador nº21828
Pedro Cordeiro nº25050

Faro 2006

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ÍNDICE

1 – INTRODUÇÃO

2 – DEFINIÇAO DE GRAVIDEZ DESEJADA / NÃO DESEJADA

3 – MULHER: DUALIDADE PULSIONAL ENTRE


ENGRAVIDAR E NÃO ENGRAVIDAR
4 – DESEJO DE SER MÃE

5 – IMPLICAÇÕES DA INTENCIONALIDADE DA GRAVIDEZ

6 – EVOLUÇAO PSICOLOGICA DA GRAVIDA COM


GRAVIDEZ NÃO DESEJADA

7– ASPECTOS PROPICIOS À GRAVIDEZ NÃO DESEJADA

7.1 – INTERVENÇAO NAS GRAVIDEZES NÃO


DESEJADA
7.1.1 - A ADOPÇAO COMO A ÚLTIMA SAÍDA

7.2 - PREVENÇAO DA GRAVIDEZ NÃO DESEJADA

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"...sentia-me deprimida, bastante deslocada, muito insegura, sem saber o que queria.
Um dia fiquei grávida. Pensei na minha mãe, na minha família e em todos os outros, e
pareceu-me que o mundo se afundava”.

Maria M.

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“Mesmo a gravidez mais desejada, traz sentimentos contraditórios, que, muitas vezes,
levam a mulher a questionar se quer mesmo ter aquela criança...”.

Segundo as psicólogas: Santos L. ; Duarte C., (2006)

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1. INTRODUÇÃO

No ciclo de vida da mulher existem três grandes períodos passíveis de serem críticos,
estes são a adolescência, a gravidez e o climatério, a gravidez é indiscutivelmente uma
fase da vida da mulher que se reveste de uma valoração muito particular (o tempo passa
a ser medido em função do filho e não dos objectivos próprios).

A gravidez é simultaneamente uma transformação biológica e pessoal que coloca a


pessoa em contacto com sentimentos, comportamentos e significados que residem na
parte mais escondida de todos os seres humanos. Uma gravidez influencia de forma
importante os aspectos associados com o estado de saúde, quer da mãe, quer do filho
quer mesmo da família. No mesmo sentido é frequentemente sublinhada, no âmbito da
promoção da saúde, a importância do planeamento de uma gravidez para possibilitar
uma vivência mais favorável da mesma, prevenindo riscos e complicações.

Segundo (Justo, 1990), pode-se definir a gravidez como o período de alguns meses que
medeia entre a concepção e o parto e que, implica, sob o ponto de vista psicológico,
ajustamentos e recursos a mecanismos adaptativos à própria situação.
Na gravidez estão em jogo diversas realidades, nomeadamente:
- A criança que irá nascer
- A mulher grávida
- Um pai, mas também alguém com uma função material fundamental para a
boa sobrevivência de todo o processo e bem-estar; e por fim,
- A sociedade que necessita de assegurar a sua própria continuidade.

Os serviços de saúde cada vez mais abordam a problemática do planeamento da


gravidez, averiguando-se a utilização indiferenciada dos termos planeada versus não
planeada, desejada versus não desejada, intencional ou não intencional.

Segundo (Leal, 1991), a maternidade assume-se como um projecto de vida a longo


prazo, ou mesmo vitalício (que transcende a mera gravidez) e que envolve a prestação
de cuidados e a dádiva e troca de afectos que asseguram um desenvolvimento sadio e
harmonioso à criança.

Uma gravidez que surge numa fase de vida do casal em que não é esperada ou desejada,
em que não estão presentes as condições que essa família considera necessárias para
integrar mais um elemento, pode ter consequências sociais, económicas, de saúde
mental e física, para vários membros dessa família podendo deixar marcas irreversíveis
na sua dinâmica. Constata-se ainda que os profissionais de saúde têm responsabilidades
importantes na prevenção da gravidez indesejada, não só de forma directa, na relação

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que estabelecem com os seus clientes influenciando as suas opções em termos de saúde
reprodutiva, mas também enquanto elementos fundamentais de um sistema de saúde
que tem de desempenhar um papel activo e interventivo, tendo como suporte o
conhecimento profundo das necessidades do indivíduo.

A APF (Associação de Planeamento Familiar) revelou que um terço das jovens


sexualmente activas usou a pílula do dia seguinte, por um lado, houve situações de risco
que podem e devem ser evitadas mas, face a estas situações de risco, as jovens optam
por se protegerem de forma eficaz contra uma provável gravidez não desejada. De tal
forma os serviços públicos tendem a melhorar significativamente a sua qualidade na
prestação de cuidados de saúde reforçando a necessidade de melhorar em muito a
educação contraceptiva não só dos jovens mas da população adulta também,
aumentando significativamente o acesso dos grupos mais jovens aos cuidados de saúde
do foro sexual e reprodutivo de modo a evitar gravidezes não desejadas, visto que a
maior percentagem de ocorrência de gravidezes imprevistas pertence a jovens
adolescentes.

É no sentido tentar compreender ambas as perspectivas no âmbito da gravidez planeada


vs. não planeada que elaboramos este trabalho, com o tema “Gravidez Desejada/não
Desejada” no 8º curso de licenciatura em enfermagem, no âmbito da unidade curricular
de Psicologia V, orientado pela Prof. Celeste Duque.

Para tal, definimos como objectivos:

- Definir o conceito de Gravidez desejada/não desejada;


- Descrever o eros vs. Instinto Maternal;
- Descrever a obrigatoriedade e o Desejo de ser Mãe;
- Conhecer as implicações da intencionalidade da gravidez, em que
abordaremos as implicações de uma gravidez não desejada: pouca vigilância
(consultas pré-natais); crianças prematuras; crianças com baixo peso e
pequenas; mulheres deprimidas e fraca relação mãe – filho;
- Conhecer as intervenções no sentido de incrementar a percentagem de
mulheres que planificam a sua gravidez;
- Conhecer os aspectos propícios da gravidez não planeada;
- Enunciar as intervenções nas grávidas com gravidez não desejada, durante a
gravidez e após o parto.
- Conhecer a evolução psicológica da grávida no caso de gravidez não
desejada;
- Enunciar a adopção como última saída;
- Descrever a prevenção da gravidez não desejada;

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Ao longo deste trabalho abordaremos os objectivos atrás descritos de maneira a tentar
compreender as diferença entre uma mulher que deseja engravidar e para isso planeia a
sua gravidez e a mulher que não espera engravidar e por isso vive a gravidez de forma
diferente, contudo após o nascimento existem muitos casos em que uma gravidez que
teve todo o decurso como não desejada passa a ser desejada.

2. DEFINIÇÃO DE GRAVIDEZ DESEJADA/NÃO DESEJADA

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O conceito de gravidez desejada ou não desejada é uma avaliação feita pela mulher no
momento da concepção, no entanto, todo o contexto afectivo relativo a esta avaliação
pode modificar-se ao longo da gravidez, pela influência de diversos factores ou
circunstâncias, acontecendo com muita frequência que crianças nascidas de gravidezes
não desejadas tornam-se desejadas na altura do nascimento.

O desejo de um filho, implica desejar um filho. Ou seja inclui-lo na própria vida,


aceitando os benefícios que o ser "mãe" ou "pai" proporcionam na sociedade, e,
também, as gratificações afectivas da relação com o mesmo. Mas, sobretudo, implica
aceitar e estar consciente da mudança que origina, tanto a nível individual como do
casal.

Segundo Barber et. al. (1999), uma gravidez desejada trata-se de uma gravidez que é
desejada na altura da concepção ou antes, nestes casos como a concepção é planeada
com antecedência, são denominadas, pelo autor, como as “mistimed pregnancies”.

Contudo, existem dois conceitos diferentes: o desejo da gravidez e o desejo de um


filho. O primeiro refere-se ao sentido simbólico, geralmente inconsciente, que tem a ver
com a própria identidade da mulher. O segundo, refere-se ao desejo consciente de
querer Ter um filho no âmbito de um projecto de vida. Encontramos com frequência os
seguintes termos: "Desejo de gravidez e desejo de filho" (Passini, 1978), e "Desejo de
um filho e desejo de Ter um filho"(Cukier-Hemeuty, Lezine, Ajuriaguerra, 1987), sendo
o primeiro termo o mais utilizado e ajustado. O desejo de uma gravidez não é
obrigatoriamente equivalente ao desejo de ter um filho. Antigamente o desejo da
reprodução era uma pulsão natural ligada à função sexual numa perspectiva biológica,
de manutenção e proliferação da espécie. Entretanto, foi-se desenvolvendo, ao longo
dos tempos, num aspecto sócio-cultural, submetido a diversas normas culturais e
sociais.

Existe uma diferença em relação ao desejo de maternidade. O desejo de gravidez pode


aparecer sem que seja acompanhado do desejo de procurar uma fecundação.

Numa perspectiva psicodinâmica, querer um filho trata-se de uma vingança contra as


limitações infligidas, de realizar projectos mágicos que remontam à infância, onde se
procurava rivalizar com os pais e deixar de estar num estado de inferioridade. Adquire-
se o estatuto de adulto numa atitude de procriar igual à dos pais.

Entende-se por gravidez não desejada, aquela que não é desejada na altura da
concepção, sendo por isso considerada uma situação não controlada, muitas vezes

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identificada pela mulher como um erro ou um acidente, segundo (Barrett & Wellings,
2002).

Existe ainda uma subdivisão no contexto da gravidez não desejada, diferenciando as


gravidezes que ocorrem em mulheres que não desejam ter filhos ou que já tendo filhos
não desejam engravidar novamente e, ainda os casos em que engravidam por irreflexão
e essa gravidez não é desejada devido a vários factores (etários, económicos,
profissionais e sociais).

Na busca dos os motivos que levam a uma gravidez não desejada, é frequente encontrar
incoerências relativas à decisão de não ter filhos nesse momento e o uso do
contraceptivo.

Considera-se que a gravidez não desejada, coloca a mulher numa situação de crise, em
que é necessário tomar uma decisão que condiciona o futuro. A mulher deve decidir,
num curto espaço de tempo, interromper a gravidez ou seguir com a mesma ou ainda
recorrer à adopção. Esta decisão está condicionada por factores individuais e intra
psíquicos, na medida em que se põe em questão o sentido da sua sexualidade e das
diversas vertentes da sua identidade.

Podemos então dizer que apesar da gravidez ser uma situação de crise no ciclo vital da
mulher, esta irá viver uma crise mais difícil no caso da gravidez não desejada, pois tem
de se preocupar com decisões a tomar e, na maioria das vezes as mulheres que
engravidam inesperadamente não têm o apoio do seu companheiro, o que torna ainda
mais complicado o superar da situação, isto levará a outras complicações que
abordaremos posteriormente. Uma gravidez que é previamente planeada, ou seja
desejada tem um melhor desenvolvimento e acompanhamento, tanto por parte do casal
como por parte dos profissionais de saúde, pois a mãe vai precocemente ás consultas
pré-natais, assunto que abordaremos ao longo deste trabalho.

3. MULHER: DUALIDADE PULSIONAL ENTRE ENGRAVIDAR E


NÃO ENGRAVIDAR

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A mulher, a dado momento da sua vida, depara-se com um problema, cuja sua
génese surge da sua própria natureza reprodutora feminina. O relacionamento das
mulheres com o problema é profundamente ambíguo, ao ponto em que, de certa forma,
a própria natureza feminina se divide em duas partes, ou seja, uma parte ligada ao Eros
(lado afrodisíaco da mulher) e outra parte ligada ao lado maternal feminino.

O lado afrodisíaco feminino (Eros), é responsável por despertar o lado erótico na


mulher, ou seja, corresponde à parte feminina que se preocupa com a estética corporal e
o auto-erotismo. Por outro lado, a faceta maternal da mulher fá-la adquirir outra
concepção do seu corpo, na medida em que existe a predisposição ao sacrifico da sua
auto-imagem em defesa da necessidade e desejo de engravidar.

Cada mulher possui uma perspectiva diferente em relação ao binómio Eros-


instinto maternal. Há mulheres que valorizam mais a natureza afrodisíaca e outras a
maternal. Tais valores são desenvolvidos pela personalidade e também através do seu
contexto sócio-cultural e religioso.

Tem-se verificado que ao longo do tempo tem havido alterações no modo como a
mulher encara o seu desejo de engravidar. De um modo geral, na actualidade, assiste-se
a uma mulher muito mais preocupada com o seu lado Eros, isto é, há uma crescente
preocupação com a beleza corporal feminina, ter um corpo sedutor e agradável, tanto
para a mulher como também aos olhos da sociedade. No entanto, o facto de a mulher
estar mais preocupada com a sua aparência física, não significa que não venha a
exprimir o seu instinto maternal, isto é, existe um canalizar de libido para o desejo de
engravidar, mas com algumas precauções a nível de imagem corporal. Num outro
extremo, existem mulheres que não apresentam nenhum instinto maternal e, por opção,
não desejam ter filhos.

No que diz respeito à cultura e à parte biológica feminina, ambos sempre promoveram o
instinto maternal da mulher. Quer isto dizer que a mulher, dotada de um aparelho genital
e de uma fisiologia que a capacitam engravidar, é vista como símbolo reprodutor e,
como tal, é-lhe assumida tal responsabilidade. A nossa cultura tende a glorificar
excessivamente a maternidade, considerando-a a “máxima realização feminina”,
deixando ficar deduzido que a mulher é está “fundamentalmente destinada” a conceber,
gestar, dar à luz e criar os filhos.

A gravidez e o parto são, para a maioria das mulheres, sinónimo de uma grande
alteração e sobrecarga fisiológica seguida de distorção da imagem corporal. Para
algumas é mais importante manter a mesma expressão sexual, isto é, manter um corpo
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sedutor e agradável à vista de outrem, invés ter filhos e suportar todas as alterações
psicológicas e físicas.

Quando se aborda as implicações psicológicas que o binómio Eros-instinto


maternal infringe na mulher, não se pode dissociar o próprio desejo da mulher no que
diz respeito a ter ou não um filho. Significa que, mais do que implicações físicas ou
psicológicas, quando uma mulher deseja mesmo ter um filho, deixa de parte algum do
preconceito em mudar a sua imagem e parte em direcção ao sacrifício da sua imagem
corporal. Por outro lado, quando uma mulher não tem o desejo de ter um filho, em
defesa da sua imagem física, pode-se desencadear dois fenómenos. Por um lado a
mulher assume inteiramente o seu lado Eros e decididamente opta em não ter filhos, ou
então, mesmo não querendo ter filhos, pode engravidar e desencadear-se um conjunto
de alterações psicológicas inerentes à gravidez não desejada.

É importante salientar que, mais do que ter uma dicotomia entre o desejo de
engravidar e o desejo de permanecer com uma determinada imagem corporal, é o facto
de a mulher desejar ou não ter um filho. Face a esse desejo, a própria mulher idealiza as
consequências da gravidez e estabelece um equilíbrio entre o desejo de ter filho e o
binómio Eros-instinto maternal.

4. Desejo de ser Mãe

Desde a antiguidade, as mulheres trazem dentro de si o desejo e a necessidade da


maternidade, tendendo-se a considerar a maternidade, como o topo da realização
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feminina, sendo a forma mais saudável da a atingir, dentro do casamento e numa relação
fortalecida, tendo que o projecto ser dos dois e compartilhado com toda a família.

Perto dos 30 anos, o relógio biológico desperta e fica difícil controlar a vontade de
engravidar, tornando-se esse desejo mais latente com o avanço da idade. O problema é
como conciliar filho, trabalho, casa e marido. O dilema da mãe do século XXI.

Se o desejo de ter filhos não pode ser considerado propriamente uma novidade, o ideal
de "ser mãe por opção" implica numa ruptura com as aspirações fundadas em ideais
arcaicos – de dedicação materna exclusiva e obrigação da maternidade. É a
singularidade frente a esse desejo que legitima a reedição do exercício da função
materna, hoje harmonizado com as mudanças nos papéis femininos. Contudo, se a
definição do papel materno tem mudado, esta mudança não se dá sem restrições.
Algumas mulheres percebem a convivência dos novos papéis – o de mãe e o de mulher
trabalhadora – de maneira ambígua, em virtude do que consideram ser "deveres
maternais" – maior dedicação à família e aos filhos, em detrimento das actividades fora
do lar, mesmo se provisoriamente.

Cada vez um número maior de mulheres vêm adiando a maternidade, pois hoje é
comum decidir sobre o ter filhos. Decisão na qual pesam a situação social e económica,
a maturidade e a criação de relações afectivas mais estáveis. Por outro lado, a
idealização das novas funções femininas e das relações amorosas gera de expectativas
mais intensas e contribui para que algumas mulheres julguem necessário adiar a
realização do desejo de ser mãe para um momento ideal.

A forma como o ser humana age e sente depende das representações esquemáticas que
formou da realidade. Assim verifica-se uma correlação entre as crenças básicas sobre a
gravidez e maternidade e a decisão de se engravidar. As representações podem ser
determinadas por factores genéticos, históricos e sócio-culturais, desenvolvimentais,
pela relação conjugal e o controlo do corpo, família de origem, e experiências
existenciais.

Os factores genéticos referem-se às influências de constituição, conceptualizadas como


tendências básicas. Os factores históricos e sócio-culturais, está relacionado com toda a
pressão da sociedade, e exigências sociais. Os factores desenvolvimentais, dizem
respeito à história do indivíduo, aos marcadores das suas experiências e aprendizagens
ao longo da vida. Ou seja, a relação que houve com a mãe vai influência bastante o
desejo e as representações sobre a gravidez.

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O desejo de maternidade também surge associado à necessidade de continuidade da
família, quer a termos genéticos, costumes, valões, bens materiais e apelido.

5. IMPLICAÇÕES DA INTENSIONALIDADE DA
GRAVIDEZ

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No sentido de conhecer o status de intencionalidade da gravidez, os profissionais de
saúde podem identificar as mulheres que necessitam de um maior suporte, de forma a
adoptarem os comportamentos de saúde compatíveis com uma adequada vigilância da
gravidez, com consequentes benefícios para o decurso da mesma, para o parto e para a
interacção e estabelecer com o recém-nascido.

Uma mulher que planeie com antecedência a sua gravidez, ou seja em que deseje ter o
seu filho, vai vivenciar uma gravidez com um maior acompanhamento médico e com
menos implicações negativas após o nascimento do seu filho, tanto a nível físico do
recém nascido como a nível emocional e estabelecem uma maior interacção mãe/filho.

As mulheres com uma gravidez que não é desejada têm menos oportunidade de
frequentar os cuidados pré concepcionais não beneficiando consequentemente das suas
vantagens (inicio da ingestão de acido fólico, abandono de comportamentos de risco
como sejam os hábitos tabágicos ou medicação inapropriada, etc.).

Segundo o documento “Saúde e Números” Calado e tal 1997, face à temática da


vigilância da gravidez, Portugal é um dos países com maior número de grávidas sem
vigilância de saúde. A gravidez não desejada é apontada como uma das causas que
concorrem para a vigilância pré-natal inadequada.

Diminuir a incidência de gravidez indesejada, tem sido uma preocupação dominante nas
estratégias de intervenção, traçadas pelas entidades ligadas à promoção da saúde,
nomeadamente na área da saúde reprodutiva.

Outro aspecto igualmente importante é que as gravidezes não desejadas ou imprevistas


que terminam em aborto trazem custos em termos económicos quer para o sistema de
saúde quer para a própria mulher. De acordo com o Inquérito à fecundidade e família de
1997, 5% das mulheres portuguesas admitem ter realizado, pelo menos uma interrupção
voluntária da gravidez ( Portugal, 1998).

Quando face à gravidez imprevista, a opção é a manutenção da mesma, outras questões


se colocam, nomeadamente, a adesão à vigilância de saúde no decurso da gravidez,
verificando-se uma associação entre a baixa adesão ás consultas pré natais e a gravidez
imprevista, (Mbizvo et. al.,1997).

Através de um estudo realizado recentemente em Espanha, (Rodrigez et. al.,1997), em


que se utilizou uma amostra de 409 mulheres, conclui-se que a gravidez não planeada é
um dos principais factores de fraca adesão à vigilância de saúde pré-natal, sendo que, as

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mulheres com uma gravidez não planeada iniciam a vigilância pré-natal mais tarde
frequentando um menor número de consultas.

Segundo (Kost et. al. 1998), num estudo em que associaram de que forma o status da
gravidez influencia os comportamentos de saúde pré natais e a saúde do recém nascido,
comprovou-se que as mulheres que frequentam uma consulta pré - natal numa fase
precoce da gravidez (comportamento associado ás gravidezes planeadas) apresentam
uma maior probabilidade de levarem o seu filho a uma visita mais precoce de consulta
de saúde infantil. Conclui-se também que as mulheres cuja gravidez não foi planeada
apresentam uma menor motivação para amamentar os seus filhos, o que implica uma
fraca relação mãe/filho.

A sublinhar ainda a diferença encontrada entre mulheres com gravidezes não desejadas
e as “mistimed pregnancies” (gravidezes desejadas), sendo que tendo em conta as
repercussões na relação afectiva mãe-filho, estas últimas são menos severas e mais
afectivas, segundo (Barber et. al.,1999).

Moos et. al.,(2003) sintetizam toda a problemática, afirmando que o impacto social,
médico e económico das gravidezes não desejadas trazem apreciáveis riscos, muitos
deles sobrecarregam os recursos de saúde nacionais. São gravidezes associadas mais
directamente ao aborto electivo, crianças com baixo peso ao nascer, abuso e negligência
infantil, problemas de comportamento nas crianças e baixo nível educacional nas mães
jovens.

O referencial teórico parece pois apontar, para sérias repercussões da gravidez não
desejada, situações para as quais os profissionais de saúde mais directamente ligados à
vigilância de saúde de mulher enquanto grávida, devem dirigir a sua atenção, de forma a
delinear estratégias de intervenção precoce, neste que pode ser considerado um grupo de
risco.

Foi também encontrada uma associação entre a gravidez não desejada e o nascimento de
crianças prematuras, com baixo peso ou pequenas para a idade gestacional (Kost et.
al.,1998).

A gravidez e o parto são períodos de grandes transformações ao nível físico, psicológico


e sócio-familiar. O risco emocional aumenta e é no primeiro mês após o parto quando a
mulher se encontra mais vulnerável emocionalmente. Assim, o surgimento da depressão
é provável e quando acompanhada por outros eventos adversos, o risco é ainda maior. O
facto de ser uma gravidez não desejada aumenta o risco de DPP (depressão pós-parto),

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pois a mulher adopta concepções negativas sobre a sua gravidez, o que irá aumentar a
tensão e isolamento. A incidência da Depressão Pós-Parto (DPP) atinge cerca de 10 a
20% das puérperas e a tristeza Pós-Parto cerca de 50%. A Tristeza Materna
(irritabilidade, depressão, labilidade do humor, choro fácil e indisposição) desenvolve-
se nos 10 primeiros dias do pós-parto e tem um decréscimo pelo 15º dia. Normalmente é
transitória e não requer tratamento, mas caso não seja ultrapassada, evolui para a DPP, a
qual pode surgir mesmo que a gravidez e o parto tenham ocorrido sem problemas nem
complicações.

A depressão materna tem influência sobre o desenvolvimento físico e mental adequado


do bebé. Pode dar origem à redução da qualidade do relacionamento mãe-filho, a uma
diminuição de cuidados maternais e facilitação de situações de negligência, abuso e
maus tratos do bebé.

É essencial a aplicação de programas preventivos, do acompanhamento e assistência pré


e pós-natal para o bem estar e desenvolvimento da criança, da mãe e do pai, atender às
necessidades básicas de saúde e educação e na lida com a criança, promover o
envolvimento do pai ou outros membros da família na preparação da chegada do recém-
nascido, tendo em vista a promoção da saúde mental. Objectivar a qualidade de vida da
família é o objectivo, sobretudo prevenindo distúrbios no desenvolvimento do bebé e
preservando um bom nível de relacionamento conjugal e familiar.

Geralmente a maior parte das tentativas de suicídio ocorre numa fase precoce da
gravidez, durante um período psicologicamente mais vulnerável e em consequência de
uma gravidez indesejada e consequente tensão ou crise.

Surge ainda como relevante, a influência que a vivência de uma gravidez com estas
características exerce na saúde mental da mulher e na relação afectiva mãe – filho.
Segundo Barber et. al. (1999) as mães com partos não desejados são substancialmente
mais deprimidas e menos felizes que as outras mães. Verifica-se também que as relações
estabelecidas entre mãe-filho são de menor qualidade, nomeadamente em termos
afectivos e de suporte social, verificando-se ainda o implemento de violência e a
diminuição de disponibilidade de interacção durante a infância.

As implicações de uma gravidez não desejada parecem prolongar-se no tempo, tendo


um impacto negativo a nível relacional da família.

Em conclusão podemos constatar que uma gravidez não desejada implica uma maior
ocorrência da seguintes situações:

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- Pouca vigilância em consultas pré-natais;
- Ocorrência de mais partos pré-termo;
- Aumento de bebés com baixo peso e pequenos para a idade gestacional;
- Aumento da depressão em mulheres grávidas ou pós-parto;
- Existência de uma fraca relação mãe/filho.

6. Evolução psicológica da mulher com gravidez não


desejada

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Cada mulher é um ser único e, como tal, é dotada de uma capacidade que lhes é
característica de abordar as situações que surgem com o desenrolar da sua vida. Muitas
mulheres deparam-se com situações idênticas, ter gravidez indesejada, mas, todas elas
abordam o tema de modo diferente e, como tal, vêm a desenvolver diversas alterações
do foro psicológico. “As pessoas são diferentes, os contextos são únicos e há uma
multiplicidade factores a jogar de forma diferente em cada situação” (Correia, cit in
Pais e Filhos nº 93, 1998)

Se para algumas mulheres é fácil inserir um filho, ou mais, nas suas vidas, para
outras, é extremamente difícil, ou impossível, realizar o mesmo feito. Muitas destas
gravidezes não desejadas, são levadas até ao fim com muito sofrimento, conflitos
infindáveis e, noutros casos, recorre-se ao aborto clandestino. Portanto, haver um
acompanhamento psicológico da mulher com gravidez indesejada é fundamental, de
modo a se conseguir responder às necessidades da mulher e, junto da mesma, procurar
solução para a sua situação.

Existem casos de mulheres grávidas, que podem ser confundidos com gravidezes
desejadas. É o exemplo de mulheres que não desejam interromper a gravidez, não
querem entregar o seu filho para adopção, mas que não se sentem mães do rebento que
vai crescendo no seu ventre. Com o aproximar do momento do parto, menor é a
afinidade da mãe para com o seu filho e, existem situações que no pós-parto, há uma
inteira rejeição por parte do seu bebé. Nestes casos, explica Maria de Jesus Correia que,
“o trabalho psicoterapeutico consiste em ajudar a estabelecer uma boa relação entre a
mãe e o bebé, se possível ainda antes do parto”. É então necessário, através de
estratégias, fazer com que a mãe descubra o bebé que tem dentro de si e, elucidá-la com
os factores positivos que a chegada do seu filho lhe pode trazer.

Quando à partida uma mulher entende a sua gravidez como indesejada, parte
imediatamente para uma evolução psicológica não saudável durante os nove meses. Tal
como há fases e sintomas físicos, também há processos psicológicos pelos quais a mãe
passa enquanto está grávida. Quando a gravidez é desejada, a mulher atravessa três
fases distintas que estão dissociadas tanto pelos trimestres como também pela percepção
que a mãe tem do seu filho. A primeira fase corresponde ao primeiro trimestre da
gravidez e é designada a fase de integração. É nesta fase que a grávida aceita a sua
gravidez ao ter dados (ecográficos), cada vez mais concretos, de que está grávida. A
segunda fase diz respeito ao segundo trimestre da gravidez e a grávida faz a
diferenciação, isto é, reconhece a individualidade do seu filho a partir do momento em

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que sente os seus movimentos. A última fase, correspondente ao terceiro trimestre,
designa-se separação e é caracterizada pelo entender, por parte da mãe, que a sua
gravidez vai terminar com a saída do seu filho do seu interior.

Este processo psicológico evolutivo não se processa de modo idêntico num caso
de gravidez não desejada. No caso de gravidez não desejada, a fase da integração dá-se
somente no último trimestre da gravidez. Tal acontecimento conduz a mulher a um
estado de confusão e não consegue aceitar o seu filho até ao momento do parto. No pós-
parto, a situação prolonga-se, na medida em que a mulher não estabelece o laço afectivo
com o seu filho.

Apesar de haver apoio às mulheres com gravidez não desejada, muitas das
vezes, não existe o investimento directo para a vinculação entre a mãe e o seu filho. Por
sua vez, existe a actuação directa na mulher para promover a sua integridade
psicológica, uma vez que, na maioria das vezes, existe o sentimento de culpa por terem
engravidado e posteriormente não serem capazes de aceitar o seu bebé. Em muitos
destes casos, o destino dos filhos não desejados acaba por ser a adopção. Como se já
não bastasse o peso emocional sentido pela mulher a tomar a decisão de propor o seu
filho para adopção, a nossa cultura considera tal acto como negativo e é exercido forte
peso emocional negativo sobre a mulher.

Como se tem vindo a observar, quando uma mulher se depara com uma gravidez
não desejada, pode desenvolver inúmeras crises psicológicas. A maioria das grávidas
que não aceitam a gravidez acabam por enfraquecer, ainda mais, o seu estado
psicológico com o acentuar das alterações físicas características da gravidez. “O mal-
estar físico contribui bastante para os sentimentos negativos da mãe”. Porém, se por um
lado, existe mulheres que conseguem solucionar o seu problema e se vincular com o seu
filho, existe também as mulheres que nem contacto físico, a interacção e os cuidados
com o bebé são suficientemente fortes para ultrapassar todos os sentimentos negativos.

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7. Aspectos propícios a uma gravidez não desejada

Uma gravidez influencia de forma importante os aspectos associados com o estado de


saúde, quer da mãe, quer do filho quer mesmo da família.

As mães com partos não desejados são substancialmente mais deprimidas e menos
felizes do que as outras mães. Verificam-se também que as relações estabelecidas entre
mãe-filho são de menor qualidade nomeadamente, em termos afectivos e de suporte
social verificando-se ainda, o incremento da violência e a diminuição da disponibilidade
de interacção durante a infância. As implicações de uma gravidez não planeada em
termos de relação afectiva mãe-filho parecem mesmo prolongar-se no tempo, tendo um
impacto negativo no nível relacional da família.

O aparecimento de uma gravidez não desejada pode ocorrer por diversas causas:

- Dificuldade de acesso aos serviços de saúde;


- Baixo nível sócio – económico e cultural;
- A não participação do parceiro e dificuldade em que o mesmo use o
preservativo;
- Sentimento de invulnerabilidade e pensamento mágico (nada vai acontecer
comigo);
- Carácter esporádico e não planeado das relações sexuais;
- Medo que se descubra a sua actividade sexual;
- Medo do exame ginecológico;
- Preocupação com a auto-imagem (que irão engordar, adquirir celulite, etc.);
- Não conscienlização da possibilidade de uma gestação;
- O custo elevado dos métodos anticoncepcionais;
- O desejo de testar a fertilidade.

Quando se fala de gravidez, no campo da saúde, esta está profundamente ligada à


sexualidade, sendo sem dúvida uma consequência directa do comportamento sexual. No
entanto, desta destaca-se duas funções evidentes da sexualidade humana: a sexualidade
como área de prazer, comunicação e afectos e a sexualidade com a dimensão de
procriação.

As gravidez não desejada acontece muitas vezes, por haver confusão entre as duas
funções da sexualidade, tratando-se de dar um significado ao comportamento sexual e
de estar consciente da motivação que leva a uma experiência sexual.

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A maioria das pessoas enquadra-se bem nos dois planos da dimensão e o
comportamento sexual dirigido à procura do outro, à comunicação e ao prazer, está
ligado ao uso coerente dos métodos contraceptivos que permitem distinguir ambas as
funções.

Distinguir claramente a dimensão da fecundidade e a dimensão do prazer, requer Ter


integrado o sentido do sexo tanto numa perspectiva individual como relacional. Quando
isto não acontece, aumenta a probabilidade de confundi-las e com ela o risco de
gravidez não desejada.

Durante a gravidez existe a ameaça das doenças sexualmente transmissíveis (DST),


podendo afectar a forma como a mulher encara a gravidez,
As DST com maior impacto a nível da saúde, são as provocadas pelos vírus da
imunodeficiência humana (VIH), os herpes, as hepatites B e C, ou por bactérias como a
sífilis.

Desta forma a tomada de conhecimento da existência de uma DST, pode transformar


uma gravidez desejada em não desejada, não só porque a grávida saber que está
infectada, mas também pela possibilidade de passar a infecção para o filho
comprometendo o seu futuro e desenvolvimento.

Um outro factor desencadeante de uma gravidez não desejada é por a grávida não
possuir poder económico, ou porque está desempregada, não tendo possibilidades de
garantir o desenvolvimento do seu filho de acordo com os seus objectivos ou
expectativas.

O défice de conhecimento dos métodos contraceptivos ou do seu uso erróneo, pode


levar a uma gravidez, o que de certa forma irá levar a uma situação complicada e
inesperada pode ocorrer numa gravidez não desejada.

7.1. Intervenção nas grávidas com gravidez não desejada

22
Há muitos casos de mães que não querem interromper a gravidez, não querem entregar
o bebé para adopção, mas também não estão bem com ele na barriga, não se sentem
mães daquele bebé.

O trabalho psicoterapêutico consiste em ajudar a estabelecer uma boa relação entre a


mãe e o bebé, se possível ainda antes do parto. É claro que isto será tanto mais fácil
quanto mais cedo começar esse trabalho. Se uma mãe nos chegar aos três meses de
gravidez, é muito provável que chegue ao nono mês completamente “recuperada” e de
bem com o bebé que vai nascer. É preciso tentar fazer com que descubra o que o filho
lhe pode trazer de bom e quanto mais tempo tivermos para isso, mais sucesso se tem.

Nem todos os problemas acabam com o nascimento do bebé. Se há mães para quem o
contacto físico, a interacção e os cuidados com o bebé são suficientemente fortes para
ultrapassar todos os sentimentos negativos, há outras para quem essa nova situação
contribui para outras dúvidas e angustias. O instinto maternal não é tão linear nem
absoluto como se pensa e, por vezes, a diferença entre o bebé real e o bebé idealizado
acentua sentimentos negativos e dificulta a relação.

Por isso o trabalho psico – terapêutico feito na gravidez só faz sentido se houver uma
fase no puerpério para observação continuada da relação mãe/bebé. Gravidez e
maternidade são duas coisas diferentes: a relação com o bebé “in útero” não é a mesma
que a relação com o bebé que já nasceu e que apela a uma interacção. Por isso, há
sessões de psicoterapia para mães com bebés em que se estimula uma boa relação e
comunicação entre os dois. Esta fase pode durar só uns meses, mas também pode ir até
ao primeiro ou ao segundo na do bebé. Tudo depende da evolução de cada caso.

Apesar de haver apoio às mulheres com gravidez não desejada, muitas das vezes, não
existe o investimento directo para a vinculação entre a mãe e o seu filho. Por sua vez,
existe a actuação directa na mulher para promover a sua integridade psicológica, uma
vez que, na maioria das vezes, existe o sentimento de culpa por terem engravidado e
posteriormente não serem capazes de aceitar o seu bebé. Em muitos destes casos, o
destino dos filhos não desejados acaba por ser a adopção. Como se já não bastasse o
peso emocional sentido pela mulher a tomar a decisão de propor o seu filho para
adopção, a nossa cultura considera tal acto como negativo e é exercido forte peso
emocional negativo sobre a mulher.

Como se tem vindo a observar, quando uma mulher se depara com uma gravidez
não desejada, pode desenvolver inúmeras crises psicológicas. A maioria das grávidas
que não aceitam a gravidez acabam por enfraquecer, ainda mais, o seu estado
23
psicológico com o acentuar das alterações físicas características da gravidez. “O mal-
estar físico contribui bastante para os sentimentos negativos da mãe”. Porém, se por um
lado, existe mulheres que conseguem solucionar o seu problema e se vincular com o seu
filho, existe também as mulheres que nem contacto físico, a interacção e os cuidados
com o bebé são suficientemente fortes para ultrapassar todos os sentimentos negativos.

Uma gravidez influencia de forma importante os aspectos associados com o estado de


saúde, quer da mãe, quer do filho quer mesmo da família.

As mães com partos não desejados são substancialmente mais deprimidas e menos
felizes do que as outras mães. Verificam-se também que as relações estabelecidas entre
mãe-filho são de menor qualidade nomeadamente, em termos afectivos e de suporte
social verificando-se ainda, o incremento da violência e a diminuição da disponibilidade
de interacção durante a infância. As implicações de uma gravidez não planeada em
termos de relação afectiva mãe-filho parecem mesmo prolongar-se no tempo, tendo um
impacto negativo no nível relacional da família.

7.1.1. Adopção como última saída

Mas por outro lado, a mulher por vezes não consegue mesmo aceitar o seu bebé e
decide dá-lo para a adopção. Nestes casos, o trabalho psicoterapêutico é um pouco
diferente, uma vez que não se vai investir na relação entre a mulher e o bebé, mas sim
consigo própria, isto é, quando não existe a mínima possibilidade de a mulher acolher
aquele bebé como seu e a única opção é a adopção o apoio psicoterapêutico é
fundamental pois, a mulher pode desenvolver sentimentos de culpa o qual é preciso
ajudar a ultrapassá-los, pois as mulheres podem desenvolver sentimentos de menor
valia, desvalorizando-se, gostam pouco de si próprias e acham que não são suficientes
boas como mulheres e como mães e sentem-se culpadas por engravidarem e não serem
capazes de aceitar o bebé como seu. E como esta situação, do ponto de vista cultural,
tem um peso bastante negativo é preciso ajudar estas mulheres a viver melhor com a
decisão tomada.

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7.2. Prevenção da gravidez não desejada

Ao longo do tempo, tem havido um aumento do risco de gravidez não desejada devido à
aceleração do desenvolvimento físico e sexual com o adiantamento da menarca e um
início mais precoce das relações sexuais.

Em comparação com outros países europeus, Portugal tem taxas de gravidez na


adolescência elevadas. Sendo assim é importante investir-se na educação sexual.

Assim, com a finalidade de contribuir para a prevenção da gravidez não desejada na


adolescência e orientação dos adolescentes para uma sexualidade responsável com uma
vida sem riscos foi elaborado um “programa de prevenção da gravidez não desejada e
educação sexual em adolescentes”. Este projecto está a ser desenvolvido nas escolas
com a criação dum “gabinete de apoio ao adolescente” com sessões de educação para a
saúde e encaminhamento quando é necessário para consultas individualizadas.

Na mulher adulta também continua a acontecer gravidez não desejada mas esta pode
sem dúvida ser prevenida. Actualmente existem vários métodos contraceptivos que
quando adequados, aceites e plenamente conhecidos pelos utilizadores permitem a
planificação de uma gravidez com um nível aceitável de segurança.

Os profissionais de saúde têm um papel importante na prevenção da gravidez não


desejada, fornecendo informação adequada de forma consistente e continuadamente.
Também é papel dos profissionais de saúde ouvir e encorajar a mulher/casal a
manifestar as suas dúvidas e preocupações de modo a que estes fiquem esclarecidos.

Mas ainda existe alguma falta de informação acerca dos métodos contraceptivos,
dificuldade de acesso aos mesmos, por falta de serviços de saúde ou falha do método
por mau uso.

Actualmente existem variadíssimos métodos contraceptivos, mas nem sempre são


utilizados correctamente e muitas vezes, quando estes métodos falham, as mulheres
recorrem à interrupção voluntária da gravidez.

Existem diversas instituições que dão apoio e informação sobre o planeamento familiar
e que têm como objectivos fundamentais a promoção da saúde, educação e direitos nas
áreas da sexualidade e planeamento familiar.

Em Faro existe uma Delegação Regional da APF (Associação para o Planeamento


Familiar) que é uma Instituição Particular de Solidariedade Social que pode ser

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contactada para obter informações sobre centros de atendimento para adolescentes,
consultas de planeamento familiar, actividades de formação, entre outras.

Contacto:
Algarve
Edifício Ninho de Empresas,
Estrada da Penha
8000 - 273 Faro
Tel.: 289 88 05 70
Email:
apf_algarve@hotmail.com
www.apf.pt

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8. Conclusão

Para finalizar este trabalho que nos foi proposto, gostava salientar que todos os
objectivos a que nos propusemos foram alcançados.

Assim definimos e compreendemos o conceito de gravidez desejada/não desejada, onde


a gravidez desejada pode ser ou não planeada antes da concepção, onde a mulher
aguarda de certa forma a entrada de um novo membro na sua vida, a gravidez não
desejada surge como uma gravidez que não foi esperada nem pensada durante a sua
concepção, ocorrendo por diversos factores.

Compreendemos a diferença entre o Eros feminino e o instinto maternal, onde o Eros


surge como o lado psíquico da mulher preocupado com o seu corpo e auto-imagem, em
contra censo com o instinto maternal, onde a mulher sacrifica o seu corpo pelo prazer da
maternidade, no entanto hoje em dia depara-se com uma diminuição do instinto
maternal e uma maior preocupação com o Eros, e com a auto-imagem e beleza corporal.

Com este trabalho também nos apercebemos que ao longo dos tempos a obrigatoriedade
de ser mãe tem mudado, antigamente as mulheres privilegiavam a família dedicando
toda a sua vida aos filhos, exaltando a importância da maternidade. No entanto,
actualmente a mulher trabalhadora privilegia mais as suas actividades extra familiares,
não dispensando tanta da sua atenção à família (filhos).

Tentamos conhecer as implicações da intencionalidade da gravidez, onde abordamos as


implicações de uma gravidez não desejada: a pouca vigilância (consultas pré-natais); as
crianças prematuras; crianças com baixo peso e pequenas; mulheres deprimidas e fraca
relação mãe – filho. Assim podemos concluir que existe uma intima relação e aumento
destas complicações num recém nascido, proveniente de uma gravidez não desejada e
de pouca vigilância, levando a complicações no pós parto, e na consequente relação mãe
filho que permanecera afectada e bastante fria durante muito tempo após o mesmo.

Conhecemos a evolução psicológica da grávida no caso de gravidez não desejada, onde


ficamos a saber que em certa altura da gravidez a mulher pode começar a sentir os
proveitos de ser mãe, aumentando o seu afecto para com o seu filho em formação,
passando a gravidez a tornar-se desejada, muitas vezes esta situação apenas acontece
após o nascimento e o contacto com o filho despertando o instinto maternal fortalecendo
os laços entre os dois.

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Referimos os aspectos propícios da gravidez não planeada podendo ser de diversas
naturezas, desde falta de conhecimentos ou ausência de acesso aos serviços de saúde ou
do fornecimento dos métodos contraceptivos, podem ser causados por pequenos
descuidos durante os relacionamentos sexuais, o conhecimento da presença de doenças
sexualmente transmissíveis e com consequências para o feto, as dificuldades
financeiras, ou pela simples necessidade de exprimir a sua sexualidade e comprovar a
sua fertilidade, levando estes casos a gravidezes não desejadas e complicações durante a
mesma, com consequências não só para o feto mas para a grávida e família.

Enunciamos as intervenções nas grávidas com gravidez não desejada, durante a


gravidez e após o parto, onde privilegiamos o trabalho psico-terapêutico que tem como
principal objectivo permitir ao longo da gravidez a mulher aceitar a maternidade e a
integração do seu filho na sua vida, tentando que a mulher transforme a gravidez não
desejada numa gravidez desejada, este trabalho é importante aquando do primeiro
semestre da gravidez ainda não houve uma aceitação da mesma, ou mesmo quando a
mulher após o contacto com o filho recém nascido ainda não o aceitou como parte
integrante da sua vida.

Gostávamos assim de agradecer a professora Celeste Duque, por nos ter proporcionado
fazer este trabalho, encontrando-nos agora mais despertos para este problema, e da
importância dos profissionais de saúde na resolução dos mesmos.

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10. Bibliografia

MALDONADO, Maria Tereza P. – Psicologia da Gravidez – 4ª Edição. Petrópolis,


Editora Vozes, 1981
MARBEAU-CLEIRENS, Béatrice – Ser Mãe - sua psicologia e significado – Lisboa,
Editorial Pórtico, S.d.
ROQUE, Otilia – Semiótica da cegonha: jovens, sexualidade e risco de gravidez não
desejada – Évora, Colecção Estudos APF, 2001. ISBN 972-8291-10-8

ALMEIDA, José Miguel Ramos – Adolescência e Maternidade – 2ª Edição. Lisboa,


Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. ISBN 972-31-0007-X

Textos fornecidos nas aulas de Psicologia V, dadas por Dr.ª Celeste Duque no Curso de
Licenciatura em Enfermagem, na Escola Superior de Saúde de Faro.

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