A DEMOCRACIA DEPOIS DO LIBERALISMO: ENSAIOS SOBRE ÉTICA, DIREITO E

POLÍTICA

JOSÉ EISENBERG (IUPERJ)

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Para a Viviane

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SUMÁRIO APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO: ENTRE A HISTÓRIA E A CIÊNCIA: A TEORIA POLÍTICA HOJE SEGUNDO CAPÍTULO: O DIAGNÓSTICO HABERMASIANO DA MODERNIDADE: UM LIBERALISMO ANTILIBERAL? TERCEIRO CAPÍTULO: A POLÍTICA E OS INTERESSES I: UMA CRÍTICA HISTÓRICA QUARTO CAPÍTULO: A POLÍTICA E OS INTERESSES II: UMA CRÍTICA ANALÍTICA QUINTO CAPÍTULO: POR UMA ÉTICA DAS VIRTUDES: OS LIMITES DA DEONTOLOGIA E DO UTILITARISMO SEXTO CAPÍTULO: JUSTIFICAÇÃO PÚBLICA E RESPONSABILIDADE MORAL SÉTIMO CAPÍTULO: RAZÃO PÚBLICA E O USO PÚBLICO DA RAZÃO: UM INTERLÚDIO SOBRE O DEBATE HABERMAS-RAWLS OITAVO CAPÍTULO: JUSTIÇA E JUSTIFICAÇÃO: DA FILOSOFIA DA LINGUAGEM À TEORIA POLÍTICA NONO CAPÍTULO: A JUSTIÇA DE GIOTTO I: A MORALIDADE DA JUSTIÇA DÉCIMO CAPÍTULO: A JUSTIÇA DE GIOTTO II: A MORALIDADE DO DIREITO DÉCIMA PRIMEIRO CAPÍTULO: CONSENSOS MORAIS E ORDEM POLÍTICA: REPENSANDO A
DEMOCRACIA DEPOIS DO LIBERALISMO

CONCLUSÃO: A DEMOCRACIA COMO IDEAL ÉTICO, JURÍDICO E POLÍTICO

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APRESENTAÇÃO

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INTRODUÇÃO ENTRE A HISTÓRIA E A CIÊNCIA: A TEORIA POLÍTICA HOJE

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e são poucos os filósofos dispostos a engajar em um debate potencialmente enfadonho e interminável sobre o que seja estudar a política filosoficamente. e não de sua ciência. Enquanto isso. currículos de graduação. o estudo da política recebe o nome prático e apropriado de filosofia política.O grande mal dos modernos é ter perdido o senso comum sem ter aprendido a raciocinar. Pode-se verificar este fato em inúmeras práticas institucionalizadas da vida acadêmica. Chamam de história do pensamento político a investigação dos autores do passado que interpretaram a política tal qual ela se apresentava nos contextos em que eles viveram. Esta história é uma história do pensamento político. agendas de pesquisa: nestas práticas. porque até a revolução behaviorista do século passado. nos departamentos de filosofia. Principalmente. é visível o fato destes investigadores participarem de distintos milieus de debate acadêmico. Bibliografias de cursos de pós-graduação. estes autores recusavam designar a atividade intelectual que empreendiam como ciência. Isto é de resto apenas uma forma do mal de hoje: o termonos desligado do passado sem nos termos adaptado ainda ao futuro. Fragmentos escritos para o livro Da Ditadura à República) Em nosso país. departamentos de ciência política tradicionalmente congregam pesquisadores que estudam ciência política e pesquisadores que estudam a história do pensamento político. O mesmo ocorre em departamentos de história. 6 . dificilmente encontramos interlocuções substantivas entre os cientistas políticos e os historiadores do pensamento político. onde convivem pacificamente aqueles que estudam a história dos eventos políticos e aqueles que estudam a história das idéias políticas. Chamam de ciência política o estudo empírico da política tal qual ela se apresenta nos múltiplos contextos contemporâneos. (Fernando Pessoa. Um dos fatos mais curiosos sobre este universo dividido é a quase completa ausência de interlocução entre os dois campos de investigação. É nos departamentos de ciência política.

em um consenso intersubjetivo sobre a racionalidade e a validade moral dos argumentos feitos. tornou-se cômodo designar o que eles faziam de teorias políticas e a história que eles contam. que se encontram investigadores que por algum motivo misteriosos escolheram designar sua especialidade de teoria política. Para aqueles habitantes de departamentos de ciência política. Enquanto que as perspectivas da ciência e da história requerem argumentos capazes de produzir um consenso intersubjetivo sobre o mundo objetivo (dos fatos ou das idéias). e ele fica mais claramente delimitado se analisamos a etimologia da palavra teoria. pensar a política freqüentemente se confunde com fazê-la. Para estes estranhos habitantes. decidir sobre a natureza deste empreendimento é mais do que um mero exercício epistemológico de construção de uma identidade acadêmica diferenciada. mas sim produzir argumentos moralmente válidos que sejam capazes de persuadir uma determinada audiência. A palavra 7 . cada um a sua maneira. e não simplesmente contar a sua história ou utilizá-la para fazer ciência. portanto. Tanto cientistas políticos quanto historiadores do pensamento político. Já para os historiadores. entretanto. há todo um instrumental teórico que permite desenvolver hipóteses plausíveis para serem testadas empiricamente. na medida em que os autores do passado não pensavam a política cientificamente. nada mais é do que a história da teoria política. que por este ou aquele motivo decidiram fazer teoria política. Da perspectiva da ciência política. a perspectiva da teoria política produz sua legitimidade no interior do próprio discurso. nem explicar a política do presente. Este é o tipo de investigação teórica que se pretende realizar neste livro. também reivindicam para si o uso da expressão.como que perdidos ou espremidos entre aquelas duas vertentes de investigação acadêmica. e fazer teoria política não é nem explicar o pensamento do passado.

qual é a diferença então entre teoria política e ciência política? À primeira vista. 3a edição. a palavra passou a ser utilizada para designar genericamente o ato de ser espectador no teatro ou nos jogos. Há uma transição semântica de uma palavra para outra que pode. Originalmente. se olharmos com mais cuidado. enquanto uma facultas da mente. No tempo de Heródoto. H. perante o espetáculo da política (parte daquilo que Epicurus chamava de theatrum mundi). e mais tarde passou a designar os atos de contemplação de forma geral.1 Ou seja. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1987. em todos os seus significados. A palavra theôria.. A partir destas considerações etimológicas. que considera. Se partirmos desta perspectiva etimológica. que especula. No entanto. ela já tinha o sentido ampliado de ver ou enxergar. nenhuma. percebemos uma diferença importante. o envio destes embaixadores ou o seu conjunto era chamado de theôria. já que o último sentido imputado à palavra teoria no grego é muito próximo do sentido de scientia no latim (ter conhecimento).grega theôria passou por diversas transformações semânticas no período clássico. aquele que vai ao teatro ou aos jogos para assistir. podemos dizer que. 8 . tirando-lhe o seu caráter eminentemente ativo. uma ciência política busca entender a trama que se desenrola para que possa explicar os fatos da política. Já o conceito de teoria pressupõe uma ação daquele que contempla. ser comparada àquela discutida por Hannah Arendt quando ela se refere à tradução da noção de homem enquanto bios politikos no grego para o animalis socialis do latim. O conceito de ciência está diretamente relacionada à idéia de cognitio. retém um elemento de ação que está perdido na palavra scientia. Com o tempo. a palavra theôroi designava os embaixadores enviados para os oráculos ou para os jogos. Já uma teoria política contempla e especula sobre o espetáculo da política 1 Ver Arendt. A condição humana. grosso modo. o gesto presumidamente inocente de tradução de um termo pacifica o seu sentido original.

1. O que diferencia estes dois empreendimentos é o caráter contemplativo (e explicativo) do primeiro e o caráter ativo (e normativo) do segundo. Esta diferença entre teoria e ciência política fica ainda mais evidente sob a luz de uma frase de Heródoto em que o autor faz uso de um dos sentidos originais da palavra theôria para descrever o que é o conhecimento: theôries heineken ekdêmein (ir ao estrangeiro para ver o mundo). já que a vocação do cientista e do teórico da política definem-se primordialmente pela relação que eles estabelecem com as suas audiências. isto é. a teoria permanece neste mundo em busca de um olhar intersubjetivo. No plano epistemológico. The Histories. Esta interpretação do empreendimento da teoria política enquanto uma “ida ao estrangeiro para ver o mundo” permite inúmeras atitudes normativas perante a política. todos necessariamente convergem na busca de formas retóricas para 2 Heródoto. a partir das atitudes que. mas sem sair do mundo. Como mostra Gunnell. sair da polis. mas no plano vocacional. marcaram o fazer teoria política na história do Ocidente. cientistas. que teoria política é um empreendimento que busca sair da polis para criticá-la. Em Teoria Política.30. é necessário ir ao estrangeiro. Enquanto que a ciência política “sai” do mundo da política em busca de um olhar objetivo sobre ele.2 Para conhecer o mundo. quando olhamos concretamente para os modos como se escreve sobre a política. ao mesmo tempo interno e externo ao mundo observado. historiados e filósofos da política adotam posturas marcadamente distintas. segundo ele. sem sair do mundo em que ela se insere. a distinção epistemológica entre teoria política e ciência política torna-se menos relevante. 9 .1. e não por diferenças de ordem epistêmica. John Gunnell oferece uma estimulante lista destes comportamentos.com um olhar crítico. Podemos dizer. já que diferentes critérios definem conhecimento verdadeiro em cada uma destas áreas. analogamente.

e até mesmo dentre de uma mesma obra. como identificar este ou aquele pensador com esta ou aquela metáfora. este pensador concebese como superior e acima da sociedade e portador de um conhecimento que a ela é inacessível. no entanto. pois acredita que sua reflexão o aproxima da comunidade muito mais do que o próprio ato político. 1981. A terceira metáfora é a do pensador que se posiciona como terapeuta (ou médico) da comunidade. John. e deriva 3 Gunnell. Sua preocupação é com o pathos da polis e ele busca. para produzir argumentos moralmente persuasivos sobre a natureza da atividade política dos homens no tempo. ao meu ver. soluções e curas para os males da comunidade. A segunda metáfora aponta para um pensador que não precisa conceber o seu pensar como ação. Teoria Política. evidentemente. Em oposição àquele. A primeira metáfora arrolada por Gunnell é a do pensador da política como ator social. ou mesmo como uma espécie de ação política. A tipologia serve apenas como uma lista de atitudes performáticas que constituem o horizonte plural da reflexão crítica sobre a vida política das sociedades. a atividade intelectual de buscar compreender a política funciona ela mesma como forma de atuar no mundo da política.3 Gunnell faz uso de um rol de sete metáforas para descrever as diferentes vocações do pensador da política que. Recusando a distinção formal entre contemplação e ação. isto é. Não há. um decifrador de um imaginário coletivo inacessível aos seus contemporâneos. Este pensador se considera uma personificação da comunidade política. com seu pensamento. apontam muito bem para esta multiplicidade de atitudes intelectuais perante o objeto da política. As formas de pensar a política representada por estas metáforas coexistem em um autor. este interage com a comunidade. e sua convergência nesta idéia de “ir ao estrangeiro para ver o mundo”. 10 . cujo pensamento opera como substituto para a ação política. Tal qual o pensador que personifica a comunidade.transmitir a uma audiência uma certa visão da política. Brasília: Editora UNB.

Do caos das interações sociais. Nem sempre é ele o artistafundador daquela ordem harmônica. e sua capacidade de compreender a comunidade deriva precisamente de sua condição ambígua e contraditória de membro e não-membro. e que do alto de sua solidão recusa a dar sentido positivo a qualquer uma das imagens produzidas 11 . a última metáfora é a do pensador como destruidor de ilusões. em belas palavras. que simultaneamente personificam a ordem social vigente e apontam para o seu destino no horizonte futuro. mas nem sempre. terrorista das idéias correntes e das ordens que elas geram. Por fim. O quinto modelo é aquele do marginal de uma sociedade. e a harmonia da comunidade (re)nasce das simetrias e continuidades que ele exprime. este quinto tipo de pensador oscila entre a observação solitária. a ruptura é a imagem central da passagem para esta nova ordem. como os profetas hebreus. ele extrai a ordem. O quarto tipo de pensador é aquele que se apresenta como o idealizador de uma nova ordem. cuja criação pode ser obra do(s) deus(es) ou de heróis do passado. e a contemplação ligeira e otimista dos grandes movimentos de transformação que atores sociais põem em curso perante os seus olhos.sua autoridade perante ela do sucesso de suas prescrições normativas. melhor do que ninguém. Enquanto que o personificador e o terapeuta dependem da manutenção da ordem vigente (um para representá-la e o outro para curá-la). um estrangeiro ou meteco. A sexta metáfora é a do artista que busca a beleza em uma expressão da ordem vigente que nasce de seu processo criativo de refletir sobre ela. até mesmo um flaneur benjaminiano. ontem e hoje. mas é sua a responsabilidade de mostrar aos seus pares a beleza daquela criação. Um exilado. a metáfora do idealizador sugere a figura do visionário que imagina uma utopia social e que preconiza um destino verdadeiro para sua comunidade. atônita e pessimista das malaises incuráveis da comunidade na qual ele habita. Muitas vezes. há também visionários. e não da beleza ou precisão de uma personificação do espírito comunitário.

coberto às vezes de um verniz estóico.4 A partir da década de 1960. The Descent of Political Theory. obstruiu a produção de uma interpretação. 12 . Em um esforço de sistematizar argumentos de diversos artigos anteriores e defender um liberalismo centrado na idéia de eqüidade.5 Este renascimento de uma teoria política normativa recebeu um estímulo particularmente importante com a publicação do livro de John Rawls Uma Teoria da Justiça. 1995. ao redor do modelo de justiça pressuposto pelo modelo do Estado de Bem Estar Social (welfare state). Cinco anos após a 4 Idem. testemunhamos um declínio da perspectiva teórica da análise da política. uma justificação racional para valores. Niilista. mas certamente um crítico contundente. uma ciência política behaviorista (inspirada no positivismo lógico e no empiricismo experimental) e uma filosofia analítica (voltada aos problemas lógicos e neuro-lógicos do microcomportamento humano). Ver também Gunnell. em 1971. Para ele. ao longo do século vinte. este pensador pergunta-se até mesmo se há sentido na idéia de política e se ela merece ser fomentada entre os homens. Reappraising political theory. a própria comunidade pode perder seu sentido histórico. tanto acadêmicos quanto públicos. ao mesmo tempo. John. John Rawls inaugurou uma nova agenda de debates. Terence. no entanto. preocupada simultaneamente em explicá-la e transformá-la. talvez. 1993. Oxford: Clarendon Press. testemunhamos um gradual renascimento da teoria política enquanto reflexão crítica que busca produzir. Chicago: University of Chicago Press. erradicou a idéia weberiana de postulados racionais relativos a valores e. como aponta Terence Ball. 5 Ball. a reflexão teórica sobre a política. ao longo de boa parte do século vinte. Qualquer que seja a chave metafórica sob a qual compreendemos o empreendimento da teoria política. através do debate público.pelos pensadores expressos nas metáforas anteriores. objetiva e normativa da política. conseqüentemente. Dividida entre uma história do pensamento político (voltada para a erudição e o conhecimento do cânone que constitui a tradição milenar da política no Ocidente).

ver Ball.51 e segs. Esta combinação de critica social e normatividade. e seus efeitos marcantes sobre a interpretação das instituições disciplinadoras das sociedades contemporâneas. 13 .6 Ao mesmo tempo. evidentemente. não ocorreu sem tensões. Nozick (1974) e a coletânea de Daniels (1975). tratavam de produzir uma veemente crítica à tradição do positivismo jurídico que dominava as instituições jurídicas norteamericanas.A. Terence. os novos expoentes da teoria crítica da Escola de Frankfurt na Alemanha como Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel buscavam escapar do quasi-niilismo de Adorno e Horkheimer. pensadores do direito nos EUA. pp. O objetivo comum deste complexo e diverso grupo de intelectuais consistia em devolver à teoria política a capacidade de produzir afirmações críticas e diagnósticos clínicos dos males que assolam a política contemporânea.publicação de Uma Teoria da Justiça.G. Pocock procuravam dar conseqüências práticas a seu historicismo revisionista no plano das idéias políticas contemporâneas. a década de 1970 representou um importante momento de inflexão dos estudos teóricos sobre a política. em particular no que se refere à conversão destas críticas e diagnósticos clínicos em instrumentos eficazes de transformação das instituições políticas existentes. Em todo o mundo. Por um lado. como Ronald Dworkin. autores como Foucault e os historiadores da Escola de Cambridge encontraram no método da história os instrumentos necessários para a produção do 6 Entre elas destacam-se Barry (1973). Bernard Williams e Mangabeira Unger. Reappraising political theory. já havia mais de cinco livros de teoria política escritos na forma de uma resposta direta àquela obra. Quentin Skinner e o neozelandês J. inúmeras outras tentativas de revitalizar um pensamento político com conteúdo normativo invadiram a agenda intelectual da década de 70: os historiadores do pensamento político em Cambridge (UK) como John Dunn. sem falar na monumental obra de filósofos e historiadores franceses como Michel Foucault naquela década. e sem nenhuma relação direta com estes desenvolvimentos na academia americana. Para uma discussão mais sistemática da teoria normativa desde a década de 60 e da recepção de Rawls.

através do seu conceito de 7 Tully. ao privilegiar o diálogo com a ciência social. em uma prolífica genealogia das epistémes vigentes na contemporaneidade. 14 . James. ela tende a produzir uma sensibilidade contemporânea para determinados problemas políticos a partir do horizonte comparativo que a história fornece. é a que fornece os instrumentos mais eficazes para a crítica das instituições vigentes. Como demonstra James Tully em sua defesa da primeira perspectiva. O historicismo dos primeiros sem dúvida gerou importantes estudos críticos que iluminam inúmeros aspectos problemáticos da vida política das sociedades contemporâneas. no caso de Foucault.7 A segunda perspectiva. 2001. APSA Annual Meeting. tornando o diagnóstico clínico do presente preponderante em relação a formulação de alternativas para ele. e este método de identificação dos problemas teóricos relevantes. mas creio que é na articulação entre ciência social e teoria crítica presente na obra dos alemães e dos norte-americanos que encontramos um terreno potencialmente mais fértil para a recuperação de um ideal de teoria política enquanto campo de investigação que combine uma crítica social e normatividade a serviço de uma interpretação da política nas sociedades democráticas contemporâneas.diagnóstico subsidiário à crítica social que produziam. San Francisco. na medida em que se torna capaz de mobilizar esta ciência em busca de soluções de reforma e/ou transformação radical daquelas instituições. apesar de ter resultado em uma rica historiografia do pensamento político bem como. teve um papel pouco significativo em termos de intervenções normativas concretas no mundo contemporâneo. talvez tenha sido Jürgen Habermas quem mais se aproximou de uma sistematização destas tensões. porém. Do ponto de vista epistemológico. Foi na teoria crítica da Escola de Frankfurt e a teoria do direito norte-americana que a produção deste diagnóstico através de uma ciência social que permitiu a crítica de um horizonte propriamente contemporâneo para os seus diagnósticos clínicos. Political Theory as a Critical Activity.

e na medida em que estas premissas sejam resultado de racionalizações a partir do mundo empírico. por exemplo. já que uma vez abstraídas as práticas e aceitas as suas premissas. Tal qual o contratualismo de John Rawls ou a teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. a perspectiva habermasiana é herdeira de uma dupla referência à idéia de construção originalmente elaborada pela epistemologia kantiana: o ato de construção do mundo intersubjetivo pelos sujeitos humanos e ato de construção da teoria por parte do teórico. 15 .. 2001. Habermas propõe uma teoria reconstrutiva. Esta teoria é construtiva porque seu ponto de partida é um conjunto de premissas normativas a partir do qual uma representação do mundo pode ser produzida.8 É precisamente este caráter construtivista de um modelo que dá a ele a sua força critica. A força dos argumentos normativos do modelo é diretamente proporcional a força de suas premissas. ela abandona esta perspectiva externa e objetivista em 8 Olson. Do Rights Have a Formal Basis. San Francisco. o construtivismo pressupõe a produção de um modelo idealizado de alguma prática social observada. Ao invés de produzir estas premissas a partir da perspectiva de um observador externo da sociedade. seu caráter imperativo ou universal depende sempre de sua capacidade perene de representar aquele mundo de maneira persuasiva. Kevin. suas conseqüências racionalmente deriváveis geram os recursos teóricos necessários a um diagnóstico de como estas práticas distanciam-se de resultados racionalmente desejáveis. Em ambos os planos. e a capacidade explicativa deste modelo reside em no grau de parcimônia e no minimalismo das premissas necessárias à sua construção.teoria reconstrutiva. APSA Annual Meeting. Mas esta força crítica do construtivismo é também o seu custo mais elevado. cuja principal diferença consiste em modelar práticas humanas a partir de argumentos formados em parceria com uma ciência social interpretativa. Ciente destes limites epistemológicos inerentes ao construtivismo.

Modernity and Law. 9 Peters. dando à teoria política normativa em questão o seu caráter propriamente transformador. as linguagens normativas mobilizadas não são meramente reproduzidas.. a elaboração de uma teoria política não é meramente um esforço de produzir argumentos que expliquem objetivos racionais. James (org. não é simplesmente o problema instrumental de adaptar suas linguagem normativa aos seus projetos. caso no qual a teoria política teria um papel eminentemente conservador. Bernhard. p.o problema do ator que deseja legitimar o que faz ao mesmo tempo em que consegue o que quer. “Some problems in the analysis of political thought and action” in Tully. nesta busca. cuja apreensão requer uma análise empírico-sociológica das linguagens nas quais elas se articulam e das instituições que as reproduzem. 1996. um historiador da Escola de Cambridge. “On reconstructive legal and political theory” in Deflem. Ithaca: Cornell University Press. novos argumentos e conceitos são (re)introduzidos.8. é Quentin Skinner. Na medida em que uma teoria política normativa busca argumentos moralmente válidos que sejam (ou possam ser) aceitos pelos atores sociais do contexto do autor. 1988. Simone Chambers. Mathieu (org.10 Ou seja. É necessariamente também o problema de adaptar os seus projetos às linguagens normativas a ele disponíveis. 10 Skinner.112. Habermas.).prol de uma perspectiva interna e intersubjetiva dos processos e atores sociais que são o objeto da teoria. 16 . 1996. Na busca por argumentos válidos.9 Curiosamente. Princeton: Princeton University Press. Quentin. Reasonable Democracy: Jürgen Habermas and the politics of discourse. É necessário também escolher e inventar objetivos que possam ser legitimados através de argumentos moralmente válidos: este é o sentido básico de uma teoria política normativa. Meaning and Context: Quentin Skinner and his Critics. cap. ela se torna uma teoria política reconstrutiva. as premissas normativas são derivadas de um conjunto de normas legitimadas socialmente e aceitas como válidas pelos atores. Por um lado.).. Ver também. quem talvez tenha formulado melhor as razões para adotar uma perspectiva reconstrutiva à produção de teoria política: . London: Sage Publications.

em particular. e produzir novas formas de compreender instituições (por exemplo. Ao identificar os limites da modernização em curso. de seus valores éticos e de suas instituições políticas e jurídicas. especialmente no plano da legitimação de seus instrumentos de controle social e do exercício da soberania. o conceito de ação comunicativa) que pudessem dar continuidade àquele projeto. Do ponto de vista substantivo. Habermas aponta para um universo de possibilidades 17 . o conceito de esfera pública) e práticas sociais (por exemplo. Podemos dizer. seja no plano das instituições políticas e jurídicas. poderíamos dizer que Habermas representa o momento mais alto de consciência do mundo possível. em uma chave weberiana. Mas sua obra atingiu esta estatura também por um outro conjunto de razões que uma biografia não seria capaz de explicar. que Habermas representa o momento mais alto de racionalização do mundo existente. nas últimas três décadas. Em uma chave mais hegeliana. Enquanto esforço de reconstrução do projeto da modernidade. será capaz de contemplar. que ainda está para ser escrita. Sua obra capta inúmeros aspectos centrais do desenvolvimento do capitalismo avançado e. Habermas conseguiu ater o status de um dos maiores intelectuais europeus do pós-guerra por um conjunto de motivos que somente uma biografia intelectual. O lugar destacado de Habermas na filosofia e nas ciências sociais hoje resulta não somente da criatividade e sistematicidade de seu monumental empreendimento intelectual.Os motivos para tomar a perspectiva reconstrutiva de Habermas como ponto de partida para uma teoria política que reflita sobre os dilemas da política contemporânea extrapolam estas questões epistemológicas. Seja no plano da ética. a obra de Habermas tornou-se uma referência indiscutível para um enorme leque de questões centrais à reflexão teórica sobre a democracia e seus problemas. ninguém melhor do que ele conseguiu enxergar as crises contemporâneas das nossas formas de vida. mas também do que ele representa na constelação do pensamento social contemporâneo.

a consolidação de uma gama de direitos constitucionalmente garantidos como base da ordem social democrática e o fortalecimento de uma esfera pública composta de cidadãos ativos e portadores daqueles direitos – dois temas centrais à teoria política habermasiana – são hoje de premissas indispensáveis a uma reflexão crítica sobre o Brasil. sem abdicar dos princípios deônticos fundamentais que marcam. ética. as estratégias de justificação de uma interpretação mais forte e robusta da democracia liberal moderna. já que qualquer tentativa de interpretar a contemporaneidade. Na teoria política brasileira. Três momentos são particularmente importantes na demarcação crescente de Habermas enquanto interlocutor necessário para a teoria política brasileira. reinstaurada a partir de 1985. revisá-la ou criticá-la. o artigo “Habermas: mão e 18 . O fôlego de sua obra. eleva-o ao estatuto de “interlocutor necessário”. seja nas ciências sociais e jurídicas. e Habermas vem devidamente ganhando o estatuto de “interlocutor necessário”. requer um diálogo com os inúmeros argumentos do filósofo alemão que pautam. política e economia política – o coloca em interlocução com quase todas as tradições importantes de reflexão sobre a sociedade contemporânea. Habermas se torna uma referência intelectual importante para qualquer reflexão séria sobre teoria política no mundo de hoje. Em qualquer uma destas duas chaves interpretativas. atravessando quase todos os campos disciplinares das humanidades – filosofia. No plano da filosofia.concretas de sintetizar as contradições do nosso tempo. sociologia. Seja na filosofia. também testemunhamos um renascimento de uma perspectiva normativa à teoria política desde a década de 1970. seja para defendê-la. Em particular. direito. psicologia. o debate intelectual do mundo ocidental. desde o idealismo alemão. O alcance de suas idéias. por outro lado. desde a década de 1960. a obra de Habermas vem ganhando crescente importância nos debates que buscam interpretar os caminhos e descaminhos da democracia brasileira.

No plano da teoria política. sua ética do discurso é incapaz de superar os limites de uma deontologia kantiana. No plano do direito. adaptando-a às especificidades de nosso processo modernizador e aos imperativos sociológicos que elas impõem a este diálogo. do ponto de vista da produção de uma alternativa política efetiva aos modelos contemporâneos da democracia liberal adotados nos países desenvolvidos (e replicados no Brasil). direito. na medida em que permanece articulada a um modelo de razão prática em que os cidadãos representam seus interesses privados no âmbito da esfera 19 . e por sociólogos do direito como Werneck Vianna et al.contramão” (1991) de José Arthur Gianotti publicado na Novos Estudos Cebrap representou uma primeira recepção crítica da teoria da ação comunicativa e de suas implicações mais imediatas a uma filosofia da linguagem pragmatista. Em primeiro lugar. a teoria política reconstrutiva de Habermas apresenta problemas nos três planos em que ela se desenvolve (ética. Este acúmulo de esforços de dialogar com Habermas no Brasil tem contribuído de inúmeras maneiras para uma recepção organizada e competente de sua obra. Diferente destes esforços anteriores. este livro busca um diálogo transversal com a obra de Habermas no três planos acima descritos. mais recentemente. O meu diagnóstico é que. a reação a teoria habermasiana em Política e Racionalidade (2000 [1984]) de Fábio Wanderley Reis e a defesa de suas premissas centrais em A moralidade da democracia (1996) de Leonardo Avritzer abriram as ciências sociais para as temáticas da sociologia habermasiana. e política). (1999). a recepção de Habermas por constitucionalistas como Gisele Citadino (2000). A sistematicidade com que Habermas faz a transição de um plano para o outro requer uma cuidadosa análise dos problemas existentes em cada plano e suas conseqüências teóricas no outros dois. entretanto. reorganizou de forma irreversível o debate sobre o regime jurídico instaurado com a Constituição de 1988 e os novos instrumentos por ela criados.

a co-determinação dos direitos e deveres dos mesmos). quanto da aplicabilidade de seu modelo para os múltiplos contextos da modernidade contemporânea. para um diálogo crítico com modelos éticos. Como Croce – usando as 20 .pública (aquilo que Habermas designa de uso público da razão). portanto. Em segundo lugar. ele é o inspirador e fermento de todo movimento sério que se proponha a renovar os “costumes” políticos. é que a teoria habermasiana é o ponto de partida. Minha hipótese central. tanto do ponto de vista da lógica interna de seus argumentos. não apresenta nenhuma inovação significativa do ponto de vista de conceber novos instrumentos de ação dos atores do sistema jurídico ou de ação dos cidadãos no âmbito daquele sistema. Tal qual dizia Gramsci sobre o papel de Croce na intelectualidade européia do começo do século passado. sua teoria delega uma capacidade de regeneração e legitimação da ordem social às instituições já existentes da democracia representativa e aos modelos de produção da opinião na esfera pública que contradizem as experiências de crise de legitimação de inúmeras democracias contemporâneas. Precisamos começar a refletir sobre como a democracia deve funcionar depois do liberalismo. sua teoria do direito. neste sentido. jurídicos e políticos alternativos que possam contribuir para a superação dos limites do liberalismo contemporâneo. Podemos dizer que Habermas é. tomá-lo como ponto de partida para uma reflexão que busca superar os limites da sua teoria. o Benedetto Croce do nosso tempo. Habermas tem o ofício de “líder da cultura liberal democrática”. isto é. Conferir a devida estatura à obra de Habermas requer que adotemos a mesma perspectiva crítica que define a sua obra e a tradição da Escola de Frankfurt. e não o ponto de chegada. ainda que avance em relação a doutrinas liberais como a de Rawls ao recuperar elementos republicanos que apontam para a co-determinação da autonomia pública e da autonomia privada dos cidadãos (e. Em terceiro lugar. parodiando Gramsci.

256 e 259. citando Heródoto mais uma vez. pp. ele tem a “atitude ética de Goethe”. buscando uma transformação profunda dos valores desta sociedade sem que esqueçamos de suas tradições e raízes no projeto da modernidade. “ir ao estrangeiro” do universo intelectual daquele autor para ver os limites de sua teoria para compreender o mundo no qual ela se insere. O objetivo não é defender os argumentos centrais de sua teoria nem defender a tradição da teoria política contra estes argumentos. Fazer teoria política reconstrutiva em diálogo com Habermas significa. fortalecendo sua teoria no processo de revisá-la e de avançar argumentos que permanecem confusos. oferecendo-nos uma ciência social que refuta o positivismo. 182. e. aquele que ele considerava o momento mais alto da consciência moderna no início do século passado. filósofos e juristas que ainda crêem que o projeto inaugurado com o advento do moderno ainda não esgotou sua força e não cumpriu seu destino teórico e prático. uma espécie de “papa laico” da modernidade. finalmente. buscando em sua obra abarcar um estudo das inúmeras dimensões de uma perspectiva humanista à condição humana. como ele. 187. incompletos ou simplesmente equivocados em sua obra. 1973. 11 Ver Gramsci. Nueva Version. combinar crítica social e normatividade. Os ensaios aqui coletados discutem idéias centrais da teoria de Habermas com o objetivo único de superá-la. como Croce. El materialismo histórico y la filosofia de Benedetto Croce. Habermas. Mas significa também.metáforas de Gramsci mais uma vez – Habermas tem a prosa científica de Galileu. Buenos Aires: Ed. mas que não abre mão do conceito de objetividade. é o “último homem do renascimento”.11 Nesse sentido. 21 . Ele é. enfim. exercendo uma vasta influência sobre a legião de cientistas sociais. Agradeço a Luiz Werneck Vianna pela sugestão da comparação entre Croce e Habermas. Antonio. podemos afirmar que os objetivos deste livro coincidem com os objetivos que levaram Gramsci a dialogar com Croce. A missão que temos é a de realizar uma reflexão crítica deste autor.

SEGUNDO CAPÍTULO O DIAGNÓSTICO HABERMASIANO DA MODERNIDADE: UM LIBERALISMO ANTILIBERAL? 22 .

a escolha desta expressão para descrever a teoria política de Habermas já indica. às vezes. a formação democrática da vontade tem a forma de uma autocompreensão ético-política. Se por um lado. por outro lado. uma explicação mais minuciosa dos termos que a compõem.. (. Poucos refutariam o caráter democrático de sua teoria. Between Facts and Norms) Habermas é o mais complexo dos autores liberais de nosso tempo. a direção que a crítica deste livro tomará: superar Habermas significa retomar e dar continuidade ao empreendimento radical e democrático iniciado por ele em seu diálogo com o marxismo. e encontrar uma alternativa teórica para a engenharia institucional excessivamente liberal e acanhada que ele propõe.De acordo com a perspectiva liberal. por outro. 23 . subverter o caráter liberal de sua teoria. Mas o papel que ele confere ao tema da soberania popular parece.(Habermas. ou pelo menos insinua. O uso da expressão liberalismo antiliberal para designar a teoria política habermasiana requer. Mas cabe denominar Habermas de um autor liberal? Sua teoria política está ancorada em uma distribuição de direitos e deveres em que o tema da liberdade é sem dúvida preponderante. o processo democrático se dá exclusivamente através de forma de compromissos entre interesses. A assertiva de que Habermas é um autor liberal é com certeza controversa. pelo menos de forma latente. portanto. os instrumentos teóricos necessários a uma crítica contundente ao liberalismo que a libertaria de seus vínculos a esta tradição.) De acordo com a perspectiva republicana. (. precisamos entender em que medida esta teoria política mantém-se vinculada à tradição do liberalismo. Evidentemente. está suposto que há nela... Convém ressaltar que comungamos com Habermas na necessidade de fazer a crítica do projeto da modernidade sem romper com seus laços fundamentais: a noção de emancipação humana que define este projeto deve continuar sendo o horizonte normativo do empreendimento de fazer teoria política..) A teoria do discurso recupera elementos de ambos os lados e os integra em um conceito de procedimento ideal para deliberação e tomada de decisões.

Mas dar continuidade ao projeto infindo da modernidade não significa dar continuidade ao modelo liberal de política que se tornou hegemônico em seu seio. tal qual mobilizada pelo complexo científico-tecnológico que hoje funciona como motor do conhecimento. 1990 e Modernization and Postmodernization. 1997. 1990. Habermas não acredita que ele represente o fim da modernidade. portanto. apresentar-se como uma alternativa às diversas outras leituras que procuram entender este deslocamento. Em primeiro lugar. O Pensamento Pós-metafísico Habermas opta por fundamentar a sua interpretação do deslocamento do horizonte da modernidade na superação pragmático-linguística da metafísica. Ronald. Princeton: Princeton University Press. é necessário primeiro definir a interpretação peculiar que Habermas dá ao projeto da modernidade e à possibilidade de sua continuidade. O discurso filosófico da modernidade. Ele visa. como esta autodefinição. para Habermas. Tal crítica. Jürgen. ainda que este não seja um interlocutor privilegiado de Habermas. Princeton: Princeton University Press.12 Também não procede a denominação deste deslocamento do horizonte da modernidade em termos culturalistas. Culture Shift in Advanced Industrial Societies. definindo dessa forma o seu pensamento como pensamento pós-metafísico. que não deva ser denominado de pósmodernidade. Lisboa: Dom Quixote. E para demonstrar os vínculos habermasianos a este modelo. Diferente de Lyotard e os que seguiram o filósofo francês nesta denominação. como aquela oferecida por autores como Ronald Inglehart. e. 24 .13 O suposto 12 13 Habermas. para Habermas o discurso filosófico da modernidade não está esgotado porque a crítica contundente à idéia de razão que movimenta esta corrente neoestruturalista reduz-se a uma crítica à concepção instrumental de razão. Inglehart. não significa que seja impossível resgatar o conceito de razão e conferir a ele uma significação distinta que ainda permita pensar no projeto de emancipação humana que define a modernidade.

temas de uma cultura pré-material que apesar de laicizada na sua versão contemporânea. na verdade. portanto. em particular seu elemento metafísico. Para ele. a centralidade dos problemas da esfera da necessidade e reprodução. sob a ótica habermasiana. mas mesmo nestes lugares. 25 . O pensamento pós-metafísico opera enquanto uma solução intermediária entre a metafísica e a crítica da razão. Ela só pode receber esta segunda designação em lugares do mundo onde os problemas da reprodução e da necessidade estão efetivamente solucionados.surgimento de uma cultura pós-material não desloca os problemas da esfera da necessidade e da reprodução. Mas do que consiste então. sem incorrer no movimento metafísico de transcendentalização da razão. as garantias de que estas soluções são duradouras são bastante duvidosas. continua a remeter a uma esfera de valores cuja justificação é necessariamente antimaterialista antes mesmo de ser pós-materialista. mas a secularização da filosofia e da ciência que antecedeu a este movimento nunca foi completa. orientada pelo desejo de superação dos limites da filosofia moderna. e não desconstrutiva. e não pós-moderno ou pós-material). para o mundo moderno. e duvido que uma cultura estritamente material tenha estado no centro do projeto moderno em algum momento de sua história. sem dúvida. e superar a metafísica implica. este deslocamento para um pensamento pós-metafísico? Habermas propõe designar com este termo as fundações de uma nova forma de reflexão filosófica. Inúmeros temas que definem a tal “cultura pósmaterial” constituem. o fim do pensamento metafísico não implica no fim da modernidade (e por isso este novo pensamento é pós-metafísico. em buscar uma solução reconstrutiva. que recupera o sentido de modernidade conferido pela metafísica às formas de vida ocidentais. O avanço da economia política ao longo dos séculos dezenove e vinte e sua ascensão à condição de primeira ciência social indicam.

Em um primeiro plano. Por fim. e que insere a consciência no seu milieu de articulação no real. em um terceiro plano. a divisão kantiana da razão nas três críticas encerra a possibilidade da unidade da metafísica. Estas mudanças têm como resultado uma reorientação fundamental do programa de reflexão filosófica. qual seja. a fenomenologia. do imutável e do necessário. 26 . e constituíram as bases da constelação filosófica denominada “pensamento pós-metafísico”. é derrotado no século dezenove por uma nova ótica naturalista. o antinaturalismo da metafísica. em que o fenômeno da consciência é interpretado do ponto de vista do sujeito concreto. Habermas identifica quatros grandes movimentos da filosofia – a filosofia analítica. a razão situada. É a partir deles que podemos compreender os três temas do pensamento pós-metafísico enquanto desafios introduzidos historicamente ao pensamento metafísico: a racionalidade procedimental. Em um segundo plano. o marxismo ocidental e o estruturalismo – que abriram a filosofia do século vinte para a possibilidade de superar a metafísica. ainda que as críticas que estes movimentos fizeram à metafísica não tenham sido capazes de gerar soluções ou alternativas concretas. que não mais permite a dualidade entre reflexão e ação. este movimento de ruptura com a metafísica teve início no idealismo alemão depois de Kant. particularmente a partir do final do século dezenove. o contexto interativo das relações recíprocas de comunicação. e prioridade da prática sobre a teoria. este naturalismo resulta em uma nova concepção do sujeito. que visava uma ciência do universal.Para Habermas. que alavancaram uma apropriação da lógica pós-aristotélica e da semântica fregeana. O horizonte da modernidade foi deslocado no século vinte por uma síntese destes quatro movimentos. implicando em uma forte cisão entre o mundo inteligível e o mundo sensível.

e o critério de correção de raciocínios deixa de ser a lógica formal-abstrata de suas assertivas.O sintoma mais evidente do surgimento de um pensamento pós-metafísico está na superação do papel da filosofia na produção da inteligibilidade do mundo natural e do mundo humano. Tanto a fenomenologia de Husserl. Esta substituição da filosofia pela ciência na construção do modelo do que conta como pensamento verdadeiramente teórico. é uma razão substantiva. a razão teórica se redescobre em mundo estruturado racionalmente ou. livre das algemas de uma razão divina) confiam somente na racionalidade de seus próprios procedimentos: por um lado. são a natureza e a história que adquirem uma estrutura racional a elas atribuída por esta razão teórica. passando a ser a capacidade de resolver problemas com sucesso através de interações com a realidade que sejam 27 . a ciência empírica e uma moralidade autônoma (isto é. alternativamente. o ponto de vista abstrato sob o qual a moralidade autônoma se torna possível. por outro. Esta razão teórica. Este novo pensamento substitui portanto a ontologia e as categorias a priori que alicerçavam o pensamento metafísico por uma fenomenologia que prioriza as manifestações concretas da razão na experiência humana. Em oposição a esta racionalidade substantiva da filosofia alicerçada na metafísica. que organiza os conteúdos do mundo que pode então ser interpretado racionalmente. o método do conhecimento científico e. quanto os estruturalistas são agentes desta transformação. Assim. e o crescente papel da racionalidade procedimental da ciência neste empreendimento. mas a idéia de racionalidade procedimental é uma tese weberiana sobre a transformação dos modos de conceber a relação entre pensamento racional e mundo sensível. portanto. a racionalidade se torna algo formal. Sob o paradigma da metafísica. leva o pensamento crítico a migrar de um questionamento dos fundamentos metafísicos da filosofia para um questionamento dos fundamentos empíricos da ciência.

Por um lado. portadores de representações mentais. E a própria filosofia enquanto forma de investigação se torna a maior vítima da racionalidade procedimental.. A noção de razão situada é.procedimentalmente apropriadas. movimentos ocasionados pelas ciências do simbólico e da cultura. teve como principais propulsores foram a teoria da significação de Husserl e a teoria dos jogos de linguagem de Wittgenstein. signos lingüísticos eram vistos como instrumentos neutros. ou mais exatamente. A combinação da virada lingüística e da prioridade da fenomenologia resulta em um novo conceito de racionalidade que retira da razão o aspecto transcendental atribuído pelo modelo kantiano. conhecido como a “virada lingüística” (linguistic turn).e. bem como aos critérios morais do senso comum. porque agora ela precisa impor a si mesma os critérios de falibilidade das ciências empíricas. portanto. Desta prioridade dos fenômenos sobre as categorias a priori resulta uma mudança de paradigma que esvazia a filosofia da consciência em prol da filosofia da linguagem. Enquanto que no primeiro paradigma. No lugar da relação entre sujeito e objeto que caracteriza uma filosofia da consciência. opera a relação entre linguagem e o mundo. no novo paradigma da filosofia da linguagem o domínio intermediário dos significados simbólicos adquire uma autonomia radical na investigação. fundada nas faculdades inerentes a mente humana. imersa nas práticas concretas dos homens em que ela se manifesta: na ação social e na interação lingüística. No lugar de uma razão a-histórica. uma resposta à idéia metafísica de razão transcendental. Mas o problema deste movimento é que a razão situada dele derivada 28 . Este movimento. este é um movimento heideggeriano com o conceito de Dasein (ser-no-mundo). surge um conceito de razão situada e concreta. a relação entre uma proposição lingüística proferida (i. Ela implica em uma historicização e individuação do sujeito transcendental. uma uterância) e um estado das coisas.

Jürgen. se relacionam com a sua língua de forma simultaneamente autônoma e dependente: eles podem fazer uso de sistemas de regras gramaticais. 29 . que chegam a entendimentos uns com os outros sobre algo que está no mundo. Enquanto que uma fenomenologia ontologicamente orientada rouba a razão de seus atributos clássicos de transcendentalidade. o desaparecimento do sujeito transcendental não deixa nenhuma lacuna. a prioridade da prática sobre a teoria pode ser entendida como uma “virada pragmática”. e que têm como pano de fundo um mundo da vida comum. e o mundo da vida enquanto o produto desta ação. na opinião da Habermas. Cambridge: MIT Press. Surge um processo circular entre o mundo da vida enquanto o recurso do qual a ação comunicativa extrai a sua vitalidade. Mead e seu modelo de individuação via socialização produzir. p. 1992. Coube a G.43. a filosofia é obrigada a abdicar de seu status de esforço extraordinário e sintético do mundo.dissolve o mundo em uma pluralidade de mônadas individuais constituintes do (seu) mundo particular. mas podem fazê-lo tendo em vista seus próprios objetivos . a solução adequada para a suplantação do conceito de razão transcendental pelo conceito de razão situada. Uma vez estabelecida a prioridade da prática sobre a teoria. É o paradigma do entendimento mútuo entre sujeitos comunicativos pressuposto por Mead que oferece tal solução: Sujeitos capazes de falar e agir. e precisa agora aprender a coexistir com a 14 Habermas. que encontra expressão também no pragmatismo filosófico de Peirce. não permitindo compreender como um mundo intersubjetivo é constituído. na análise do mundo da vida de Husserl.. Postmetaphysical Thinking: Philosophical Essays..H. uma fenomenologia antropologicamente orientada localiza outras maneiras pelas quais este sujeito e sua razão encontram-se imersos no concreto. Originalmente desenvolvida no seio da tradição marxista. e na psicologia do desenvolvimento de Piaget e Vygotski.14 Acompanha esta migração da investigação filosófica para o mundo concreto das interações humanas uma inversão da relação tradicional entre teoria e prática. neste processo. que antes de mais nada tornam suas práticas possíveis.

conseqüentemente. O elemento central da reconstrução crítica da modernidade introduzida por Habermas consiste. a filosofia. Como vimos acima. deve nos tornar conscientes das deformações do mundo da vida pelos sistemas. e nada mais. Ou seja. da busca de uma nova fundamentação para ela a partir da filosofia da linguagem. passa a ter um papel de um intérprete coadjuvante. p. desprovida de sua condição de primeira produtora de assertivas verdadeiras sobre o mundo concreto. seu papel é normativo e crítico. cuja principal missão é atribuir sentidos críticos e normativos aos conhecimentos das culturas especializadas perante um público leigo. 39. e as práticas comunicativas cotidianas. A expressão “pensamento pós-metafísico” utilizada para descrever este empreendimento busca sintetizar através de duas mudanças de paradigma – a que Habermas atribui os nomes de “virada lingüística” e “virada pragmática” – o processo através do qual o conceito de razão transcendental do pensamento metafísico é substituído por um conceito de razão procedimental e situada. do direito e da moralidade. 30 .um intérprete mediando as culturas especializadas da ciência. os argumentos prescritivos derivados das normas consideradas aceitáveis pelos atores sociais deverão necessariamente interagir com argumentos descritivos 15 Idem.. Pois se o objetivo é produzir uma teoria política reconstrutiva. nesta substituição está implícita uma determinada interpretação do papel que a filosofia realizará no mundo contemporâneo e. de uma forma semelhante àquelas com que crítica literária e artística fazem a mediação entre a arte e a vida.arte e a religião no exercício da função de mediadora entre o conhecimento dos especialistas e as práticas cotidianas que necessitam de orientação. da tecnologia. portanto.. Para Habermas.15 Em outras palavras. este papel consiste em ser . Sua atividade restringe-se à resolução de problemas e. dos diálogos que ela precisará travar com as ciências sociais. em seu papel enquanto intérprete.

isto é.derivados da apreensão de quem são estes atores e de quais são os contextos em que eles interagem normativamente. Mead. e elemento central da ciência social reconstrutiva que fundamenta a teoria política de Habermas é a teoria da individuação via socialização do psicólogo social G.H. Uma ciência social crítica e um horizonte normativo precisarão ser combinados neste empreendimento. e concebe a individualidade como a capacidade destas partes se definirem sem referência ao todo. bem como uma interpretação do papel crucial das práticas de justificação na construção da legitimidade das normas sociais ali produzidas. É esta teoria que permite uma interpretação da natureza intersubjetiva e comunicativa do mundo da vida. em que as categorias accidens universale e accidens particulare funcionavam como complementos às idéias 31 . O objetivo da teoria da individuação de Habermas é chegar a uma definição de indivíduo a partir de atributos singulares que possam ser descritos qualitativamente. ou pelo menos compartilhados com outros. livre da condição universal e formal de sujeito transcendental. H. Individuação e Justificação O conceito metafísico de indivíduo é dotado de uma negatividade derivada do raciocínio por identidades. A origem de um conceito de individualidade constituída qualitativamente é uma idéia que já encontrava expressão no final da antiguidade. e é com este objetivo em mente que ele recorre à teoria da individuação de G. o singular só pode ser definido em termos quantitativos – este indivíduo derivado da metafísica resulta de uma identidade que é particular porém igual a todas as outras. Mas na medida em que os atributos que descrevem estas singularidades devem ser (e necessariamente são) derivadas de atributos universais. que define a primazia do todo sobre a singularidade das partes. Mead.

de substantia universalis e substantia particularis. Esta idéia ganha força no conceito de mônada de Leibniz, one cada indivíduo torna-se um espelho particular do todo, contendo o universal dentro de si e representando o mundo como um todo de uma perspectiva particular. O conceito adquire uma nova configuração no plano da filosofia da consciência de Kant. Se em Descartes o conceito de individualidade era mediado pela idéia de autoconsciência, que por sua vez reduz-se ao ego cogito, o sujeito transcendental kantiano tem dois novos atributos: o de gerador/criador do mundo e de sujeito agindo autonomamente. Mas, mesmo assim, o que distingue um indivíduo do outro permanece sendo uma abstração no plano do universal, já que o ego racional e inteligível tem sua ação definida como a priori e voltada para o universal através das leis morais autoimpostas. A crítica a esta concepção do indivíduo enquanto internalização particular do universal aparecerá no expressivismo de Schiller e na apropriação que Hegel faz dele. Para Schiller, o artista é o modelo de indivíduo na medida em que ele reconcilia de maneira expressiva forma e conteúdo. O ser humano “deve transformar tudo que é mera forma em mundo, e realizar suas potencialidades”; ao mesmo tempo, ele “deve erradicar de dentro de si tudo que é apenas mundo, e produzir harmonia em todas as suas mutações... ele deve trazer para fora tudo que é interno, e dar forma a tudo que é externo”.16 Para Hegel, este expressivismo de Schiller é central à produção da noção de subjetividade transcendental, já que sob a forma da metafísica tradicional o universal é uma instância de objetividade em relação a qual as individualidades são, na melhor das hipóteses, apenas acidentes que se revelam perante ele como não-idênticos ou inautênticos. O espírito absoluto hegeliano, por sua vez, é imbuído de uma individualidade e subjetividade, permitindo que subjetividades particulares se tornem
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Schiller, apud: Habermas, Jürgen. Postmetaphysical Thinking: Philosophical Essays, p. 157.

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indivíduos da história do mundo (world-historical individuals) e compartilhem, dessa forma, do processo de constituição deste espírito na sua singularidade. Hegel sabe, evidentemente, que a afirmação histórica do espírito absoluto no tempo depende da utilização destas individualidades particulares enquanto meios para um fim, e que elas deverão, portanto, eventualmente ser encapsuladas por ele. Mas pelo menos em Hegel os indivíduos não são apenas manifestações acidentais e marginais cujo essência se perde a cada tentativa de especificar qualitativamente suas diferenças. Como aponta Habermas, é somente com Fichte que a metafísica consegue avançar e superar este dilema da constituição do conceito de indivíduo humano. Fichte desloca a problemática do indivíduo e sua individualidade do plano da autoconsciência para o plano da auto-afirmação (self-positing). Seu programa filosófico responde à questão – quem sou eu? – dizendo que sou aquele em quem me faço (me transformo). O ato de individuação é um duplo agir que é praticamente executado (concreto, portanto) e reflexivamente recapitulado (abstrato, portanto, em um segundo momento). O ato de autoconstituição, dessa maneira, é um ato que ocorre antes da autoconsciência, ainda que compreensível pela razão subseqüentemente. Na autoconsciência é que eu me confronto comigo mesmo enquanto objeto, quando opero a divisão entre o “eu” que reflete e o “eu” sobre o qual reflito. No entanto, eu só confronto esta situação paradoxal de divisão do ego e a experiência de liberdade do eu-pensante associada a ela, na medida que isto me é imposto através de uma expectativa ou demanda dirigida a mim por outro sujeito. É quando eu descubro que esta demanda/expectativa só pode ser saciada através da afirmação do meu livre arbítrio, que eu me descubro enquanto sujeito livre agindo espontaneamente e de maneira singular. Portanto, o sujeito racional só se descobre enquanto indivíduo quando opõe o seu eu-objeto ao outro (enquanto sujeito da demanda/expectativa) e opõe subseqüentemente o outro-objeto ao eu-sujeito.

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O problema desta construção fichteana, como bem observa Habermas, é que ela permite apenas a afirmação de uma individualidade reativa. No plano da filosofia da consciência em que Fichte ainda opera, a individualidade do sujeito singular emerge apenas como uma restrição de si mesmo, como uma renúncia da possibilidade de realização da liberdade perante a demanda/expectativa do outro, e não como um cultivar produtivo dos poderes interiores e essenciais do ego. O sujeito só se constrói perante outros sujeitos enquanto objeto, e sua individualidade restringe-se às determinações objetivadas da liberdade de escolha estratégica que permitem que ele se afirme enquanto um complexo de vontades arbitrárias, que podem agir autonomamente somente quando negam a determinação exterior de suas vontades pelas demandas/expectativas alheias. A intersubjetividade e individualidade nela produzida, portanto, são reduzidas à relações recíprocas entre sujeitos-objetos. É somente com Humboldt e Kierkegaard que o problema da intersubjetividade e o problema do papel da linguagem na construção da individualidade começa a ganhar um contorno mais claro. Em Humboldt, o papel da linguagem é salientado na busca de uma perspectiva que dê conta do ponto de intersecção da interação entre eu e o outro, ponto este caracterizado pela presença mediadora da linguagem. Kierkegaard, por sua vez, dá um passo ainda mais decisivo quando identifica nas relações do ego consigo mesmo que são presentes em toda relação com o outro, a origem da individualidade. É somente na medida em que o eu hoje se refere a si mesmo ontem como um outro, que ele é capaz de constituir sentido de individualidade. É, portanto, nesta reconstrução temporal permanente de sua historicidade que o sujeito encontra a si mesmo enquanto um outro objetivado que o permite apropriar-se criticamente de sua própria experiência e gerar algo como uma subjetividade individualizada. A história de vida de cada sujeito, pela qual cada ego se torna responsável pelos atos do eu-objeto que agiu ontem, é que se

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forma a individualidade. A história de vida se torna o princípio de individuação, e o eusujeito precisa permanentemente escolher a si mesmo como aquele que deseja ser e que se constitui na realidade. Desta maneira, o indivíduo se torna idêntico a si mesmo e distinto de todos os outros em sua vida ética, isto é, nas escolhas particulares de uma trajetória histórica guiada para a boa vida. O que esta pequena história conceitual da idéia de individualidade produz, para Habermas, é uma agenda conceitual para a qual G.H. Mead é chave de entrada: O maior alcance da contribuição de Mead consiste nele ter retomado temas que podem ser encontrados em Humboldt e Kierkegaard: a individuação não é retratada como a autorealização de um sujeito agindo de forma independente, livre e em isolamento, mas como um processo de socialização lingüisticamente mediado com a constituição simultânea de uma história de vida (life-history) que é consciente de si mesma. A identidade de indivíduos socializados se forma simultaneamente, através de um processo de compreensão mútua na linguagem e através da formação de uma compreensão se si mesmo que é ao mesmo intrasubjetiva e historicamente constitutiva de uma trajetória de vida. A individualidade se forma em relações de reconhecimento intersubjetivo e de autocompreensão intersubjetivamente mediadas.17 Através deste conceito de individuação via socialização de Mead, Habermas pode explicar o sentido da expressão “individualidade” através de uma concepção de um sujeito dotado de razão situada, cuja autocompreensão só é possível na medida em que ele se concebe enquanto sujeito capaz de discurso e ação, e que, portanto, está disposto, perante os outros participantes do diálogo ou ato, a se justificar como uma pessoa insubstituível precisamente por ser singular. É esta situação lingüisticamente mediada de produção de justificações que permite a formação de uma autocompreensão moral de si mesmo que é, ao mesmo tempo, uma autocompreensão ética porque é constituída intersubjetivamente: O self de uma autocompreensão ética não é a possessão absolutamente interna de um indivíduo. A impressão de que isto seja desta forma deriva de individualismo possessivo da filosofia da consciência que começa com a relação abstrata do sujeito de conhecimento consigo mesmo, ao
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Habermas, Jürgen. Postmetaphysical Thinking: Philosophical Essays, pp. 152 - 153.

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invés de conceber este sujeito como resultado. O self de uma autocompreensão ética depende do reconhecimento por parte de interlocutores porque ela se produz antes de mais nada como uma resposta às demandas de um outro. Na medida em que os outros exigem que eu me justifique, eu gradualmente me torno a pessoa que eu tenho sido no processo de viver com outros.18 Portanto, a perspectiva da primeira pessoa do singular depende inexoravelmente da coexistência (e poderíamos dizer que até mesmo da co-presença) da segunda pessoa do singular. Sendo assim, é necessário reconstruir o modelo de indivíduo desenvolvido no seio da filosofia da consciência, de Leibniz à Fichte, sob o novo paradigma da filosofia da linguagem. Isto implica a passagem para o paradigma das interações simbólicas lingüisticamente mediadas. Quando encaramos o sujeito enquanto agente discursivo (um ator que fala no mundo, ao invés um ator que observa o mundo), da perspectiva social de um ouvinte que ele encontra em uma situação dialógica, esse sujeito se torna e se compreende enquanto um alter ego deste outro ego. Desta forma, quando o ator se orienta pela relação entre o “eu” e o “você” da interação simbólica, ele se descobre na forma de uma alter ego do seu alter ego. O “eu” que revelado neste processo é na verdade uma imagem-memória do meu ego, tal qual ele acabou de agir na presença do outro, e o “eu” que é consciente de si mesmo (i.e., o indivíduo) só se constitui na refração do significado capturado simbolicamente e constituído pelo parceiro na interação há segundos atrás. Individuação, portanto, é um processo que se dá via socialização e é gerada somente quando se inicia a interação comunicativa. Até aqui, o argumento de Mead ainda permanece no plano da constituição do indivíduo epistêmico, daquele que conhece a si mesmo através da interação simbolicamente mediada. A passagem para a constituição do indivíduo-ator, e portanto para a relação prática do “eu” consigo mesmo que permite a ação dotada de intenção,
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Idem, p. 170.

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Estes impulsos adquirem no indivíduo a forma de pressões pré-sociais (desejos naturais) ou a forma de impulsos de fantasia criativa. em que o “mim” construído na interação funciona como contrapeso conservador aos impulsos do “eu”. normas conhecidas e ancoradas no sujeito da ação através de controles sociais mais ou menos internalizados. portanto. mas para produzir também expectativas normativas. Mas Mead avança. constitui-se numa dialética entre o “eu” e o “mim” em que o segundo termo (o eu-objeto). Desta operação intersubjetiva no plano prático resulta uma concepção de indivíduo. Para que esta coordenação ocorra. Enquanto que a interação simbolicamente mediada permite que se monitore e se controle nosso comportamento através da atividade cognitiva auto-referenciada. isto é. o sentido do par conceitual “eu” e “mim” é sub-repticiamente alterado pela introdução da dimensão motivacional. que se tome a perspectiva do outro da interação. da relação prática do “eu” consigo mesmo. Ao invés de autoconhecimento. não somente para gerar expectativas cognitivas. Isto requer o que Mead chama de adoção ideal de papéis (ideal role-taking): o ego adota as expectativas normativas do alter ego para tentar definir suas próprias expectativas e coordená-las com as dele. portanto. é sempre uma força conservadora ancorada em uma concepção da boa vida (isto é. Mead e Kierkegaard convergem. o que ego adquire neste processo é autocontrole. Em contextos práticos. na medida em que estipula a natureza da relação prática entre o ego e o indivíduo e diferencia esta relação da relação 37 .requer um passo além. portanto. na prioridade da ética na constituição da individualidade humana. isto é. buscando novas maneiras de se enxergar como sujeito no mundo. no entanto. Esta coordenação requer. ela não pode substituir a coordenação da ação com o outro. Individualidade. é necessário gerar expectativas comportamentais normativas e generalizadas. em uma visão ética do mundo) que é necessariamente compartilhada socialmente com outros.

cognitiva. que faz com que Habermas aproprie o seu conceito de “adoção ideal de papéis”. A responsabilidade é pela ação. O “mim” neste contexto é a consciência moral que adere às convenções e práticas sociais da minha comunidade e que me forçam a representar os motivos da minha ação enquanto motivos que conformam com estas convenções. e a justificação é pela intenção (os motivos para a ação). A principal conseqüência deste princípio da ética do discurso habermasiana é a densidade que práticas de justificação adquirem na formulação de um conceito de razão prática. ao adotar idealmente o lugar do outro no discurso. Interessa a Habermas particularmente o fato que este conceito permite um tipo procedimental de justificação. posso querer se assumo responsabilidade pelos resultados da ação gerada pela minha intenção. Em uma relação prática em que “eu quero”. A partir dele. Habermas pode formular um princípio formal de justificação para validade de normas que não mais requer suporte em uma concepção transcendental de sujeito. Este princípio. e somente se. tal qual exigida pelo imperativo categórico da razão prática kantiana. É esta interpretação da relação entre o “eu” e o “mim” em interações práticas que visam consenso. o seu caráter pós-metafísico: toda norma válida é legítima se todos afetados por ela a aprovassem em uma situação discursiva ideal. já que ego aprova uma norma e a utiliza como motivação para a ação se. ela estiver justificada de acordo com aquele princípio. Em outras palavras. e torna-se capaz de decidir se “mim”. oferecida por Mead. ou a justificar a distância existente entre elas e os meus impulsos naturais e/ou fantasias criativas. É a sua formulação que confere à filosofia habermasiana o seu conteúdo moderno e. a aprovaria. enquanto (potencialmente) afetado pela norma. que Habermas designa como o “princípio (D)” está na base daquilo que Habermas designa de sua ética do discurso. o “eu” converte-se em seu alter ego. Decisões baseadas 38 . ao mesmo tempo.

mas sim a autocompreensão que um pessoa de si mesmo. imperativos incondicionais para o comportamento daqueles que compartilham estas identidades. preferências que não designam simplesmente inclinações. gostos ou disposições contingentes. dessa forma. com bem observa Habermas. mas decisões baseadas em aquilo que Charles Taylor designou de “preferências fortes” – isto é. e considera esta justificada se ela for capaz de gerar julgamentos morais que obrigam a partir do recurso formal ao imperativo categórico. diferentes 39 . um contrato social.em preferências triviais ou fracas. Esta estrutura comunicativa se impõe intuitivamente sobre qualquer pessoa que esteja disposta a utilizar a ação comunicativa de maneira reflexiva. e que. e na medida em que tal ponto de vista está necessariamente vinculado a estrutura comunicativa do discurso racional enquanto tal. Busca-se uma direção estratégica para a ação e justificá-la é encontrar técnicas eficazes de convivência com os afetados por ela. disto deriva a centralidade do direito enquanto manifestação empírica das normas justificadas. pouco atingiriam os afetados por ela. o ponto de vista moral do qual nós podemos julgar questões práticas imparcialmente é aberto a interpretações diversas. No pensamento metafísico. Já a deontologia kantiana ancora-se em uma universalização da idéia do sujeito afetado pela norma. parte do problema dos contextos em que a aplicação se aplica para decidir quando certos imperativos condicionais são adequados. O aristotelismo. como por exemplo. Mas. portanto. raramente exigem que o ator as justifiquem. três tradições distintas propõem soluções para esta demanda. nós não podemos dispor dele livremente. ancorado em uma interpretação das formas compartilhadas de vida. Para Habermas. compreende o esforço de justificação de normas enquanto uma busca por conselhos clínicos capazes de elucidar estas identidades éticas. de seu caráter e forma de vida – sempre exigem justificação. e de produzir. O utilitarismo. por sua vez.

O empreendimento de Habermas é sintético porque apropria elementos 19 Ver Habermas.19 Para Habermas. o caráter estritamente procedimental deste tipo de justificação ancora-se no potencial consentimento dos afetados em uma situação ideal de discurso. 40 . Usos pragmáticos. dependendo se estamos agindo sob a égide da idéia de propósito (utilitarismo). Cambridge: MIT Press. todos a disposição do ator. para aquele momento. o que os unifica é somente o fato de estarem todos sujeitos ao tipo procedimental de justificação articulado pelo princípio (D) da ética do discurso (ver figura 1). Daí porque Habermas busca uma teoria da justificação racional de normas que sintetize estes diferentes empreendimentos. Este tema retornará de outra maneira quando discutirmos a teoria da justiça de Habermas no capítulo oito. 1993. Justification and Application: Remarks on Discourse Ethics. leva o filósofo alemão a um território intelectual em que diversos elementos do liberalismo subsistem de forma tensa e às vezes até mesmo contraditória. e do conceito de ação comunicativa que permite a Habermas construir essa situação ideal enquanto um horizonte normativo válido para as interações comunicativas concretas no mundo da vida. cujo debate com Marx. no entanto. nos interessa apenas observar como este caminho teórico. e deixo a explicação mais completa da filosofia da linguagem de Habermas (e de minha crítica a ela). de seus vínculos à teoria dos atos de fala de John Searle. Weber e Parsons não são cruciais aos argumentos críticos que serão elaborados ao longo deste livro. Este explicação. Aqui.empreendimentos são exigidos da razão prática. capítulo1. da idéia do bem (aristotelismo) ou da idéia do justo (kantianismo). tema que requereria uma explicação mais detalhada da filosofia da linguagem habermasiana. Jürgen. nos ocuparia demasiadamente com a sociologia crítica elaborada por Habermas em Teoria da Ação Comunicativa. éticos e morais da razão prática exigem modos distintos de justificação. da crítica à metafísica ao conceito pós-metafísico de sujeito e à síntese procedimentalista do problema da justificação.

das três vertentes da filosofia moral acima descritas; ele é uma síntese procedimentalista porque em relação ao ponto de partida destes debates – o liberalismo contemporâneo – Habermas toma uma rota distinta daquela escolhida pelos principais críticos internos do liberalismo, os comunitaristas e os republicanistas. Enquanto que os comunitaristas criticam o liberalismo contemporâneo por ter feito uma opção errada em prol da justificação deontológica de princípios e do esvaziamento moral da teoria política (a busca de uma minima moralia), Habermas critica o liberalismo contemporâneo pelo motivo inverso: é preciso reforçar o caráter procedimental da deontologia e protegê-la das tendências moralizantes que ainda subsistem no interior do liberalismo. Diferente também dos republicanistas, que criticam o liberalismo

contemporâneo por ter exacerbado o tema dos direitos individuais em detrimento do problema dos deveres para com a res publica e o conjunto de virtudes cívicas que o exercício destes deveres requer, Habermas, ao contrário, defende a prioridade dos direitos sobre os deveres, e critica o liberalismo por ter privilegiado os direitos básicos necessários à preservação da autonomia privada em detrimento daqueles direitos básicos necessários à produção da autonomia pública e do princípio democrático de legitimação. Mas enquanto que a intuição central da crítica habermasiana ao liberalismo é diametralmente oposta a do comunitarismo, o mesmo não é verdade em relação ao republicanismo, já que este compartilha com Habermas uma preocupação central com o tema da autonomia pública. É o próprio Habermas quem define seu empreendimento como um “republicanismo kantiano”. Este empreendimento é republicano, porque privilegia o processo democrático e as normas que são necessárias para que ele seja legítimo, e considera este processo uma pré-condição para a produção daqueles que os liberais chamam de direitos individuais: Republicanismo kantiano, com eu o entendo, começa de uma intuição diferente. Ninguém tem o direito de ser livre em detrimento da liberdade

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de todos os outros. Porque as pessoas são individualizadas somente através da socialização [intuição comunitarista], a liberdade de um individuo não pode ser conectada a liberdade de todos os outros de uma maneira puramente negativa, através de restrições recíprocas. Pelo contrário, restrições corretas são o resultado de um processo de autolegislação conduzido coletivamente. Em uma associação de pessoas livres e iguais, todos os membros dever ser capazes de compreender a si mesmos como co-autores das leis em relação as quais eles se sentem obrigados individualmente enquanto objetos/alvos destas leis. Logo, o uso público da razão, institucionalizada legalmente no processo democrático, é a chave pata garantir liberdades iguais.20 Ele é kantiano, por outro lado, porque recusa a redução liberal do problema dos direitos ao problema da autonomia privada e as restrições públicas necessárias para garanti-la, recuperando o tema da autonomia pública do cidadão que participa da produção da lei: Uma vez que princípios morais devem ser incorporados ao meio do direito positivo e coercitivo, a liberdade da pessoa moral divide-se na autonomia pública dos co-legisladores, e na autonomia privada dos objetos/alvos da lei, de tal maneira que estas duas autonomias pressupõem uma a outra mutuamente. Esta relação complementar entre o público e o privado não se refere a nada dado ou natural, mas é gerada conceitualmente pela própria estrutura do meio jurídico. Logo, deixa-se que o processo democrático defina e redefina continuamente as fronteiras precárias entre o privado e o público de maneira a assegurar liberdades iguais para todos os cidadãos na forma de sua autonomia pública e privada.21

20

Habermas, Jürgen. The Inclusion of the Other: Studies in Political Theory, Cambridge: MIT Press, 1998, p.101. 21 Idem.

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Em suma, eu não tenho dúvida de que o projeto pós-metafísico de Habermas e seu horizonte republicano e kantiano é o arcabouço teórico mais elaborado e relevante a uma reflexão do problema normativo que orienta este livro: como produzir uma teoria política que reconstrua a idéia de modernidade no contexto de sociedades plurais e complexas? Os limites deste arcabouço que procuraremos demonstrar ao longo deste livro são todos limites internos, e que nos forçam, portanto, a buscar maneiras de criticar sua teoria no sentido de reconstruí-la em bases cada vez mais sólidas. Chamar este arcabouço de um liberalismo anti-liberal é, no fundo, uma provocação, um convite a refletir com Habermas contra ele mesmo. O liberalismo de Habermas é melhor que o liberalismo político de Rawls porque é mais republicano e mais democrático. O liberalismo de Habermas é melhor que o liberalismo quase-existencialista de Foucault por que ele é mais público e mais político. O liberalismo de Habermas é melhor que o liberalismo dos comunitaristas porque ele é mais adaptado às sociedade plurais e complexas. Resta a dúvida se o liberalismo de Habermas é melhor do que o republicanismo por ele tantas vezes insinuado e que, se levado às últimas conseqüências, implicaria em abandonar alguns argumentos centrais ao seu liberalismo. Para citar Gramsci novamente, o “papa laico” de nosso tempo é precisamente isto: um papa sem religião, um liberal sem liberalismo; ou, pelo menos, um liberal em permanente tensão com os princípios desta doutrina.

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FIGURA 1 - MODOS DE JUSTIFICAÇÃO NA SÍNTESE PROCEDIMENTAL DE HABERMAS Tradição Imperativo Objetivo Concepção de Vontade Horizonte Empírico Política

Pragmático

Utilitarismo

Imperativo condicional

Direção técnica ou estratégica para ação

Escolha arbitrária

Possíveis contextos de aplicação

Contrato/ compromisso

Ético

Aristotelismo

Imperativo incondicional

Conselhos clínicos

Determinação

Formas de vida compartilhadas

Elucidação da identidade coletiva

Moral

Kantianismo

Imperativo categórico

Julgamentos morais

Livre arbítrio

Comunidade dos afetados pela norma

Direito

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TERCEIRO CAPÍTULO A POLÍTICA E OS INTERESSES: UMA CRÍTICA HISTÓRICA

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E a chave para libertar este pensamento do imperativo da representação está na superação do conceito de interesses. mesmo quando sintetiza as linguagens do aristotelismo. perante os outros. a ética moderna ainda opera sob a égide daquilo que designaremos de o “imperativo da representação”. no utilitarismo ou na deontologia. Seja no aristotelismo. que o restringe no âmbito da síntese das formas de justificação discutidas no final do capítulo anterior. (J. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. Desde a Renascença. Ortega y Gasset. Neste capítulo e no próximo. que “se alarga sem nos libertar”. Neste primeiro capítulo. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. procurando demonstrar que o conceito de justificação de Habermas. diminuindo dessa maneira a dimensão propriamente republicana para o qual o seu liberalismo potencialmente aponta. buscando através de um diálogo 46 . busca o reconhecimento dos seus interesses e validar as justificações em que eles se articulam. elástica. interpreta o problema da passagem do privado para o público na construção da ação política do agente humano: ego representa-se a si mesmo enquanto “eu” moralizado que. A Rebelião das Massas) Se por um lado a estratégia pós-metafísica de Habermas o capacita a criticar a modernidade sem abdicar de sua agenda de emancipação humana. a crítica será analítica. a crítica será histórica. por outro é esta estratégia. adotaremos duas estratégias distintas e complementares de crítica em relação a este conceito.46 A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser em todo o essencial igual a hoje. incluindo o pensamento pós-metafísico de Habermas. o pensamento moderno esteve preso a esta “prisão elástica”. se alarga sem nos libertar. do utilitarismo e da deontologia. tal esforço de representação torna-se imperativo. No capítulo seguinte. Ao longo da modernidade. modelo através do qual o pensamento moderno. ela mesma. e em particular após o crescimento da economia política . não consegue se libertar de uma tradição moderna de interpretação da política enquanto esfera de articulação de interesses. .

o conceito de interesses aparece como “domesticador” das paixões.47 com as teorias contemporâneas da racionalidade demonstrar a necessidade de minimizar o papel dos interesses na política. A filosofia medieval encontrava-se articulada em termos da oposição fundamental entre a razão e as paixões. como uma forma de represá-las na direção convergente de uma busca parcimoniosa daqueles meios que podem. onde o autor argumenta que o conceito de interesses representou uma revolução nas linguagens do pensamento político moderno na medida em que foi capaz de apresentar-se como contraponto às paixões. de acordo com Hirschmann. Hirschman. O conceito de interesses e o pensamento político moderno A interpretação da narrativa do pensamento político moderno e do papel do conceito de interesses em seu seio é marcada pelo influente livro de Albert O. tais quais apresentadas na eficiente sistematização de Anthony Pagden. o conceito de interesses foi um passo fundamental no desenvolvimento do pensamento político moderno no sentido de represar e conter a força das paixões. Assim. e de conferir a esta atividade um caráter mais republicano. The Passions and the Interests: political arguments for capitalism before its triumph (1977). Nas três linguagens fundamentais do pensamento político moderno. este conceito foi 47 . saciar paixões e tornar o convívio entre os homens pacífico. Tal conceito tinha a vantagem de não contrapôr-se ao conceito de paixões. Pelo contrário. sendo o papel da virtudes cristãs realizar o contraponto necessário à libido dominandi. sem que fosse necessário recorrer a uma concepção heróica de virtude dos grandes homens capazes do domar seus impulsos mais seculares. simultaneamente. não requerendo dessa maneira mecanismos para a sua repressão. e não desejos ou paixões canalizadas em interesses. em que cidadãos trazem para o debate e buscam justificar opiniões que julgam virtuosas.

Fundamentada na justificação 22 Ver Pagden.48 gradualmente ocupando um lugar de protagonismo na articulação de argumentos sobre as condições do convívio pacífico entre homens que buscam saciar suas próprias paixões. Milano: Giuffre Editore. tornando-se o principal assunto teórico dos humanistas do século XVI e dos contratualistas dos dois séculos subseqüentes. The languages of political theory in early-modern Europe. 1984. referência subsequentemente para o desenvolvimento de boa parte do pensamento jusnaturalista. De acordo com Anthony Pagden.22 Crucial para que isto pudesse ocorrer desta forma. Anthony. foi a convergência destas linguagens ao redor do “imperativo da representação”. Cambridge: Cambridge University Press. 1990. e Cícero. 48 .). Sêneca. A crítica a esta doutrina jurídica estava fundamentada em uma segunda linguagem centrada em uma recuperação do republicanismo clássico. este aristotelismo foi o pilar da doutrina jurídica do Estado moderno. Colocando os conceitos de virtude e liberdade no centro da reflexão. Partindo do direito natural de São Tomás de Aquino. Il concetto di ‘interesse’. ver Ornaghi. Lorenzo (org. filósofos dos mais diversos de Maquiavel a Rousseau trocam a preocupação dos jusnaturalistas com a ordenação racional das leis por um enfoque no problema da prática da política. estes autores escolhem como eixos para a filosofia política o problema da ação política dos governantes e o problema dos mecanismos de legitimação daquela ação junto à sociedade. de Hugo Grotius a Samuel Pufendorf. Inspirados pelas obras de moralistas e historiadores romanos tais como Lívio. a primeira das linguagens que pontuam a filosofia política no começo da modernidade surge com o aristotelismo da escola tomista que ficou conhecida como a seconda scholastica. A terceira linguagem da filosofia política da modernidade é a linguagem da economia política discutida por Hirschman em seu livro. Para uma excelente coletânea de textos do pensamento político moderno em que o tema do interesse é discutido direta ou indiretamente.

ora como uma ciência moral (phronesis). Uma das características fundamentais de boa parte do pensamento político moderno é a compreensão de que a filosofia política é de certa forma um empreendimento “científico”. a sociedade civil é a esfera da articulação de interesses privados. Por fim. Apesar das diferentes apropriações que os “primeiros modernos” fizeram das linguagens da filosofia política medieval e antiga. que permeia as outras três. e o procedimento ganha prioridade ontológica sobre a substância da graça e vontade divina. ao reduzir a ação política à articulação de interesses privados. e ao Estado cabe garantir o funcionamento de sua principal instituição: o mercado. entre outros. a linguagem do direito natural vai se positivizando. Pagden lista uma quarta linguagem. não das virtudes cívicas. as linguagens da filosofia política moderna se libertam das correntes da justificação moralista de origem teológica-jurídica. Ora interpretada como um sistema dedutivo. as principais 49 . Por outro. recusa qualquer moralização da política que não estivesse fundada na moralidade natural do mercado. a linguagem do republicanismo clássico fundamenta as virtudes e a legitimidade do exercício da autoridade na razão e na vontade geral da comunidade. Para Mandeville e Adam Smith. mais epistemológica do que propriamente política. foi esta convergência epistemológica das diversas linguagens da filosofia política moderna que permitiu o intenso diálogo entre elas e os diversos sincretismos teóricos que pontuaram aquele diálogo. Por um lado. esta linguagem produz uma interpretação funcionalista do Estado. buscando assim um fundamento moral na nova antropologia empírica do homem natural derivada dos encontros do novo mundo. a linguagem da economia política. na qual o seu principal objetivo é a reprodução e manutenção do sistema de produção vigente através de um sistema de administração racional da vida social. Acima de tudo.49 da sociedade mercantil emergente.

Philosophy. Veja também Gierke. Dessa maneira. Political Theology. e Blumenberg. estas linguagens têm pares conceituais como eixo de suas teorias – público/privado. Castoriadis. isto é. 1958.24 Em segundo lugar. Politics. Oxford: Oxford University Press. Hans. 24 Cf. Estado/mercado – que expressam relações análogas. estes pares conceituais dividem aquele universo das práticas institucionalizadas em duas esferas complementares que esgotam a vida da comunidade 23 Os principais autores a traçarem este movimento conceitual de secularização são Schmitt.50 mudanças conceituais introduzidas pela filosofia política da modernidade resultaram de um processo convergente de secularização daquelas linguagens. Autonomy: Essays in Political Philosophy.1983. Carl. Otto. 144 e segs. 50 . Em primeiro lugar. pp. do republicanismo clássico e da economia política mostra que elas também contêm mecanismos de justificação convergentes. este imperativo da representação impõe sobre as pessoas que elas separem o ‘eu’ das práticas cotidianas no mundo da vida (persona naturalis). em que a participação na vida da comunidade depende da pessoa se (re)presentar perante os outros membros da comunidade como persona (máscara) através de artifícios retórico-jurídicos formalizados por instituições. 1985. Uma análise mais minuciosa das linguagens do aristotelismo tomista. The Legitimacy of the Modern Age.23 Mas a convergência entre estas linguagens não se reduz a esta convergência epistemológica e à dinâmica de secularização a ela associada. Cambridge: MIT Press. Cornelius. Natural Law and the Theory of Society (1500 -1800). onde estas paixões podem ser canalizadas na forma de interesses. Cambridge: Cambridge University Press. Apesar de terem sido aplicadas diferentemente nos contextos históricolinguísticos em que foram utilizadas. 1991. do indivíduo das práticas institucionalizadas que integram a vida da comunidade política (persona moralis). o imperativo da representação implica em uma separação radical entre as práticas discursivas que constituem a vida cotidiana dos homens (local onde constituem-se e se saciam as paixões) e as práticas institucionalizadas que constituem a sua vida ética. Estado/sociedade civil. Cambridge: MIT Press. para uma análise do desenvolvimento do conceito de persona ficta na teoria das corporações da Idade Média. estes pares reproduzem um mesmo “imperativo da representação”.

Na primeira esfera.25 A primeira versão destes pares conceituais modernos surge com a linguagem do aristotelismo tomista que serve de base para boa parte do jusnaturalismo moderno. as pessoas se representam como indivíduos (persona moralis simplex) articulando e adjudicando interesses individuais e virtudes cívicas. no entanto. manifesta-se de diferentes formas nos pares conceituais mencionados acima. e produzem uma pessoa moral coletiva (persona moralis composita). Esta divisão da vida ética dos homens em duas esferas. e aquelas que são comuns a elas (res publica). há o direito público. ele tinha em mente precisamente esta distinção jusnaturalista. Inspirada na dicotomia entre polis e oikos da doutrina aristotélica. e especialmente os juristas protestantes de Grotius a Pufendorf) estão baseadas em uma separação radical entre as coisas que fazem parte da vida privada das pessoas. O imperativo da representação. um soberano. Em todos eles. Para as coisas privadas. Todas as teorias modernas do direito natural (seconda scholastica seiscentista. preocupado fundamentalmente com as relações entre governantes e súditos. 51 . há o direito privado. Quando Rousseau descreve o soberano como “corpo moral e coletivo”. ou seja. e a esfera da produção de uma representação coletiva esgota o universo das práticas institucionalizadas que constituem a vida política da comunidade e a vida ética de seus membros. implica na utilização de uma categoria fundamental do direito privado (o conceito de dominium) como alicerce para a construção da persona do súdito (definido como proprietário de seus direitos individuais) e da persona da autoridade política (definida como dominium politicum). para as coisas públicas. que já havia perturbado Rousseau. a divisão entre a esfera da representação de interesses e virtudes. governando as relações entre os homens livres. Montesquieu. 25 Os termos persona moralis simplex e persona moralis composita foram utilizados pela primeira vez por Pufendorf. Hegel e Marx. esta linguagem empresta do direito romano os conceitos de público e privado (publicus/privatus). nesse contexto. as pessoas criam uma representação coletiva de suas concepções do problema da autoridade política.51 política. na segunda.

funda um novo par conceitual. por outro lado. Através de uma operação que simula o contrato do direito privado. ascende no período moderno à posição de organizador das virtudes públicas. Por fim. Dessa maneira. na linguagem do republicanismo clássico. a instituição do mercado. Estado/sociedade civil. já na formulação do republicanismo clássico. Assim. o consentimento dos cidadãos é fator fundante e ao mesmo tempo limitante da persona da autoridade política. e a persona da autoridade política é reduzida às funções de garantia de sua reprodução. Enquanto que na linguagem do aristotelismo tomista o imperativo da representação implica em um transporte do conceito de dominium do direito privado para o direito público. e a persona moralis composita da autoridade política se converte em um resultado da negociação contratual entre os cidadãos. Ao contrapor o mercado 52 . os membros da sociedade civil são definidos pelos direitos naturais que elas transferem (ou não) a um soberano em troca da garantia de paz e estabilidade. o Estado) na articulação formal dos interesses daqueles que compõem a sociedade civil. a persona moralis do cidadão substitui a persona moralis do súdito do aristotelismo tomista. e a esfera de suas interações é limitada à articulação de interesses. No aristotelismo tomista. a linguagem da economia política cria o par conceitual Estado/mercado. no contratualismo este imperativo implica na conversão do conceito mercantil do contrato em um instrumento de legitimação da sociedade civil e do Estado. assim como pelos direitos civis a eles concedidos pelo Estado.52 A linguagem do republicanismo clássico que permeia o contratualismo moderno. mas as obrigações do rei e dos súditos não são limitadas por este fato. a persona da autoridade política também é legitimada pelo consentimento dos súditos. originária na alta Idade Média. através do qual a persona moralis do cidadão é substituída pela persona moralis do proprietário. cujo objetivo fundamental é legitimar a autoridade política (isto é.

estas linguagens negligenciam a pessoa da vida cotidiana (persona naturalis) em prol de suas representações em práticas discursivas institucionalizadas. de 53 . eles têm funções semelhantes. portanto. Nas teorias modernas da legitimidade. As pessoas de que falam estas linguagens – o indivíduo moral – são possuidoras de direitos naturais. ela é uma convergência na operação sintática dos conceitos. os pares conceituais que definem estas linguagens ocupam campos semânticos significativamente distintos. e reduz a sua existência às funções reguladoras e mantenedoras que garantem a reprodução do mercado. a economia política minimiza a importância do problema da fundação e da limitação da autoridade política pelo consentimento humano. A convergência entre as linguagens argumentada acima não se estabelece nesse nível semântico. e o indivíduo moral que se representa nas interações políticas da sociedade (persona moralis simplex). Vale lembrar também que as linguagens da filosofia política moderna não atribuem a todas as pessoas a condição de persona moralis. Como demonstrado. aqueles que adquirem a condição de persona moralis).53 ao Estado.. Vale lembrar que a convergência entre estas linguagens da filosofia política moderna ao redor do imperativo da representação e de seus pares respectivos não nos permite ignorar as importantes diferenças entre seus aparatos conceituais. Afinal. é o consentimento daquelas pessoas que conseguem se representar como indivíduos morais que dá origem à autoridade política (persona moralis composita). Ao lidar somente com as pessoas que se representam (i.e. portador de interesses resultantes da domesticação das paixões através da razão. vide por exemplo a exclusão dos escravos e das mulheres deste universo. portadora de paixões e dotada de razão. definidas pelo imperativo da representação. que implica na separação radical entre a pessoa do mundo da vida (persona naturalis).

Como vermos a seguir.lebenswelt). mas em que já percebemos esforços no sentido de libertar a persona naturalis do imperativo da representação. e do mundo da vida no qual esta condição se converte em experiência. fundando a moral na razão natural.54 propriedade. mas esta condição de possuidoras de algo depende de uma sanção da autoridade política para ser legítima e reconhecida enquanto tal. em que o tema dos interesses permanecerá no centro das reflexões teóricas sobre a organização política das sociedades modernas. o século dezenove será um período de tentativas de síntese destas linguagens da filosofia política moderna. descolada da condição humana propriamente dita. depois Habermas. e de direitos políticos. surge um liberalismo emancipado das categorias da economia política. e que funda a legitimidade do Estado (persona moralis composita) na moralidade universalizante do 54 . *** No idealismo alemão de Kant a Hegel. e ao mesmo tempo fundando o Estado numa moral universal resultante desta razão. e permanece. vemos uma síntese do jusnaturalismo e do republicanismo clássico que busca universalizar a representação dos homens em persona moralis. e a forma com que estes se representam nas relações sociais mediadas por instituições. Desta solução deontológica para o imperativo da representação. o que caracteriza esta filosofia é uma cisão entre a vida cotidiana dos homens (o que Husserl e. Tanto para Kant quanto para Hegel. portanto. Esta convergência das linguagens da filosofia política moderna nos permite falar da “filosofia política da modernidade” no singular. Como vimos. é somente na medida em que todos os homens representam-se na forma de persona moralis que se torna possível deduzir um conjunto mínimo de interesses e de virtudes universalizáveis. designaram como “mundo da vida” .

e o conceito de interesse bem compreendido de Tocqueville. Ele critica esta linguagem por definir um produto específico e contingente da modernidade e do avanço da sociedade de mercado – o proprietário – como sendo o indivíduo moral universal. por outro lado. que na linguagem marxista ainda guarda semelhanças com o indivíduo moral da linguagem da economia política. Marx busca definir um projeto de emancipação humana baseado na superação do homem enquanto cidadão e na recuperação do homem enquanto homem. Através desta síntese crítica das linguagens do republicanismo clássico e da economia política. apenas justifica a formação da autoridade segundo o modelo da economia política. da maneira como havia sido apropriada pelos contratualistas. no caso do imperativo categórico kantiano. Para Marx. os eventos mais significativos do século dezenove são a emergência do conceito de governo representativo como solução prática para a institucionalização efetiva da autoridade política enquanto persona moralis composita. a síntese de Marx quer transformá-lo na categoria central de uma reconstrução crítica da economia política. ou numa razão de Estado fundada na eticidade dos cidadãos (Sittlichkeit). que enquanto que as sínteses das linguagens da filosofia política moderna em Kant e Hegel buscam converter o indivíduo moral do republicanismo clássico (o cidadão) na categoria central para uma reconstrução do jusnaturalismo. Mas do ponto de vista do “imperativo da representação”. dando a ela uma ilusória impressão de universalidade. já que também situa-se no horizonte de uma moralidade do trabalho. Marx. Interessante notar. historiciza a interpretação do imperativo da representação na linguagem da economia política.55 procedimento formal. portanto. no caso da dialética hegeliana. Enquanto que a universalização do indivíduo moral na Europa foi um processo de transformação social gradual que só é concluído no começo deste século. com a 55 . a linguagem do republicanismo clássico.

por exemplo. o avanço da democracia foi o resultado de transformações sociais que têm raízes em lutas sociais concretas de ampliação da esfera de representação dos indivíduos morais. John Stuart Mill. John Stuart. surge a necessidade de redefinir o indivíduo moral do republicanismo clássico. a democracia já era um regime conhecido desde o começo da modernidade. quando contrastado como o governo de poucos ou o governo de um só. já que a possibilidade do exercício da cidadania depende da pessoa do mundo da vida estar preparada para o exercício do voto. Com o advento do governo representativo. e não argumentos morais.56 extensão do voto às mulheres e aos negros. 1983 56 . Assim como a universalização do indivíduo moral.26 É importante lembrar que não é o avanço da democracia que caracteriza este movimento de mudança conceitual. Como resposta a este problema. surge no final do século dezenove o liberalismo social inglês e a social democracia marxista. a escolha da melhor forma de governo esteve sempre vinculada a critérios de eficácia administrativa. Afinal. Na medida em que ao longo do período moderno apenas uma parcela das pessoas representa-se como persona moralis. A democracia representativa passa a ser um imperativo formal na formação da autoridade política (persona moralis composita) somente depois da universalização do indivíduo moral no começo do século XX. ainda que pior. e o governo de muitos sempre foi considerado uma opção. liberais ingleses 26 Ver Mill. e das mudanças conceituais que levam a consolidação do governo representativo. na tipologia clássica das formas de governo. Inspirados por Stuart Mill. argumenta que o ideal é quando todos os indivíduos morais participam da administração. mas a impossibilidade prática desta solução para nações grandes implica que o governo representativo é a melhor maneira de organizar o poder. O Governo Representativo. São Paulo: IBRASA. uma operacionalização formal do imperativo da representação para a constituição da autoridade política é formulada ainda no século dezenove.

constitui uma das mais inteligentes tentativas republicanistas de resgatar o conceito de interesses de suas conotações estritamente liberais. UFMG.H. Marcelo. já que sempre capaz de ser subjugado aos interesses da coletividade e ao bem comum. Em A Democracia na América. apud Jasmim. Marcelo Jasmim está certo quando aponta que o conceito de interesses. Já o conceito de interesse bem compreendido de Tocqueville. 2000.27 Segundo Tocqueville. uma das belezas da experiência norte-americana estaria na capacidade que os cidadãos daquela república têm de agirem em prol do bem comum apesar de tais ações não derivarem da virtude de seus gestos. mas negligencia o fato que a tal “fraqueza das tentações” não é meramente um atributo de almas puritanas voltadas ao mundo terreno de maneira mais desapaixonada. Belo Horizonte: Ed. A Democracia na América. Sérgio e N. gerando neles um comportamento interessado. “Interesse bem compreendido e virtude em A Democracia na América” in Cardoso. O advento do governo representativo tem um efeito semelhante sobre o marxismo.57 tais como Hobhouse e T. Já o conceito republicanista de virtude é “imaterial” pois implica que o homem penetre atraves de sua inteligência no pensamento divino. permite deslanchar uma idéia de república virtuosa. grosseiro.). nesta versão tocquevilliana. mas a fraqueza de suas tentações. Bignotto (orgs. Tocqueville argumenta que o conceito de interesses enquanto “egoísmo instintivo.81... ainda que inverso. O que faz com que os americanos ajam virtuosamente não é a grandeza moral de seus espíritos. mas bem compreendido. e o avanço da social democracia neste período está diretamente vinculada a uma crescente confiança nos círculos marxistas na possibilidade do proletariado chegar ao poder através dos mecanismos institucionais de representação política. Alexis. Green já demonstram uma preocupação com a lógica interna do imperativo da representação: para que a pessoa do mundo da vida se represente como indivíduo moral. é necessário que ela tenha condições materiais mínimas para o exercício da liberdade qua cidadania. p. 57 . Pensar a República.mal merece o nome de doutrina”. Articulam 27 Tocqueville.

nem Tocqueville.58 interesse e bem-comum nestas almas. isto é. fazendo com que o conceito de interesse bem compreendido de Tocqueville não seja mais que um truque retórico. passa a ter funções na administração do 58 . certamente três das mais brilhantes mentes daquele século. ao mesmo tempo. ou este interesse é virtude. O conceito de interesses e o pensamento político contemporâneo Neste contexto. um forte sentido de moderação e temperança. isto é. nem Stuart Mill. de diversas maneiras o século dezenove aproximou-se de soluções para as tensões causadas no liberalismo moderno pelo conceito de interesses e pelo imperativo da representação. Mas nem Marx. que busca acomodar. Em suma. tanto liberais quanto marxistas. As relações sociais ancoradas na estrutura de classe são juridificadas e a autoridade política. enquanto persona moralis composita. se devidamente canalizado e articulado em instituições representativas (e não há dúvida de que divergiam sobre que instituições eram estas e quais as condições para a sua criação) seria o motor da história da modernidade e do processo de emancipação do homem daquela prisão elástica de qual falava Ortega y Gasset. conseguiram se libertar do otimismo contagiante que então dominava o espírito da Europa. Continuaram a confiar que o interesse do homem. a teoria do Estado de bem-estar social do século vinte aparece como uma grande síntese das linguagens do republicanismo clássico e da economia política. domesticação das paixões pela razão na direção de um bem individual desejado. mas sim comum. apesar de ainda interpretada como resultado da articulação dos indivíduos morais. pois ou o interesse é interesse. domesticação pela razão das paixões no sentido de suprimi-las em nome de um bem que não é individual.

59 mundo da vida. Logo após a segunda guerra. complexa e plural. Verifica-se. portanto.Estado/mercado. portanto. mas que reduz este processo à articulação dos interesses de persona moralis simplex definidos nos termos estabelecidos pela linguagem da economia política. e os mecanismos competitivos de alocação de recursos no mercado. este processo implica em uma crescente perda de legitimidade do direito formal. ocorre um desmantelamento das fronteiras entre público e privado que definiam a linguagem do aristotelismo tomista. O conceito jurídico de público perde o seu sentido mais imediato 28 Esta ampliação das obrigações da autoridade política para com a organização do mundo da vida e com as condições materiais para o exercício da cidadania é o objeto da crítica de Max Weber na Sociologia do Direito. Para ele. em que a dinâmica fundamental da política está voltada para a acomodação de interesses divergentes. Sustentada por uma justificação schumpeteriana baseada na convergência teórica entre os mecanismos competitivos de formação da vontade geral no sistema partidário. as teorias da democracia encontram-se imersas em um paradigma pluralista que advoga o valor normativo da democracia como processo institucional de formação da persona moralis composita. uma importante rearticulação da filosofia política da modernidade no século passado. a articulação e representação das virtudes que caracteriza o conceito de cidadania derivado do republicanismo clássico. uma sociedade mercantil. segundo o qual esta ampliação levou a uma excessiva juridificação e invasão de reivindicações substantivas na esfera do direito público. Estado/sociedade civil e Estado/mercado ganham novas conotações. 59 . requer os mecanismos formais da democracia representativa para a produção de consensos. De acordo com aquele paradigma. a democracia representativa se torna o veículo de articulação dos interesses privados dos agentes do mercado. relegando para um segundo plano. Em primeiro lugar. os pares conceituais público/privado.28 A conseqüência mais imediata da consolidação do governo representativo e do Estado de bem-estar social é o estabelecimento de uma hegemonia ao redor do par conceitual proveniente da economia política . Transformados pelos movimentos de síntese do século dezenove.

Estas mudanças conceituais associadas aos termos “público” e “sociedade civil” são. estas novas instituições políticas recuperam uma dimensão da vida social relacionada ao exercício da cidadania. as mudanças conceituais mais importantes nas linguagens da filosofia política do século vinte.60 na medida em que inúmeras demandas tradicionalmente vinculadas ao direito privado passam a ser objeto da gerência da autoridade política sob o Estado de bem-estar social. Civil Society and Political Theory. Cambridge: MIT Press. Andrew e Cohen. p. torna-se efetivamente a esfera da articulação dos interesses das pessoas que habitam o mundo da vida. Habermas e seus seguidores vêm buscando reconstruir estes conceitos de sociedade civil e de esfera pública com o objetivo de substituir o par conceitual Estado/mercado. sem dúvida. Jean. 60 . Partindo de uma crítica da razão funcionalista. como argumentam Andrew Arato e Jean Cohen. De acordo com a interpretação habermasiana. 1989. definido como a esfera da articulação das virtudes e dos interesses do cidadão. cujas funções de integração social e racionalização do mundo da vida já não podem ser exercidas plenamente nem pelas instituições do Estado nem pelo mercado. Em segundo lugar. Dessa maneira.429.29 29 Arato. o conceito de sociedade civil do republicanismo clássico. por uma tríade – Estado/sociedade civil/mercado – que permita compreender a proliferação contemporânea de persona moralis composita para além do Estado. na medida em que se universaliza o imperativo da representação e toda pessoa passa a ter um indivíduo moral correspondente. o conceito de sociedade civil deve ser reconstruído para designar o nível institucional do mundo da vida: este conceito incluiria todas as formas institucionais e associativas que requerem interação comunicativa para a sua reprodução e que se apóiam primordialmente em processos de integração social para coordenar ações dentro de seus limites.

A 30 Habermas. ele sepulta os espaços de articulação da virtudes em nome de um império dos interesses privados representados através dos mecanismos institucionais da democracia representativa. 1996. Assim como Tocqueville. aqueles que hoje defendem a importância de se valorizar as instituições e associações voluntárias da esfera pública têm em mente a produção de mecanismos que permitam proteger comunidades dos perigos do despotismo. São Paulo e Belo Horizonte: Editoras Perspectiva e UFMG. A inspiração tocquevilleana deste conceito de sociedade civil é evidente.”30 Na construção de uma crítica ao par conceitual Estado/mercado que emerge como hegemônico nas linguagens da filosofia política do século vinte. a sociedade civil deve corresponder a um complexo institucional composto de “conexões não-governamentais e não-econômicas e associações voluntárias que ancoram as estruturas comunicativas da esfera pública. 1996. Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy. a um esforço de complementar as instituições da democracia representativa com mecanismos institucionalizados de participação política. Cambridge: MIT Press. Leonardo. Jürgen. A Moralidade da Democracia. isto é. outras personae moralis compositae que não o governo representativo. como define Habermas. p. Ao mesmo tempo em que o Estado de bemestar social juridifica conflitos sociais provenientes do mercado. 366.31 Este projeto habermasiano está associado. 31 Para uma discussão das transições democráticas na América Latina sob o ponto de vista da teoria habermasiana da reemergência da sociedade civil. É precisamente por este motivo que as transições democráticas da história recente de países da América Latina e da Europa Oriental e Austral são utilizadas por diversos autores como evidência empírica para a necessidade normativa de se valorizar este novo conceito de sociedade civil. Habermas e seus seguidores argumentam que a tríade Estado/mercado/sociedade civil permite abarcar analiticamente aquelas instituições sociais que não estão vinculadas ao Estado e/ou ao mercado.61 Ou. 61 . portanto. veja Avritzer. A reemergência da sociedade civil teria sido um fator determinante na democratização daqueles países.

a capacidade das instituições da sociedade civil de assegurar estes dois objetivos é limitada. funcionando como um instrumento para influenciar a dinâmica da representação dos interesses destas instituições. Jürgen. Por outro lado. 1989. Arato. Por um lado. Andrew e Cohen. nesta teoria habermasiana. Do ponto de vista da intervenção nas outras esferas da vida social. Daí deriva o caráter dual das instituições da sociedade civil.32 Como apontam Arato e Cohen. pp. sendo que. imprensa. sua autonomia perante o Estado e o mercado. 62 . dos processos decisórios dos agentes 32 33 Habermas. intimidade. nunca de fato se apoderar. e socialização (proteção da privacidade. e inviolabilidade da pessoa).62 intersubjetividade e as funções de racionalização do mundo da vida associados ao conceito de sociedade civil buscam. e comunicação em geral). A consumação do segundo objetivo. integração social (liberdade de associação e assembléia). as instituições da sociedade civil podem no máximo influenciar. recriar uma esfera de articulação das virtudes nos termos do republicanismo clássico. expressão. nesse contexto. pressupõe um pluralismo de formas de vida que tenha a capacidade e a vitalidade para constantemente renovar as identidades instituídas na sociedade civil. 441. como reconhecem até mesmo aqueles que propõem esta expansão da vida política para além do mercado e do Estado. Jean. e reproduzir. o bem comum é fragmentado em múltiplos bens parciais. elas visam produzir novas demandas nas instituições do mercado e do Estado. Between Facts and Norms. buscando recuperar um conceito de cidadania centrado na participação política. por sua vez. Cambridge: MIT Press.33 No entanto. a consumação do primeiro objetivo requer uma estrutura básica e mínima de direitos fundamentais que garantam e estabilizem as instituições da sociedade civil. Estes direitos caem em três campos: reprodução cultural (liberdades de pensamento. p. por conseguinte. 369 e segs. Civil Society and Political Theory. elas são auto-referenciadas na constituição de intersubjetividades.

o reino dos fins é aquela situação ideal na qual o imperativo categórico é aceito universalmente. é que Habermas opera uma separação da vida moral do “eu” espontâneo (eu) e da vida ética do “eu” moral (mim) que é análoga à separação entre legalidade e moralidade em Kant. sua ação social é mais efetiva no que tange à transformação das próprias identidade que as constituem. no imperativo categórico de Kant. e não estrategicamente. realiza o 34 Idem. da experiência intersubjetiva concreta. Como estas instituições nunca adquirem poder político ou poder econômico propriamente ditos. O horizonte da situação ideal de fala. no entanto. A construção habermasiana da situação ideal do discurso simula o reino dos fins kantiano na medida em que também propõe esta situação como uma transcendentalização dos requisitos necessários para um consenso racional. para Habermas. Já no modelo habermasiano. o horizonte normativo sobre o qual Habermas e seus seguidores sobrepõem a teoria da reemergência da sociedade civil consiste de uma reconstrução wittgensteiniana dos conceitos kantianos do “reino dos fins” e do “imperativo categórico”. estas máximas são produzidas em um esforço pragmático da razão prática engajada em ação comunicativa. Para Kant. 63 .63 do Estado ou do mercado. isto é. máximas éticas são produzidas em um esforço especulativo da razão prática movida por intenções. a condição de validade das leis morais e de sua conversão em máximas éticas é um esforço de universalização que um indivíduo pratica isoladamente.34 Como vimos no capítulo anterior. Para Kant. O que não muda. A diferença crucial entre os dois modelos consiste no fato que. que garante que as pessoas ajam comunicativamente. É precisamente este caráter autoreferencial do poder das instituições da sociedade civil que levou Arato e Cohen a definirem os projetos delas como utopias auto-limitadas. examinando se outros indivíduos racionalmente desejariam as mesmas leis. as condições para a universalização da validade de leis morais dependem de um diálogo efetivo entre os indivíduos.

Habermas and the Public Sphere.). London and New York: Routledge. o “eu” espontâneo (eu) funda o “eu” moral (mim) quando. Na individuação via socialização. já que aquele “eu” moral resultou do próprio processo de instituição do coletivo. a recuperação da linguagem do republicanismo clássico através da tríade conceitual Estado/mercado/sociedade civil engendra somente uma proliferação de personae moralis compositae para além do Estado. ele forma o seu “eu” moral. permanecem presentes. o “eu” moral constituído dessa maneira identifica as normas do coletivo instituído como sendo normas auto-impostas. os significados moralizados atribuídos à individualidade pelo coletivo. ele percebe o significado que os outros atribuem às suas ações. 64 . enquanto que o segundo equivale ao “eu” moral de Mead. J. por outro lado.H. Habermas sucumbe ao imperativo da representação e ao conceito de interesses a ele vinculado. e antecede assim qualquer interação social. mediado pela sociabilidade e contendo. quando o “eu” espontâneo se projeta comunicativamente no coletivo em formação. portanto. um duplo movimento na construção de intersubjetividades. no entanto. em que o primeiro termo designa a auto-estima natural da pessoa. como aponta Richard Bernstein. Thomas. Em primeiro lugar. “Practical Discourse: on the Relation of Morality to Politics” in Calhoun.35 Mas quem são os indivíduos morais (persona moralis simplex) da teoria habermasiana? Ao buscar uma definição dos agentes sociais de sua teoria da ação comunicativa na psicologia social de G. portanto. Boston: MIT Press. A prisão elástica do conceito de interesses e do imperativo da representação. em contextos comunicativos. Recovering Ethical Life: Jürgen Habermas and the future of Critical Theory. 1992. Cf. Por um lado. Mead. Bernstein. McCarthy. Craig (ed.64 mesmo papel que o horizonte do reinos dos fins exerce no sentido de garantir a universalidade e generalidade formais das leis do Estado. na medida em que as instituições da sociedade civil buscam influenciar a dinâmica do poder na esfera do Estado ou do mercado.M.36 A confiança depositada pela teoria habermasiana nas instituições da sociedade civil enquanto racionalizações do mundo da vida requer. 36 Esta distinção é reminiscente da clivagem entre amour-de-soi e amour-propre em Rousseau. elas 35 Cf. Eis como surge o princípio de identidade coletiva que opera nas instituições da sociedade civil. 1995. Neste modelo tripartite.

as pessoas se representam como indivíduos morais para formar as instituições da sociedade civil. e não superam. Boaventura.37 Em terceiro e último lugar. como apontou Sousa Santos (1995). portanto. a reemergência da sociedade civil resulta apenas em um “reajustamento estrutural” das funções do Estado de bem-estar social. O fato de que os indivíduos morais são constituídos 37 Sousa Santos. no qual a juridificação das questões do mundo da vida e a intervenção do Estado em sua gerência é parcialmente substituída por um intervencionismo bicéfalo. na versão do discurso dominante. na linguagem da teoria da ação comunicativa. 1995.124. mais autoritário face aos subalternos. e no final das contas. da mesma maneira que as pessoas se representam como indivíduos morais para formar o Estado na linguagens da filosofia política moderna. na qual a articulação dos interesses é o fator constitutivo das personae moralis compositae. o modelo pluralista de democracia que resultou do império daquela linguagem. e mais diligente no atendimento das exigências dos dominantes. esse núcleo tende a ser omitido no discurso dominante. e não das virtudes que definem sua identidade intersubjetiva. 65 . Mesmo que o núcleo genuíno desta reemergência da sociedade civil tenha em mente a reafirmação de valores de autogoverno e de utopias auto-limitadas. Por conseguinte.65 precisam se representar como articulações de interesses. ou quase nada. estas instituições em última instância reproduzem o modelo implícito na linguagem da economia política. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Em segundo lugar. esta esfera alternativa fará pouco. fragmentadas. Esta persistência do imperativo da representação na teoria habermasiana fica evidente quando posta à luz do referencial kantiano que a orienta. ao abdicar de uma concepção unificada do bem comum em favor de utopias auto-limitadas e. conseqüentemente. São Paulo: Cortez Editora. p. para transformar as assimetrias produzidas pelas instituições de articulação de interesses que operam no Estado e no mercado.

A solução lingüística para esta crise proposta pelos teóricos da 66 . definida desta maneira. causa uma expansão do universo daqueles que se representam como indivíduos morais na linguagem do republicanismo clássico que permeia o contratualismo. permite a universalização do indivíduo moral nas grandes sínteses do século dezenove. não constitui nada mais do que representação. Somente este último. ao qual o termo evidentemente se opõe. restringe a esfera representada à um mercado de articulação dos interesses na linguagem da economia política e. o imperativo da representação opera de diversas formas nos momentos da história das da filosofia política moderna discutidos: funda uma nova teoria da legitimação pelo consentimento na linguagem do aristotelismo tomista do começo da era moderna. o principal desafio consiste em encontrar uma alternativa ao império da articulação de interesses sobre os instrumentos da democracia representativa. Enfim. que pode efetivamente se tornar membro ativo da esfera pública política habermasiana. tal qual subsumida na reinterpretação schumpeteriana da linguagem da economia política.66 intersubjetivamente não contorna o imperativo da representação porque participação. não no sentido de governo representativo. por fim. Para a teoria política contemporânea. habitante do mundo da vida. detentor dos meios necessários à participação na formação e reprodução das instituições da sociedade civil. A teoria habermasiana ainda depende de um momento artificial no qual o “eu” espontâneo (persona naturalis). como vimos ao longo deste capítulo. mas no sentido dado ao termo sob a égide do conceito de “imperativo da representação” desenvolvido ao longo deste capítulo: participar é somente representar a si mesmo. converte-se em um “eu” moral (persona moralis simplex) capaz de se inserir no subsistema política. Aqueles para os quais ainda é difícil ou improvável consolidar tal conversão continuarão para sempre excluídos dos processos deliberativos que constituem aquela esfera.

67 reemergência da sociedade civil – a transformação do par conceitual Estado/mercado em uma tríade Estado/sociedade civil/mercado – concretiza-se em uma ampliação dos mecanismos institucionais de participação política. e ao imperativo da representação que as permeia. permanecemos sob o império da linguagem da economia política e da síntese schumpeteriana que a sustenta hoje em dia. como resultado. que se alarga sem nos libertar. individuais ou coletivos. Ainda não aprendemos nenhuma nova maneira de fazer política que não seja nos representando como persona moralis simplex. acaba por ficar diluído. não são capazes de construir uma esfera pública onde a articulação das virtudes possa encontrar expressão. aceitar ou sucumbir a definições da política enquanto lugar de articulação de interesses. todos implicando em definir. Como notou Ortega y Gasset. um elemento comum à sintaxe daquelas linguagens e aos pares conceituais que as sustentam. e construindo persona moralis composita. isto é. definidas dessa forma. continuamos vivendo a modernidade. O que é importante reter desta crítica histórica da categoria dos interesses é que. isto é. as instituições da sociedade civil. em grande medida. resultado da perenidade daquilo que chamei de “o imperativo da representação”. se vivemos uma crise de legitimação das formas de participação política. participando de corpos morais e coletivos que nos representem e que nos permitam exercer nossa 67 . na medida em que continuamos presos às linguagens de sua filosofia política. minoritários ou majoritários. e o viés republicano da teoria habermasiana mencionado no capítulo anterior. esta crise é. como indivíduos. Em outras palavras. Por mais que muitos tentem nos persuadir de que a modernidade está próxima de seu fim. na medida em que a relação das instituições da sociedade civil para com o Estado permanece definida em termos de articulação de interesses. o caminho da modernidade é como uma prisão elástica. No entanto.

o conceito de interesses precisa ser re-situado na esfera social que lhe é própria. E se o liberalismo antiliberal de Habermas é o caminho para a reconstrução da modernidade. o mercado. a crise da modernidade é uma crise que cristaliza o quão elástica é a prisão em que nos acostumamos a viver. Se a política deve sobreviver enquanto atividade humana. precisamos libertar sua teoria desta interpretação liberal da política enquanto articulação de interesses. Seremos modernos enquanto falarmos as linguagens da filosofia política moderna. Nesse sentido. e só aprenderemos a falar novas linguagens quando entendermos que a transformação social é um processo histórico propulsionado não somente por subjetividades.68 autonomia. mas também por conceitos que periodicamente renovam as formas de justificação e legitimação das instituições políticas. 68 . qual seja.

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QUARTO CAPÍTULO OS INTERESSES E A POLÍTICA: UMA CRÍTICA ANALÍTICA

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Eu penso que, apesar de ser difícil encontrar alguém que ame outra pessoa mais que a si próprio, isto é tão difícil quanto encontrar alguém cujas afeições, tomadas em conjunto, não sobreponhamse ao egoísmo. Basta consultar a experiência comum. (David Hume, Tratado sobre a Natureza Humana)

Há algo evidentemente contra-intuitivo na idéia de se pensar a política sem levar em conta os múltiplos interesses conflitivos que são cotidianamente articulados pelas instituições legislativas e executivas do estado nacional. Afinal, na medida em que o principal instrumento de políticas públicas dos aparatos governamentais consiste de sua arrecadação fiscal, é de esperar que boa parte daquilo que recebe o nome de atividade política se dê ao redor da disputa por estes recursos e pelo acesso aos centros de decisão que os alocarão. Não há retrato mais empiricamente verdadeiro da política nos países capitalistas do mundo contemporâneo do que caracterizá-la como esfera de articulação pública de interesses privados. Mas também não há nada mais preocupante do que a naturalização através da qual esta contínua busca de articular e compatibilizar interesses conflitivos se tornou o modus operandi da política. Do ponto de vista histórico, a supremacia da articulação de interesses e o imperativo da representação ao qual ela esteve vinculada produziram um gradual deslocamento da agenda política dos países modernos. A consolidação do estado

moderno ao redor do tripé forças armadas/tributação/instituições disciplinares no século dezenove trouxe consigo modos de organizar a política que deslocaram o clássico problema da fonte da autoridade soberana, substituindo-o com o novo problema da produção da legitimidade desta autoridade já constituída. Este novo problema da legitimação de uma ordem política vigente levou à disseminação da instituição do governo representativo e à ampliação dos mecanismos democráticos de formação da autoridade política. Esta ampliação, como observamos anteriormente, foi resultado da

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71 massiva organização das classes operárias naquele século, mas sua assimilação ao processo institucionalizado de formação da soberania e da vontade geral estava sob controle das classes dominantes desde que os trabalhadores aceitassem duas condições. A primeira, mais contenciosa, era que os processos eleitorais de escolha dos governantes fossem os mecanismos legítimos de representação, e que a conquista do poder por estas classes se desse através do voto, e não através de rupturas revolucionárias. A segunda, mais amplamente aceita pelos movimentos sociais antagônicos ao capitalismo naquele século, e mais duramente imposta pelos estados, era que estas classes, no cotidiano de suas lutas sociais, restringissem sua atuação política à representação de interesses coletivos. Não foi fácil “domesticar” os movimentos proletários. Até a segunda guerra mundial, muitos deles insistiram em apresentar projetos alternativos do poder, ao invés de simplesmente buscar representar seus interesses junto ao estado. A ascensão do nazifascismo na primeira metade do século vinte deixou claras evidências de que as classes subalternas dos países mais desenvolvidos foram as que sucumbiram mais facilmente ao modelo de política enquanto articulação de interesses, e não foi por acidente que nestes lugares o Estado de Bem Estar Social encontrou ampla aceitação, com a incorporação da disciplina fascista da fábrica mesmo após a derrocada daqueles regimes. Foi na periferia deste capitalismo que se gestaram modelos alternativos de vida social e gerência estatal, e ao longo de todo o século vinte, ele se fez sentir no fortalecimento dos partidos comunistas do leste europeu, bem como no fortalecimento de partidos de base operária, muitos deles de viés populista, em toda América Latina. Nesta permanente luta de classes, havia evidentemente uma dimensão de conflito de interesses – os interesses de uma maioria oprimida versus os interesses de uma minoria privilegiada – que pontuava os inúmeros conflitos do século passado. Mas

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72 se esta batalha tivesse permanecido circunscrita pelo modelo democráticorepresentativo de formação da soberania através da articulação de interesses, os instrumentos institucionais do estado capitalista moderno teriam sido sempre capazes de absorver estes conflitos. A existência de interesses conflitantes, de interesses de uma maioria que contrariam interesses de uma minoria dominante; a existência de interesses minoritários que obtêm a solidariedade de uma maioria; enfim, a existência de interesses diversos no seio da sociedade nunca foi um problema para o modelo democrático-representativo do Estado de Bem Estar Social. O problema real sempre foi a tentativa de alguns setores sociais buscarem modelos alternativos de sociedade e de gestão da vida pública. Disciplinar, suprimir e dispersar estes movimentos sempre foi o verdadeiro desafio. O que estes movimentos sociais faziam e fazem com a agenda política dos países capitalistas é deslocá-la da luta por uma articulação de interesses que lhes fosse favorável para uma luta por uma articulação de bens comuns que pudessem ser universalizados. O movimento dos direitos civis e contra a guerra do Vietnã nos E.U.A., os movimentos pacifistas da Europa, e até mesmo aqui no Brasil, o movimento das Diretas-já, dificilmente podem ser reduzidos a uma mera organização de interesses coletivos em busca de uma re-articulação da balança de poder vigente. Direitos, paz e democracia são valores humanos que uma teoria da ação coletiva olsoniana, centrada no conceito de interesses organizados coletivamente, não é capaz de abarcar. Se no

capítulo anterior traçamos os erros e descaminhos da trajetória da modernidade na sua confluência para a hegemonia da articulação de interesses no plano de uma história dos conceitos da teoria política, há sem dúvida uma outra narrativa tão importante quanto esta que traça este desenvolvimento no plano da história política da modernidade. Por exemplo, em The End of Liberalism Theodore Lowi demonstrou que o liberalismo

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73 norte-americano, organizado ao redor da representação de interesses, destrói até mesmo a liberdade enquanto valor central daquela experiência política, e o próprio Habermas, em Crises de Legitimação, procurou sistematizar algo parecido em um plano mais teórico e global.38 Mas enquanto que autores como Lowi e Habermas nos dão os elementos para demonstrar que esta trajetória histórica não era unívoca, acredito ser possível demonstrar que ela também não era inevitável. Ao longo do século vinte, a teoria política normativa dedicou-se de maneira quase unânime à produção de um modelo de racionalidade humana que provesse a necessária justificação para a necessidade de se pensar a política a partir de um modelo de articulação de interesses e do imperativo da representação destes interesses. Os homens seriam seres racionais (e sem duvida são), buscariam maximizar preferências orientadas primordialmente pelo auto-interesse (será?), e portanto a política consistiria em um conjunto de jogos de conflito e cooperação orientados por estas premissas. Até mesmo críticos importantes da trajetória que alguns países democráticos trilharam no final do século passado diversas vezes sucumbiram a estas premissas.39 O que eu quero demonstrar neste capítulo, no entanto, é que a prisão elástica da modernidade comporta outros modelos de racionalidade em que o interesse é continuamente subjugado a outras formas de domesticar as paixões. Isto não significa que o modelo da escolha racional e os métodos analíticos a ele associado não sejam úteis para explicar comportamentos políticos existentes no mundo concreto. Pelo contrário, o diagnóstico histórico-teórico do capítulo anterior implica que a teoria da escolha racional é, em grande medida, o melhor modelo explicativo para como atores políticos de fato se comportam no mundo contemporâneo. O que este capítulo procurará mostrar é que a eficácia explicativa deste modelo vem às custas de sua eficácia
38 39

Ver Lowi, Theodore. The End of Liberalism, segunda edição, New York:W.W. Norton & Co., 1979. Ver Rawls, John. Uma Teoria da Justiça, São Paulo: Editora Martins Fontes, 1997.

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A ação interessada e a ação virtuosa. mais crítica e mais libertadora do que a apologia do status quo contido no modelo da escolha racional. O ator virtuoso.74 normativa. em oposição ao ator interessado. o conceito de virtude introduz um ator que calcula os modos de coibir estas paixões para poder expressar normas e crenças em um contexto de pluralidade de doutrinas razoáveis. em determinados contextos. Há uma sólida tradição escondida no pensamento político moderno e contemporâneo que aponta para uma outra direção. Em outras palavras. Fica claro. 74 . até mesmo irreconciliáveis. novamente. se partimos da premissa básica de que o self constitui-se da capacidade para o uso da razão e da capacidade para fazer fruir paixões. Razão e Paixões. Interesses e Virtudes Como mostramos no capítulo anterior. mais uma vez. o conceito de interesse implica em usar a razão para domesticar estas paixões. é o ponto de partida para esta reflexão. Mas há uma outra maneira através da qual a razão pode interagir com as paixões na constituição do self: o conceito de virtude. Mas enquanto que o conceito de interesse introduz um ator que calcula os modos de fazer fruir as suas paixões em um contexto de normas dadas e paixões conflitantes de outros atores. Também neste caso a relação entre razão e paixões aponta para uma domesticação (ou um represamento) da libido dominandi pela razão. porque a tentativa de síntese de Tocqueville através do conceito de interesse bem compreendido tem sérios limites analíticos. Com Hirschmann. é aquele que domestica (represa) suas paixões com o objetivo de coibir a sua fruição. Habermas. portanto. apontam em direções antagônicas e. ele torna a prisão da modernidade menos elástica. podemos definir o conceito de interesse enquanto aquela domesticação (represamento) das paixões com o objetivo de permitir a fruição delas em um contexto de sociabilidade pacífica.

como determinações objetivadas na liberdade de escolha estratégica e no complexo de vontades arbitrárias que a compõem. antagônica à idéia de interesses. basta ao indivíduo conhecer em que medida as demandas/expectativas do outro convergem ou obstruem a sua finalidade para que ele possa agir enquanto indivíduo e legitimar socialmente a sua ação. eles são um vazio cuja substância é o que ainda não está ao alcance. A crítica de Habermas a esta concepção reativa de indivíduo. a idéia de interesses pressupõe o conceito de finalidade e pressupõe um desejo pela finalidade estabelecida. aponta para necessidade de compreender a individuação como processo intersubjetivo mediado pelo uso comunicativo da linguagem. Ou seja. Mas no modelo habermasiano. na medida em que é preciso me colocar na perspectiva do outro. são saciados. vimos como a construção fichteana do problema da ação moral permite apenas a afirmação de uma individualidade reativa. No modelo fichteano. o sujeito só se constrói perante outros sujeitos enquanto objeto.75 No capítulo dois. e sua individualidade restringe-se às determinações objetivadas da liberdade de escolha estratégica que permitem que ele se afirme enquanto um complexo de vontades arbitrárias. Eu me reconheço enquanto indivíduo quando. estamos em um mundo de sujeitos-indivíduos dotado de interesses. como vimos. Evidentemente. preciso 75 . que podem agir autonomamente somente quando negam a determinação exterior de suas vontades pelas demandas/expectativas alheias. consigo colocar-me em seu lugar e considerar as minhas uterâncias válidas da perspectiva dele. portanto. sob a égide da interpretação fichteana. como uma renúncia da possibilidade de realização da liberdade perante a demanda/expectativa do outro. Interesses. esta perspectiva intersubjetiva é. em diálogo com o outro. Na medida em que a individualidade do sujeito emerge apenas como uma restrição de si mesmo. m alguma medida. Enquanto estratégia de domesticação (represamento) das paixões para fazê-las fruir.

que eles utilizem expressões 76 . na teoria habermasiana. Mas não poderia a busca de entendimento mútuo também ser compreendida enquanto ação interessada? Se interesses consistem no uso da razão para fruir paixões. ação interessada) até mesmo em contextos em que os atores visam alcançar seus interesses. Vimos no capítulo anterior como esta compatibilidade se manifesta no modelo tripartite estado-mercado-sociedade civil com que trabalha Habermas. Habermas quer demonstrar a prioridade fenomenológica da ação comunicativa – isto é. haveria uma paixão primitiva de todo indivíduo pelo entendimento mútuo? Creio que a presença perene da violência no seio das sociedades humanas seja prova suficiente do contrário. da perspectiva habermasiana. Afinal de contas. Este entendimento mútuo requer que indivíduos em interação comunicativa utilizem da linguagem sob uma condição de sinceridade. mas neste caso.e. para depois fazê-las fruir. isto é.76 conhecer como meus atos me afetariam se eu fosse o outro agindo. da ação que busca entendimento mútuo – sobre a ação estratégica (i. pelo menos em um primeiro momento. a menos que estejam dispostos a fazer uso da coação para estes fins. portanto.. A produção do entendimento mútuo. e preciso fazer isto antes mesmo de decidir se minha finalidade pode ser atingida legitimamente. no entanto. requer uma premissa normativa que não pode ser explicada ou produzida a partir das premissas do modelo de escolha racional. Esta condição de intersubjetividade. temo que não podemos mais designar a sua ação de política. O filósofo alemão. o entendimento mútuo é necessário mesmo quando os indivíduos buscam a consecução de objetivos individuais. A busca deste entendimento implica sempre em coibir paixões. não recupera o modelo de individuação via socialização de Mead somente para adicionar um elemento intersubjetivo à ação estratégica dos indivíduos. não é necessariamente incompatível com um modelo de política enquanto articulação de interesses.

evidentemente. se torna o horizonte da ação social. requer mais do que a elaboração de um modelo alternativo de ação social. 77 . que Habermas deriva da filosofia da linguagem de John Searle. tal qual elaborado pelos modelos de escolha racional. independente da consecução de fins. não pode. pois ela consegue abarcar a dimensão da ação interessada e orientada a fins dos homens sem reduzir toda ação social à ação estratégica. Auto-interesse e outros interesses A premissa de que todos os indivíduos são auto-interessados é a premissa mais parcimoniosa que nós podemos usar.. Os avanços da teoria habermasiana em relação aos modelos de escolha racional são evidentes.40 Mostrar os limites analíticos do conceito de interesses. Naqueles contextos em que a busca do entendimento mútuo. e ela sem dúvida tem dominado boa parte da 40 O exemplo limite de ação política desinteressada é o homem-bomba de manifestações contemporâneas do terrorismo internacional. ser reduzida a um interesse. ainda que negligenciada e fora de moda. e Jon Elster é certamente o mais importante teórico a ter desenvolvido instrumentos nessa direção. Tal empreitada requer que adotemos os próprios instrumentos destes modelos para criticá-los. vez por outra ainda se faz sentir em movimentos sociais cujos objetivos não podem ser reduzidos aos interesses individuais ou coletivos dos participantes. entramos em uma dimensão da vida política das sociedades contemporâneas que. O problema é que raramente os custos da sinceridade são mais baixos. no entanto. sem dúvida. já que ser sincero só poderia ser interpretado enquanto um interesse se os custos da sinceridade fossem sempre mais baixos do que os custos do comportamento dissuasivo.77 lingüísticas que eles sinceramente acreditam serem capazes de se tornarem atos de fala cuja intenção o interlocutor compreenderá. Esta condição de sinceridade.

134. Oxford: Clarendon Press. Atores têm preferências estáveis e consistentes 6. Jane J. Perante um leque de opções. Estes fins refletem a percepção do ator de seu auto-interesse 3. A modernidade gerou e é herdeira de diversas formas de agir com motivações desinteressadas.). Beyond Self-Interest. 1998. O indivíduo é o principal agente social 5. “Selfishness and Altruism” in Mansbridge. Atores buscam fins 2. O livro organizado por Mansbridge contém diversos artigos importantes na história deste debate. sendo a forma mais pura a exemplificada pela contribuição anônima a instituições de caridade impessoais. Jon. p. 78 . Elster. Atores possuem ampla informação sobre as alternativas disponíveis e sobre as conseqüências de suas escolhas. 45. Chicago: University of Chicago Press. Ela encontra na teoria microeconômica uma formulação sistemática ao redor de sete premissas: 1. 41 42 Ver Blackburn. Comportamento resulta de um processo que envolve uma escolha consciente 4. 1990. atores escolherão a alternativa que traz a maior utilidade esperada 7. Mas não se pode concluir disto que o auto-interesse é a motivação empírica mais comum ou popular para ação humana. (org.78 ciência social contemporânea. Simon. Ruling Passions. p..42 Percebam também que se pode agir de maneira racional e instrumental sem ser egoísta: eu ajudo da melhor maneira possível aos meus filhos racionalmente e instrumentalmente.41 Este modelo do indivíduo auto-interessado que faz escolhas racionais é a premissa mais parcimoniosa porque ela expurga da análise do comportamento social dos atores quaisquer considerações sobre a qualidade e intensidade de suas interações sociais e como estas operam sobre suas motivações. mas nem por isso sou egoísta ao fazê-lo.

o altruísmo é um conceito parasitário do conceito de egoísmo. há pelo menos três outras maneiras de agir contra o autointeresse que se distanciam ainda mais daquele modelo. e isto implica que o altruísmo ainda é uma forma de interesse. pelo menos em parte do tempo. Como mostra Elster. Consideramos o paternalismo uma forma legítima e eficaz de ação quando falamos da tutela de agentes sub-racionais (crianças e dementes). mas temos uma aversão inicial a esta idéia quando pensamos em 43 Idem. Ou seja. Aqui opera um tipo de estratégia de longo prazo: um agente despreocupado com conseqüências imediatas. o agente que age por eqüidade está disposto a sacrificar o auto-interesse em nome de um princípio que não pode ser simplesmente reduzido/otimizado por um processo de cálculo de seus interesses e o dos outros. A segunda maneira é o paternalismo. mas cuja realização ainda depende de um processo de cálculo e reflexão utilitarista. É possível imaginar uma comunidade composta somente de egoístas. o altruísmo é um interesse no interesse alheio que não supera o modelo de agentes interessados. 79 . mas uma comunidade que contenha altruístas necessariamente contém indivíduos autointeressados a quem os primeiros dirigem sua ação. sob motivações de eqüidade. e preocupado com as circunstâncias em que escolhas racionais são feitas. sejam motivados para ação pelo interesse alheio) é preciso que os outros sejam auto-interessados. soluções subótimas são perfeitamente aceitáveis. Em outras palavras. Se a satisfação de motivações egoístas e altruístas requer soluções Paretoótimas do ponto de vista de sua eficácia.79 Por isto o primeiro passo de uma crítica analítica ao conceito de interesse é uma compreensão mais aprofundada do conceito de altruísmo. Enquanto que o agente altruísta age de maneira auto-interessada (ele tem um interesse no interesse alheio). para que alguns sejam altruístas (isto é.43 A primeira é agir por eqüidade (fairness). Em primeiro lugar. não-egoísta é verdade.

80 paternalismo para com cidadão livres e racionais.1) (0.44 A B A B (3. Ao invés de esperar pelo resultado desigual 44 Ibidem. portanto. isto é. sabendo que B irá sair do jogo no último nódulo. certas normas auto-impostas que o fazem com que o ator opte por estratégias de ação que podem até ir de encontro aos seus interesses.1) (2. portanto. introduz novos complicantes à compreensão do problema posto. Para Elster.2) (4. também pode ser interpretada como ação interessada. a honestidade. ainda que não auto-interessada. não tem nada a ganhar com isto.4) Neste jogo. A pode mover ao primeiro módulo e prometer que moverá para o terceiro. já que quem age com honestidade. ambas as partes precisam acreditar que a outra é honesta para que um resultado cooperativo ocorra. parecendo ser. portanto não pode ser classificado de irracional. 80 . um comportamento irracional porque não é instrumental. já que ele consiste indubitavelmente de um interesse no interesse alheio. devemos levar a sério o paternalismo. Não se deve negar a importância dos cidadãos terem oportunidades de fazer escolhas livres. aparentemente. A terceira maneira é agir por aquilo que Elster chama de um “código de honra”. em particular. agir honestamente introduz no mínimo uma preocupação intertemporal com a cooperação social e. como bem mostra Elster em sua apresentação do conhecido jogo de pagamento de salários. A honestidade. mas se nosso objetivo é fazer um inventário de formas de ação não-egoísta.3) (1. Suponha que A é honesto e que B é racional. No entanto. ele pode resistir à idéia de ser explorado por B desta forma. Mas se A age por um código de honra.

Percebam o que acontece ao jogo quando introduzimos altruísmo. e com a solução final. e desta para a idéia de manter promessas. O resultado produzido será o quarto nódulo (2. resultado sub-ótimo para ambos se comparado com os resultados do terceiro e quarto nódulo. B continua no jogo no segundo nódulo. sabendo disto. está na redução. altruísmo e códigos de honra: todos devem entrar em uma explicação das múltiplas dimensões da motivacão para a ação. em particular. Ou seja. Interesses de longo-prazo. e A. já que ele trata inclusive a si próprio como portado de um interesse “alheio”. que ele faz da idéia geral de código de honra à idéia de honestidade. Suponha agora que B é honesto e acredita que A é racional. já que B saberá que A seguirá no jogo no terceiro nódulo para obter o resultado final de somatória seis. é que o modelo de escolha social. Ou seja. B sairá do jogo no segundo nódulo. sabendo disto. continua no jogo no primeiro nódulo. A. Como veremos. sutil mas visível. e isto é um avanço crucial. a única das formas 81 .81 (2. por sua vez. e que para demonstrar isto não precisamos sequer abandonar os instrumentos metodológicos da teoria da escolha racional. Sabendo disto. sairá no primeiro. Sabendo disto. Ambos são racionais e não-honestos. O que Elster quer mostrar. Assuma que A é altruísta neste sentido e que B é egoísta. O erro de Elster. B antecipará que A saia do jogo no terceiro nódulo mesmo que B tenha prometido continuar no jogo até o fim. a idéia de um código de honra.4). a introdução de um código de honra ou. o altruísmo pode gerar escolhas sociais mais satisfatórias do que o auto-interesse mesmo em situações onde não há honestidade. faz com que A sempre saia do jogo cooperativa já no primeiro nódulo.4). é incompleto e insatisfatório. Partindo da premissa de que ser altruísta significa ter um interesse no interesse alheio e que. um ator altruísta busca maximizar a soma dos dois prêmios. ele sai do jogo já no primeiro nódulo. no entanto. tal qual apresentado pela tradição arrowiana. por sua vez. portanto. da honestidade.

há outras maneiras de orientar a ação pela virtude. ele se torna bastante semelhante ao conceito de virtude que definimos acima. Mas creio haver motivos para acreditar que os resultados desta dinâmica. Do ponto de vista sociológico. envolve um gama maior de motivações do que a honestidade. fazendo-o a ponto de naturalizar o conceito e tratar o telos da ação política como sendo exclusivamente a articulação destes interesses. o conceito de interesses derivado da linguagem da economia política colonizou o discurso. intencionais 82 . O que importa compreender neste estágio da argumentação. são cruciais à compreensão do porque o seu liberalismo sobrepõe-se às alternativas republicanas por ele mesmo abertas. no entanto. seja do ponto de vista histórico. e quando ampliamos o conceito de “código de honra” para incluir estas outras normas. a teoria e a prática da política. sua redução analítica do conceito de “código de honra” ao problema da honestidade – quaisquer que sejam os motivos práticos ou teóricos desta redução – negligencia o fato que um “código de honra” envolve um gama maior de motivações para a ação. só para dar alguns exemplos.82 motivacionais analisadas por Elster que supera a idéia de interesses. prudência. certamente não são redutíveis à idéia de honestidade ou à idéia de cumprir promessas. Como veremos no capítulo seguinte. Afinal. Coragem. vis-à-vis a teoria de Habermas. aquele que age a partir de um código de honra pode utilizar da razão para coibir paixões e produzir um comportamento orientado por outras normas além do cumprimento de promessas. temperança. em uma dialética de competição e cooperação de atores racionalmente orientados a fins. nada é mais verdadeiro enquanto diagnóstico de o que ocorreu ao longo do século vinte com as sociedades democráticas contemporâneas. e as implicações de cada uma delas. é que. seja do ponto de vista analítico. e ainda que a sistematização oferecida por Elster ajude a elucidar importantes e diferentes dimensões de certas modalidades de ação não-auto-interessada.

a feira (que na sua acepção moderna ganhou o nome de mercado) onde se realizam as trocas mercantis que permitem com que unidades familiares saciem suas necessidades humanas. A própria etimologia da palavra democracia é mais bem compreendida enquanto a idéia de “governo do povo” e não de “povo no governo”. a política permanecerá mercantilizada e a república ficará reduzida a uma federação de interesses parciais negociados ora no estado. este bem de todos não seria equivalente a um bem comum. sociedade civil e mercado serão demarcadas normativamente. só emerge onde o homem comum se traveste de cidadão virtuoso e clama para si a responsabilidade de construir uma república em condições de igualdade vis-à-vis seus pares. ou um populismo demagógico. podemos dizer. sem que efetivamente emirja uma concepção de bem comum capaz de servir como norte deste projeto de emancipação. em uma chave que recupera a tipologia das formas de governo de Aristóteles. qual seja. ameaças perigosas ao projeto de emancipação humana que constitui o cerne de um ideal de modernidade. no caso da prevalência dos interesses da maioria. ora na sociedade civil.83 ou não. A demarcação republicana do espaço em que virtudes se articulam para formular novas utopias sociais requer uma circunscrição do tema dos interesses ao seu lugar de origem e operação. na melhor das hipóteses. entretanto. que a vigência dos interesses produz apenas uma oligarquia. têm sido. A teoria habermasiana é demasiadamente silenciosa quanto a este tema. Pouco importa se as linhas divisórias entre estado. Como já nos lembrava Rousseau no final do século dezoito. a politeia. no caso de vigirem os interesses de uma minoria. Quando trazida à política. Uma verdadeira democracia. No plano da produção de uma teoria ética que oriente o cidadão na busca de uma concepção 83 . nem que todos tivessem um mesmo interesse convergente. Enquanto os três campos permanecerem subjugados à lógica dos interesses que define o mercado.

mas acredito que estas premissas são bem mais capazes de. Como veremos nos próximos capítulos. quem sabe. a democracia requer um ethos mais robusto do que os modelos pluralistas deste século nos ofereceram. para um dia. tal exigência resulta em premissas normativas bem mais exigentes do que aquelas oferecidas pelo liberalismo. ao menos.84 de boa vida que possa ser compartilhada socialmente. e mais explicitamente articulado do que aparece na obra de Habermas. alargar a prisão elástica da modernidade. nos libertar dela. 84 .

85 QUINTO CAPÍTULO VIRTUDES E OBRIGAÇÕES 85 .

é de viver em uma sociedade onde todos cumprissem seus deveres e gozassem. por qualquer motivo. O cumprimento de deveres e o respeito aos direitos alheios eram tratados tematicamente no contexto de uma discussão sobre as disposições do caráter 86 . porém. por mais atraente que seja esta solução combinada. antes do surgimento e difusão do paradigma contratualista. ganhou novo contorno sob o título de desobediência civil. (Nietzsche. ao mesmo tempo. No entanto. sua parte da troca. ela acordará rejuvenescida. este problema às vezes apareceu como a questão do direito de resistência. nossa intuição nos sugere que estas duas questões retóricas não são mutuamente excludentes e que. ela não esgota o dilema concreto que toda articulação entre uma teoria ética e uma teoria política deve enfrentar: são cidadãos com direitos que devem cumprir suas obrigações? Ou são cidadãos que cumprem deveres que merecem ser dotados de direitos? A formulação combinada deste problema remete a inevitável mercantilização dos conceitos de direitos e deveres que ocorre sobre um paradigma de articulação de interesses. o que gostaríamos mesmo. Na filosofia política do período moderno. Humano Demasiado Humano) Quantos de nós não gostaríamos de viver em uma sociedade na qual todos os cidadãos cumprem diligentemente todas as suas obrigações para com a comunidade política? Quantos não gostariam de viver em uma sociedade onde todos exercem plenamente seus direitos iguais? A princípio. de direitos iguais.86 Quando a virtude adormecer. No período clássico. este problema estava articulado em uma outra agenda. estão de certa maneira imbuídos de um “meta-direito” de romper o contrato. No período contemporâneo. e meramente sugerir a simultaneidade da operação de troca não parece resolver um elemento básico deste problema: Cidadãos que não recebem.

ir para além dos interesses? Ou. uma diminuição do papel que modelos éticos e processos de socialização pedagógica têm na produção de uma autoridade soberana efetivamente legítima qua consentida pelos cidadãos. conseqüentemente. Resulta desta sobrevalorização. resultando em uma valorização excessiva dos processos democráticos de esclarecimento e articulação dos interesses (bem compreendidos. para dar um caráter mais histórico a esta pergunta. No plano da teoria política. as éticas da obrigação que são hoje hegemônicas no pensamento político contemporâneo. isto é. Em outras palavras. o conceito de obrigação para a república. Tomando como ponto de partida uma nova sistematização oferecida por aquilo que é conhecido hoje com “ética das virtudes” (EV). se a categoria 87 .87 para tanto. a conexão entre ética e política era apresentada no plano das virtudes do cidadão. precisa superar éticas deontológicas e utilitaristas. Pretendo demonstrar aqui que uma teoria política que queira combinar democracia e república. como. Se as três formas de ação não-autointeressada discutidas por Elster ainda representam formas de ação interessada (o interesse alheio). e que busque legitimar a autoridade soberana em mecanismos societários mais orgânicos e efetivos do que a mera articulação dos interesses coletivos no seio da sociedade civil organizada. entretanto. sem uma devida problematização. diria Tocqueville) que supostamente legitimam a autoridade do soberano e as leis por ela produzidas. então. estes modelos transportam. este capítulo visa produzir uma crítica à deontologia que fundamenta a teoria habermasiana tomando como base suas convergências como o utilitarismo e as suas conseqüências para a formulação de uma teoria política. Será demonstrado que deontologias e utilitarismos convergem em uma concepção de razão prática que tem como eixo a aplicação de princípios abstratos a casos concretos e articulam. éticas centradas na obrigação moral derivada da aceitação de princípios auto-impostos.

o termo areté conotava uma motivação para ação cujo sentido não pode ser trivialmente reduzido aos interesses do agente.. moldando areté a partir da imagem de políticos como Édipo e Creonte. ainda que o conceito de virtude nunca tenha desaparecido.45 Sempre. Enquanto que no período homérico. os épicos espelhavam areté na virtude dos guerreiros. No mais. como este imperativo era resolvido antes do advento moderno do interesse? Uma chave importante das respostas pré-modernas a este desafio era o conceito de virtudes. como bem o sabia Nietzsche. ele é relegado para um segundo plano. Em boa parte do pensamento político moderno. constituições são virtuosas porque são justas. opera uma concepção de direitos naturalizada e uma concepção de 45 É curioso notar que a areté de Sócrates é ser justo. somente duas leis da natureza por ele listadas de fato constituem leis (a paz e o pacto). e o universo teológico-literário da Grécia antiga tinha um papel central na construção destes modelos alternativos de caráter e motivações que mereciam ser imitadas. Na linguagem justificatória da Grécia antiga. porém. tragédias interpretavam o termo através do conceito auxiliar diké. e era esta excelência de um ato ou de um agente que conferia um sentido ampliado às suas motivações. mas covarde. Sócrates era um covarde. Até a Renascença prevaleceram éticas da virtude herdadas do mundo grego. tendo Aristóteles e São Tomás de Aquino como seus eixos principais.88 dos interesses é uma invenção da modernidade para canalizar/domesticar as paixões conflitantes dos homens. o termo areté ocupava um papel predominante. Era em referência a este universo que os gregos interpretavam a virtude e a ação não-interessada. mas no Crito a sua virtude está na sua coragem de morrer e obedecer às leis Ou seja. e a justiça de seus atos ou se seu caráter. em Aristóteles. como Aquiles e Ulysses. sendo as treze leis subseqüentes nada mais do que um rol de virtudes cívicas travestidas de leis. Em Hobbes. Justo. 88 . durante o apogeu da filosofia grega no século V a. Em Platão. ela é apresentada nos termos do período homérico.C. Mas na modernidade. Sócrates é modelo de virtude porque é justo. por exemplo.

Cabe à autoridade soberana criar “incentivos” ao comportamento cívico. Este esforço. tornam-se adições ad hoc (ainda que desejáveis) a uma ordem cujo sustentáculo fundamental é a internalização dos cidadãos de regras de conduta enquanto obrigações. Razão e Retórica na Filosofia de Hobbes. aparece no pensamento contemporâneo em teorias do mundo anglo-americano denominadas de ética das virtudes (EV). Quentin. os agentes teóricos desta desvalorização das virtudes foram a deontologia do jusnaturalismo derivada do Tomismo e depois convertida no modelo constitucionalista. 89 .89 deveres que está diretamente vinculada à possibilidade de coerção por parte da autoridade soberana. Ribeiro. Kant e Hegel. No mundo contemporâneo. 1999. busca redescobrir o conteúdo republicano dos argumentos dos autores daquele cânone como Maquiavel. alguns autores encontraram uma chave republicana. Hobbes escrevendo contra seu tempo. 1999. portanto. As virtudes. Renato Janine.46 O esforço de sistematização de uma nova ética das virtudes como crítica à deontologia e ao utilitarismo. uma tentativa tardia de salvar a idéia de moralidade das críticas contundentes do ceticismo. Até mesmo em Hobbes. Rousseau. Inspiradas no monumental esforço teórico de Alasdair MacIntyre de reinterpretar a ética aristotélica sob uma ótica 46 Ver Skinner. Os marcos destas duas tradições modernas são Kant e Bentham. No pensamento moderno. torna-se quase irrelevante (ainda que desejável) que os cidadãos sejam dotados das disposições de caráter que os inclinem ao cumprimento de deveres e ao respeito dos direitos alheios. Locke. percorrendo nomes de todo o cânone. Belo Horizonte: Editora UFMG. Press. Desta maneira. e o utilitarismo. mais um exercício metodológico do que propriamente um exercício sistemático de construção de uma teoria ética centrada no conceito de virtude. UNESP/Cambridge Univ. São Paulo: ED. entretanto. a recuperação do conceito de virtudes é uma obra de teorias éticas em que o primeiro e mais importante esforço foi o da redescoberta de uma tradição oculta de republicanismo no pensamento moderno. Ao Leitor sem medo. Montesquieu.

tal raciocínio é operacionalizado por algum procedimento de universalização de normas como. a idéia de obrigação moral é um conceito vazio. autores importantes são G. No caso do utilitarismo. uma única norma substantiva e universal é aplicada à produção de obrigações: a maximização do bemestar. quando ordenada a fazer algo.90 contemporânea. o imperativo categórico kantiano. portanto.47 O conceito de ética das virtudes (EV) contrapõe-se. derivam de alguma autoridade (a criança. tanto a deontologia quanto o utilitarismo constituem éticas da obrigação (EO) porque nelas. ao conceito de ética da obrigação (EO). por definição. Há uma contradição entre duas premissas derivadas do 47 Outros autores de filosofia política freqüentemente associados à ética das virtudes são Bernard Williams e Charles Taylor. estas teorias partem de uma crítica comum à deontologia e ao utilitarismo em esforço de libertar a ética da idéia de obrigação auto-imposta. sempre pergunta: quem mandou?). No caso de uma deontologia. De acordo com os defensores de uma EV. por exemplo. Mas a obrigação moral deriva de que autoridade? A princípio. raciocinar moralmente é o mesmo que aplicar princípios gerais e abstratos a casos concretos. Com estes termos. por exemplo. 90 . e Richard Taylor. para uma EO. mas como este eu-moral não existe. para uma EV. ela deriva de um eu-moral separado de mim mesmo que julga meus atos. Os téoricos da ética das virtudes apontam para pelo menos três problemas com o fato destes sistemas constituírem éticas da obrigação: a) Deveres e obrigações. busca-se definir o que há de comum entre os principais sistemas éticos centrados no interesse (deontologia e utilitarismo) e propor uma alternativa a estes sistemas. Do ponto de vista da ética. Philippa Foot. os agentes morais estão obrigados por alguns deveres justificados em termos universais. Von Wright. Elizabeth Anscombe.H. b) Éticas da obrigação resultam daquilo que é conhecido como o paradoxo da sorte moral.

Basta lembra que pessoas que cumprem seus deveres e não violam direitos alheios ainda podem freqüentemente se portar de maneiras que consideramos desumanas. Da perspectiva das EV. do grego areté). se ajudássemos nossos amigos somente por uma obrigação para com a benevolência. todo sujeito virtuoso faz a coisa certa precisamente porque é virtuoso. Enquanto que para as EO o valor dos traços de caráter depende do valor da conduta que estes traços tendem a produzir – o comportamento certo tem antecedência teórica sobre a motivação certa – para as EV julgamentos sobre o valor das motivações têm precedência sobre julgamentos deônticos (baseados em princípios). por exemplo. a ética das virtudes propõe a primazia do caráter na produção de juízos morais: julgamentos básicos em ética são julgamentos sobre caráter (também chamados de aretaicos. em todos os seus aspectos moralmente relevantes (nas nossas relações com os outros) é governada principalmente pela sorte. isto é. ou porque esta ajuda torna-se necessária à maximização da felicidade alheia. Logo. na realidade. Não existiriam amizades. amorais ou até mesmo imorais. mas nem 91 . pois a nossa vida. mas. Se tornarmos princípios de justificação em motivos para a nossa ação. não podemos ser considerados “responsáveis” pelos nossos atos. pela contingência. quase nada está de fato sob nosso controle total. o resultado será necessariamente destrutivo para a nossa vida moral e a nossa relação com os outros.91 voluntarismo que tal perspectiva pressupõe: somos responsáveis somente pelo que está em nosso controle. c) A tirania dos princípios gera um distanciamento irrecuperável entre a justificação das normas que seguimos e as motivações dos nossos atos. Como resposta a estes problemas relacionados às éticas da obrigação.

Seria preciso. entretanto. em si.49 Em ambos os caminhos teóricos. C. Virtue Ethics: a critical reader. De acordo com Daniel Statman. a ação pode ser motivada por algo sem que o motivo seja. 1992.92 todo sujeito correto é virtuoso porque faz a coisa certa. virtuoso. combinar uma ética das virtudes com uma ética da obrigação. ele mesmo. 92 . portanto certos). Em uma EO. Ter motivos para a ação (ou seja. ou ignorar completamente problemas deônticos. agir por determinada razão) não é a mesma coisa que agir por causa daquela razão.48 Outros autores. Anscombe. MacIntyre seriam representantes desta versão mais radical. no caso das EO. ou reduzir problemas de princípio a problemas de virtude. a finalidade da ação. New York: Oxford University Press. ele age a partir dos bons motivos que ele acredita ter. no entanto. 1997. alguns autores argumentam a irredutibilidade da moralidade dos atos à moralidade do caráter (e vice-versa). já que atos certos só são certos se as suas motivações forem certas. Por um lado. D. propõe-se uma revalorização da relação entre justificações para normas e motivações para a ação e.C. E. o motivo de uma ação não obriga o ator a nada.). todo motivo é uma finalidade da ação. From Morality to Virtue. portanto. Desta idéia central da ética das virtudes afloram dois caminhos possíveis. Michael Slote. portanto. isto é. Seria preciso. Introdução. já que é possível evitar se fazer a coisa errada sem que tal ato seja. já que existem atos errados independentemente das motivações do ator e existem motivações erradas independentemente da correção dos atos que eles geram. por exemplo. Em uma EV. Washington. Daniel (org. Taylor e A. argumentam que todos os julgamentos sobre atos implicam em um julgamento sobre motivações. Ver Statman. e obriga desta maneira o ator àquela maneira de agir em contextos comparáveis. A passagem da concepção de bem para a concepção de certo se dá precisamente na libertação do julgamento realizado das circumstâncias concretas em que ele foi 48 49 Ver.: Georgetown University Press. o segundo elemento encontra-se relegado a um segundo plano. sem nenhum cometimento a considerar aqueles motivos bons no futuro (e. quando não completamente excluído da construção do arcabouço da teoria ética.

mas sim em imitar modelos. mas estes traços não são desejáveis ou admiráveis só porque pertencem ou pertenceram a alguém. a um modelo orientado somente por julgamentos contingentes e determinados pelo ato específico que é submetido ao juízo. não significa que elas constituam em si a justificação para as virtudes. Pessoas são admiráveis quando e somente porque elas possuem determinados traços de caráter. São exemplos morais. apresentados de maneira atraente. Pressupor a existência destas personalidades. portanto. Para uma ética das virtudes. regras não são importantes para as motivações morais dos atores. As éticas da virtude não se rendem. recusa-se este elemento de obrigação intertemporal da EO. é possível introduzir um grau de generalidade à produção de juízos morais através do conceito de caráter paradigmático. A divergência entre os dois paradigmas pode portanto ser descrita como sendo uma divergência sobre a natureza da pessoa moralmente boa. Para uma EV. a cada vez que julga um ato. Uma ética das virtudes pressupõe. ontem e amanhã. a pessoa moralmente boa é simplesmente aquela que age. Para as EV. Este papel 93 . de maneira virtuosa. hoje. Em uma EV. no entanto. entretanto.93 produzido. que geram uma meta-motivação para imitá-los. e a sua educação moral não consiste em ensinar e aprender princípios (e ensinar e aprender a aplicá-los). Um motivo certo é um motivo que é bom em vários lugares. personalidades que exemplificam as virtudes de maneira extraordinária. portanto. Para uma EO a pessoa moralmente boa é aquela que age sempre a partir de uma obrigação que surgiu de motivos generalizados (ou generalizáveis) para a ação. Uma ação pode e deve ser considerada certa se ela é a ação que uma pessoa virtuosa realizaria naquelas circunstâncias. Nós aprendemos a agir moralmente da mesma forma que aprendemos a jogar bola ou a cozinhar: imitando.

em uma EV. A justificação para este anti-utilitarismo. O utilitarismo submete esta escolha à maximização do seu bem individual. uma EV está evidentemente mais próxima de uma deontologia do que do utilitarismo. Logo. Para as EV. Da perspectiva da ética das virtudes. Por exemplo: a escolha de trair ou não um amigo. Tal qual no direito. e existem atos moralmente ruins que são involuntários. impossível de julgar). portanto. onde todo ato é legal ou ilegal. ressonância tanto em Maquiavel quanto em Rousseau. é diferente nos dois casos. algum princípio universalizável deve reger a escolha. É importante ressaltar que. deve regê-la. é possível haver duas respostas certas para uma mesma pergunta moral. alguma concepção da boa vida. Para deontologias. enquanto que para uma EV.94 conferido à imitação na educação moral do agente tem. hoje e 94 . do ponto de vista normativo. ou um ato pode até mesmo ser certo e errado ao mesmo tempo. da pessoa que quero ser. Na medida em que as EO interpretam a moralidade com se ela fosse um sistema de regras justificadas e. e é sempre possível que pessoas virtuosas discordem sobre a correção de determinado ato. porém. uma deontologia a submete a um princípio geral que resolve se é certo trair amigos ou não. aplicáveis. Tanto uma EV quanto uma deontologia são inerentemente anti-utilitaristas já que um curso de ação que traz menos bem. um outro problema com as éticas da obrigação consiste em elas estarem dominadas por uma metáfora legal. todo dilema moral pode ser resolvido binariamente. é justificável. atos morais certos são aqueles sobre os quais pessoas virtuosas concordariam. evidentemente. a escolha é submetida à decisão de querer ser conhecido ou não. no entanto. Existem atos moralmente bons que são involuntários. Este abandono da metáfora legal no plano da moralidade também permite um atenuamento da distinção entre atos voluntários e involuntários. um ato moral é sempre e necessariamente certo ou errado (ou na melhor das hipóteses. para ambas.

deontologias simplesmente convertem virtudes em princípios. quando trazidos à arena da política. atingirá areté plenamente (ou. sempre haverá aqueles que são mais virtuosos). posto de outra maneira. como faz Elster. tão necessárias ao exercício das virtudes morais. em muitos casos. Como vimos no capítulo anterior. Versões mais moderadas falam da necessidade de estabelecer uma dialética entre virtudes e interesses em que interesses devam sempre ser traduzidos em virtudes antes de chegarem à arena 95 . os limites da utilização do conceito de interesses enquanto motivação central da atividade política podem ser demonstrados pelos próprios instrumentos da teoria da escolha racional. se o problema dos pré-requisitos é ignorado. Versões mais radicais da ética das virtudes propõem que se abandone completamente o conceito de interesses e que pensemos na política como uma arena em que apenas virtudes devem se fazer presentes através de suas vinculações aos conceitos do belo e do bem que são articuladas publicamente pelos agentes. e o problema consiste. e um ética assim fundada só implica em um elitismo. Na medida em que somente um grupo determinado de pessoas. podem (e devem) ser subjugados a juízos derivados de concepções de ação e motivações virtuosas. a relação entre as virtudes morais e as virtudes intelectuais. mas demonstrar que é possível pensar aquela atividade de uma perspectiva ética alternativa requer que resolvamos como interesses. A solução de uma EV para esta ressalva consiste em reafirmar. O que está em jogo são os pré-requisitos para a obtenção de algo considerado bom (virtudes). na trilha de Aristóteles. por suposto. portanto. Percebam por este exemplo que. Outra questão normativa que deve ser ressaltada é o aparente caráter elitista implícito em uma EV. na igualdade substantiva que é requerida no plano das oportunidades e condições de obtenção das virtudes intelectuais. uma EV implicaria sempre na possibilidade inerente de identificar os aristoi (os melhores). como alguém que trai amigos.95 agora.

e advogar uma concepção expressiva e estetizada da política. James e Rehg. William (orgs. mas. vale ressaltar que a teoria habermasiana. esta confusão resulta do postulado de que há uma dicotomia radical entre ação estratégica e ação comunicativa. Como mostra Elster em um outro artigo. Discutiremos mais adiante as limitações e os problemas decorrentes desta dicotomia. por ora. já que ainda opera sob o paradigma da agregação de preferências que exprimem interesses individuais e/ou coletivos. Deliberative Democracy: essays on reason and politics. que é subjacente ao conceito de ação comunicativa. O desafio de uma teoria política normativa que se proponha a recolocar o republicanismo em seu centro é precisamente encontrar um modelo instrumental. 96 . “The Market and the Forum” in Bohman. É por isto que compreender os processos de formação de consensos normativos é central a esta teoria. não comporta uma concepção robusta de virtude cívica. dizer que a política é uma atividade instrumental (i. Jon. 1997. Em qualquer uma destas versões.96 da política. da política. como pretendo demonstrar. Em parte. por exemplo. um problema compreendido somente parcialmente por Habermas. a ética das virtudes não pressupõe que devamos partir para uma concepção completamente não-instrumental da política. Pode-se argumentar que o forum [a política] deve diferir do mercado em seu modo de 50 Elster. mas não estratégico. como encontramos em Hannah Arendt. A política não é nem um meio para fins não políticos nem um fim em si mesmo. Cambridge: MIT Press.). entretanto. tem fins/objetivos) também não implica em ir ao extremo oposto de dizer que sua finalidade são interesses agregados. escolhas sociais racionais.e. Nas palavras de Elster: Entre do dois extremos está a perspectiva que considero mais atraente. ele demonstra que um dos maiores vícios do modelo da situação ideal de fala. consiste na elaboração de um conceito de bem comum que na verdade é um conceito de bem coletivo travestido.50 Nas sete críticas que Elster faz à Habermas naquele artigo. apesar de seus elementos republicanistas dispersos.

na qual é melhor caminhar esperançoso do que esperar que se chegue em algum lugar. Mas ainda assim. estão dispostos a legitimar e depois obedecer. ocorram. uma política verdadeiramente democrática requer que estejamos dispostos a cumprir nossos deveres cívicos para com a república. mesmo antes de sabermos se nossos direitos estão plenamente garantidos. E se buscamos chegar a consensos e decisões das quais nos orgulhamos. isto é. Afinal. que consideramos virtuosas. As constantes restrições do tempo geram uma necessidade por atenção e concentração nestas questões que não pode ser assimilada ao estilo prosaico da argumentação filosófica. A política não é nem um meio para fins não-políticos nem um fim em si mesmo. Enfim. portanto. Portanto. O problema com esta definição de política é que a primeira cláusula – a política enquanto atividade de natureza pública – é válida porém insuficiente. públicos e econômicos. Se definido desta maneira – de natureza pública e com objetivos instrumentais – a política assume o que acredito ser o seu papel correto na sociedade.97 funcionamento.51 Uma atividade “de natureza pública e com objetivos instrumentais”. Até mesmo decisões políticas de alta importância (higher-order) lidam com regras de menor importância e que estão diretamente relacionadas a questões econômicas. mas onde os agentes publicizam somente seus interesses. que se tornariam. argumentos desta natureza formam o núcleo do processo político. É a existência de uma preocupação com questões substantivas que confere aos debates políticos a sua urgência. e não há nada de errado com isto. algo semelhante aos interesses bem-compreendidos de Tocqueville. precisamos que os cidadãos sejam virtuosos em sua ação política e que suas motivações para a ação também sejam virtuosas. 51 Idem. p. 97 . É necessário determinar.26. Ela é um meio para a formação de diferentes tipos de consensos normativos dos quais os participantes se orgulham e que. argumentos constitucionais sobre como as leis podem ser feitas e alteradas constantemente alertam para o impacto da estabilidade ou instabilidade jurídica sobre assuntos econômicos. Elster está certo ao argumentar que questões econômicas freqüentemente dominam a agenda política. neste processo e. e ainda sim se preocupar com decisões que em última instância dizem respeito a questões econômicas. como queremos que estes debates. porém. é possível imaginar uma política que é pública.

134. e talvez isto explique porque vivemos em uma era em que éticas filosóficas tais como o utilitarismo e a deontologia reinam soberanas: sem um ethos soberano. Buda. Brace & World. Karl. derivadas de alguma forma de idealismo. The Great Philosophers. nós não podemos (e não devemos) representar esta lei sobre o que é certo como um possível motivo para a ação. E como bem observou Hegel. p. pois tinha na substância espiritual da nação uma base total de significado e. Kant. teve seu exato significado definitivo. Immanuel. não muito tempo atrás. Kant: Political Writings. mas somente anunciar o que é certo. Hans. Na política contemporânea. sendo somente um substituto (e precário) para ele. em grande medida. 1962. dificilmente aparecerão aqueles de caráter paradigmático capazes de fazer ressurgir modelos de virtude.53 E enquanto os homens continuarem a orientar suas ações para motivações interessadas – mesmo que obedecendo a princípios e leis auto-impostos –. Mas não devemos nos esquecer que tais éticas nunca conseguirão recuperar um ethos perdido. Jesus Cristo e Confúcio como sendo estas personalidades para o nosso mundo moderno. um bem atual na sua existência.98 Houve tempos em que as personalidades paradigmáticas que orientavam o caráter moral dos cidadãos eram facilmente identificáveis.52 A possibilidade de converter tais personagens em modelos éticos depende. “The Metaphysics of Morals” in Reiss. para seu propósito. também não foi dirigida contra o mundo atual como contra alguma coisa geralmente pervertida. (org). Cambridge: Cambridge University Press. no mundo antigo. Conseqüentemente. 1970. New York: Harcourt. a única forma de combater os relativismos que emergem da pluralidade de mundos vividos parece ser a articulação de éticas universalistas. O próprio Kant sabia que as leis derivadas destas éticas são incapazes de se converter em motivos para a ação: Dado que a nossa intenção não é ensinar a virtude. Mas a virtude que 52 53 Jaspers. da existência de uma determinada cultura moral e cívica (um ethos) devidamente compartilhada por aqueles que os imitarão. 98 . Carl Jaspers listou Sócrates. Virtude. e contra um “caminho do mundo”. é no mínimo duvidoso que tal cultura exista em qualquer lugar.

99 . por definição devem articular virtudes cívicas a partir de julgamentos aretaicos dos homens comuns a partir dos exemplos dos grandes homens e de seus grandes feitos. nota 390. G. Para que a democracia supere o difícil conflito das paixões humanas.99 consideramos (o conceito moderno de virtude) tem o seu ser fora da substância espiritual. que falta naquele conteúdo substancial. uma virtude da imaginação e no nome apenas. portanto.F. e meu interesse só é melhor que o seu se ele for mais virtuoso. 54 Hegel. ou até mesmo dos desamparados. e estes consensos. pressupõe uma república que forma consensos normativos. sejam eles interesses de políticos. o interesse da maioria não é melhor do que o interesse das minorias só porque é o interesse de muitos. precisamos ser capazes de decidir quais são os melhores interesses. Afinal. isto é. é uma virtude irreal. London: Oxford University Press.54 Tornar esta virtude imaginária em realidade requer que circunscrevamos os interesses quando eles chegam ao campo da política. se ele puder ser universalizado como comportamento imitável. de elites econômicas. e se os outros cidadãos preferirem seguir o meu exemplo a seguir o seu. 1977. A legitimidade da democracia.W. Phenomenology of Spirit.

100 SEXTO CAPÍTULO ÉTICA DAS VIRTUDES E JUSTIFICAÇÃO PÚBLICA 100 .

ele se veste em roupas de pano simples: está bem. (Diderot. mas somente o chamarei de virtuoso quando ele fizer algum ato de virtude do qual outros homens se beneficiarão. Enquanto ele permanecer um solitário. É por isto que uma resposta para a pergunta apresentada no início do capítulo anterior deve necessariamente apontar para a prioridade dos deveres sobre os direitos. ele não é nem bom nem mau. ele não é ninguém para nós. que por sua vez darão origem a determinados direitos civis. isto é. são os cidadãos que cumprem virtuosamente os seus deveres que passam a ser merecedores de direitos e imunidades. como articular uma ética das virtudes que não aponte para uma comunitarismo tirânico e impositivo ou uma guetização de concepções morais do mundo? Como produzir consensos normativos em uma sociedade complexa e plural? Para que uma ética das virtudes seja capaz de fundar uma ordem política e gerar estes consensos normativos mesmo em condições de complexidade e pluralidade. De alguma maneira. tal gesto expressivo precisa adquirir o estatuto de algo que o cidadão precisa fazer. Em outras palavras. Dicionário Filosófico) Se a dissolução de cosmologias unificantes no mundo moderno enfraquece a concepção de caráter paradigmático. Mas o cumprimento dos deveres não pode ser meramente o resultado de um desejo ou capricho do cidadão que expressa virtudes no público para ser apreciado e agraciado pelos seus pares. ele é um santo. é preciso que o agir virtuoso seja capaz de fundar um padrão de comportamentos esperados do cidadão que justifiquem um conjunto de deveres cívicos. deve haver alguma coisa que o compele a agir virtuosamente. O que seria isto? Há como escapar do conceito de obrigação auto-imposta em uma ética das virtudes? Expressá-las não seria uma obrigação moral do cidadão? 101 .101 Um ermitão é sóbrio e piedoso.

o indivíduo virtuoso age de maneira criativa e adaptativa. Ao identificarmos em outrem um traço que consideramos que mereça ser imitado. 1997. 160 e segs. pp. Oxford: Oxford Univ. trata-se de ser capaz de constituir uma história de vida em que uma permanente revisão do caráter permite continuidade do agir virtuoso. tornamo-nos responsáveis por buscar 55 Audi. Podemos discernir três tipos distintos de responsabilidade moral para com os traços de caráter aos quais atribuímos o estatuto de virtudes. Ter responsabilidade moral significa estar disposto a submeter seus atos políticos ao julgamento público. Press. Retomando a discussão sobre o conceito de individualidade do romantismo alemão do século dezenove apresentada no capítulo dois. permitindo que o exercício da cidadania (isto é. e mudanças de trajetória em sua história de vida justificam-se somente na medida em que se abandonam alguns princípios e os substitui por outros. Robert. Ter responsabilidade moral é ter um compromisso com uma concepção de boa vida definida por estes traços e pela sua constante revisão. Moral Knowledge and Ethical Character.102 O Conceito de Responsabilidade Moral No sentido de evitar os problemas relativos ao conceito de obrigação moral levantados no capítulo anterior. e a revisar seus traços de caráter na medida em que eles sejam incapazes de produzir consensos normativos. 102 . a participação política) esteja sempre orientado à reconstrução de uma concepção de bem comum compartilhada com os demais. proponho que pensemos a relação do cidadão para com a produção e reprodução de suas virtudes a partir do conceito de responsabilidade moral. Enquanto que o indivíduo deôntico age de maneira consistente e semelhante a partir de um princípio.55 O primeiro tipo é a nossa responsabilidade pela produção do traço de caráter. sendo que suas mudanças de trajetória justificam-se pela necessidade de preservar determinados traços de caráter. e não à defesa de uma esfera privada que os demais cidadãos estejam impossibilitados de violar.

outros ainda. uma vez que ser capaz de assimilar novos traços de caráter é. Mas dada a relação reflexiva pressuposta na constituição da diferença entre personalidade e caráter. Para resolver este problema circular é importante distinguir entre caráter e personalidade. isto é. Neste plano. A princípio. já que. evitarão uma resposta definitiva para esta pergunta. Uma pessoa que se tornou habitualmente desonesta pode eximirse da responsabilidade moral por este traço de caráter atribuindo responsabilidade à falta de incentivos para ser honesta por parte de seus pais durante sua infância. mais prudentes. pois não é responsável moralmente por ela. uma questão de caráter. outros a educação moral dada pelos pais ou pelo ambiente de sociabilidade. Por este primeiro caráter moral. em si mesmo. constitui o “primeiro caráter” da pessoa ao longo de sua vida. Mas uma vez que a pessoa é capaz de reflexivamente identificar o seu “primeiro” caráter. Mas isto não implica que ela deixa de ser responsável moralmente por atos desonestos que ela é capaz de reconhecer enquanto tal. o problema é um pouco mais complicado. a personalidade. a princípio. uma vez reconhecida a personalidade. podemos dizer que ela torna-se responsável moralmente por transformações dele. já que esta personalidade antecede o caráter moral. O segundo tipo é a responsabilidade moral pela retenção dos traços de caráter. uns preferirão responsabilizar a genética. a pessoa não pode ser responsabilizada pela retenção de sua personalidade. pela aquisição de novos traços. O exemplo da desonestidade apresentado por Audi ilustra bem este caso.103 gerar aquele traço em nós mesmos. pode parecer que não podemos ser inteiramente responsabilizados pela produção de nossos traços de caráter. ou melhor. Podemos dizer que as pessoas são dotadas de personalidades pelas quais elas não podem ser consideradas moralmente responsáveis. O próprio reconhecimento da desonestidade do ato 103 . a pessoa pode ser moralmente responsabilizada pela retenção (ou não) daqueles traços iniciais e daqueles que ela venha a adquirir.

104 . está associada ao vínculo que estabelecemos com outros em interações sociais e a vulnerabilidade destes outros atores. A responsabilidade pelo exercício e manutenção das virtudes. Rio de Janeiro: Editora FGV. ainda que haja um certo grau de indeterminação nesta responsabilidade já que ela se restringe a um dever para com o ato presente. tal qual presente na tradição weberiana. adquirimos a responsabilidade moral pelos nossos atos. ver Domingues.104 implica reconhecimento de culpa e. a nossa responsabilidade prospectiva pela aplicação e/ou revisão do traço nas ações futuras deriva diretamente dos dois tipos anteriores. A chave que nos interessa é perceber que o nosso conhecimento de nossos traços de caráter é condição sine qua non para que passemos das virtudes do caráter para as virtudes dos atos. (1) produzir o traço. José Maurício. nunca para com o futuro do outro e seu destino no seio da sociedade. portanto. Com isto não devemos nos deixar iludir de que tal responsabilidade pelas nossas virtudes possa ser reduzida a uma concepção individualista de responsabilidade. 310. Interpretando a Modernidade. e não é nosso tema aqui discutir como se dá efetivamente a produção destes traços. esta pessoa pode ser moralmente responsabilizada pela retenção deste traço. enquanto que a idéia de obrigação para com a lei que resulta 56 Para a discussão deste conceito de responsabilidade moral contra Weber. por outro lado. Para Weber. Na medida em que somos responsáveis por gerar e reter traços de caráter. 2002.56 Além do mais. (2) justificar a sua permanência e (3) aplicá-lo constituem a gama de responsabilidades morais que temos para com as virtudes cívicas. Em suma. Por fim o terceiro tipo. coisa que certamente uma teoria pedagógica do desenvolvimento moral precisaria explicar. Estes traços podem ser motivacional ou cognitivamente construídos. p. a passagem de uma ética da convicção para uma ética da responsabilidade nas sociedades modernas está associada à presença de sanções legítimas que garantem que a validade das normas não dependa mais da convicção dos agentes quanto a ela.

precisa estar disposto a justificar suas escolhas perante o público. O cidadão. Domingues aproxima-se da tradição republicana ao propor. este outro conceito de responsabilidade é moral – o ator age. Nesta crítica.105 da ética da responsabilidade de Weber resulta na isenção do fator risco. Mas se separamos aristotelicamente as virtudes do caráter das virtudes dos atos. Por outro lado. Ou seja. ela é central à constituição da identidade do cidadão que se reconhece em si mesmo na medida em que se responsabiliza pelos seus atos passados e promessas futuras. Rio de Janeiro: Editora FGV.57 É este imperativo da justificação que nos permite avançar na crítica que as éticas da virtude fazem com relação ao problema da sorte moral nas éticas da obrigação. portanto. tem dois papeis importantes. com Giddens. Por um lado. Em tese. podemos dizer que temos responsabilidade sobre os nossos traços de 57 Para uma crítica do conceito de responsabilidade individual. a conjugação destes três tipos de responsabilidade ética pelas virtudes que atribuímos a nós mesmos gera a necessidade de sermos capazes de justificar publicamente estes traços. 355. Interpretando a Modernidade. já que desincumbe as escolhas feitas pelo ator frente à presença de uma sanção externa. em um contexto que sempre contém elementos de risco. que pensemos que “não há direitos sem responsabilidades”. 105 . 2002. portanto. já que não se tratam de virtudes privadas cujo exercício constitua esfera instransponível aos demais cidadãos. estas virtudes que internalizamos são cívicas e só se manifestam na medida em que exercidas publicamente. portanto. Pelo contrário. na medida em que esta responsabilidade se projeta em um vivere civile. na medida em que a individuação é fruto de um processo de socialização. José Maurício. e faz escolhas perante a vulnerabilidade presente de seus pares. é difícil atribuir uma obrigação moral sobre todos os nossos atos. Ver p. mas que estas não são individuais. Esta responsabilidade moral tripartite. ela requer a exposição pública (public display) dos traços de caráter e a disposição de torná-los em motivações para a ação em direção ao outro. já que suas conseqüências não estão sob nosso controle. mas sim coletivamente produzidas e articuladas. ver Domingues.

106 caráter. bastam as motivações neste sentido e a disposição de justificá-las publicamente. 242 e segs. que justifiquemos publicamente a ausência de responsabilidade pelo ato mesmo quando ele estava. é que desejemos fazer a coisa certa e. em que nos interpretamos como detentores ou proprietários de traços de caráter pelos quais temos a obrigação de zelar. Este modelo de responsabilidade moral permite contornar também críticas a uma ética das virtudes advindas do campo dos críticos internos ao modelo habermasiano que aderem. por exemplo. ela requer alguma forma de expressão de nossa relação enquanto sujeitos (com traços de caráter que expomos/exprimimos) e cidadãos que exercem virtudes cívicas justificadas 58 59 Audi. Moral Knowledge and Ethical Character. a um ética deontológica. isto é. pp. ainda assim. O que esta concepção de responsabilidade moral requer. que se deva fazer a coisa certa ou estar motivada para fazê-la. por exemplo. mas não necessariamente controle sobre eles. somos responsáveis pelas razões que temos para agir desta ou daquela maneira: Responsabilidade implica que alguém pode fazer a coisa certa. ela não implica. presumidamente. Ver Tugendhat. p. em sua discussão do conceito de regras.59 Ainda que esta responsabilidade moral pelas virtudes não comporte concepções individualistas de responsabilidade. regras de conduta que nos obrigam a isto ou aquilo se tornam desnecessárias. Ernst Tugendhat. quando impossibilitados. sob nosso controle.58 Em outras palavras.165. 106 . somos responsáveis pelas nossas motivações. Para agir moralmente. Temos. agir para mudar o seu caráter. Lições sobre Ética. controle sobre os nossos atos na medida em que somos responsáveis pelas suas motivações. Mas se redefinimos virtude como disposições do caráter para estar motivado a agir moralmente. porém. portanto. reduz “kantianamente” o conceito de virtude a disposição de agir de acordo com regras de conduta. mesmo que não sejemos responsáveis pelos resultados da conversão daquelas motivações em atos. 1996. no entanto. Petrópolis: Editora Vozes.

of California Press. compreender a reprodução de comportamentos moralmente bons não significa interpretá-los como obrigações com a sua reprodução strictu sensus em outros lugares e momentos que consideramos análogos. Ethics: history. manutenção e expressão destas virtudes. “Feminist Transformation of Moral Theory” in Cahn. Em substituição a esta modelo. e a sistematização de uma tipologia da justificação e aplicação 60 Held. Virginia. Berkeley: Univ. theory and contemporary issues. a relação entre motivações e ações do agente moral devem ser orientadas por um noção de “transformação com continuidade”. Ver Toumlin. Oxford: Oxford University Press. The Abuses of Casuistry: a history of moral reasoning. São as razões compartilhadas por pais e filhos que justificam transformações no comportamento de ambas as partes.60 Em sua crítica feminista ao kantianismo. 1990. de ambos os lados. e P. conforme as circunstâncias. portanto. Em analogia aos pilares morais que estruturam a relação dos pais com seus filhos. Stephen and A. Para Held. ser zelosos em relação aos nossos traços de caráter e às transformações que neles impetramos. Da mesma forma que a relação pedagógica de autoridade entre pais e filhos inclui necessariamente mudanças e adaptações de comportamento. tal ética propõe que nossa relação com nossos traços de caráter e virtudes cívicas seja concebida a partir do conceito de reprodução. Markie (orgs. Devemos.107 publicamente. 1998. 107 . Held sugere uma ética do zelo/cuidado (ethics of care) como substituta à uma ética da obrigação. Jonsen. sob o conceito de casuísmo. para que tenhamos controle sobre os nossos atos.61 Responsabilidade Moral e a Gramática da Justificação Pública Como vimos no segundo capítulo.). Stephen M. O modelo liberal-republicano que articula esta relação em termos de uma relação de posse (dominium) necessariamente nos projeta para um universo de obrigações deontológicas para com a geração. podemos pensar nos termos da teoria ética proposta por Virgínia Held. o tema da justificação pública é caro à tradição habermasiana. que remonta aos jesuítas do século XVI. 61 Não podemos deixar de notar que na tradição deontológica um tema análogo aparece na discussão da adaptação de regras à situações e dilemas concretas.

isto é. na interação entre dois atores individuais discutindo determinado problema moral. Precisamos. a justificação pode limitar-se a fazer recurso a inferências locais. divididos entre deontologia. desta gramática da justificação para compreender melhor como. esta tipologia ainda está aquém de uma gramática da justificação pública de normas que nos permita compreender como se dá a passagem dos traços de caráter à formação de juízos compartilhados publicamente. No entanto.108 de normas pragmática. Em primeiro lugar. isto é. no plano das conseqüências. bastam certos pressupostos pragmáticos sobre uso de expressões lingüísticas – para usar a formulação habermasiana do problema –. isto é. se ele contribui para a produção de um consenso sobre a validade do ato. utilitarismo e aristotelismo. um ato justificado se torna virtuoso. mas nas suas conseqüências. Em terceiro lugar. a argumentos cuja validade limita-se ao contexto em que a interação ocorre. já que a virtude de um ato não está na sua origem virtuosa (a pessoa dotada de virtudes). portanto. pois determinadas motivações para ação podem ser justificadas meramente por recurso a intuições e/ou crenças apenas parcialmente justificadas. moral ou eticamente orientada fornece uma solução sintética para os falsos dilemas morais introduzidas pela trajetória divergente dos embates filosóficos do século dezenove. um ato justificado é virtuoso se ele é capaz de convencer/persuadir interlocutores de sua virtude. O conceito de responsabilidade moral pelas virtudes requer uma explicitação da passagem da pessoa virtuosa ao ato virtuoso. ou até mesmo dogmáticas. a justificação privada não precisa atender a requisitos fortes de coerência na construção reflexiva de um concepção de boa vida. No plano da justificação privada. os requisitos de justificação são mais modestos. para que se constitua na interação um campo objetivo de conhecimento compartilhado pelos agentes em 108 . Em segundo lugar. pois do ponto de vista da produção de consensos normativos que permita que atores sociais levem adiante projetos coletivos de ação.

já que duas pessoas virtuosas podem julgá-lo de maneiras distintas. são mais exigentes. Inferências derivadas de proposições morais. refutáveis.62 De acordo com Gerald Gaus. Isto significa assumir que (a) sistemas de valores competitivos podem oferecer justificações razoáveis para proposições morais antagônicas. podem produzir interpretações divergentes. perante outros agentes. já que se trata de constituir uma visão ética do mundo que seja capaz de gerar uma concepção de boa vida compartilhada pela comunidade como um todo. a descrição dos atos em processo de justificação utilizada pelos agentes não precisa ser definitiva nem objetiva.109 interação. Esta premissa implica apenas que as regras de formação de consensos normativos não são trivialmente deriváveis das regras da lógica ou de uma teoria geral da interpretação. no entanto. Esta premissa implica somente que justificações públicas são sempre abertas. 109 . no entanto. Por fim. já que o processo de persuasão mútua não requer que aquela descrição permaneça válida em novos contextos. por estarem vinculadas a operadores verbais que exprimem responsabilidade moral. isto é. mas o fato delas sempre remeterem simultaneamente a um mundo intersubjetivo e a um mundo objetivo compartilhados pelos atores. 62 Percebam o paralelo entre esta premissa e o argumento da ética das virtudes de que um mesmo ato moral pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. a premissa mais parcimoniosa que podemos fazer é que existe uma pluralidade de doutrinas morais razoáveis no seio de uma comunidade política moderna. Os requisitos da justificação pública. e (b) uma mesma proposição moral pode ser justificada de diversas maneiras. isto não significa que precisamos aderir a um subjetivismo epistemológico ou a um relativismo moral. permite afirmar que a prática de justificação pública está submetida a determinadas regras. Do ponto de vista sociológico. Esta demanda adicional à atividade de justificação pública requer um modelo analítico mais rigoroso sobre o que constitui um ato moral justificado. no sentido forte do termo.

a validade deste princípio de sinceridade estabelece que toda justificação pública é necessariamente um processo aberto de argumentação: aquele que busca persuadir deve estar disposto a ser persuadido. Cambridge: Cambridge Univ. se assim considerarem necessário ou desejável. isto é. A conseqüência mais evidente desta segunda condição é que consensos normativos devem ser interpretados de uma perspectiva voluntarista. Expression and Meaning. o ator precisa acreditar em p e acreditar que p está justificada em seu sistema de valores. Mais que isso. este ator. Por um lado. John. há consenso 63 Ver Searle. precisa acreditar também que p é justificável no sistema de valores daquele interlocutor. A primeira regra consiste naquela que define quando justificações são vitoriosas. Press.63 Para que uma proposição p apresentada publicamente por um ator seja justificável. Além desta regra fundamental. presente em quase todas as éticas procedimentalistas (como as de Rawls e Habermas) e derivada do seminal trabalho de John Searle sobre a teoria dos atos de fala originalmente desenvolvida por John Austin. na medida em que engaja em justificação pública e busca persuadir um interlocutor. De acordo com Gaus. e portanto capaz de gerar um consenso. ela precisa satisfazer a duas condições. ela deve satisfazer a uma condição de publicidade. Para que uma justificação pública seja considerada vitoriosa. Uma teoria da justificação pública não pode presumir que um interlocutor que anuncia publicamente que foi persuadido por um argumento moral esteja iludido ou ignorante quanto à vitória da justificação apresentada por seu interlocutor. isto é. ela deve presumir que todo agente tem autoridade epistêmica sobre seu sistema de valores. 110 . 1979. Por outro lado.110 A principal destas regras é aquilo que ganhou o nome em uma vasta literatura de filosofia moral de um princípio de sinceridade. podemos falar em quatro outras regras relativas ao papel que justificações exercem na produção de consensos normativos. ela precisa estar disponível para que outros interlocutores procurem derrotá-la.

não encontra motivos para incorporar p ao seu sistema de valores. dizemos que a justificação de p está derrotada. em que a proposição p torna-se contraditória com aquele sistema de valores. mas perante um argumento moral de seu interlocutor. A importância de distinguir entre justificações vitoriosas e justificações derrotadas reside na necessidade de levar em conta um terceira regra. Se no sistema de valores de um agente a proposição p a princípio se justifica. Esta ausência de motivos para incorporar p ao seu sistema de valores pode se dar tanto pelo caráter inconclusivo da justificação apresentada. que não-p é vitoriosa nele.111 quando há persuasão efetiva e publicizada. Enquanto que justificações vitoriosas são imediatamente incorporadas ao sistema de valores do agente persuadido. o interlocutor. que define justificações não-derrotadas. 111 . neste contexto de abundância de razões. A segunda regra é aquela que define quando justificações estão derrotadas. A quarta regra aplica-se a justificações que. mas também não encontra razões que possam derrotá-la. derrotam proposições sem justificar necessariamente proposições contrárias. Isto não é o mesmo que dizer que a proposição não-p está justificada naquele sistema de valores. O agente que se diz persuadido deve ter a sua autoridade epistêmica sobre suas crenças preservada a qualquer custo. quanto pelo seu caráter indeterminado. isto é. a partir dos padrões de produção de persuasão por ele adotados. justificações não-derrotadas são simplesmente aquelas em que nem a aceitação nem a rejeição da proposição p se justifica. a ausência de encadeamentos lógicos que a torne uma conclusão necessária. já que é possível que p esteja derrotada e que não-p ainda seja incompatível ou indesejável no sistema de valores do agente. isto é. Neste caso. A nossa primeira intuição é pensar que esta indeterminação derivaria de uma escassez de motivos disponíveis para incorporar p¸ mas a situação epistemológica mais comum que a gera é a abundância de razões divergentes para aceitar ou não a proposição.

não-derrotadas. o liberalismo se justificaria não somente na prática intersubjetiva de argumentação. mas a refutação requer que ele ao menos suspenda juízo sobre p.112 Uma proposição p pode ser derrotada somente se houver uma justificação no sistema de valores do agente que derrota as razões que ele tinha para crer que p. se traduzem em uma responsabilidade moral em sermos liberais. Se admitirmos que nossas razões para crer em uma determinada proposição moral podem ser vitoriosa. uma ética articulada pelo conceito de zelo pelos nossos traços de caráter e pela sua transformação diante de argumentos persuasivos requer de nós um conjunto de atitudes públicas que. e talvez somente nele. e é precisamente por isto que torna-se necessário articular o problema da responsabilidade moral ao problema de como consensos são produzidos em práticas de justificação. Neste caso. já que seria perfeitamente possível determinar quais valores 112 . mas também no plano concreto das instituições normativas. ou até mesmo somente razões que derrotam outras proposições. Se isto fosse possível. pelo menos neste horizonte epistemológico. dizemos que a justificação da proposição p é derrotada por subversão. pois o agente pode continuar a crer em p pelos novos motivos introduzidos pelo seu interlocutor. uma justificação derrota p se ela não só derrota as razões para crer que p. Esta gramática da justificação aponta para o caráter necessariamente inconclusivo de todo processo de justificação pública. O agente não precisa necessariamente estar persuadido de não-p. mas constitui também razão para crer que não-p. A afirmação de determinados valores do republicanismo liberal moderno constitui uma responsabilidade do cidadão neste plano discursivo da formação de consensos porque não podemos jamais ter certeza de que a justificação para cada um de nossos valores é completa. conclusiva e determinada. combinadas. Mas uma proposição pode ser derrotada também por refutação. Neste caso. caso no qual a justificação seria vitoriosa em seu sistema de valores. derrotadas.

Agentes portadores de justificações que são capazes de derrotar normas/instituições coercitivas são moralmente responsáveis por trazê-las à público. Argumentar. portanto. uma vez que no horizonte de doutrinas plurais que sejam todas razoáveis. dispostas a se submeter à lógica da justificação pública de valores.113 são objetivamente justificáveis em uma determinada comunidade que compartilha de uma concepção da boa vida. já que direitos só podem resultar de um exercício responsável da autonomia pública. A autonomia privada é derivada desta na medida em que protege aquele que exerce sua autonomia pública da ingestão indevida de normas/instituições coercitivas. portanto. há um conjunto de virtudes cívicas as quais todo cidadão moralmente responsável deve aderir. Juntas. Justificações não-derrotadas devem estar imunes a normas/instituições coercitivas da comunidade. só se justifica como forma de evitar o anarquismo moral derivado do ceticismo e o dogmatismo moral derivado de 113 . Daí. Quando estas justificações são trazidas a público e derrotam normas/instituições coercitivas. no entanto. uma virtude. derrotadas ou não-derrotadas em momentos do passado é uma responsabilidade moral. isto é. lembrar de justificações vitoriosas. Estabelece. que só podem ser aplicadas quando são resultado de justificações vitoriosas. não sua co-determinação. portanto. e a participação cívica é também. produzem imunidades que cada cidadão detém vis-à-vis a comunidade. e cultivar a memória cívica é virtude. Da mesma maneira. a necessidade da tolerância enquanto virtude cívica. esta impossibilidade não nos remete necessariamente ao universo do ceticismo moral. como quase percebeu Habermas. a antecedência da autonomia pública sobre a autonomia privada. estas virtudes liberais. O liberalismo. e é somente desta forma que podemos conceber algo como uma esfera privada. quando articuladas no contexto discursivo da justificação pública. constituem uma concepção de autonomia do cidadão bastante distinta daquela que encontramos na tradição do republicanismo liberal moderno.

a ausência de compreensão mútua. William (eds.114 deontologias. “Reason. Na ética do discurso de Habermas. 1979. não são capazes de superar o liberalismo político de seu modelo de justificação. dado o seu caráter deontológico. Boston: Beacon Press. substituir a concepção racionalista de consenso com que Habermas opera através do recurso à situação ideal de fala por uma 64 Ver Gaus. “Political Liberalism” apud Gaus. Gerald. contratados e inalienáveis.64 O consenso que resulta da adoção ideal de papéis do procedimentalismo discursivo habermasiano é um consenso que se limita a compreensão mútua (Verständigung). apesar da compreensão mútua ser um pré-requisito necessário à produção de um consenso efetivo. sem que isso necessariamente implique na formação de um consenso efetivo. p. Justification and Consensus: Why Democracy Can’t Have It All” in Bohman. Precisamos.65 Como mostra Gaus. a opção de Habermas pela formulação ambígua da co-determinação destas autonomias resulta de uma concepção equivocada da noção de consenso. As condições impostas pelo horizonte normativo da situação ideal de fala são capazes de produzir esta compreensão mútua. Em parte. É possível ainda que um consenso efetivo seja alcançado sem que a compreensão mútua ocorra. no entanto. e não como uma doutrina política que define um rol de direitos humanos pré-políticos. com já apontaram Gerald Gaus e Charles Larmore. Deliberative Democracy: essays on Reason and Politics. mas implica simultaneamente.). Gerald. Justificatory Liberalism: an essay on epistemology and political theory. o princípio D estabelece a autonomia pública dos cidadãos. Em outras palavras. o liberalismo só se justifica enquanto uma doutrina de justificação. no estabelecimento da sua autonomia privada. e Habermas crê que a passagem dela para um consenso efetivo (Einverständnis) seja trivial. 65 Ver Habermas. no entanto. Oxford: Oxofrd Univ. É possível que dois agentes entendam as justificações reciprocamente apresentadas e até mesmo compreendam que uma outra é derrotada ou vitoriosa no seu sistema de valores. 1996. p. Charles. Press. epistemológica portanto. como faz Habermas.118 e Larmore. Jürgen. a existência de um dissenso não pode ser atribuída. 03 e segs. 114 . James e Rehg. portanto. Os elementos republicanistas da teoria habermasiana. Communication and the Evolution of Society.

mas no plano da negociação pública de um consenso efetivo. uma derivação. não basta. tornam-se o resultado. públicas. a ambigüidade da formulação “codeterminação da autonomia pública e privada” se desmancha em favor da prioridade da autonomia pública. Uma concepção verdadeiramente republicana de esfera pública requer que os cidadãos. O que garante esta tradução é uma adesão a um comportamento político orientado pela responsabilidade moral e a aplicação de uma gramática da justificação pública tal qual articuladas ao longo deste capítulo. Interesse continua não sendo virtude nem pode ser virtuoso. Fica mais claro agora também porque a esfera pública proposta por Habermas e discutida no capítulo três é incapaz de superar o paradigma da articulação dos interesses e o imperativo da representação. E neste processo. do exercício moralmente responsável das virtudes. que os cidadãos façam um uso público de sua razão prática. façam a necessária tradução destes interesses em argumentos universalizáveis e os expressem na forma de virtudes. isto é. ao invés de representarem seus interesses nesta esfera. é preciso que suas razões sejam. em condições reais e concretas. portanto. Uma vez introduzida esta concepção voluntarista de consenso. mas eles devem sempre ser articulados em justificações públicas e adquirir a aparência de virtudes. isto é.115 concepção voluntarista de consenso em que ele só é efetivamente produzido se todos os concernidos. elas mesmas. Direitos. como argumenta Habermas. do cumprimento dos deveres cívicos. consentem a norma proposta. 115 . como veremos no próximo capítulo. participem da esfera pública. pode se travestir de virtude e ter um papel importante. há lugar para os interesses no campo da política. Ou seja.

116 SÉTIMA LICÃO RAZÃO PÚBLICA E O USO PÚBLICO DA RAZÃO: UM INTERLÚDIO SOBRE O DEBATE HABERMAS-RAWLS 116 .

a nossa argumentação operou no plano ético das razões individuais que cidadãos articulam em contextos interativos. seja como interlocutores aliados ou inimigos. subseqüentemente. que o debate travado entre Habermas e Rawls ao longo dos anos noventa adquire centralidade. Nos anos oitenta Habermas encontrava-se imerso em um debate com o pós-modernismo. precisamos esclarecer como este consenso pode ser produzido neste contexto de pluralidade e complexidade. como pensar substantivamente quais são os tipos de argumentos válidos na construção de consensos normativos em uma sociedade complexa e plural. Até aqui. e que do ponto de vista político recusava-se a conceder quaisquer prerrogativas ao projeto reformista da social 117 . que culmina no livro O Discurso Filosófico da Modernidade (1989). no entanto. os permitam demandar direitos. em que escreve cerca de uma dúzia de ensaios sobre autores específicos que de alguma maneira organizavam o seu projeto. É precisamente na interpretação desta passagem da razão que justifica normas para o indivíduo que as segue.117 Em vista do conceito de responsabilidade moral e da gramática da justificação pública propostos no capítulo anterior. precisamos fazer a passagem da razão individual dos cidadãos para a razão coletiva que justifica e legitima instituições sociais. isto é. que obrigam os cidadãos ao exercício de deveres que. Se quisermos. para a razão coletiva que legitima instituições que vinculam e obrigam o cidadão. produzir razões capazes de serem convertidas em normas vinculantes. em uma sociedade onde coexistem uma pluralidade de doutrinas morais compreensivas e razoáveis? Em particular. temos um Habermas com olhos voltados primordialmente à França e ao desenvolvimento naquele país de uma filosofia com fortes raízes no estruturalismo. Naquele livro. se adotamos a concepção voluntarista de consenso proposta no final do capítulo anterior.

para o eixo Alemanha-América. 1996). Seus estudos voltam-se. Este é o Habermas que tem como marco o livro Facticidade e Validade. retoma seus debates com a filosofia moral de inspiração hermenêutica (por exemplo. o multiculturalismo e uma ruptura cultural definitiva com uma concepção monolítica da condição humana que havia prevalecido durante o período moderno que se punha no horizonte. do ponto de vista temático. 1998) e a resposta de Rawls a estes argumentos. Publicados originalmente no debate do Journal of Philosophy. para uma busca de novos pilares jurídicos para o projeto moderno e.118 democracia enquanto solução para aquilo que pareciam ser desafios insuperáveis da nova era. consiste em um avanço importante para o 118 . publicados como apêndice da segunda edição americana de O Liberalismo Político (Columbia. Habermas abandona este debate com os inimigos externos da modernidade e migra para um debate com os interlocutores internos àquele projeto. e em particular a sua crítica ao modelo neocontratualista de justificação do consenso racional sobreposto de Rawls. publicado em alemão em 1992. ainda que seja também uma concepção racional e não voluntarista de consenso. mas que a concepção de consenso de Habermas. do ponto de vista geográfico. quais sejam. Na década de noventa. no entanto. e na América do Norte estabelece um debate com a filosofia analítica de inspiração liberal (John Rawls. Joshua Cohen. Ronald Dworkin. os dois artigos de Habermas incluídos no volume The Inclusion of the Other (MIT. Na Alemanha. Karl Otto-Apel. e Albrecht Wellmer). e Charles Taylor). Argumentaremos neste capítulo que a solução de Rawls no plano do conceito de razão aproxima-se mais de uma solução verdadeiramente republicana. constituem momentos fundamentais da elucidação das concepções que estes autores têm deste problema. Klaus Günther.

Uma teoria da justiça travava contra o utilitarismo uma guerra em seu próprio campo.119 desenvolvimento de uma teoria política normativa orientada por um conceito voluntarista de consenso normativo. qual seja. Escrito em um período de profundas revisões do ideário liberal. Da Razão Individual à Razão Pública Poucos livros marcaram a trajetória do pensamento político contemporâneo como A Theory of Justice. Rawls publica o livro Political Liberalism. ainda que modesto. Na defesa que Nozick faz de um liberalismo centrado unicamente na preservação de direitos de propriedade. Sem abdicar de uma concepção de pessoa definida pela maximização racional da utilidade individual. Vinte e dois anos depois. o livro contém importantes revisões dos temas de Uma teoria da justiça. Uma das primeiras críticas à Rawls foi formulada pelo libertarianismo. representada por autores como Robert Nozick. da política social dos Estados Unidos do New Deal de Roosevelt ao Great Society de Johnson. a partir das críticas que a sua teoria recebeu durante este período. Resultado de reflexões e ensaios escritos durante este hiato. O tema central da obra permanece o mesmo que imprimiu o tom liberal-progressivo do livro de 1971. publicado pela primeira vez em 1971. a explicitação de uma teoria procedimental da justiça tendo como eixo dois princípios deontologicamente elaborados a partir do recurso a um modelo neocontratualista de justificação. Rawls 119 . de John Rawls. Rawls encontrou naquele livro uma forma elegante de defender a versão mais progressista do liberalismo norte-americano e o conjunto de instituições públicas que moldavam o distributivismo. O Liberalismo Político marca a aproximação de John Rawls ao discurso liberalrepublicano de diversos de seus alunos e interlocutores.

e Oakeshott). Entre os autores comunitaristas com os quais Rawls dialoga. intituladas Kantian Constructivism in Moral Theory. advogado de uma versão do liberalismo que punha em risco o próprio conceito de liberdade. e é por isto que Rawls ressalta o caráter político. A crítica gestada nos círculos comunitaristas. publicadas no 120 . Rawls reafirma o aspecto deontológico de sua teoria. Para Rawls.120 figura como o principal inimigo teórico. no adjetivo “igual”. é impossível construir um conceito de justiça a partir do conceito de comunidade e dos valores ético-morais que pudessem ser atribuídos à ela. dado que as sociedades contemporâneas são complexas e plurais do ponto de vista moral. e argumenta que. sem dúvida. porém. tendo como referência a crítica destes autores. Ele defende a prioridade de princípios de justiça sobre princípios éticos. Sandel. pois o primeiro princípio da justiça na teoria de Rawls de fato estabelece a liberdade igual de todos os membros da sociedade. pois submetia a sua preservação à igualdade na liberdade. e há somente uma curta passagem na última parte de O liberalismo político que discute o libertarianismo. por outro lado. Durante as duas décadas que separam seus dois livros. e a ênfase recai. A apresentação que Nozick faz da teoria rawlsiana é fiel. destacam-se “três Michaels” (Walzer. Em dois ensaios de Justiça e democracia e em O liberalismo político. O que confere à reformulação da teoria rawlsiana em O liberalismo político o seu aspecto mais marcante é a terceira conferência. Rawls pouco dialogou com estes críticos. a defesa incondicional da liberdade e da propriedade feita pelo libertarianismo nunca figurou como uma posição difícil de ser refutada. sempre mereceu uma maior atenção de Rawls. de sua concepção de justiça. fruto de três conferências proferidas por Rawls em 1980. e não moral. Este pluralismo de doutrinas morais compreensíveis nas sociedades contemporâneas resulta na necessidade de se produzir um conceito de justiça que possa ser amplamente aceito.

interessa apenas o pluralismo de doutrinas morais razoáveis.121 Brasil na coletânea Justiça e Democracia (Martins Fontes. enquanto que entre doutrinas razoáveis sempre é possível produzir o 121 . não é somente uma constatação empírico-sociológica sobre o nosso tempo. portanto. Para Rawls. a construção dos princípios da justiça requer o uso da razão prática e do princípio de razoabilidade que nela opera. assim como Habermas. dadas as suas condições e instituições. Elas são plurais e complexas. Este pluralismo de doutrinas morais compreensivas. coexistindo em seu interior diversas doutrinas morais compreensivas. a impossibilidade de se chegar a acordos políticos ou morais através de argumentos sobre o que é verdadeiro. que define também o debate que Rawls trava com o multiculturalismo e com a teoria habermasiana. Para Rawls. explica Rawls. quais sejam. Rawls converge com o multiculturalismo e com Habermas em seu diagnóstico sociológico sobre a condição políticas das sociedades contemporâneas. mas também um atributo necessário da cultura da democracia. Mais uma vez. Rawls ressalta o caráter construtivista de seu modelo. e não da razão teórica e de seus postulados lógico-racionais. distanciando-se do arcabouço da teoria das escolhas racionais. sejam elas razoáveis ou não. entre doutrinas morais compreensivas que não são razoáveis. e propõe uma forte demarcação entre razão teórica e razão prática que estava ausente de Uma teoria da justiça. diverge do multiculturalismo sobre as conseqüências deste diagnóstico. A agenda do multiculturalismo é definida pela afirmação dos direitos coletivos que resultam da diversidade de doutrinas compreensivas. É esta prioridade do acordo razoável (e não racional). desde que elas sejam racionais. o consenso depende da convergência moral sobre o que é verdadeiro. 2000). a distinção entre o racional e o razoável é crucial ao argumento de Rawls pois. Mas Rawls. daquelas que atestam para os limites do juízo e que admitem. formado pela capacidade dos indivíduos determinarem o que é justo e pela sua sensibilidade moral para a cooperação eqüitativa.

e está interessado na esfera política. O caminho analítico que leva Rawls a este conceito de razão pública inicia-se na distinção entre razão individual e razão coletiva. por outro lado. Rawls. com razões que sejam aceitáveis para uma miríade de doutrinas morais compreensivas que sejam razoáveis. a versão de O liberalismo político volta-se a razoabilidade dos agentes. O conceito de razão pública exposto por Rawls na conferência VI de O liberalismo político é “pública” na medida em que: (1) envolve a razão dos cidadãos. portanto.122 que Rawls chama de consenso sobreposto. onde é permitida somente a ação virtuosa do cidadão e a articulação de razões que sejam públicas em forma e conteúdo. tal concepção da razão pública parece aproximar Rawls dos argumentos habermasianos sobre a esfera pública e o uso público da razão requerido por esta esfera. o uso público da razão proposto por Habermas admite a apresentação de razões particulares (racionais e interessadas) na esfera pública. Enquanto que a razão pública opera somente com razões políticas. é mais kantiano. e (3) sua natureza e conceitos são públicos. A razão individual consiste de uma faculdade moral e intelectual de todos os homens. (2) seu objeto é o bem do público. a articulação de interesses privados na esfera pública. A contenda de Habermas com Rawls também é marcada por esta distinção entre o razoável e o racional. isto é. e deles se limitarem a utilizar a razão pública na produção daquele consenso. Mas existe uma diferença crucial entre o conceito de razão pública em Rawls e o conceito de uso público da razão em Habermas. Enquanto que a versão do consenso sobreposto de Uma teoria da justiça dependia somente da racionalidade dos agentes. À primeira vista. Em outras palavras. enquanto que a razão coletiva é a 122 . e não dos indivíduos particulares tomados isoladamente. Habermas opera no horizonte da tradição hegeliana de interpretação da sociedade civil e admite.

214. justificações públicas apresentadas nestes espaços sociais. 1993. e toma decisões. portanto. para usar a expressão adotada por Habermas. O liberalismo propõe defender direitos não só de indivíduos. Uma manifestação particular da idéia de razão coletiva é o conceito de razão pública: é a razão de cidadãos que compartilham o status de cidadania igual. mas também de 66 Rawls. De acordo com Rawls. exercendo poder político e coercitivo final uns sobre os outros no processo de produzir leis e emendar a constituição. Afinal. Fica evidentemente mais fácil enxergar porque a razão pública deva operar para legisladores e magistrados. ordena seus fins. Political Liberalism.66 Existem outras razões coletivas associadas a instituições particulares ou da sociedade civil. no entanto. já que as motivações pelas quais estes cidadãos podem ser responsabilizados são motivações privadas. 123 . mas não da razão pública. dizemos que eles fazem “uso público da razão”. mas sim um horizonte normativo do que é necessário para a realização do conceito político de justiça proposto por Rawls. aquela associada com o exercício coletivo da soberania democrática. não é a primeira que é peculiar a uma teoria política liberal mas sim a segunda.123 maneira como um determinado corpo coletivo formula seus planos. na interação entre os cidadãos. mas somente para a atividade pública no fórum público destes cidadãos. New York: Columbia University Press. Esta razão governa tanto as atividades das instituições políticonormativas quanto discussões da esfera pública. Só é pública. que precisam justificar suas decisões junto ao coletivo. Rawls elege articulá-la a partir da dicotomia público-não público. Entretanto. Esta idéia de razão pública não se aplica às deliberações e reflexões individuais dos cidadãos. Nestes casos. Esta não é matéria de legislação. do que enxergar porque ela deva operar na esfera pública. John. governa. p. há inúmeras ocasiões em que cidadãos apresentam reivindicações ou opiniões na esfera pública em que articulam interesses. privados ou coletivos. ao invés de elaborar o conceito de razão publica a partir da dicotomia público-privado.

a prioridade destes direitos. Assim. liberdades e oportunidades. Por exemplo.67 Em seu aspecto formal. o conteúdo da razão pública são os próprios princípios da justiça por ele expostos. minorias. enquanto que a outra só coage os que livremente associam-se ao coletivo em questão. 124 . de acordo com Rawls. ela obriga a todos os cidadãos e gera deveres. Enfim. a distinção relevante é entre o público. Rawls se pergunta: qual é o conteúdo da razão pública? Rawls divide o conteúdo da razão pública em seu aspecto substantivo e em seu aspecto formal. a principal diferença entre razões não-públicas e a razão pública é o fato de que a última é coercitiva. Mas procedimentos e métodos diferentes de racionalização operam em diferentes coletivos não-públicos. devem operar regras de argumentação de três tipos. etc. mas somente uma razão pública. no entanto. que também requer regras deste tipo. etc. liberdades e oportunidades. e as condições necessárias aos cidadãos para o exercício destes direitos. que diz respeito a todos os cidadãos. diversas maneiras de justificar reivindicações de partes da sociedade. Livre. O que é comum a todas as razões coletivas são os imperativos da razão enquanto faculdade humana: o conceito de juízo. ou seja. mas as regras de cada uma são diferentes. existe uma razão jurídica. que diz respeito a apenas uma parte deles. grupos. liberdades e oportunidade básicos para todos. assim como uma razão científica. expressos agora. ver a conferência um de Political Liberalism. e o não-público.124 associações privadas. isto é. Em seu aspecto substantivo. Existem diversas razões não-públicas. Feita a distinção entre razão pública e razões não-públicas. a existência de regras de evidência. no sentido que o direito de 67 Para a formulação revisada dos dois princípios da justiça de Rawls. princípios de inferência. que requer regras de evidência. O fato que ambas têm regras deste tipo habilita-as como razões. de uma nova maneira: os direitos. A primeira delas é inerente à própria idéia de público: o debate e a investigação sobre os princípios substantivos devem ser livres e abertos.

ou seja. têm na constituição de um liberalismo no plano das justificações. entretanto. a disposição de argüir através das regras da razão individual aceitas pelo senso comum. e a obrigação de ouvir aos outros com a disposição de ser convencido pelo melhor argumento. Entretanto. e de só incluir como pressupostos neste debate aquelas crenças aceitas pelo senso comum.125 expressar opiniões livremente deve pertencer igualmente a todos os cidadãos. a regra da razoabilidade aparece articulada no próprio conceito de justificação pública proposto por aquele autor. 125 . Eu tenho dúvida. Enquanto que o modelo de Gaus articula as duas primeiras regras de Rawls em termos de tolerância e participação. aberto. se realmente este caso se aplica. e a responsabilidade moral dos cidadãos para com ela. a obrigação de explicar aos outros as posições assumidas de maneira que possam persuadi-las. cuja preocupação excessiva com as formas institucionalizadas do exercício da razão pública. o torna oblívio ao papel que a memória cívica não-institucionalizada. ou seja. Já a virtude da memória cívica proposta por Gaus é um tema ausente da perspectiva de Rawls. tais como as cortes constitucionais e o parlamento. 68 Rawls acrescenta neste terceiro ponto o uso dos métodos e conclusões da ciência quando estes não são controversos. nota-se que elas convergem na necessidade de afirmar um conjunto de virtudes cívicas liberais no plano da justificação de argumentos normativos trazidos ao debate público. A terceira é a regra da “razoabilidade”. Rawls avança quando amplia o seu âmbito a uma esfera não-pública que inclui razões coletivas que extrapolam o privado. porque os canais para a expressão destas opiniões devem estar disponíveis a eles. pois a crença na ciência como um todo. não é necessariamente uma crença do senso comum vigente. A segunda é aquilo que Rawls chamou de obrigação de civilidade. como forma de explicar a natureza do mundo. ou seja. Gaus limita-se a conceber as imunidades que resultam daquela gramática em termos de uma esfera privada.68 Se compararmos estas três regras à gramática da justificação pública proposta no capítulo anterior.

Enquanto que o conceito de justiça como eqüidade introduzido por Rawls em Uma teoria da justiça ainda era uma concepção substantiva de justiça. Nos termos de Rawls. pois dependia de princípios gerados por um consenso. os dois autores convergem do ponto de vista concreto porque o conteúdo formal da razão pública rawlsiana – a liberdade de discussão. Em suma. destes argumentos estarem referidos a formas de justificação disponíveis a todos. Isto não quer dizer que não se podem fundamentar opiniões com base em doutrinas morais compreensivas. Em contraste com a teoria habermasiana e seu conceito de “uso público da razão”. isto é. ou seja. com o ethos da comunidade política. neste sentido. somente são válidas aquelas doutrinas compreensivas que sejam razoáveis. capazes de apoiar um balanço razoável de valores políticos independentemente de estarem ou não fundamentadas naquela doutrina. somente votos e opiniões que expressam justificações sobre a melhor maneira de avançar o bem-comum. sobre os quais sujeitos transcendentais 126 . a obrigação de civilidade e razoabilidade – produz uma concepção pública de deliberação onde se rejeita. ao mesmo tempo moral e racional. votos e opiniões éticos. em contrapartida. para Rawls só são válidos argumentos públicos que dialoguem com aquilo que é de conhecimento e aceitação geral. a teoria de Rawls e seu conceito de razão pública reforça o viés republicano de uma teoria política normativa para os nossos tempos. mas apenas que a aceitabilidade de argumentos nos processos de produção de consensos normativos depende. necessariamente. votos ou opiniões que expressam interesses ou votos que expressam concepções particulares da verdade. mas uma opinião ou um voto somente é válido se sua justificação não depender daquela fundamentação.126 De toda forma. estas justificações devem ser auto-sustentadas (freestanding) em relação àquelas doutrinas e. ou seja. Afirmam-se como legítimos. por exemplo. Isto não significa uma compulsoriedade vis-à-vis o senso comum.

o conceito de justiça de O liberalismo político é uma concepção mais formal. Em Rawls. os princípios da ética do discurso do Habermas são mais específicos e mais precisos que os princípios de Rawls. Com o conceito de razão pública. A teoria rawlsiana da justiça é. Rawls resgata a sua teoria da justiça do resíduo moral-substantivo que a definia em 1971. Justice as Fairness. Rawls ainda acredita que pode operacionalizar o ponto de vista moral necessário a produção de princípios de justiça da perspectiva de um hipotético construtivista em que preferências e interesses individuais geram princípios virtuosos. Mas. de acordo com Habermas. depois consolidado em O Liberalismo Político. em que ele abandona a interlocução com o utilitarismo e concede que a razão de cidadãos autônomos não pode ser reduzida às escolhas racionais condicionadas por preferências subjetivas. Mas. 127 . como veremos. como Habermas bem o sabe. Habermas observa o corte revisionista que Rawls faz neste empreendimento em um artigo de 1985. o conceito da “posição original” tem como objetivo é mostrar a possibilidade de derivar princípios de justiça dos interesses bem compreendidos de indivíduos racionais buscando um sistema eqüitativo de cooperação. não podemos inteiramente compartilhar fora da América do Norte. portanto.127 abstraídos de suas condições sociais concretas hipoteticamente acordariam. enquanto tábua de salvação procedimental. A Crítica Habermasiana a Rawls A crítica de Habermas à Rawls nos dois artigos compilados em The Inclusion of the Other concentra-se em três conceitos centrais a teoria da justiça como eqüidade: posição original. Rawls tem uma confiança intuitiva na cultura liberal americana da qual. parte de uma teoria mais geral da escolha racional. bens primários e consenso sobreposto.

que eles podem ser obrigados a assumir deveres e a serem leais sob estes princípios. autonomia esta que eles 128 . Habermas argumenta que não. portanto. esta insistência na idéia da posição original e na solução contratualista a la Adam Smith que ela implica (i. não têm uma coisa nem outra. por exemplo. Em primeiro lugar. e (b) que eles têm alguma concepção do bem. Mas eles mesmos. tem três conseqüências indesejáveis. vícios privados podem gerar virtudes públicas).128 Para Habermas. com base somente em um cálculo egoísta e racional? Pode o véu da ignorância garantir a imparcialidade dos julgamentos que os representantes fazem? A noção de representantes dos cidadãos na posição original pressupõe duas coisas: (a) que os cidadãos que eles representam têm interesses que eles estão dispostos a justificar racionalmente. Precisariam saber.. já que devem agir de maneira estritamente racional egoísta em busca dos interesses de seus representados. que levam em conta o interesse que seus clientes têm em viver sob princípios justos – estes representantes precisariam saber algo mais sobre seus representados. os representantes da posição original precisariam saber e levar a sério as conseqüências da autonomia dos cidadãos. e que portanto têm uma moralidade que os permite agir de maneira virtuosa. precisariam também estar ou serem convencidos da legitimidade e conformidade de políticas públicas e arranjos sociais com base nestes princípios. Em outras palavras. compreender os interesses mais importantes dos clientes-cidadãos que eles representam. Enquanto que Rawls acredita que estes representantes serão capazes nestas condições de escolha racional de chegar a um acordo sobre princípios de justiça. naquela condição de representantes. pois para que eles acordem sobre princípios de justiça – princípios. colocam-se de imediato as seguintes questões: Podem os representantes na posição original.e. em um esquema cooperativo. dado que estão postos sob um véu de ignorância sobre suas condições sociais concretas.

conhecer não só os procedimentos da racionalidade egoísta e a existência de concepções do bem entre seus representados. mas também os mecanismos de “assumir a perspectiva do outro” que são necessários para que o cidadão possa agir de maneira justa e autônoma. o conceito de “bens primários”. qualquer questão normativa colocada diante deles deve ser compreendida em termos de interesses e valores que eles interpretam como sendo bens desejáveis. e não somente de maneira egoísta. então todo o propósito da posição original – fundamentar uma concepção de justiça a partir de escolhas racionais sob condições objetivas hipoteticamente construídas – fica perdido. Mas se introduzimos este elemento de moralidade no desenho da posição original e no conhecimento que os representantes têm sobre seus clientes. não direitos. para solucioná-lo. Rawls reconhece este imperativo e introduz. Os direitos básicos que emergem dos dois princípios de justiça são. portanto. aqueles meios necessários para que os cidadãos representados possam levar adiante seus planos de vida. portanto. do tipo de teoria que ele supostamente está defendendo. alguma coisa que é boa para mim. qual 129 . Isto nos leva à segunda questão: na medida em que os representantes da posição original estão presos a uma perspectiva da primeira pessoa. Estes representantes precisariam. isto é. uma teoria da escolha não pode fundamentar sozinha uma teoria da justiça – um ponto de vista moral generalizável não pode ser construído em bases puramente racional-egoístas. Em suma. portanto. e é neste sentido que Habermas acusa Rawls de se aproximar das éticas moralistas que argumentam a favor de uma concepção de bem que oriente questões de justiça.129 mesmos enquanto representantes não têm. Distancia-se. Um bem é algo que eu quero. bens primários. pois as virtudes necessárias à instituição daquele ponto de vista em práticas concretas dos cidadãos não são deriváveis de condições racional-instrumentais com aquelas em que se encontram os representantes da posição original.

a distinção entre igualdade formal (objeto do primeiro princípio) e igualdade substantiva (objeto dos princípios subseqüentes) só faz sentido se estamos em um esquema estritamente deontológico no qual a igualdade formal não é um bem mas um direito. O sentido do conceito de 130 . não está defendendo a tese republicana que deveres devem anteceder direitos. tal argumento dificilmente se sustenta. anterior à distribuição dos outros bens primários regulados pelos outros princípios de justiça. com esta crítica a Rawls. Uma concepção forte de direitos não pode ser assimilada a uma concepção de bens primários. da perspectiva do representante egoísta-racional do cidadão. Percebam que Habermas. direitos não podem ser possuídos como propriedade. Rawls tenta resolver este problema outorgando ao bem primário da liberdade igual para todos a condição de primeiro princípio. enquanto bem. uma deontologia onde questões sobre justiça têm prioridade sobre questões relativas ao bem. tal qual faz Rawls. Perante o fato da diversidade cultural de sociedades plurais e complexas. mas apenas que direitos só podem ser gozados se exercitados. pois nada garante que na estrutura de preferências de um agente racional-egoísta. pois direitos regulam relações entre pessoas. isto é. Em outras palavras. Ou seja. porque ele arbitrariamente converte o justo. em um bem maior que os outros bens. da perspectiva da estrutura de preferências da cultura na qual está inserido. fica muito difícil justificar que. O ponto é que direitos não podem ser tratados como bens. argumento que ele deriva de Charles Taylor. Rawls só consegue estabelecer a prioridade do justo sobre o bem. dificilmente ele preferirá ser igualmente pouco livre aos demais a ter participação igual nos bens que a sociedade possui. Mas se a liberdade igual de todos também será interpretada. não relações entre pessoas e objetos. o bem da liberdade igual terá prioridade sobre o bem da igualdade de recursos para levar adiante seu plano de vida.130 seja. como faz Rawls. pois se ele é orientado pelos seus interesses. ele preferirá liberdade igual para todos.

Rawls cai. Assim. e não valores preferidos. portanto. Mas se os princípios de 131 . da perspectiva habermasiana. Rawls pressupõe um determinado ordenamento ao assumir que os representantes escolheriam os direitos constituídos na posição original enquanto bens que seus clientes desejam. Chegamos então à terceira questão. valores ou bens são cumpridos somente através da decisão racional e instrumental do ator que deseja os resultados do seu cumprimento. não por propósitos e intenções do agente. em um argumento teleológico quando afirma que direitos serão constituídos enquanto bens primários que todos preferem. Enquanto que normas obrigam porque são consideradas válidas (e desobrigam porque são inválidas). valores obrigam somente na medida em que se prefere uma coisa a outra. que precisam respeitá-los. valores orientam decisões sobre o que é mais desejável fazer. E na medida em que preferências por valores refletem uma avaliação e um ordenamento de preferências que é culturalmente circunscrito. normas consideradas válidas obrigam. Em suma.131 direitos em uma teoria deontológica é que eles constituem normas obrigatórias (deveres) sobre os outros. O véu da ignorância rawlsiano é instituído precisamente para garantir que a diversidade de sociedades plurais e complexas não afete as decisões racionais dos representantes dos cidadãos. normas obedecem a uma chave binária (válida e inválida). ou seja. se os representantes dos cidadãos instituem direitos básicos só porque preferem estes direitos a outras preferências possíveis. normas são governadas por regras. os cidadãos não são obrigados a respeitar os direitos dos outros se têm preferências diferentes. e não uma estrutura de preferências gradualmente ordenada. Enquanto que normas são cumpridas pelos agentes enquanto cumprimento de expectativas comportamentais esperadas (aquele que cumpre uma norma não precisa saber que é a norma que orienta sua ação). normas orientam decisões sobre o que se deve fazer. e não precisam ser desejadas.

A solução de Rawls para este problema é o conceito de consenso sobreposto. sozinha. e com razão. Se estas normas não estiverem presentes.132 justiça gerados para garantir esta convivência são escolhidos pelos representantes enquanto bens que eles preferem. os cidadãos. Mas o problema é que. não adianta preferir alguma coisa se não se tem a certeza de que se terá esta coisa. E se estas normas são introduzidas na posição original. Eles precisam conhecer algo sobre os conteúdos normativos (no sentido de normas. não de valores) que permitirão aos seus clientes conviver como cidadãos iguais e livres. este conceito em Rawls é interessante. Mas como garantir que estes princípios serão efetivamente aceitos? Rawls acredita que eles produzirão o consenso sobreposto. Este é o momento do consenso sobreposto. se foi efetivamente a noção de tolerância mútua. e serão efetivamente aceitos. Para Habermas. Em um primeiro momento. por enxergarem nestes princípios a neutralidade exigida para a coexistência das suas doutrinas. produzem juízos morais ponderados que os levam a reafirmar estes princípios no contexto do pluralismo de doutrinas morais compreensivas. confunde a idéia de que algo é aceitável porque é justificável com a noção de aceitação efetiva. ao fazê-lo. mas aqui o problema é que Rawls apóia-se em uma concepção quase pré-moderna de neutralidade. que está associada à idéia de tolerância mútua que deu origem ao liberalismo moderno e que deu o seu conteúdo moral nas guerras religiosas do século XVI e XVII. de carne e osso. Em um segundo momento. os representantes da posição original produzem os princípios da justiça. O consenso hipotético da posição original gera algo que é aceitável porque é justificável. Habermas se pergunta. porque eles são neutros em relação às doutrinas morais compreensivas. que 132 . então nada garante que as condições do véu de ignorância bastarão para que eles prefiram aqueles princípios. pois traz o consenso hipotético da posição original para o mundo concreto. o véu de ignorância deixa de ser ignorante e de ter importância para o argumento.

Não existe nenhum espaço na teoria de Rawls para compreender-se o processo efetivo de interação política entre os cidadãos de carne e osso como sendo um processo aberto. O consenso sobreposto não é um consenso efetivo. Enfim. em uma outra doutrina compreensiva). não a tolerância religiosa. se para acabar com elas não foi também necessário pressupor que a “neutralidade” sustentava-se em uma outra concepção moral (e portanto. tem apenas a função de outorgar estabilidade ao que já foi acordado hipoteticamente na posição original. ou. e não somente racionais. se o objetivo a ser perseguido por aqueles buscando formular um teoria da justiça ainda é o projeto que definiu a trajetória de Kant 133 .133 produziu o fim daquelas guerras. a secularização é a dinâmica fundamental de estruturação da doutrina liberal. e quem sabe alterar aquilo que seus representantes na posição original acordaram racionalmente. não é capaz de tornar princípios aceitáveis em princípios efetivamente aceitos. pelo contrário. O conceito de razão pública em Rawls. voluntarista. acaba por operar somente enquanto mecanismo para a produção da estabilidade política dos princípios gerados no consenso hipotético da posição original. sujeito a revisões. em que os princípios acordados na posição original possam sofrer modificações e/ou até mesmo serem abandonados. portanto. diferente dos representantes da posição original. A idéia do consenso sobreposto em Rawls. ainda que introduza um elemento republicanista vital a uma teoria política normativa. como conclui Habermas. se o uso da razão pública ocorre através de ponderações dos cidadãos que. fazer ajustes finos. Além disso. são razoáveis. então cidadãos ansiosos por exercerem sua prudência e razão prática ficarão extremamente decepcionados se não puderem revisar. inclusive constitucionais. cuja principal característica era precisamente fazer um argumento moral que não dependia de doutrinas compreensivas? Para Habermas. tal qual ele argumenta nas Tanner Lectures.

capítulo 6. 70 Para o conceito de razão pública. Jürgen. isto se traduz no princípio (U) da ética do discurso. é que o conceito de “uso público da razão” que Habermas propõe como alternativa ao conceito de razão pública em Rawls subverte esta possibilidade. o caráter universalizável da norma proposta é que define o seu caráter público e é condição suficiente para sua validade enquanto justificação pública. porque travestidas na forma de um interesse de todos. isto é. ver Rawls. 86. Do ponto de vista dos mecanismos sociais de produção de consensos concretos. Moral Consciousness and Communicative Action. Na teoria rawlsiana. que (possivelmente) resultarem para a satisfação dos interesses de cada um dos indivíduos do fato de ser ela universalmente seguida. 134 . Cambridge: MIT Press. por outro lado. O problema.134 e Rousseau – conciliar uma concepção antiga da liberdade (autonomia pública – republicanismo) com uma concepção moderna da liberdade (autonomia privada – liberalismo) – Rawls acaba sacrificando a primeira em nome da segunda. os princípios de justificação devem obedecer a um critério de publicidade que permita diferenciar os mecanismos de articulação de interesses dos mecanismos de articulação de razões imbuídas deste princípio de publicidade. há um corte entre razões aparentemente públicas. Habermas quer uma teoria da justiça em que autonomia pública e privada coexistam e se justifiquem mutuamente. Political Liberalism. no entanto. Na teoria habermasiana. razões de indivíduos que compartilham a condição de cidadãos iguais.70 Se para Habermas razões 69 Habermas. p. Habermas quer mais que isto.69 Ou seja. segundo o qual toda norma deve satisfazer a condição que as “conseqüências e efeitos colaterais. John. tudo que Rawls nos oferece é um mecanismo para a produção de estabilidade e legitimidade política para as instituições já existentes e vigentes. 1989. Como vimos no capítulo anterior. possam ser aceitos por todos os concernidos (e preferidos a todas as conseqüências das possibilidades alternativas e conhecidas de regragem)”. e razões efetivamente públicas.

mas como veremos no capítulo seguinte. uma vez que estabelece um horizonte republicano mais claramente demarcado para o conteúdo dos princípios de justificação e aplicação articulados na deliberação pública. a formulação habermasiana. Como argumentamos no terceiro capítulo. para Rawls somente razões articuladas na forma de virtudes cívicas satisfazem esta condição.135 articuladas na forma de interesses universalizáveis satisfazem a condição de publicidade. incorre no risco de sucumbir a uma concepção pluralista da democracia. Parece-me que temos bons motivos para restringir o conteúdo dos princípios de justificação de normas que são trazidos à deliberação pública àqueles princípios que buscam consensos que traduzem concepções do bem comum. É por isso que eu tendo a preferir a formulação rawlsiana deste problema. em que uma estrutura de direitos básicos e uma esfera pública aberta a participação de todos é complemento suficiente à democracia representativa. As críticas de Habermas à teoria da justiça de Rawls são contundentes e válidas. não determinando a priori. a ética do discurso habermasiana tem conseqüências para a produção de uma teoria da justiça que comprometem teoria política de Habermas. Ou seja. O consenso discursivo com que opera o filósofo alemão retira o mito de origem do contratualismo que sobrevive em Rawls. deixando assimetrias pré-existentes no subsistema econômico intocadas e como os principais determinantes da eficácia e legitimidade democrática das instituições jurídicas e políticas. o que determina a racionalidade de um consenso é o fato dele ter sido derivado 135 . mas eleva o próprio princípio discursivo através do qual se chega (ou não) a este consenso ao estatuto de procedimento que determina o critério de racionalidade de qualquer consenso. estimulada sem dúvida pelo ímpeto de valorizar o papel democrático dos movimentos sociais da sociedade civil que apresentam agendas de interesses universalizáveis na esfera pública. portanto. a substância do consenso racional possível.

como veremos. é que pouco sobra de moralidade no excessivo procedimentalismo que a teoria da justiça de Habermas adota. Habermas acredita assim ter “limpado” a deontologia dos resquícios substantivistas que sobrevivem na sua construção monológica rawlsiana. e a justiça acaba. independente de seu conteúdo moral. entretanto. somente uma determinação formal explicita o conteúdo mínimo da consciência moral do cidadão habermasiano. 136 . já que qualquer norma derivada dialogicamente em interações sem coerção torna-se legítima. Como aponta Wellmer (1992). sacrificada em nome da democracia. Portanto. deste vazio normativo resulta que só podemos julgar circunstâncias sociais factuais através dos procedimentos discursivos.136 discursivamente. em condições de liberdade e igualdade entre os agentes que interagem concretamente. O problema.

137 OITAVO CAPÍTULO JUSTIÇA E JUSTIFICAÇÃO: DA FILOSOFIA DA LINGUAGEM À TEORIA POLÍTICA 137 .

Leonardo e Domingues. certas teorias políticas passaram a fundamentar suas concepções da justiça a partir de uma filosofia da linguagem. UFMG.138 . que traduzida aos vernáculos neolatinos nos dá a palavra justiça. que guarda um parentesco distante com o verbo yu do sânscrito. 138 .o motivo original para a instauração da justiça é o auto-interesse. ou tornar puro. sempre foi utilizada em teoria política para designar a virtude de uma determinada ordenação das relações sociais. Após a chamada “virada lingüística”. mas a fonte de sua aprovação moral é a ‘simpatia como o interesse público.. para a raiz etimológica comum das palavras “justiça” e “justificação”. antes de tudo. Percebam como no sentido geral da palavra justiça ainda está presente a noção de justificação.). 2000. Teoria Social e Modernidade no Brasil. remetendo usualmente à articulação verbal dos motivos para uma assertiva ou um ato. Já a expressão do latim iustitia. A expressão do latim iustificare. José Maurício (orgs. O significado moderno da expressão na filosofia da linguagem retém pouco daquele significado religioso. Hoje em dia. a partir da qual a filosofia da linguagem assumiu o estatuto de primeiro alicerce da construção de sistemas filosóficos. que significa juntar-se. de onde emerge a palavra justificação. no entanto. Afinal. era utilizada freqüentemente pelos teólogos cristãos da alta idade média como sinônimo de purgare.’ David Hume (Tratado sobre o Entendimento Humano) A compreensão da relação entre o conceito de justiça e democracia na teoria política de Habermas requer que retomemos a discussão do conceito de justificação na filosofia da linguagem e que atentemos. uma determinada ordenação das relações sociais é justa se ela é justificável a partir de um conjunto de valores generalizáveis. a relação entre as duas expressões é mais do que um mero problema semântico.. Na teoria de Habermas a interpretação da 71 Este capítulo é uma versão revisada do texto “Justificação e Justiça: da Filosofia da Linguagem à Teoria Política” originalmente publicado em Avritzer.71 As duas palavras são originárias da expressão ius do latim. Belo Horizonte: Ed.

O resultado destes equívocos é uma interpretação da justiça que não consegue resolver a cisão entre moral e ética da interpretação liberal do modelo deontológico kantiano. pois o procedimentalismo de sua pragmática universal acaba por 139 . ao ignorar a relação intricada entre justificações. Jürgen Habermas recorre a uma concepção procedimentalista de direitos e uma concepção “sociologizada” da relação entre o sistema do direito e os imperativos de integração social em sociedades complexas. escusas e “ideal role-taking” (“adoção ideal de papéis”). isto é. dois equívocos: um lingüístico. articular uma teoria política procedimentalista que consiga superar os dilemas e conflitos substantivo-morais típicos de sociedades complexas e plurais. Ao por em movimento sua virada pragmático-linguística na busca de uma interpretação para a ética e para a moral. Este capítulo discute a relação entre justiça e justificação na teoria de Habermas para mostrar que sua ética do discurso. esbarra nos mesmos limites do modelo liberal por ele tão frequentemente criticado. ao sobrevalorizar a parte ilocucionária do “ato de fala” em detrimento do conteúdo proposicional de sentenças normativas. desta maneira. A teoria habermasiana confere à constituição socio-ontológica da prática pública de argumentação o estatuto de um ponto de vista moral universalizável e procura. a partir de uma interpretação do papel da linguagem na construção de consensos normativos. argumenta Habermas. no entanto. Habermas comete. em nome da democracia.139 política e do direito se fundamenta em uma ética do discurso. Estes limites podem ser explicados pela apropriação estreita e às vezes equivocada que Habermas faz do problema da justificação na filosofia da linguagem. somente através de um conjunto de normas procedimentais que regulem o exercício livre da ação comunicativa é que o potencial de racionalidade inerente à linguagem pode realizar esta função de maneira eficaz. Na medida em que o direito é uma instituição que opera no âmbito da integração social. e outro equívoco pragmático.

mas as condições de 72 Habermas. O equívoco lingüístico De acordo com Habermas. 140 . Jürgen. como veremos.140 esvaziar o sistema do direito da capacidade de processar aquelas demandas da sociedade civil que constituem seu modus vivendi e que lhes empodera: uma permanente moralização do mundo. aquela formulada pelo formalismo semântico (de Frege a Dummett). argumenta que a significação de expressões lingüísticas resulta das condições de verdade das proposições nelas contidas. Para Habermas. a filosofia da linguagem – cujo problema central é produzir uma teoria da significação de expressões lingüísticas – deve responder a seguinte pergunta: o que é entender o sentido de uma expressão simbólica? 72 A teoria habermasiana busca sintetizar criticamente três respostas distintas oferecidas a esta pergunta. as condições de verdade da proposição contida na ordem podem ser perfeitamente compreendidas pelo receptor. Em seu percurso teórico-argumentativo. por exemplo. negligencia o fato de que as condições de verdade de proposições contidas em expressões lingüísticas muitas vezes dependem de fatores que vão além de seu conteúdo. e portanto cabe à lógica formal decifrar aquelas condições. Postmetaphysical Thinking: philosophical essays. De acordo com o intencionalismo semântico (de Grice a Schiffer). A segunda resposta. pois apesar da intenção ser um dos componentes daquela significação.57. esta resposta formalista. a significação de uma expressão é dada pela intenção de seu emissor. do emissor autorizado: quando alguém vestido de policial dá uma ordem a um cidadão. a compreensão que o receptor tem da mensagem emitida freqüentemente distancia-se daquilo que o emissor gostaria que ele compreendesse. esta primeira resposta é limitada. ainda que supere os limites da resposta intencionalista. p. Para Habermas. mas sem uma teoria da justiça. Habermas acaba por nos deixar com um modelo de sociedade democrática. Este é caso.

141 verdade da expressão lingüística como um todo dependem do receptor saber se o emissor da ordem é efetivamente um policial ou se ele é apenas um impostor disfarçado. receptor. o funcionalismo de Bühler e a teoria dos atos da fala de Austin e Searle. O que importa não é simplesmente a compreensão da significação das proposições contidas em expressões lingüísticas. para Bühler. e introduzir o elemento pragmático da ação comunicativa. De Bühler Habermas apropria uma análise funcional da relação entre emissor. Por fim. A síntese crítica de Habermas destas três respostas tem como pontos de partida o pragmatismo de Peirce. mas sim a 141 . Todo jogo de linguagem tem um conjunto de significações pressupostas e intransponíveis que o determina. são meios que exercem três funções diferentes. Habermas encontra uma concepção da linguagem enquanto práxis social que substitui a semântica wittgensteiniana por um pragmatismo que reintroduz na análise do sentido de expressões lingüísticas o elemento de intencionalidade. Este elemento contextual na produção da significação de uma expressão lingüística constitui a preocupação central da terceira resposta. Em Peirce. em que as contribuições isoladas das três respostas acima discutidas são combinadas. mensagem e o mundo no qual se encontram inseridos. Expressões lingüísticas. Habermas apóia-se em Austin e Searle para fazer uma crítica à teoria semântica como um todo. Para Wittgenstein. ainda que internamente ligadas: elas expressam intenções do emissor. Wittgenstein argumenta que é impossível produzir uma reconstrução teórica das significações publicamente reconhecidas das palavras porque estas são sempre pressupostas nos contextos em que são utilizadas. a significação de expressões depende das funções práticas da linguagem no contexto no qual a sentença é utilizada. a de Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. apresentam o mundo que forma o contexto e estabelecem relações interativas com o receptor.

A transição da frase “que p” para a frase p implica na transição de “entender p” para dizer “p”. dividindo-os em quatro tipos. Boston: Beacon Press. Habermas produz uma tipologia de atos de fala. Satisfeitas estas duas condições. que o emissor garante que as condições de verdade de p estão satisfeitas. Cambridge: Cambridge University Press. isto é. Ernst. p. logo aceitável. Assim. Tugendhat. Jürgen. tal validade depende somente da capacidade do emissor de produzir o ato do receptor a partir da relação de poder que existia entre 73 74 Habermas. é a satisfação de duas condições originalmente formuladas por Searle e apropriadas por Habermas: (i) de que o emissor obedece à regra da sinceridade. entendemos um ato de fala quando sabemos o que o torna aceitável. “é falso” e “é duvidoso”.74 O que torna p aceitável. ele acredita “que p é verdadeiro” quando afirma p. Habermas busca simplificar o problema de responder a esta pergunta reduzindo-a ao caso de sentenças assertivas (p).142 compreensão do ato da fala em que elas são expressas. em que o emissor quer que o receptor aja de determinada maneira mesmo que não admita a validade do ato de fala. um ato de fala pode ser considerado válido. Habermas conclui. portanto. Traditional and Analytical Philosophy: lectures on the philosophy of language. pois a segunda pode ser completa com os predicados “é verdadeiro”.197. O primeiro passo deste raciocínio é entender que a assertiva p é diferente da assertiva “que p”. 1984.297. No caso de imperativos. sendo que somente três deles relacionam-se a casos onde a sua pretensão de validade está contida no próprio ato de fala. (ii) que o emissor obedece à regra essencial. Theory of Communicative Action. 1982. vol.73 Mas o que torna um ato de fala aceitável? Assim como Austin e Searle. isto é. ou aquilo que Wellmer (1992) chama de proposições empíricas gramaticalmente elementares. ou seja. p. atos de fala que produzem uma descrição de um determinado conjunto de atributos do contexto empírico no qual ela foi proferida.I. enquanto que a assertiva p já contém a escolha “é verdadeiro”. Uma vez estabelecido o que torna um ato de fala aceitável do ponto de vista de proposições empíricas gramaticalmente elementares. 142 .

onde o ato ilocucionário tem o formato “eu acho que x é certo”. como no caso de expressão de estado emocionais internos do emissor. três tipos. No caso dos atos de fala expressivos. em particular. com pretensões normativas. onde o ato ilocucionário assume o formato da regra de sinceridade e exprime “eu sou sincero quando digo que x”. as condições propostas por Searle na regra de sinceridade e na regra essencial podem ser diretamente aplicadas a atos de fala com pretensão de validade expressiva e. com pretensão de veracidade. o problema central reside no fato de que a satisfação da regra essencial é impossível. portanto. (ii) expressivos. do ponto de vista dos atos de fala com pretensão de validade interna. como no caso do cumprimento de promessas. tem o formato “eu acho que x é verdadeiro” descrito acima. portanto. àquelas com pretensão de validade normativa. onde o ato ilocucionário. No caso dos atos de fala regulativos. O primeiro equívoco da filosofia da linguagem de Habermas é pensar que a passagem de proposições empíricas gramaticalmente elementares (atos de fala com pretensão de validade veritativa) para os dois outros tipos de ato de fala pode ser feita trivialmente e que. Quando atos de fala constatativos resultam em controvérsias. eles podem recorrer ao discurso prático. definidos pelo ato ilocucionário neles expressos: (i) constatativos. os interlocutores podem recorrer ao discurso teórico para sua resolução. a regra essencial não pode ser satisfeita porque não há como o emissor garantir que os estados emocionais internos por ele descritos são verdadeiros. o problema é ainda mais grave. no caso de atos de fala regulativos. já que a sua validade não está balizada por nenhuma das duas regras de Searle. pois veracidade não pode ser justificada. Em outras palavras. Restam.143 eles antes da interação. como no caso de descrições do contexto empírico. As dificuldades em 143 . portanto. com pretensão veritativa. e (iii) regulativos. mas no caso de atos de fala expressivos não podem recorrer a discurso algum.

Da mesma maneira que a assertiva “p”. mas somente que j é capaz de produzir o consenso ou a concordância almejada. entretanto. “é duvidoso”. a garantia de “que j” é qualitativamente diferente da garantia “que p”. de “entender j” para afirmar “j”. 144 . mas a primeira depende de discursos práticos onde não existem garantias de “que j”. por exemplo. pois se as possibilidades abertas aos interlocutores são formar consensos ou concordar sobre a existência de dissenso. Assim. entender a palavra “justiça” é idêntico a entender o que é um determinado tipo de ato de fala regulativo cuja pretensão de validade é construída a partir dos parâmetros éticos da justiça. É precisamente esta impossibilidade de satisfazer a regra essencial que complica a aplicação da regra de sinceridade. é que j é um tipo de ato de fala em que a condição de garantia (“eu garanto que" j é justo) não pode ser satisfeita trivialmente como no caso de assertivas garantidas pela experiência e/ou pela autoridade do emissor que a “garante”. da mesma maneira que entender o sentido da palavra “verdadeiro” é idêntico a entender o que é um ato de fala constatativo. o emissor não precisa acreditar sinceramente “que j é justo”. e não um. Quem passa da frase “que j” para a frase “j” passa. mas somente duas possibilidades: a formação de um consenso ou uma concordância sobre a existência de um dissenso sobre j. já que a segunda pode remeter a discursos teóricos baseados em autoridade ou experiência. pois é possível aceitar “que j” sem aceitar a garantia). a assertiva “j” também é diferente da assertiva “que j” pois a segunda pode ser completa com “é justo”. “é injusto”.144 fazer a passagem de proposições empíricas gramaticalmente elementares para atos de fala regulativos pode ser mais bem compreendida quando analisamos. O problema. os interlocutores precisam não só entender simultaneamente “que j” e “eu garanto que j” (e entender que são dois atos. mas precisam entender também que neste caso. portanto. atos de fala (que chamaremos de j) onde o emissor quer dizer “que j é justo”. Portanto.

No caso de atos de fala regulativos.75 Mas Habermas encerra sua discussão nas sentenças assertóricas. Habermas retoma este debate. a validade de normas depende menos do milieu comunicativo qua lingüístico nos quais elas são proferidas do que do aspecto volitivo da concordância de todos. anunciando somente ao final daquela seção que o mesmo seria válido para sentenças normativas. e reconhece a hipótese cética levantada por Tugendhat: a validade deôntica de normas não pode ser compreendida por analogia a proposições com pretensão de validade veritativa. sem nunca desenvolver tal argumento. 145 . volume I. Tugendhat não consegue escapar da necessidade de estabelecer um espectador imparcial a quem cabe tal avaliação. pois. A seguir mostraremos as conseqüências deste equívoco lingüístico de Habermas para o 75 Habermas. Theory of Communicative Action. Jürgen. p. Quando Habermas (1984) criticou Tugendhat por ter eliminado o elemento pragmático de sua teoria em nome de uma recuperação do conceito de verdade na teoria semântica. ou seja. e a validade de atos de fala regulativos é portanto menos determinada pelas regras de Searle do que pela intenção de agentes autônomos de produzir um consenso sobre normas. nenhuma das duas regras de Searle pode ser trivialmente aplicada. mas sim quando são aceitáveis por agentes moralmente autônomos. ela não consegue refutar a crítica de Tugendhat à teoria habermasiana. porém. Em última instância. diferente das últimas. a validade das normas é determinada portanto por este espectador. 314 e segs. Em Consciência Moral e Agir Comunicativo (1989). Se a crítica de Habermas à alternativa proposta por Tugendhat é pertinente. na medida em que tal perspectiva requer uma avaliação imparcial de quais são os interesses daqueles agentes e de seu grau de autonomia. normas não são válidas quando são justificáveis. e não pelos agentes da interação. ele buscou através de Dummett recuperar o vínculo entre o que torna uma sentença valida e aquilo que torna o ato de fala que a expressa um ato válido.145 Esta é a crítica a Habermas elaborada por Tugendhat (1996). De acordo com Habermas.

e por fim. além desta virada lingüística. através de atos de fala regulativos constroem um mundo “social” em que divergências são resolvidas através de discursos práticos mediados pela 146 . as quais é conferido o estatuto de “existentes. Habermas prioriza os usos da linguagem para fins de entendimento mútuo (ou seja. Mas antes disto. Habermas (1984) propõe uma interpretação fenomenológica da concepção de mundo. onde divergências estão sujeitas a resolução através de discursos teóricos mediados pela ciência. sujeitos buscam através de atos de fala constatativos construir um mundo “objetivo”. a ação comunicativa). Assim. De acordo com Habermas. no entanto. A concepção de mundo do modelo kantiano parte do princípio ontológico de que existe um mundo objetivo composto da totalidade de entidades. buscam através de atos de fala expressivos construir um mundo “subjetivo” em que valorações estéticas nem sempre podem ser mediadas discursivamente.” Partindo de uma revisão crítica da distinção popperiana dos três mundos que compõem este mundo ontologicamente definido. Isto significa realizar um duplo movimento através do qual tanto a concepção de mundo quanto o conceito de razão são retirados de seu pedestal metafísico e são reintroduzidos no contexto lingüístico. precisamos entender também o seu equívoco pragmático. O equívoco pragmático A interpretação da virada lingüística oferecida por Habermas contém também uma virada pragmática. articulada a partir do pressuposto pragmático de que o mundo é formado implicitamente pelos sujeitos socializados comunicativamente quando cooperam em processos de interpretação. é preciso operar também sobre a fundamentação filosófica uma virada pragmática. Ao substituir a análise semântica de sentenças gramaticais pela análise dos atos de fala e seus conteúdos ilocucionários.146 desenvolvimento de sua ética do discurso.

A diferença do conceito de razão em Habermas. para ele. A unidade destes três modos de argumentação. mas sim a três formas diferentes de argumentação determinadas pela pretensão de validade do ato de fala em questão. As três formas da razão distinguidas por Kant não correspondem a três faculdades transcendentais da mente humana. portanto. portanto. a razão comunicativa busca formar consensos no processo de interpretação. remetendo a categoria da razão prática em Kant. Logo. no entanto.76 Habermas também critica o conceito de razão do modelo kantiano. e atos de fala regulativos utilizam o discurso prático para a argumentação. não se dá no uso da faculdade mental de produzir raciocínios lógicos. 82. razão estratégica e razão comunicativa são duas formas 76 Idem. De acordo com ele. a razão opera de maneiras distintas nos diferentes de tipos de ato de fala. àquilo que Kant denominou de razão pura. Atos de fala constatativos utilizam o discurso teórico para a argumentação e remetem. do ponto de vista pragmático. mas sim no seu caráter comunicativo. Este mundo da vida é composto de uma tradição cultural intersubjetiva que funciona como um horizonte não-tematizado dentro do qual os participantes da comunicação se movem quando se referem tematicamente a alguma coisa no mundo.147 ética e pela moral. 147 . remetendo ao juízo kantiano. ou seja. Em todos os processos de interpretação dos quais emergem estas concepções do mundo. o conceito transcendental de razão precisa ser alterado para acomodar o fato que. em oposição à razão estratégica e seus objetivos instrumentais. funciona como pano de fundo um conjunto de pressupostos pragmáticos sobre a linguagem e as significações dela derivadas que Habermas denomina de “mundo da vida”. o que unifica estas três formas de argumentação racional é o seu aspecto comunicativo. da mesma forma que a concepção ontológica de mundo. atos de fala expressivos utilizam a crítica estética e terapêutica para a argumentação. p. reside no fato que.

onde e quando se torna necessário à argumentação.148 irreconciliáveis de argumentação. Em um ato 148 . que para Habermas a validade de atos de fala regulativos não depende da intenção dos agentes autônomos de produzir este consenso. expressivos ou regulativos. a razão comunicativa e o pano de fundo de pressupostos pragmáticos sobre a linguagem e suas significações são sempre predominantes. limita-se àqueles que têm pretensão de universalidade. A classificação de atos de fala em constatativos. A razão comunicativa. Prima facie. a prioridade da ação comunicativa na teoria habermasiana parece convergir com a crítica de Tugendhat discutida na sessão anterior. Como aponta Wellmer (1992). Mas do ponto de vista pragmático não podemos dizer que estas sejam as únicas dimensões de validade presentes em atos de fala constatativos. A classificação de pretensões de validade correspondentes a estes tipos de ato de fala. argumenta Habermas. pois remete ao papel da formação de consensos na formulação de regras e normas. este equívoco da teoria habermasiana resulta da sua precipitação em converter tipos de pretensão de validade em tipos de ato de fala. Na reinterpretação habermasiana da concepção de mundo e do conceito de razão kantianos ocorre um outro equívoco (pragmático) derivado precisamente do fato que Habermas divorcia o problema da validade de normas do problema da formação de consensos. veracidade. perdendo dessa maneira o elemento pragmático de sua interpretação do problema da justificação. no entanto. e verdade são de fato as únicas dimensões de validade universais. e sinceridade. no entanto. e remete sem dúvida ao universo de funções existentes. Percebam. tem prioridade (ou anterioridade) sobre a razão estratégica porque nesta a argumentação é secundária à posição de poder que permite ao agente alcançar seus objetivos. mas sim das regras de Searle. expressivos e regulativos corresponde à diferenciação das funções comunicativas que proferimentos podem assumir em situações concretas.

dessa maneira. pode haver outras dimensões de validade pretendidas pelo emissor além da pretensão veritativa. Habermas converte o seu conceito de mundo da vida em um horizonte pragmático estreito e sem conteúdo normativo especificável. justificações são sempre. Habermas. dependem apenas das motivações pelas quais ele introduz aquelas pretensões. 149 . ele pode. que tipo de função comunicativa aquele proferimento tem naquele contexto. “What is a Pragmatic Theory of Meaning? Variations on the Proposition ‘We Understand a Speech Act When We Know What Makes It Acceptable’” in Honneth. As conseqüências deste equívoco pragmático para a concepção de mundo habermasiana e para o seu conceito de razão são decisivas. depende da relação entre emissor e receptor produzida ou expressa através de um ato ilocucionário77. os sujeitos envolvidos em comunicação têm também conhecimento prévio de outros tipos de pretensão de validade não-universalizáveis. McCarthy. p. e somente na medida em que estes outros tipos são mobilizados em situações pragmáticas diversas (e freqüentemente concorrem entre si) é que aqueles sujeitos recorrem aos tipos puros universais da teoria habermasiana. pretender também descrever sua disposição e sua ansiedade a respeito da dor. 208. por outro lado. por exemplo. portanto.149 de fala constatativo em que alguém descreve sua dor a um médico. ao esvaziar os tipos de pretensão de validade da complexidade de seu componente motivacional e restringir sua análise aos tipos universais e aos atos de fala correspondentes. Offe and Wellmer (eds. Por um lado. Albrecht. antes de 77 Wellmer. ignora o fato que a validade de normas depende necessariamente da intenção do emissor em produzir um consenso independente do fato dele acreditar sinceramente que a norma proposta é válida (regra da sinceridade) ou do fato dele ser capaz de produzir uma garantia para tal norma (regra essencial). Philosophical Interventions in the Unfinished Project of Enlightment. Assim.). Os tipos de pretensão de validade contidos no proferimento do emissor. Além do conhecimento prévio dos tipos de pretensão de validade universal. por exemplo. 1992. Cambridge: MIT Press.

E como estas pretensões de validade nem sempre são universais ou universalizáveis. isto não basta. Na maior parte das situações pragmáticas em que agentes interagem comunicativamente. Do ponto de vista da concepção de mundo.150 qualquer coisa. mas constitui apenas mais um dos mundos construídos ou pressupostos comunicativamente pelos agentes. Além das condições de sinceridade e universalidade expressas pelas regras de Searle. existe uma outra gama de condições motivacionais que determinam a validade de atos de fala. e a diferenciação entre justificação e escusa se torna menos clara do que promete a teoria de Habermas. Em cada contexto específico em que o agente profere um enunciado. como propõe Habermas. no entanto. escusas para escolhas que precisam ser justificadas. resulta que o mundo da vida não tem a prioridade (ou anterioridade) proposta pela teoria habermasiana. Somente naqueles proferimentos nos quais o agente tem pretensões de validade “puras”. radicalizar a distinção entre razão comunicativa e razão estratégica. O problema pragmático de agentes engajados em 150 . sendo na maior parte dos casos ambas ao mesmo tempo. portanto. Não faz sentido. o consenso que elas gerarão (ou a concordância sobre o dissenso) depende tanto de sua âncora nos pressupostos pragmáticos comuns aos agentes quanto das negociações estratégicas implícitas em toda ação comunicativa. as condições de validade do ato de fala não são idênticas às condições de validade da pretensão dominante contido naquele ato de fala. já que nenhuma ação social pode ser descrita como comunicativa (buscando entendimento mútuo) ou estratégica (buscando resultados). pode-se estabelecer o horizonte não-tematizado do mundo da vida enquanto o parâmetro primeiro de entendimento entre os interlocutores. mas sim o conhecimento que ele tem do tipo de pretensão de validade nele contido. para usar a expressão de Wellmer. O que confere validade a um proferimento não é o conhecimento que o receptor tem do tipo de ato de fala a que ele corresponde e de sua função comunicativa.

em particular a de John Rawls. portanto. estamos agora em condições de analisar as conseqüências destes equívocos para a sua ética do discurso. retomando a crítica de Habermas a estas teorias. é ignorarem o papel do direito na integração social e serem incapazes de produzir concepções razoáveis da justiça. estas teorias negligenciam o fato de que todo e qualquer princípio normativo requer justificação e que. portanto. 151 . ao transferir a determinados valores o estatuto de princípios nãonegociáveis. mas sim permitir uma negociação e embate democrático sobre aqueles princípios. isto é. as regras da justiça não devem remeter a princípios morais. discutida no capítulo anterior. O nosso argumento é de que estes equívocos fazem com que a teoria habermasiana continue presa ao limites das teorias deontológicas liberais que ele pretende superar. não validar normas. O maior problema das teorias deontológicas como a de John Rawls.151 interação visando consenso (ação comunicativa) é produzir o consenso. de acordo com Habermas. quando as pretensões de validade normativa expressas são conhecidas pelos interlocutores e aceitas por eles como válidas. Os limites da ética do discurso Compreendidos os dois equívocos da apropriação habermasiana da filosofia da linguagem. Em outras palavras. através de procedimentos que determinem quando atos de fala regulativos são aceitáveis. e tal objetivo implica necessariamente em os agentes agirem estrategicamente com relação às normas propostas. e em particular para a sua teoria política e seu conceito de justiça. Comecemos. pois dependem da formulação de consensos substantivo-morais a respeito de certos valores cuja legitimidade não pode ser pressuposta no contexto contemporâneo de sociedades complexas e plurais.

Habermas sugere. Jürgen.152 A teoria da justiça habermasiana. leis). pois enquanto que regras morais são dirigidas ao universo de todos potenciais interlocutores racionais. regras jurídicas são dirigidas somente aos membros de uma comunidade juridicamente delimitada. intersubjetivamente. 78 79 Habermas.. na medida em que compreende questões de justificação e aplicação de normas. os representantes dos cidadãos na posição original da teoria rawlsiana precisariam já ter algum conhecimento dos conteúdos normativos que poderão alimentar a autocompreensão dos cidadão livres e iguais depois que o véu for levantado.79 Este limite do projeto de Rawls – limitar-se a um discurso sobre a justiça – tem implicações diretas nas críticas metodológicas de Habermas discutidas no capítulo anterior. o problema de teorias da justiça como a de Rawls é que elas se limitam a um discurso sobre a justiça. Jürgen. Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy. De acordo com Habermas. requer que abramos a possibilidade. Justification and Application. portanto. isto é. Somente assim este ponto de vista não precisará pressupor certos valores morais não-universais sob o véu de ignorância. capítulo 1. 152 . Na medida em que processos racionais e coletivos de deliberação (formação da vontade geral) buscam produzir programas jurídicos concretos (i. um discurso moral sobre normas que podem ser tomadas como universalmente válidas. que um ponto de vista moral universalizável que fundamente princípios de justiça precisa ser construído na prática social concreta de cidadãos livres e iguais.154. eles exigem a superação de discursos sobre o que é justo e a inclusão de considerações pragmáticas e ético-políticas. não somente para argumentos morais.e. no que se refere ao conceito de véu da ignorância. mas também para argumentos pragmáticos e ético-políticos. para evitar surpresas desagradáveis no processo de formular normas constitucionais. legislar e aplicar a lei.78 De acordo com Habermas. p. Habermas.

A idéia de autonomia política e moral que Kant desenvolveu a partir de Rousseau para sintetizar estes dois anseios de liberdade está perdida em Rawls quando ele reduz o momento democrático àquele no qual os cidadãos estão representados na posição original. Mas. pois a segunda.153 No que se refere ao conceito de consenso sobreposto (overlapping consensus). isto é. dessa maneira. Eles 153 . Para Habermas. como aponta Habermas. Uma vez levantado o véu de ignorância e estabelecidos os princípios de justiça que regerão a vida em sociedade. que deveria necessariamente estar assegurado a priori. verdade derivada do exercício da phronesis. ou o termo tem o sentido de algo aceitável em um contexto no qual o predicado verdade não se aplica. Em sua teoria. Habermas opta pela primeira versão do termo “razoável”. Rawls oscila entre as duas definições. ele tem apenas o papel de aferir a utilidade da teoria da justiça para a produção de estabilidade das instituições de cooperação social. não há mais espaço para que os cidadãos concebam problemas e tensões relativas ao conceito de justiça e utilizem-se de atos de fundação e constituição democrática para adaptarem-se às mudanças históricas. ao mesmo tempo em que enfraquece a força do procedimentalismo do qual os conceitos de véu de ignorância e consenso sobreposto deveriam estar imbuídos. mas em geral prefere a segunda a opção e. e não o papel verdadeiramente deontológico de sobrepor princípios de justiça a estas instituições e confirmar o valor de verdade destes princípios. o problema do republicanismo (liberdade positiva) desaparece do kantianismo de Rawls em nome da autonomia individual (liberdade negativa). portanto. Não é acidental a escolha de Rawls pelo termo “razoável” para descrever a natureza deste consenso. ou o termo “razoável” tem o sentido aristotélico de verdade moral. sujeita-se às críticas que ele mesmo dirige ao ceticismo. fortalece o que há de substantivo nas visões de mundo moral-religiosas divergentes que caracterizam uma sociedade plural.

consensos normativos somente assumem valor de verdade universal quando estabelecidos sob a perspectiva de uma situação ideal de fala. pois todos os discursos de legitimação do conceito de justiça já operaram naquela posição. uma concepção da justiça a partir da perspectiva do “nós” coletivo da comunidade debatedora. Habermas crê ser possível derivar princípios universais de sua filosofia da linguagem sem recorrer ao moralismo. denominados respectivamente de U e D. Petrópolis: Editora Vozes. 1996. do imperativo categórico. p. e não critérios de virtude pública. 154 . Ernst. A solução de Habermas para o dilema da posição original da deontologia liberal é o conceito de ideal role taking. que (possivelmente) resultarem para a satisfação dos interesses de cada um dos indivíduos do fato de ser ela universalmente seguida. possam ser aceitos por todos os concernidos (e preferidos a todas as conseqüências das possibilidades alternativas e conhecidas de regragem)”. De acordo com o princípio do discurso (D).80 Em suma.154 não podem mais reacender a chama democrática que os moveu na posição original. Rawls garante a autonomia privada do cidadão. E operaram primordialmente através de critérios de utilidade privada. ainda que minimalista. na qual operam dois princípios. toda norma deve satisfazer a condição que as “conseqüências e efeitos colaterais. Aquilo que em Kant toma a forma de uma moralização mínima da ética através do imperativo categórico. De acordo com o princípio da universalização (U). 415. Lições sobre Ética. destrói sua autonomia pública. “uma norma só deve pretender validez [validade] quando todos os que possam ser concernidos por ela cheguem (ou possam 80 Tugendhat. através do qual surgiria pragmaticamente e gradualmente através da argumentação. mas no processo. De acordo com Habermas. e através da qual normas procedimentais para a argumentação moral teriam precedência e seriam sobrepostas aos valores morais divergentes dos participantes no discurso. em Habermas assume um caráter estritamente procedimental.

1989. é garantido somente que quaisquer conceitos de justiça devam resultar daquele embate público entre cidadãos livres e iguais. Consciência Moral e Agir Comunicativo.81 Como nos lembra o próprio Habermas. cujo conteúdo permanece inalterado na nova formulação. Em Between Facts and Norms (1996). 155 . substituindo a cláusula “participantes de um Discurso prático” pela cláusula mais geral “participantes de Discurso racional”.). Jürgen. o conceito de justiça como eqüidade sacrifica a virtude pública que resulta do embate público entre cidadãos livres e iguais em prol da garantia de que nenhum arranjo social sacrificará a liberdade igual daqueles cidadãos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. no modelo habermasiano são os princípios discursivos da argumentação pública que têm prioridade. neste sentido. a um acordo quanto à validez [validade] dessa norma”. esta reformulação é desimportante. Ao reconstruir a solução contratualista através da posição original. portanto. pois nossa crítica se dirigirá fundamentalmente à cláusula “acordo quanto à validez dessa norma” por parte dos afetados. Se no modelo rawlsiano. do ponto de vista do argumento aqui apresentado. admitindo. Na medida em que realiza este objetivo através da atribuição de um cálculo egoísta de utilidade que cada representante dos cidadãos faz (paradoxalmente) sob um véu de ignorância no qual desconhece seus interesses. a diferença entre estes dois princípios consiste no fato de que o segundo já pressupõe que a escolha de normas pode ser fundamentada. Habermas reescreve o princípio (D).86. O objetivo de uma teoria da justiça habermasiana. No entanto. é precisamente criar arranjos institucionais que aproximem o debate público sobre questões éticas e morais daquilo que Habermas denomina de situação ideal de fala. No modelo habermasiano. que outras formas de discurso além do prático podem justificar normas de ação (ver pp. enquanto participantes de um Discurso prático. e é neste sentido que podemos 81 Habermas. os princípios liberais da justiça visam assegurar a liberdade negativa dos cidadãos.155 chegar). pressuposto este que define o conteúdo do princípio (U). por outro lado. p. Percebam como o modelo habermasiano propõe uma saída republicana para o dilema liberal.107 e segs. Rawls acaba formulando dois princípios cujo principal objetivo é garantir a autonomia individual do cidadão privado.

Jürgen. Postmetaphysical Thinking: Philosophical Essays. tal procedimento requer uma des-moralização no sentido proposto pelo princípio (U). Mas em um segundo momento. o erro destes críticos está em assumir uma concepção equivocada da noção de idealização. chama sua teoria de “republicanismo kantiano” em oposição ao “liberalismo kantiano” de Rawls. requer um duplo movimento do qual Habermas realiza somente o primeiro. enquanto horizonte normativo para a construção de uma concepção discursiva da justiça. se encarado como um procedimento intersubjetivo concreto. Ideal role-taking. de 1998.156 afirmar que Habermas busca uma saída republicana para o dilema liberal. mas sim ser uma idealização precária pois pressupõe um processo no qual os representantes perdem exatamente aquilo que fundamenta suas justificações éticas e morais: suas posições sociais. onde as liberdades positivas assumem o caráter de princípios fundamentais não-negociáveis.82 Habermas está correto ao refutar as críticas à situação ideal de fala que se baseiam em um suposto idealismo que sobrevive em seu modelo. consiste em também ser uma idealização precária na medida em que des-moraliza o debate público. de uma maneira ou de outra. pressupõe alguma idealização. já que toda prática de argumentação moral. e não como um procedimento universalizante de abstração. 83 Habermas. Antes de tudo. Gostaria de sugerir que o problema da situação ideal de fala da teoria habermasiana. que os participantes assumam o papel do outro (ideal role-taking). ela sempre requer. no mínimo. este procedimento requer que os agentes estejam dispostos a aceitar um mesmo conjunto de regras de fundamentação de argumentos morais – essencialmente. Se uma norma somente é válida se todos 82 O próprio Habermas em seu The Inclusion of the Other: Studies in Political Theory. este procedimento requer uma re-moralização do mundo conforme o princípio (D). 156 . que eles sejam universalizáveis – ainda que discordem sobre a substância dos argumentos morais. Como ele aponta. Ou seja.83 O problema da posição original da teoria rawlsiana não é ser uma idealização.

pelo menos sob a perspectiva proposta pelo próprio Habermas. portanto. um princípio de justiça através do qual se determine quais são aceitáveis e quais não são. Agnes. p.84 Assim.157 potencialmente afetados podem concordar com ela enquanto participantes de discursos racionais. por exemplo. é preciso que todos os envolvidos em discursos racionais estejam dispostos a aceitar toda norma válida. É mais intuitivo. então todos aqueles potencialmente afetados pela norma precisam partir do pressuposto de que toda norma válida é aceitável. 157 . pois buscam um consenso substantivo-moral no qual são precisamente as proposições contidas nos atos de fala que estão sendo negociadas. nenhuma delas pode ser trivialmente satisfeita. é o equívoco lingüístico da teoria habermasiana que lhe custa caro. precisamente porque seriam afetados por ela. garantem apenas um livre embate público de posições éticas e morais válidas. Atos de fala regulativos não precisam satisfazer a condição de sinceridade. Este é um salto teórico muito difícil de justificar. Além da Justiça. quando normas alternativas seriam mais justas. e não podem satisfazer a condição essencial. Na melhor das hipóteses. o esforço habermasiano de evitar a perspectiva abstrata do espectador imparcial naufraga no próprio recurso que ele propõe como substitutivo. Os princípios (U) e (D). Uma norma válida é falsa (nãoaceitável). Para que uma assertiva passe de válida para aceitável. pressupor que aqueles afetados por uma norma podem considerá-la válida ainda que não aceitável. ela precisa satisfazer as duas condições de Searle. 209. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. e com o clássico princípio democrático da maioria para a resolução dos embates públicos. pois não há garantias de veracidade possíveis para as proposições que elas contêm. sem produzirem. 84 Heller. Aqui. no entanto. no entanto. 1998. e no caso de atos de fala regulativos. Habermas nos deixa com critérios para julgar instituições políticas quanto ao seu caráter público e tratamento eqüitativo dos cidadãos. Para que a situação ideal de fala opere como horizonte normativo.

Esta moralização nem sempre converte os argumentos em proposições morais. a teoria habermasiana sem dúvida nos liberta de alguns equívocos da deontologia liberal. Em ambos os casos. com pretensão de validade para todos os potenciais participantes em um discurso racional. e para este projeto. mesmo que superando este utilitarismo velado da deontologia liberal. Se a teoria da justiça de Rawls acaba por reduzir o conceito de virtude pública ao cálculo de utilidade dos representantes na posição original. cuja principal característica é precisamente a interação moralizante de seus agentes. não basta que estejam asseguradas as condições para a participação dos cidadãos nos debates da esfera pública. configurando assim argumentos éticos. no entanto. pois garante apenas o livre embate entre as perspectivas morais debatidas. Para que este poder moralizante seja eficaz no sentido de produzir instituições da sociedade civil e canalizar protestos e demandas junto às instituições do poder público. mas muitas vezes pretendem ser válidos somente no âmbito de uma determinada comunidade juridicamente ou politicamente definida. ainda não nos ofereceu uma nova teoria da justiça 158 . O equívoco pragmático de Habermas o leva a ignorar o fato de que pretensões de validade universais se tornam dominantes em atos de fala precisamente quando agentes na esfera pública realizam uma moralização de seu argumento. pelo menos até agora. e o procedimentalismo discursivo dos dois princípios habermasianos tornam-se excessivamente minimalistas. Mas Habermas. e moralizações válidas porém inaceitáveis. É preciso que se diferencie entre moralizações válidas e aceitáveis. o que caracteriza a ação política dos agentes da esfera pública é precisamente esta moralização. ainda assim des-moraliza a esfera pública.158 Não é somente o equívoco lingüístico da teoria habermasiana que a leva a se abster em um ponto central da formulação de uma teoria de justiça. Habermas. Uma teoria da justiça digressa precisamente sobre os critérios para fazer esta distinção.

o debate contemporâneo da teoria política no qual Habermas se insere ainda está muito obcecado pelo ressurgimento de um novo ceticismo político que contesta e refuta quaisquer tentativas de legitimar princípios com pretensão de validade universal. nem sempre é a força do melhor argumento. além disso. por exemplo. Afinal sempre foi. Não podemos continuar temendo moralizar o mundo. e ainda será. similar àquela que moveu. Parece-me. pelo menos teoricamente. e o que determina seus resultados. receosos das conseqüências de moralizações fundamentalistas e/ou religiosas e os perigos que elas possam representar. tudo que Habermas nos entrega é uma minima moralia incapaz de produzir novos arranjos institucionais que avancem para além de um estado constitucional perante o qual os cidadãos têm direitos básicos. que não é necessário escolher entre a moralidade da democracia (Habermas) e a moralidade do liberalismo (Rawls). Talvez este contexto explique porque tanto Habermas quanto Rawls continuem em busca de uma minima moralia. Assim como os liberais. e uma sociedade civil onde todos os cidadãos podem. supostamente garantidos juridicamente. outros exigirão a proteção da inviolabilidade da liberdade de todo ou qualquer cidadão. O que não podemos fazer é fugir do problema que define uma teoria da justiça com pretensão de validade universal: elaborar um conjunto de preceitos ético-morais capaz de 159 . como sabemos. participar livremente. Mas se queremos continuar em busca de maneiras de renovar o projeto da modernidade e alargar os seus horizontes normativos – apesar do inexorável e cíclico retorno de formas de ceticismo em seu seio – é necessário superar a interlocução com o ceticismo e as respostas minimalistas que ela gera. os jusnaturalistas do século dezessete engajados na disputa contra céticos como Montaigne. Certos contextos ainda exigirão a tirania da maioria. Na minha opinião. mesmo que a possibilidade de síntese das duas continue sendo efusiva.159 que complementasse a força de seu esforço crítico. na esfera pública que tais embates serão resolvidos.

Uma justiça que não segura uma balança para comparar utilidades individuais. portanto. mas fita o horizonte. 160 . uma mulher de olhos vendados sustentando uma balança nas mãos. Como nos lembra Heller (1999). Habermas. Enfim. e tratando-as com eqüidade. A imagem alegórica da justiça representada nas catedrais medievais. é a pintura de Giotto na Capela da Arena em Pádua. que olha para o futuro e que. Em uma mão. qualitativa e quantitativamente. Ainda é necessário recuperar a moralidade da justiça. representa a visão tradicional da justiça corretiva. e buscar. e produzir instituições sociais que aprimorem. os recursos dos cidadãos para o exercício simultâneo de sua autonomia pública e de sua autonomia privada. enxerga as desigualdades sociais concretas. sendo que na balança quase translúcida que equilibra as duas estátuas.160 persuadir a todos independentemente de visão de mundo. uma justiça que estabeleça critérios não só válidos mas aceitáveis. não resolve as tensões existentes entre o conceito de justiça e outras formas de fazer escolhas morais. imparcial por não enxergar as partes. ela carrega uma estátua do anjo da guerra. mas uma rainha terrestre. Uma justiça que não é uma deusa celestial. portanto. a última pesa um pouco mais. ainda que tudo que seja justo precise ser justificado. Ainda estamos em busca de uma teoria moderna da justiça que supere a imagem tradicional da justiça. na outra uma estátua do anjo da paz. mas para assegurar que a estátua do anjo da paz sempre pese mais. fundamentar sua teoria da justiça na filosofia da linguagem. onde a mulher que a representa é uma rainha e não é cega. ao empurrar este problema para o nível do discurso. em uma das primeiras alegorias da justiça na modernidade que se distingüe daquela. pois nem tudo que é justificável é justo.

161 NONO CAPÍTULO A JUSTIÇA DE GIOTTO I: A MORALIDADE DA JUSTIÇA 161 .

em cada mão. enquanto que a injustiça. uma mulher morta. apresentada como um tirano. leva os homens a uma vida de crueldade e vergonha. A justiça. No canto esquerdo inferior. O anjo da paz na mão direita da rainha-justiça coroa uma pessoa sentada em uma escrivaninha. um cavalo rebela-se contra o cavaleiro. Esta imagem contrasta com a alegoria da injustiça. enquanto dois homens escondem-se atrás de seus escudos como que recusando-se a assistir à cena. é o reino da moralidade. outro punindo o errado. que prevalesceu no imaginário moderno. além de em ruínas. e as pinturas da justiça e da injustiça ocupam lugares centrais. e 162 . que bem poderia ser um espelho. maiores que as imagens dos outros vícios e virtudes. contrasta o mundo ordenado da justiça ao estado de natureza a qual a injustiça retorna os homens. tirana e imoral. em um trono estraçalhado. cuja nudez insinua a occorência de um estupro. Mas foi a imagem clássica da justiça celestial. enquanto que à direita dois outros cavaleiros parecem aproximar-se da pequena vila ao centro. Na imagem da justiça. enquanto o anjo da guerra na mão esquerda está decaptando a figura que está ao seu lado. que olha para o lado e ostenta. marcada pelo naturalismo que caracterizava a obra do pintor italiano. No relevo embaixo do tirano. Seu trono. portanto.162 O fresco pintado por Giotto na Capela da Arena no início do século quatorze inclui as sete virtudes e vícios capitais. um coroando o certo. está sendo gradualmente coberto por uma vegetação que parece ameaçar cobrir o tirano. A modernidade destas alegorias de Giotto. único capaz de trazer aos homens a vida civil e pacífica representado no relevo abaixo. com os braços erguidos. uma terceira entre as duas. no relevo abaixo da rainha está representada a prosperidade e a civilidade que derivam da justiça. parece reger os movimentos de seus pares. Giotto retrata os anjos controlados pela rainha da justiça realizando gestos claramente morais. onde vemos uma figura dançando e outra segurando um disco. dois cavaleiros conversam cordialmente. pura e imparcial. uma espada e um arpão. é arrastada pelos braços.

Esta busca. A república. esta moralização é condição necessária ao exercício da autonomia pública por parte dos cidadãos. torna-se impossível constituir uma esfera privada protegida pela noção de direitos. portanto. Enquanto substrato de um novo direito. sem esta segunda moralização.163 uma recuperação da moralidade da justiça tem que ter necessariamente como ponto de partida uma recusa em estabelecer como horizonte normativo para tal empreendimento a busca por uma justiça que seja procedimental e pura como sugere a imagem clássica. que define os esforços de todas as teorias deontológicas da justiça. Uma interpretação moral. operando neles apenas o requisito do uso público da razão. por sua vez. como vimos ao longo do capítulo anterior. da justiça. e não procedimental. incluindo a de Habermas. esta moralização é condição necessária à constituição de uma esfera de deveres que justifique a concessão de direitos. resulta. um duplo movimento. É por permitir realizar ambos movimentos que as intuições presentes nas diversas críticas comunitaristas ao liberalismo fornecem um fértil terreno no qual iniciar tal 163 . uma vez que na ausência dela. ela é um movimento de aproximação a modelos que forneçam uma interpretação moralizada do exercício da cidadania e dos deveres a ela associados. Interesses continuam a ser a tônica da atividade política. ela é necessariamente um movimento de afastamento em relação aos modelos deônticos e utilitaristas. Enquanto substrato de uma nova interpretação de qual é o verdadeiro valor da democracia enquanto procedimento. Do ponto de vista da justiça. em uma teoria incapaz de contemplar a moralização do mundo que uma perspectiva ao mesmo tempo democrática e justa requer. requer. os conflitos e consensos da esfera pública permanecem reféns à lógica mercantilista. permanece sujeita à lógica liberal dos direitos inalienáveis. Do ponto de vista da democracia. sem saber quais são os argumentos morais que justificam a universalização de determinados deveres cívicos.

Dentre os autores comunitaristas contemporâneos. Tal qual os liberais kantianos. Tentaremos demonstrar 164 . cujo objetivo é reconstruir uma teoria moral da relação entre o justo e o bem que supere os modelos deontológicos e utilitaristas. mas que também avance em relação às críticas comunitaristas a eles. a prioridade de questões sobre o que é certo fazer). os comunitaristas também alicerçam sua teoria política em um conceito forte de liberdades individuais.164 esforço de superação do procedimentalismo puro no plano de uma teoria política. O tema central desta crítica – a impossibilidade de se estabelecer a prioridade de uma concepção de justiça sobre uma concepção do bem – é o ponto de partida para uma reflexão neste capítulo. Ele remete a discussão da relação entre o justo e o bem e ao conceito de comunidade que está implícito em deontologias. o que é certo é que existam liberdades iguais para os cidadãos. A diferença que emerge do debate entre os dois campos teóricos diz respeito apenas à forma de justificar o liberalismo: enquanto que deontologias justificam esta teoria política com base em um modelo procedimentalista e formal que estabelece a prioridade do justo sobre o bem (isto é. enquanto que para teorias comunitaristas. em ambos os casos. A resposta a estas questões. é convergente: para teorias deontológicas. Michael Sandel destaca-se pela qualidade analítica de sua crítica contundente a um liberalismo fundamentado deontologicamente. a prioridade de questões sobre o que é bom fazer). os comunitaristas a justificam com base em um modelo ético e substantivo que estabelece a prioridade do bem sobre o justo (isto é. é um bem maior que tais liberdades existam. A crítica comunitarista A crítica comunitarista ao liberalismo deontológico deve ser interpretada como uma crítica interna a uma certa forma de conceber uma teoria política liberal.

Tanto Rawls quanto Habermas distinguem suas respectivas concepções de comunidade de uma concepção individualista convencional. a não ser que se defina com clareza qual é a comunidade que é a verdadeira detentora dos bens que eu possuo.165 aqui que diversos dos argumentos com que Sandel crítica a teoria de Rawls aplicam-se também a teoria habermasiana. então não há como sustentar que qualquer sociedade em particular tenha uma reivindicação maior a um conjunto determinado de bens do que o indivíduo que acidentalmente possua estes bens em um determinado momento no tempo. que pressupõe a teoria habermasiana. o caráter formal e universalizável de uma deontologia pressupõe a possibilidade de se conceber uma “sociedade como um todo” ou uma sociedade geral formada por toda a humanidade. Segundo o modelo clássico do liberalismo. que pressupõe a teoria de Rawls. nem o conceito de pressupostos pragmáticos sobre a linguagem coletivamente compartilhados. os indivíduos antecedem a comunidade e entram nela com motivações egoístas. mas é fato antropológico. que se entenda comunidade como aquela em que os agentes tem fins comuns e compartilhados por todos. a mesma temática aparece sob a forma de uma comunidade lingüística pragmaticamente formada. na qual 165 . na qual entendem a priori que a cooperação é a melhor estratégia de ação coletiva. Rawls propõe. argumenta Sandel. O “dever ser” de um deontologia presumidamente aplica-se a esta sociedade total. Se não existe uma “sociedade como um todo”. Portanto. que nos movemos em inúmeras comunidades distintas e que não existe portanto como determinar qual é a sociedade (bem-ordenada ou não) cujos propósitos devem governar questões distributivas. Em primeiro lugar. não é possível justificar nem o conceito de bens primários coletivamente possuídos. Em Habermas. nem mesmo o estado-nação pode ser tomado como referência a priori para tal alocação. em contraste.

ela não pode se restringir a um modelo de distribuição dos objetos das motivações dos cidadãos. já que pressupõe indivíduos desarticulados com interesse comuns antes de compartilharem esses interesses. Mas a existência deste sentimento comum trai as próprias premissas de uma deontologia. a concepção deontológica de comunidade é tão individualista quanto a do liberalismo clássico. e não um pressuposto racional que se possa fazer a respeito de todas elas. portanto. Afinal. que a comunidade origina de um sentimento comum entre os indivíduos que antecede a sua sociabilidade. e que permite que sua deontologia construa a situação ideal de fala enquanto procedimento de idealização sem que precise recorrer a um modelo hipotético de consenso racional tal qual necessita Rawls. já que não é apenas um sentimento comum de indivíduos dispostos à cooperação/comunicação que constitui uma comunidade capaz de distribuir justiça entre seus membros. já que não é possível justificar nenhuma obrigação moral para com este sentimento comum. entretanto. Precisamos. torna- 166 . ou até mesmo completamente ausente. necessariamente. no mínimo. para constituir uma teoria da justiça. não faltam exemplos empíricos no mundo contemporâneo em que este sentimento comum que define um indivíduo disposto a cooperação está. Para instituir nesta comunidade um senso de justiça. E a comunidade passa a existir somente a partir do momento em que cooperam/comunicam. Ele é (ou não) um dado empírico que é constitutivo de comunidades particulares. e que optam pela estratégia de cooperação e/ou comunicação. Assim. de algumas premissas morais mais forte a respeito da comunidade que será o objeto desta teoria. uma deontologia pressupõe. Como observa Sandel. É a existência deste sentimento comum que precede a sociabilidade nas sociedades que é o alvo da teoria habermasiana. mesmo quando agindo estrategicamente. fragilizada. Antes de mais nada.166 todos necessariamente devem utilizar a ação comunicativa.

não é nem mesmo certos “fins compartilhados” por si só. second edition. 167 . surge um indivíduo capaz de legitimar apenas normas válidas. Esta capacidade de persuasão.150. a prioridade dela diminuiria na medida em que esta opacidade diluísse e o senso de comunidade se aprofundasse. ou a predominância de valores comunitários. no sentido forte do termo. no entanto.. Não é somente a sociabilidade que antecede a individuação. Na medida em que a justiça depende para que seja preeminente da separação ou da união das pessoas no sentido cognitivo. mas um vocabulário discursivo comum e um pano de fundo de práticas e entendimentos implícitos dentro dos quais a opacidade dos participantes é reduzida.. Esta não é resultado de um sentimento comum de indivíduos isolados nem é um meio para a consecução de fins individuais.172. Cambridge: Cambridge University Press. Este modo de autocompreensão não é algo produzido por agentes morais autônomos e isolados. o que marca esta comunidade não é meramente um espírito de benevolência. depende de algo muito mais substantivo do que os procedimentos formais da 85 Sandel. Do procedimento da adoção ideal de papéis em que o “eu que julga” assume o papel de seu alter-ego para interpretar o “eu que age”.167 se necessário que se tome como referência o modo de autocompreensão constitutivo da identidade dos agentes que dela fazem parte. mas como bem sabe Habermas. mas é também a própria comunidade. Liberalism and the Limits of Justice. 1998. ainda que nunca totalmente dissolvida. Ver também p. que os afetados por ela identificariam como universalizáveis (princípio U).85 Como demonstrado no capítulo anterior. Michael. surge no próprio processo de socialização naquela comunidade. o modelo intersubjetivo de constituição da individualidade que Habermas apropria de Mead é capaz de contemplar apenas uma das duas dimensões apontadas por este conceito forte de comunidade. p. Ela antecede e é constitutiva da própria moralidade pública dos cidadãos: . portanto. Mas como tal aprovação não está empiricamente fundamentada – ela é um procedimento de abstração – ela só seria capaz de constituir uma moralidade pública que fundamentasse uma concepção de justiça se ela fosse capaz de efetivamente persuadir aqueles potencialmente afetadas pela norma (princípio D).

sua individuação via socialização necessariamente o remete a valores 168 . argumento sobre o qual repousa toda teoria deontológica da justiça. o seu lugar nas comunidades a que pertence. O sujeito moral de Rawls atua somente como uma balança. na medida em que a razão deste sujeito moral é situada e que sua inserção no mundo intersubjetivo dos homens está ancorada em pressupostos pragmáticos sobre o uso da linguagem que constituem o horizonte do mundo da vida. na teoria de Habermas. naufraga em seu próprio esforço de buscar uma teoria procedimental pura que resista às tentações do ceticismo. ela depende de um compartilhamento de formas de vida e de concepções da boa vida. aos seus interesses. Em segundo lugar. A concepção do sujeito moral em Rawls e Habermas limita-se aos objetos dos desejos – isto é. Em um modelo comunitarista. em que ele pesa escolhas externas a ele. que se projeta no outro para fazer juízos morais. o sujeito moral tem o que Charles Taylor chama de preferências fortes. há um problema comum na forma com que Rawls e Habermas concebem o sujeito moral de suas deontologias. a de Taylor e Sandel se estende ao sujeito destes desejos: o cidadão. torna-se possível identificar porque a prioridade do justo sobre o bem. ou seja. e o bem não é aquilo que converge com seus interesses – uma noção utilitarista que sobrevive tanto em Rawls quanto em Habermas – mas aquilo que define como o sujeito acha que deve viver a sua vida. O indivíduo que se pergunta “quem sou eu?” encontra as comunidades a que ele pertence antes mesmo de chegar a uma resposta a esta pergunta: estas comunidades são constitutivas de sua visão moral. baseadas em uma concepção da boa vida. Em particular. de tal forma a identificar nela quem ele é. já o sujeito moral de Habermas atua como um bumerangue.168 ética do discurso. mas que retorna a si mesmo para determinar suas escolhas e preferências. Se interpretarmos a constituição do sujeito moral sob a perspectiva da crítica comunitarista.

mas também um universo de afeições (attachments) pré-constituídas que torna o processo de socialização qua interação em mais do que uma mera relação de reciprocidade da qual surge a possibilidade de ação comunicativa que produza cooperação. O principal resultado deste compartilhamento contestado de valores não é (ou nem sempre precisa ser) reciprocidade nas relações de cooperação social. reprodução e transformação daqueles valores. a intersubjetividade não é somente um momento em que relacionamentos são estabelecidos. sem que recaiamos necessariamente nas interpretações céticas da impossibilidade de produzir uma 169 . O bem. tão caro a tradição kantiana.169 compartilhados pelas inúmeras comunidades parciais na quais ele é socializado. e mesmo que decorresse daquela interação alguma forma de ação política. neste caso. mas sim o problema do merecimento (desert) dos cidadãos de participar daquele bem comum. Sistematizadas na figura abaixo encontram-se estas primeiras intuições contrárias à teoria deontológicas da justiça. Este bem é um bem comum. e que permitem uma superação da minima moralia de um liberalismo. deixa de ser um bem coletivo com o qual todos se identificam. e é precisamente a capacidade da comunidade produzir este bem comum que possibilita derivar uma concepção de justiça cujo cerne não é o problema distributivo. e principalmente. sugeridas pela crítica comunitarista. mas sim a participação efetiva dos atores em interação nos processos de produção. um momento de compartilhamento de valores. Nestas. remetendo os atores em interação ao plano do discurso prático. A intersubjetividade desta socialização é também. seria equivocado designá-la de ação coletiva. mas que ainda assim depende de um primeiro momento de convergência na identificação de quais são os valores que os atores supostamente compartilham. compartilhado por todos os concernidos. na medida em que efetivamente participaram da sua produção. que podem inclusive ser questionados via ação comunicativa.

LIBERALISMO Sociedade Intersubjetividade Interação .Modo Interação – Objetivo Concepção do Bem Concepção do Justo Associação Relacionamentos Reciprocidade Cooperação Coletivo Distribuição COMUNITARISMO Comunidade Afeições (Attachments) Compartilhamento Participação Comum Merecimento (desert) 170 . entretanto.170 concepção do justo. na verdade. não é superar os limites do liberalismo via uma apropriação a-crítica do comunitarismo. não desprendem o comunitarismo dos preceitos fundamentais da doutrina liberal. Como veremos a seguir. é a superação destes falsos dilemas que permitirá uma efetiva rearticulação do problema da moralidade de uma teoria da justiça. O objetivo desta sistematização. o debate entre liberais e comunitaristas é pautado por um conjunto de falsos dilemas que. Como aponta Charles Taylor.

o holismo parte de pressuposto de que o todo que reúne seres humanos em agrupamentos sociais antecede ontologicamente os indivíduos e grupos que o compõe. cabe aos indivíduos em última instância assumir a responsabilidade moral pelos valores e normas que adotam e justificam publicamente. deve-se diferenciar entre o individualismo e o coletivismo. No plano ontológico. entre a questão ontológica que fundamenta as duas doutrinas. que supera esta premissa através de modelo de individuação via socialização de Mead. O individualismo implica em atribuir aos indivíduos o papel central na constituição de sua identidade enquanto sujeitos morais. argumenta o filósofo canadense. Em oposição ao atomismo. referentes ao conjunto de proposições de intervenção social concreta propostas pelo liberalismo e pelo comunitarismo. o ponto de partida para a construção de uma teoria da justiça é a premissa de que os indivíduos autonomamente constituídos na sua condição de sujeitos morais antecedem a sociedade enquanto agremiação que os reúne. na aceitação da prioridade do todo social sobre suas partes. portanto. A premissa holista implica. em contextos concretos de ação. No plano das questões propositivas. Sua diferenciação vis-à-vis o todo social ocorre a partir do reconhecimento dos próprios indivíduos. mas não da teoria habermasiana. portanto.171 O moralismo depois do liberalismo De acordo com Taylor. dos planos em que eles se identificam (ou não) com as diversas comunidades a que pertencem. Há que se distinguir. a principal razão para os falsos dilemas originários do debate entre o liberalismo e o comunitarismo está na confusão de dois planos distintos em que estas teorias dialogam. trata-se de compreender a diferença entre o atomismo e o holismo. Este é um pressuposto do liberalismo de Rawls. advocacy) que as separa. como aponta Sandel. e a questão propositiva (de defesa. Neste plano propositivo. Do ponto de vista de um atomismo ontológico. O 171 .

essencialmente. portanto. podemos até mesmo dizer que naquele debate são todos liberais. torna-se possível assimilar a crítica comunitarista sem recair em um modelo coletivista de sociedade que negligencie o fato sociológico da pluralidade e complexidade. seja na sua formulação rawlsiana ou habermasiana. sendo na maioria de suas versões adepta do individualismo. por outro lado. Esta crítica. no entanto. Taylor está certo ao afirmar que. o seu aspecto individualista. no sentido de que compartilham uma concepção do problema da intervenção social (e da responsabilidade moral por elas) que é. Assim. de uma teoria moral em que se combine uma interpretação sociologizada da constituição dos sujeitos morais e uma interpretação individualizada da responsabilidade moral dos mesmos. opera sob a égide do individualismo neste plano propositivo. A crítica comunitarista nunca efetivamente abraçou a tese coletivista neste plano propositivo. Daí a necessidade de se partir de um holismo individualista. já encontramos muitos indícios de um holismo individualista. Mead. 172 . individualista. sob a ótica do coletivismo formula-se os problemas da produção de valores e da adesão a normas sociais a partir de uma sociologia que identifica os grupos sociais na sua pluralidade. A crítica comunitarista ao liberalismo deontológico dirige-se ao atomismo desta doutrina. implica em atribuir a coletivos sociais a responsabilidade moral pelos processos de constituição de identidades e diferenças sociais. uma vez distinguidas estas dimensões do problema. neste sentido. sempre esteve limitada ao plano das questões ontológicas. em ofuscar estas diferentes dimensões. O problema do debate entre o liberalismo e o comunitarismo está. compartilhando com ela. O coletivismo. Em Habermas. No plano propositivo.172 liberalismo. especialmente quando este formula sua crítica ao pensamento metafísico e busca fundamentar sua interpretação da modernidade na psicologia social de G. isto é.H.

a ética do discurso habermasiana não explicita uma dimensão holista. ao mesmo tempo. mais uma vez. Se adotarmos uma perspectiva holista. entretanto. sua responsabilidade moral restringe-se a zelar por princípios aos quais efetivamente emprestem legitimidade e que estejam dispostos a justificar. e pela sua adesão (ou não) a norma socialmente consentida. acaba por produzir uma ética atomista. optando. irrealista no que tange a origem dos valores e normas sociais. A formulação dos princípios U e D. o problema de todo liberalismo procedimentalista é ser. e aceitável aos concernidos. E ao abraçar o atomismo no plano ontológico. não tem responsabilidade pela autoria dos seus valores e das normas que segue. e na direção de compreender a 173 . aparentemente. Pois se são os indivíduos os autores dos valores produzidos e das normas as quais eles aderirão. na medida em que não confere legitimidade a ordenações ético-morais alternativas àquelas constituídas pela passagem do indivíduo-autor de valores e normas ao indivíduo-ator no mundo concreto. tomado isoladamente. e etnocêntrico. incluindo Habermas. tomados individualmente. mas tem responsabilidade perante as práticas concretas que resultem da adesão (ou não) a este ou aquele valor. pelo contrário. por uma solução procedimentalista que devolve a teoria habermasiana a um paradigma atomista no plano ontológico. Qualquer norma que. ao adotarem a perspectiva do que é válido para todos. perde importantes dimensões da vida humana na passagem ao individualismo nas questões propositivas.173 Entretanto. não o obriga. tomados individualmente. o indivíduo. o liberalismo procedimentalista. Como resume Taylor. não tenha resultado do consentimento explícito de determinado indivíduo. A superação dos limites do liberalismo procedimentalista e dos limites da crítica comunitarista a ele requer um deslocamento do horizonte de reflexão sobre o tema para além das escolhas trágicas entre as duas perspectivas.

encontramos um diálogo com o pragmatismo que busca aplicá-lo no plano da produção de moralidade que justifique tanto o papel da justiça nas interações e instituições sociais quanto os limites que devem ser impostos a este papel.86 É na tradição do pragmatismo norte-americano que encontramos diversas pistas neste sentido. em Hans Joas. of Chicago Press. qual seja. e a obrigatoriedade de um curso de ação a partir da especificação da prioridade de um bem naquele contexto dependerá necessariamente 86 87 Joas. O pragmatismo permite pensar esta co-presença do ponto de vista da pressão por revisão desta relação em cada situação de ação concreta: Da perspectiva do ator. 171. p. 2000. The Genesis of Values. somente postular a co-presença de ambos em contextos morais práticos. Seus valores orientarão as concepções do bem que ele mobilizará. seus juízos morais ponderados surgirão deste processo. por exemplo. contextos concretos. Joas argumenta que a relação entre o bem e o justo precisa ser interpretada sob a perspectiva das situações específicas em que tal relação ocorre. Não é necessário fazer uma escolha trágica entre a prioridade do bem ou do justo. e deve sempre ser enfocada da perspectiva do ator.174 relação concreta entre o caráter atrativo de valores. mas sim a especificação do que é o bem ou o justo em uma situação de ação [concreta]. que concebe suas ações sob condições de contingência. nestas situações de ação. aos quais os cidadãos optam por aderir. busca (e deve) fazer esta especificação. contudo.87 O ator. Idem. p. Enquanto que a apropriação do pragmatismo em Habermas restringe-se à sua aplicação no plano da crítica às concepções de razão e de mundo da filosofia kantiana. de ação. e o caráter obrigatório de normas. Hans. Partindo da concepção de moral desenvolvida por William James em seus estudos sobre a religião e da concepção de público desenvolvida por John Dewey. as quais os cidadãos devem aderir voluntariamente.165. não é a justificação [pública] que é prioritária [ainda que necessária]. 174 . Chicago: Univ.

e a noção de obrigação delas derivadas são somente uma das formas de universalização de pretensões de validade possíveis. seguindo a terminologia rawlsiana. portanto. um equilíbrio reflexivo entre os dois tipos de orientação. e necessariamente coexistem com as primeiras. já que a produção de um consenso voluntário ao redor das normas que aquela concepção justifica depende da produção de um consenso razoável a respeito de sua validade. mas a adesão dos demais continuará dependendo de um consenso voluntário ao redor de seu valor. neste 88 Íbis. ele poderá até propor normas que obriguem. o ponto de vista restritivo do justo deve necessariamente se fazer presente. sua justificação pública dos princípios que ele derive daquela concepção passa a ser necessária e prioritária. 175 . e a legitimação das instituições sociais que decorrerem daquele consenso estará sob a permanente pressão por renovação e reafirmação. na medida em que uma concepção de justiça oriente aquele ator em determinada situação de ação. em que o ator articula pretensões de validade para seus atos de fala regulativos a partir de considerações pragmaticamente orientadas pela necessidade de constituir consensos efetivos entre os participantes do discurso. 172. somente a complementaridade entre ambos – há aquilo que Joas denomina.88 Em outras palavras. Na medida em que aquela eleição do ator estiver vinculada a uma concepção universalista do bem. Desta circunscrição do problema da relação entre o justo e o bem a situações de ação concreta e contextualmente definidas decorre uma ênfase na criatividade da ação ético-moral. Por outro lado. a possibilidade de se estabelecer a priori a primazia nem do justo nem do bem. Não há. sem dúvida. mas pode somente aparecer enquanto um ponto de vista entre orientações para o bem”. p. mas concepções do bem também são capazes de produzir atos de fala com pretensões de validade universal.175 de sua adesão voluntária ao valor de sua ação. O justo aparece. O importante é entender que “na situação da ação em si. as concepções do justo. Trata-se de um ponto de vista necessário.

não compartilhados ou convergentes. podemos aderir sem maiores riscos a um ceticismo limitado. já que funcionam na produção de normas que operam precisamente como mecanismos de inclusão e exclusão dos participantes do discurso prático. O bem convergente e compartilhado que resulta da coordenação dos atores a partir de mecanismos de 176 . e o papel de integração cultural destes valores é constituinte de identidades nem sempre universais e que apontam para bens comuns. ora apontam para concepções do bem compartilhadas por todos os cidadãos concernidos. em que admitimos que da mesma forma com que valores fundamentais universalizáveis operam no interior de toda cultura. Estas normas de integração social ora apontam para concepções do justo. portanto. em todos os aspectos moralmente relevantes. distinguir mecanismos de integração cultural de mecanismos de integração social. vitais a comunidades. E não são somente indivíduos que se encontram em situações de ação definidas desta forma pragmática. a constituição do ator que age.176 caso. Mas valores universais também operam nestas comunidades no sentido de definir áreas e condições para a sua validade. e portanto a tese é válida também neste plano dos coletivos. Neste plano. que podem (ou não) abarcar a comunidade como um todo. e são. Eis porque se torna necessário. O bem comum é produto deste processo de integração cultural e depende necessariamente da definição de um nós que antecede. A justificação pública é uma prática que visa gerar normas de integração social. como uma das formas de articular estas pretensões de validade. normas universalizáveis também são produzidas. do ator que julga. mas comunidade e culturas também. mas está sempre acompanhado de outras formas associadas a concepções do bem compartilhadas (ou não) pelos atores em interação. como aponta Joas. e do papel do outro no qual este ator de posiciona para produzir este julgamento.

por exemplo. cujos pilares são precisamente mecanismos de integração cultural daquela comunidade que estão explicitados a priori. Exemplos com o escândalo de Watergate mostram que a capacidade dos cidadãos reagirem a contextos adversos não resulta de um cálculo de interesses de longo prazo. A centralidade deste patriotismo fica ainda mais evidente 177 . no entanto. trata somente de bens convergentes. não é possível levar a sério este argumento de um ponto de visa concreto e realista. mas sim de uma atitude de indignação cuja fonte é alguma forma de patriotismo republicano. O liberalismo procedimental. Não podemos nos apoiar nem no universalismo extremo (a defesa altruísta do interesse de todos) de que depende tal procedimentalismo. O liberalismo procedimental tem respostas para isto. É por esta razão que Charles Taylor corretamente aponta para o estatuto privilegiado do conceito de patriotismo na construção de uma moralidade que supere o liberalismo procedimental. sobrevive somente a sanção. Nenhuma destas perspectivas dá conta das formas concretas como a maior parte das pessoas racionais reagem e reagiriam a dilemas morais ou éticos em situações de ação. Nestes casos. então é a convergência de interesses que gera ou coincide com este bem comum. em que as normas estão deslegitimadas. nem no particularismo extremo (defesa egoísta de interesse individual) a que se reduzem formas radicais de ceticismo. e não pode resolver situações nas quais ocorre desintegração cultural ainda que os mecanismos de integração social continuem vigentes. Mas se a premissa atomista é mantida. de acordo com Taylor. Rawls. afirma que o bem comum consiste do conceito público de justiça.177 integração social (normas) aceitáveis é parte necessária. mas não suficiente. por ser atomista. O patriotismo consiste de uma identificação primitiva com o bem comum (mediado ou não) de uma comunidade historicamente definida. da constituição da comunidade.

através de 178 . Um moralismo depois do liberalismo é. reduzir este bem comum a um mínimo constituído daquilo que é efetivamente compartilhado. para isso. Sua tentativa de resgatar a prioridade do justo deixando o problema da constituição da moralidade ao embate público e democrático de questões normativas reconhece a necessidade da existência de normas que obriguem mas negligencia o fato que inúmeras questões normativas serão e deverão ser resolvidas. No republicanismo kantiano de Habermas. não deve ser confundida com seu particularismo. como ocorre no comunitarismo. entretanto. como no caso do liberalismo procedimental. um imperativo destas sociedades.178 quando confrontada com a questão da tolerância. mas sua solução acaba por recair em um procedimentalismo tão liberal quanto aquele que é objeto de sua crítica a Rawls. por todos eles. requer a superação da particularidade das culturas políticas destas sociedades. sem dúvida. É possível produzir um bem comum. alicerçado em valores compartilhados e aceitáveis a todos. como vimos no capítulo anterior. mas pode-se tolerar o anti-patriotismo? Em suma. ou. tão cara a este liberalismo: pode-se. de orientações sexuais ou culturais. este moralismo antiliberal é incipiente e subjacente à sua concepção discursiva da formulação de uma ética. da perspectiva dos interesses de cada cidadão. O patriotismo é o contraexemplo clássico e mais importante neste sentido. instituir instituições tolerantes da diversidade de religiões. especialmente em sociedades plurais e complexas. encontramos sistemas de valores em que regras morais universais têm o papel específico de traduzir estes valores em instituições políticas particulares. antes de tudo. A particularidade destas instituições. um moralismo republicano. sem que. tenhamos que impor formas de vida e identidades sobre os outros. no contexto de sociedades democráticas. A noção de que a superação de particularismos. é um equívoco que negligencia o caráter necessariamente contingente dos valores de cada sociedade.

Hans. Jürgen. normas e valores. Habermas reduz o direito e a moralidade a redes de proteção (safety nets) “para as atividades de integração de todas as outras ordens institucionais. por outro lado. são pertinentes e relevantes. Mas no plano concreto. inclusive porque elas podem ser utilizadas de formas equivocadas e que acabam por servir à dominação social. procuramos evitá-las. do procedimentalismo puro e do comunitarismo. a construção criativa. portanto.185. p. The Genesis of Values. e principalmente. entre o justo e o bem. A vida moral de uma comunidade não se restringe à coordenação das ações dos sujeitos morais de forma a garantir a democracia dos procedimentos que mediam esta coordenação. ao tomar como ponto de partida uma ética do discurso. 179 . É através de argumentos moralizantes que nós buscamos e devemos buscar soluções para dilemas morais e legais postos em discussão na comunidade.179 argumentos cuja pretensão de validade é moralizante. e o pragmático no plano das justificações. eles não são o único e nem o primeiro destes recursos. Between Facts and Norms. ela inclui também. Analiticamente. Na produção de uma concepção de justiça. Antes de buscar coordenação. por algum motivo. elas são problemáticas. como aponta Joas. Na maior parte das vezes. ainda que argumentos com pretensão de validade universal sejam sempre o último recurso de atores em situações concreta que. requer uma rejeição contundente. p. o moral. ainda que parcial. Na justificação de valores. onde está sempre e desde já (always already) pressuposto que todos aderem à comunidade patrioticamente. Um moralismo antiliberal. nós recorremos a estas redes de proteção somente em casos de emergência. fracassam na tentativa de produzir um consenso efetivo. as distinções de Habermas entre o ético. no plano das constituições de um teoria da justiça. No plano epistemológico. atores buscam estabelecer os níveis em que eles compartilham valores.73 apud Joas. 89 Habermas. e pragmática de perspectivas comuns sobre o que é o bem. contextual. Habermas opta por uma solução deontológica e perde completamente de vista a dimensão pragmática que tal ética precisaria comportar.”89 No entanto.

180 devemos resistir a racionalismos que esvaziam o processo efetivo de construção de consensos solidários no seio da comunidade. uma defesa contundente da prioridade das virtudes cívicas sobre os interesses individuais ou coletivos assegura que a razão pública seja sempre o único instrumento válido. o patriotismo é um bem comum indispensável. e que haja adesão às virtudes liberais discutidas no capítulo seis no plano da justificação articulada publicamente pelos atores. não competitivas. Como criar instituições normativas no plano do direito que sejam legítimas em contextos plurais e 180 . é preciso superar modelos que reduzem esta moralidade a planos de cooperação e coordenação social justificados deontologicamente. no plano moral da comunidade concreta na qual estas interações. A imagem pintada por Giotto na Capela da Arena é uma alegoria do tema da justiça que ainda merece ser perseguida por aqueles que buscam uma sociedade não só democrática. não um conceito formal. e concepções do bem (sempre parciais e contestadas) e concepções do justo (sempre universais e incontestes) são complementares. mas também justa. justificações e razões são apresentadas. mesmo em contextos de sociedades plurais e complexas. Mesmo nessas sociedades. no plano da interação. No plano ético do cidadão que busca formular uma concepção da boa vida vis-à-vis o bem comum de sua comunidade. permite mediar discursos morais conflitantes que atribuem valor universal a suas concepções do bem. Por fim. acima da moralidade. Justiça é um conceito moral. sem perder de vista o papel que concepções do justo realizam nestas mediações. um pragmatismo voltado a situações de ação. Contra racionalismos e tradicionalismos. Reconstruir a moralidade das instituições da justiça a partir do moralismo pós-liberal exposto neste capítulo é a tarefa do próximo. contingentes e concretas. ao mesmo tempo em que evitamos tradicionalismos que tornam este processo obsoleto.

181 complexos. sem recair na minima moralia do liberalismo? Como produzir normas sociais válidas e aceitáveis para todos? 181 .

182 DÉCIMO CAPÍTULO A JUSTIÇA DE GIOTTO II: A MORALIDADE DO DIREITO 182 .

teoricamente equivalente em status à justiça. Direito e Política” in Novos Estudos Cebrap.). empiricamente. temos que.90 Esta afirmação somente é válida de maneira condicionada. 2002. 90 Este texto é uma versão adaptada do artigo “Pragmatismo. E se isto é verdade. a injustiça não é uma noção política insignificante. Thamy. José e Pogrebinschi. e duvido até que desejaríamos isto em todas e quaisquer circumstância. então deve haver alguma outra virtude. na passagem de uma teoria moral para uma teoria do direito que recuse tanto o procedimentalismo puro quanto um comunitarismo radical. e mais analítico do quea história. abandonar a idéia de que a justiça é a primeira virtude das instituições sociais. ao invés de simplesmente olhar para visões do que devemos ser e fazer. Judith Shklar. março de 2002. publicado em Werneck Vianna (org. A Democracia e os Três Poderes no Brasil. outra coisa é dizer que. da mesma maneira que podemos dizer que a coragem é a primeira virtude do front de batalha. The faces of injustice Se tomarmos como ponto de partida para um direito pós-liberal o moralismo exposto no capítulo anterior. nº 62. a teoria política – que vive em um território entre a história e a ética – parece particularmente preparada para fazer algo a respeito disto. a paz e a tranqüilidade que existem quando não há ameaça de dor ou morte são. e incorpora elementos de Eisenberg. Afinal de contas. Da mesma forma que definimos a coragem como uma virtude para remediar a ameaça de dor ou morte. que é utilizada para remediar situações quando nem escassez moderada nem interesses conflitantes são eminentes. deve-se começar a diminuir a distância que separa a teoria da prática quando se olha para as inúmeras injustiças ao nosso redor. Continuando o paralelo com a coragem. 183 . “Pragmatismo. a justiça deve ser interpretada como uma virtude remedial. Uma coisa é desejar que a justiça fosse a primeira virtude das instituições. Direito Reflexivo e Judicialização da Política”. Precisamos entender também que. e a aparente variedade e frequência de atos de injustiça convidam a um estilo de pensamento que é menos abstrato do que uma ética formal. antes de mais nada. No mínimo. por definição. Belo Horizonte: Editora UFMG.183 Felizmente. esta precedência está fundamentada. a justiça existe para remediar escassez (moderada) e interesses conflitantes.

que contemple no plano ético um patriotismo em defesa do bem comum e que estabeleça no plano político que nem o justo nem o bem têm precedência a priori.184 virtudes equivalentes em valor à coragem. O nosso ponto de partida para tal reflexão são as críticas ao positivismo jurídico nascidas no seio do próprio liberalismo. necessitamos de uma interpretação dos problemas da judicialização da política e da juridicização das relações sociais. Outra maneira pela qual um aumento de justiça não necessariamente aumenta o bem comum é quando ocorre um aumento de justiça. um aumento de justiça não implica necessariamente em um aumento do bem na sociedade. entendidos enquanto aqueles processos sociais que resultam da proliferação de mecanismos jurídicos de resolução de conflito e produção de consensos para além das instituições do direito. requer uma reflexão sobre os limites da teoria liberal do direito nas suas formulações mais sofisticadas. e que portanto é uma virtude das instituições sociais tão importante quanto a justiça. Por um lado. A teoria liberal do direito e a superação do positivismo jurídico 184 . elas se sobrepõem a benevolência. por exemplo. mas as demandas por justiça naquelas circunstâncias são maiores do que aumento obtido. Pensar uma teoria do direito a partir da necessidade de superar os racionalismos e tradicionalismos típicos das deontologias e dos comunitarismos liberais. Isto só ocorre se a situação anterior é primordialmente injusta. mas se ela é definida por um ambiente de benevolência. Quando não há escassez ou não há interesses conflitantes. Logo. Por outro lado. não podemos afirmar com certeza se um aumento de justiça representa um aprimoramento moral ou não da sociedade. são necessárias respostas para como reorganizar as relações entre um conceito de justiça e as instituições do direito que a aplicarão.

Norberto. A norma fundamental. a sua unidade. 94 Ibidem. da qual emanariam todas as outras normas do ordenamento jurídico e que. 221 e segs. desde que ela seja válida qua de acordo com as regras que disciplinam a sua criação.133. 1994. portanto. O princípio da completitude. qual seja. 202 e 203. portanto. segurança jurídica e certeza quanto à coerência das decisões tomadas. O princípio da coerência implica na idéia de que o ordenamento não comporta contradições internas. por sua vez. p. hipotética e pressuposta. torna o direito em sua própria fonte de normatividade. O Positivismo Jurídico: Lições de Filosofia do Direito. obriga os juízes a resolver todo caso com os recursos formais postos à sua disposição pelo próprio sistema jurídico. duas ou mais normas contraditórias ou contrárias não podem coexistir dentro deste ordenamento. São Paulo: Editora Martins Fontes. geral (a norma aplicável). Kelsen. quando acoplada ao princípio da completitude. Esta unidade do ordenamento produz. pp. e ao o juiz cabe apenas buscar a melhor norma já existente dentre as normas válidas do direito positivo. ele busca garantir a unidade formal do sistema jurídico. pp.91 Estes dois princípios. Hans. ou seja. 185 .132 . ao mesmo tempo. 94 O conteúdo que esta decisão vai adquirir é secundário. 93 Idem. referemse à característica primeira do ordenamento jurídico positivista. Teoria Pura do Direito. sempre se fundando em normas pertencentes ao ordenamento. 277 e segs. ou seja. pp.185 As duas peças centrais da teoria do ordenamento do positivismo jurídico são os princípios da coerência e da completitude. na medida em que estabelece que o próprio direito regule a sua criação e aplicação de normas. da 91 Ver Bobbio. 259. o processo interpretativo do direito se dá na construção de uma teoria escalonada do ordenamento jurídico. Quando Kelsen apela a uma norma fundamental (Grundnorm). afirma que o ordenamento é vazio de lacunas. 1995. por sua vez. lhes validariam. A decisão juridica.92 Na teoria do direito positivo. na validação da norma inferior. permitindo que um juiz possa decidir qualquer caso que lhe seja apresentado. a respeito.93 Neste contexto. 92 Ver. específica (decisão judicial) pela norma superior. São Paulo: Ícone Editora.

provê uma teoria política liberal com um arcabouço de instituições normativas cuja função restringe-se à aplicação das normas criadas pelos legisladores e à garantia de que tais normas não violem normas superiores. Ronald. “Pragmatismo. 111.95 Em suma. portanto. A teoria positivista do direito.186 perspectiva do positivismo jurídico. José e Pogrebinschi. Direito e Política” in Novos Estudos Cebrap. Cf. março de 2002. restringe-se a reconhecer a norma relevante a aplicá-la lógica ou analogicamente ao caso em questão. 225. 96 Com efeito. entendida como um processo de conhecimento e não de criação. Law’s Empire. Cambridge: Harvard University Press. A obra do jurista norte-americano Ronald Dworkin busca superar o positivismo jurídico através de uma concepção do direito como integridade. p. e nunca preenchê-lo”. Dworkin. deve apenas indicar este quadro.1986. Thamy. 186 . diz Kelsen. e é por isto que uma imagem recorrente no âmbito da interpretação juspositiva é a da “moldura”: “o ato de aplicação do direito deve preencher um quadro. Dworkin defende uma perspectiva interpretativista do direito.96 95 Eisenberg. Seu formalismo deriva de uma interpretação rígida do papel desta norma na produção de normas inferiores de forma a assegurar que somente mecanismos clássicos de argumentação retórica. em que a integridade da decisão jurídica adquire o status de um virtude política através da qual o juiz sintetiza elementos retrospectivos e prospectivos na formulação de suas decisões que podem estar fora do direito positivo. é despreocupada com a sua justiça substantiva. no caso de Kelsen. A atividade de justificação pública do juiz. o positivismo jurídico é essencialmente fundacionalista quando apóia a unidade do sistema jurídico em uma única fonte: a norma fundamental. como silogismos e analogias. mas a interpretação positivista. neste sentido. p. sejam os instrumentos de trabalho do juiz. no qual a atividade adjudicatória do juiz inclui interpretação somente nas lacunas do direito positivo. Seu principal alvo é o caráter não-interpretativista do positivismo jurídico. a definição inicial que Dworkin dá para a integridade do direito em seu Law´s Empire nos induz a esta conclusão. nº 62.

Na atividade judicante. Thamy. a integridade compele o juiz que adota um certo princípio em um determinado caso a dar-lhe peso total também em outros momentos.114. já que estes princípios são necessariamente de caráter moral.187 O objetivo central da teoria dworkiniana é consolidar uma comunidade de princípios. Cambridge: Harvard University Press.. este direito novo que é criado. se dá de maneira muito peculiar. ressonância em outros casos e 97 98 Idem. nos precedentes judiciais. p. a comunidade de princípios enquanto motor da integridade do Direito depende de que os juízes. estratégia ou posição política. p. o direito como integridade. Cambridge: Harvard University Press. Freedom’s Law. Ronald. Ver também Dworkin. José e Pogrebinschi. Sobre as espécies normativas identificadas por Dworkin veja-se. quais sejam: a) as decisões judiciais devem consistir em questões de princípios e não traduzir um compromisso. encontra uma forte limitação em sua atividade: o imperativo da integridade. portanto.1985.1994.97 Este compartilhamento de princípios a que se refere Dworkin o coloca. um modelo de comunidade no qual seus membros aceitam serem governados pelos mesmos princípios. os princípios possibilitam que se crie direito novo. Ou seja. por meio da sua atividade judicativa. A integridade do Direito. os princípios destacam-se pelo papel vinculativo e integrador que exercem. Este imperativo afeta a atividade judicante em três dimensões distintas. entretanto. consolidem estes princípios em um sistema consistente ao longo do tempo: . não obstante o estabelecido pela legislação ou pelos precedentes judiciais. o seu A Matter of Principle. The Moral Reading of the American Constitution. 99 O Juiz Hércules consiste em uma metáfora que Dworkin utiliza na maioria de seus livros para exemplificar um juiz que opera a partir de sua própria concepção de Direito. O único requisito é que estas inovações sejam consistentes com a história do Direito e que os princípios mobilizados tenham. Mas esta inovação. “Pragmatismo. a integridade vincula um juiz de forma a obrigá-lo a demonstrar que a afirmação de um determinado princípio é consistente com os precedentes e com a estrutura do direito e. permitem que o juiz inove em suas decisões.. vale dizer. isto é. 100 Eisenberg.ao lado das demais normas que compõem o ordenamento jurídico – regras. o famoso Juiz Hércules99. no campo do comunitarismo. b) verticalmente. isto é.100 O Juiz Hércules tem. portanto. Isto porque o juiz de Dworkin. parte I. exige que eles possam ser encontrados explícita ou implicitamente nas decisões judiciais passadas.83. 211. principalmente. 187 . c) horizontalmente. em certa medida. Direito e Política”. a capacidade e o poder de criar novas normas jurídicas. p. políticas e procedimentos98 –.

tal qual presente no positivismo jurídico. Taking Rights Seriously. já que confere de facto autoridade histórica aos princípios liberais que emergem da tradição com a qual o juiz dialoga na produção de direito novo. cada decisão inovadora de um juiz. isto é. 188 . Direitos são por definição certas prerrogativas que indivíduos podem arrolar contra o coletivo e suas decisões. a teoria do direito de Dworkin liberta o liberalismo da rigidez que resulta de um modelo estritamente deontológico de normas. requer que as instituições do direito produzam normas válidas porque íntegras mesmo quando elas 101 Ver Dworkin. em uma narrativa em que cada nova decisão ao mesmo tempo pressupõe e inova em relação às decisões anteriores. o elemento retrospectivo de sua teoria da interpretação. portanto. Desta forma.188 contextos concretos em que forma mobilizados juridicamente. A metáfora que Dworkin utiliza para ilustrar a articulação deste ideal de integridade na atividade dos juízes é o de um romance seqüencial (chain novel). o Juiz Hércules não cria retrospectivamente novos direitos fundamentais. Entretanto. Compreende-se assim como sua teoria se mantém vinculada a uma tradição liberal. Direitos. ele cria novas formas de interpretar a aplicação destes direitos. Isto não quer dizer que direitos têm valor absoluto. Cada capítulo novo deste romance. em que o direito constitui-se. para Dworkin. só pode ser escrito se este juiz tiver lido os capítulos anteriores e for consistente com eles.1977. Ronald. p.101 Neste contexto. na medida em que está balizada no conceito do direito enquanto integridade. mas somente que cada direito impõe um limite à realização de objetivos coletivos. Como aponta o próprio Dworkin. 81. os direitos liberais não podem meramente ser derivados de uma estrutura constitucional positivada que os institua. Cambridge: Harvard University Press. são como trunfos (trumps) em um jogo de baralho e. para Dworkin. Assim. Dworkin combina um elemento retrospectivo e outro prospectivo no Direito. nunca podem ser submetidos a uma lógica de utilidade social ou a um critério positivo para decidir a sua validade. na prática.

são princípios liberais orientados por uma concepção forte de direitos inalienáveis. Aqui opera um princípio de universalização (U) – a consideração igual aos interesses daqueles que podem ser 102 Habermas. não princípios formais do próprio direito. Por um lado. A ciência jurídica positiva. Estas condições.453. em sua aplicação da lógica e da analogia aos conflitos e contradições entre regras. no caso das sociedades que são o objeto de sua reflexão. Já a crítica de Habermas ao positivismo jurídico restringe-se ao limite decisionista imposto por esta doutrina. e permite que o sistema do direito aja. portanto. p.189 não sejam socialmente aceitáveis. não se aplica aos princípios de Dworkin. pelo menos não na versão do positivismo de Kelsen. 189 . Estes princípios. com freqüência. defende Habermas. são extra-jurídicos (morais).102 Habermas apropria a crítica ao positivismo jurídico de Dworkin no que tange a ausência de uma distinção entre regras jurídicas e princípios extra-jurídicos que operam no seio do direito. Os princípios de Dworkin. a constituição da autonomia privada passa por um princípio moral que define e fundamenta a esfera de normas morais legítimas que podem ser aplicadas aos objetos/alvos da legislação. Habermas quer substituir a regra fundamental por um arranjo racional-procedimental que garanta as condições de comunicação necessárias à formação da vontade racional do legislador. Jürgen. não nos leva diretamente a um direito naturalizado. Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy. mas reintroduz um momento de indisponibilidade (unverfügbar) do direito que insere sua teoria em uma locus intermediário entre o positivismo jurídico e um direito quase-naturalizado. são princípios extra-jurídicos incorporados ao direito. de acordo com Habermas. enquanto peso renovador somente na medida em que o capítulo novo escrito pelo juiz preserve a integridade da comunidade de princípios que. mas nunca externos à teoria política liberal que constitui a tradição histórica do direito norteamericano.

A aplicação destes princípios na esfera do direito é uma dimensão distinta e anterior ao processo de constituição de suas instituições normativas. o sujeito esteja desincumbido das pressões por produzir julgamentos baseados em princípios para toda questão normativa que se apresentava no seio da sociedade. o princípio do discurso já pressupõe a possibilidade de julgamentos morais válidos. O Direito alivia este sujeito na medida em que transfere esta obrigação para instituições de law enforcement. estas duas autonomias são co-originais. Ambas autonomias fazem com que. Em primeiro lugar. A constituição da autonomia pública. Os objetos do Direito (os indivíduos que portarão direitos) e os autores da legislação (os cidadãos que criam estes direitos) são indissociáveis no processo de constituição dos direitos. passa por um princípio do discurso (D) que define e fundamenta a esfera de normas morais legítimas que todos os (potencialmente) afetados poderiam acordar enquanto participantes em discursos racionais. desincumbe o sujeito desta obrigação cognitiva de produzir julgamentos.190 afetados pela leglislação. simultaneamente. Habermas recusa estabelecer a anterioridade da autonomia privada do indivíduo vis-à-vis a sua autonomia pública enquanto cidadão. o sujeito que julga por princípios tem a obrigação de produzir julgamentos morais imparciais para as questões que lhe são apresentadas. um processo marcado pelas incertezas motivacionais sobre a retidão da ação que é supostamente guiada por princípios. na medida em que transfere a função de julgar – e de estabelecer critérios de validade sobre o que é legal e ilegal – para processos parlamentares e judiciários. Percebam que enquanto que o princípio moral é uma regra de argumentação para decidir questões morais racionalmente. Em oposição ao positivismo jurídico. Para Habermas. por sua vez. A coerção do Direito 190 . o sujeito deve conseguir harmonizar os princípios do sujeito que julga com as ações do sujeito que é julgado (que age). Em segundo lugar. O Direito. neste contexto.

Discursos de aplicação. mas apenas à decisão correta de um caso individual. isto é.191 garante comportamento e ação de acordo com os princípios independentemente da motivação neste sentido. Perceba-se aqui que o Hércules dworkiniano opera na teoria de Habermas no sentido de definir quais normas e/ou princípios são apropriados ao caso em questão. o que caracteriza e especifica a natureza do discurso jurídico é a sua preocupação exclusiva com a consistência da aplicação e a coerência das normas utilizadas para tal. portanto. para Habermas. é aquela que tem como base a norma apropriada. basta analisá-la face aos fatos do caso concreto e face às normas potencialmente aplicáveis a ele (dentre aquelas que já superaram o teste de validade). não se ligam à validade das normas. E a decisão correta. opera apenas uma modalidade discursiva vinculada ao critério da “propriedade” (approprieteness): o discurso jurídico deve estar voltado para a consistência interna das normas jurídicas. tão importante ao seu arcabouço teórico. que assumem este função. o Direito se incumbe por ele de gerar normas sobre normas. havendo desta forma uma preocupação com o contexto na escolha das normas aplicáveis. ético e pragmático. No plano da justificação do direito. Para saber-se qual a norma apropriada. mas que nunca implicará na possibilidade deste contexto se sobrepor a todas as normas existentes e um discurso extra-jurídico ser considerado apropriado. Por fim. Observe-se que esta formulação aproxima Habermas do 191 . Uma vez estabelecida esta esfera de atuação do Direito alicerçada na autonomia pública e privada do sujeito moral. mas no plano da aplicação há um único critério definidor da validade na norma jurídica. podem operar diferentes discursos (teóricos e/ou práticos). Em oposição aos discursos moral. Habermas pode encaminhar a separação entre justificação e aplicação. na medida em que determinados princípios morais exigem formas de ação que não estão ao alcance do sujeito. Neste plano. organizações.

Jürgen. nº 62. pp. o fundamento da validade das normas depende de um mecanismo interno ao próprio sistema do direito. nos caso do positivismo e de Habermas. José e Pogrebinschi. obedece a regras formais. Habermas. p. pp. A fundamentação. para o autor. da lógica e da analogia. por conseguinte. p. A preocupação de Habermas ao operar com essa distinção é encontrar um fundamento de validade para as normas jurídicas que escape da esfera da coerção estatal e de sua respectiva sanção. Morality and Politics” in Cardozo Law Review Volume 17. no caso do positivismo. e do processo argumentativo. além de um parâmetro de análise do qual nenhuma teoria social e/ou jurídica pode prescindir. no caso de Habermas. No caso de Dworkin. Teubner.192 positivismo jurídico. Günther. março de 1996. José e Pogrebinschi. “Pragmatismo.117. Direito e Política” . encontra-se uma sistematização de como o positivismo jurídico. A tensão entre facticidade e validade é. ainda que a comunidade de princípios possa conter normas externas ao direito. Thamy. Na tabela acima. 13 e segs. 192 . sua vinculação no plano de sua fundamentação a um exercício retrospectivo que ata a aplicação do princípio a história das aplicações anteriores também impede que concepções do bem que não tenham 103 Eisenberg. número 4 -5. Percebam que.103 Fundamento de validade das normas Fundamentação da validade das normas Positivismo Norma Fundamental (Kelsen) Processo silogístico Dworkin Comunidade de Princípios História Habermas “Propriedade” (appropriateness) da norma a ser aplicada Processo argumentativo Fonte: Eisenberg. Dworkin e Habermas interpretam o fundamento e o processo de fundamentação da validade das normas jurídicas. e as concepções do bem que coexistam com a concepção de justo no plano da sociedade não têm como se tornar instrumentos de justificação da validade da norma. “De Collisione Discursuum: Communicative Rationalities in Law. 178 e 186 e Justification and Application. uma dualidade própria do direito moderno. Thamy in Novos Estudos Cebrap. 903. Between Facts and Norms.

a função paliativa dos atores do Judiciário enquanto contrapeso radical às desigualdades sociais resultantes do modelo vigente. (b) seja capaz de recuperar o sentido original da idéia de soberania popular que está na base do modelo democrático constitucionalista vigente no Ocidente. isto é. por outro lado. Habermas busca. A juridicização das relações sociais. mas Habermas aponta também para os riscos da nova forma de cidadania clientelista que tais avanços da judicialização produziriam. Dworkin. por outro lado. temos uma interpretação do problema do direito enquanto instituição normativa que restringe a possibilidade de que concepções do bem sejam aplicadas por juízes em situações concreta de ação (no caso deles. Esta restrição fica ainda mais evidente quando olhamos para a interpretação dos temas de judicialização da política e da juridicização das relações sociais oferecidas por estes modelos. a judicialização da política. No positivismo jurídico. a invasão dos mecanismos de resolução de conflito do direito em outras esferas do poder público e a politização da atividade do judiciário. de adjudicação) em detrimento de uma concepção liberal qua formal da justiça. Nos três modelos. só pode ocorrer na medida em que esteja formalmente coerente e não-contraditória com as normas superiores préexistentes. antes de tudo. confronta a invasão da política pelo direito de uma 193 . uma reafirmação do valor procedimental de uma estrutura básica de direitos que (a) permita a reorganização e o fortalecimento de uma cidadania ativa no âmbito da sociedade civil.193 encontrado um lugar na tradição do direito operem enquanto mecanismos de justificação da validade das normas. representa um risco eminente ao ordenamento jurídico. por fim. e (c) substituir. há uma valorização apenas parcial da judicialização da política e da juridicização das relações sociais na medida em que estes processos são apenas um indicador das conquistas sociais consolidadas no Estado de Bem-Estar Social. No procedimentalismo de Habermas. assim. portanto.

esta supremacia deontológica do justo está expressa na própria forma constitucional-positiva de consolidação da prioridade de direitos sobre quaisquer outras normas institucionalizadas. No positivismo. apontando para o importante papel que juízes e demais atores do Judiciário exercem no sentido de estabelecerem um contraponto conservador à inevitável tendência dos legisladores de atuarem em convergência com os desejos da maioria. bem como a sua extensão aos setores menos integrados da sociedade. por fim. onde os critérios para argumentos válidos estão restritos àqueles que conformas com uma concepção procedimental de justiça. apesar da introdução de princípios morais externos ao direito. procurarei demonstrar que uma compreensão adequada do papel das instituições normativas do Direito (e das virtudes e vícios da judicialização e da juridicização) que leve em conta a co-presença de 194 . Em Habermas. não apresenta maiores riscos às suas instituições. de Dworkin e de Habermas. Nas sessões seguintes deste capítulo. até mesmo. continuamos presos à idéia de que uma concepção do justo pode se sobrepor às concepções de bem de uma sociedade. A juridicização das relações sociais. a supremacia do justo está expressa na apresentação de direitos enquanto trunfos pré-jurídicos que podem ser arrolados pelos cidadãos em defesa contra concepções do bem que possam vir a colonizar o Direito. desde que preservada a integridade do direito. preservadas as marcantes diferenças entre suas teorias. Em suma. a responsabilidade) de intervir ativamente nos processos políticos no sentido de assegurar a estabilidade e a coerência dessa ordem. universalizada e aceita pelos concernidos. os juízes são capazes (e têm. a prioridade do justo sobre o bem é procedimentalizada no plano do discurso. símbolo máximo do contrato original que estabelece o horizonte normativo da ordem política democrática.194 perspectiva um pouco mais otimista. Em Dworkin. Defensores da Constituição. sob a ótica liberal do positivismo. por sua vez.

portanto. Esta tematização reflexiva ocorre de três maneiras: há processos de auto-identificação no sistema jurídico enquanto tal. Ele precisa ser. enquanto agente de facilitação e regulação indireta das normas e procedimentos gerados por esses outros subsistemas. o problema central desses outros pragmatismos é precisamente este: como ser conseqüencialista no plano da aplicação do direito. 1999:195). Sob a ótica pragmatista. sob a ótica daqueles que apontam para uma dimensão reflexiva do direito. e funciona. nos quais os seus agentes criam normas para suas próprias ações e estabelecem. sob a ótica pragmatista. Enquanto Habermas e Dworkin se inserem em um modelo liberal de direito. esta reflexividade implica a presença de um meta-discurso normativo em que o direito utiliza sua própria experiência para reformar suas instituições e práticas. nestes casos.195 concepções do bem e uma concepção do justo na produção de decisões. capaz de “tematizar sua própria identidade” (Faria. precisa ser avaliada em termos de suas finalidades. há uma terceira 195 . no plano da aplicação do direito. uma lógica auto-reguladora para o sistema. soluções e resoluções para dilemas oriundos de conflitos sociais. o direito reflexivo e o direito responsivo. regras e normas – que podem até ser justificados pragmaticamente. portanto. o sistema jurídico exerce um papel de apoio em relação ao processo reflexivo de auto-identificação de outros subsistemas sociais. A judicialização e a juridicização da política. Em segundo lugar. nas palavras de José Eduardo Faria. em primeiro lugar. mas nunca sujeitos a uma lógica pragmática de aplicação –. requer que analisemos o fenômeno sob a perspectiva de pelo menos três outras tradições de reflexão sobre o problema do direito: o pragmatismo. em que ações orientadas pelas conseqüências estão subjugadas a procedimentos. bem como a dos agentes sociais em direção a ele. são interpretadas enquanto ação política que busca. a atividade dos agentes do sistema jurídico.

particularmente através das premissas jurídicas de procedimento e organização que conferem legalidade às normas desses subsistemas. encontramos uma solução distinta. há o pragmatismo político do movimento conhecido como Critical Legal Studies (CLS). e 196 . De outro. Pragmatismo As interpretações pragmatistas do direito podem ser classificadas em dois campos de reflexão com importantes diferenças entre elas no que se refere à forma como analisam o papel do direito e de seus agentes. da política e da economia. direito reflexivo e direito responsivo) introduzem questões inexploradas no âmbito dos modelos liberais de Habermas e Dworkin. Philip Frickey e Martha Minow. Por fim. mas igualmente interessante a do pragmatismo. representado no mundo contemporâneo por autores como Richard Posner.196 dimensão reflexiva do sistema jurídico que remete a mecanismos auto-referenciais que operam na função de integração que o direito exerce na constituição auto-regulada e descentralizada dos subsistemas sociais. De um lado. no tratamento dado ao tema da responsividade do direito em Selznick e Nonet. estas óticas alternativas ao problema do direito nas sociedades contemporâneas (pragmatismo. Daniel Farber. no tratamento do problema da judicialização e da juridicização. cujos principais nomes foram Oliver Wendell Holmes. diversas questões relativas às interações entre os três Poderes da República e os subsistemas sociais do direito. há o pragmatismo jurídico. e que procura fazer uma atualização do realismo jurídico da primeira metade do século XX. Thomas Grey. e permitem a formulação de um modelo sintético de um direito pós-liberal. Roscoe Pound e Benjamin Cardozo. Como veremos neste estudo. no que tange a institucionalização da permeabilidade normativa do sistema do direito. Estas três tematizações reflexivas introduzem.

197 representado atualmente por autores como Roberto Mangabeira Unger e Duncan Kennedy. teorias éticas ou morais operam sobre a formulação do direito. “What Has Pragmatism to Offer Law?” in Brint. e (c) a insistência de que projetos éticos. Oxford: Westview Press. O conseqüencialismo do pragmatismo manifesta-se no enraizamento do direito na prática. Pragmatism in Law and Society. políticos e jurídicos sejam julgados e avaliados por sua conformidade com necessidades humanas e sociais. estes três elementos complementares definem as características essenciais que diversos autores reconhecem no pragmatismo. pp. Raciocinar teoricamente não é um vício. Michael e Weaver. 197 . Para o pragmatismo. Neles. (b) a insistência de que a validade de proposições seja testada pelas suas conseqüências. revisabilidade e mutabilidade. as regras jurídicas são entendidas em termos instrumentais. e põem o direito a serviço das necessidades humanas e sociais. Já o contextualismo se define pelo julgamento dessas práticas e de seu conhecimento a partir dos resultados desejáveis que elas produzem em situações problemáticas (Grey. na maior parte das vezes 104 Para uma discussão destes três eixos. ver Posner. mas não se deve conferir autoridade última a uma teoria. no conhecimento tácito nela gerado. mas. e na preocupação com resultados. explicitar pressuposições tácitas quando elas estão causando problemas práticos. mas. implicando contestabilidade. Ser pragmatista ao analisar o direito significa considerar que teorias se tornam impraticáveis quando seu grau de abstração e generalidade é excessivo. Richard. 1991:16). Podemos definir o eixo comum destes pragmatismos em termos de três elementos complementares: (a) a desconfiança de instrumentos metafísicos de justificação ética. quais sejam: o conseqüencialismo e o contextualismo. 1991. e não por critérios supostamente objetivos ou impessoais104. Ambos os modelos são herdeiros da filosofia pragmatista. William. Juntos. 35 e 36. já que o objetivo crítico de raciocinar teoricamente não é chegar a abstrações praticáveis. sim.

Em Dworkin. que aquele que opera com a aplicação do direito adote um ponto de vista experimental. portanto. Ainda que a teoria do direito de Habermas comporte uma desconfiança da metafísica – o seu recurso a uma ética do discurso visa precisamente transferir o problema da fundamentação última das normas ao plano da formulação intersubjetiva de princípios –. nunca pode violá-los nem pode ser estritamente conseqüencialista como propõe o pragmatismo. Mas os três elementos acima descritos distanciam a interpretação pragmatista do direito das interpretações de Habermas e Dworkin. O pragmatismo implica. tanto Habermas quanto Dworkin introduzem um elemento pragmatista em suas teorias. dando primazia às possíveis conseqüências de seu julgamento. aponta para a heterogeneidade de recursos utilizados pelo direito para produzir resoluções políticas para disputas que precisam ser formatadas em termos apolíticos e abstratos. Como lembram Werneck Vianna et alii. provavelmente é melhor aplicar tal norma”. ele torna-se servo das necessidades humanas e sociais. a porção mais importante de uma legislação é o proviso “exceto em casos em que fatores preponderantes prescrevam o contrário”. O pragmatismo. essa indisponibilidade dos direitos e princípios básicos também é evidente. 1991:36). para Habermas. Um juiz pragmatista será então. isto é. na insistência de 198 . secular. antes de tudo. instrumental e progressivo.198 (ou pelo menos freqüentemente). os quais são justificados pragmaticamente. ela retém o elemento transcendental quando propõe a indisponibilidade de uma estrutura de direitos fundamentais. Tudo que uma máxima universal ou um procedimento formal anuncia é que “na maior parte das vezes. Atitudes teóricas para com o direito devem ser heurísticas em sua intenção e probabilísticas em seu conteúdo. orientado para o futuro (Posner. Mas a aplicação do direito. um criador do direito. Ao decidir. assim.

Para ambas as visões. enquanto movimento inverso da judicialização. Para o pragmatismo jurídico. na visão do pragmatismo jurídico. o juiz pragmatista inova e produz direito novo. Em Dworkin. que buscam através de instrumentos tipicamente jurídicos realizar essas conseqüências. os fenômenos da judicialização e da tribunalização da política não são nem positivos nem 199 . estamos muito distantes do instrumentalismo ético que caracteriza o pragmatismo. Tal qual o juiz Hércules idealizado por Dworkin. ainda que.199 Dworkin de que o direito permaneça íntegro perante demandas advindas de políticas. em suas ações. aponta para o mesmo fenômeno. o conseqüencialismo e o contextualismo dos atores do sistema jurídico requerem a autonomia desses atores no exercício de seus poderes constituídos. Apesar de sua convergência naqueles três eixos complementares. a integridade e a coerência do direito são as fontes desta autonomia. as duas formas de pragmatismo aqui discutidas se diferenciam pelo modo como interpretam a relação entre direito e política. o diálogo com a história e com os princípios morais nela contidos sejam completamente irrelevantes. a judicialização da política. Nesse sentido. o juiz pragmatista pode sempre se referir a argumentos e princípios que se encontram fora daquela tradição. que geram a necessidade de o direito raciocinar sobre novas conseqüências desejáveis. a autonomia do juiz é parte constitutiva e essencial da sua atividade inovadora. conseqüencialista. A tribunalização por sua vez. ela deriva do imperativo de que o juiz produza interpretações próprias de quais são as necessidades sociais e humanas no momento. Nesse contexto. a ampliação do alcance da ação executiva e legislativa do Judiciário. para ele. isto é. no pragmatismo jurídico. é interpretada como uma expansão das demandas por resolução de conflitos sociais. sendo até mesmo estritamente instrumental. no entanto. ainda que novas conseqüências desejáveis sejam introduzidas nos horizontes dos poderes Legislativo e Executivo. isto é.

e a autonomia do direito nada mais é do que um resultado histórico-contingente do esforço em evitar que atores do sistema jurídico façam política. antes de tudo. o direito é interpretado enquanto um contrapeso radical à política. indicando apenas a necessidade imperativa de se olhar para a atividade dos atores do sistema judiciário de um ponto de vista conseqüencialista. 200 . e não normativa. por outro lado. às vezes.200 negativos a priori. O produto intencionado da kenosis que definirá a atividade política do juiz é uma prontidão (readiness). até mesmo prejudicial. a autonomia relativa do direito e da política. 1996:129). no sentido de compreender as transformações que ocasionaram novas demandas e novas finalidades sociais desejadas. sempre orientado por motivações políticas. Mangabeira Unger toma emprestado um conceito dos autores patrísticos para definir esse novo papel do direito: kenosis (esvaziamento). se para o filósofo alemão este contrapeso opera em um sentido reconstrutivo e formalista. juízes são (e devem ser) políticos. Como em Habermas. na medida em que precisamos delas. No pragmatismo político. Sob a ótica realista desses autores. tanto para esvaziar e tornar estéreis determinados modelos. Os modelos normativos circulantes e vigentes em uma sociedade devem ser permanentemente esvaziados para que o espaço vazio resultante seja ocupado por “idéias. para o pragmatismo político o direito é um contrapeso radical à política porque deve atuar enquanto agente de distúrbios e ruídos. tais fenômenos devem ser analisados de uma perspectiva sociológica. na medida em que podemos realizá-los” (Mangabeira Unger. No entanto. para que possamos subseqüentemente compreender o papel desestabilizador que o direito deve exercer. e atos. buscando simultaneamente a reafirmação de um sentido original de soberania popular e de uma estrutura básica de direitos. Para autores como Mangabeira Unger é necessário que recusemos. a autonomia do direito é irrelevante e. Para o pragmatismo político do CLS.

o pragmatismo político privilegia a discussão da judicialização da política. mas sim prevenir que relações institucionalizadas e recorrentes entre grupos resultem em determinadas rotinas de subjugação e fechamento” (Mangabeira Unger. O conceito de kenosis sugere um certo tipo de ativismo judicial no qual o papel dos agentes do Judiciário é impedir a consolidação e a juridicização definitiva de modelos de reprodução de desigualdades sociais e econômicas. 1987:535). é que ela se limita aos mecanismos de formação de consenso. Os direitos de desestabilização viriam a cumprir o papel de formalização jurídica da kenosis. Um dos problemas da judicialização em curso. muitas vezes. tal efeito desestabilizador deve extrapolar para além do ativismo dos atores jurídicos e constituir efetivamente uma nova categoria de direitos que ele chama de direitos de desestabilização. atrapalhar. Mas. Reflexividade 201 . sem que haja concomitantemente uma judicialização dos mecanismos de produção de ordem em conflitos. de acordo com Mangabeira Unger. Enquanto o pragmatismo jurídico insere a judicialização e a tribunalização da política em um panorama sociológico em que a existência destes fenômenos é evidência da ação conseqüencialista dos atores dos três Poderes.201 quanto para ocupar o espaço vazio com novas idéias para a política. a autonomia do direito não ajuda e pode. para Mangabeira Unger. E neste duplo movimento de kenosis. permitindo uma juridicização ordenada dos conflitos: “o objetivo dos direitos de desestabilização não é demarcar uma zona fixa de ação discricionária em que o portador individual deste direito pode fazer o que quiser. apontando para uma agenda normativa centrada na sua necessidade e no seu caráter produtivo.

Se o direito fosse simplesmente um propósito/objetivo. 1988). nos termos de François Ewald: não existe lei sem uma lei sobre leis. o direito reflexivo encontra suas chances de desenvolvimento na crise interna da autonomia do formalismo jurídico.202 Se as questões levantadas pelas interpretações pragmatistas do direito apontam para problemas relativos à finalidade da atividade jurídica. Em outras palavras. Mas em que consiste o direito reflexivo? Conceito elaborado principalmente na obra de Gunther Teubner (1996). Cada um deles é um tipo ideal e suas interações internas levam. sucessivamente. Se o direito fosse somente uma idéia regulativa. o “direito responsivo” é o último dos estágios. já que o que define um ideal de regulação é precisamente a distância entre o instrumento e o caso ao qual ele se aplica. O direito deve. as interpretações sistêmicas da reflexividade do direito levantam problemas relativos aos tipos de racionalidade que operam nas práticas dos agentes do sistema jurídico. isto é. autônomo e responsivo. Esta crise serve então de base para o desenvolvimento do estágio seguinte no continuum evolutivo. Termo originalmente cunhado por Nonet e Selznick. um momento de reflexão no qual o direito pensa sobre si mesmo (Ewald. portanto. um princípio. seria necessariamente realizável no tempo e terminaria quando isto ocorresse. seria impossível de ser realizado concretamente. recolocando uma nova soberania da finalidade 202 . ser também reflexivo. capaz de aprendizado e sensibilidade para reagir às necessidades sociais e às aspirações humanas. “direito reflexivo” remete a um modelo sociológico de evolução jurídica elaborado por Nonet e Selznick (2001[1978]) no qual a dinâmica interna da instituição social do direito apresenta três estágios de evolução: direito repressivo. como no direito material. e se caracteriza por uma instituição flexível. Ou. como no direito formal. a uma crise do sistema jurídico.

portanto. 1958. dotada de instrumentos que tornam instituições jurídicas capazes de se autotransformar para aumentar sua eficácia operacional105. The Uses of Argument. 203 . Uma racionalidade jurídica reflexiva. Uma perspectiva reflexiva do direito requer. Cambridge: Cambridge University Press. Do ponto de vista da interação entre o direito e os outros subsistemas sociais. Ao direito material corresponde um programa composto de intenções de intervenção substantiva. organizado a partir de relações instrumentais.203 lado a lado com o formalismo e o direito material. padrões normativos e procedimentos para a criação. Stephen. essa capacidade de autotransformação se traduz em um conceito de autopoiesis que radicaliza a noção de autonomia do direito. enquanto para a ótica reflexiva do direito. As pressões sociais tornam-se fonte de conhecimento e oportunidades para a autocorreção do direito. para o pragmatismo tal soberania de finalidades deve suplantar as duas outras formas de direito (formal e material). Ter um direito reflexivo composto de diretivas responsivas significa que existe um certo tipo de racionalidade jurídica (reflexiva) em que os instrumentos. o conseqüencialismo deve coexistir com o direito material e o direito formal. ver Toulmin. tal qual descrito acima. Ao direito formal corresponde um programa condicional organizado ao redor de diretivas causais do tipo se x então y. portanto. que se analise a coexistência de três tipos de normas jurídicas e os respectivos programas a eles relacionados. Ainda que haja uma importante convergência entre a ótica pragmatista e o direito reflexivo no que tange a esse elemento conseqüencialista que ambas compartilham. prevenção e resolução de disputas são capazes de se adaptar agilmente às transformações no âmbito dos casos concretos para os quais tais instrumentos precisam ser aplicados. é uma racionalidade casuística (no sentido formal do termo). Já o direito reflexivo estabelece um programa relacional definido por responsividade. Enquanto o conceito de autonomia parte da 105 Para o conceito de casuísmo.

já que o direito “inventa” um retrato da economia e formula normas jurídicas (não-econômicas) para lidar com este retrato. os modelos autopoiéticos tratam o ambiente social do direito como uma construção do próprio sistema jurídico106. e a economia “inventa” um retrato do processo jurídico e cria procedimentos de pagamento 106 Para o conceito de autopoiesis. os problemas da reflexividade e da autotransformação do direito recolocam-se em termos dos mecanismos de intervenção indireta que operam entre o direito e outros subsistemas sociais no processo de juridicização. é um caso de observação mútua. a possibilidade de o direito interferir diretamente nas operações de outros subsistemas e vice-versa. e aponta para modificações na direção de um maior insulamento do direito em relação ao sistema social. interferência e organização. 204 . a perspectiva traduzida pelo conceito de autopoiesis postula o fechamento operacional do sistema legal. Social Systems. Esta capacidade de observação do sistema não se refere a uma capacidade de “acessar” o meio ambiente. Niklas. Stanford: Stanford University Press. Gunther Teubner (1996) enumera três tipos de intervenção indireta: observação mútua. A partir do conceito de autopoiesis. 1995. Ou seja. À medida que os modelos de autonomia interpretam o sistema jurídico como uma construção determinada externamente pelo ambiente no qual ele se autonomiza. assim. por exemplo. subsistemas sociais são capazes de introduzir novas distinções nas suas operações internas com base em estímulos indiretos produzidos fora dele. A capacidade de observação mútua é resultado direto da abertura cognitiva do sistema jurídico e de sua capacidade de processar comunicações sociais a partir de sua chave normativa (legal/ilegal). excluindo inteiramente. mas somente ao fato de que este ambiente produz “ruídos” que estimulam transformações na ordem interna do sistema. ver Luhmann.204 possibilidade de intervenção direta do sistema jurídico nas relações sociais exteriores a ele. A interação entre economia e direito.

permitindo um acoplamento de segunda ordem entre eles e uma transferência de significações para além de limites subsistêmicos. 13. 107 108 Idem. Luhmann. v. “Operational Closure and Structural Coupling: The Differentiation of the Legal System” in Cardozo Law Review. 1432. Um contrato é resultado de interferências mútuas entre os subsistemas jurídico e econômico. 5. 205 . toda interação jurídica é uma interação normativa que traz lucro ou prejuízo. eles somente se observam mutuamente.107 Além de realizarem operações de observação mútua.108 Estes acoplamentos estruturais ocorrem na forma de “interferências” e de “organizações”. O resultado são comunicações sociais que não podem ser trivialmente atribuídas a nenhum dos dois subsistemas. 1992. ele é uma comunicação jurídica. p. a existência de atos comunicativos compartilhados pelos subsistemas permite que eles se conectem uns aos outros. n. Nestas operações. mas sim que eles precisam lidar com as “perturbações. Na medida em que um contrato produz obrigações controladas pelos princípios normativos da legalidade. toda interação econômica é uma interação normativa legal ou ilegal. mas somente aos dois simultaneamente. normas não-jurídicas. New York. O exemplo clássico de interferência é o contrato. Estes códigos normativos não convergem nunca. Uma vez que todo e qualquer subsistema social é composto de comunicações dotadas de significado. Niklas. mas econômicas) para lidar com este processo. e para a economia. surpresas e frustrações canalizadas pelo seu acoplamento estrutural”. os subsistemas sociais também são capazes daquilo que a teoria dos sistemas designa de “acoplamento estrutural”. Em outras palavras.205 (portanto. Isto não significa que os subsistemas observam seus acoplamentos estruturais. para o direito. irritações. a complexidade e a normatividade de um subsistema tornam-se disponíveis para o outro subsistema. O conceito de interferência aponta para as operações de desdiferenciação funcional que são introduzidas em sistemas autopoiéticos.

O exemplo mais importante desse tipo de organização são os Estados constitucionais que surgiram a partir dos movimentos revolucionários da segunda metade do século XVIII. distintos e autopoieticamente fechados. a autopoiesis social. O sistema social é capaz de produzir instituições que não podem ser simplesmente tratadas como pertencentes a esse ou àquele subsistema. Em caso de insucesso da acoplagem estrutural. Se a observação mútua por parte dos subsistemas preserva os seus limites e reproduz de forma eficaz. 1996:74). ele é também uma comunicação econômica. A indiferença mútua ocorre quando as “aptidões conceituais” do sistema jurídico não correspondem às “estruturas de 206 . os mecanismos de acoplamento estrutural apresentam riscos. Na medida em que o direito consegue acoplar-se a outros subsistemas através de interferências e/ou organizações. no entanto. mas eles são. A segunda forma de acoplamento estrutural é a formação de “organizações”. o direito cai inevitavelmente em um trilema regulatório que se põe “nos dois limites do direito – o da política e o do campo social – como um problema (1) de indiferença mútua. ora excluídas das operações do outro (idem:1436 e ss.206 mas tendo em vista que ele traduz um ato de pagamento. a complexidade social e sua diferenciação social são preservadas. portanto. A Constituição é o instrumento de acoplamento estrutural que permite que perturbações recíprocas das operações de um subsistema (jurídico ou político) sejam ora incluídas. sob a perspectiva das teorias dos sistemas.). Essas organizações formais se comunicam enquanto atores coletivos em subsistemas diversos e não respeitam portanto seus limites autopoiéticos. A natureza econômica do contrato interfere em seu caráter jurídico da mesma maneira que sua natureza jurídica interfere na transação em curso. (2) de desintegração da sociedade pelo direito e (3) de desintegração do direito pela sociedade” (Teubner. O conceito de Estado sugere a unidade dos subsistemas político e jurídico.

Droit et réflexivité: l’auto-reference en droit et dans l’organisation. ao juridificar determinadas comunicações sociais com o objetivo de construir esferas de direito social. já que implicam movimentos de desdiferenciação funcional que retiram do direito sua capacidade de fornecer aos outros subsistemas. na medida em que o “legalismo generalizado” (creeping legalism) resulta numa certa perda de especificidade do ato jurídico e de sua força normativa. O sistema jurídico. e não simplesmente a estratégia mais eficaz para atingir seus próprios objetivos. Society and Industrial Justice. Ainda que os teóricos do direito reflexivo não tenham tratado especificamente dos problemas da judicialização e da tribunalização da política – sua preocupação é com a juridicização das relações sociais como um todo –. o império da racionalidade jurídica na criação. 1969. significa que. via acoplamentos estruturais. resultando em um sistema jurídico indiferente às suas demandas de juridicização109. corresponde aos efeitos perversos que a juridicização tem sobre o próprio sistema jurídico. Em outras palavras. J. os atores e as instituições consideram a estratégia de juridicização desses conflitos a estratégia mais virtuosa. da perspectiva do direito reflexivo. O império da lei em uma sociedade complexa e funcionalmente diferenciada. nas práticas sociais e nos conflitos que lhe são inerentes. é possível observar uma certa resistência teórica do direito reflexivo à idéia de uma política dominada por práticas jurídicas (tribunalização) bem como a um Judiciário engajado em fazer política (judicialização). Belgique: Bruylant L. corresponde àquilo que Habermas designou de “colonização do mundo da vida”. A desintegração do direito pela sociedade. a judicialização e a tribunalização da política são riscos inerentes a esse império. por fim. Law. A desintegração da sociedade pelo direito. 207 . New York: Russel Sage. acaba por submeter o problema concreto vivido a uma abstração que o violenta. por sua vez.207 oportunidade” do campo social ou da política. 1996. apud: Teubner. seu código 109 As expressões “aptidão conceitual” e “estrutura de oportunidade” são de Selznick. isto é. resolução e prevenção de disputas. Günther. G. D. Philip.

Em outras palavras. Teubner reduz a responsividade a uma questão de recuperação da legitimidade do direito. desintegrando assim o próprio sistema jurídico e sua capacidade de regular relações sociais. no realismo jurídico e na jurisprudência sociológica. produz uma demanda por um tratamento particular ao problema da responsividade. que se adapta através de seus próprios mecanismos às demandas sociais sobre ele colocadas. o Direito deve oferecer algo além de uma 208 .208 normativo específico. tal qual desenvolvido por Teubner. Somente um direito responsivo. Segundo esta teoria. é capaz de exercer de forma eficaz as funções adjudicantes e normatizantes que lhe conferem o estatuto de mecanismo de integração social. em grande medida. o conceito de direito responsivo tem implicações principalmente no âmbito da competência das instituições jurídicas. Ao reduzir o problema da responsividade do direito à dimensão de sua necessidade de revigorar sua autopoiesis no sistema social. no entanto. um esforço de desenvolver um modelo que conferisse ao direito as capacidades adaptativas de que falam Selznick e Nonet. assim como o pragmatismo. Perante as ameaças de fracasso do acoplamento estrutural via interferências e/ou organizações. A teoria dos interesses sociais de Roscoe Pound já era. este império corre o risco de tornar-se servo da soberania das finalidades. uma vez corrigido. procure incorporar sinteticamente o problema da responsividade do direito. o império do direito corre o risco de tornar-se imperialismo do direito. caso no qual ele desintegra o campo social e a judicialização e a tribunalização da política ameaçam este campo. Responsividade Ainda que conceito de reflexividade. A teoria do direito responsivo de Selznick e Nonet tem suas origens. Para Nonet e Selznick. neste movimento ocorre um erro interpretativo que.

mas deve também servir como instrumento de ordenação e mudança social. Uma chave para esta articulação entre abertura e autonomia na teoria do direito é o modelo do direito repressivo. obsecado com o procedimentalismo puro e incapaz de adaptar-se às transformações nas relações sociais e às novas demandas de juridicização que elas produzem. o direito deve contribuir para os processos institucionais que definem o interesse público e deve estar comprometido com a obtenção de conquistas substantivas no âmbito da justiça. Law and Society in Transition. argumentam Selznick e Nonet. Philip e Nonet. Selznick e Nonet defendem que o direito deve ser uma instituição autônoma. Para a teoria do direito responsivo. Para ser competente. tendem a optar pela autonomia mesmo que isto acarrete perda de abertura. tão cara a Dworkin. já que o Direito sobrecarrega o Estado de funções punitivas e coercitivas.209 justiça procedimental. Foi a partir destes modelos que o direito liberal gerou um formalismo cego. 87 e segs.110 A preservação da integridade do Direito. por sua vez. É necessário ao menos contemplar a possibilidade de uma ordem pública menos rígida e mais civil. pp. requer que suas instituições ganhem abertura e flexibilidade. esta questão da obrigação legal deve ser problematizada. além de procedimentalmente justo. Os modelos do direito autônomo. somente no sentido de garantir a reprodução da eficácia de seus instrumentos de enforcement. 1978 [2001]. New Brunswick: Transaction Publishers. Seguindo a trilha de Roscoe Pound. de tal maneira que a advocacia adquira uma dimensão política. com mecanismos de adaptação passiva e oportunista das instituições jurídicas ao ambiente social e político. gerando forças que ajudam a corrigir e mudar as instituições jurídicas sem ameaçar a sua autonomia. A idéia de um 110 Selznick. O modelo liberal do direito tem como pressuposto básico uma abertura cognitiva de suas instituições às demandas sociais que tem como contrapartida a obediência dos cidadãos às suas decisões. Philippe. 209 .

como em Dworkin. Em busca de um equilíbrio entre abertura e integridade. mas sim. Enquanto que no pragmatismo. A falta dela é que leva uma instituição ao oportunismo e/ou à rigidez. O direito responsivo presume que estes propósitos podem ser suficientemente objetivos e autoritativos para controlar a elaboração adaptativa do Direito. É por isto que a interpretação que Teubner dá ao direito responsivo acaba por subtrair a dimensão crucial do modelo proposto. a manutenção da autoridade da decisão e da integridade da ordem jurídica depende de instituições mais competente. o fundamental é que as adaptações operadas pelas instituições jurídicas e que seus mecanismos de autocorreção sejam prudentes. procedimentos e políticas públicas gerados pelas instituições jurídicas não estão submetidas a tirania dos fins desejados. isto é. o ponto central é o estabelecimento da soberania de propósitos. já que a sua legitimidade está muito mais associada a rituais e precedentes e. Tal qual no pragmatismo. à valores implícitos. mesmo que em prejuízo do seu grau de formalismo.210 direito responsivo busca introduzir mecanismos de autocorreção no seio das próprias instituições jurídicas. Pressões sociais devem ser percebidas como fontes de conhecimento. na teoria do direito responsivo os princípios. necessariamente estão dispostas a assumir os altos riscos que abertura impõe. a soberania dos propósitos está articulada a um conseqüencialismo radical. tal qual insinuado pelo pragmatismo político do Critical Legal Studies Movement. regras. quando embarcam no direito responsivo. Em um ambiente de pressões sociais por decisões jurídicas. consequentemente. oportunidades. e não somente mais legítimas. e uma das características distintivas do direito responsivo é precisamente a necessidade de articular estes valores implícitos publicamente de forma a oferecer um 210 . já que as instituições jurídicas devem sempre ser guiadas por objetivos sociais definidos e publicamente conhecidos. e não como imperativos ao qual o direito esteja obrigado a reagir.

O que baliza este união. O direito é também. ao criar a necessidade de oferecer este critério autoritativo. a elaboração e correção das políticas requeridas para a realização de uma proposição jurídica considerada válida e aceitável. Conclusão Creio que fica mais claro entender porque podem haver sociedades com democracia mas sem justiça. e pôr novas regras em seu lugar. o direito responsivo subjuga o direito a propósitos e requer. um investimento intensivo na competência cognitiva da organização. e a integração de mecanismos de decisão participativa que subsidiem o direito como tanto fonte de conhecimento quanto como meio de produção de novos consensos normativos no seio da sociedade. tal qual a democracia. mas não sociedades justas que não sejam também democráticas. e não por éticas da obrigação. por uma ética de responsabilidades morais. um mecanismo de clarificação do interesse público e não somente um instrumento de adjudicação de interesses privados conflitantes. uma separação radical entre os três poderes não pode sobreviver a este movimento. e a judicialização. portanto. a 211 . uma decentralização radical da atividade jurídica. sejam elas utilitaristas ou deontológicas. Desta perspectiva. em decorrência dos imperativos de responsividade sobre ele impostos. Evidentemente. são princípios de civilidade e publicidade com que o direito deve operar. uma forte união entre autoridade jurídica e vontade política. tanto quanto a tribunalização da política. As características deste direito são necessariamente. isto é. A função paradigmática de um direito pós-liberal é regulação. são recursos necessários a esta união. orientando-se para isto. portanto. e que dá a ela critérios e limites. impressas pela virtude do zelo.211 critério autoritativo para criticar as regras existentes. Mas da mesma forma que na teoria do pragmatismo.

A co-presença de concepções do bem implica em pensar mecanismos de intervenção jurídica orientadas por estas concepções. No plano da legitimidade do direito. e não só em formas de neutralizar a aplicação de uma justiça procedimental pura. Como contrapartida aos deveres cívicos dos cidadãos perante este Estado. de maneira a permitir uma interpretação positiva. ainda que cautelosa. e em que medida estas novas formas de interpretação do direito operam (e operaram historicamente) no sentido de resolver estes dilemas.212 concepção liberal do direito enquanto instrumento procedimental puro de adjudicação de interesses privados é insuficientemente capaz de se legitimar as normas de uma sociedade complexa. este momento tipicamente liberal da organização da ordem jurídica resulta em um movimento de formalização do 212 . enquanto tradições de reflexão sobre esta problemática. mas também a forma com que o direito é aplicado naquela situação. O pragmatismo. No quadro abaixo busco sistematizar uma perspectiva evolutiva dos dilemas que o direito liberal enfrenta nas dimensões de sua legitimidade e eficácia. Partindo de uma moralidade cívica centrada no patriotismo tal qual definida no capítulo anterior. Não é somente a prioridade do justo sobre o bem que é contingente à situação de ação contextualmente definida. o direito reflexivo e o direito responsivo. fazem uma contribuição significativa aos esforços de expansão do escopo de atuação das instituições jurídicas e de redefinição da forma de sua atuação. dos mecanismos de judicialização da política e juridicização das relações sociais. eles se tornam portadores de direitos que o protegem contra incursões indevidas das agências públicas. derivamos a princípio as formas do direito repressivo que conferem ao Estado de Direito o seu monopólio sobre a coerção e sua responsabilidade pela produção da ordem. em que a reprodução das instituições jurídicas depende de sua eficácia tanto no plano da adjudicação quanto no plano político da produção de decisões vinculantes.

institucionalidade esta que implicava em uma relativização da separação radical entre os três poderes da república. e a contribuição das interpretações reflexiva e pragmatista do direito são. no momento reflexivo desta dialética. O excesso de juridicização (overjuridification) e a crise do Estado de Bem Estar Social resultaram em uma perda de integridade do direito. Este direito pós-liberal implica em na introdução de novas formas de regulação bem como novas formas de ação jurídica e novos direitos. testemunhamos um movimento em direção a sua autonomia. dar respostas eficazes aos dilemas que surgem de uma atividade jurídica aberta a este diálogo político com a sociedade e com os outros poderes. neste sentido. A pergunta que permanece sem resposta. contribuições valiosas que precisam ser discutidas. enquanto que no plano da eficácia das instituições daquela ordem. já que. os déficits de juridicização do direito liberal acarretaram um processo de materialização do direito que veio legitimar demandas sociais das classes subalternas e configurar a institucionalidade do Estado de Bem Estar Social. que agora. é qual tipo de democracia é compatível com esta maneira de interpretar a ordenação jurídica? O direito opera 213 . mas que sejam também capazes. de pragmaticamente. Como demonstrou toda uma literatura neokantiana de Weber a Habermas. precisa recuperar sua capacidade de adjudicar e funcionar como mecanismo de regulação (steering mechanism) através de uma síntese que contemple não somente necessidade de instituições jurídicas responsivas àquelas demandas que emergem da sociedade civil. elaboradas e criticadas com maior atenção por aqueles que buscam um modelo de direito que seja capaz de funcionar democraticamente e garantir o funcionamento da democracia política. estas novas demandas só podiam ser saciadas através de mecanismos de judicialização da política e juridicização das relações sociais. no plano da eficácia.213 direito. mas também capaz de produzir justiça social. entretanto.

214 .214 enquanto mecanismo de integração social. mas não supre a necessidade que toda sociedade democrática tem de mecanismos de integração cultural que permitam a produção de consensos normativos a reprodução de consentimentos legítimos. Esta integração cultural só pode se dar no plano da política. Este é o tema do próximo capítulo.

215 A JUSTIÇA DE GIOTTO MORALIDADE PATRIOTISMO Deveres Cívicos LEGITIMIDADE DIREITO DIREITO REPRESSIVO EFICÁCIA Direitos LIBERALISMO DIREITO FORMAL AUTÔNOMO Direitos DIREITO Déficit de juridicização PRAGMATISMO Déficit de juridicização DIREITO MATERIAL JUDICIALIZAÇÃO TRIBUNALIZAÇÃO Perda de Integridade REFLEXIVIDADE DIREITO RESPONSIVO Autocorreção Kenosis Direitos de Desestabilização Perda de Integridade 215 .

216 DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO CONSENSOS MORAIS E ORDEM POLÍTICA: REPENSANDO A DEMOCRACIA DEPOIS DO LIBERALISMO 216 .

A vantagem desta reformulação do problema clássico da tipologia das formas de governo está na possibilidade de atribuir a uma sociedade a qualidade de ser democrática em todo contexto em que a maioria dos cidadãos consente a ordem vigente. Assim. políticos e sociais devidamente compartilhados na tradição destes países – propícia que é a um regime poliárquico devido à própria trajetória histórica que fez com que este regime surgisse nos países do hemisfério norte ocidental. de poliarquia. ficamos libertos de um paradoxo que ocupa boa parte da teoria democrática de nossos dias: nos países originários. que aquela formulação. O que caracteriza a última não é simplesmente a existência de procedimentos que permitem a todos participarem do processo de produção das decisões vinculantes. isto é. creio ser mais apropriado falar em monocracia (caso do absolutismo onde a fonte de legitimidade advinha de Deus). a forma do governo (archéi). o que prefiro designar. e problemas relativos a como o poder é efetivamente exercido. não existe em sua plenitude em outras localidades que vivem sob regimes 217 . quando falamos em fontes do poder legítimo. entretanto. trata-se de distinguir entre a monarquia (governo de um). Creio. introduz algumas confusões importantes que subsistem na teoria democrática contemporânea. Quando falamos em formas de governo. a oligarquia (governo de poucos) e a poliarquia (governo de muitos). mas sim o fato que a legitimidade do poder exercido pelos governantes advém de consensos/consentimentos produzidos pela maioria da população. isto é. na trilha sugerida por Dahl. aristocracia (em que a fonte do poder legítimo é uma classe de nobres) e democracia.217 A tipologia clássica dos regimes políticos em Aristóteles tornou-se o paradigma modeno para a compreensão dos tipos de governo e o grau de consentimento e/ou consenso necessários à sua legitimação. ao misturar problemas relacionados a como governos se legitimam. a cultura cívica e política existente – articulada na clássica linhagem de direitos civis. a fonte do poder legítimo (kratos).

aquela proposta por Habermas. O preconceito ideológico consiste em achar que somente sociedades em que direitos civis. n. que é exclusivamente uma forma de exercício do poder. políticos e sociais estão plenamente instituídos podem ser democráticas na forma com que legitimam o exercício do poder. uma falácia conceitual e um preconceito ideológico que alimentam estas dúvidas e que geram os paradoxos que alimentam a literatura crítica da qualidade das democracias dos países fora do eixo América-Europa Ocidental. dependeria de um revolução cultural nestas localidades?111 Há.218 poliárquicos com governos representativos. atribuindo à última. Guillermo. a capacidade inerente de gerar legitimidade democrática.4. Mas estariam todas as unidades políticas que não compartilharam da mesma trajetória histórica fadadas a serem democracias incompletas. Quando Habermas. interrompidas. Neste capítulo. 218 . ao meu ver. Pensar na democracia depois do liberalismo implica em superar a falácia conceitual e o preconceito ideológico que ela carrega consigo. . no início da década de 80. nosso ponto de partida será uma interlocução com a elaboração mais sofisticada dos requisitos de uma democracia liberal. gostaria de explorar a possibilidade de uma reinterpretação do conceito de democracia que nos leve além dos preconceitos liberais que determinam os pré-requisitos no plano dos direitos para a plenitude de uma ordem democrática. Dados. deformadas pelo simples fato de não terem em seu seio a mesma cultura cívica e política? O estabelecimento de uma democracia no plano do Estado. Mais uma vez. 1999. realizou uma sistematização reconstrutiva das ciências sociais sob uma perspectiva normativamente orientada pelo 111 Para uma crítica do minimalismo e uma defesa da democracia no plano do Estado como um todo. “Teoria Democrática e Política Comparada”. A falácia conceitual consiste na confusão entre democracia e poliarquia. ver O’Donnell. 42. v. no sentido dado ao termo por aquela literatura da ciência política contemporânea que busca algo mais do que o minimalismo das instituições representativas.

se a linguagem é o meio de ação. mesmo em ações voltadas a fins. na medida em que a reprodução dos subsistemas sociais e de suas instituições depende não somente de sua eficácia. Habermas parece derivar a legitimidade dos subsistemas de sua eficácia reprodutiva. a busca de compreensão mútua é fenomenologicamente anterior à ação estratégica. ele demonstrou a impossibilidade de se compreender os três processos reprodutivos das sociedades complexas (reprodução cultural. uma vez que. sociedade. em grande medida. De acordo com Habermas. mas sua análise restringe-se a uma explicação da eficácia destes subsistemas sociais. A sistematização deste problema por Habermas no segundo volume de The Theory of Communicative Action (1987)112 gerou uma compreensão adequada da relação entre os três planos do mundo da vida (cultura. a ação comunicativa é primária a todo ato de fala. em uma obra anterior. e personalidade) e os três processos de reprodução funcionalmente realizados pelos subsistemas sociais (reprodução cultural. integração social e socialização). Em particular.219 conceito de ação comunicativa. ainda que houvesse anteriormente sugerido a necessidade de discernir entre eficácia e legitimidade. da ação estratégica. 219 . ainda que a eficácia normativa dos subsistemas sociais dependesse. mas também da legitimidade das normas reproduzidas. seguindo Parsons. são cruciais àquilo que Habermas. Habermas identificava a separação entre funções administrativas e a formação da vontade coletiva através de 112 Os anos das obras citadas indicam o ano da primeira publicação da edição em inglês utilizada neste artigo para as citações. Entretanto. a ação comunicativa e os consensos normativos que ela potencialmente gera. e o imperativo da integração social é satisfeito somente através do reconhecimento intersubjetivo de pretensões de validade expressas em atos de fala. integração social e socialização) exclusivamente através de uma concepção instrumentalestratégica de racionalidade. chama de integração social. Legitimation Crisis (1975).

e até mesmo mais recentemente em Between Facts and Norms (1996).220 processos deliberativos como sendo fundamental à legitimação das ordens democráticas. Por um lado. esta integração social depende principalmente dos consensos deliberativos articulados no subsistema político. na trilha aberta por Max Weber e Claus Offe. Parece-me que existem pelo menos dois motivos para acreditar que Habermas tenha atingido uma compreensão incompleta dos mecanismos de legitimação de ordens democráticas. e ao mesmo tempo. em The Theory of Communicative Action. 1996: 358) é uma questão que não altera o formato básico do problema: as crises de legitimação da ordem política das sociedades contemporâneas não podem ser explicadas somente através de uma interpretação dos hiperciclos sistêmicos que levam o subsistema político a realizar funções da economia ou do direito. Se estes consensos são efetivos ou apenas consentimentos gerados através das “redes periféricas de formação de opinião” (Habermas. Ainda que. as funções de integração social sejam realizadas tanto pelo subsistema do direito quanto pelo subsistema político. a produção no 220 . Estas crises são também resultado de disfunções do sistema político no próprio processo de realizar sua principal atividade sistêmica. como aponta Habermas. Por outro lado. fenômeno descrito como a crise do estado de bemestar social. em contextos de crise de legitimidade das normas jurídicas. a causa fundamental de suas crises de legitimidade. qual seja. Habermas confunde o problema da legitimação da ordem jurídico-constitucional do estado de direito com o problema da legitimação da ordem política através da formação de consensos deliberativos na esfera pública. e que dependem fundamentalmente de mecanismos de integração cultural. no ensaio sobre legitimação Habermas reduz sua análise das crises políticas de legitimidade à juridificação e apropriação funcional por parte do subsistema político de funções originais do subsistema econômico.

ela permite compreender o problema do embate entre perspectivas éticas sob o ponto de vista da construção e reprodução da legitimidade das normas sociais. Toda interação social que ocorre sem a mediação da violência pode ser interpretada como uma solução para o problema da coordenação dos planos de ação dos atores envolvidos. os fundamentalismos.221 plano da cultura política de uma sociedade de deliberações legitimadas por consensos ou por consentimentos públicos. O objetivo deste capítulo é rediscutir o problema da legitimação da ordem política em busca de uma compreensão adequada das crises de legitimação política típicos das sociedades contemporâneas. reproduzir sua legitimidade através do consentimento gerado por consensos deliberativos. O conceito de ação comunicativa. problema este que não foi plenamente resolvido pela teoria habermasiana. e ainda que uma teoria social da legitimação de normas não substitua a necessidade de uma teoria ética. e produzir uma explicação sociológica para a eficácia dos mecanismos de legitimação da ordem democrática no seio do próprio subsistema político. Identifico a apatia. implica que o entendimento mútuo entre atores em diálogo funciona como um mecanismo de coordenação de ação. e antes de qualquer reflexão crítica sobre estas quatro tendências. Ou seja. este artigo busca ampliar o conceito de democracia para além de sua arquitetura liberal. ela permite entender quando e como complexidade e diferença são legitimamente reduzidos e simplificados. os separatismos e a violência como as quatro principais tendências de crise de legitimação destas sociedades. de tal maneira que a ação de cada ator vincula-se (links up) 221 . quando conseguem. é necessário requer um esforço para compreender como ordens democráticas conseguem. aplicado à ética do discurso. democraticamente formados. Este capítulo submete a reflexão ética do problema da formação de consensos normativos a uma análise sociológica.

como mostra Luhmann. 232. isto é. enquanto um conjunto de regras 113 Para o conceito de propriedade (Angemessenheit) ver Habermas. “(u)m esquematismo binário já está implícito [inscrito] na estrutura horizontal de toda experiência dotada de significado”. sobre a “propriedade” (Angemessenheit) daquela aplicação.222 às ações dos outros atores (Habermas. já que mesmo quando atores divergem sobre a validade das normas. este consenso pode ocorrer no plano da aplicação de normas.113 Desta forma. Por um lado. Entendo. Alguns autores brasileiros sugerem a tradução “princípio do apropriado” para este conceito. isto é. Justification and Application (1993). no entanto. Ainda que estas reduções não resultem necessariamente em soluções binárias. Aceitar que o objetivo de determinadas interações comunicativas é um consenso implica em aceitar. Niklas. contempla a idéia de apropriado. que o termo “propriedade”. em um conjunto de mecanismos de arbitragem que visam resolver o problema da produção de consentimentos legítimos em contextos nos quais o consenso efetivo e a persuasão mútua são um horizonte impossível. atores em interação devem passar por dois estágios deliberativos – no plano da justificação e no plano da aplicação das normas – e o consenso gerado é resultado de convergências em qualquer um dos dois estágios. p. 222 . 114 Ver Luhmann. Vale lembrar que. Esta coordenação toma a forma de um consenso quando os atores conseguem convergir em um dos planos discursivos em que normas são articuladas. eles podem concordar quanto a aplicação imparcial de determinadas normas.114 Do ponto de vista da política nas sociedades contemporâneas. 1996: 17). se desvinculado do sentido restrito de algo possuído por alguém. um conjunto de reduções cognitivas e normativas que os atores devem realizar ao longo de sua interação. ao coordenar planos de ação e procurar deliberar sobre “a coisa certa para se fazer em determinada circunstância”. com respeito a sua validade. Por outro lado. de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Ver o item 4 do verbete “propriedade” no Novo Dicionário da Língua Portuguesa. este consenso pode ocorrer no plano da justificação de normas. isto é. a redução de complexidade sistêmica se traduz em democracia. Social Systems.

Definiremos. 223 . as instituições advindas dos costumes. tanto faz apresentar a democracia como um mecanismo de formação de consensos ou como um mecanismo de resolução de conflitos. 193198. basta que as regras daquele processo o sejam e. Insight and Solidarity: the discourse ethics of Jürgen Habermas. William. e outros mecanismos em que se articulam interesses de atores em posições de igualdade formal não necessariamente constituem mecanismos democráticos. 1997 . partícipes em condição de igualdade consentem à validez das normas por elas geradas. que todos aqueles potencialmente afetados pela norma cheguem a um acordo quanto a sua validez. um consenso como democrático se ele resulta de mecanismos de arbitragem em que atores em posição de igualdade formal consentem à validez das instituições resultantes. Afinal. Assim. Contratos. Ou seja. os resultados do processo deliberativo não precisam ser aceitáveis para todos os participantes.223 formais para deliberação. pois não estão 115 Uma das melhores discussões deste tema pode ser encontrada em Rehg. of California Press. E esta validez pode advir de justificações aceitáveis para aquelas normas e/ou de situações em. ainda que possam ser compatíveis e coexistir com mecanismos democráticos. sua aplicação a um caso específico é aceita como apropriada. barganhas. mesmo quando a justificação não é aceitável.115 Mas não basta esta definição formal de democracia para compreender o seu estatuto enquanto mecanismo de arbitragem em sociedades complexas e plurais. das diretivas advindas de autoridades e dos procedimentos formais são democráticas se. e somente se. portanto. das leis. como especificado pelo princípio (D) da ética do discurso de Habermas. Berkeley: Univ. pp. existem diversos mecanismos de arbitragem formais que satisfazem estas condições formais e que não queremos necessariamente chamar de democráticos. já que o que define o papel sistêmico da democracia é a existência e a aceitação pública de determinadas regras de participação no jogo político que permitem a ela produzir um consentimento que tem valor de consenso.

Os princípios de justificação e os princípios de aplicação derivados destas deliberações devem obedecer a um critério de publicidade que permita diferenciar os mecanismos de articulação de interesses dos mecanismos de articulação de razões imbuídas deste princípio de publicidade. do uso da razão pública. por outro lado. 86. segundo o qual toda norma deve satisfazer a condição que as “conseqüências e efeitos colaterais. Maeve. Language and Reason: a study of Habermas´s Pragmatics. James e Rehg. Public Deliberation. por exemplo. Na literatura recente sobre democracia deliberativa.224 apoiados na busca de entendimento mútuo (Einverständnis) mas sim na busca de influenciar o outro (Einfluβ nahme). ou mesmo. há um corte entre razões aparentemente públicas. p.). Se para Habermas razões articuladas na forma de interesses universalizáveis satisfazem a condição de 116 Sobre esta distinção ver Cooke.117 A democracia implica em deliberações cujo conteúdo resulta do uso público da razão. 224 . Na teoria habermasiana. William (orgs. “Deliberation and Democratic Legitimacy” in Bohman. na teoria rawlsiana. Cambridge: MIT Press. isto se traduz no princípio (U) da ética do discurso. Bohman.118 Ou seja. encontramos algumas sugestões bastante úteis neste sentido. Deliberative Democracy: essays on reason and politics. 09. isto é. Moral Consciousness and Communicative Action. 1996 e Cohen. p. 1994. Cambridge: MIT Press. que (possivelmente) resultarem para a satisfação dos interesses de cada um dos indivíduos do fato de ser ela universalmente seguida. razões de indivíduos que compartilham a condição de cidadãos iguais. porque travestidas na forma de um interesse de todos. Joshua. 118 Habermas. James. o caráter universalizável da norma proposta é que define o seu caráter público. possam ser aceitos por todos os concernidos (e preferidos a todas as conseqüências das possibilidades alternativas e conhecidas de regragem)”. na versão mais restritiva de Rawls. na expressão cunhada por Habermas.116 Há algo sobre o conteúdo dos acordos gerados pela democracia que exige que especifiquemos a natureza dos consensos por ela gerados. e razões efetivamente públicas. 117 Ver. Como vimos no sétimo capítulo.

206. mesmo sem um consenso sobre qual e como aplicá-la. um consenso sobre a validade de uma norma universalizável sem que haja consenso sobre como aplicá-la. cuja natureza remete a uma convergência sobre a validade abstrata de razões apresentadas e um consenso “nas” razões (agreement in reasons). É possível. é possível formalizar o problema da produção de consensos normativos a partir de um modelo binário que contempla os dois planos em que este consenso pode ocorrer. Na formulação habermasiana. uma vez que estabelece um horizonte republicano mais claramente demarcado para o conteúdo dos princípios de justificação e aplicação articulados na deliberação pública. incorremos no risco de sucumbir a uma concepção pluralista da democracia. e as assimetrias pré-existentes no subsistema econômico continuam a ser o principal determinante da eficácia e legitimidade das instituições jurídicas e políticas.225 publicidade.120 É por isto que é possível que haja um consenso quanto a como se aplicar uma norma em determinado contexto sem que haja consenso sobre a validade abstrata da norma e. portanto. p. para Rawls somente razões articuladas na forma de virtudes cívicas satisfazem esta condição. Robert. 225 . além disso. Temos então dois planos em que estes consensos normativos são formados via deliberação – o plano da justificação e o plano da aplicação de normas – e a convergência em um ou dois (ou nenhum) destes planos gera quatro cenários que podem ser analiticamente definidos como posições dialógicas iniciais em que os atores 119 Eu tendo a preferir a formulação rawlsiana deste problema. Tal separação implica ainda em entender que há uma diferença fundamental entre um consenso sobre razões (agreement on reasons). a justificação e a aplicação de normas. em que uma estrutura de direitos básicos e uma esfera pública aberta a participação de todos é complemento suficiente à democracia representativa. Moral Knowledge and Ethical Character. 120 Ver Audi. estimulada sem dúvida pelo ímpeto de valorizar o papel democrático dos movimentos sociais da sociedade civil que apresentam agendas de interesses universalizáveis na esfera pública. um consenso sobre a necessidade de aplicar-se alguma norma. que implica somente a aceitação da validade das razões apresentadas para a situação de ação em questão em determinado contexto. ou seja. Parece-me que temos bons motivos para restringir o conteúdo dos princípios de justificação e aplicação de normas que são trazidos à deliberação pública àqueles princípios que buscam consensos que traduzem concepções do bem comum.119 Dessa maneira. por outro lado.

o conhecimento que eles têm da posição social que ocupam. The Inclusion of the Other: studies in political theory. a situação ideal de fala habermasiana também é uma idealização precária na medida em que des-moraliza em demasia o debate público. 121 Mas se o problema da posição original de Rawls é uma formalização excessiva em que os atores perdem precisamente aquilo que define suas posições morais frente ao outro. Estas quatro posições iniciais estão descritas na figura 1 em termos de uma chave binária “sim” (S) ou “não” (N) descrevendo a convergência ou divergência nos planos respectivos. 226 . que eles sejam universalizáveis – ainda que discordem sobre a substância dos argumentos morais. Concordo com Habermas em sua defesa da “situação ideal de fala”. Ou seja. o problema da posição original de Rawls. não é ser uma idealização. a tomada ideal de papéis decorrente do horizonte normativo da situação ideal de fala requer um duplo movimento do qual Habermas realiza somente o primeiro. mas sim o seu caráter precário.226 potencialmente se encontram antes de engajarem em um processo de deliberação e formação de consensos. Como aponta Habermas. Antes de tudo. 121 Ver Habermas. tal procedimento requer uma des-moralização no sentido proposto pelo princípio (U). este procedimento requer que os agentes estejam dispostos a aceitar um mesmo conjunto de regras de fundamentação de argumentos morais – essencialmente. isto é. por exemplo. Se encarado como um procedimento intersubjetivo concreto. Observem que a estipulação de quatro cenários distintos enquanto posições iniciais dos atores antes da deliberação constitui uma maneira de contornar os limites teóricos de diversas teorias deontológicas que constroem formalmente uma situação inicial ou um horizonte normativo derivado de determinadas premissas sobre a natureza humana e/ou as características universais da razão. Jürgen. quando argumenta que toda deontologia requer alguma idealização em que determinados atributos sociológicos da posição real dos atores são abstraídos.

ver Andrews. É mais intuitivo. 123 Quando falamos de atores em determinada posição inicial. pp. vol.227 Mas em um segundo momento. 2002. 227 . “A ética do discurso e o modelo de consensos democráticos” in Dados.45. e disto decorre a necessidade de descrever posições iniciais em que existem divergências no plano da justificação e/ou da aplicação. Nestes cenários. levase em conta a possibilidade dos atores considerarem justificações e aplicações dos outros como sendo válidas porém não-aceitáveis. Às vezes. discursos de aplicação a adesão de fato às normas. não estamos falando necessariamente posições realmente ocupadas por atores sociais. Se uma norma somente é válida se todos potencialmente afetados podem concordar com ela enquanto participantes de discursos racionais. Entretanto. este procedimento requer uma re-moralização do mundo conforme o princípio (D). precisamente porque seriam afetados por ela.122 Os quatros cenários da posição inicial aqui descritos visam reduzir estas perdas ocasionadas pela especificação de um único horizonte normativo. da mesma maneira que na idéia de validez das normas não está incluída a validação delas. na idéia de aceitabilidade de normas não está incluída a adesão de fato a elas. Christina. onde se pressupõe que os atores ocupam determinadas posições iniciais para gerar argumentos de justificação e aplicação.123 122 Para uma interessante discussão do conceito de aplicação em Habermas e uma crítica inteligente a esta maneira de interpretar sua ética do discurso. estes atores ocupam esta posição no contexto de determinado discurso ético. pressupor que aqueles afetados por uma norma podem considerá-la válida ainda que não-aceitável. segundo ela. nº4.577-597. então todos aqueles potencialmente afetados pela norma precisam partir do pressuposto de que toda norma válida é aceitável. Andrews critica a maneira como o artigo que deu origem a este capítulo trata o tema. pois vincularia. Naquele artigo. no entanto.

e parte destas tensões geradas pelo complexo institucional da democracia está manifesta na forma de embates éticos sobre o modelo liberal. A virtude deste modelo está na sua capacidade de adaptar-se a contextos de pluralismo societário.228 FIGURA 1 . subscrevem ao 228 . a coexistência de discursos legitimadores da ordem democrática no seio de sociedades complexas. em determinadas conjunturas.JUSTIFICAÇÃO E APLICAÇÃO JUSTIFICAÇÃO S N N S APLICAÇÃO S SS S NS N NN N SN POSIÇÃO INICIAL Creio ser possível. Comunitaristas e republicanistas. por sua vez. Por outro lado. criticam esse modelo a partir de uma interpretação do vício central do liberalismo. como Habermas. aqueles que. A incorporação de diferentes mecanismos de arbitragem nas sociedades contemporâneas gerou um complexo de instituições. mas seu vício é a confiança excessiva que deposita no conceito de justiça enquanto a primeira virtude das instituições sociais. articuladas e legitimadas por consentimentos democráticos que. de maneira mais geral. conflitos. a partir desta sistematização de posições iniciais que atores assumem quando interagem politicamente. propõem um modelo deliberativo de democracia. tentando demonstrar a impossibilidade de desvincular um conceito de justiça de concepções particulares do bem comum. compreender melhor as superposições. entram em conflito. intersecções e.

ela resulta de formas legislativas ou executivas. em outros. O que este debate entre os liberais e seus críticos reflete.229 argumento deontológico do liberalismo. corresponde um meta-princípio de justificação e um meta-princípio de aplicação de normas. é a posição inicial abstrata em que os atores presumidamente se encontrariam se fossem deliberar ou consentir. Existem ainda aqueles contextos em que ela resulta de procedimentos como eleições. substantivos. são tipos de consenso democrático que. todas capazes de gerar a eficácia de subsistemas políticos nas sociedades contemporâneas. e como estas posições iniciais acabam sendo articuladas em discursos de legitimação. Estes meta-princípios são morais e. mas buscam novas instituições de participação política e de fortalecimento da sociedade civil que superem os limites da democracia representativa formal. portanto. compõem uma gama de formas distintas de legitimação democrática. O que muda fundamentalmente. 229 . tal eficácia é gerada pelo consentimento que é dado pelos cidadãos a formas costumeiras de deliberar. e acabam por constituir as quatro motivações fundamentais que tornam a política uma atividade imperativa entre os homens. não formais. por definição. Para cada posição inicial. existem princípios articuladores de consensos que operam em um plano acima das doutrinas morais compreensivas divergentes dos atores. em cada um destes tipos de consenso democrático. independente de sua convergência ou não quanto às normas de justificação a que subscrevem. Ou seja. Em determinados contextos. que são capazes de gerar consensos em contextos plurais precisamente porque definem agendas políticas de ação que independem dos princípios ético-morais com os quais cada ator define seu plano de boa vida. Os meta-princípios de justificação constituem as motivações e/ou valores normativos que podem mover os atores na direção de um consenso. no entanto. que por sua vez geram um mecanismo de arbitragem e uma instituição reprodutora.

230 A cada meta-princípio de justificação corresponde um meta-princípio de aplicação que articula no plano da eficácia das normas, isto é, no plano da propriedade da sua aplicação, uma estratégia de ação coletiva para os atores. Os meta-princípios de aplicação, portanto, traduzem meta-princípios de justificação em questões de ordem prática que podem ser institucionalizadas. Mesmo que não haja consenso sobre os princípios ético-morais com os quais cada ator define seu plano de boa vida, estes atores são capazes de abstrair meta-princípios que norteiam como os meta-princípios de justificação devem ser aplicados a casos concretos. Os mecanismos de arbitragem, por sua vez, constituem os instrumentos específicos através dos quais o subsistema político gera eficácia na aplicação das normas. O subsistema político opera através de mecanismos de arbitragem cuja função é precisamente reproduzir e revigorar consensos e/ou consentimentos produzidos pelos atores sem ter que recorrer permanentemente à instrumentos concretos de deliberação. De certa maneira, estes mecanismos fazem a passagem do consenso legítimo para o consentimento que legitima, e são eles que dão origem às instituições normativas que reproduzem e garantem a integração social. Estas instituições são tipos de regras, normas e procedimentos, que são utilizados pelo subsistema político para regular a interação social, e cuja legitimidade não mais depende de interações concretas ou supostas entre os agentes, uma vez que são acompanhadas de instrumentos de sanção considerados legítimos.124 A figura 2 sistematiza esta tipologia de consensos democráticos. Os nomes dados aos tipos de consenso gerados são derivados de uma associação intuitiva das características destes consensos às correntes do pensamento político contemporâneo. Se

124

Habermas, em Between Facts and Norms: contributions to a discourse theory of law and democracy, p.141, diferencia entre consenso e abritragem com base na orientação para valores ou posições de interesse. Discordo: arbitragem opera inclusive na mediação de orientação para valores. Ele está certo quando afirma, na p. 165, que a negociação e a cooperação resultante estão fora do horizonte de valores.

230

231 há concordância em ambos os planos, surge entre os atores um princípio de justificação articulado em termos da identidade entre os atores, e o princípio de aplicação correspondente é a reprodução de valores comuns que definem aquela identidade. Na medida em que os atores compartilham de uma mesma concepção moral do bem comum, o mecanismo de arbitragem primordial será a reafirmação da tradição que é comum aos atores, institucionalizada na forma de costumes cuja legitimidade deriva da identificação dos membros com os valores sancionados simbolicamente pela cultura. Neste caso, estamos evidentemente perante um tipo de consenso que pode ser descrito como comunitarista, congruente com a interpretação crítica da doutrina liberal articulada por autores como os “três Michaels” (Walzer, Oakeshott e Sandel). De acordo com esta interpretação, um das deficiências centrais das correntes hegemônicas da doutrina liberal consiste em sua justificação deontológica, que retira o indivíduo do contexto comunitário no qual efetivamente seus valores morais são produzidos, negligenciando dessa maneira o papel que uma concepção de bem – com a qual os atores se identificam e expressa nos costumes da comunidade – exerce na formulação de problemas de justiça. Ainda que consensos comunitaristas sejam elementos necessários à legitimação de ordens democráticas, certamente existem contextos plurais nos quais divergências nos planos da justificação ou da aplicação de normas requerem outros tipos de consensos legitimadores. Quando há discordância no plano da justificação ainda que haja concordância no plano da aplicação, para gerar um consenso os atores precisam apoiar-se em um meta-princípio de justificação, compartilhado por todos, baseado na tolerância à diversidade moral, e buscar, conseqüentemente, um meta-princípio de aplicação baseado na proteção de liberdades individuais. O mecanismo de arbitragem

231

232 correspondente é a distribuição de direitos, institucionalizados na forma de leis sancionadas juridicamente pelo subsistema do direito. Esta situação é historicamente ilustrada pela vinculação da gênese do liberalismo à reforma protestante e à ruptura do consenso moral cristão no século dezesseis. Sem confundirmos o sentido dado ao termo justificação nos debates teológicos daquele período com o uso presente do termo, as divergências entre protestantes e católicos eram no plano da justificação de normas morais derivadas da doutrina cristã (por ex., o valor da caridade e da instituição da Igreja), e a combinação desta divergência na justificação com uma compreensão convergente de manutenção do corpo político através da tolerância e liberdade religiosa, resultou em um mecanismo de arbitragem centrado em uma distribuição de direitos, institucionalizado através de leis seculares desvinculadas dos preceitos jurídicos da doutrina moral cristã. Este tipo de consenso, portanto, onde há convergência sobre a necessidade de aplicar normas comuns ainda que haja divergências no plano justificatório, constitui o centro de gravidade da doutrina liberal. Até mesmo em suas versões mais contemporâneas, esta doutrina apóia-se em consensos deste tipo, como aquele encontrado na formulação do consenso sobreposto de Rawls. Se há concordância somente no plano da justificação, sem uma compreensão comum de como aplicar as normas convergentes, caímos em um cenário que pode ser explicado nos termos do discurso republicanista. A existência de uma convergência somente no plano da justificação remete ao conceito republicanista de fundação, segundo o qual toda comunidade política, para se sustentar, depende de um momento original em que consensualmente delimita-se a cidadania. Neste contexto, a aplicação das normas se dá via uma afirmação de virtudes cívicas. Esta afirmação de virtudes cívicas produz um mecanismo de arbitragem centrado na distribuição de deveres

232

233 cívicos, e a instituição resultante são procedimentos como eleições, por exemplo, que funcionam periodicamente como renovadoras da legitimidade democrática, ou mesmo, podemos dizer, constituem momentos de refundação republicana. A sanção neste caso, é a própria exclusão da cidadania. Mas o que acontece quando há discordância em ambos os planos? É possível um consenso entre atores que divergem tanto nas normas de justificação quanto de aplicação? Este é o cenário mais difícil de intuir, já que aparentemente não haveria consenso algum se há divergência em ambos os planos. Mas, desde que os atores continuem buscando a reprodução do corpo político ao qual pertencem, existe um metaprincípio de justificação que opera mesmo quando não há convergência na justificação e aplicação de normas. Este meta-princípio pode ser traduzido em termos de segurança e é melhor ilustrado pelo modelo hobbesiano. A situação hobbesiana da guerra de todos contra todos é, afinal de contas, capaz de produzir uma forma de consenso, que pode ser descrito como autoritativo (authoritative), ou dotado de autoridade, termo mais intuitivo no inglês do que no português. Atores que divergem em ambos os planos ainda podem consentir à constituição de um soberano dotado de autoridade, por medo e em busca de segurança. O mecanismo de arbitragem correspondente é o exercício de soberania e a instituição reprodutora são diretivas (directives, no sentido de ordens dadas pelo soberano), entendidas como um complexo de poderes oficiais que garantem paz e tranqüilidade aos cidadãos, utilizando-se para este fim de sanções coercitivas. Em suma, o tipo de consenso gerado entre partícipes do discurso depende da concordância e/ou discordância nos planos da justificação e aplicação de normas. Ou ainda, o consentimento obtido pelo subsistema político para as suas deliberações depende dos atores sociais identificarem-se com a posição inicial que lhes é outorgada em discursos de legitimação daquelas deliberações. Enquanto houver mecanismos de

233

234 arbitragem eficazes na reprodução da legitimidade de deliberações públicas, há democracia; e enquanto houver instituições reprodutivas capazes de gerar estas deliberações legítimas, a democracia evita as crises de legitimação que resultam da apatia, dos fundamentalismos, dos separatismos e da violência.

234

TIPOLOGIA DE CONSENSOS DEMOCRÁTICOS POSIÇÃO INICIAL META-PRINCÍPIO DE JUSTIFICAÇÃO META-PRINCÍPIO DE APLICAÇÃO TIPO DE CONSENSO MECANISMO DE ARBITRAGEM INSTITUIÇÃO SANÇÃO SS Identidade Reprodução de Valores Comunitarista Reafirmação da Tradição Costume Simbólica (Cultura) Jurídica (Direito) Coercitiva (Poder) Exclusão (Cidadania) NS Tolerância Proteção de Liberdades Liberal Distribuição de Direitos Lei NN Segurança Imposição de Obediência Autoritativo Exercício da Soberania Diretivas SN Fundação Afirmação de Virtudes Cívicas Republicano Distribuição de Deveres Cívicos Procedimento 235 .235 FIGURA 2 .

Em outras palavras. e a mudança de consenso resultante. eles precisam buscar novas maneiras de aplicar as normas. As duas últimas colunas indicam as mudanças de meta-princípio que ocorrem em cada plano. São dois cenários analíticos para cada movimento de convergência e/ou divergência. eles não mais compartilham a convergência/divergência neste plano. é preciso mostrar como situações de conflito (ou simplesmente de fracasso em obter determinado tipo de consenso) levam os atores a alterar suas estratégias de justificação e aplicação de normas na busca de consenso. e com isto uma forma correspondente de crise de legitimidade. A figura 3 organiza as possíveis mudanças. mas enquanto o subsistema político conseguir obter sua legitimidade em um destes tipos de consenso. 236 . Quando a posição dos atores em relação ao plano de justificação é alterada. que podem ser derivadas da posição inicial dos agentes. um tanto estático até aqui. é preciso dar algum tipo de movimento a este modelo. ele se reproduz. Desta forma. a dinâmica de mudanças dos consensos democráticos se dá por movimentos diagonais nas linhas da figura 2. e o resultado é uma certa lógica da circulação de consensos que produz o que eu chamo de “o círculo virtuoso da democracia”. nos planos da justificação e aplicação. Estas alterações se dão em ambos os planos. a impossibilidade de aplicar as normas vigentes requer que novos mecanismos de arbitragem sejam adotados. Estes movimentos podem ser reduzidos a convergências ou divergências em um dos planos.236 Mas como os mecanismos de arbitragem e suas respectivas instituições reprodutivas são freqüentemente conflitantes. isto é. quando sua posição é alterada no plano da aplicação. Existe em cada ponto deste círculo o risco da impossibilidade ou incapacidade de gerar o consenso.

237 FIGURA 3 .MUDANÇAS DE CONSENSO DEMOCRÁTICO CONSENSO INICIAL MOVIMENTO DE MUDANÇA MUDANÇA DE POSIÇÃO INICIAL SS → NS MUDANÇA DE PRINCÍPIOS CONSENSO RESULTANTE DIVERGÊNCIA JUSTIFICAÇÃO COMUNITARISTA DIVERGÊNCIA APLICAÇÃO CONVERGÊNCIA JUSTIFICAÇÃO LIBERAL DIVERGÊNCIA APLICAÇÃO CONVERGÊNCIA JUSTIFICAÇÃO AUTORITATIVO CONVERGÊNCIA APLICAÇÃO DIVERGÊNCIA JUSTIFICAÇÃO REPUBLICANO CONVERGÊNCIA APLICAÇÃO Identidade → Proteção de Liberdades Reprodução de Valores → Distribuição de Deveres Cívicos Tolerância → Reprodução de Valores Proteção de Liberdades → Exercício da Soberania Segurança → Afirmação de Virtudes Cívicas Imposição da Obediência → Distribuição de direitos Fundação → Imposição da Obediência Afirmação de Virtudes Cívicas → Reafirmação da Tradição LIBERAL SS →SN REPUBLICANO NS → SS COMUNITARISTA NS → NN AUTORITATIVO NN → SN REPUBLICANO NN → NS LIBERAL SN → NN AUTORITATIVO SN → SS COMUNITARISTA 237 .

quando combinadas às divergências já existentes no plano da justificação. e conseguem produzir um novo consenso. este consenso será liberal. O novo consenso neste caso. eles se projetam para uma situação em que identidades se tornam diferenças. e eles migram para um consenso comunitarista. as novas divergências no plano da aplicação. portanto. Consensos liberais podem ser transformados por novas convergências no plano justificatório ou por novas divergências no plano da aplicação. geram a necessidade do exercício da soberania. No primeiro caso. 238 . As mesmas derivações lógicas podem ser realizadas para os outros dois tipos de consenso. e assim o consenso eventualmente obtido será autoritativo. na medida que os atores encontram valores comuns que antes não existiam. surge o imperativo de sancionar estes valores. e novas convergências no plano da aplicação os levam a consensos comunitaristas. se conseguirem restaurar o consenso. No caso do consenso autoritativo. No caso do consenso republicano. se obtido. No segundo caso.238 Consensos comuntaristas podem ser transformados pelo surgimento de divergências em ambos os planos. será de natureza republicana. os valores que inicialmente eram sancionados e reproduzidos agora precisam ser articulados na forma de deveres cívicos distribuídos entre os membros da comunidade. eles migram para consensos republicanos (convergência na justificação) ou liberais (convergência na aplicação). na medida em que os atores encontram maneiras de convergir em um dos dois planos. e precisam buscar maneiras de proteger liberdades. justificação e aplicação. novas divergências no plano justificatório podem projetar os atores para um consenso autoritativo. Quando eles deixam de convergir no plano da aplicação. Quando os atores deixam de convergir no plano da justificação.

eles movimentam-se ao longo da Figura 3 e conseguem desta forma garantir a reprodução de mecanismos de legitimação da democracia. portanto. Não se discute aqui as possíveis razões para estas transformações nos planos da justificação e/ou aplicação de normas – elas são inúmeras e seriam objeto de um estudo sociológico mais cuidadoso e historicamente relevante de como e porque surgem. na adaptabilidade do subsistema político a novos contextos ético-morais. que de um ponto de vista estritamente lógico existem trajetórias definidas de circulação de consenso. São estas trajetórias que definem aquilo que denomino de “circulo virtuoso da democracia”. A virtude da democracia está. e é precisamente esta eficácia dos instrumentos de legitimação em permanente circulação que define o caráter virtuoso deste círculo.239 Notem. Na medida em que atores políticos conseguem reconstruir consensos democráticos mesmo quando sua posição inicial se transforma. dependendo do que ocorre em cada um dos dois planos dialógicos de argumentação ético-moral. Aponto aqui somente para os movimentos lógicos resultantes do modelo. uma discussão mais profunda do como e porque tais crises ocorrem requereria um outro estudo que extrapola os objetivos do presente livro. portanto. e a natureza destas crises é determinada precisamente pelo tipo de consenso que é rompido naquele determinado momento. e na sua capacidade de reproduzir normas legítimas através de consentimentos derivados de um destes tipos de consenso. Corresponde a cada tipo de consenso que define a posição dos agentes naquele momento. Mas em todo e qualquer momento deste processo. Mais uma vez. Mas a figura 4 ilustra o círculo virtuoso da 239 . existe a real possibilidade de que o subsistema político não consiga produzir o consentimento dos atores com referência a um destes tipos de consenso. um determinado tipo de crise de legitmidade política.

de crise de legitimação que resultariam do rompimento de cada tipo de consenso.240 democracia e as possíveis formas. 240 . analiticamente derivadas.

O CÍRCULO VIRTUOSO DA DEMOCRACIA Fundamentalismo ↑ Consenso Comunitário (SS) Apatia ← Consenso Republicano (SN) Consenso Liberal (NS) → Separatismo Consenso Autoritativo (NN) Violência ↓ 241 .241 FIGURA 4 .

Identidades se dissolvem e os atores não conseguem produzir um novo consenso liberal ao redor da necessidade de proteger liberdades. fracassando assim em produzir um consenso republicano. ou conseguem encontrar formas de convergir em um dos dois planos. Nestes casos. ou os valores deixam de ser sancionados e os atores não conseguem convertê-los em deveres cívicos.242 O rompimento de consensos comunitaristas está geralmente associado ao surgimento de fundamentalismos ético-morais que exacerbam e amplificam pequenas divergências existentes entre aqueles que se identificam e que compartilham valores comuns. do ponto de vista de uma interpretação da crise de legitimidade das democracias contemporâneas. Já o rompimento de consensos liberais está associado a formas de separatismo. o exercício da soberania caminha para a tirania. Esta é uma realidade presente. Quando há divergências em ambos os planos de argumentação. Por fim. exemplos deste tipo de resultado. o rompimento do consenso autoritativo representa o maior perigo. evidentemente. a comunidade plural fragmenta-se nos guetos éticomorais que definem inúmeros contextos multiculturais que definem as sociedades liberais contemporâneas. por exemplo. e também não conseguem garantir o exercício da soberania quando se rompe o pacto pela proteção de liberdades. Caso contrário. Do ponto de vista da reprodução da própria atividade da política. e o consenso democrático é sustentado somente pela necessidade que todos vêm em garantir o exercício da autoridade por parte do soberano. e a violência e guerra civil passam a ser um curso de ação aceitável para todos. uma vez que atores com justificações divergentes não conseguem sancionar valores comuns. em inúmeras sociedades politicamente governadas por partidos fundamentalistas. talvez o caso mais preocupante seja o do rompimento de 242 . ou os atores mantêm este consenso autoritativo. Não faltam.

não existe uma justiça procedimental pura. procurei neste capítulo sistematizar três questões que me parecem importantes para uma teoria democrática contemporânea. são moralmente substantivos. Em segundo lugar. e quando surgem dúvidas quanto à convergência fundacional da comunidade política ao redor de determinadas virtudes cívicas traduzidas em deveres. A virtude da democracia não está somente no fato de ser capaz de ser justificada deontologicamente. através do qual derivamos certos pré-requisitos ou princípios primeiros para uma concepção de justiça. o desinteresse pela política invade a esfera pública. Quando procedimentos eleitorais desacreditados para resolver problemas de aplicação não são substituídos por um exercício efetivo da soberania. Enfim. mesmo estando situados em um plano acima das doutrinas morais compreensivas dos atores. mas sim na sua capacidade de adaptar-se tanto à pluralidade de modos de justificação e aplicação de normas existentes em uma sociedade. Em primeiro lugar. e não quando se apóia em um tipo ou outro. a apatia política toma conta. compreender que o imperativo de uma justificação deontológica para a democracia não implica na necessidade de construir-se um único horizonte normativo (seja ele uma posição inicial ou um horizonte futuro). mais importante do que isso. a democracia é virtuosa quando ela apóia-se em uma circulação de consensos e consentimentos legitimadores. quanto à transformação destes modos ao longo do tempo. e os atores deixam de dialogar politicamente. já que sempre e em qualquer posição inicial concebida para os atores.243 consensos republicanos. retirando-se para esfera privada. Em outras palavras. Diferente do que pensa toda uma tradição neokantiana que vai de Weber à Rawls e Habermas. o risco de crises de legitimação no seio da democracia é real e. ele é inevitável. e que 243 . operam meta-princípios morais de justificação e aplicação de normas que. cujos princípios possam ser free-standing ou indisponíveis (unverfügbar).

é precisamente porque estes consensos são ao mesmo tempo procedimentais e substantivos que a reprodução da legitimidade da democracia não pode depender exclusivamente de estratégias para a manutenção de um ou outro tipo de consenso. e nem esta nem aquela teoria ético-moral tem respostas suficientes para evitá-los.244 determinam e são determinados. Em terceiro e último lugar. precisamos de uma teoria sociológica da legitimação de normas em uma democracia. são riscos permanentes em sociedades complexas e plurais. por estratégias discursivas que visam produzir consensos através de argumentação ético-moral. portanto. Para isto. 244 . e este capítulo é apenas um pequeno passo nesta direção. separatismos. A adaptabilidade das estratégias discursivas no sentido de gerar mudanças de consensos deliberativos dentro do círculo virtuoso é condição necessária àquela reprodução. violência e especialmente a apatia. Fundamentalismos.

245 CONCLUSÃO A DEMOCRACIA COMO IDEAL ÉTICO. JURÍDICO E POLÍTICO 245 .

e sei lá que mais. um jacobino. e tinha como objetivo resgatar as dimensões mais republicanas latentes naquela teoria e que. serei bradado com os títulos de um visionário. de um distúrbio para a paz pública. de um teórico. ou um esboço das leis e costumes de Makar (1795). do direito e da política. tal qual definida por Habermas. a meu ver. talvez eu seja enviado para um hospital de lunáticos. 246 . O eixo central deste esforço foi uma crítica aos elementos liberais que sobrevivem na sua teoria nos planos da ética. são a chave para dar uma nova interpretação à idéia de democracia. Este livro foi um esforço no sentido de estabelecer os limites e potencialidades da teoria de Habermas para pensar a democracia depois do liberalismo. Othono. em que a continuidade do projeto da modernidade em sua vertente humanista é encarada como processo de crítica normativa a partir de reconstruções sociológicas do mundo em que vivemos. Quanto eu gostaria. Começamos esta reflexão com uma análise da crise da teoria política normativa ao longo da primeira metade do século vinte e de seu gradual ressurgimento no período subseqüente. de poder permanecer entre vocês! Quão invejável é a companhia dos Lawrence! Thomas Northmore. Memórias de Planetes. um democrata. À guisa de conclusão.246 Assim que eu publicar o que eu agora aprendi em meu país. e classificado entre os incuráveis. Somente desta forma pode uma teoria desta natureza adquirir a legitimidade social necessária para se tornar referência para a produção de modelos e desenhos institucionais inovadores e capazes de lidar com os problemas sociais mais prementes da humanidade. quem sabe. defendendo que tal ressurgimento tem melhores chances de revigorar esta importante atividade intelectual se compreendida enquanto esforço de produção de uma teoria política reconstrutiva. resta apenas tentar sintetizar os argumentos centrais aqui apresentados e. abrir algumas outras portas com aquela chave.

bem como sob a ótica da pluralidade de formas legítimas de justificação que orientam a prática política no mundo contemporâneo. em que os pleitos na esfera 247 . ao meu ver. passando por Fichte e Mead. sem perder de vista a necessidade de reconstruí-las sob a ótica de valores modernos como a igualdade substantiva entre os homens. evidentemente. Sua teoria acaba por organizar a interação política entre os cidadãos a partir de um modelo de articulação de interesses privados em que o único requisito de legitimação é a universabilidade dos pleitos apresentado e não o seu caráter efetivamente universal. e Habermas é.247 Tal empreendimento tem início. ao sustentar um modelo de esfera pública democrática aberta à organização e manifestação de grupos sociais organizados ao redor de seus interesses coletivos. com a produção de um diagnóstico da modernidade contemporânea. A trilha percorrida por Habermas. tema que já havia sido por ele abordado no ensaio “Direito Natural e Revolução”. No entanto. Procedemos. A naturalização da filosofia. o autor que melhor desenvolveu tal diagnóstico. por conseguinte. orientada à crítica e legitimação das formas de vida contemporânea. que acabaram às margens do pensamento liberal hegemônico do século vinte. Habermas acaba sucumbindo a um velho problema da filosofia política moderna a que denominei de ‘imperativo da representação’. em que os grandes temas da filosofia moderna são criticados sob a luz da necessidade de reconstrução de um paradigma universalista liberto das correntes da metafísica e do sujeito transcendental kantiano. publicado em Theory and Practice (1974) recebe um tratamento sistemático no livro O Pensamento Pós-Metafísico (1994). a realizar uma crítica histórica e analítica do conceito de interesses enquanto ‘matéria prima’ da vida política de sociedades democráticas cujo principal objetivo era demonstrar a necessidade de suplantar o modelo de articulação de interesses pressuposto pela teoria habermasiana por um modelo de articulação de virtudes. o conduz a um modelo de filosofia prática.

Habermas continua orientado por uma concepção de justiça enquanto procedimentos neutros e puros. Desta ética.248 pública adquiram um caráter universal efetivo. É por isto que o modelo rawlsiano de razão pública. quando convertidas em universais. em última instância. Tal qual seus predecessores liberais. A principal conseqüência do excessivo procedimentalismo da ética do discurso de Habermas é a sua incapacidade de gerar uma teoria da justiça. derivamos os conceitos de responsabilidade moral e justificação pública. oferece uma alternativa melhor para esta questão. e não pelos valores que orientam as atitudes resultantes. concepção esta resultante de uma apropriação às vezes equivocada da teoria dos atos de fala de Austin e Searle para a produção de sua ética do discurso. Responsabilidade moral por atos implica em responsabilidade pelas suas conseqüências. desta forma. em determinadas circunstâncias). o que importa não são somente os bons motivos para ação (que nem precisam ser bons. mas sim as justificações publicamente articuladas para ela e a capacidade que estas justificações têm. que implicam em um determinado modelo normativo de ação em que o uso público da razão sugerido por Habermas é insuficiente. se retirado do contexto de sua deontologia liberal. depende de um modelo de obrigação moral para com princípios insustentável do ponto de vista da construção de uma ética moderna efetivamente republicana. No lugar desta teoria da justiça procedimentalista que esvazia o 248 . propusemos que os novos avanços na ética das virtudes fossem tomados como ponto de partida para a reconstrução de um modelo de ação política. ainda que a filosofia da linguagem seja de fato o locus apropriado para o início deste empreendimento. de persuadir e formar consensos efetivos no seio da sociedade. e não apenas potencial. Em contraposição a esta ética da obrigação. Localizamos a raiz do problema do modelo habermasiano de esfera pública em sua ética do discurso que.

lado a lado com os preceitos formais da justiça procedimental é que poderemos chegar a um conceito de justiça efetivamente humanista. devem restringir-se a regras para situações de ação concreta. o pragmatismo. serem trivialmente aplicadas universalmente a partir da perspectiva do indivíduo que formula valores e que os transforma em atitudes no mundo concreto. tem como fundamento necessário um preceito moral. ou por parte dela. dos juristas realistas nos EUA na primeira metade do século vinte. em que os problemas da formulação de normas jurídicas fossem submetidos a regras morais substantivas que possam coexistir com estes procedimentos. o patriotismo. que coloca sempre e necessariamente os deveres do cidadão para com a república à frente de seus direitos. do ponto de vista moral e substantivo. Estas regras morais. Por outro lado. por um lado. aos membros do movimento Critical Legal Studies. Desta necessidade de moralizar o conceito de justiça resulta a necessidade de rever as teorias liberais do direito e seu caráter procedimentalista sob a ótica de modelos alternativos elaborados pela crítica jurídica do século vinte. a qual Agnes Heller alude en passant em seu livro Além da Justiça (1987). portanto. bem como as teorias da reflexividade do direito elaboradas por Luhmann e seus seguidores. para pensar uma teoria da justiça moralizada. Além disso. principalmente Teubner.249 próprio sentido de uma teoria desta natureza – apresentar soluções teóricas para a fundamentação de um ordenamento jurídico efetivamente capaz de combater injustiças sociais que são de natureza substantiva. Para isto. somente na medida em que colocarmos os valores compartilhados pela sociedade como um todo. não podendo. fazem uma contribuição importante. e não formal – propusemos que se partisse da metáfora da justiça de Giotto. 249 . em que o que não é justo. a necessidade de uma perspectiva alternativa a este atomismo no plano epistemológico (o holismo). possa ser debatido e arbitrado pelas instituições do judiciário de maneira eficaz e legítima.

O modelo de consensos democráticos apresentado no último capítulo deste livro visa superar este limite do modelo liberal de democracia. e consentimentos e consensos liberais. que supere os limites impostos por uma teoria da justiça orientada por um procedimentalismo puro afeito a uma minima moralia¸ precisa liberar-se da noção de que suas função é meramente a institucionalização eficaz de um sistema de direitos civis e políticos. para que possa efetivamente intervir no processo de distribuição de direitos sociais capazes de gerar igualdade social. a representação política sendo apenas um destes mecanismos. em que os consentimentos gerados no seio deste legitimam permanente decisões governamentais. os problemas de legitimação de um sistema político democrático. cujos maiores desafios consistem em produzir consentimentos (ou resolver conflitos) no seio de sociedades plurais e complexas. sempre e desde já (always aready) pressupostos e necessários para evitar crises de legitimação do sistema político democrático. governado por seus representantes eleitos. desta maneira. entretanto. plurais e complexos. tornando-as. são 250 . neste modelo. É no sentido de recuperar esta função política do direito que tais autores e escolas de pensamento contribuem para a formulação de um direito pós-liberal. para usar uma expressão habermasiana. tampouco bastam procedimentos clássicos de representação política. Para isto. e exigem portanto mecanismos de arbitragem diversos. decisões vinculantes. Isto não resolve. Os consentimentos gerados no seio de sociedades plurais e complexas são. por definição (e redundância).250 Um direito pós-liberal. mas um governo do povo. Democracia não é meramente um regime em nome do povo. alicerçados em mecanismos de accountability e responsividade das instituições representativas. O conceito de ‘círculo virtuoso’ da democracia implica apenas que diferentes tipos de consenso (e consentimento) são.

que nos ajuda a democracia enquanto um ideal acima de qualquer forma de governo e além. não simplesmente um regime de governo. preferiríamos pensar neles como nem tão democráticos assim. Esta concepção de democracia é similar a de um autor do começo do século vinte. que aparece apenas de forma pontual na obra de Habermas. se levada às últimas conseqüências. a democracia é uma idéia ética. Habermas ancora sua teoria ética em uma psicologia da natureza humana derivada do funcionalismo sintético de Bühler. portanto de qualquer liberalismo político. a política em uma atividade sempre sujeita a correlação de forças sociais que definem relações de dominação no seio da sociedade capitalista. cujo resultado mais pernicioso é legitimar formas de articulação de interesses no âmbito da esfera pública e converter. dependendo do tipo de consentimento que é dado pelos cidadãos ao governo vigente. freqüentemente negligenciado pela teoria política contemporânea. Há contextos em que tais liberdades não estão plenamente instituídas e que podem. mas ele tem a virtude de desmistificar a idéia de que uma democracia é simplesmente um regime de liberdades civis e políticas plenamente instituído. A democracia deve ser interpretada como um ideal. Como vimos. Para Dewey. apesar da plena existência destas liberdades.251 apenas um momento deste círculo. aquele em que uma sociedade se protege contra separatismos através de garantias e universalização de direitos civis. e podemos até dizer que há vários regimes de governo que comportam este ideal. Como mostra Dewey. O modelo apresenta todas as limitações que. representa a forma de vida ancorada na experiência humana mais avançada conhecida pela modernidade. qualquer idealização apresenta. John Dewey. serem considerados democráticos e outros que. jurídica e política que. tem uma concepção de democracia que talvez nos permita adicionar alguns comentários finais a esta reflexão. por conseguinte. 251 . como nos ensina Habermas.

1989. p. O pragmatismo contemporâneo.252 entretanto. bem como construir instituições jurídicas responsivas às demandas que este homem comum convertido em cidadão traga até elas. portanto. somente no seio de uma democracia conhece de fato as possibilidades de se educar a uma vida dedicada ao espírito público. 252 . 125 Dewey. NY: Prometheus Books. A justificação para a democracia enquanto governo popular. a democracia enquanto ideal ético requer uma nova psicologia da natureza humana que esteja ancorada em uma sociologia das formas de vida do ‘homem comum’ que. É necessária uma nova visão das normas em que moralidade e ceticismo são combinados para formar uma visão do autogoverno centrada na apreciação dos fatos e conflitos concretos e dos tipos de solução normatizante e úteis à comunidade que tal visão nos permite produzir. em outras palavras. se preferirem. não interesses. quando combinado a uma interpretação reflexiva do direito. são trazidos ao debate público entre os ‘homens comuns’. permite traduzir esta idéia de democracia para o plano de uma teoria da justiça (ou. ao ideal republicano. sem dúvida. a república só floresce plenamente em um ambiente democrático onde virtudes. a inclusão do homem comum na vida democrática da república não pode reduzir-se a garantias procedimentais no plano da argumentação pública. Buffalo. Freedom and Culture. apesar de dotado de interesses claramente discerníveis na sua condição de opressão. não está no fato que ela conduz a decisões mais eficazes no plano da expressão dos interesses de uma maioria. A democracia é condição necessária à realização da idéia de república. John.97. isto é.125 Do ponto de vista jurídico. “pois a crença [neles] não tem significado algum se ela não expressar uma crença na conexão íntima e vital entre democracia e natureza humana”. uma teoria da eliminação das injustiças). do qual Dewey é um dos fundadores. mas na sua capacidade de conduzir a um ambiente pedagógico de aprendizado nas virtudes cívicas de uma república.

apud: Pogrebinschi. em última instância. 343. A Teoria Social e Política do Pragmatismo. isto é. “Creative Democracy – the task before us” in The Essential Dewey. John. de forma que objetivos especiais atingidos só têm valor. 150. IUPERJ. como aponta Dewey. nota 284. enquanto ideal político. em que os cidadãos de toda e cada sociedade compartilham de alguma concepção moral do mundo independente da pluralidade de doutrinas razoáveis as quais eles subscrevam. 2002. Dissertação de Mestrado. Pois. Daí a necessidade de uma teoria sociológica da legitimação das normas no seio das sociedades (cada uma delas) contemporâneas. Portanto. para Dewey. como alude Dewey. Volume I. e como demonstrado no último capítulo. 253 . a democracia enquanto ideal político pode significar diferentes formas de organização do Estado. a democracia é a crença na capacidade da experiência humana gerar os objetivos e métodos através dos quais outras experiências emergirão de forma rica e ordenada. Qualquer outra forma de fé moral ou social depende apóia-se na idéia de que a experiência deve ser submetida em algum momento a alguma forma de controle externo. na medida em que eles são utilizados para enriquecer e ordenar o processo em curso. A fé democrática deve ser apresentada em termos de uma posição filosófica formal. sua virtude está em ser um círculo virtuoso de consensos e consentimentos entre os cidadãos capazes de reproduzir uma comunidade auto-regulada sem gerar crises de legitimação da ordem política. A democracia é a fé de que o processo da experiência é mais importante do que qualquer resultado especial nele. é portanto uma pedagogia política ancorada na experiência concreta dos cidadãos de cada comunidade. A democracia. Thamy. a alguma ‘autoridade’ supostamente existente fora do processo da experiência.126 O termo chave desta passagem é ‘experiência’ que. aqui. Apresentada desta maneira. p. É porque o processo da experiência é capaz de ser pedagógico que a fé na democracia é fé na experiência e na educação. no sentido forte do termo. Rio de Janeiro. a democracia aponta para o ideal de uma comunidade auto-regulada. que desenvolve e satisfaz necessidades e desejos através do crescente aumento de conhecimento de como as coisas são de fato. p. Comunidade.253 Por fim. Como consensos e/ou 126 Ver Dewey. é a interação livre dos seres humanos individuais com seu contexto.

São estas as razões que nos levam a crer que a democracia precisa ser repensada para além do liberalismo.254 consentimentos legítimos são gerados em cada momento concreto. O liberalismo político. Mas precisamente por isto. direito e democracia. em cada situação de ação. ele nunca foi capaz de produzir a efetiva inclusão de todos enquanto cidadãos dotados de direitos civis e a tolerância mútua exigida em qualquer sociedade complexa e plural. Quanto à segunda. Este é o desafio para uma teoria política normativa e reconstrutiva que sirva a sociedades plurais e complexas. é resultado do desenvolvimento e da dinâmica desta pedagogia e de como as instituições normativas de cada comunidade facilitam e/ou permitem a construção destes consensos e/ou consentimentos – e as condições para tal. são três: isonomía (igualdade perante a lei). Como dizia Dewey. é quase desnecessário apontar para o evidente fracasso do liberalismo em universalizar as condições econômicas necessárias ao pleno exercício da cidadania política. diante do suposto preceito liberal de que o voto é um direito. isogoría (igualdade de condições de participação na vida pública) e isomoiría (igualdade de condições de participação na riqueza). quase sempre. e reapresentála. aonde e quando ele reinou durante os últimos dois séculos. até onde a franquia política foi efetivamente universalizada. ele implica em repensar a democracia de forma crítica nos três planos: ética. ela atingiu principalmente os menos favorecidos destas sociedades. o desafio daqueles que retêm uma crença na democracia é reavivar e manter em pleno vigor a convicção original de que ela é intrinsecamente moral em sua natureza. Quanto à primeira. A questão do que está envolvido em métodos de autogoverno é agora muito mais complexa. agora. fracassou em produzir todas as três. e não um dever. de maneiras congruentes com as condições presentes da cultura. Por fim. desde sempre. 254 . ou pelo menos desde os gregos. a apatia sempre rondou como espectro e.

ainda tenho uma “saudade imensa de um futuro melhor”. p.255 Avançamos o suficiente para dizer que a democracia é uma forma de vida. a superação dos ideais liberais modernos. um que provê um padrão moral para a conduta pessoal. Por isto deixamos aqui este convite para pensar o que será da democracia depois do liberalismo. 127 Dewey.127 As sociedades modernas descobriram que não há igualdade sem liberdade – esta foi a grande missão histórica do liberalismo político. Freedom and Culture. John. 255 . Falta perceber que ela é um modo de vida pessoal.101. muito mais séria é a descoberta que não há liberdade sem igualdade. e que a obtenção da igualdade requer. como dizia Fernando Pessoa. Pois. Entretanto. muito possivelmente.

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