A Nova Mulher e a Moral Sexual I

A nova mulher e a moral sexual

Alexandra Kollontai

I Parte A nova mulher e a moral sexual A mulher moderna Quem são as mulheres modernas? Como as criou a vida? A mulher moderna, a mulher que denominamos celibatária, é filha do sistema econômico do grande capitalismo. A mulher celibatária, não como tipo acidental, mas uma realidade cotidiana, uma realidade da massa, um fato que se repete de forma determinada, nasceu com o ruído infernal das máquinas da usina e da sirene das fábricas. A imensa transformação que sofreram as condições de produção no transcurso dos últimos anos, inclusive depois da influência das constantes vitórias da produção do grande capitalismo, obrigou também a mulher a adaptar-se às novas condições criadas pela realidade que a envolve, O tipo fundamental da mulher está em relação direta com o grau histórico do desenvolvimento econômico por que atravessa a humanidade. Ao mesmo tempo que se experimenta uma transformação das condições econômicas, simultaneamente à evolução das relações da produção, experimenta-se a mudança no aspecto psicológico da mulher. A mulher moderna, como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado. Há cinqüenta anos, considerava-se a participação da mulher na vida econômica como desvio do normal, como infração da ordem natural das coisas. As mentalidades mais avançadas, os próprios socialistas buscavam os meios adequados para que a mulher voltasse ao lar. Hoje em dia, somente os reacionários, encerrados em preconceitos e na mais sombria ignorância, são capazes de repetir essas opiniões abandonadas e ultrapassadas há muito tempo. Há cinqüenta anos, as nações civilizadas não contavam nas fileiras da população ativa com mais do que algumas dezenas, ou mesmo algumas centenas de milhares de mulheres. Atualmente o crescimento da população trabalhadora feminina é superior ao crescimento da população masculina. Os povos civilizados dispõem não de centenas de milhares, mas sim de milhões de braços femininos. Milhões de mulheres pertencem às fileiras proletárias; milhares de mulheres têm uma profissão, consagram suas vidas à ciência ou à arte. Na Europa e nos Estados Unidos as estatísticas acusam mais de sessenta milhões de mulheres inscritas na classe trabalhadora. Marcha grandiosa a desse exército independente de mulheres! 50% desse exército é constituído por mulheres do tipo celibatário, isto é, por mulheres que na luta pela subsistência contam apenas com suas próprias forças; de mulheres que não podem, segundo a tradição, viver unicamente dependendo de um marido que as mantenha. As relações de produção, que durante tantos séculos mantiveram a mulher trancada em casa e submetida ao marido, que a sustentava, são as mesmas que, ao arrancar as correntes enferrujadas que a aprisionavam, impelem a mulher frágil e inadaptada à luta do cotidiano e a submetem à dependência econômica do capital. A mulher ameaçada de perder toda a assistência, diante do temor de padecer privações e fome, vê-se obrigada a aprender a se manter sozinha, sem o apoio do pai ou do marido. A mulher defronta-se com o problema de adaptar-se rapidamente às novas condições de sua existência, e tem que rever imediatamente as verdades morais que herdou de suas avós. Dá-se conta, com assombro, de toda inutilidade do equipamento moral com que a educaram para percorrer o caminho da vida. As virtudes femininas - passividade, submissão, doçura - que lhe foram inculcadas durante séculos, tornam-se agora completamente supérfluas, inúteis e prejudiciais. A dura realidade exige outras qualidades nas mulheres trabalhadoras. Precisa agora de firmeza, decisão e energia, isto é, aquelas virtudes que eram consideradas como propriedade exclusiva do homem. Privada da proteção que até então lhe prestara a família ao passar do aconchego do lar para a batalha da vida e da luta de classes, a mulher não tem outro remédio senão armar-se, fortificar-se, rapidamente, com as forças psicológicas

próprias do homem, de seu companheiro, que sempre está em melhores condições para vencer a luta pela vida. Nesta urgência em adaptar-se às novas condições de sua existência, a mulher se apodera e assimila as verdades, propriamente masculinas, freqüentemente sem submetê-las a nenhuma crítica, e que, se examinadas mais detalhadamente, são apenas verdades para a classe burguesa.(1) A realidade capitalista contemporânea parece esforçar-se em criar um tipo de mulher que, pela formação de seu espírito, se encontra incomparavelmente mais próxima do homem do que da mulher do passado. Este tipo de mulher é uma conseqüência natural e inevitável da participação da mulher na corrente da vida econômica e social. O mundo capitalista só recebe as mulheres que souberam desprezar, a tempo, as virtudes femininas e que assimilaram a filosofia da luta pela vida. Para as inadaptadas, isto é, para aquelas mulheres pertencentes ao tipo antigo, não há lugar nas fileiras das hostes trabalhadoras. Cria-se desta forma, uma espécie de seleção natural entre as mulheres das diversas camadas sociais. As fileiras das trabalhadoras são sempre formadas pelas mais fortes e resistentes, pelas mulheres de espírito mais disciplinado. As de natureza frágil e passiva continuam fortemente vinculadas ao lar. Se as necessidades materiais as arrancam do lar para lançá-las na tormenta da vida, estas mulheres deixam-se levar pelo caminho fácil da prostituição legal ou ilegal, casam-se por conveniência ou lançam-se à rua. As mulheres trabalhadoras constituem a vanguarda de todas as mulheres e integram em suas fileiras representantes das diversas camadas sociais. Entretanto, a imensa maioria dessa vanguarda feminina não se constitui de mulheres do tipo de Vera Niokdinovna, orgulhosas da sua independência, mas, por milhões de Matildes envoltas em xales cinzentos, Tatianas, de Riasan, com os pés descalços, empurradas pela miséria a novos caminhos.(2) É um profundo erro pensar, no entanto, que o novo tipo de mulher, a celibatária, é fruto de esforços heróicos de algumas individualidades fortes que tomaram consciência de sua própria personalidade. Nem a vontade própria, nem o exemplo audacioso de Magda, nem o da decidida Renata foram capazes de criar o novo tipo de mulher. A transformação da mentalidade da mulher, de sua estrutura interior, espiritual e sentimental, realizou-se primeiro e, principalmente, nas camadas mais profundas da sociedade, ou seja, onde se produz necessariamente a adaptação ao trabalho, nas condições radicalmente transformadas de sua existência. Estas mulheres, as Matildes e as Tatianas, não resolvem nenhum problema. Além disso, ainda tentam agarrar-se com todas as suas forças ao passado. Com muito pesar se vêem obrigadas a curvar-se diante das leis da necessidade histórica - as forças de produção - e a dar os primeiros passos pelo novo caminho. Caminham ao acaso, dominadas pela tristeza, amaldiçoando seus passos e acariciando em seu interior o sonho de um lar, onde possam desfrutar de tranqüilas e modestas alegrias. Ah, se fosse possível abandonar o caminho, voltar atrás. Mas, isto é irrealizável, pois os grupos de companheiras são cada vez mais densos e a corrente as empurra cada vez para mais longe do passado. É preciso adaptarse à angustiante falta de espaço, preparar-se para a luta, ocupar o lugar correspondente a cada uma; têm que defender o direito de viver. A mulher da classe operária contempla como nasce e se fortalece dentro de si a consciência de sua independente individualidade. Tem fé em suas próprias forças. Gradualmente, de forma inevitável e poderosa, desenvolve-se o processo de acumulação de novos caracteres morais e espirituais da mulher operária, caracteres que lhe são indispensáveis como representantes de uma classe determinada. Há, porém, algo ainda mais essencial; éque esse processo de transformação da estrutura interior da mulher não se reduz unicamente a personalidades, mas corresponde a grandes massas, a círculos muito grandes, cada vez maiores. A vontade individual submerge e desaparece no esforço coletivo de milhões de mulheres da classe operária, para adaptar-se às novas condições da vida. Também nesta transformação desenvolve o capitalismo uma grande atividade. Ao arrancar do lar, do berço, milhares de mulheres, o capitalismo converte essas mulheres submissas e passivas, escravas obedientes dos maridos, num exército que luta pelos seus próprios direitos e pelos direitos e interesses da comunidade humana. Desperta o espírito de protesto e educa a vontade. Tudo isto contribui para que se desenvolva e fortaleça a individualidade da mulher. Mas, desgraçada da operária, que crê na força invencível de uma individualidade isolada. A pesada carga do capitalismo a esmagará, friamente, sem piedade. As fileiras. de mulheres combatentes constituem a única força capaz de desviar de seu caminho a pesada carga do capitalismo. Deste modo, ao mesmo

tempo que se desenvolve a consciência de sua personalidade e de seus direitos, nasce e evolui na mulher operária do novo tipo o sentimento da coletividade, o sentimento do companheirismo, que só se encontra, e muito levemente, na mulher do novo tipo pertencente a outras classes sociais. Este é o sentimento fundamental, a esfera de sensações e pensamentos que separa com uma linha divisória definitiva as trabalhadoras das mulheres burguesas, pertencentes ao mesmo tipo celibatário. Nas mulheres do novo tipo, mas pertencentes às distintas classes, é comum a distinção qualitativa das mulheres do passado. Como parte integrante das hostes de mulheres trabalhadoras, sua estrutura interior experimentou igual transformação, ou seja, logrou desenvolver sua inteligência, reforçar sua personalidade e ampliar seu mundo espiritual. A esfera, porém, de pensamentos e sentimentos, que derivam do conceito de classe, são os que separam, fundamentalmente, as mulheres do novo tipo pertencentes às diversas camadas sociais. As operárias sentem o antagonismo de classe com uma intensidade infinitamente maior que as mulheres do tipo antigo, que não tinham consciência da luta social. Para a operária, que deixou sua casa, que experimentou sobre si mesma toda a força das contradições sociais e que se viu obrigada a participar ativamente na luta de classes, uma ideologia de classe, clara e definida, adquire a importância de uma arma na luta pela existência. A realidade capitalista separa de maneira absoluta a Tatiana, de Gorki, da Tatiana de Nagrodskaia. Éesta realidade capitalista que leva a proprietária de uma oficina a encontrar-se, por sua ideologia, muito mais separada de uma de suas operárias do que a boa dona de casa com relação a sua vizinha, a mulher de um operário. Esta realidade capitalista torna aguda a sensação do antagonismo social entre as mulheres trabalhadoras. Para esta categoria de mulheres do novo tipo só pode haver um ponto comum: sua distinção qualitativa da mulher do passado, as propriedades específicas que caracterizam a mulher independente, do tipo que temos denominado celibatário. As mulheres do novo tipo, pertencentes a estas duas classes sociais, passam por um período de antagonismo: as duas classes lutam pela afirmação de sua personalidade; as de uma classe, conscientemente, por princípio, as da outra classe, de forma elementar, coletiva, sob o jugo do inevitável. Mesmo, porém, que na nova mulher pertencente à classe operária a luta pela afirmação de seu direito e de sua personalidade coincida com os interesses de sua classe, as mulheres do novo tipo pertencentes a outras classes sociais têm necessariamente que se defrontar com um obstáculo: a ideologia de sua classe, que é hostil à reeducação do tipo de mulher. No meio burguês, a insurreição da mulher adquire um caráter muito mais agudo e os dramas morais da mulher do novo tipo são muito mais vivos, têm mais colorido, oferecem maiores complicações.(3)No meio operário, não há nem podem existir conflitos agudos entre a psicologia da mulher do novo tipo, em formação, e a ideologia de sua classe. Tanto sua psicologia em formação como sua ideologia de classe encontram-se em um processo de formação, em fase de desenvolvimento. O novo tipo da mulher, que é interiormente livre e independente, corresponde, plenamente, à moral que elabora o meio operário no interesse de sua própria classe. A classe operária necessita, para a realização de sua missão social, de mulheres que não sejam escravas. Não quer mulheres sem personalidade, no matrimônio e no seio da família, nem mulheres que possuam as virtudes femininas passividade e submissão. Necessita de companheiras com uma individualidade capaz de protestar contra toda servidão, que possam ser consideradas como um membro ativo, em pleno exercício de seus direitos, e, conseqüentemente, que sirvam à coletividade e à sua classe. A psicologia da mulher do novo tipo, da mulher independente e celibatária, reflete sobre a das demais mulheres que permanecem ainda na retaguarda em relação a seu tempo. Os traços característicos, formados na luta pela vida, das trabalhadoras convertem-se pouco a pouco, gradativamente, nas características das outras mulheres que ficaram atrasadas. Pouco importa que as mulheres trabalhadoras sejam apenas minoria, que para cada mulher do novo tipo haja duas, talvez três mulheres pertencentes ao tipo antigo. As mulheres trabalhadoras são as que dão tom à vida e determinam a figura de mulher que caracteriza uma época determinada. As mulheres do novo tipo, ao criar os valores morais e sexuais, destróem os velhos princípios na alma das mulheres que ainda não se aventuraram a empreender a marcha pelo novo caminho. São estas mulheres do novo tipo que rompem com os dogmas que as escravizavam. A influência das mulheres trabalhadoras estende-se muito além dos limites de sua própria existência. As mulheres trabalhadoras contaminam com sua crítica a inteligência de suas contemporâneas, destróem os velhos ídolos e hasteiam o estandarte da insurreição para protestar contra as verdades que as submeteram durante gerações. As mulheres do novo tipo, celibatário e independente, ao se libertarem, libertam o espfrito agrilhoado, durante séculos, de outras mulheres ainda submissas. É certo que a mulher do novo tipo já penetrou na literatura. Mas está ainda muito longe de haver

este livro foi saudado com aplausos por alguns e com mostras de desagrado e indignação por outros. as heroínas contemporâneas têm que lutar contra um inimigo que apresenta duas frentes: o mundo exterior e suas próprias tendências. Meisel-Hess atreveu-se a gritar à sociedade “que o rei está nu”. enriquecê-la com sentimentos de solidariedade. o fato de que não siga um procedimento sistemático. como moral que serve unicamente aos interesses da propriedade. e que repita coisas ja expostas. a força de vontade da mulher do novo tipo. Um hálito de frescor se desprende do livro. A moral sexual atual. as normas morais que regulam a vida sexual do homem não podem ter mais do que duas finalidades. mas sem nenhum valor científico. Tampouco conseguiu a mulher-individualidade descartar-se do tipo de mulher esposa. E de objeto da tragédia masculina converte-se em sujeito de sua própria tragédia. que podem ser abafados pela tradição e por uma série de pensamentos superados. Entretanto. eco do homem. dois objetivos. O mérito de Meisel-Hess é semelhante ao do menino do conto de Andersen. continuamos adorando publicamente o velho ídolo: a moral burguesa. apareceu na Alemanha um estudo psico-sociológico de Grete Meisel-Hess sobre a crise sexual. Como disse Hedwig Dohn. A Idade Perigosa. assegurar à humanidade uma descendência sã.” Unicamente entre as altas rodas intelectuais. livro que carece de grande valor artístico e cuja audácia não vai além dos limites permitidos pelas conveniências de bom tom literário. Os restos das gerações passadas não perderam sua força. “os novos pensamentos já nasceram em nós. enchem e saturam toda a nossa atmosfera moral. sorte comum a todo sincero investigador da verdade. de modo algum. com o seu imerecido êxito. herdadas de suas mães e avós. fiéis à hipocrisia que nos domina. Os sentimentos atávicos perturbam e debilitam as novas sensações. Todo o código complicado da moral sexual contemporânea. na qual se reflete uma vibrante alma de mulher. publicado pouco depois. necessária às novas condições de sua vida econômica e social. Segundo. O antigo e o novo se encontram em continua hostilidade na alma da mulher. flutuam no ambiente. de coletividade.(4) A literatura contemporânea é rica. Mas. é fácil observar que ainda nas heroínas do tipo antigo se encontram. sobretudo. O amor e a nova moral Nos anos de 1910 e 1911. a obra de Meisel-Hess. A investigação da verdade enche as páginas vivas e apaixonadas desta exposição. em figuras de mulheres do tipo transitório. próprios das heroínas da literatura do período precedente. Os problemas que Meisel examina nos são conhecidos. com o matrimônio monogâmico indissolúvel. ainda que possuamos a formação intelectual.expulsado as heroínas de estrutura moral pertencentes aos tempos passados. e que seu pensamento seja em alguns momentos inseguro e sinuoso. contribuir para o desenvolvimento da psicologia humana. que raras vezes está . Cada passo dado nesse sentido provoca conflitos. O fato de que o livro de Meisel-Hess careça de uma série de qualidades científicas. as propriedades e os traços psicológicos que possibilitaram a vida das mulheres do tipo celibatário e independente. vivêmolos em toda a sua dor. Primeiro. normalmente desenvolvida: contribuir para a seleção natural no interesse da espécie. A força dos séculos é demasiado grande e pesa muito sobre a alma da mulher do novo tipo. É rica em heroinas que têm simultaneamente as características da mulher antiga e da mulher nova. que eram completamente desconhecidos das heroinas antigas. de companheirismo. Os escritores dotam involuntariamente suas heroínas com sentimentos e características que não eram. As velhas concepções da vida prendem ainda o espírito da mulher que busca sua libertação. relegou a segundo plano. período durante o qual diminuiu na Rússia o interesse pelos problemas sexuais.(5) Foi qualificado pela crítica como “um livro bem escrito. que conhece perfeitamente a vida. o fato de que se possa reprovar a falta de método e análise. Logo. Com efeito. Por outro lado. ou seja. observa-se um processo de transformação dos novos valores. Todos nós temos meditado sobre eles. mas os antigos ainda não morreram. não preenche nenhuma destas duas finalidades. Não há nenhuma pessoa que depois de refletir sobre esse problema não haja chegado por um caminho ou por outro. O romance de Karin Michaelis. ainda nas mulheres do tipo celibatário já formado. não pode ser realizada sem luta. não pode diminuir de modo algum o valor desse trabalho. que a moral sexual contemporânea não passa de uma vã ficção. A mulher transforma-se gradativamerite. às conclusões gravadas nas páginas do livro A Crise Sexual. os que pouco a pouco chamam a atenção dos escritores e acabam por converter-se em manancial de inspiraçao artística. entre a nata da sociedade alemã. livro que não foi um êxito público.” A reeducação da psicologia da mulher. Os pensamentos de Meisel-Hess não são novos. São esses conflitos que inundam a alma da mulher. cada vez com maior freqüência.

merece uma grande atenção e deve interessar principalmente aos partidários da concepção materialista da história. um segundo único eu que o fará feliz no casamento. produtos ilegais da espécie. decadência e degenerescência física e moral da humanidade. no essencial. o matrimônio legal. é a tarefa que deve figurar na ordem do dia e que requer forçosamente a atenção reflexiva e consciente de todos os programas socialistas. Quando um ser humano se equivoca na sua escolha. harmonizar a moral sexual com as necessidades vitais e práticas e com as exigências da vanguarda da humanidade. da posse absoluta de um dos cônjuges pelo outro. freqüentemente os mais valiosos por serem os mais sãos e vigorosos. e o conceito de propriedade. a ausência de um fator tão importante como o êxtase amoroso nos matrimônios convencionais. Porém.baseado no amor. O propósito de Meisel-Hess. o recurso da prostituição completamente inútil do ponto de vista do interesse da espécie. os mais capacitados para provocar as emoções eróticas dos homens fiquem reduzidos à esterilidade da prostituição. . Tirar da moral sexual a auréola do inviolável imperativo categorico. A moral contemporânea obriga o homem a encontrar sua felicidade a qualquer preço e. tudo isto é resultado direto da moral corrente. a condenação à morte que pesa sobre os filhos do amor. ou seja. Por muito valiosos que sejam os pensamentos de Meisel-Hess sobre essa questão. tão difundida e organizada. ultrapassaríamos indubitavelmente os limites do ensaio se nos dedicássemos a analisar detalhadamente esta parte do livro. somente examinaremos. Necessariamente o homem tem que encontrar uma alma que se harmonize com a sua. Meisel-Hess chega a uma conclusão pessimista. porém inevitável. Somente uma transformação fundamental da psicologia humana poderá transpor a porta proibida. na invariabilidade da psicologia humana no transcurso de uma longa vida. A moral contemporânea não faz mais do que conduzir a humanidade pelo caminho da degenerescência ininterrupta. em uniões sexuais que nos tomem felizes. a segunda parte do problema sexual. marcam e deformam a alma humana e contribuem para a perda de qualquer esperança de se conseguir uma felicidade sólida e duradoura. uma transformação desse gênero exige inevitavelmente a transformação fundamental das relações econômico-sociais: isto é. Os matrimônios tardios. da infância. Unicamente estudaremos as respostas. ao mesmo tempo. numa comunidade de almas profundamente humanas: no estado invariável e estagnado da psicologia contemporânea não há solução possível para a crise sexual. e a instituição da prostituição. não menos valiosas e interessantes de Meisel-Hess à segunda pergunta: atingem seus fins as formas atuais da moral sexual? Ou seja. dotadas de uma afinidade real. A defesa da jovem geração trabalhadora. o fato de que os modelos femininos mais formosos. Portanto. de companheirismo e consequentemente para o enriquecimento da psicologia humana? Depois de submeter a uma análise sistemática as três formas fundamentais da união entre os sexos. tanto umas como outras. sem equivocar-se nunca. as partes sombrías do matrimônio legal? O matrimônio legal está fundado em dois princípios igualmente falsos: a indissolubilidade. A indissolubilidade do matrimônio legal está baseada numa concepção contrária a toda ciência psicológica. de que no mundo capitalista todas essas formas. por um lado. a esterilidade forçada nos períodos mais favoráveis para a concepção. exige dele que descubra esta felicidade na primeira tentativa. A moral contemporânea não admite que o homem se equivoque na sua escolha entre milhares de seres que o cercam. Quais são os defeitos fundamentais. somente o enriquecimento da psicologia humana no potencial do amor pode transformar as relações entre os sexos e convertê-las em relações impregnadas de verdadeiro amor. a livre união e a prostituição. como produz efeitos contraditórios. aqui. a higiene da espécie na sua mais ampla acepção. favorece a seleção natural em sentido inverso. no matrimônio legal e indissolúvel. resultado que conduz irremediavelmente à realidade. de harmonizar a moral sexual e o objetivo da higiene da espécie. a proteção da maternidade. exige o estabelecimento do regime comunista. a luta contra a prostituição e outras reivindicações dos programas socialistas contêm. não só não contribui para o saneamento e o melhoramento da espécie. contribuem para desenvolver no homem sentimentos de solidariedade.

Praticadas em outras condições e tendo como finalidade o interesse da espécie e consideradas um meio de assegurar a felicidade individual. A forma atual do matrimônio legal não faz.continua Meisel-Hess . que imensas reservas de afetuoso calor são necessárias para que se possa colher. condená-la. de posse absoluta de um dos cônjuges pelo outro. Os esposos ignoram. praticadas com tanta freqüência na Idade Média. Não a ajudará. associação que é tão doentia para um como para outro. indiscutivelmente. o homem e a mulher. os frutos saborosos de uma profunda e indissolúvel adesão entre duas pessoas! Não é só isso. Quantas precauções uma alma deve ter com a outra. O absolutismo da posse encerra. os sofrimentos físicos. indissoluvelmente. essa terrível indiferença que leva dentro de si raciocínios insuportáveis e mesquinhos. a presença contínua desses dois seres. Com efeito: temos necessariamente que estar de acordo com MeiselHess quando diz que uma vida em comum demasiado limitada é a causa principal que faz murchar a delicada flor primaveril do mais puro entusiasmo amoroso. ao contrair o matrimônio legal. dizem Meisel-Hess. mas algo muito mais grave. Pouco importa à sociedade que a alma e o coração de uma mulher que se equivoca. como a ofensa maior que se lhe pode infligir. mais que empobrecer o espírito e não contribui de modo algum para a acumulação na humanidade de reservas desse grande amor que foi a profunda nostalgia de toda a vida do gênio russo Tolstoi. O segundo fator que envenena o matrimônio legal é a idéia de propriedade. já não fica nem sequer um pequeno recanto próprio. mas. Estes dois fatores exigem poucos esforços psíquicos para conservar o amor de um companheiro de vida. Pode haver algo mais monstruoso do que o fato amoroso degradado até ao ponto de se fazer dele uma profissao? Deixemos de lado todas as misérias sociais que vêm unidas à prostituição. “Se nos vemos obrigados a mudar freqüentemente de casas sem conforto e pouco apropriadas a nossas necessidades. exercem um efeito nocivo sobre a alma humana. do que a semelhança entre o matrimônio e uma casa habitada. tão exigente e deformada pela moral contemporânea. Entretanto.” “A indissolubilidade do matrimônio legal é ainda mais absurda se leva em conta que a maioria dos casamentos se realizam às cegas. ainda mais. a sociedade. porquanto se está ligado a ele. sentimo-nos como perseguidos pela má estrela. fundamentos do matrimônio legal. Mas. nada mais certo. As noites de provas. já no outono. não são de modo algum uma absurda indecência. nem sequer na felicidade individual. Uma leal separação do casal é considerada pela atual sociedade. conquistar direito à cidadania. que será indissolúvel. Deforma-se. Dois seres. portanto. e detenhamo-nos somente ante a questão . as exigências inevitáveis que se fazem ao objeto possuído são a causa de como um ardente amor se transforma em indiferença. irremediavelmente. poderiam. A presença contínua. se existe entre eles uma afinidade física. em todos os diversos aspectos de seu múltiplo eu. só têm uma idéia confusa uma da outra. um contra-senso maior. isto é. Os fatores de indissolubilidade e propriedade. a situação se toma muito mais terrível se a necessidade nos obriga a viver todo o resto da existência em péssimas condições”. harmonia sem a qual não é possível a felicidade”. Suas más condições só são descobertas após habitá-la por algum tempo. inexoravelmente. as enfermidades. na realidade. inclusive.principalmente se o ser que vacila e se perde na busca do ideal é uma mulher. Não pode haver. interessada unicamente na idéia da propriedade e não nos destinos da espécie. A idéia da posse não deixa livre o eu. têm necessariamente que adaptar-se um ao outro.“e durante o processo de evolução de uma individualidade é um fato que terá que ser reconhecido pela sociedade futura como algo normal e inevitável. a psicologia humana com outro aspecto da união sexual: a prostituição. as deformações e a degenerescência da raça. não o acode. por correntes exteriores. não há momento de solidão para a própria vontade e. as duas partes. ao contrário. observa com grande tristéza Meisel-Hess. se a isto se acrescenta a coação exercida pela dependência econômica. cujas almas só têm raros pontos de contato. a perseguirá com fúria vingativa para. A delicada flor da moral sexual é uma felicidade adquirida à custa da escravidão da mulher à sociedade. Não éapenas o fato de que um dos cônjuges desconheça completamente a natureza psicológica do outro. “A transformação das uniões amorosas no curso da vida humana” . se destrocem no fragor das decepções.

da glória. levaremos em conta ainda outro fator psicológico que obscurece os impulsos morais. nos dias de hoje. Portanto. de nível moral indigno dela. pela subsistência. insatisfação e fome psíquica. como o acorde final de múltiplas sensações físicas. e a falta de tempo indispensável para entregar-se aos verdadeiros prazeres morais. essa paixão que enriquece a personalidade pela entrega dos sentimentos vividos. A prostituição envenena implacavelmente a felicidade do amor das mulheres que buscam no ato sexual o desfecho de uma paixão correspondida. Mas o homem moralmente nobre não tem tempo para passar as noites a seu lado. Nossa sociedade. Meisel-Hess diz: “Deixando de lado a questão da degenerescência fisiológica da humanidade. para conquistar um pedaço de pão. não deixa lugar ao culto do amor. A prostituição extingue o amor nos corações. harmoniosa e onipotente. por um lado. Acostumado com as carícias submissas e forçadas. entrega-se apenas a um pálido e uniforme desejo físico que deixa em ambas as partes. inutilmente. Não há nada que prejudique tanto as almas como a venda forçada e a compra de carícias de um ser por outro com que não tem nada em comum. o empobrecimento fisico da espécie. sobre o leito coberto de rosas. de modo inevitável. o companheiro de seus prazeres. As imperfeições dessa forma sexual são de um caráter reflexo: o homem de nossa época vê a união livre com uma psicologia já deformada por uma moral falsa e doentia. A prostituição deforma as idéias normais dos homens. formado como está na prostituição. exige por sua vez uma perda de tempo e de forças morais . com toda razão. capazes de enobrecer o verdadeiro êxtase erótico. cada vez mais dura e implacável. a união livre. com uma psicologia simplista e desprovida de tonalidades. O amor livre choca-se com dois obstáculos inevitáveis: a incapacidade para sentir o amor verdadeiro. a capacidade de sentir apaixonadamente o amor. pois sua influência se estende muito além de seu próprio domínio. A prostituição deforma todas as noções que nos levam a considerar o ato sexual como um dos fatores essenciais da vida humana. nem sequer tenta compreender a múltipla atividade a que se entrega a mulher amada durante o ato sexual. Aspásia não pode repartir seu leito com um homem grosseiro. as enfermidades venéreas. o que traz como resultado uma grave crise sexual. relação sexual na qual estão ausentes os fatores psíquicos. O amorpaixão é um obstáculo para a realização dos objetivos essenciais de sua vida: a conquista de uma posição. empobrece e envenena o espírito. um fato que se dá com extraordinária freqüência: o homem do nosso tempo considera o amor-paixão como a maior das desgraças que lhe pode acontecer. levando-nos a estimá-lo. É incapaz de captar seus múltiplos matizes. muitos aspectos igualmente sombrios. traz dentro de si. A pobre Aspásia esperará. e do lúgubre abismo da prostituição. A prostituição estende.(6) A mulher normal busca no ato sexual a plenitude e a harmonia. um salário ou um ofício. sobre a luta. O homem. Esse tipo de homem não pode perceber os sentimentos que desperta na alma da mulher. suas asas sombrias tanto sobre a cabeça da mulher livremente amada como sobre a esposa ingênua e amorosa e sobre a amante intuitivamente exigente. a prostituição é perigosa. do principal objetivo de sua vida. adquire o hábito de se aproximar da mulher com desejos reduzidos. de um capital. por outro. Rouba o que é mais valioso nos seres humanos. como um ato vergonhoso. que extermina a múltipla vibração das sensações do amor. mancha e deforma o sentimento erótico e impede que o homem e a mulher se compreendam cada vez menos e não saibam gozar sem se enganar mutuamente. etc. baixo e grosseiramente bestial. no complicado ambiente que nos rodeia. possivelmente. fruto do matrimônio legal. A vida psicológica das sensações na compra de carícias tem repercussões que podem produzir conseqüências muito graves na psicologia masculina. fundada sobre o princípio da concorrência. e que foi engendrada pelas casas de lenocínio. O homem atual não tem tempo para amar. O homem tem medo dos laços de um amor forte e sincero que o separaria. Muitos dos dramas têm como causa essa psicologia simplista com que o homem se aproxima da mulher. também. O homem acostumado à prostituição.” A terceira forma das relações sexuais. em troca. A incompreensão mútua cresce quanto mais desenvolvida está a individualidade da mulher quanto maiores são suas exigências psíquicas. de uma colocação segura. Meisel-Hess observa.da influência que a prostituição exerce sobre a psicologia humana. pelo contrário. A livre união. essência do nosso mundo individualista.

Segundo Meisel-Hess. capaz de aumentar o potencial de amor da humanidade. os partidários do amor livre. uma profissão conquistada. às reivindicações do programa socialista: independência econômica da mulher. o mais rico dom: a alma do homem. absorvido por sérios trabalhos. todas as reformas sociais. particularmente as mulheres que vivem de um trabalho independente (este tipo de mulher Constitui 40 ou 50%. pois. Qual será. seu trabalho querido. As medidás e reformas pertencentes ao domínio da política social. luta contra a prostituição em sua base econômica. seja precisamente o fato de que esse tipo de mulher deposita na balança da felicidade do amor livre. O que éverdadeiramente essencial em sua detalhada investigação em busca da verdade sexual. verdadeira proteção e segurança à maternidade e à infância. no domínio das relações sexuais. Milhões de seres não conheceram na vida seus encantos. reeducação esta que. A solução para este complicado problema só é possível mediante uma reeducação fundamental de nossa psicologia. Mas. na harmoniosa consonância de corpós e de almas. da falta de consciência e um dever interior. não nasceu ainda o homem forte e consciente que seja capaz de considerar o amor como parte integrante da totalidade de seus objetivos vitais. pois. Devido a isto. facilmente anulável. sem ser socialista militante. No estado atual das relações sociais. em relação ao homem. condições indispensáveis para as novas relações entre os sexos. por sua vez. Por esta razão. É suficiente determo-nos um momento na biografia das mulheres que se distinguiram na vida. O amor livre. A perspicácia intelectual de Meisel-Hess é o que leva esta escritora à mesma conclusão. nas reivindicações político-sociais. entretanto. que julga necessárias e que são análogas às dos programas socialistas. como compensação por tudo a que renunciou. A situação da mulher que trabalha se complica ainda mais com a maternidade. esta mulher exige em troca. completamente. em todos os países civilizados). ao mesmo tempo. não há motivo para se acreditar que esta forma de união sexual seja bastante forte para ajudar a humanidade a sair da encruzilhada em que se encontra a crise sexual. o destino destes deserdados? . Ao mesmo tempo milhares de demônios ameaçam o casal unido unicamente pelos laços do amor. supressão da noção de filhos legítimos e ilegítimos. deve modificar-se. se produza a separação. O amor verdadeiro só ocorre a poucos. por outro. Meisel-Hess compreendeu que toda a atenção da sociedade no que se refere à educação e à formação do espírito. isto é. A união livre sofre as conseqüências da ausência de um fator moral. Uma casualidade é suficiente para que se origine um desacordo momentâneo e.infinitamente maiores do que um matrimônio legal ou do que as carícias compradas. no único caminho de solução possível do problema sexual. a união fundamentada numa profunda identificação. Os encontros ocupam horas preciosas para os negócios. não se forma uma força criadora poderosa. aumentem cada vez mais. Tudo isto é melhor do que perder um tempo tão valioso e dilapidar suas energias nas horas entregues aos prazeres do amor. de modo completamente intuitivo. tem que enfrentar o mesmo dilema que o homem: vêem-se obrigadas a escolher entre o amor e a profissão. A mulher. o homem atual. Porque não se deve esquecer que o matrimônio baseado no verdadeiro amor é algo que se dá raramente. Talvez o motivo pelo qual as exigências da mulher independente. A união dos sexos. nas condições atuais da sociedade. serão insuficientes para resolver a crise sexual se. e a profissão e a vocação. imediatamente. para convencermo-nos do conflito inevitável entre o amor e a maternidade. como a entende Meisel-Hess. reconstrução fundamental da sociedade segundo os prirtcípios comunistas. por um lado. além de sua alma. só é possível por uma transformação de todas as bases sociais que condicionam o conteúdo moral da Humanidade. prefere abrir a bolsa e manter uma amante ou comprometer-se com uma mulher. dando-lhe seu nome e tomando sob sua responsabilidade a carga de uma família legal. que indica Meisel-Hess como um remédio. não contêm no fundamental nada essencialmente novo. Correspondem. será por muito tempo o ideal da humanidade fritura. O mérito de Meisel-Hess não fica. solução que esperam. substituição do matrimônio religioso pelo matrimônio civil. é que entrou inconscientemente. termina sempre numa separação ou num matrimônio legal.

pouco a pouco. de enfrentar o raro amor verdadeiro ou de padecer de fome sexual? Meisel-Hess prossegue na sua investigação e descobre nova solução. No romance de Lasswitz. Admite Meisel-Hess que este amor jogo iniciaria os homens numa virtude superior. mas tampouco é a brutal sexualidade reduzida meramente ao ato fisiológico. luminosas. na amizade erótica da modista. E eu não sou mais que Numa. pode acabar no homem. meramente fisiológico) em vez de empobrecer a alma humana. no qual Meisel-Hess baseia tantas esperanças? O amor jogo. mas eu certamente morreria em sua densa atmosfera. sempre ávida a devorar o eu do outro. O amor jogo. porém enobrecedora escola de amor. Pesados como vosso ar são vossos corações. desde o primeiro beijo. A humanidade contemporânea vive sob o sombrio signo da paixão. além da prostituição? Terão que se propor eternamente o dilema. descer contigo àTerra. Cada novo amor (não nos referimos. A psicologia do homem não estará aberta para receber o verdadeiro amor. ou um vaudeville. O amor é uma força que quanto mais se consome mais cresce. a não ser quando encontrassem um sentimento constante e profundo. Estamos dispostos a entregar totalmente nosso coração. ao ato brutal. e seu companheiro estudante. O amor jogo exclui o pecado maior do amor: “A perda da personalidade na corrente da paixão”. Em terceiro lugar. Para que o amor verdadeiro chegue a ser patrimônio de toda a humanidade é preciso passar por difícil. no amor galante da época da Renascença entre a cortesã e seu amante protetor. proposto à atual sociedade. que marca hoje em dia.. perder minha liberdade. “Um coração humano são e rico” . mais bela que nosso planeta. a parte que faz a vida mais agradável e harmoniosa. leves. Que será este amor jogo. Os homens desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas. acostuma os homens a entregar à pessoa amada a parte mais agradável de seu eu. A tendência atual leva-nos a atentar contra a personalidade do outro. O amor jogo é também uma escola. O amor jogo é exigente. além de servir de estimulo aos sentimentos de simpatia. uma habitante de Marte replica àproposição de um habitante da Terra: “Neste ligeiro jogo dos sentimentos. em suas diversas formas. Esta relação sexual ensina os homens a resistir àpaixão que degrada e oprime o indivíduo. talvez..diz Meisel-Hess . Nas relações entre a antiga hetaira e seu amigo. encontra-se em todas as épocas da história da humanidade.“não é um pedaço de pão que diminui à medida que nós o comemos”. Há ainda outras vantagens no amor jogo ou amizade erótica. É preciso tirar a humanidade desse atoleiro: ensinar aos homens a viver horas cheias de beleza.Estarão para sempre condenados ao matrimônio de conveniência? Não terão outro recurso. O amor para os homens de nossa época é uma tragédia que destroça a alma. mais delicadezas em todas as suas relações. teria que descer e dobrar-me à escravidão da paixão. Seres que se aproximam unicamente por causa de uma simpatia mútua. Uma atitude solícita em relação à alma do outro. em todos os . Onde não existe o amor verdadeiro este é substituído pelo amor jogo. livre como um pássaro. desenvolve a intuição. com o egoísmo profundo. O amor jogo que nos descreve Meisel-Hess não pode ser tampouco o amor nascido de uma psicologia simplista. que exige dos dois seres unidos maior atenção mútua. não podem consentir que se esqueça sua personalidade nem que se ignore seu mundo interior. purificado de todos os seus aspectos sombrios.. sem grandes cuidados. Ensiná-los-ia a não entregar-se inteiramente. contribui para enriquecê-la. claras. não podem permitir que se torture impunemente sua alma. que só esperam um do outro a amabilidade e o sorriso da vida. que exige a plenitude e a posse absoluta. é um meio de acumulação do potencial do amor na psicologia humana.” A época atual caracteriza-se pela ausência da arte de amar. Meisel-Hess afirma: “este ato espantoso que podemos classificar de penetração pela violência no eu do outro. indelevelmente. por não ter como ponto de partida o princípio da posse absoluta. E necessário não esquecer nunca que unicamente o sagrado amor verdadeiro pode ter suficiente força para conceder direitos. claras. a sensibilidade e a delicadeza. o amor jogo.. naturalmente. “Amar sempre. Em todas estas relações podemos encontrar facilmente os elementos principais deste sentimento. todos os seus sentimentos amorosos. até que passe pela escola da amizade amorosa. Não sabem todo o valor que encerra a amizade amorosa. vossa terra é maior. não pode dar-se no amor jogo. embora o outro ainda não sinta nenhuma atração. Não é o Eros que a tudo devora. amar profundamente.

Mas. dirão ainda alguns. sem a necessidade de se colocar aos pés de um ser interiormente alheio a seu eu. esta é precisamente a finalidade que deve cumprir o amor jogo ou amizade erótica. e desde logo muito mais moral. nasce a suprema alegria de viver. motivados por um mesmo desejo. E necessário dar liberdade a esse instinto natural. preparar a psicologia humana para que esteja em condições de receber o verdadeiro amor. viver. educar. “Só o sentimento de uma total harmonia com o ser amado pode extinguir esta sede”. os limites da amizade erótica são muito amplos e podem estender-se ainda mais. encontrassem a mútua satisfação de sua carne em si próprios. Para que isto aconteça basta criar possibilidades objetivas. deserdada e desgraçada. Não se pode enforcar um enamorado com a corda do matrimônio. quando a psicologia humana é mais pobre em sentimentos de solidariedade. precisamente pela consciência de sentir-se afirmado. é o destino ardente de todo grande coração. ou seja. não há motivo para negar a possibilidade de uma solução semelhante para a humanidade colocada em grau superior da evolução social” . Desenvolver este imprescindível potencial do amor. porém sem as caracterísficas de invariabilidade e indissolubilidade. as deduções e reivindicações práticas a que chega Meisel-Hess? Em primeiro lugar. que não deseja suas carícias. esta vitória sobre o fantasma ameaçador da solidão moral. o noivo vai à casa da prostituta. sentir-se afirmado. pois. em todo seu valor. O que se sente amado sabe que há alguém que reconhece sua personalidade. de modo algum. O ideal continuará sendo a união monogâmica baseada num amor verdadeiro. Seria muito mais natural. Neste caso. responde Meisel-Hess. Só o verdadeiro amor pode nos dar a plena satisfação.” O amor em si é uma grande força criadora. sem buscar a cumplicidade de uma terceira pessoa. este reconhecimento do eu. a crise sexual é muito mais aguda quando as reservas do potencial do amor são menores. quando os laços sociais são mais limitados.lançar um ser nos braços do outro? Finalmente. Hoje em dia o homem necessita. Além dos aspectos fundamentais de caráter econômico-social. se não admitimos a hipocrisia da moral e a mentira sexual. Quais são. “Isto não é suficiente”. O amor jogo indica o caminho a seguir. com a satisfação brutal do desejo fisiológico. que do amor jogo nasça o amor verdadeiro. Engrandece e enriquece a alma daquele que o sente. A mudança será tanto mais evitável quanto mais diversa for a psicologia do homem. ainda não. e. que terríveis reservas de mentiras sexuais se acumulam nesse aspecto! Vejamos um exemplo da vida tomada ao acaso. completamente alheia à situação que eles mesmos criaram. sentir-se-ia roubada. Ocorre com muita freqüência que dois seres que se aproximaram atraídos por uma livre simpatia cheguem a conhecer-se mutuamente. a prostituição implica um fator psicológico determinante que está profundamente gravado no espírito humano: a satisfação de uma necessidade erótica sem outra preocupação ulterior. amar sempre e cada vez com maior abnegação. que delito pode haver no fato do êxtase erótico . Mas sempre que correspondam a duas condições: que não ofereçam perigo para a espécie e que seu fator determinante não seja o jugo econômico. Se a humanidade não tivesse o amor. Dois noivos se sentem possuídos pelo mesmo desejo. “Se queremos ser sinceros. Portanto. a sociedade terá que acostumar-se a reconhecer todas as formas de união entre os sexos. O concubiriato ou monogamia . que estes dois seres. mas que tem que entregar-se a ele. tanto como a alma de quem o inspira. reconhecido. mesmo que estas se apresentem diante dela com contornos novos e desconhecidos. para poder lutar. A severa moral contemporânea proíbe sua satisfação e lhes impõe um decisivo. Podemos dizer que o amor jogo não é mais que um substituto do verdadeiro amor. Portanto.momentos da nossa vida. que MeiselHess assinala como uma condição indispensável de todas as suas deduções morais. não se pode alcançar. Diante de uma série de reformas sociais. trabalhar e criar.diz Meisel-Hess. O amor será seguramente o culto da humanidade futura. enquanto a noiva se consome na espera da autorização legal. que se atrevam a olhar em tomo de si e se dêem conta com o que subsfituem na sociedade moderna o verdadeiro amor! A prostituição disfarçada de verdadeiro amor! Que grande hipocrisia. a liberdade de sua alma e de seu futuro.

É necessário que a mulher aceite o lema de Goethe: “Saber desprezar o passado no momento em que se quer e receber a vida como se acabasse de nascer”. Mas. não começará imediatamente. A sociedade tem a obrigação de estabelecer em todo o caminho da vida da mulher. de todas as formas possíveis. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o amor como a única base de sua vida e sim como uma etapa. a cada nova tentativa de solução. da defesa da maternidade. indiscutivelmente. isto é. durante o período de maior responsabilidade em sua vida. É necessário que a mulher aprenda a sair dos conflitos do amor. A educação contemporânea somente tende a limitar. moral e materialmente. como um meio de revelar seu verdadeiro eu. Que triste destino o seu!” É certo que na realidade o novo tipo de mulher ainda não existe em grande número. cujo triunfo se aproxima. ao lado desta relação sexual existe toda uma série de aspectos diversos de uniões amorosas sempre dentro dos limites da amizade erótica. o problema sexual. as atenções de milhões de homens. a humanidade contemporânea lança-se ardentemente sobre todos os meios conjecturáveis que tomem possível uma solução para o maldito problema. sem luta. no domínio das relações entre os sexos. as mulheres celibatárias para as quais os tesouros que a vida pode oferecer não se limitam ao amor. seguramente. Esta educação é a causa dos corações destroçados. A segunda exigência é o reconhecimento real. é igualmente certo que o caminho já foi encontrado e que ao longe brilha. das mulheres desesperadas. um só povo em que a questão das relações entre os sexos não adquira cada dia um caráter mais violento e doloroso. buscar também nesse problema. torna-se necessário rever todo o instrumental moral com que se equipa a mulher solteira quando entra no caminho da vida. mais do que em nenhuma outra da história. atraindo como por arte de magia. os sentimentos de amor. os dramas sexuais constituem fonte inesgotável de inspiração para os artistas de todos os gêneros da Arte. Por isto. outra época na qual os problemas sexuais tenham ocupado. A deprimente crise sexual não poderá resolver-se de uma só vez. a porta desejada. Porém. A velha exclamação: “É uma mulher com passado!”. postos de socorro que sustentem a mulher. No curso da história da humanidade não encontraremos. é agora glosada pela celibatária da seguinte forma: “Esta mulher não tem passado. ocupa. um dos primeiros postos. mais se complica o complexo emaranhado das relações entre os sexos. não somente de palavras. A humanidade contemporânea passa por uma crise sexual aguda. É preciso que se abram para a mulher as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer seu coração e foijar sua vontade. na vida da sociedade. após deixar de ladó pequenos detalhes sem importância. é muito mais grave e difícil de resolver. Uma crise que se prolonga e que. Mas. . No domínio dos sentimentos do amor esse novo tipo de mulher não permite que as correntes da vida sejam as que dirijam seu barco: o leme está nas mãos do timoneiro experimentado. que se afogam na primeira tempestade. portanto. Nossa tarefa será. O livro de Meisel-Hess nos facilita o fio de Ariadne no labirinto complexo das relações sexuais. os princípios da nova cultura em marcha. fruto de uma organização mais perfeita da sociedade. Em nossa época. na mulher. Como a terrível crise sexual se prolonga. As relações entre os sexos Entre os múltiplos problemas que perturbam a humanidade. Não há uma só nação. um lugar tão importante. inevitavelmente. com a alma fortalecida. Afortunadamente. a fim de que as relações mais livres não pareçam o desenfreio total. portanto. os princípios da cultura proletária. na psicologia do amor. não poderá deixar o caminho livre à moral do futuro. nos dramas psicológicos. É igualmente certo que a nova era sexual. sua vontade enrijeceu na luta pela subsistência. depois de sanar inexatidões insignificantes. mas de fato. seu caráter crônico adquire maior gravidade e mais insolúvel nos parece a situação presente. de par em par.sucessiva será a forma fundamental do matrimônio. não com as asas quebradas e sim como saem os homens. Por último. Não falta mais nada do que utilizar o precioso conjunto de pensamentos que nos oferece e extrair as conseqüências em harmonia com as tarefas essenciais da classe que se eleva ao primeiro posto na sociedade. já se distinguem os novos tipos femininos.

A humanidade passou por uma época de crise sexual verdadeiramente aguda durante os períodos do Renascimento e da Reforma. uma solução quanto ao aspecto externo. Apesar de todas as tempestades que desabavam sobre sua cabeça. Precisamente. com uma transformação fundamental de nossa atual sociedade” . Os últimos vestígios de idéias comunais. apesar de revestida de caráter crítico. enfrentavam-se os ideais e as normas das duas concepções diversas da sociedade. por lento processo secular se transformavam as bases econômicas em que esta classe se fundamentava. era substituído pelo princípio da concorrência. O velho código moral entrava em choque com novos princípios. e em seu lugar emergia uma nova força social. Os camponeses. A moral sexual da nova burguesia baseava-se em princípios radicalmente opostos aos princípios morais mais essenciais do código feudal. Mas. fazia suas vítimas. orgulhosa de sua nobreza. aparecia uma severa individualização: os estreitos limites da pequena família burguesa. unicamente à medida em que evoluíam as relações econômicas. no momento em que uma formidável modificação social relegava a segundo plano a aristocracria feudal. “A solução para os problemas sexuais só poderá ser encontrada com o estabelecimento de uma nova ordem social e econômica. O campesinato. cada vez mais grave e ameaçadora. a crise sexual. quando. Só se transformava. a classe camponesa. entre os dois códigos sexuais. este esperar pelo amanhã não indica que tampouco nós conseguimos apoderar-nos do fio condutor? A própria história das sociedades humanas nos oferece o caminho que devemos seguir em nossa investigação. Porém. tão viva e cheia de colorido. O problema de nossa época apresenta um aspecto totalmente distinto. dar novo impulso às normas tradicionais da moral sexual. tanto como da economia regional. durante vários séculos. a vontade individual de cada ser é o único legislador em uma questão de caráter tão íntimo” ouve-se esta afirmação nas fileiras do individualismo burguês. camada social mais considerável da época. são destruídas pelo afluxo de novos ideais sociais. em geral. a burguesia ascendente.. isto é. pobre de conteúdo. Isto se deveu ao fato de que. As duas tendências opostas lutavam nas camadas superiores da sociedade. alcançando. que crescia e se desenvolvia cada vez mais. de espírito tão diverso.dando-nos a impressão de que seria impossível descobrir o único fio que nos serviria para desatar o complicado nó. continuavam apoiando-se nos sustentáculos das tradições e o código da moral sexual tradicional permanecia inalterável. que impunham à classe burguesa em formação. e permaneceu ansiosa por adaptar-se à situação. e particularmente. Os elementos conservadores da sociedade concluem que é imprescindível voltar aos felizes tempos passados. em sua forma primitiva. não se abrandava. durante a luta entre o mundo burguês e o mundo feudal. classe apegada a seus princípios. Não é a primeira vez que as aparentemente firmes e claras prescrições da moral cotidiana. uma forma harmoniosa. o círculo mágico da questão sexual permanece tão hermeticamente fechado como antes. com maior impulso e poder. A humanidade. e que nos é ainda indicado pela história da ininterrupta luta de classes e dos diversos grupos sociais. ficou em dúvida. sofreu as conseqüências da crise sexual de forma indireta. as tradições apegavam-se à classe camponesa com maior força. próprias dos diversos graus de evolução das castas. durante séculos e séculos. A humanidade. E era onde.afirmam os socialistas. porém. essencial na sociedade feudal. até o momento em que a vida transformou as velhas normas. E mais. Neste terreno. foram ultrapassados pelo triunfante princípio da propriedade privada. que abalavam até o solo que pisavam. não afetou a classe tributária. perdida durante o processo de transição. pelo menos. iluminado pela nova cultura espiritual. nascido no seio da sociedade aristocrática. A crise sexual. que coloria o agonizante mundo da Idade Média. do ponto de vista quantitativo. E chegado o momento de se abandonar esta velharia inútil e incômoda. a crise sexual. rebeldes a qualquer inovação. com um sistema de economia comunal e baseado nos princípios autoritários de castas. opostos por seus interesses e suas tendências. durante esta época de transição. Adaptava-se às novas condições da vida econômica. O fator de colaboração. precisamente. “É preciso destruir todas as proibições hipócritas prescritas pelo código da moral sexual corrente. característica de sua economia comunal. Não é a primeira vez que a Humanidade atravessa um período de aguda crise sexual. os camponeses russos tentaram conservar. atemorizada. A crise sexual não perdoa sequer .. os princípios essenciais de seu código moral sexual. O código da moral sexual do mundo feudal. sob a pressão da grande necessidade. precipita-se de um extremo ao outro. ao arruinar-se. devorava a vontade individual dos membros dessa sociedade que tentavam permanecer isolados. no domínio da união sexual. A consciência individual. acostumada ao dominar sem limitações. Em substituição ao princípio de castas. não se apresentou de uma forma tão grave e ameaçadora como em nossa época. restabelecer os velhos costumes familiares. apenas uma parte relativamente reduzida da sociedade experimentou a crise sexual. durante os gloriosos dias do Renascimento. durante aquele novo século.

A humanidade contemporânea. é incompreensível e imperdoável que esta questão vital. abre caminho até à miserável e solitária aldeia russa. portanto. tanto entre os habitantes da cidade provinciana burguesa da Europa.a classe camponesa. Sua alma deseja a renovação da essência das relações sexuais. unidos por débeis laços à comunidade ou a outras individualidades. onde vivem amontoados milhares de seres. hipócritamente. Cada um dos sexos busca o outro com a única esperança de conseguir a maior satisfação possível de prazeres espirituais e físicos para si. em negar as formas exteriores prescritas pelo código da moral vigente. e nas enegrecidas choças do camponês. causando tristes dramas. Para a crise sexual não há obstáculos nem ferrolho. embora momentaneamente. não reconhece nem graus. Necessariamente tem que ser assim. de maneira invariável. das camadas mais baixas da sociedade se elevam frescos aromas desconhecidos. não tem nada a dever aos conflitos psicológicos do mundo burguês. as angústias da solidão. contamina os palácios. A indefinida inquietação da crise sexual franqueia. de um século onde transbordam as agudas contradições de classe. no trabalho psicológico que se efetua na alma da mulher amada. Cada um utiliza o outro como simples instrumento. nós. acertadamente. Meisel-Hess. A terrível solidão que o homem sente nas imensas cidades populosas. deve estar. essencialmente violenta e trágica. Nós. A noite é muito mais impenetrável quando ao longe vemos brilhar uma luz. nem hierarquias. que não é dissipada pela companhia de amigos e companheiros. a porta das habitações operárias. E um profundo erro acreditar que a crise sexual só alcança os representantes das classes que têm uma posição econômica materialmente segura. essa grande força confortadora e criadora que é a única capaz de afugentar a solidão de que padecem os individualistas contemporâneos. as aldeias e os bairros operários. necessariamente. vivemos e pensamos sob o funesto símbolo de invencível alheiamento moral. Em nenhuma outra época da história os homens sentiram com tanta intensidade a solidão moral. da camaradagem. justamente porque a crise sexual não ataca somente os interesses dos que tudo possuem. mas cuja realização não parece possível. Se é certo que a crise sexual está condicionada em suas três partes pelas relações externas de caráter econômico-social. Éinexplicável e injustificável que o vital problema sexual seja relegado. é muito pobre em potencial de amor. quanto nos úmidos sótãos. Por que negamos a este problema o auxílio da energia e da atenção da coletividade? As relações entre os sexos e a elaboração de um código sexual que regulamente estas relações aparecem na história da humanidade. enquanto diante de nossos olhos são destruídas as formas banais de união sexual e são desprezados os princípios que as regiam. elege suas vitimas. que com tanto cuidado a dominante ideologia burguesa cultivou. . onde se amontoa a família operária. como disse. precisamente porque estes problemas sexuais afetam também uma classe social tão numerosa como o proletariado de nossos tempos. O amante ou o noivo não pensa nos sentimentos. a solidão. com avidez doenfia. Porém. homens do século em que domina a propriedade capitalista. homens imbuídos da moral individualista. Nada mais certo do que a influência fundamental e decisiva das relações sexuais de um grupo social e determinado no resultado da luta dessa classe com outra. num ser do sexo oposto. O homem contemporâneo não se contenta em criticar as relações entre os sexos. que por sua intensidade de dor. a sua ilusória alma gêmea. Os homens individualistas de nossa época. à nossa refinada psicologia individualista. Como doença infecciosa. cada vez com maior freqüência. não é menos certo que a outra quarta parte de sua intensidade édevida. A moral da propriedade individualista de nossos tempos começa a afogar os homens. Entre as múltiplas idéias fundamentais que a classe trabalhadora deve levar em conta em sua luta para a conquista da sociedade futura. o estabelecimento de relações sexuais mais sadias e que. É imperdoável nossa atitude de indiferença diante de uma das tarefas essenciais da classe trabalhadora. que nos fazem conceber esperanças risonhas sobre uma nova forma de vida e impregnam o espírito humano com a nostalgia de ideais futuros. seja considerada com tanta indiferença. O drama da humanidade atual é desesperador porque. ao arquivo das questões puramente privadas. visto que só o amor possui o mágico poder de afugentar. de interesses opostos. como um dos fatores da luta social. deseja ardentemente encontrar o verdadeiro amor. tomem a humanidade mais feliz. Penetra nos lares burgueses. nas cidades modernas tão irrequietas e tentadoras. vêem brilhar ao longe uma nova luz: a transformação das relações sexuais mediante a substituição do cego fator fisiológico pelo novo fator criador da solidariedade. é que o impulsiona a buscar.

sem contar as múltiplas variantes da prostituição. como também para nossos semelhantes. defeito fundamental da psicologia da época atual. mesclados com os princípios em decomposição da família burguesa e individualista. exigir seus direitos sobre a outra pessoa. Precisamente.Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os sexos. o matrimônio por trás da Igreja. somos incapazes de respeitar a mais simples fórmula do amor: acercarmo-nos do outro dispostos a dispensar-lhe todo o gênero de considerações. Pretendemos conquistar a totalidade da alma do ser amado mas. obter esta sorte rara: a harmonia da afinidade moral e a compreensão entre dois seres. cremos que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das sortes humanas. as premissas dos princípios que correspondem ao espírito da classe revolucionária em ascensão. por um lado. ao lado do matrimônio e da vida em comum de uma moça solteira com o seu amante. em compensação. o problema sexual não terá solução. por outro. A crise sexual é insolúvel sem que haja uma transformação fundamental da psicologia humana. com uma família solidamente constituída. por enquanto. que serão possíveis por causa das novas condições da existência. entre os camponeses e a pequena burguesia. o trabalho a realizar consiste em fazer com que suija essa nova moral: é preciso extrair do caos as normas sexuais contraditórias da época presente. Mas. o adultério conservado no maior segredo. a vida em concubinato entre o sogro e a nora e a liberdade absoluta para a jovem solteira. Espera assim. Sempre a mesma moral dupla. e a seu lado a união livre. Matrimônio indissolúvel. Esta simples fórmula nos será unicamente inculcada pelas novas relações entre os sexos. a solidão moral e não há outro remédio senão sonhar com uma época melhor na qual todas as relações humanas se caracterizem por sentimentos de solidariedade. que nos interrogamos como é possível que o homem que conservou em sua alma a fé na firmeza dos princípios morais possa continuar admitindo essas contradições e salvar esses critérios morais irreconciliáveis. Entretanto. Nós. Não se conheceu em nenhuma época da história tantas formas diversas de união entre os sexos. No curso do longo período histórico que transcorreu sobre o signo do princípio de casta. encontramos vestígios dos velhos costumes de casta. a vergonha do adultério. o matrimônio triângulo e. de tal modo. o verdadeiro amor. a crise sexual não se resolveu em nenhum lugar. a crise sexual só pode ser vencida pela acumulação de potencial de amor. os indivíduos dotados de uma alma que se fez grosseira pelo constante culto de nosso eu. que necessariamente se destróem um ao outro. em dois princípios novos: liberdade absoluta. Ao lado destas formas de união. A burguesia conseguiu com perfeição inocular essa idéia na psicologia humana. O conceito de propriedade dentro do matrimônio vai hoje em dia muito além do que ia o conceito da propriedade nas relações sexuais do código aristocrático. mas sua personalidade lhe pertencia completamente. essa transformação psíquica depende completamente da reorganização fundamental das relações econômicas sobre os fundamentos comunistas. As formas atuais de união entre os sexos são contraditórias e complicadas. Apesar de todas as formas de união sexual que a humanidade experimenta hoje em dia. a forma complicada do matrimônio de quatro. a crise sexual agrava-se muito mais com outros dois fatores da psicologia contemporânea: a idéia do direito de propriedade de um ser sobre o outro e o preconceito secular da desigualdade entre os sexos em todas as esferas da vida. ainda. na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro que caracteriza nossa época. relações que já começaram a se manifestar e que estão baseadas também. com sua família individualista encerrada em si mesma. unicamente. o matrimônio de dois. Absurdamente se imagina que basta ao homem. a humanidade tem que sofrer. passageira. construída totalmente sobre as bases da propriedade privada. Além do individualismo extremado. não só para nós. A idéia da propriedade inviolável do esposo foi cultivada com todo o esmero pelo código moral da classe burguesa. de um egocentrismo transformado em culto. o amor. para escapar à solidão moral que o rodeia. . e igualdade e verdadeira solidariedade entre companheiros. inclusive. Cremos poder conquistar isso sem dar em troca a nossa própria personalidade. Se recusarmos esta velha verdade. a idéia da posse da mulher pelo marido (a mulher carecia de direitos de propriedade sobre o marido) não se estendia além da posse física.

Seres que ontem eram dois estranhos. na alma do ser amado. obriga à aplicação constante de medidas diversas para atos idênticos. como também chegamos a pretender que seja considerado um imperativo moral indestrutível. Da mesma forma pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu espiritual mais intimo. Esta idéia da posse recíproca de um casal amoroso estende seu domínio de tal forma que pouco nos surpreende um fato tão anormal quanto o seguinte: dois recém-casados viviam até ontem cada um com a sua própria vida.Os cavaleiros da Idade Média chegavam inclusive a reconhecer nas suas esposas o direito de ter admiradores platônicos e de receber o testemunho desta adoração pelos cavaleiros e menestréis. Tem a mesma origem a absurda indelicadeza que cometem constantemente dois amantes com relação a uma terceira pessoa. Modificará a sociedade burguesa por este fato sua conduta em relação à personalidade desse homem? Porá em questão sua . como um roubo imperdoável de tesouros que lhe pertenciam. a dispor da alma desconhecida e misteriosa sobre a qual o passado gravou imagens inapagáveis e a instalar-se no seu interior como se estivesse em sua própria casa. herdadas da ideologia burguesa. A concepção de desigualdade entre os sexos. se enamore de sua cozinheira (fato que. baseando-se na idéia equivocada de que comunhão sexual entre dois seres é suficiente para estender o direito de propriedade sobre o ser moral da pessoa amada. Com o fim de afugentar o fantasma ameaçador da solidão. uma personalidade. É um fator inevitável que penetra até na união amorosa mais livre. cada um deles abre sem o menor escrúpulo a correspondência do outro inteirando-se conseqüentemente. da posse não só do eu físico. em geral. O segundo fator que deforma a mentalidade do homem contemporâneo e que agrava a crise sexual é a idéia de desigualdade entre os sexos. Basta um exemplo vulgar: imaginemos que um intelectual burguês. com uma crueldade e uma falta de delicadeza que será incompreensível à humanidade fritura. exclusivamente e. penetramos. Um homem de idéias avançadas no campo burguês. é que se formou na mente e foi cultivado pela burguesia com o objetivo de reforçar os fundamentos da família. Todos tivemos ocasião de observar um fato curioso que se repete continuamente: dois amantes. até no domínio psicofisiológico. Esse ideal não só o recebemos como herança. O amante contemporâneo está disposto a perdoar mais facilmente ao ser querido uma infidelidade física do que uma infidelidade moral e pretende que lhe pertença cada partícula da alma da pessoa amada. apressam-se a apossar-se da alma do outro. Uma intimidade desse gênero só se pode adquirir como resultado de uma verdadeira união entre as almas no curso de uma longa vida em comum. O ideal da posse absoluta. é legitimar essa intimidade. ou seja. de amizade posta à prova. se dá com bastante freqüência) e chegue. no dia seguinte à sua união. que admite uma reivindicação de direitos de propriedade sobre o mundo espiritual e moral do ser amado. A idéia da propriedade se estende muito além do matrimônio legal. segundo se trate do homem ou da mulher. apesar de seu respeito teórico pela liberdade. unicamente porque os unem sensações eróticas. hoje. que mal tiveram tempo de conhecer-se em suas relações múltiplas. portanto. segundo o sexo que os haja realizado. desigualdade de direitos e desigualdade no valor de suas sensações psicofisiológicas. mas também do eu espiritual por parte do esposo. que soube desde algum tempo superar as perspectivas do código da moral em uso. apressam-se a estabelecer seus direitos sobre as relações sexuais do outro e intervir no mais sagrado e no mais intimo de sua vida. um político. o ideal. um homem de atividades sociais. um cientista. do conteúdo da carta procedente de uma terceira pessoa que só tem relação com um dos esposos e se converte em propriedade comum. será incapaz de subtrair-se àinfluência do meio ambiente e emitirá um juízo completamente distinto. O que se busca. inclusive. aliás. a casar-se com ela. violentamente. só se satisfazem com a consciência da fidelidade psicológica da pessoa amada. que se estenda mais além dos limites de sua união livre. como um saque cometido à sua revelia. para assegurar sua estabilidade e sua força durante o período de luta para conquista de seu predomínio social. A moral dupla. Considera tudo isto como um desperdício. envenenou durante séculos a psicologia de homens e mulheres e tomou muito mais difícil livrar-se de sua influência venenosa do que das idéias referentes à propriedade de um esposo sobre o outro. Os amantes de nossa época. característica do código burguês e do código aristocrático.

Mas. a mortificará com seu desprezo. A personalidade da mulher. idéia que tem sido inculcada na humanidade durante séculos e séculos e que acabou por apoderar-se de nossa mentalidade. orgânica-mente. considerada. O caso varia tratando-se de uma mulher. médica ou escritora. marido ou amante.. possui uma bela fisionomia e outros atrativos de caráter físico. ou melhor dizendo. com personalidade.. uma mulher respeitável. a mulher só tem valor como acessório do homem.” Que determina essa maneira diferente de julgar as coisas? A que princípio obedece uma apreciação tão contraditória? Essa diversidade de critérios tem origem na idéia da desigualdade entre os sexos. fazemos por antecipação uma total abstração de seus atos no que diz respeito às relações sexuais. A humanidade não encontrará solução para este problema até que haja acumulado em sua psicologia suficientes reservas de sensações depuradas. Nossa hipócrita sociedade burguesa julgará sua escolha da seguinte forma: até onde desceu essa mulher? A sociedade burguesa não pode perdoar a mulher que se atreve a dar à escolha do marido um caráter individual. será muito mais terrível se seu marido. é-lhe completamente impossível apreciá-la como personalidade fora do círculo estreito das virtudes e deveres familiares. não merece sequer nossa consideração. Este modo de apreciar o valor de uma personalidade feminina deriva do papel que representou a mulher durante séculos. Segundo a tradição herdada dos costumes de casta. com sua entrada nas fileiras do trabalho. até que o princípio da camaradagem haja triunfado sobre os conceitos tradicionais de desigualdade e de subordinação nas relações entre os sexos. em suma. uma professora. quando valorizamos a personalidade do homem. Agora vejamos outro exemplo: uma mulher pertencente à sociedade burguesa. a idéia do direito de propriedade dos esposos entre si e o conceito da desigualdade entre os sexos no aspecto psicofisiológico. não como personalidade. Sem uma reconstrução total e fundamental da psicologia humana é insolúvel o problema sexual.personalidade? Duvidará de suas qualidades morais? Naturalmente. o criado. de modo gradual. A atenuação dessas falsas e hipócritas concepções só se realizará com a transformação do papel econômico da mulher na sociedade. Esses três fatores são os que travam o caminho que conduz à solução do problema sexual. no momento de entregar-se. só se faz. A revisão de valores. não. . que chegue a amar um ser que lhe é socialmente inferior. Qual será a atitude da sociedade burguesa em relação a esta pessoa até agora respeitada? A sociedade. é a ele e não a ela que tomamos em consideração como o verdadeiro elemento determinante da estrutura espiritual e moral da mulher. A sociedade burguesa não pode considerar a mulher independente da célula da família. pelo contrário. até que se haja apoderado de sua alma o potencial do amor. Estamos acostumados a valorizar a mulher. escolhem para companheira de vida uma mulher insignificante e vazia.. se enamora de um criado e chega ao clímax do escândalo. Apreciamos este fato como completamente normal e que. portanto. projeta sobre a mulher sua luz. Em troca. Os três fatores fundamentais que deformam a psicologia humana são os seguintes: o egocentrismo extrema-do. a sociedade pretende que a mulher continue levando em conta. Não só lhe prescreve casar-se unicamente com homens dignos dela. consolidando esta questão com um matrimônio legal. em suma. de nível moral e intelectual muito elevado. só se indica. O homem. até que o conceito da liberdade no matrimônio e na união livre seja um fato consolidado. como lhe proíbe. Tudo que pode suceder é que os amigos “lamentem que Ivan Ivanitch tenha se casado com uma mulher insuportável”. valoriza-se em relação à sua vidá sexual. inclusive. neste domínio essencial. Então. a respeito do meio familiar e dos interesses da família. A sociedade contemporânea vai muito mais longe que a ordem antiga na tutela que exerce sobre a mulher. Teremos que por em dúvida sua inteligência. Estamos acostumados a ver como homens. nossa indignação não tem limites e a expressamos com frases como a seguinte: “Como é possível que uma mulher tão inteligente como Maria Petrovna possa amar uma nulidade assim!. sem nenhum valor comparado ao valor do esposo. uma mulher. com qualidades e defeitos individuais. independente de suas sensações psicofisiológicas. uma série de considerações de graus e hierarquias sociais. Para nós. naturalmente..

mas ao mesmo tempo. de ir ao teatro. não se entregaram desde tempos remotos a essa tarefa? Entretanto. Precisamente. não tanto pela forma. os traços característicos. leva necessariamente em seu seio os germens de novas relações entre os sexos. mais sadias e que prometam libertar a humanidade da crise sexual. observamos como se inicia um poderoso deslocamento social e econômico. ler jornais. mais valor. Entre a classe operária. não podemos deixar de assinalar o aparecimento. retarda-se. ou ao contrário a aceitação de novas formas que tragam em seu interior. Na sociedade atual avança um novo grupo social que tenta ocupar o primeiro posto e deixar de lado a burguesia. de assistir conferências. com sua ideologia de classe e seu código de moral sexual individualista. também. Por outro lado. que abandonar os bairros onde habitam as elites. basta examiná-los um pouco. a uma atividade pela . estarão ligadas a seus objetivos sociais de classe. necessariamente. análogos aos que se produzem. estão de acordo com as exigências assinaladas acima. não significará praticamente um reconhecimento de impotência e uma renúncia à busca de soluções possíveis? Vejamos se isto é certo. suficiente para engendrar novas bases de vida no campo dos sentimentos e que. desde Buda e Confúcio até Cristo. parecem contraditórios. de novas formas de união entre os sexos. obriga o proletariado a adaptar-se. Por um lado. observa-se o duplo processo a que nos referimos. a idade de contrair matrimônio do operário. Aquele que quer encontrar. Novas. o reconhecimento de fato da liberdade dos esposos). A complexa evolução das relações econômico-sociais. nas quais. tem. Mas. utopia na qual os idealistas sonhadores baseiam suas considerações ingênuas? Tentemos aumentar o potencial de amor da humanidade. Há um quarto de século. o proletariado não pode estabelecer um lar antes dos trinta anos. relações que. observamos os esforços infatigáveis da humanidade para adaptar-se às novas condições da economia social transformada. que aniquila todos os fundamentos da família operária. surgem. em meio à obscuridade e. Devido aos salários reduzidos. Além disso. e olhar as casas amontoadas dos operários. nos momentos atuais. pelas condições que surgiram. forçosamente. A humanidade sonda com inquietação os novos ideais. fontes que vivificam o amor e abrem caminho a um novo tipo de entendimento entre homens e mulheres. no labirinto das normas sexuais contraditórias. consagrar o tempo que o trabalho não consome à luta sindical. instintivamente. que transtorna todas as nossas concepções sobre o papel da mulher na vida sexual e destrói os fundamentos da moral sexual burguesa. dando-lhe um novo conteúdo (manutenção da forma exterior do matrimônio indissolúvel e monógamo. portanto. à primeira vista. todos os elementos do código moral do matrimônio burguês (a união livre na qual o direito de propriedade dos dois esposos unidos livremente ultrapassa os limites do direito de propriedade do matrimônio legal). sob a pressão de duras condições econômicas e o jugo implacável da exploração capitalista. de vanguarda. A reeducação é possível porque não é algo que esteja em contraposição com a vida real. detalhadamente. em outras camadas da sociedade. apesar de tudo. Hoje em dia. à política. quanto mais desenvolvidas estão as necessidades culturais entre os operários. A reeducação fundamental do ser humano no domínio das relações sexuais não é algo impossível de se conseguir. classe social incumbida de se apoderar da fortaleza do futuro. A influência destruidora do capitalismo. aproximadamente (7). por muito bem intencionadas que sejam. com sua refinada psicologia individualista. concedem à possibilidade de seguir o ritmo na vida cultural. ao mesmo tempo. não será essa condição prévia uma utopia desprovida de base. esforços que tendem ou a conservar as formas antigas. vagaroso. ao horror gerados pelo capitalismo. há alguém que creia que o potencial do amor aumentou na humanidade? Reduzir a questão da crise sexual a utopias desse tipo.Mas. como pelo caráter que anima os seus preceitos. uma série de fatos referentes às relações entre os sexos. apesar de seus limites não estarem suficientemente demarcados. traz consigo dois fatos que. pelos quais se unem as tarefas do proletariado. um operário podia casar-se dos vinte e dois aos vinte e cinco anos. que se verifica diante de nossos olhos. às condições do mundo que o cerca e provoca. porém invencível. Acaso os sábios de todos os povos. os germens de relações futuras entre os sexos. para neles reconhecer. Esta classe ascendente. contínua e inevitavelmente.

não fazem mais do que destruir.qual sentem atração. no matrimônio. porque os interesses da família devem estar em primeiro lugar. Tudo isto contribui para que o operário contraia matrimônio com maior idade. elaborados gradativamente pelo proletariado. que retorna ao trabalho durante o conflito. se encontra mais próxima da classe operária. Sua ação. Ambos são meios de adaptação passiva do operário à espantosa realidade que o cerca. tem a incumbência e o dever de servir aos interesses de sua classe e não aos de uma célula familiar isolada. independentes diante de tudo. bases que não podem ser outras senão a família monogâmica baseada no conceito da propriedade. nascida das necessidades da classe operária. A freqüência dos infanticídios e o desenvolvimento da prostituição são fatos que podem classificar-se dentro de uma só ordem. avaliada do ponto de vista da moral burguesa não pode ser mais evidente. totalmente. para que sua família não passe fome. na classe proletária. quando entram em jogo os princípios ativos e criadores. onde surgem tímidas tentativas de relações sexuais dotadas de um espírito novo. tanto quanto o burguês solteiro. A delimitação começa onde já não se trata de uma adaptação. A maior liberdade na união entre os sexos condiz. as bases de sua superioridade social. enquanto a moral sexual. Não convém. atuar nas greves e participar em todo o momento da luta. impulsionada pelo desejo instintivo de injetar vida nova às suas formas agonizantes. de modo algum. desgraçadamente. os modernismos de segunda mão que dessa moral extrai a burguesia. entre a classe operária. por exemplo. O dever do membro da sociedade proletária é antes de tudo contribuir para o triunfo dos interesses de sua classe. E até podemos dizer que derivam diretamente dessas tarefas. Começa onde nascem e se expressam novos ideais. A moral com que a classe trabalhadora julga todos estes atos caracteriza com perfeita clareza a base da nova moral. E. resolve seu problema na prostituição. A tentativa dos intelectuais burgueses de substituir o matrimônio indissolúvel pelos laços mais livres. Entretanto as necessidades fisiológicas não levam em conta o estado do bolso. converte-se para ela num instrumento novo da luta social. Comparemos agora este ato com a atitude dos operários diante do fura-greves. num momento crítico para a empresa. Ainda mais: devemos assinalar que o processo de reação se inicia. propriamente. de modo algum. o que não se pode esquecer é que nesse processo não há nada que caracterize. sucede tudo ao contrário. à arte. O julgamento da sociedade burguesa . Portanto. Isto não quer dizer. Este fato é um sintoma da adaptação passiva da classe operária às condições desfavoráveis de existência. mais facilmente desligáveis do matrimônio civil. que as outras classes e camadas da sociedade. por causa do nível bastante baixo dos salários. unicamente. retire dos negócios seu capital. aos interesses da classe revolucionária atar um de seus membros. rompendo os últimos laços artificiais da família burguesa. O mesmo sucede com a negação do conceito de subordinação. a família operária vê-se obrigada a resolver o problema do nascimento dos filhos do mesmo modo que as famílias burguesas. visto que cada um de seus representantes. Os interesses da classe figuram em primeiro lugar. à leitura. São necessidades vitais das quais não se pode prescindir e o operário solteiro. manter afastada a mulher de seus interesses. por amor e devoção à família. mas de uma reação à realidade que oprime. O contrário acontece. nem os ideais nem o código da moral sexual. definitivamente. atinge as bases da estabilidade social da burguesia. à exceção dos deveres de dona de casa e de mulher dedicada completamente aos cuidados dos filhos. precisamente. movido unicamente por seus interesses familiares. não se apoderem dos elementos novos que o proletariado cria e desenvolve. A burguesia. e diante da impotência de suas diversas formas de relações sexuais. Referimo-nos agora a um marido burguês que conseguiu. o proletariado. principalmente a dos intelectuais burgueses que. Na classe operária. Mas. pelas condições de sua existência social. Essa adaptação passiva é própria de todas as classes sociais envolvidas pela evolução mundial do capitalismo. com as suas tarefas históricas fundamentais. O fator de subordinação de um membro desta classe social a um outro é o mesmo que o conceito de proletariado. neste exemplo. Mas. A linha de diferenciação começa. Suponhamos que um reputado financista. etc. aprende rapidamente novas formas com a classe operária. correspondem à moral das exigências burguesas de classe.

Mas. é o suficiente para mostrar que a mulher do novo tipo vive e que a encontramos na realidade. processo que engendra necessidades novas. propagar a idéia dos direitos de propriedade absoluta de um esposo sobre sua mulher. não se formasse até que se produzisse a transformação das relações econômico-sociais necessárias para assegurar o domínio da classe que a gerou! A experiência da história ensina que a ideologia de um grupo social e. O código da moral sexual constitui parte integrante da nova ideologia. a custo inclusive da felicidade individual. para escapar da trivial argumentação: a moral sexual proletária não é no fundo mais do que uma superestrutura. qual seria a atitude dos operários para um membro consciente de sua classe que tentasse manter sua mulher afastada da luta social? A moral da classe exige. sempre em busca de novidades sensacionais? E. Já é hora de compreender que. será que existe. Como se uma ideologia. não pode haver lugar para ela. será possível visualizar o caminho. Nós nos acostumamos a vê-la e a encontramos com grande freqüência na vida. A classe revolucionária só pode fortalecer suas posições sociais com a ajuda de novos valores espirituais tirados de seu próprio seio e que correspondam totalmente às suas tarefas de força em ascensão. Mas. por sua vez. A mulher moderna atua ao nosso lado. Toda classe ascendente. isto é. é de palpitante atualidade. O conceito de posse de uma personalidade sobre a outra. produto dos interesses específicos da classe operária. no caso de existir. Manter a mulher em casa. um produto da imaginação criadora dos literatos. A tarefa que corresponde. chegando a adquirir uma acumulação de sentimentos de solidariedade e de liberdade. Portanto. nascida como conseqüência de uma cultura material distinta daquela que a antecedeu no grau anterior da evolução econômica. a participação da mulher na luta pela vida que transcorre fora dos muros de seu lar. ao invés do conceito de propriedade: uma acumulação de companheirismo ao invés dos conceitos de desigualdade e de subordinação. Esta afirmativa corresponde a uma velha verdade. seja qual for o seu gênero. Enquanto não se experimenta a total transformação da base econômica. este novo tipo de mulher? Não será por acaso. são conceitos que contrariam a essência do conceito de camaradagem. Por que não utilizar este instrumento no interesse da classe operária. como será e quem será esta mulher moderna? Para constatar sua existência basta olhar a nossa volta. no caos contraditório das relações sexuais e desemaranhar a embaraçada meada do problema sexual. Devemos recordar que o código da moral sexual. Só mediante novas normas e ideais pode esta classe arrebatar o poder dos grupos sociais opostos. em sua luta para o estabelecimento do regime comunista e. na realidade.será: um marido ideal que soube criar uma família ideal. Fácil é conhecê-la. unicamente depois de haver ensaiado o processo criador que se realiza mais embaixo. da mulher moderna. nas profundas camadas sociais. em harmonia com as tarefas fundamentais da classe. estabelecer relações novas entre os sexos. que sejam mais perfeitas e felizes? A nova mulher na literatura O problema da existência de um novo tipo de mulher. novos ideais e formas. que reforce a posição de combate da classe revolucionária. a custo da família. Este princípio básico da ideologia da classe ascendente é o que dá colorido e determina o novo código em formação da moral sexual do proletário. também. aos ideólogos da classe operária é buscar o critério moral fundamental. tanto entre as operárias como . em todas as classes sociais. a idéia de subordinação e de desigualdade dos membros de uma só e mesma classe. que é o princípio mais fundamental do proletariado. basta pronunciar as expressões ética proletária e moral proletária. Uma breve análise. colocar em primeiro lugar os interesses familiares. conseqüentemente. que destróem a solidariedade e o companheirismo. a moral sexual se elaboram durante o próprio processo da luta contra as forças sociais que se lhe opõem. portanto. uma não muito prolongada reflexão. e harmonizar com este critério as nascentes normas sexuais. são atos que violam o princípio fundamental da ideologia da classe operária. pelo qual se transforma a psicologia da humanidade. pode converter-se em poderoso instrumento. enriquece toda a humanidade com uma nova ideologia que lhe écaracterística. que rompem a união de todo o proletariado.

forjou. A literatura evoluía. de um a outro país. na luta pesada da necessidade vital. Uma mulher com novas necessidades e emoções. como na modesta empregada e na artista genial. enquanto a seu lado a implacável realidade acorrentava duramente as mulheres do novo tipo em formação. nem as “sacerdotisas do amor”. é certo que encontramos em todas elas um traço comum. enriquecia seus meios de expressão com novos matizes e palavras. não aparece na literatura com seus traços próprios. enquanto os literatos se esforçavam em desenhar tipos de mulheres do passado. os traços psicológicos. A visão do escritor. divertia-se com a ardente natureza de mulher de Natacha Rostova. multiplicava-se no transcurso dos anos. um quinto tipo de heroína desconhecida anteriormente. pois. a realidade russa do período compreendido entre 1870 e 1880 produzia figuras do novo tipo de mulher que nascia para a vida. nem as esposas que sofrem resignadamente as infidelidades do marido. Nem sempre nos damos conta de quais são esses novos traços. Também podem variar. Enquanto a literatura continuava apresentando mulheres do velho tipo. mas é um fato evidente que em alguma parte. Turguenev é o único escritor que se atreveu a esboçar estas figuras. nem nas novelas dos últimos tempos. particularmente as mulheres escritoras. Encontrâmo-la na novela de tese de vanguarda. que se dedica cada dia com maior freqüência a todas as manifestações da vida. não são as encantadoras e “puras” jovens cujas novelas terminam com o matrimônio feliz. nas últimas décadas. no entanto não podiam deixar passar em silêncio o novo tipo feminino que se afirmava ao seu redor: a nova mulher acaba sendo retratada nas páginas de suas últimas obras. heroínas que se apresentam àvida com exigências próprias.. como é natural. nem em que consiste a diferença. Determinemos. históricos ou literários. outra mulher de tipo psicológico completamente desconhecido até agora. continuava obstinada em nos apresentar débeis criaturas enganadas. plenas de luminosidade e encanto. Não. As mulheres do passado viam o mundo de maneira distinta e reagiam diante dele de outra forma. Mas os escritores passavam ao seu lado sem senti-las nem ouvi-las.. isto é. Tolstoi estudava a psicologia estreita e limitada da mulher. Atualmente a nova mulher não é mais uma novidade sensacional. Sentia prazer em acariciar a imagem encantadora da inofensiva Ketty. nem as casadas culpadas de adultério. Mas. como se uma espessa venda lhes cobrisse os olhos. vítimas das tristes condições da vida ou de sua própria natureza viciada. fêmeas sedutoras. O que surpreende é que esta nova mulher. por muito diferente que se apresentem diante de nós estas novas mulheres. A classe social a que pertencem essas novas mulheres lhes imprime igualmente um caráter particular. Turguenev inclina-se ante a comovedora figura da mulher que se atreveu a transpor o umbral sagrado. encaravam a vida de modo igualmente distinto. não podia penetrar nem compreender a nova realidade que passava diante de seus olhos. consideraveLmente. como heroína. O número de mulheres do novo tipo aumentava. Estas mulheres são algo novo. . entregues à dor. almas “sem vontade. tampouco. As mulheres heróicas. A vida. e com ele podemos classificar e determinar os novos caracteres femininos. mulheres abandonadas. algo que podemos considerar “racial” e que nos permite diferenciálas imediatamente das mulheres do passado. as solteironas que dedicaram toda a sua vida a chorar um amor desgraçado de juventude. vivia a seu lado em carne e osso Jorge Sand. apaixonada pelos tipos tradicionais de mulher. eram incapazes de assimilá-las e distingui-las. temos nosso juízo plenamente formado. produto da escravidão de que foi vítima no correr dos anos. a mais luminosa precursora do novo tipo de mulher que despertava para a vida. que a vida fazia desaparecer. aperfeiçoava-se e seguia novos caminhos. Não é necessário possuir conhecimentos especiais. foram seguidas por uma grande quantidade de desconhecidas que pereceram como abelhas em um favo de mel destroçado. Na mesma época em que Flaubert escrevia Madame Bovary. muito mais pobres do que a realidade. No poema em prosa dedicado à moça russa. mas os escritores e os poetas passavam a seu lado sem vê-las. Os grandes talentos do século XIX não sentiram a necessidade de substituir a graça sedutora de suas heroínas pelas qualidades características da nova mulher em formação. e encantadoras jovens “puras e sem personalidade”. na narração sem nenhuma pretensão literária. O tipo de mulher nova varia. ao desejado futuro. Os escritores mais modernos dos últimos dez ou quinze anos. os desejos e a finalidade vital da heroína. Seus cadáveres semearam no caminho pedregoso que leva ao perfeito. heroínas que afirmam sua personalidade. cujos nomes ficaram gravados nas páginas da história. em compensação. quem são essas mulheres que constituem o novo tipo feminino.entre as mulheres dedicadas ao estudo das ciências. Mas. em Ana Karenina. em que se estuda um complicado problema e também na narração moderna. não compreendidas”. para reconhecer a fisionomia da nova mulher. no meio da densa multiplicidade do passado que a circundava. Não são. cujo número crescia sem cessar. esposas ávidas de vingança. na região do subconsciente possivelmente. Desde logo. mas as imagens que nos apresenta são muito mais inexpressivas.

Para a mulher não havia lugar. porém. não pode permanecer imóvel e a roda da história. a caminho do trabalho. sem comovê-la. satisfeita de sua força interior e de sua independência. uma definição desta classe carecia de sentido. Essas figuras não se parecem em nada às heroínas do passado próximo. era vazia de significado. A nova mulher. A primeira sensação de dependência amorosa. Elas estão sentadas diante da mesa de trabalho. A nova dor não é mais do que uma nova página em sua vida. Os sofrimentos e os tormentos do amor: desejo. (8) As plantas espinhosas do caminho da vida fazem sangrar as mãos e os pés de Matilde. Representam um novo tipo de mulher. Quando a história produzia mulheres com tipos semelhantes às heroínas contemporâneas. entregues a uma experiência científica. com a cabeça cheia de sonhos e projetos audazes. de Tchekov. claro e puro. está bem longe de ser um eco do marido. Surge. fazem aumentar as estatísticas de lares independentes. envoltas em trajes cinzentos. Cessou de ser um simples reflexo do homem. A lama e as baixezas da vida não mancham seu lindo vestido.heroínas que protestam contra a submissão da mulher dentro do Estado. a literata. as fábricas e estações. Chega à porta da fábrica e entra na oficina. porém. Matilde vai à cidade alegre. a tímida rebelião pela liberdade perdida. mais tarde. seu eu humano. é em nossa época um fato real. Outra vez a maternidade e. Mas sua fisionomia endurecida. sem deter-se diante da espessa barreira que formam as plantas espinhosas da realidade contemporânea. ao girar cada vez com ritmo mais acelerado. valente e invencível. valente e resoluta. na sociedade. São essas milhares de moças ou de mulheres já maduras que. Matilde conduz sua inquebrantável fé. percorrem as ruas da cidade em busca de uma aula mal remunerada ou de algum trabalho ocasional. na literatura nem na vida. são as que. àquelas sedutoras e comovedoras mulheres de Turguenev. Há vinte e cinco anos. exterior e interiormente. jovem. Somente seus olhos fixos no desconhecido vêem um distante futuro. Com passo seguro e firme. dor e decepção. que revela com maior clareza seu eu poderoso e inquebrantável. Somente rugas amargas se formam mais profundamente no canto da boca: unicamente sua expressão invencivelmente desafiadora brilha com uma expressão mais fria. que passam toda sua existência sentadas diante da mesa dos escritórios. a denominação mais apropriada que podemos dar a este novo tipo. Agora. no seio da família. se atrevem a assomar à porta dos templos da ciência e da arte. a mãe. passam por Matilde. um pobre ser oprimido. Uma nova dor. Depois. A personalidade de Matilde cresce. A vida. São essas jovens de alma alegre que. a amante ou a mundana do gênero de Elena Kurakin. aos tipos femininos de virtude impessoal da literatura inglesa e alemã de 1880 até a última década do século passado. transbordante de saúde. na novela Guerra e Paz. nas grandes cidades. adianta-se com passo tranqüilo. obriga aos homens de uma mesma geração a aceitar noções diferentes. verdadeiros fenômenos psicológicos. o abandono. Envolta em seu xale cinzento. e dilaceram seu peito. mantém-se firme sobre a montanha. São as moças e mulheres que sustentam uma surda e contínua luta pela vida. apêndice do marido. faz-se mais forte. um novo esplendor de alegria. um ser vivo. vive entregue a interesses humanos generosos. mãe digna. sem rumo. só e pobre”. folheando livros. surge diante de nós a vanguarda dessas heroínas diferentes à frente. como estátua da tristeza. instrumento. com passo firme. sente-se orgulhosa de ser o que é. com existência própria. Matilde. o primeiro amor. que enchem os trens. terno e claro. O monstro de tijolo tragou mais uma vítima. Mas. O tipo essencial da mulher do passado recente era a esposa. a mulher somente eco. claros e compreensíveis. não tem medo. celibatária. quase masculino. outra vez. São mulheres celibatárias. dessa rara visitante do mundo operário. É independente. desfaz-se dos ardis que o destino traiçoeiro estende à jovem que caminha só. Vem a primeira alegria da maternidade. Como numa longa fita de matizes coloridos. a mulher celibatária desconhecida de nossa época e até mesmo de nossas mães. executando o trabalho de sua clínica ou dedicadas a preparar um discurso político. não expressa a menor vacilação. perdida. no qual acredita com a alma temperada pelos choques com a vida. a operária Matilde. só e encerrada em si mesma. Elas são milhões de figuras. consideravam-se desvios puramente acidentais da norma. Esses tipos eram modelos correntes. às heroínas de Zola e Maupassant. . mas sim toda uma individualidade. A nova mulher. não temos diante de nós uma jovem abandonada. com ignorância ingênua. que se movem desde as primeiras horas da aurora em intermináveis filas desde os bairros operários até os armazéns. Esta mulher possui seu próprio mundo interior. temperada nas desgraças e sofrimentos. Os quadros eram simples e definidos: a jovem. a inquietude de uma nova paixão. como a própria juventude. Não é mais que “uma jovem operária. junto aos aparelhos telegráficos e atrás dos balcões. enriquece-lhes o vocabulário com material novo. de Tolstoi. nos arquivos. A vida criou estas novas mulheres. heroínas que sabem lutar por seus direitos. no laboratório. que a literatura depois transcreveu.

As companheiras. inteligente e resoluta Olga. cobrem-se de chagas e suas pegadas ficam marcadas por filetes rubros de sangue. Lansovelo (10). frente a frente. “Elevar-se acima do pecado vale muito mais do que a pureza que aqui se pratica”. Entre a multidão de novas mulheres. toma-se cada vez mais distante. Separam-se. Assim. somente recolhe as sobras das poucas alegrias que a terra lhe proporciona. de transparente inocência. na luta contra a ausência de trabalho para os intelectuais. operárias nômades. como Tatiana e Matilde. ao mesmo tempo. A vida afigura-selhe cheia dos atrativos de um centro cultural capitalista. adiantando-se. parte em busca de seus sonhos. não há ternura no mundo. curtidos e feridos pelo calor e pelo mau tempo. Um caminhante comove sua alma. unicamente. uma frágil jovem abandonada. heroína típica da mulher celibatária. Olga vive como vivem milhares de moças numa grande cidade civilizada. com toda a sinceridade. Tatiana tampouco se dobra aos castigos da vida. jovem orgulhosa de sua arte. anima-a e ela se entrega. Olga sente que o homem que ama está ao mesmo tempo muito perto e muito longe dela. que se aventuraram a lançar um olhar ao castelo cinzento da escravidão do passado. seu templo e seu lar. por parte de seus colegas de trabalho. “Isto não é para mim. Tatiana anda com os vagabundos. Mas. assim. durante o período da ceifa. sim. Sua alma traz profundamente escondido o sonho de um futuro. na luta pela afirmação de si mesma como individualidade humana e como mulher. Mas esta. Seus destinos se cruzam apenas em um momento. por necessidade. ardentemente esperada. cada vez mais densa. como somente se dão as mulheres solitárias e celibatárias. não tem senfido. como se quisesse dela zombar. Os espinhos as prendem e as ferem. que soube distinguir corno sua única amiga fiel. vagando sem rumo pelas margens do Don. Toda sua vida está dedicada à ciência e à prática da medicina. a médica. vivem Matilde e Tatiana. com um grupo de companheiros de sorte. Para as mulheres do tipo celibatário. uma vez mais. não acostumados a caminhar sobre pontas afiadas. a nata da sociedade. inclusive naquelas de seus sofrimentos amorosos. ergue sua formosa cabeça. ela que pecou na casa patema. Olga é mais forte que o homem por ela escolhido. se fosses um camponês. A jovem de Riasan. singelamente. de perto. como ela. As clínicas representam. avança. de suas lutas e de seu audaz lema: “eu sou eu e tudo que sou devo-o a meu esforço”. Ninguém a quer. Atreveu-se a lançar um desafio à moral burguesa. O amor é somente uma parte de sua intensa e complexa vida. o amor não constitui mais que um episódio. Na sua luta pela subsistência. homens à espreita de um modesto salário. com um sorriso de adeus. Após vencer uma série de obstáculos. Nos seus momentos de tristeza. na primeira fila. Tatiana caminha com passo suave. livre como o vento. ninguém a defende. com segurança. Talvez. solitária como a erva da estepe. Uma vida em comum. Para elas a vida só reserva asperezas. Soube recusar. que a atormenta. rica em acontecimentos e lutas. com os pés descalços. “Pedaço de cobre entre um montão de sucata carcomida pela ferrugem”. sem abrigo. ele vai em busca de Olga. A paixão esmorece. a fim de arrancar da vida pequenos prazeres. a fina silhueta da atriz Magda (9) . Na densa multidão das novas mulheres podemos encontrar heroínas de todas as nacionalidades e classes sociais. Olga participa de um círculo intelectual seleto. sem lar. por anos. E a doce e sonhadora Tatiana de Riasan. pertencentes a outras classes sociais. não o quero. a tarefa de recriá-lo completamente. porém. Algumas vezes trabalhando em Maikope. ávida de vida. Uma multidão compacta. mas. na ignorância do novo caminho. como se estivesse só no mundo e como se lhe estivesse destinada. Débeis desgraçadas! Imediatamente são lançadas à margem da estrada pelas fileiras comprimidas que apressam sua marcha. desejosas de encontrar a trilha aberta. Não teme a vida e audaciosamente pede ao destino sua quota de sorte pessoal. na qual o vinho estava misturado com veneno. lança-se no turbilhão de uma grande cidade européia. não corresponde a seus interesses particulares. Magda tem plena consciência do que vale sua individualidade e defende inflexivelmente seu direito de ser o que é. contínua e interminável.” E Tatiana. a estima e o reconhecimento de seu valor. uma vida de solidão e de trabalho. O amor também se esvai. Destaca-se. parte com seus pensamentos. Tatiana caminha pelo mundo em busca de sorte. Entretanto Tatiana nega-se a unir sua vida ao estranho. Entra no novo caminho a audaz. corpo a corpo. não é mais possível deter-se. Na complicada vida de Olga. Tatiana caminha com eles. fá-la chorar. vêm as mulheres do novo tipo. com . Mantém uma luta.Ao lado de Matilde. outras. seus pés. Extingue-se. implacavelmente. com o destino. mas sim toda uma individualidade que conheceu o prazer. Não temos diante de nós. arrancada do seio de uma família judia de costumes tradicionais. Não se mede a vida por uma hora. Seguindo-as. na sua terra. Magda soube vencer as tradições limitadas de um lar. Conquistou. Mantém seu ar de orgulho. mas. traçando com o peito e as mãos um novo caminho para o futuro. continuam sua marcha com a cabeça baixa. de uma pequena província.

quando Miatlev tenta acabar com a liberdade de Agnes. porém. insignificante na aparência. somente o desejo de encontrar uma alma semelhante à sua. como cena observada casualmente. Em Paris não vive com seu amante. que corre em busca de trabalho. sem o que não conseguiria viver nem respirar. “Pertencer a um homem como uma coisa. Seus vestidos são vaporosos e claros. outra mulher. despreza-o sem remorsos e sem amargura. a propaganda e o trabalho são o fim de sua existência.Por isso necessito de minha liberdade. porém com obstinação. declara Vera à sua jovem amiga. Vera é a mulher com um passado que deixou fortes vestígios sombrios em sua alma. não o faria por um homem. sem o medo sentimental de si mesmas que sentiam as mulheres do passado. Depois daquilo Vera vê-se assediada de homens que a desejam. possui vaidade e ambições. Nesse lugar. outra figura de mulher. Segue Agnes. a poesia. segue também a figura da tuberculosa Mary (13). por muitos outros desgraçados. uma mulher que ama o trabalho. Vera é a mulher-individualidade de pensamento e trabalho. Separam-se os caminhos. O partido. Deixando para trás a doutora. Até a pequena Lydia. “Ninguém consegue imaginar quão longe estava meu ato da sexualidade. o leitor se sente surpreendido por uma corrente de frieza. a doutora nos revela um aspecto completamente distinto. Teresa não renuncia a este esplendor que alegra a vida. seus ideais. sem pressa. médico como ela. ainda que mantenha suas esperanças de um hábito adquirido das gerações passadas. A sedução é a especialidade de Vera. Esteve presa. Quando se apresenta o amor. Muito pelo contrário. Lansovelo necessita de liberdade e solidão para dedicar-se completamente ao trabalho. por que dedicar todos esses esforços a um homem somente? Se é preciso esquecerse de si mesma. que luta pelo exercício de sua profissão e obtém triunfos de amor próprio ao emitir um diagnóstico exato. De mãos dadas. perigoso anzol em que se deixam prender até as mulheres do tipo celibatário. arrastando seus desgastados sapatos. surge Teresa (11). nem ao homem amado o menor direito sobre ela. um ser capaz de compreendê-la. Teresa estende a mão ao eleito e parte com ele por várias semanas para sorver até a última gota do prazer e convencer-se de sua profundidade. o amor não pode ser mais que uma etapa. Não é precisamente a necessidade fisiológica que lançou a fria e calculada Vera nos braços de um homem. Agnes é escritora e secretária de redação. revela-se-nos a mulher: reina agora seu eu feminino.diz. isto talvez possa fazer uma mulher feliz. Algo distinto a impulsionou. assim como para a maioria de seus companheiros. “Não poderia repartir esses momentos com ninguém . uma idéia. não lhe proporcionaria. o amor para essas mulheres não é mais do que uma melodia iniciadora. mas evita aproximar-se deles. vestida sobriamente. quando exige que escolha entre seu amor e o trabalho. Lydia e Nolly (17). a ambos. quando dela se apodera a paixão. Agnes Petrovna. cuja vida está dividida em horas de trabalho. não se envolve hipocritamente no manto desbotado da virtude feminina. Agnes considera finda sua união. percebe sua vulgaridade. pobre de espírito.doçura. nada nem ninguém existe para ela. somente. após amadurecida reflexão. Mas. com certa vacilação e dúvida. toda desejo e paixão. trocando seu simples vestido de trabalho por um cômodo roupão. uma boa comida e uma vida tranqüila.. porque lhes é mais conveniente. a pequena Talia (14). caminham Mira. a ele unicamente. é antes de tudo. quando sua natureza de mulher faz suas exigências. consagrar toda a inteligência e todos os esforços para fazer sua felicidade. Pobre Teresa! Para ela. deixando a redação. . o que écomum nos homens: o repouso. Continuando. todo o seu conteúdo. Logo após. seu riso alegre. Sede de maternidade? Talvez. liberta-se do passado ao manter antes de tudo sua liberdade.. Não busca no amor o conteúdo e o fim da vida. Quando chegam as férias. “E. quão longe estava de deixar-me levar”. todas essas moças superam o tabu proibido às jovens solteiras. e sim. Diante dessa figura de mulher emancipada. Com seu sorriso triste. A heroína de Sangar. Mas. e a seu trabalho profissional. sem tanto amadurecimento. Não esconde seus amores. quando Agnes retorna a sua casa. Quando Teresa. Porém. Anna (16) avança com ingenuidade brutal pela nova senda. nas quais predomina o racional. Repentinamente. uma das primeiras heroínas russas do tipo celibatário. . intrépida lutadora. Entretanto. trabalha com toda sua alma pelo partido. suas propostas matrimoniais. Fá-lo-ia. espécie de paródia do tipo de mulher celibatária. Arrastadas pelos múltiplos interesses da vida. porém. também. Lansovelo descansa no campo com seu amigo. a luz. Cada uma delas é interessante por seu algo “sagrado” que não é somente qualidade propriamente feminina. entregarlhe a vontade e o coração. ouve-se o riso mesquinho da inconstante Annette (15). Vera Nikodinovna (12) pertence à antiga geração com ligeiros traços de modernismo. Diante de sua mesa de trabalho. Agnes não reconhece. Afastada da vaidade dos salões. quando em sua mente se forma um pensamento. uma valente propagandista. sobre o seu eu”. o novo caminho para sua vida. conscientemente. elege. um ato momentâneo no caminho da vida. encanta-se ao se sentir somente mulher e experimentar a influência de seus atrativos sobre o homem. Teresa é uma socialista austríaca.

consagrada ao trabalho.. O que prontamente arrasava a mulher do passado. a traição do homem amado. Esta paixão. e. por si mesma. Uma vida errante. Uma ânsia de êxtase. através da qual pode melhor compreender e examinar a si mesma. para afirmar sua personalidade. entretanto. outras. Como se a mulher. de adoração leva-a aos braços de um grande músico. A vida de Maia está cheia de complicações psicológicas e de diversos acontecimentos.” “Minha forte e inquebrantável vontade. Toda a sua vida está agora na arte. Aurora Dudevant. símbolo da personalidade. São bem conhecidos os esforços ingênuos e conscientes da mulher para adaptar-se. Assim. como se fosse um anjo-daguarda. De modo inconsciente. A carta de despedida de Renée ao homem que abandona é um documento revelador da mulher contemporânea. apaixonada Maia (20). porque seu coração já sofreu demasiado. mergulhada no vazio cada vez mais profundo em que vive. tingida de tons suaves. adianta-se a inquieta. Chegava o momento em que Jorge Sand sentia esvair-se a sua personalidade e que. um segundo matrimônio. como a de Jorge Sand. Mas a paixão não a cega. a independência e a solidão constituem o conteúdo de todos os seus desejos individuais. declara com um arrependimento repleto de melancolia. todos os dias a vida. fatigante. com seus olhos frios. a luta ardente na alma de Maia entre a mulher do passado e a nova mulher que vive dentro de seu ser. tem que lutar continuamente com uma tendência atávica. diz Maia. em companhia de Musset. . foge de seu amor. quando Renée encontra em seu caminho um amor obstinado. quando um novo amor a cerca. vai sorridente ao seu encontro. deixa seu marido e lança um desafio ao mundo que até então lhe pertencia.anota em seu diário. perdidas: Não. a separação de seus dois maridos. O novo amor não lhe deu o que sua alma buscava. Entretanto. segundo o ideal do seu eleito. Renée (18). conduziu-me pela vida”. das novas exigências que este tipo de mulher faz àvida. para revelar seu talento de escritora e enfrentar a vida com mais calma. A vagabunda foge. não obscurece seu cérebro.Embevecendo nosso olhar com a finura de sua alma. A liberdade. a se sentir rodeada pela ternura que lhe é necessária. no desenvolvimento de sua personalidade. ao contrário. como faziam as heroínas das velhas novelas inglesas. a não ser físico. Evita-as. inclusive interiormente. porém. como se de novo realmente. Nos braços do amado se sente tão só quanto antes. Cheia de dor. a começasse.” Nesta queixa há algo da mulher do passado. me sinto tão solitária! Não sou livre. “Os únicos atacados são meus sentidos”. não tivesse nenhum valor. Não vai em busca de aventuras. outra vez a ruptura e de novo a busca. experimenta a sensação de que a melancolia e a solidão. não tem a menor relação com as exigências delicadas do amor. tentar. acostumada a escutar ao seu redor vozes conhecidas e amadas. cheio de complicações psicológicas. para corrigir-se. Todos os acontecimentos de sua vida não são mais do que etapas na busca de si mesma. com maior reflexão. serve a Maia como uma “lição”. deixa-se prender. “Estou acostumada a viver só . independente?. A nova mulher. abandonar a terra. interiormente livre com a qual Maia sonhou durante toda a sua vida. segue a heroína de Bennet (19). só serve para que se encontre a si mesma. até encontrar o homem que sabe respeitar sua voz interior. Minha vontade de conservação inconsciente. a de espírito irônico. atávico que fez uma personalidade tão magnífica.. a sua forte individualidade de Jorge Sand era o que limitava estas experiências. luminosa e sedutora. Com as ilusões perdidas e o coração ferido..” Renée volta a ser o que era. homem que reconhece seu valor e que pode criar a união amorosa. em seu eco. a renunciar ao mundo da criação artística. nas pantomimas que sabe criar. ao gosto do homem amado. em conseqüência de sua adaptação. interior-mente livre. anda com cuidado para não pisar pedras pontiagudas. Sim. Mas. acostumado à reflexão. a ruptura com seu primeiro marido. . por se considerarem indignas. que nada conseguiu romper foi o que me salvou. um curto idílio com um herói oriental. que a põe em perigo de converter-se em sombra do marido. como se sua personalidade só se medisse pela atitude dos homens que a ela se dirigiam. não foge assustada. independente. “Não sinto nenhum prazer. de modo mais consciente. Algum tempo depois.. quando Renée se senta junto à chaminé de seu lar solitário. É este traço feminino. penetraram na sua casa e se instalaram atrás da banqueta em que estava sentada. Atrás de Renée. uma escritora.Hoje. depois de uma jornada de duro trabalho. na dança. foge porque sua paixão está muito longe. Mas terrivelmente só. a atriz de variedades. algumas vezes. Maia segue o conselho de Goethe: “Começar. A luta com sua família para conquistar a independência.

tem. pouco fêmea. nem sequer sua própria paixão. capaz de modificá-la. uma razão calculista. Mesmo para a mulher de nossos dias é muito difícil libertar-se da tendência. algo de masculino. Um ponto termina o episódio. atormentado por sua indiferença. A etapa foi concluída. a que sofre. A atitude de Tânia. Pela vida. com maior grandeza e variedade. Quando sua alma havia amadurecido esta decisão. o ardente sonhador. Tânia franze as sobrancelhas quando ele a apresenta a seus amigos como sua mulher. A Maia de Meisel-Hess é. sem designá-la por seu nome de solteira. Tânia não ama em Stark o eterno masculino que a arrastou para ele desde seu primeiro encontro.. Precisamente porque carece do fogo sagrado que alimenta os grandes artistas. “grande artista na compreensão da arte. é derrotada por uma mulherzinha insignificante e apaixonada. Passa indiferentemente ao lado da felicidade. naturalmente. deixou sua morada para travar o último e breve encontro com seu amante.. ainda que em favor do homem amado. com respeito a Stark. acompanham-na a alma fria e a admiração pelo seu eu. Quando Klodt. assim como para os homens. como reação natural ante a secular humilhação da mulher. Entre a multidão de novas mulheres. Porém. unidos por laços espirituais sólidos. não sentimos medo por Jorge Sand. a um lugar obscuro. sua forte personalidade. continua sendo. No momento preciso. ou Lisa lançam ao homem amado a reprovação habitual: “Eu quero tua alma.. formada no transcurso de séculos. exposta aos olhares de todos. que choca com a personalidade humana que se desenvolveu e que nela se apresenta de modo específico. porque é um meio de desenvolver e revelar. que não impedem sua mútua liberdade. como antes de casar-se. porque a ela se evidencia. Uma forte e apaixonada ambição. não é a mulher que sente a ofensa. por apagar o audaz. assim como Maia. Maia também sabe como refazer-se e partir para salvar sua voz. ao lado da infinita devoção de Klodt. mas à qual falta a paixão criadora”. Marido e mulher vivem seu próprio mundo. num sombrio outono. uma individualidade livre e independente. pertence à categoria das mulheres celibatárias e. muito menor e mais frágil do que Jorge Sand. Mas nela também descobre-se o desejo de adaptar-se aos gostos do homem amado. Há em Quta. o poeta Jorge Sand. decidida a romper com ele. casou-se três vezes. Outa chora. Constituem um casal de bons companheiros. Tânia não tem nenhum interesse pela vida espiritual do homem amado. Aprecia este amor. e ele. um protesto contra sua renúncia ao direito de ser uma personalidade com valor próprio. não tem importância a alma da mulher apaixonadamente amada. Este aspecto de sua vida corresponde completamente à sua fisiologia. para que uma simples . a agonizante paixão que Jorge Sand lança à soluçante Aurora. passa a artista Tânia. Parece que somente ama a arte.seu eu feminino. e rompia implacável a antiga união. Ela. a calculista. de desaparecer. ele se sente desconcertado. Ainda que Tânia viva sob o mesmo teto que seu marido. Quão difícil é convencer-se de que para a mulher é também um crime renunciar a si mesma. consagrada à arte. A clara atmosfera em que vivem se rompe pela cega paixão física que Tânia sente pelo formoso e másculo Stark. não havia força humana. que nunca me entregas. E por orgulho ferido e não por amor humilhado que Outa soluça. como último tributo. para quem a vida reserva todas as suas carícias. fiel a si mesma. Tânia é demasiado humana. Refazia-se completa. acabaria por devorar. a trai. porque lhe satisfaz contemplar o reflexo. porque seu admirador se atreveu a deixá-la por uma rival. Outa. Quando Ana. repentinamente. está mais desenvolvida que a de seu amado. em nome do amor! Ao lado de Maia. um imenso egoísmo e um excepcional talento de atriz fazem-na relegar a mulher. portanto. Esta mulher continua até ao fim. pois sabemos que o encontro não poderá fazê-la recuar. Tânia. de assimilação ao homem que o destino lhe deu por amo e senhor. mas consagra toda a sua vida a valorizar e enfeitar seu eu. Sentimos que a personalidade de Tânia é mais forte. Quando Aurora Dudevant. Outa é atriz. o rebelde. impulsionado pelo desespero. como se se olhasse no espelho. segue a ambiciosa Outa. dedicado à investigação científica. Maia. a fina e inteligente Outa. e a tendência atávica de renunciar a si mesma. mas sim a artista. de dissolver-se no amor. embora casada. que para ela é o melhor do mundo. mesmo os mais modernos.

avança indecisa Jenny. forte de espírito. apressa seus passos em direção ao laboratório. Quando o homem do mar exige de Ellida que se vá com ele. Com expressão atarefada. ao invés de enriquecê-la. uma das primeiras mulheres do novo tipo psicológico. incompreensível para ela mesma. as filhas do comandante Jakobson. A socialista revolucionária Anna Siemenovna (29) sabe sobrepujar sua própria paixão. que cheia de orgulho leva nas mãos sua filha ilegítima. de Loffler. de Jonas Lie. mas. Ao lado de Renata caminha a heroína de Grent Aliena (26). Jeriny detém sua marcha. Flena não é celibatária. em um contínuo interrogar-se.. do claro sorriso. A estudante inglesa Fanny (30). Jenny (32) abandona o pai do filho que espera. passa timidamente à beira do caminho com os olhos fechados para a nova verdade. Mulheres como Tânia não sofrem tanto com o pensamento de uma infidelidade feita ao marido. e somente no amor podemos fundir-nos. Os traços do velho e do novo tipo nela se fundem em complicado nó. quando a paixão ainda não estava totalmente extinta. debate-se em sérios problemas. ela fica ao lado de seu marido que lhe havia dado toda liberdade para decidir-se. equilibrado pelo espírito. Entre a multidão de mulheres novas. mas a voz mulher do velho tipo lhe Faz recordar o passado. olha para trás e desfalece. Abandona-o. que busca a nova verdade. Maia (27). alma rebelde que soube conservar a pureza de sua alma em meio à vergonha e à degradação. A heroína de Yuchkevitch. que zomba dos preconceios do mundo. A paixão entrava seu livre trabalho criador. despertando nela sentimentos e concepções já esquecidos. “Eu sou eu e tu és tu. também querem entrar no novo caminho. sua grande tristeza humana. e até de mentiras de escrava. abre o caminho da vida modestamente. ainda que seu espírito rebelde. investigador. (21) Ao lado de Stark acabará por perder a si mesma.paixão possa satisfazê-la. que encontrou harmonia na vida. a prostituta Myiada (28)sustenta sua missão sagrada em meio à lama da vida que a rodeia. figura de mulher que pela primeira vez se dá conta e toma consciência de si mesma. levando em seu ventre um filho. faça de Elena uma figura de novo tipo. Como Tânia de Nadgrodskaia. Sua doce alma de mulher carinhosa. escondida sob a máscara de coquete. Parte. Em seus braços de moça solteira descansa uma criança que era um novo homem. Tânia sente que começa a perder a si mesma e a perder o que mais aprecia em sua vida. enquanto procura ocultar a tragédia de sua alma. que interroga o mundo com grandes olhos extraordinariamente abertos. Um pujante eterno feminino. para salvar a sua personalidade. fruto de uma união que explicitamente recusou a forma legal. Rasga a estrada que leva à independência econômica das mulheres da classe burguesa. Não é uma nova mulher. A paixão devora suas energias e rouba o tempo que deve consagrar ao trabalho. Na fisionomia de Renata denota-se uma calma majestosa. Avança por entre as dificuldades que obstruem todas as margens do caminho. Compreende a superioridade de quem tem preso entre as mãos seu coração de mulher. Ellida permanece consciente de que assim poderá conservar sua liberdade interior. Que heroína de romance dos bons tempos passados tivera coragem para agir como Tânia? Tânia tem que enfrentar o mesmo dilema que a Ellida de Ibsen. Repleta de inquietação. que perderia ao lado do homem do mar. .e em sua alma a voz da mulher do passado. como diante da possibilidade de conciliar a paixão com o trabalho paciente e metódico que constitui a sua vida. Yuchkevitch soube pintar sua heroína com tons suaves. Volta para o lado do marido. E prepara-se para as profissões liberais. Josefa (22).” é seu lema. que se perde na tragédia de seu espírito. a fina e prudente Christa Rouland (23). amante. Reconhece que a paixão que sente por Stark empobrece e seca sua alma. Com a cabeça erguida. não impulsionada pelo sentimento do dever. a de alma firme. As heroínas de Bjornson. Expressou sua imagem com tanto cuidado e carinho como se temesse quebrar com uma palavra esta delicada alma de mulher. deliciosa figura espiritual de mulher que desperta. Audaciosamente continua. a estranha e oprimida Elena (24). Indecisa. como se ainda escutas. vai tateando o novo caminho. Dá-se conta de que está ameaçada pela mais terrível escravidão: a escravidão da paixão. desfila também com passos ligeiros. está cheia de contradições. A imagem da estudante do longínquo norte Anna Mahr (31) também nos acena ao passar.. por um eu humano. temendo que a maternidade estreite mais fortemente os laços que já começam a aprisioná-la. destaca-se Renata Fuchs (25).

Sarah Grande e até as heroínas do mundano Marcel Prevost. como fazendo parte da classe de mulheres celibatárias? A direitos conquistados. era o predomínio do sentimento. pois. qualidade que somente poderíamos encontrar. Onde encontrar a encantadora submissão feminina. Mas. A doce e encantadora figura de Françoise Houdonn (33). Os ciúmes constituem o sentimento que origina todas as tragédias da alma feminina. Contemplamos e buscamos nesse novo tipo de mulher os traços queridos e conhecidos de nossas mães e avós. A seu lado o tipo cheio de vida e tão real da trabalhadora Cecília (34). entregar-se a sua dor como o faziam as mulheres do passado. Josefa tem que ter força de vontade sobre si mesma. os sentimentos. vontade de ferro e alma sensível e delicada. A nova mulher traz consigo algo que nos é completamente estranho. dividido em horas. nas mulheres do tipo antigo. as qualidades psicológicas da mulher que nos permitem classificá-la. antes de tudo. de necessidades completamente distintas. esforço completamente desconhecido das mulheres dos tempos passados. Trabalho. muito mais profundo que o do homem. Gabriela Reuther. O ciúmes. que às vezes chega inclusive a repugnar-nos por sua originalidade. a moça judia que goza dos direitos da cidadania norte-americana e luta para conquistar uma posição segura. porém. igualmente todas as heroínas de Rikarda Huch (37). organizado. que cresce todos os dias com outras forças. a mulher que arranca as enferrujadas algemas que aprisionam o sexo. a mulher tem que realizar um trabalho de auto-educação. considerada seu maior ornamento e defeito. No rocaracterística típica da mulher do passado. Precisamente pelo fato de que sejam tantas as mulheres que pertencem a este novo tipo. com um mundo interior todo seu. está contida toda a nova verdade. que se rebelam. o trabalho na clínica. seu ofício amarra-a com todas as suas forças à oficina e seus dedos práticos trabalham. graves cuidados. possua autodisciplina e força de vontade para saber vencer seus sentimentos. É certo . A realidade contemporânea exige de uma maneira implacável que toda mulher que se vê obrigada a trabalhar num ofício ou profissão em qualquer trabalho que a leve a do lar. A realidade contemporânea. de acordo com sua aparência interna. personalidade que se afirma. recaem sobre Josefa sombrios pensamentos. Josefa gostaria de poder soluçar. seu trabalho. como os afazeres de casa ou o remendar a roupa das crianças. que arrastou a mulher à ativa luta pela existência. não admite espera.A seu lado. assim como a capacidade de fortalecer seu espírito pouco resistente. cobrindo totalmente o passado. a de temperamento ardente. a absurda “vingança feminina” eram as características próprias da mulher do tipo antigo. ergue-se. os traços característicos. ainda que algumas dessas figuras apareçam sob forma banal e em literatura dos boletins. a doçura de nossas mulheres do passado? Onde estará aquele seu talento especial para adaptar-se ao matrimônio. exige. Diante de nós. que buscam o novo caminho. excepcionalmente. tem que fazer um esforço para esconder sua vida privada atrás de um muro e apresentar-se no trabalho sempre à hora certa. é sinal de que a vida cria e forma sem descanso o novo tipo de mulher. Matilde assiste à morte de seu filho. para ceder-lhe sempre o primeiro posto na vida? Temos diante de nós a mulher-individualidade. em suma. chorar por si mesma. (38) São tantas as heroínas do novo tipo que é completamente impossível citá-las neste breve estudo. a que sabe sentir um amor-amizade por Christophe e uma paixão por outro. por meio da vontade. O trabalho da clínica não é um trabalho que se possa deixar para outro dia. que constitui toda alegria. passam figuras sempre novas de mulheres que despertam. para se submeter até a um homem insignificante. a de forças equilibradas que ignora que em sua tranqüila conquista. Para conservar seus novos mance de Ilse Frapan. era tudo o que havia restado de seu ardente amor. A sufragista Júlia France (35) a emigrante russa Marie Antine (36). sem romper o fio. Quais são. de sentimentos. seu espírito que cede com demasiada facilidade. ambição insaciável de artista. Porém. uma personalidade que tem valor próprio. a desconfiança. a ciência de saber vencer seus sentimentos e os numerosos obstáculos de ordem social que se interpõem no seu caminho. coisa a que o homem está acostumado. como sempre. um mundo de emoções.

um escritor. Assim. acostumada aos sorrisos indulgentes que os homens tinham para com suas debilidades e sofrimentos de mulher. que só é interessante por estender seus braços para a nova verdade da vida. Refugia-se ao lado das camas dos filhos da primeira mulher de seu marido. ao tomar conhecimento do passado de Irina. Ao exigir o respeito à sua própria liberdade de sofrimento. O contrário sucede quando Victor. Outro traço característico da mulher contemporânea consiste nas exigências. obrigada . mas apoderavam-se também de sua alma. As cabecinhas adormecidas têm o poder de dissipar sua tristeza. uma estratégia para o homem porém. A mulher do passado estava acostumada por seu amo e senhor. Ainda. a esquecer-se de si mesma. Maia sente frio. E realmente interessante observar a atitude das heroínas de uma série de romances contemporâneos no que se refere a uma rival. cada vez maiores. Em Maia se manifesta um sentimento completamente desconhecido da mulher do passado: o sentimento de coletividade. fazendo-a trazer à superfície suas qualidades mais mesquinhass de “escrava”. a ciumenta é vencida cada vez com maior freqüência pela mulherindividualidade. como dentro dos outros. que lhe conta que o homem amado a considerava uma coisa que lhe pertencia legalmente. nem um veneziano de inteligência refinada. uma atitude delicada. No romance Voz. de si mesma. a que seu companheiro não prestasse a menor atenção ao que pensava e sentia. o mais rapidamente possível. As mulheres do novo tipo não empregam ácido nem a calúnia. Maia se sente pessoalmente humilhada quando conhece os sofrimentos de sua rival. de seus próprios pensamentos. a heroína Maia e a primeira mulher do homem que ama não só não se odeiam como chegam a encontrar uma linguagem comum e descobrem que em muitos pontos se encontram mais intimamente unidas do que com o homem que as duas amam. surgiam e desapareciam e o senhor legítimo permanecia. de lançar sobre o veneno da calúnia. não devemos esquecer que Shakespeare não escolheu para seu Otelo um inglês disciplinado. Ao invés disso . Maia não desfalece. para com a rival. como exige dele para com sua rival. educado demonstram delicadeza e compreensão para com a outra mulher. sem protestar. Como os Don Juan. embora mais sincero. porém dentro dele. a mulher acabava reduzindo suas necessidades e exigências.. a besta é mais forte que na insignificante Irina. Regressa depois ao seu lar solitário. admiramo-nos de que somente alguns homens extraordinários saibam compreender a mulher. para o que representavam hipocritamente a comédia da compreensão. A mulher do passado não dava nenhum valor a sua própria personalidade. não prestava a menor atenção. Na Névoa da Vida. Com sua experiência. Por isto resignava-se. deixavam transparecer um interesse cheio de amor pelo eu insignificante da mulher. Se a heroína não desfigurava sua rival com ácido. porque sabe sentir além dos limites propriamente individuais. por exemplo. de abandono. Foram muitos?” Victor é um homem de vanguarda. se enrola em um xale e se impõe a leitura de um livro interessante.. entretanto. lhe disse com ares de macho ofendido: “que número sou eu? Quero saber. que faz ao homem. No novo tipo de nova mulher. e que não tinha para com ela a menor ternura confortadora. educado. A causa de quase todas as tragédias familiares. Maia sente-se ofendida pelo menosprezo à mulher. As mulheres do novo tipo não reivindicam a propriedade de seu amor. nem arma um escândalo. não somente aceita a antiga união de Victor. têm que aprender a admitir esta mesma liberdade nos demais. os Don Juan sabiam possuir o corpo da mulher. Precisamente é a dependência da mulher com relação a seus sentimentos o que a levou a expressar seu ódio por uma rival de maneira verdadeiramente monstruosa. porém. conseguirá libertar-se. assim recuperará o equilíbrio necessário. em nossos tempos. ainda que nos momentos de maior intimidade. mas sim um mouro dominado pelas paixões.que os ciúmes constituem. tem sido a atitude superficial. Maia chora quando percebe como ele feriu o coração de sua rival. durante séculos e séculos. de companheirismo. do homem diante do eu feminino. não deixava. a heroína do romance de Kredo. ao qual seu marido. de todas as épocas. Igualmente característica é a atitude que Maia adota diante da absurda e inútil traição de seu segundo marido. Acende a lareira. Irina. a descuidar completamente seu pequeno mundo espiritual. também.

que queria levá-la à esfera de seus próprios interesses espirituais.. para com sua alma. que lhe entregou livremente seu coração?” Na luta da mulher moderna para proteger sua liberdade interior. Se se portava com relação a ela de modo grosseiro e despótico.” A necessidade que tem a mulher de sentir-se amada. porém. Frank vê nela somente a mulher. questão de que nos fala também Vera Nikodinovna. Ele presenteava-a com anéis e brincos. se lhe impunha uma série de proibições e exigências. A mulher contemporanea perdoa muitas coisas que para a mulher do passado eram mais amargas de perdoar. e este lhe responde primeiro com gracejos ligeiros e logo depois de forma corriqueira. que assassinara. afirma Rosamunda a seu real esposo quando este a obriga a beber no crânio de seu pai. levava-lhe flores e bombons. em troca. a tornam mais refinada e aguda. “Na mulher . “Maldigo meu corpo de mulher por sua culpa. tanto mais sedutora por ser fina e espiritual. Deseja e exige respeito à sua personalidade. O essencial na mulher é a base moral. ele decide. se cristaliza. “Cumpriu-se tua vontade.. nem aceitará uma falta de atenção para com seu eu espiritual. é a transformação que sofre o homem depois da posse. quanto mais consciência tem de si mesma. e sim pelo conteúdo espiritual de seu eu. perdoa uma falta de atenção de ordem exterior para com ela. Nos homens esta base moral. Perdoa a incapacidade do homem para proporcionar-lhe um bem-estar material. com grande interesse. era seu direito. porém. cheia de assombro. A mulher contemporânea torna-se exigente. pela independência de seu pensamento. direito de dono do seu coração. devido ao interesse que demonstrou por sua personalidade. de seu gozo. O homem temeroso de perder a mulher amada precisa nela extinguir. começa a se separar.” Isto se manifesta em todas as páginas do livro Notas . Não havia necessidade de outra prova de seu amor. logo a ela. como é natural. não lhe escrever durante duas semanas. Christa Rouland observa. Quando o amante de Maia a proíbe de cantar em concertos e ela não o obedece. Este ato exterminou em Maia todo sentimento para com seu amante. para a mulher moderna. não desempenha mais do que um papel secundário. Christa experimenta um alheamento involuntário. como individualidade.pensa Vera a inteligência. que sonhava sempre com uma atividade realizada em comum.. já não sou tua mulher”. ainda que seja da melhor qualidade. há algo que lembra as mulheres das antigas lendas. Christa sente que seu espírito e sua capacidade para elevar-se com ele às altas regiões do pensamento não fazem mais do que aumentar seu desejo sexual para com ela. Não admite o despotismo. as mulheres dos tempos heróicos. os homens não compreendem quase nunca o que nos separa deles.. pretende que se leve em consideração seu eu. por seu eu espiritual. inclusive pode perdoar uma infidelidade. mas ser-lhe-áimpossível esquecer uma simples falta de atenção para com sua personalidade.durante séculos e séculos a adaptar-se à vida. o fogo sagrado da investigação. à sua alma. Nos momentos em que Christa toma parte. Não pode compreender como o homem que soube conquistar seu coração. não esquecerá nunca. Esta é a causa de sermos desgraçadas. como o mesmo Frank. suas relações perdem. até chegar a converter sua concepção de felicidade à satisfação das coisas exteriores e concretas. por convertê-la apenas em objeto de seu prazer. não tanto pelo eterno feminino. no trabalho de seu pensamento. Quando Christa Rouland pergunta a seu amante o que pensa sobre as mulheres. Já não se trata de um trabalho realizado em colaboração. O que Christa não pode perdoar a Frank. a metade do valor. e o mesmo sucede a todas as mulheres do novo tipo. Rosamunda mata seu marido. Se seu amigo não é capaz de compreendê-la. O mesmo sucede com a exigência da mulher moderna de que o homem eleito tenha uma formação espiritual. “Como pode castigá-la. a quem havia amado apaixonadamente até aquele momento. A nova mulher perdoará a ofensa feita à fêmea. Precisamente o estudo e as leituras desenvolvem esta base moral. pode mostrar-se tão insensível e não compreender a enorme importância que para ela teria ouvi-lo expressar-se de outra forma. cumulando-a de carinhos. Não podeis ver que há dentro de mim algo muito mais valioso. a viver em um mundo intelectual exclusivamente seu. torna-se muito mais intensa. Esforça-se. para castigála. Na boca de Rosamunda estas palavras não são uma simples ameaça. ainda que seja precisamente na mulher querida pelo espírito audaz. e quando se desenvolve é de forma débil. ao contrário.

Quando o homem a abandonava. “Possuíram-me. a infatigável exploradora da sorte. mais fortemente sente. deixem um amor por outro. tive uma paixão. A nova mulher. como cada dia aprecia mais seu valor. numa dolorosa luta para alcançar um ideal inacessível: a harmonia da paixão e a afinidade espiritual.. Já havia passado por uma experiência semelhante. não me casei nunca. “Jamais” . obrigada a suprir por si só as necessidades materiais da vida. A mentalidade do homem do passado. toma atitude negativa ou indiferente diante de todas essas formalidades que para ela não têm objetivo.” “Esteve casada?” “Não. a ofensa do homem que.de Ana. unicamente porque aspira a alcançar o inextinguível ideal de uma união amorosa mais completa. atualmente. expresso de uma ou de outra forma. Que seres tão baixos são todos os homens!” Quanto mais viva é a personalidade da mulher. também. Mas. são a causa de que as heroínas dos romances de nossa época se entregem de uma paixão a outra. em toda união amorosa.. em consolidar de alguma forma as relações amorosas.. A realidade presente engana todas essas mulheres. repetem-no as heroínas de todas as nacionalidades. Porém eu não quero. Implacavelmente. quando se lhe apresentava a menor ocasião. à sua inútil e desagradável independência. quando os homens chegarem a assimilar organicamente a idéia de que. não sabe perceber por trás da mulher desejada uma individualidade que desperta. mas também.. seu único apoio moral. as novas heroínas de nossa literatura fogem obstinadamente de tudo aquilo que possa prendê-las.” A nova mulher se sente presa no matrimônio. É que estas infatigáveis sonhadoras esquecem que o que buscam. o primeiro lugar corresponde ao companheirismo e à liberdade. As exigências que.continua Vera “adaptar-me-ei a essa escravidão. A dependência material da mulher em relação ao homem. têm que romper os laços do amor e partir novamente em busca da realização de seu sonho. Para Vera.. à medida que seus interesses se sobrepõem aos limites impostos pela família. se eu viesse a precisar escolher um. não há nada mais espantoso para Vera Nikodinovna que a dependência material com respeito ao homem: “Oh. Este protesto. sem carinho. obrigava a mulher do passado a preocupar-se antes de tudo em concretizar suas relações com o homem. seria minha maior desgraça. tinha medo da solidão. ou uma amante do tipo da mulher do passado.. Este novo tipo não tem nenhuma pressa em dar uma forma determinada às suas relações amorosas. a união nascida do companheirismo e da independência recíproca. cria laços morais que não são menos sólidos que as cadeias exteriores.” E aquela mulher errante termina as relações com seu amigo. de Nadejda Sanjar. com tanto afã. quando se sente com maior intensidade como ser humano. A mulher do novo tipo não somente não tem medo da independência. ter-lhe-ia servido para alguma coisa apreciá-la? Não há nada mais doloroso. com respeito ao homem. incapaz de enfrentar a vida sozinha. . têm as mulheres contemporâneas. pelo lar e pelo amor. sua completa impotência para enfrentar o mundo sem se apoiar no braço de um homem. A mulher do passado não sabia apreciar a independência pessoal. a conciliação entre o amor e a liberdade. só poderá realizar-se em um futuro longínquo. se eu viesse a depender de um homem. nada que dê maior sensação de impotência do que uma esposa. Só então sentia-se segura. Portanto. e por isso estava sempre disposta a renunciar. como os cães. ansiosas por encontrar um amor perfeito e cheio de harmonia. ao homem amado. eu não quero que seja assim. Maia. Assim. exclama: “Meu mais ardente desejo é encontrar um homem do qual jamais queira separar-me. ainda que este não seja mais do que laços exteriores. quando os homens modelarem de novo suas almas. ou morria. abandonada.. ainda que seja só exteriormente. mas vivi meu romance. com a mentalidade formada através dos séculos. ter um marido “proprietário e dono de sua alma” é um pensamento tão terrível como o cárcere para o prisioneiro que chegou a conquistar a liberdade com a fuga. para que fosse meu marido e para que me mantivesse.” disse a uma amiga. a mulher não somente perdia a sua subsistência material.. Quando a amiga de Renée. A mulher do passado. Até a alma simples da Tatiana de Gorki protesta por quererem fazer dela simplesmente um instrumento de prazer. que ainda permanece viva.

ao invés de dedicar toda sua atenção à mulher que com tanto afã o havia esperado. Enquanto a mulher enlouquecia languescia esperando por ele. ela o interrompe quase com espanto. Ela havia deixado por acabar. algo muito mais importante. Disto nasce a atitude. Mas. cujo verdadeiro conteúdo é algo mais sagrado e a cuja realização se entrega. para esperá-lo. mas. Este bastava para dar colorido até a uma vida cheia de privações de ordem material. e a mulher se apodera. atitude que era impossível encontrar na~ heroínas dos bons tempos passados. A finalidade de sua vida é. havia adormecido as crianças com o único fim de ficar sozinha a seu lado. dos interesses que pouco antes lhe eram completamente desconhecidos e incompreensíveis. completamente nova. acabando por assimilálos. A maioria das tragédias psicológicas das relações entre o homem e a mulher eram causadas pelo fato de que o homem. Ao contrário. ela só pode responder com um movimento de ombros. -“Muito bem. isto é. muito mais apreciado. existia sempre uma atividade particular. nem sequer as alegrias da maternidade podiam substituir para a mulher a perda de um amor venturoso. retirava os papéis da pasta. os trabalhos e a política. derrubam-se. o homem lutava contra o destino. na mulher moderna. ao lado dos acontecimentos amorosos. apesar de seu amor e de sua felicidade: . à medida que a mulher intervém no movimento da vida social. Nestes momentos as mulheres do novo tipo podem viver também como as mulheres do passado.“eu não penso no futuro!” Até agora o conteúdo fundamental da vida da maioria das heroínas se reduzia aos sentimentos do amor. na mulher do operário e na mulher do empregado. nem as honras. havia abandonado a comida por fazer. No homem. se uma união legal ou simplesmente uma união passageira. As mulheres de todas as classes sofriam igualmente com esta incompreensão do homem e de seus interesses. e seu coração explodia em reprovações. o estudo da ciência. Quando este lhe pergunta se pode ir vê-la na manhã seguinte. para fazê-lo esquecer os assuntos. E certo que as mulheres do novo tipo passam alguns períodos de sua vida. O amor deixa de ser para a mulher o conteúdo único de sua vida. (39) Se uma mulher não amava. um ideal social. geralmente. para a mulher moderna. que antes encerravam para ela todo o seu mundo. a interroga sobre que tipo de relações mantém com o homem amado. da mulher com respeito ao trabalho. seu horizonte se alarga. a vida parecia-lhe tão vazia como seu coração. Os muros de sua casa. a ausência do amor tornava pobre e vazia a vida de uma mulher. -Nós? Simplesmente nos amamos.exclama Renée . Nem as riquezas exteriores. sua inteligência. A mulher não podia compreender esta atitude do homem. A exclamação da esposa ofendida: “Vais outra vez a tua aborrecida reunião” acompanhava e ainda acompanha da mesma forma o marido banqueiro e o proletário. Esta é uma das características que estabelecem uma diferença nítida entre a mulher do passado e o homem. inconscientemente no início. em um mundo totalmente desconhecido. Margot” . muito distante dos limites do aconchego familiar. uma vocação ou o trabalho criador. porque tanto o homem como suas atividades estavam situados. à medida que se converte em mola ativa do mecanismo da vida econômica. a paixão e o amor constituem apenas uma parte de sua vida. épocas em que todos os outros interesses da vida empalidecem ou ficam relegados a um segundo plano. ansiosamente esperado ao regressar à casa depois de uma ausência. nos quais o amor ou a paixão tomam completamente sua alma. uma blusa. e no futuro?” “Oh. começa a ficar relegado a um lugar secundário.em A Vagabunda. para elas. em um mundo desconhecido e incompreensível para a mulher. Entretanto. A heroína de Bennet teve seu primeiro encontro amoroso com o homem. muito mais sagrado que todas as alegrias do amor e todos os prazeres da paixão. seu coração e até sua vontade. como sucede com a maioria dos homens. comia depressa e apressava-se para alguma reunião ou se entregava avidamente à leitura de um livro. devido aos negócios ou ao trabalho. A falta de compreensão da psicologia do homem era igual na mulher do professor e na mulher do funcionário.

mesmo a mulher do novo tipo. Têm medo das correntes do amor com que a psicologia deformada de nossa época aprisiona os amantes.” Esta confissão nos revela uma nova característica da psicologia da mulher moderna. feliz.” Tânia cede uma vez mais. Acostumada a perder-se totalmente nos tormentos da paixão. escreve triunfalmente a heroína de Kredo. como seria possível que as horas entregues ao amor fossem horas perdidas? Tânia. temerosa de que a força do sentimento desperte nela as tendências atávicas. ao retomar o trabalho abandonado. quase ininterruptamente. Este era o papel reservado. despertou de seu sonho e se deu conta. à felicidade do amor. Tudo isto significa a rebelião das mulheres de nosso período de transição. de repente. Para a nova mulher. E faz isto unicamente porque está acostumada a escrever pela manhã. A maior tragédia para a mulher do passado era a perda ou a traição do homem amado. a abandonar seu trabalho. reservar-me-ei o dia de hoje. Não se encontra uma mulher do tipo antigo. existe um mundo. meus costumes. Amanhã. com a força renovadora do amor. diz-lhe em tom de criança caprichosa. também contra a “escravidão do amor por si só”. vai ao encontro do amor quase sempre com um sentimento de ansiedade. quando escapa do cativeiro do amor. mas. Para a mulher do passado. porém a consciência do trabalho abandonado a martiriza. roubadas ao trabalho. à maneira dos homens. cheio de cores e prazeres. Não é possível para ela entregar-se inteiramente ao prazer. “Não a molestarei. mas sim. “Terminou a submissão do pensamento”. agitação e temores. Tânia. recobra sua liberdade com alegria e surpresa. sente-se continuamente atormentada pela consciência de sua ociosidade. trabalhei avidamente. como um conquistador. submergia no mundo incolor de sua vida cinzenta e pobre de conteúdo. as quais. no passado. “Hoje trabalhei . quando se desligava do amor. virá roubar minhas manhãs de trabalho? Sem que me desse conta despertou em mim uma surda inquietação pela minha liberdade e independência. Já não se trata da luta pelo direito ao amor. às heroínas dos romances.” E prossegue logo depois: “Começo a odiar sua arte.” Porém Stark indigna-se e protesta diante de sua proposta. E uma rival com a qual é difícil lutar. da mulher eco do homem. De repente se recorda de seu amigo Weber e lamenta seu abandono. de que iridependentemente dela e de Stark. Pedirei a Stark que me deixe só. meu regime de vida já estão estabelecidos.” E a descrição deste dia de traba lho está escrita de maneira clara e alegre. tenho muito que fazer. encontrar calma em seus gozos amorosos. com alegria. porque lhe doem as horas perdidas.” “É que durante os últimos cinco anos de minha vida eu me acostumei a ser a dona de meus próprios atos. . por quê?” “Ele não sabia o que pensar. Sente-se ao ler estas linhas que o ser de Tânia se libertou temporariamente da embriaguez da paixão e encontrou de novo a si mesmo. depois de haver-se convencido de que havia passado a embriaguez da paixão. não somente contra as correntes exteriores. a renúncia ao seu próprio eu. capaz de lançar um suspiro de alívio. temerosa de que a paixão a obrigue a renunciar a si mesma. Todos os meus gostos. Nunca recebo ninguém antes do almoço. “Decididamente. sacrificado ao homem amado. todavia. “Todo um dia sem você”. Outra vez sente-se livre e seu coração não está . Uma mulher é capaz de retardar por sua própria vontade um encontro desejado e que a faria feliz. desde as primeiras horas da manhã. do protesto contra a escravidão moral de um sentimento que exteriormente pode ser livre. sua própria individualidade. Ficarei quieto. durante a lua de mel com Stark. sua vocação e a finalidade de sua vida.“Só venha depois do almoço”. a maior desgraça é a perda de si mesma.” “Será que este homem. Com a paleta na mão. não aprenderam a conciliar a independência e a liberdade interior. com suas próprias alegrias e sofrimentos. ao ver-se livre da embriaguez da paixão. a mulher.“Depois do almoço. a heroína do romance de Nagrodsafla. As mulheres do novo tipo se sublevam. de que já terminaram todos os sofrimentos. entregue ao trabalho. precisamente amanhã.escreve Târtia. A mulher do passado. além de sua atmosfera de paixão que os leva até o êxtase. tendo seu trabalho que sofrer as conseqüências.. ao apreciar de novo o valor de sua existência independente. A mulher do novo tipo.

nós os respeitamos assim mesmo.” Libertar-se do cativeiro de um pensamento alheio. o velho critério torna-se completamente inútil. Na paradisíaca Inglaterra. por que hão de ser as almas superiores as únicas que gozam desses direitos?”. constitui a maior felicidade para a mulher-individualidade. foi preciso que enriquecesse poderosamente sua vida intelectual e que chegasse a acumular um grande capital de valores próprios. encontrar de novo a personalidade perdida. pergunta com razão Bebel. Primeiramente a vida nos ensinou a aplicar estes critérios somente às almas superiores. sem que o autor nem o leitor considerem essas heroinas como tipos viciados. À medida porém. por que. ainda que estes não perdessem por isto seu valor moral. não pelas propriedades de sua alma. mas sim. que a mulher se torna independente. à medida que participa ao lado do homem da luta social. enquanto deixavam que as outras pecassem como os homens. porque tem em sua alma uma reserva de necessidades e interesses que a tomam uma individualidade. ainda que sejam muitas as que agiram da mesma forma . a virtude sexual. escapar à dor e ao sofrimento. mas também uma individualidade. vacilamos freqüentemente antes de reconhecer uma personalidade. “Mas. apesar de o homem amado ter desaparecido repenfinamente de sua alma. Matilde. capaz de assegurar ao marido um rebento legítimo. hoje consideramos como um fato que não necessita nem de justificativa nem de perdão. Foi necessário. Por isso o despertar de Irina é alegre. que se produzisse uma enorme transformação em sua alma. Durante muitos séculos a mulher foi valorizada. Grent Allan. pelas virtudes femininas que exigia a moral burguesa da propriedade: a pureza. Jorge Sand teve que defender o direito da mulher de abandonar seu marido por um amante que elegeu livremente. Se verdadeiramente estivéssemos decididos a aplicar a estas mulheres a medida moral dos tempos passados. que considerava a mulher como a fêmea. então. as mulheres celibatárias. os romancistas evitavam. Admiramos a audaciosa Magda. A acumulação gradativa na mulher de características e sentimentos morais humanos nos ensina a nela apreciar não somente a representante do sexo. esforço que lhe dava uma sensação de humilhação. Precisamente porque a vida da nova mulher não se reduz a amar. de Sudermann. a queda de suas heroínas preferidas. não faz muito tempo.destroçado. Não haveria perdão para a mulher que pecasse segundo o código da moralidade sexual. para não fracassarem todos os sentimentos da mulher. Irina regozija-se quando “sente que recupera as forças e a energia que diminuíam sempre que tentava penetrar nas profundezas de uma alma estranha àsua. por isto perdoamos as infrações do código corrente da moral sexual às artistas. Ao mesmo tempo desaparece o antigo critério. mudamos nosso critério de apreciação sobre a personalidade da mulher. às mulheres de talento. O que há cinqüenta anos classificávamos como uma mancha indelével em uma moça solteira ou em uma mulher. voltar a si mesma. freqüentemente infringem as proibições do código corrente da virtude sexual. sentimentos estes incompreensíveis e desconhecidos para as mulheres do passado. condenar em outros o que precisamente nos encanta em Goethe e Jorge Sand?” (41) Seguramente riríamos dos hipócritas que fossem capazes de negar um aperto de mão a Sarah Bernhardt ou de abandonar um espetáculo por imoral. duvidamos da atitude que devemos adotar ante a mulher livre do tipo celibatário. As heroinas dos romances contemporâneos. com todas as precauções. devorados com entusiasmo respeitoso por admiradores de ambos os sexos. se as aventuras amorosas de Goethe ocupam volumes inteiros. teve que tomar sob sua proteção a mãe solteira. Mas. seríamos obrigados a abandonar todas as figuras das . experimentamos uma modificação em nossa psicologia no que se refere à nova moral em formação. a heroína de Hauptmann. Sem nos darmos conta disto. nos momentos em que o homem se afastava de sua vida. Por isso. (40) Apesar destes fatos ocorrerem com a maioria dos homens.tomemos estas duas personalidades como exemplo. que deixa de depender de um pai ou de um marido. “Se Goethe e Jorge Sand . comove-nos apesar de seus amores ilegítimos e de possuir filhos de vários amantes.atreveram-se a viver conforme os desejos de seu coração. quando se trata de simples mortais. mesmo tendo esta moça pecado várias vezes.

As heroínas modernas são mães sem estar casadas. mas também como representante de seu sexo. A Autolealdade. aberta à realidade futura. ao invés de um sentimentalismo exagerado. a luta contra o fetiche da moral hipócrita. a máscara da pureza.mulheres mais belas e humanas da literatura contemporânea. O pouco costume que os homens têm de levar em consideração a psicologia faminina – a incapacidade para compreender seus sentimentos – não somente os conduz a não prestar a menor atenção à alma da mulher. 10 Colette Iver: Princesas da Ciência. as mulheres do novo tipo. entretanto. 5 Grete Meisel – Hess – A Crise sexual. inclusive no matrimônio. nem de suas alegrias terrenas. Dora compra um homem. dos traços que escapam aos olhos dos demais e que se encontram mais estreitamente ligados à realidade capitalista. de Olga. nem o autor ou leitor contemporâneo as consideram criaturas perdidas. Dora. não uma fêmea. característicos da nova mulher. para afirmar sua personalidade e evidenciar quâo separados estão seus sentimentos de uma simples agitação sangüínea. o traço característico da mulher do novo tipo é a afirmação de si mesma. o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida.. que a realidade.. se esforçavam em conservar sua virtude. as sensações fisiológicas da mulher durante o ato mais íntimo de suas relações. 8 Matilde. a vida fisiológica ocupa. nem elas mesmo. como vai ainda muito mais além: conduz os homens a ignorar totalmente. a liberdade de eleger o homem amado. tão avara em sorrisos. não foge da vida. Diante de nós temos. é uma mulher que se sente enteriormente livre e que assilimila sem submeter à crítica essa verdade masculina do mundo burguês. um papel muito mais importante que no homem. na mãe. Com uma finalidade superior. dão a chave de outro problema que até agora havia permanecido obscuro. novela de Karl Hauptmann. . 4 Os traços psicológicos isolados. Apenas encontramos uma heroína pertencente à classe operária. Enquanto as mulheres do passado. ou a moral negligente de Lisa. Tem que ser assim.. silenciosamente. 9 Suderman: A Pátria. a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da “pureza”. talvez mais perfeita que a passiva virtude da Tatiana. moral que considera como um fato natural e inevitável. freqüentemente. e finalmente. os escritores encontrariam um rico material se decidissem descer até estas camadas da sociedade. doenças nervosas. de Turguenev. mas sim uma mulher-individualidade. abandonam o marido ou o amante. Os médicos sbem. para demonstrar a profundidade de seu sentimento pelo homem que ama. o tipo de mulheres dotadas de uma nova estrutura moral. Entretanto. porque na mulher. sua “revelação” provoca uma ingênua surpresa na maioria dos homens. 2 Ver capítulo A nova mulher na literatura. A rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais vivos da nova mulher. Sua alma sensível de artista. buscando uma verdade superior. onde a dura realidade contemporânea cria. não somente como individualidade. a insatisfação das mulheres no ato sexual provoca. nem uma sombra do homem. 7 Este ensaio foi escrito em 1918. 6 Convém assinalar que as considerações expostas por Meissel – Hess sobre a deformação da psicologia masculina. lhe concede. a apreciação da liberdade e da independência. com novas necesidades e emoções. a afirmação de sua individualidade e não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado. ao invés de submissão e de falta de personalidade. As aventuras do amor livre e sincero de Matilde. Quando Maupassant se atreve a abordar a questão na novela “Uma Vida”. tais são os pontos do programa que realizam. 3 Isto explica porque os romancistas contemporâneos elegem suas heroínas entre as mulheres representantes do meio burguês. com a mais surpreendente ignorânica. educadas no respeito à pureza imaculada da virgem. mas em massa. e. É surpreendente que a literatura impregnada pela psicologia masculina haja deixado passar em silêncio este fato que explica toda uma série de dramas familiares e de amor. têm uma ética própria. sabe apoderar-se com muito mais facilidade do que a dos outros escritores. Notas 1 Tomemos como exemplo a moral simplista do homem em suas relações sexuais. de Puchkin (42). tinham necessariamente que esconder e dissimular os sentimentos reveladores das necessidades naturais de seu corpo. a heroína de vanguarda da novela de Winitchenco. se encontram nas heroínas de Gorki muito mais frequentemente do que nos outros escritores russos. que pode chegar a ser o pai de seus filhos.. não isoladamente. (43) Esta é a mulher moderna: a autodisciplina. sua vida pode ser rica em aventuras amorosas. contrariamente às concepções que lhe foram inculcadas de maneira hipócrita. a prostituição. A falsa veracidade masculina de classe é aceita neste caso por uma mulher que aspira a libertar-se. A liberdade de sentimento. O traço típico da mulher do passado era a renúncia à atração da carne. de Maia. A nova mulher não abdica da sua natureza de mulher.

por seu valor literário. despoficamente. mas que regressa com dinheiro de cada aventura. 40 As aventuras amorosas de Matilde não nos impedem de respeitar sua personalidade íntegra e pura. para o fim a que nos propomos nestas páginas. as que nos mostram mais exatamente a psicologia da mulher contemporânea. Rounow: Luta. 20 Grete Meisel: A Voz. 26 Grent Allena: A mulher que se atreveu. mas. ainda que careçam algumas vezes da beleza exterior da criação artística. a mulher do novo tipo. A maternidade raramente era considerada como um fim em si mesma. Undset: Jenny. Se o matrimônio não a tornara feliz. e se convertia em um ídolo. 13 Wimitchenko: Na Balança da Vida. 12 Potapenko: Na Névoa. sentimos piedade e desprezo por sua irmã Marta. Bebel: A Mulher 42 Puchkin: Eugenia Onieguin 43 Turguenev: Ninho de fidalgos . 14 Idem. 24 Yuchkevitch: Saída do Círculo. Somente perto da velhice. Muitas de suas obras carecem de verdadeiro valor artístico. 22 Hedwing Dohm: Christa Rouland. restavam então. em geral. 39 É característico observar como a maternidade tem sido sempre considerada como último refúgio da felicidade da mulher. 19 Bennet: O Amor Sagrado. operária como ela. 41 A. 32 S. 38 A maioria dos autores citados nestas páginas são mulheres. Rosa de Vita Omnium Breve. despertavam na mulher sentimentos atávicos da espécie. 37 Por exemplo. complicações e tendências. 15 Id. Desde que as mulheres escritoras deixaram de imitar cegamente os modelos criados pelos homens e se atreveram a descobrir os mistérios da alma feminina que até então haviam permanecido ocultos. Em suma todos esses trabalhos nos ajudam a conhecer a mulher celibatária. Assim como Matilde. que adorava. Quase todos os romances escritores por mulheres contêm trechos puramente biográficos que são precisamente os que maior interesse apresentam para o nosso trabalho. 36 Marie Antine: A Terra Prometida. a adoração dos outros membros da família. 17 Grigoriev: O Ocaso. 18 Colette e Willy: A Vagabunda. 16 Sangar: Notas de Anna. desde qua as escritoras começarama expressar na sua própria língua sobre os problemas da mulher. suas dores. seus problemas. 27 Winnichenko: Na Balança da Vida. serão as que melhor nos servem para enriquecer nosso material no estudo do novo tipo de mulher em formação. elas nos oferecem um ponto de vista incomparavelmente mais exato do que as obras dos escritores de sexo masculino. só então aparecia a família com algum sentido na vida. contradições. As obras que refletem sem artifícios a verdade da vida. inclusive para os artistas mais geniais. 31 Hauptman: Solitárias. 33 Romain Rolland: Jean Christophe. 28 Else Jerusalén: O escaravelho sagrado. 29 O. 21 Ilsa Frapan: Trabalho. 35 G. que são superiores. Aterton: Julia France e sua época. 25 Wassermann: Renata Fuchs. têm um valor e uma significação especial. os cuidados e as alegrias da maternidade. Há todo um abismo entre a liberdade de Matilde e a venalidade de Marta.11 Schnitzler: Caminho da liberdade. seus desejos. suas obras. 30 Bernard Shaw: O primeiro trabalho de Fanny. se a mulher se via obrigada a renunciar a uma união amorosa ou se tinha enviuvado. como último refúgio. 34 Idem. e para o qual exigia. em formação.

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