Francisco Sá de Miranda

(entre as tradições medievais e as inovações italianas) /resumo crítico/

Cleópatra.Segundo umas palavras do escritor português Almeida Garrett. foi registrado com o título “doutor” por razão que num curso de Leis alcançou esse grau. Dada a sua condição nobre. Martinho de Carrazedo. Embora não existam muitos dados duma cronologia exacta. Francisco Sá de Miranda foi um autor particularmente interessante. sem dúvida. porque nela ele aprendeu a versejar. E. muito mais tarde. ele foi uma pessoa harmoniosamente desenvolvida: poeta inovador. apesar da sua conversão ao novo estilo. Mas. Sá de Miranda nasceu em Coimbra. ele frequentou a corte até 1521 e compôs cantigas. numa elegia. foi publicada no Cancioneiro Geral em 1516 por iniciativa de Garcia de Resende. no último quartel do séc. em Amares. logo a seguir. que assim pretendia conservar para a posteridade um registo das grandezas dos portugueses. As primeiras tentativas literárias do escritor foram feitas durante o tempo passado na Universidade em Lisboa. as relações estabelecidas com a corte. tendo sido sepultado na igreja de S.XV. ele nunca repudiou a “medida velha”. Nessa altura faleceu o pai e ele empreendeu uma viagem a Itália.ele cultivou as formas tradicionais e desenvolveu as novas – típicas do chamado “dolce stil nuovo”. XV. vilancetes e esparsas ao gosto dos poetas do séc. também colaborador. preceptor… Foi uma figura eminente na literatura portuguesa. 2 . Aí Sá de Miranda. numa quinta em Duas Igrejas. A última referência conhecida a Sá de Miranda foi de 1558. Francisco de Sá de Miranda “filosofou com as musas e poetizou com a filosofia”. foi a esposa que desapareceu. a partida para Itália e respectivamente o convívio com escritores e artistas italianos. o filho dele morreu em Ceuta. A obra dele era rica. à escrita e ao cultivo da terra. Até. os pontos de apoio mais importantes quanto ao estudo da sua obra. ligando-os dos acontecimentos mais importantes na vida dele. Sobre o seu desenvolvimento como escritor exerceram influência vários acontecimentos e períodos na sua vida: o tempo passado na Universidade. em data ainda não averiguada (com certeza. realmente. antes de 1490) e era filho de um cónego de cepa fidalga. Esse tipo de poesia palaciana. formalmente uniformizada. Esse acontecimento provocou no Sá de Miranda o desejo de escapar-se daquela monotonia formal. Estas são. defendor dos valores morais. seu amigo e protector. amigo de longa data. em 1554 faleceu o príncipe D. presumiu-se que teria falecido nesse ano. reconheceu o interesse das antigas formas de trovar. além de várias composições poéticas. porque não abarcava um estilo só . onde dedicou-se à família. os investigadores de Sá de Miranda tentam de diferenciar (ao menos relativamente) uns períodos na sua obra. A partir de 1552 (o ano do casamento dele com Briolanja de Azevedo) vivia no Minho. João. Os últimos anos da sua vida foram amargos: perdeu Bernardim Ribeiro. Principalmente foi apreciado pelo facto que introduziu estruturas desconhecidas na literatura portuguesa e pela imagem do moralista que criticava rigorosamente a situação no país. artista de consciência cívica. as comédias Estrangeiros e Vilhalpandos e algumas Cartas em verso. etc. escreveu uma tragédia .

a essa fase pertenceriam seguramente as éclogas Célia. mais fecunda na obra do escritor. de novas estruturas estróficas (o terceto. 3 . de passagem por Espanha. Andrés. e mais tarde Diogo Bernardes. João III. a elegia. que antes de se dedicar “oficialmente” às novas formas.Voltando de Itália. de novos subgéneros líricos (a carta. ele iniciou a “materializar” por escrito as suas intenções inovadoras. por razões desconhecidas. Exactamente por esses factos biográficos. Mas. D. a écloga Alexo e alguns sonetos foram talvez as primeiras expressões portuguesas conhecidas do novo estilo. Apesar de tudo. sem a influência da vida pessoal do escritor sobre a obra. Manuel de Portugal. apesar dos argumentos aduzidos em apoio dessa afirmação. O contrário era provável também – que o autor tivesse transitado da realização estética para a doutrinação moral. vibrante. que provavelmente influenciaram até certo ponto sobre algumas das concepções dele. João.alacre. Logo após do regresso. onde penetrou-se das ideias do Renascimento. da obra poética dele (editadas em 1626 como sátiras de tipo horaciano). inaugurando assim a fase. a canção. em 1526. não estão convencidos em absoluto no facto que as obras mencionadas acima foram as primeiras tentativas dele. e o próprio rei D. sobretudo. Isso levou alguns dos investigadores dele a concluir que as intenções pedagógicomoralizantes teriam precedido (ou. Jorge de Montemor e António Ferreira. e porventura mais interessante. grandes admiradores da poética italiana. ele não perdeu as relações estabelecidas com amigos nobres e mantinha muito tempo convivência epistolar com uma roda de admiradores. os Estrangeiros. entre quais foram Pêro de Andrade Caminha. à imitação de Plauto. E a Fábula do Mondego. mas também em composições bucólicas. Logo em 1527 se lançou na composição de uma comédia em prosa. até hoje em dia. Francisco de Sá de Meneses. Nemoroso e Encantamento (que foi a única escrita em decassílabos portugueses). Elas vinham a realizar-se nas seguintes linhas: introdução da comédia em prosa. ele alheou-se da Corte. Também entre as pessoas com que o poeta-lavrador convivia mediante as Cartas contavam-se o príncipe real. a écloga). Assim surgiu a suspeição de que uma tal diferença entre duas “idades” criadoras (uma. coincidido com) as intenções inovadoras de Sá de Miranda. o soneto). a oitava. existem teorias. Cerca de 1530. Os apoiantes dessa teoria expuseram como argumentos o próprio tom das obras . por vezes. retirando com a mulher para a sua terra. Os seus investigadores. a cujo pedido organizou uma colectânea das suas poesias. D. A cronologia incerta das obras mirandinas suscitou um outro problema: discutia-se muito respeito à data em que teria ele composto a écloga Basto e também as Cartas em verso – a parte mais original. provavelmente. e outra mais reflexiva) teria sido impensável sem associação com. e não raro hedonístico das éclogas artísticas – ele contrastava com a melancolia amargurada da écloga moral e das Cartas. o escritor talvez tivesse conhecido Boscán e Garcilaso. Sá de Miranda já tinha ensaiado a nova medida. ou melhor. Em contrapartida. não apenas em sonetos. D. E ele “conheceu” as tragédias nos últimos anos da sua trajectória. as obras poderiam sido datadas ao redor de 1530. marcada pela emoção. introdução de um novo metro (o decassílabo).

mostrava umaespectacular erudição histórica e mitológica. A ambiçaõ do ouro originava. A invenção. tornando-se mais tarde numa melancolia inconfundível. O espírito dos seus versos era torturado e tenso.elegias. sonetos. a necessidade de renovação pelo estudo dos modelos estrangeiros. Sá de Miranda via o remédio num poder régio justamente exercido. Em fase ulterior. segundo ele. Nas éclogas. Nelas ele expôs dum modo livre o que é que pensava do mundo que o rodeia. O tema mais comovida foi a contradição entre a razão e a “vontade”. todo um sistema de exploração em proveito de um grupo dirigente. as guerras. A crítica da corte como centro do governo: a corrupção da justiça. Sobre ela posteriormente ele acentuou outra vez nas Cartas e na écloga Basto. mas uma olhada para atrás ao seu material literário passado (as cantigas. uns traços novos. a superioridade do culto das letras sobre o das armas. Sá de Miranda cultivava exclusivamente a poesia amorosa. 4 . Na primeira fase da sua escrita.Pelos temas. a recontar histórias célebres da Antiguedade. relativamente ao estilo da vida da sua época. expostas mediante uma linguagem elíptica. que desviavam para a destruição o fogo.toca certos tópicos característicos da literatura renascentista: o desprezo pela vulgaridade. densa. Conforme a opinião da maioria dos seus investigadores o emprego da redondilha (quase exclusivo nessas obras) não significava precedência dessas em relação às éclogas italianistas. da artilharia era para Sá de Miranda mais um exemplo dos malefícios resultantes do afastamento da natureza. Notava-se a influência do tópico horaciano da aurea mediocritas. que era contrária em tudo ao viver simples que defendia. Assim Sá de Miranda atribuiu a um tema táo característico da Antiguidade e particularmente de Horácio. que conseguia perverter as boas leis tornando-as “fracas teias de aranha”. forte e às vezes demasiado dura. Mostrava-se muito crítico. anteriormente à seu desvio pelas formas italianas. Tanto nas éclogas como noutras obras de inspiração clássica . sóbria. os vilancetes. canções . enriqueceu e variou consideravelmente a sua obra literária. Contra esses males. As Cartas e a écloga moral representavam um regresso natural aos formas tradicionais. Valorizava o viver rústico do campo face à vida de luxo e vaidade da Corte. afastou-se igualmente do poetar palaciano. Francisco Sá de Miranda foi um escritor excepcional e espectacular. eram de uma extrema importância para a literatura portuguesa. e exortava á composição de poemas heróicos de assunto português. introduzindo as inovações. então recente. segiundo o modelo de Garcilaso. combinando-lhes com a crítica social-outro elemento muito típico da obra dele. Manifestava claramente a nostalgia da vida simples e calma do passado. como a do elogio da simplicidade rústica. idealização típica do Renascimento.etc). antes dado para proveito dos homens. ao serviço do Povo. Mostrava-se também pouco favorável à aventura ultramarina. As mudanças que ele fez e as temas que afectou.

Porto Ed. Dicionário da Literatura Portuguesa. 1996. Porto.ª ed. 1987.]. LOPES. Presença. 13. 1985 5 . Lisboa.Bibliografia Crítica COELHO. Dicionário das Literaturas Portuguesas.). Àlvaro Manuel (org. Galega e Brasileira. SARAIVA. Jacinto do Prado [dir.. Figueirinhas. Porto. Óscar. História da Literatura Portuguesa.. António José. rev. coord. MACHADO.. Ed.