A literatura sobre a dependência de álcool no Brasil, embora seja escassa e com as limitações decorrentes do uso das mais variadas

metodologias pelos pesquisadores, tem mostrado uma prevalência variando de 3 a 10% na população geral adulta(1). Recente levantamento domiciliar, realizado pelo CEBRID, no ano de 1999, em 24 cidades do Estado de São Paulo, com mais de 200 mil habitantes, mostrou dados identificando consumo de álcool e cigarro semelhante ao dos EUA, e um número estimado de dependentes de 6,6% para ambas as substâncias, sendo ambas drogas particularmente incidentes entre homens de 18 a 24 anos(2). Entre as drogas psicotrópicas, o álcool parece ser a substância mais consumida no Brasil. A maioria dos estudos de prevalência tem sido feito em populações que buscam assistência médica. As taxas de prevalência de abuso de álcool nessa população variam de 20 a 50%(3-5). Segundo a Secretaria de Saúde, o alcoolismo é responsável por 50% das internações psiquiátricas masculinas, 20% em unidade de gastroenterologia(6) e 90% das internações por dependência de drogas em hospitais psiquiátricos brasileiros(7-8). Pessoas com problemas relacionados ao álcool são hospitalizados quatro vezes mais que a população em geral(9). As mudanças nas necessidades de saúde da população e a própria história do uso de álcool e outras drogas têm solicitado a existência da demanda de novos serviços. Para oferecer centros de atendimento à saúde em geral (públicos e privados) compatíveis com essa realidade, o enfermeiro, dentro das suas funções, deve estar apto a absorver tais mudanças. Recentemente o Ministério da Saúde baixou a Portaria n° 816/GM, regulando o atendimento do dependente de drogas e álcool em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS-AD)(10), prevendo uma equipe mínima da qual os enfermeiros e auxiliares de enfermagem fazem parte. Se, antes da legislação, a vivência prática já solicitava os conhecimentos específicos, a exigência da inclusão do enfermeiro na equipe de saúde que presta cuidados aos dependentes consolidou essa necessidade em todo o País. Por outro lado, o enfermeiro tem potencialidade à demanda, explorarando alternativas, fazendo as adaptações necessárias nos seus planos assistenciais em geral e promovendo a assistência aos pacientes com problemas decorrentes do consumo de álcool e drogas(11). A experiência em outros países tem mostrado que os novos modelos assistenciais disponíveis à enfermagem, nessa área, tem como objetivo promover iniciativas no âmbito comunitário bem como na assistência direta tanto ao indivíduo, quanto à família e grupos específicos da comunidade(12). Conforme exposto, os estudos realizados durante a última década mostram que a prevalência do uso e abuso de álcool se manteve alta, gerando graves problemas sociais e de saúde e a magnitude desses problemas é evidente. Embora consistente, o progresso tem sido lento nos componentes da educação sobre

álcool que são considerados essenciais na formação profissional do enfermeiro. Esses componentes incluem: 1- conhecimento das atitudes frente ao usuário e aos problemas relacionados, 2obtenção de educação formal sobre o tema, 3- mudanças de atitudes. Considerando a necessidade de ampliar e divulgar conhecimentos teóricos relacionados à dependência química, o presente artigo visa apresentar registro dos principais modelos teóricos explicativos existentes para o fenômeno do uso do álcool e outras drogas, bem como algumas estratégias norteadoras para a prática da enfermagem junto ao usuário.

MODELOS EXPLICATIVOS AO FENÔMENO DO USO DO ÁLCOOL E DROGAS
Ao longo do tempo, os autores especialistas (11,13-14) desenvolveram diversos modelos referentes ao entendimento das dimensões do problema do consumo de álcool e drogas. Cada enfoque se concentra exclusivamente em um subconjunto ou aspecto dos fenômenos gerais. Tendo como base seus registros, elaborou-se uma síntese dos modelos mais utilizados no tratamento e ou prevenção, contendo sua concepção do problema e principais pressupostos, os quais são apresentados na seqüência:

MODELO ÉTICO LEGAL
Trata-se de concepção vinculada aos profissionais de direito e segurança social. Segundo as proposições teóricas desse enfoque, as causas estão nas atitudes anti-sociais e/ou imorais de certos grupos de transgressores. Nesse modelo, considera-se o problema como basicamente qualquer ato de transgressão que requer interferência baseada em sua sanção legal; não há aprofundamento da análise da dependência da substância e dos processos que a determinam. As drogas e seu consumo são importantes e requerem a atenção na medida em que se apresentam como causadores de danos graves aos indivíduos e à sociedade. A intervenção preventiva se apóia em medidas de caráter positivo e punitivo, operando por meios dos sistemas legislativo, judicial e policial.

MODELO MORAL
Neste modelo, os indivíduos são considerados responsáveis tanto pelo início e o desenvolvimento do problema, quanto pelas soluções e acredita-se que necessitam apenas de motivação apropriada. A principal limitação do modelo moral é que as pessoas são levadas a sentir-se culpadas pelo desenvolvimento

do problema e a pensar que, de alguma forma, lhes faltam força de vontade ou "fibra moral", por não conseguirem alterar com sucesso seu comportamento.

MODELO MÉDICO OU DE DOENÇA
O modelo médico de dependência baseia-se na suposição de que a dependência de substâncias psicoativas seja entidade nosológica distinta e de caráter progressivo, com origens ou manifestações físicas e necessita de tratamento médico. Diversas entidades têm se empenhado em que seja utilizado o termo "dependência em detrimento de outros com maior conotação moral" (vício) e que esse problema seja visto como um conjunto de sintomas clínicos. O conceito do alcoolismo como doença foi proposto inicialmente por Jellinek, em 1960. Nesse modelo, o comportamento do uso da substância é visto como progressivo, incurável e a causa da doença está relacionada aos fatores genéticos, biológicos, estruturais de natureza química, tal como tem mostrado alguns estudos(15). Existem fortes evidências de que o início do alcoolismo está geneticamente predeterminado no individuo(16). Contudo, a predisposição genética pode também proteger alguns indivíduos que têm metabolismo genético sensível para tolerar o uso de substâncias psicoativas tais como o álcool(17). Esse modelo também implica em aceitar que o uso da substância exerce papel de doença e o indivíduo espera ser tratado como doente. O enfoque do tratamento implica na recuperação do uso, abuso e/ou dependência da substância, sendo a abstinência total objetivo a ser alcançado. Como exemplo, os grupos de auto-ajuda (AA - Alcoólatras Anônimos). A intervenção preventiva, nesse modelo, centra-se no valor que as pessoas dão à saúde, e fundamenta a educação no conhecimento da ação e prejuízos de determinadas drogas sobre o organismo, bem como as modificações que provocam sobre o comportamento e atitudes das pessoas. Nesse modelo considera-se que o indivíduo conscientizado pela educação recebida evita o uso abusivo.

MODELO PSICOLÓGICO OU PSICOSSOCIAL
Este modelo inclui o aprendizado social, a interação familiar e os traços da personalidade do indivíduo. O modelo de aprendizado social propõe que o comportamento social é aprendido através da observação e imitação. Isto é, mostra que o exemplo dos pais é um importante fator no padrão inicial do consumo de substâncias, especialmente naquelas pessoas com habilidades sociais precárias. O uso do álcool é socialmente adquirido, os padrões de comportamento aprendidos são mantidos por fatores

visando a melhora da qualidade de vida e sua integração na comunidade. podem ter efeitos importantes sobre o início e o uso continuado da substância pelo indivíduo. assim como existe um modelo de . idade. pela influência de modelos. expectativas e indicadores. dentre eles a falta de maturidade. O ambiente familiar é visto como parte importante na determinação do consumo do álcool e sugere que o alcoolismo está consistentemente associado com negligência. Para melhor visualizar os pressupostos centrais e as características desses modelos foi elaborada a Tabela 1. Em algumas culturas. É um modelo ambientalista. valores e atitudes que conduzem a comunidade ou seus grupos específicos no caminho da abstenção ou do uso de drogas. estaria associada a muitos fatores. A ação preventiva proposta por esse modelo tem como objetivo fundamental a mudança nas condições sociais dirigidas a grupos marginalizados. incluindo também os fatores genéticos(18). e outros. É importante lembrar que tais modelos se superpõem na prática e que não existe um modelo correto para os problemas relacionados ao álcool. a privação social. etnicidade. ou ter como base problemas psiquiátricos como depressão ou transtorno de ansiedade. na interação de elementos sociológicos (do grupo ou subcultura à qual ele pertence) e culturais (costumes e tradições). Também o sexo. conflitos intrapessoais e interpessoais. A sua explicação a respeito do uso de substâncias enfatiza a função do meio cultural com suas crenças. no caso do uso de substâncias. que destaca a importância do ambiente na conduta do indivíduo. rejeição dos pais e tensão familiar. religião. Para esse modelo. distanciamento emocional. O modelo da interação familiar enfatiza a função do comportamento dos pais no uso da bebida no caso do alcoolismo. dentre outros. MODELO SOCIOLÓGICO OU SOCIOCULTURAL Este modelo concebe a problemática das drogas como resultado de um número de forças sociais. baixa auto-estima. que permite identificar a evolução das maneiras de explicar o fenômeno da adição. atitudes culturais com relação ao uso de droga psicoativa podem exercer função importante na determinação do comportamento individual. os fatores sociológicos tais como o desemprego. A atribuição de características específicas de personalidade. condições socioeconômicas e ambiente familiar influenciam diretamente na opção individual de usar ou não a substância. a abstinência pode ser regra e em outras o uso pode ser parte de um ritual religioso e cerimonial ou aceito como droga social ou recreacional. Ainda no contexto desse modelo.cognitivos. e pela interação do comportamento com reforços do meio.

aconselhamentos e cuidados de saúde geral. Essa prática muitas vezes tem emergido. trabalhos comunitários). por vezes. pois está diretamente ligada ao sistema de saúde e centrada nos cuidados gerais de saúde. No caso do uso de álcool. As idéias valiosas.. . quando executa procedimentos terapêuticos. quando não identifica a retaguarda necessária para a reintegração social. Por isso mesmo. medicalização). podem vir de um padrão madeira. têm se baseado no modelo médico. constatado no atendimento aos usuários de substâncias. existem outros que esboçam uma variedade de opções de intervenções. atualmente mais utilizados em nosso meio e que têm contribuído para modificações desse comportamento. Apenas se desencoraja a visão do problema enquanto questão relativa ao âmbito da moral (indivíduo mau-caráter). o Instituto de Saúde propõe que ". Há de se salientar que os modelos são tentativas teóricas para explicar um fenômeno complexo e multifacetado que é o uso de álcool e drogas. mas enquanto uns enfocam apenas um aspecto da intervenção numa abordagem em particular. a assistência ao usuário é uma prática complexa e. Por isso. o profissional pode avaliar seu cliente sob o olhar de mais de um modelo ao mesmo tempo: o moral. nem sempre tem atendido as especificidades dos usuários de substâncias psicoativas. Tendo uma amplitude de ação maior. Todos os modelos procuram explicar a origem dos problemas relacionados ao uso do álcool e outras drogas.. Os modelos explicativos para o uso do álcool e outras drogas. freqüentemente. centralizado nas formulações da psiquiatria (hospitalização. Fato esse. O uso da substância e o comportamento humano são questões complexas que requerem enfoque holístico em ambos os focos: entendimento da causa do uso e sua aplicação no atendimento. o médico. psicológica e social para os usuários de substâncias cuja saúde está comprometida(19). o social. essa apresentação teve o propósito de oferecer diferentes perspectivas no entendimento do uso das substâncias psicoativas pelas diferentes áreas de conhecimento para subsidiar propostas de atuação. quando ele "não ouve" seus conselhos. alternada e direcionada. é uma gama de serviços que incluindo a avaliação diagnóstica. A PRÁTICA DA ENFERMAGEM AOS USUÁRIOS OU DEPENDENTES DE ÁLCOOL Não existe apenas um modelo a seguir para o planejamento de cuidados da enfermagem na área da dependência química. de acordo com as necessidades de repostas aos problemas de saúde das populações. entre a estrutura e o funcionamento. Isso não significa a ausência desse julgamento por parte da população geral e inclusive entre os profissionais. seguindo a definição ao tratamento. havendo possibilidade de abertura para o contexto da saúde pública (saúde da família e redução de danos."aeronave"(11).

É particularmente importante boa comunicação e o trabalho cooperativo. Nessa visão.O tratamento compõe-se de dois elementos. ouve as queixas do paciente. O paciente deve ser entendido e abordado sob a ótica da totalidade numa perspectiva holística (a chave da intervenção terapêutica) que tem como foco principal o ser humano na compreensão e tratamento do problema ou desconforto. o indivíduo deve receber os aportes necessários para alcançar o seu equilíbrio. . Nessa primeira entrevista. a necessidade de participação de um familiar no tratamento. é importante o enfermeiro ouvir as queixas do paciente. é importante dar um retorno sobre as queixas do paciente e apresentar os objetivos do programa de atendimento. o enfermeiro identifica os problemas associados ao uso das substâncias. incluindo atividades terapêuticas. podem ser utilizados instrumentos padronizados para a coleta de informações. por exemplo. inegavelmente. assim como a intervenção primária (orientações breves e objetivas). mantendo-se a idéia de continuum na sua prática. Garantindo ao indivíduo assistência integral e contínua e contribuindo para a competência coletiva do trabalho da equipe. no mês e ao longo da história do paciente. o uso da substância química é visto como o agente gerador de malefícios. Enfatizou-se o tratamento ao uso nocivo do álcool. que precisa ser tratado de alguma maneira. Ao finalizar a entrevista inicial. avaliação do estado de saúde e diagnóstico das necessidades afetadas. valorizar seus problemas e não fazer julgamentos de valor.. por exemplo). não se diferenciam das demais áreas da enfermagem. O cuidado de enfermagem aos usuários de álcool também pode ser oferecido seguindo tais parâmetros. na busca da caracterização do uso nocivo ou dependência. o enfermeiro pode auxiliar nessa instrumentalização. os procedimentos terapêuticos visando prevenir a cronificação dos problemas e o processo terapêutico em si mesmo que envolve o ambiente e o contexto interpessoal em que os procedimentos são implementados para a obtenção do sucesso. Nessa ocasião. mas. O tratamento do alcoolismo é então uma combinação de procedimentos e processos terapêuticos que interagem de forma complexa ao longo de um continuum(19). por ser essa a substância psicoativa de uso mais freqüente. Com base nisso. incentivando e apoiando os usuários a assumirem a responsabilidade pela melhora na qualidade de sua vida em todos os níveis. percebe os mecanismos de defesa envolvidos (negação. o contrato terapêutico. há necessidade de se promover a aliança terapêutica através de um ambiente acolhedor. o direcionamento do usuário para a abstinência do álcool.". intervenção breve.. conduzindo ao relacionamento interpessoal. no atendimento inicial. Os princípios básicos para a assistência aos usuários de álcool e outras drogas. a identificação precoce através de testes curtos e padronizados (AUDIT). identifica o padrão de consumo da substância no dia. ele pode classificar esse usuário como dependente (ou não) e de que substância. Nesse sentido. da empatia (fundamental para a motivação). aconselhamentos com objetivo e. a prevenção de recaídas. Já.

intervenções e mudanças no estilo de vida(21). ciente dos problemas relacionados ao uso.cognitiva). constituindo um programa estruturado. a prevenção da recaída. como a indicação de abstinência total. padrão de consumo da substância e. e até sugestões mais drásticas. o enfermeiro pode utilizar outras estratégias que são desenvolvidas concomitantemente no processo de tratamento e reabilitação do usuário de álcool e outras drogas. A prevenção de recaída consiste num repertório de meios e estratégias que o indivíduo usuário pode utilizar para evitar recaída em certos comportamentos que fazem parte do quadro da dependência(20). prevenindo assim maiores complicações futuras. a intervenção motivacional e a intervenção breve. objetivando inclusive prevenir a ocorrência de lapso (uso da substância. A intervenção breve(20) envolve procedimentos de ensino de meios de autocontrole para atingir os objetivos da abstinência . que pode ter como objetivo a desintoxicação (programa de atendimento aproximadamente de 7 a 10 dias). O enfermeiro pode exercê-la incentivando a motivação do usuário para mudar seu comportamento de beber. o enfermeiro realiza o monitoramento dos sintomas da síndrome de abstinência. Algumas vezes resumem-se a orientações específicas e. tendo com isso indicadores para avaliar o grau de motivação para o tratamento. O foco central é a manutenção do processo de mudança do comportamento. mais freqüente no início do tratamento e que esse não se transforme em recaída (retorno ao padrão de uso anterior ao tratamento) (20) . Nesse contexto. Além disso. buscando fornecer ao paciente conselhos diretos que promovam reflexões e mudanças de comportamento de maneiras enfáticas. visando ao autocontrole. são necessárias indicações como a redução do consumo e a substituição de uma substância por outra de "menor nocividade". planejando suas ações de maneira a se proteger das situações de risco e a fazer planos para o futuro. enquanto estratégia baseada em pressupostos da psicologia motivacional. pode realizar o acolhimento e breve sensibilização confrontando os problemas relatados pelo paciente e sua associação como o uso da substância. que inclui procedimentos de treinamento de habilidades. Seu fundamento remonta aos princípios da teoria do aprendizado social. No processo de acompanhamento. sem continuidade). em outras.possíveis interconsultas com outros profissionais da equipe e o planejamento do próximo atendimento. Daí a importância da intervenção motivacional(22). Uma das estratégias que pode ser utilizada pelo enfermeiro no processo de tratamento é o aconselhamento (cuja base é a terapia . conhecendo a história atual do uso do álcool e de outras substâncias. bem como identificando a necessidade ou não de encaminhamento para avaliação médica (comorbidade e necessidade de medicalização).

nessa intervenção. O uso de álcool por adolescentes está fortemente associado à morte violenta. O uso de álcool na adolescência está associado a uma série de comportamentos de risco. pois podem ser de importância fundamental no auxílio às mudanças de comportamento do usuário. 2004 RESUMO O álcool é a substância mais consumida entre os jovens. dificuldades de aprendizado. Assim. com prejuízos na memória. violência sexual e participação em gangues. além de aumentar a chance de envolvimento em acidentes. Os profissionais que lidam com adolescentes devem estar preparados para uma avaliação adequada quanto ao possível uso abusivo ou dependência de álcool nesta faixa etária. Descritivos: Bebidas alcoólicas.12 no. os mecanismos de resistência e negação do indivíduo. aprendizado e controle dos impulsos. onde o problema é avaliado recebendo retorno personalizado do enfermeiro. Transtornos relacionados ao uso do álcool. prejuízo no desenvolvimento e estruturação das habilidades cognitivo-comportamentais e emocionais do jovem. Latino-Am. cartão de controle pessoal do uso da substância. No processo de tratamento e reabilitação do usuário de álcool ou drogas familiares e cuidadores devem ser incluídos. O consumo de álcool causa modificações neuroquímicas. contatos telefônicos. sendo que a idade de início de uso tem sido cada vez menor. É necessário o desenvolvimento de acordo mútuo por meio do qual sejam explicitados os objetivos do usuário e aqueles do tratamento. Entretanto. podendo ser utilizados vários meios para favorecer a adesão: manual de atividades diárias a ser preenchido pelo cliente. necessárias para o desenvolvimento de um estilo de vida mais saudável. Saúde dos adolescentes. queda no desempenho escolar. encaminhamento a outros profissionais e parcerias com grupos de auto-ajuda. . é fundamental que os profissionais conheçam as características da adolescência e as particularidades da dependência química nesta faixa etária. Enfermagem vol. aumentando o risco de dependência futura.4 Ribeirão Preto July/Aug. Pode ser feita em sessões breves por meio da técnica de aconselhamento. é importante destacar que os critérios empregados por alguns instrumentos para o diagnóstico de abuso e dependência de álcool foram desenvolvidos para adultos e devem ser aplicados com ressalvas para adolescentes. que procura trabalhar. Abuso de sustância.ou diminuição da quantidade e/ou freqüência de uso da substância. REFERENCIA: Rev. visitas domiciliares. o enfermeiro pode incentivar a participação em entrevistas individuais e em grupos de apoio para orientação e acolhimento do cliente.

mas é tipicamente permissiva ao estímulo do consumo por meio da propaganda. não havia. por exemplo. Além disso. é sabida a desproporção entre este esforço versus o gigantesco impacto da propaganda sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens. dos cinco temas mais freqüentemente encontrados nos comerciais de bebidas alcoólicas. em média. Pinsky e Silva1. apenas uma é explicitamente voltada a informar que o consumo não se destina a crianças ou adolescentes ("ESTE PRODUTO É DESTINADO A ADULTOS"). em festividades. ou mesmo de iniciativas do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – CONAR – quanto à regulamentação de propaganda voltada para jovens. esta desproporção é visível na comparação entre as belas imagens produzidas na mídia. medicamentos ou cigarros. três deles (como relaxamento. No entanto. é prática comum o consumo de álcool pelos jovens – seja no ambiente domiciliar. que ocupam a grande parte de um comercial. das mensagens que o CONAR resolve que deverão fazer parte obrigatória das cláusulas de advertência nos comerciais.294. vetando a utilização de pessoas de menos de 25 anos nos comerciais. qualquer tipo de mensagem consistente quanto ao consumo moderado das bebidas anunciadas. estudando comerciais de bebidas alcoólicas. versus a tarja . camaradagem e humor) eram diretamente relacionáveis às expectativas dos jovens. Em resolução divulgada em outubro de 2003. Mais ainda. Ao mesmo tempo em que a lei brasileira define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos (Lei nº 9. maior do que a freqüência de comerciais sobre outros produtos.Introdução O uso de álcool entre adolescentes é. à época. como indica. um tema controverso no meio social e acadêmico brasileiro. Mesmo assim. de 15 de julho de 1996). de certa forma. como bebidas não alcoólicas. naturalmente. o CONAR define uma série de regras e parâmetros restritivos à propaganda de bebidas alcoólicas visando à exclusão de imagens voltadas para menores. existe um movimento na direção do consumo responsável de álcool. dentre outras. E. com campanhas na mídia associando o consumo de álcool com moderação ou com prevenção de acidentes. ou mesmo em ambientes públicos. não beber e dirigir. e beber com moderação. Atualmente. o website da Companhia Brasileira de Bebidas – AMBEV. As demais fazem menção a restringir o abuso. condena o abuso de álcool pelos jovens. demonstraram que a freqüência destes era. A sociedade como um todo adota atitudes paradoxais frente ao tema: por um lado.

o paradoxo de posição da sociedade e a falta de firmeza no cumprimento de leis são um caldo de cultura ideal para a experimentação tanto de drogas como de álcool. estudos recentes. De acordo com a American Academy of Pediatrics4. dependência e recuperação. visando orientar o profissional não especialista no manejo destas difíceis questões. Este artigo tem como finalidade descrever aspectos epidemiológicos. Saffer3. Em artigo recente. realizados nos EUA. pois contempla características da adolescência: a experimentação de SPA. mesmo havendo maior controle sobre o consumo de álcool dentro de ambientes com grande concentração de jovens (escolas e universidades. por exemplo. Outro achado preocupante mencionado pelos autores é o de que. No que compete ao controle do consumo. no qual o jovem percorre outras experimentações. mais da metade dos estados americanos permite a entrega domiciliar de bebidas alcoólicas vendidas por telefone – o que não é diferente da realidade brasileira –. informando sobre os danos causados pelo uso abusivo daquela substância. etiopatogênicos e diagnósticos associados ao consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes. Para uma mente em desenvolvimento. por exemplo). favorecendo o menor controle sobre o consumo de álcool por menores de idade. Os sistemas classificatórios apresentam discordâncias e necessidades de aprimoramento bastante comentadas na literatura. pode ser considerada uma conduta normal neste período de desenvolvimento.governamental. Sabe-se. haveria seis estágios no envolvimento do adolescente com SPA: abstinência. conclui que a mídia efetivamente influencia o consumo. abuso. dentro de certos padrões. Esta classificação é interessante. Problemas relacionados a diagnóstico e classificação Um dos primeiros obstáculos relacionados ao tema do uso problemático de álcool entre adolescentes é a própria definição do que é o uso normal. ao discutir mitos culturais e símbolos utilizados em propaganda sobre álcool. abuso inicial. tipicamente sugestionável e plástica como a de um adolescente. uso experimental/recreacional (em geral limitado ao álcool). sóbria e obrigatória. confirmam a impressão leiga de que a maioria dos estabelecimentos comerciais vende bebidas alcoólicas para indivíduos menores de 21 anos sem solicitação de verificação da idade2. que a maioria dos adolescentes que experimentam . como a da sexualidade. contribuindo para a precocidade da exposição de jovens ao consumo abusivo.

A maioria dos instrumentos para avaliação de uso de SPA deriva. Para o diagnóstico de abuso. Além disso.uma substância de abuso não se tornará um usuário regular da mesma5. pessoal ou legal. talvez mais parecida ao que propõe a American Academy of Pediatrics. esta classificação permite o diagnóstico de abuso inicial quando pequenos prejuízos começam a emergir. como já ocorre. Primeiramente. ao longo de um ano. e uso continuado. do DSM6. 1998). O DSM-IV apresenta uma série de vantagens. tanto para o abuso quanto para a dependência (para uma revisão. por fim. O seu uso. seria improvável que estes elementos – em particular os sintomas de abstinência – já se encontrassem evidentes com poucos anos de uso na adolescência. mas sim uma seqüência composta por sintomas de ambos diagnósticos desde estágios mais iniciais. parece-nos fundamental . Também há uma série de outras ressalvas. o adolescente deveria apresentar. um dentre quatro sintomas ancorados. haveria três sintomas de dependência (tolerância. um terceiro estágio. O que significa dizer que. no uso recorrente da substância. requer cautela. escassez do repertório. apesar de problemas físicos ou emocionais) e dois de abuso (uso em situações com risco físico e problemas legais) e. Para o diagnóstico de dependência. Ao menos dois dos sete sintomas de dependência são de base predominantemente biológica (tolerância e abstinência). apesar de algum prejuízo social. como a listagem de critérios operacionais claros. Por este sistema. haveria três sintomas de dependência (tentativas frustradas ou desejos de diminuir ou interromper o consumo. Também. o adolescente precisaria apresentar. para a distinção entre Transtorno de Conduta e Personalidade Anti-Social. sobretudo. por vários motivos. para uma doença de desenvolvimento lento como o alcoolismo. por exemplo. três dentre sete sintomas que não se sobrepõem aos sintomas de abuso. clinicamente. Com base nestes dados. ver Martin e Winters. ao longo de um ano. como um pior desempenho escolar por estar sofrendo dos efeitos posteriores a um abuso de álcool. os principais diagnósticos seriam de abuso e de dependência. entretanto. mas a resposta física ao álcool difere de acordo com a etapa do desenvolvimento. em um segundo estágio. Não há critérios para crianças e adolescentes distintos de critérios para adultos. há dados que sugerem que a evolução da dependência de álcool em adolescentes não segue a transição de abuso para dependência do DSM-IV. caracterizado pelos sintomas físicos de abstinência8. porém. beber mais tempo ou quantia maior do que o desejado e muito tempo em torno de álcool) e dois de abuso (prejuízos pessoais e sociais).

5%) e maior prevalência de dependência de álcool nas regiões Norte e Nordeste (9. Diferentes estudos.2%. sistematicamente confirmam a impressão genérica de que. de acordo com o I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (2001). a prevalência é de 48. A situação do problema: prevalência de experimentação. estes estão de acordo com a literatura internacional. abuso e dependência de álcool entre os adolescentes Os estudos epidemiológicos sugerem que 19% dos adolescentes norte-americanos apresentam abuso de álcool9. Pechansky e Barros11 coletaram dados de 950 jovens entre . Estes dados tornam-se mais alarmantes à medida que consideramos o forte impacto negativo do uso regular de álcool na adolescência. Fatores de risco para o uso de álcool em adolescentes O álcool é uma das substâncias psicoativas mais precocemente consumidas pelos jovens. no sentido de a dependência química ser o problema de saúde mental mais prevalente entre adolescentes. em 107 grandes cidades brasileiras. de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação. a cidade de Porto Alegre. RS. se o álcool é facilmente obtenível e fartamente propagandeado. ainda na análise das 107 cidades em conjunto e para esta mesma faixa etária.3%. como será detalhado adiante. Em um levantamento realizado com uma amostra de adolescentes representativa da população de Porto Alegre. para avaliar o uso de álcool entre adolescentes sobretudo no intuito de diagnosticar alguma patologia –. com o álcool em primeiro lugar. consumo regular.2 e 9. Analisando-se os dados de acordo com a região brasileira. a Ciência e a Cultura (UNESCO) (2002).4% de usuários de álcool. Neste estudo. Considerandose o uso na vida. Os dados brasileiros são mais escassos e indicam haver características regionais quanto ao uso de álcool e outras SPA. respectivamente).que. nacionais e estrangeiros. Não há sustentação para simplesmente transpor o modelo de adultos para esta faixa etária. encontramos a maior prevalência de uso na vida de álcool na região Sul (54. isto se reflete em seu consumo precoce e disseminado. o profissional tenha conhecimento sobre a adolescência e sobre as particularidades da dependência química nesta etapa da vida.3% entre jovens de 12 a 17 anos. com 14. lidera o ranking dos usuários regulares de SPA lícitas e ilícitas. Apesar da relativa escassez de dados nacionais. Entretanto. a prevalência de dependência de álcool foi 5.

chegando a quase 100% na idade de 18 anos. 2) Elementos relacionados à estrutura de vida do adolescente desencadeiam um papel fundamental na gênese da dependência de drogas. quando comparado com adolescentes que viviam com ambos os pais. aumenta a chance de que eles mantenham ou incrementem o seu envolvimento com drogas. Falta de suporte parental. De Micheli e Formigoni13. separação. Corroborando estes achados. essa associação. conseqüentemente. local de consumo e volume de etanol ingerido de acordo com a idade dos entrevistados. Ao mesmo tempo. há informações consistentes sobre elementos que influenciam o início ou mantêm o uso de substâncias por parte dos adolescentes. mantendo o hábito de consumo familiar e doméstico por mais tempo. Brook e Brook12 ressaltam que valores. enquanto as meninas eram mais conservadoras. O papel dos pais e do ambiente familiar é marcante no desenvolvimento do adolescente e. todo o corolário de trauma familiar. estudando uma amostra de 213 adolescentes brasileiros classificados em três grupos de intensidade crescente de abuso/dependência. na sua relação com álcool e outras drogas. Um dos achados importantes do estudo foi o de que havia mudanças na forma. Alguns deles se encontram abaixo: 1) A experimentação inicial se dá pelo fato de o adolescente ter amigos que usam drogas. Genericamente. Os achados indicavam ser freqüente (71%) a experimentação das bebidas alcoólicas mais comuns na faixa etária estudada.4 vezes a chance destes desenvolverem uma dependência grave. aumentava em 4. a presença somente da mãe no domicílio do adolescente estava associada a um aumento de 22 vezes na chance deste ser dependente de drogas. uso de drogas pelos próprios pais. brigas e agressões estavam francamente associados ao grupo de adolescentes com maior intensidade de dependência. assim como com relação ao gênero: os meninos começavam a beber fora de casa e com amigos mais precocemente.10 e 18 anos. Os autores também descrevem o efeito de "loops". a potencialidade de que retroalimentações possam acontecer entre uso de drogas pelos pares e o uso pessoal de drogas: adolescentes que estão usando drogas têm mais chance de estarem associados a pares que usam drogas e. por sua vez. No que compete à situação familiar. ou seja. gerando uma pressão de grupo na direção do uso. atitudes permissivas dos pais .5 vezes a probabilidade destes indivíduos se tornarem dependentes de drogas e a defasagem escolar. identificaram que a classe social média-baixa aumentava em 3. de no mínimo um ano. calor humano e performance escolar dos pares também podem ser um importante elemento na prevenção do uso de drogas.

em situações de maior risco. envolvendo-se. Gordon e Cohen15. os mais potentes preditores de uso freqüente de drogas são as variáveis relacionadas a um estilo de vida não convencional. Déficit de Atenção com Hiperatividade e Ansiedade14. seja por especificidades existenciais desta etapa da vida. dado de extrema importância ao sabermos que os comportamentos de risco. por exemplo. O adolescente acredita estar magicamente protegido de acidentes. pois a prevalência de acidentes automobilísticos fatais associados com álcool. pois expressam características próprias desta etapa. Dentre os dependentes de drogas. sendo as mais freqüentes o Transtorno de Conduta. incapacidade de controle dos filhos pelos pais. Este comportamento é mais característico de adolescentes do que adultos. Estima-se que 18% dos adolescentes norte-americanos com idade entre 16 e 20 anos dirijam alcoolizados. Depressão. Segundo Brook. seja por questões neuroquímicas deste momento do amadurecimento cerebral. estima-se que entre 30 e 80% tenham alguma outra comorbidade. como o desafio a regras e à onipotência. Os prejuízos decorrentes do uso de álcool em um adolescente são diferentes dos prejuízos evidenciados em um adulto. Sabe-se. Impacto do uso de álcool em adolescentes O uso problemático de álcool por adolescentes está associado a uma série de prejuízos no desenvolvimento da própria adolescência e em seus resultados posteriores. dentre elas a busca de sensações. por exemplo. entre jovens de 16 a 20 anos. respondem por 29% das mortes de adolescentes. Whiteman. Abaixo. que os acidentes automobilísticos são a principal causa de morte entre jovens dos 16 aos 20 anos16. Alguns riscos são mais freqüentes nesta etapa do desenvolvimento. indisciplina e uso de drogas pelos irmãos são todos fatores predisponentes à maior iniciação ou continuação de uso de drogas por parte dos adolescentes12. é mais do que o dobro da prevalência encontrada nos maiores de 21 anos17. Outro ponto de estudo na etiopatogenia do abuso de substâncias é o impacto de uma predisposição co-mórbida psiquiátrica no desenvolvimento do uso de drogas por adolescentes. como será detalhado. por muitas vezes com conseqüências mais graves. rebeldia.perante o uso de drogas. como os que resultam em acidentes automobilísticos. Em recente estudo realizado na . e também se sente mais autônomo na transgressão. alguns prejuízos associados à intoxicação e ao beber regularmente nesta fase: 1) O uso de álcool por menores de idade está mais associado à morte do que todas as substâncias psicoativas ilícitas em conjunto. tolerância a comportamentos desviantes e baixa escolaridade. assim.

2) Estar alcoolizado aumenta a chance de violência sexual. maconha e comportamentos sexuais de risco – como início precoce de atividade sexual. Da mesma forma. interferindo na elaboração do juízo crítico (Sen. consumo e abuso de substâncias psicoativas.fronteira EUA/México. por sua vez. 2002). A ligação entre sexo desprotegido e uso de álcool parece ser afetada pela quantidade de álcool consumida. pode diminuir a auto-estima do jovem. Assim. o que representa um conhecido fator de risco para maior envolvimento com experimentação. em comparação a adolescentes sem dependência alcoólica22. e maior exposição à gravidez20. o consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes mostrou-se associado com dirigir alcoolizado (OR=5. 4) A percepção que o adolescente tem sobre os problemas decorrentes do consumo de álcool não acompanha. outros "freios sociais" presentes entre os adultos . como ao vírus HIV. o adolescente envolve-se mais em atividades sexuais sem proteção. Além disso. 1998). Da mesma forma. Esses podem decorrer do déficit de memória: adolescentes com dependência de álcool apresentam mais dificuldade em recordar palavras e desenhos geométricos simples após um intervalo de 10 minutos. ao invés de motivá-lo a diminuir ou interromper o uso. a hierarquia dos prejuízos considerados mais graves. 3) O consumo de álcool na adolescência também está associado a uma série de prejuízos acadêmicos18. pagamento por sexo e prostituição21. Apenas 20% descrevem o ato de dirigir alcoolizado como um dos problemas decorrentes.39) e com pegar carona com motorista alcoolizado (OR=3. com maior exposição às doenças sexualmente transmissíveis. tanto para o agressor quando para a vítima19. A queda no rendimento escolar. por exemplo. a conseqüência do uso abusivo de álcool para o adolescente poderia levá-lo a aumentar o consumo em uma cadeia de retroalimentação. Sabe-se.12)18. 33% destes adolescentes queixam-se de prejuízo no pensamento. Dados nacionais apontam para uma associação entre uso de álcool. que 50% dos jovens que bebem regularmente apontam como a principal conseqüência negativa o fato de terem se comportado de uma forma imprópria durante ou após o consumo. Sabendo-se que a memória é função fundamental no processo de aprendizagem e que esta se altera com o consumo de álcool. é natural que este também comprometa o processo de aprendizagem. necessariamente. estando intoxicado. em contraste com o fato de os acidentes automobilísticos com motorista alcoolizado serem a principal causa de mortes nesta faixa etária (SAMHSA. não uso de preservativos.

uma série de habilidades que o adolescente necessita desenvolver e que são mediadas por este circuito – como o aprendizado de regras e tarefas focalizadas – ficarão prejudicadas. O uso de álcool na adolescência pode ser apenas um marcador do uso de álcool na idade adulta ou.(problemas familiares. É importante destacar que. pois demonstram haver um efeito cerebral conseqüente ao consumo de álcool em adolescentes. durante a adolescência. já que um adolescente ainda está se estruturando em termos biológicos. quando comparados com os adultos. como na memória22. Abaixo. perda de emprego. é afetado pelo uso de álcool por adolescentes. Outros danos cerebrais incluem modificações no sistema dopaminérgico. apresentando-se com menor volume em usuários de álcool do que em controles e tendo sua característica funcional afetada pela idade de início do uso de álcool e pela duração do transtorno. A manutenção do consumo em idade adulta pode ocorrer por diferentes fatores. O hipocampo. sendo um dos principais preditores de uso de álcool nesta etapa da vida23. Alterações nestes sistemas acarretam efeitos significativos em termos comportamentais e emocionais em adolescentes24. Mesmo . o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. Esta seria uma possível explicação para jovens evoluírem mais rapidamente do abuso para a dependência. O adolescente ainda está construindo a sua identidade. Os prejuízos associados ao uso de álcool estendem-se ao longo da vida. prejuízo financeiro) – e que muitas vezes são vistos como alertas para a diminuição do consumo – estão ausentes entre os adolescentes. ainda em desenvolvimento na adolescência. Estes dados são importantes. os efeitos ocorrem em áreas cerebrais ainda em desenvolvimento e associadas a habilidades cognitivocomportamentais que deveriam iniciar ou se firmar na adolescência. Os seus efeitos repercutem na neuroquímica cerebral. como nas vias do córtex pré-frontal e do sistema límbico. pode interferir na neuroquímica cerebral. pessoais e emocionais. sociais. em pior ajustamento social e no retardo do desenvolvimento de suas habilidades. então. 2) O uso de álcool em adolescentes está associado a uma série de prejuízos neuropsicológicos. associado à memória e ao aprendizado. alguns dos efeitos do uso de álcool na adolescência ao longo da vida: 1) O uso de álcool na adolescência expõe o indivíduo a um maior risco de dependência química na idade adulta. Como ele pode ser afetado pelo uso de álcool.

por exemplo. o consumo de álcool por adolescentes ainda tem elementos controversos para sua compreensão. Vários adolescentes costumam. dependendo do ângulo em que o fenômeno seja observado: para a mídia e para os pares. dificuldades de aprendizado. independentemente das forças em questão. além de aumentar a chance de envolvimento em acidentes. Os profissionais que lidam com adolescentes devem estar preparados para uma avaliação adequada quanto ao possível .sem um diagnóstico de abuso ou dependência de álcool. ele é combatido. o uso de álcool nesta faixa etária paradoxalmente ainda é combatido e valorizado. Neste embate entre forças freqüentemente desiguais. sendo que a idade de início de uso tem sido cada vez menor. O uso de álcool por adolescentes está fortemente associado à morte violenta. associar o lazer ao consumo de álcool. Para tanto. um ponto é inquestionável no que compete ao consumo de álcool por adolescentes: quanto mais precoce o início de uso. O uso de álcool na adolescência está associado a uma série de comportamentos de risco. quando este não se encontra disponível. comportamentais e na estrutura de desenvolvimento da personalidade do jovem. o consumo de álcool é favorecido. Assim. ou só conseguem tomar iniciativas em experiências afetivas e sexuais se beberem. Os profissionais que lidam com este tema devem estar atentos a esta questão. O consumo de álcool causa modificações neuroquímicas. Entretanto. prejuízo no desenvolvimento e estruturação das habilidades cognitivo-comportamentais e emocionais do jovem. aumentando o risco de dependência futura. Para a lei e para os programas de saúde pública. RESUMO O álcool é a substância mais consumida entre os jovens. como que navegando entre marés com correntezas opostas. Conclusão Como se procurou demonstrar ao longo deste artigo. sentem-se incapazes de desempenhar estas atividades. encontra-se um indivíduo com a personalidade em formação. violência sexual e participação em gangues. aprendem a desenvolver habilidades apenas possíveis com o uso de álcool e. devem conhecer as particularidades da adolescência e da dependência química nesta faixa etária. aprendizado e controle dos impulsos. evidenciando uma outra forma de dependência. maior o risco de surgirem conseqüências graves. queda no desempenho escolar. com prejuízos na memória. pode se prejudicar com o seu consumo. Apesar de trazer claras conseqüências orgânicas. à medida que se habitua a passar por uma série de situações apenas sob efeito de álcool.

Mais ainda. o CONAR define uma série de regras e parâmetros restritivos à propaganda de bebidas alcoólicas visando à exclusão de imagens voltadas para menores. Pinsky e Silva1. Atualmente. Ao mesmo tempo em que a lei brasileira define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos (Lei nº 9. qualquer tipo de mensagem consistente quanto ao consumo moderado das bebidas anunciadas. é fundamental que os profissionais conheçam as características da adolescência e as particularidades da dependência química nesta faixa etária. é prática comum o consumo de álcool pelos jovens – seja no ambiente domiciliar. maior do que a freqüência de comerciais sobre outros produtos. ou mesmo em ambientes públicos. existe um movimento na direção do consumo responsável de álcool. Em resolução divulgada em outubro de 2003. de 15 de julho de 1996). naturalmente. em festividades. Entretanto. Introdução O uso de álcool entre adolescentes é. o website da Companhia Brasileira de Bebidas – AMBEV. um tema controverso no meio social e acadêmico brasileiro. Descritivos: Bebidas alcoólicas. Saúde dos adolescentes. Além disso. estudando comerciais de bebidas alcoólicas. dos cinco temas mais freqüentemente encontrados nos comerciais de bebidas alcoólicas. à época. não havia. Transtornos relacionados ao uso do álcool. Assim.uso abusivo ou dependência de álcool nesta faixa etária. mas é tipicamente permissiva ao estímulo do consumo por meio da propaganda. é importante destacar que os critérios empregados por alguns instrumentos para o diagnóstico de abuso e dependência de álcool foram desenvolvidos para adultos e devem ser aplicados com ressalvas para adolescentes. como indica. condena o abuso de álcool pelos jovens. vetando a utilização de pessoas de menos de 25 anos nos comerciais. camaradagem e humor) eram diretamente relacionáveis às expectativas dos jovens. das mensagens que o CONAR resolve que deverão fazer parte obrigatória . três deles (como relaxamento. como bebidas não alcoólicas.294. demonstraram que a freqüência destes era. Abuso de sustância. medicamentos ou cigarros. A sociedade como um todo adota atitudes paradoxais frente ao tema: por um lado. dentre outras. em média. Mesmo assim. por exemplo. ou mesmo de iniciativas do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – CONAR – quanto à regulamentação de propaganda voltada para jovens. com campanhas na mídia associando o consumo de álcool com moderação ou com prevenção de acidentes.

realizados nos EUA. contribuindo para a precocidade da exposição de jovens ao consumo abusivo. tipicamente sugestionável e plástica como a de um adolescente. Este artigo tem como finalidade descrever aspectos epidemiológicos. etiopatogênicos e diagnósticos associados ao consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes. Problemas relacionados a diagnóstico e classificação Um dos primeiros obstáculos relacionados ao tema do uso problemático de álcool entre adolescentes é a própria definição do que é o uso normal. mesmo havendo maior controle sobre o consumo de álcool dentro de ambientes com grande concentração de jovens (escolas e universidades. apenas uma é explicitamente voltada a informar que o consumo não se destina a crianças ou adolescentes ("ESTE PRODUTO É DESTINADO A ADULTOS"). No que compete ao controle do consumo. Em artigo recente. Os sistemas classificatórios apresentam discordâncias e necessidades de aprimoramento bastante comentadas na literatura. por exemplo). favorecendo o menor controle sobre o consumo de álcool por menores de idade. confirmam a impressão leiga de que a maioria dos estabelecimentos comerciais vende bebidas alcoólicas para indivíduos menores de 21 anos sem solicitação de verificação da idade2. informando sobre os danos causados pelo uso abusivo daquela substância. No entanto. mais da metade dos estados americanos permite a entrega domiciliar de bebidas alcoólicas vendidas por telefone – o que não é diferente da realidade brasileira –. o paradoxo de posição da sociedade e a falta de firmeza no cumprimento de leis são um caldo de cultura ideal para a experimentação tanto de drogas como de álcool. versus a tarja governamental.das cláusulas de advertência nos comerciais. Outro achado preocupante mencionado pelos autores é o de que. esta desproporção é visível na comparação entre as belas imagens produzidas na mídia. Saffer3. visando orientar o profissional não especialista no manejo destas difíceis questões. E. não beber e dirigir. que ocupam a grande parte de um comercial. e beber com moderação. Para uma mente em desenvolvimento. é sabida a desproporção entre este esforço versus o gigantesco impacto da propaganda sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens. . ao discutir mitos culturais e símbolos utilizados em propaganda sobre álcool. de certa forma. As demais fazem menção a restringir o abuso. conclui que a mídia efetivamente influencia o consumo. sóbria e obrigatória. estudos recentes.

que a maioria dos adolescentes que experimentam uma substância de abuso não se tornará um usuário regular da mesma5. dependência e recuperação. ver Martin e Winters. o adolescente deveria apresentar. sobretudo. Também. mas sim uma seqüência composta por sintomas de ambos diagnósticos desde estágios mais iniciais. os principais diagnósticos seriam de abuso e de dependência. talvez mais parecida ao que propõe . ao longo de um ano. entretanto. como um pior desempenho escolar por estar sofrendo dos efeitos posteriores a um abuso de álcool. tanto para o abuso quanto para a dependência (para uma revisão. O seu uso. uso experimental/recreacional (em geral limitado ao álcool). um dentre quatro sintomas ancorados. por exemplo. O DSM-IV apresenta uma série de vantagens. para uma doença de desenvolvimento lento como o alcoolismo. como a listagem de critérios operacionais claros. requer cautela. do DSM6. no qual o jovem percorre outras experimentações. Esta classificação é interessante. O que significa dizer que. Não há critérios para crianças e adolescentes distintos de critérios para adultos. 1998). porém. pois contempla características da adolescência: a experimentação de SPA. como a da sexualidade. ao longo de um ano. três dentre sete sintomas que não se sobrepõem aos sintomas de abuso. Sabe-se. pode ser considerada uma conduta normal neste período de desenvolvimento. Para o diagnóstico de dependência.De acordo com a American Academy of Pediatrics4. clinicamente. Também há uma série de outras ressalvas. como já ocorre. mas a resposta física ao álcool difere de acordo com a etapa do desenvolvimento. apesar de algum prejuízo social. por vários motivos. abuso inicial. esta classificação permite o diagnóstico de abuso inicial quando pequenos prejuízos começam a emergir. seria improvável que estes elementos – em particular os sintomas de abstinência – já se encontrassem evidentes com poucos anos de uso na adolescência. A maioria dos instrumentos para avaliação de uso de SPA deriva. no uso recorrente da substância. Para o diagnóstico de abuso. abuso. Por este sistema. haveria seis estágios no envolvimento do adolescente com SPA: abstinência. Ao menos dois dos sete sintomas de dependência são de base predominantemente biológica (tolerância e abstinência). o adolescente precisaria apresentar. para a distinção entre Transtorno de Conduta e Personalidade Anti-Social. Além disso. por exemplo. dentro de certos padrões. há dados que sugerem que a evolução da dependência de álcool em adolescentes não segue a transição de abuso para dependência do DSM-IV. pessoal ou legal.

2 e 9. consumo regular. Analisando-se os dados de acordo com a região brasileira. estes estão de acordo com a literatura internacional. no sentido de a dependência química ser o problema de saúde mental mais prevalente entre adolescentes. o profissional tenha conhecimento sobre a adolescência e sobre as particularidades da dependência química nesta etapa da vida. em um segundo estágio.4% de usuários de álcool. e uso continuado. Considerandose o uso na vida. a prevalência de dependência de álcool foi 5.3% entre jovens de 12 a 17 anos. Apesar da relativa escassez de dados nacionais. como será detalhado adiante. a Ciência e a Cultura (UNESCO) (2002). Primeiramente. de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação. Os dados brasileiros são mais escassos e indicam haver características regionais quanto ao uso de álcool e outras SPA. Não há sustentação para simplesmente transpor o modelo de adultos para esta faixa etária. haveria três sintomas de dependência (tolerância. caracterizado pelos sintomas físicos de abstinência8. de acordo com o I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (2001).2%. encontramos a maior prevalência de uso na vida de álcool na região Sul (54. parece-nos fundamental que. Com base nestes dados. a cidade de Porto Alegre. lidera o ranking dos usuários regulares de SPA lícitas e ilícitas. Entretanto. para avaliar o uso de álcool entre adolescentes sobretudo no intuito de diagnosticar alguma patologia –. Fatores de risco para o uso de álcool em adolescentes . a prevalência é de 48.a American Academy of Pediatrics. Neste estudo. beber mais tempo ou quantia maior do que o desejado e muito tempo em torno de álcool) e dois de abuso (prejuízos pessoais e sociais). em 107 grandes cidades brasileiras.5%) e maior prevalência de dependência de álcool nas regiões Norte e Nordeste (9. abuso e dependência de álcool entre os adolescentes Os estudos epidemiológicos sugerem que 19% dos adolescentes norte-americanos apresentam abuso de álcool9. com o álcool em primeiro lugar. RS. com 14. por fim. haveria três sintomas de dependência (tentativas frustradas ou desejos de diminuir ou interromper o consumo. escassez do repertório. um terceiro estágio. ainda na análise das 107 cidades em conjunto e para esta mesma faixa etária.3%. A situação do problema: prevalência de experimentação. apesar de problemas físicos ou emocionais) e dois de abuso (uso em situações com risco físico e problemas legais) e. respectivamente). Estes dados tornam-se mais alarmantes à medida que consideramos o forte impacto negativo do uso regular de álcool na adolescência.

chegando a quase 100% na idade de 18 anos.5 vezes a probabilidade destes indivíduos se tornarem dependentes de drogas e a defasagem escolar. essa associação. local de consumo e volume de etanol ingerido de acordo com a idade dos entrevistados. Em um levantamento realizado com uma amostra de adolescentes representativa da população de Porto Alegre. Ao mesmo tempo. se o álcool é facilmente obtenível e fartamente propagandeado. identificaram que a classe social média-baixa aumentava em 3. aumentava em 4.O álcool é uma das substâncias psicoativas mais precocemente consumidas pelos jovens. a potencialidade de que retroalimentações possam acontecer entre uso de drogas pelos pares e o uso pessoal de drogas: adolescentes que estão usando drogas têm mais chance de estarem associados a pares que usam drogas e. mantendo o hábito de consumo familiar e doméstico por mais tempo. Um dos achados importantes do estudo foi o de que havia mudanças na forma. Os autores também descrevem o efeito de "loops". nacionais e estrangeiros. de no mínimo um ano. gerando uma pressão de grupo na direção do uso. Alguns deles se encontram abaixo: 1) A experimentação inicial se dá pelo fato de o adolescente ter amigos que usam drogas. 2) Elementos relacionados à estrutura de vida do adolescente desencadeiam um papel fundamental na gênese da dependência de drogas. Pechansky e Barros11 coletaram dados de 950 jovens entre 10 e 18 anos. enquanto as meninas eram mais conservadoras. ou seja. Genericamente. Os achados indicavam ser freqüente (71%) a experimentação das bebidas alcoólicas mais comuns na faixa etária estudada. há informações consistentes sobre elementos que influenciam o início ou mantêm o uso de substâncias por parte dos adolescentes.4 vezes a chance destes desenvolverem uma dependência grave. isto se reflete em seu consumo precoce e disseminado. calor humano e performance escolar dos pares também podem ser um importante elemento na prevenção do uso de drogas. aumenta a chance de que eles mantenham ou incrementem o seu envolvimento com drogas. assim como com relação ao gênero: os meninos começavam a beber fora de casa e com amigos mais precocemente. De Micheli e Formigoni13. Brook e Brook12 ressaltam que valores. por sua vez. a presença somente da mãe no domicílio do . Diferentes estudos. estudando uma amostra de 213 adolescentes brasileiros classificados em três grupos de intensidade crescente de abuso/dependência. sistematicamente confirmam a impressão genérica de que. No que compete à situação familiar.

Alguns riscos são mais freqüentes nesta etapa do desenvolvimento. alguns prejuízos associados à intoxicação e ao beber regularmente nesta fase: 1) O uso de álcool por menores de idade está mais associado à morte do que todas as substâncias psicoativas ilícitas em conjunto. conseqüentemente. pois expressam características próprias desta etapa. e também se sente mais autônomo na transgressão. estima-se que entre 30 e 80% tenham alguma outra comorbidade. como o desafio a regras e à onipotência. Segundo Brook. tolerância a comportamentos desviantes e baixa escolaridade. na sua relação com álcool e outras drogas. O adolescente acredita estar magicamente protegido de acidentes. Gordon e Cohen15. incapacidade de controle dos filhos pelos pais. Outro ponto de estudo na etiopatogenia do abuso de substâncias é o impacto de uma predisposição co-mórbida psiquiátrica no desenvolvimento do uso de drogas por adolescentes. assim. seja por especificidades existenciais desta etapa da vida. Abaixo. atitudes permissivas dos pais perante o uso de drogas. quando comparado com adolescentes que viviam com ambos os pais. envolvendo-se. por exemplo. todo o corolário de trauma familiar. rebeldia. Os prejuízos decorrentes do uso de álcool em um adolescente são diferentes dos prejuízos evidenciados em um adulto. O papel dos pais e do ambiente familiar é marcante no desenvolvimento do adolescente e. Sabe-se. seja por questões neuroquímicas deste momento do amadurecimento cerebral. Depressão. em situações de maior risco. Déficit de Atenção com Hiperatividade e Ansiedade14. uso de drogas pelos próprios pais. indisciplina e uso de drogas pelos irmãos são todos fatores predisponentes à maior iniciação ou continuação de uso de drogas por parte dos adolescentes12. dentre elas a busca de sensações. por exemplo. separação.adolescente estava associada a um aumento de 22 vezes na chance deste ser dependente de drogas. Dentre os dependentes de drogas. sendo as mais freqüentes o Transtorno de Conduta. Whiteman. Corroborando estes achados. Impacto do uso de álcool em adolescentes O uso problemático de álcool por adolescentes está associado a uma série de prejuízos no desenvolvimento da própria adolescência e em seus resultados posteriores. brigas e agressões estavam francamente associados ao grupo de adolescentes com maior intensidade de dependência. Falta de suporte parental. os mais potentes preditores de uso freqüente de drogas são as variáveis relacionadas a um estilo de vida não convencional. por muitas vezes com conseqüências mais graves. que os acidentes automobilísticos são a principal causa de morte entre jovens . como será detalhado.

Estima-se que 18% dos adolescentes norte-americanos com idade entre 16 e 20 anos dirijam alcoolizados. pode diminuir a auto-estima do jovem.39) e com pegar carona com motorista alcoolizado (OR=3. Esses podem decorrer do déficit de memória: adolescentes com dependência de álcool apresentam mais dificuldade em recordar palavras e desenhos geométricos simples após um intervalo de 10 minutos. a hierarquia dos prejuízos considerados . necessariamente. Dados nacionais apontam para uma associação entre uso de álcool. 2) Estar alcoolizado aumenta a chance de violência sexual.dos 16 aos 20 anos16. 4) A percepção que o adolescente tem sobre os problemas decorrentes do consumo de álcool não acompanha. respondem por 29% das mortes de adolescentes. A ligação entre sexo desprotegido e uso de álcool parece ser afetada pela quantidade de álcool consumida. Este comportamento é mais característico de adolescentes do que adultos. interferindo na elaboração do juízo crítico (Sen. a conseqüência do uso abusivo de álcool para o adolescente poderia levá-lo a aumentar o consumo em uma cadeia de retroalimentação. é natural que este também comprometa o processo de aprendizagem. Da mesma forma. consumo e abuso de substâncias psicoativas. Assim. não uso de preservativos. ao invés de motivá-lo a diminuir ou interromper o uso. e maior exposição à gravidez20. maconha e comportamentos sexuais de risco – como início precoce de atividade sexual. por sua vez. com maior exposição às doenças sexualmente transmissíveis. estando intoxicado. pois a prevalência de acidentes automobilísticos fatais associados com álcool. o adolescente envolve-se mais em atividades sexuais sem proteção. A queda no rendimento escolar. como ao vírus HIV. 3) O consumo de álcool na adolescência também está associado a uma série de prejuízos acadêmicos18. tanto para o agressor quando para a vítima19. dado de extrema importância ao sabermos que os comportamentos de risco. em comparação a adolescentes sem dependência alcoólica22. pagamento por sexo e prostituição21. 2002). o consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes mostrou-se associado com dirigir alcoolizado (OR=5. como os que resultam em acidentes automobilísticos. entre jovens de 16 a 20 anos. é mais do que o dobro da prevalência encontrada nos maiores de 21 anos17. Sabendo-se que a memória é função fundamental no processo de aprendizagem e que esta se altera com o consumo de álcool. o que representa um conhecido fator de risco para maior envolvimento com experimentação. Em recente estudo realizado na fronteira EUA/México.12)18.

33% destes adolescentes queixam-se de prejuízo no pensamento. uma série de habilidades que o adolescente necessita desenvolver e que são mediadas por este circuito – como o aprendizado de regras e tarefas focalizadas – ficarão prejudicadas. em contraste com o fato de os acidentes automobilísticos com motorista alcoolizado serem a principal causa de mortes nesta faixa etária (SAMHSA. já que um adolescente ainda está se estruturando em termos biológicos. Alterações nestes sistemas acarretam efeitos significativos em termos comportamentais e emocionais em adolescentes24. como nas vias do córtex pré-frontal e do sistema límbico. apresentando-se com menor volume em usuários de álcool do que em controles e tendo sua característica funcional afetada . pode interferir na neuroquímica cerebral. Outros danos cerebrais incluem modificações no sistema dopaminérgico. Sabe-se. ainda em desenvolvimento na adolescência. é afetado pelo uso de álcool por adolescentes. Como ele pode ser afetado pelo uso de álcool. alguns dos efeitos do uso de álcool na adolescência ao longo da vida: 1) O uso de álcool na adolescência expõe o indivíduo a um maior risco de dependência química na idade adulta. associado à memória e ao aprendizado. que 50% dos jovens que bebem regularmente apontam como a principal conseqüência negativa o fato de terem se comportado de uma forma imprópria durante ou após o consumo. Da mesma forma. É importante destacar que. Apenas 20% descrevem o ato de dirigir alcoolizado como um dos problemas decorrentes. como na memória22. por exemplo. o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento. prejuízo financeiro) – e que muitas vezes são vistos como alertas para a diminuição do consumo – estão ausentes entre os adolescentes. outros "freios sociais" presentes entre os adultos (problemas familiares. pessoais e emocionais. O uso de álcool na adolescência pode ser apenas um marcador do uso de álcool na idade adulta ou. sendo um dos principais preditores de uso de álcool nesta etapa da vida23. Os prejuízos associados ao uso de álcool estendem-se ao longo da vida. sociais. Esta seria uma possível explicação para jovens evoluírem mais rapidamente do abuso para a dependência. perda de emprego. durante a adolescência. 1998). Além disso. O hipocampo. Os seus efeitos repercutem na neuroquímica cerebral. então. quando comparados com os adultos. em pior ajustamento social e no retardo do desenvolvimento de suas habilidades. A manutenção do consumo em idade adulta pode ocorrer por diferentes fatores. 2) O uso de álcool em adolescentes está associado a uma série de prejuízos neuropsicológicos.mais graves. Abaixo.

Para a lei e para os programas de saúde pública. como que navegando entre marés com correntezas opostas. O adolescente ainda está construindo a sua identidade.pela idade de início do uso de álcool e pela duração do transtorno. quando este não se encontra disponível. aprendem a desenvolver habilidades apenas possíveis com o uso de álcool e. os efeitos ocorrem em áreas cerebrais ainda em desenvolvimento e associadas a habilidades cognitivocomportamentais que deveriam iniciar ou se firmar na adolescência. . ele é combatido. Para tanto. Campos EA. associar o lazer ao consumo de álcool. maior o risco de surgirem conseqüências graves. à medida que se habitua a passar por uma série de situações apenas sob efeito de álcool. Neste embate entre forças freqüentemente desiguais. pode se prejudicar com o seu consumo. Vários adolescentes costumam. encontra-se um indivíduo com a personalidade em formação. Entretanto. Mesmo sem um diagnóstico de abuso ou dependência de álcool. devem conhecer as particularidades da adolescência e da dependência química nesta faixa etária. independentemente das forças em questão. o consumo de álcool é favorecido. um ponto é inquestionável no que compete ao consumo de álcool por adolescentes: quanto mais precoce o início de uso. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. Referencia: Revista Brasileira de Psicologia ---------------------------------------------------------------------------------------------------------'NOSSO REMÉDIO É A PALAVRA': UMA ETNOGRAFIA SOBRE O MODELO TERAPÊUTICO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Os profissionais que lidam com este tema devem estar atentos a esta questão. Apesar de trazer claras conseqüências orgânicas. Assim. dependendo do ângulo em que o fenômeno seja observado: para a mídia e para os pares. ou só conseguem tomar iniciativas em experiências afetivas e sexuais se beberem. comportamentais e na estrutura de desenvolvimento da personalidade do jovem. por exemplo. sentem-se incapazes de desempenhar estas atividades. Estes dados são importantes. pois demonstram haver um efeito cerebral conseqüente ao consumo de álcool em adolescentes. evidenciando uma outra forma de dependência. o uso de álcool nesta faixa etária paradoxalmente ainda é combatido e valorizado. Conclusão Como se procurou demonstrar ao longo deste artigo. o consumo de álcool por adolescentes ainda tem elementos controversos para sua compreensão.

o álcool e o alcoolismo funcionam como operadores simbólicos a partir dos quais os seus membros constroem um sentido sobre suas experiências. No universo sociocultural dos A. Essas narrativas.A. quando os ex-bebedores narram uns para os outros as suas experiências com o álcool. Sendo assim. as terapias utilizadas para enfrentá-lo também são constructos culturais e precisam ser compreendidas no universo social em que são colocadas em prática. as 12 tradições consolidam o espaço institucional dos A. 192 p. O livro 'Nosso Remédio É a Palavra': Uma Etnografia sobre o Modelo Terapêutico de Alcoólicos Anônimos traz uma importante contribuição para a compreensão do fenômeno do alcoolismo no ponto de vista dos Alcoólicos Anônimos (A. Ele é a edição da Tese de Doutorado de Edemilson Antunes de Campos defendida em 2005.). Nesses eventos comunicativos as pessoas revivem o mito de origem da irmandade expresso nos 12 passos e nas 12 tradições.2010. gestos e palavras de modo a instituir uma cultura de recuperação do alcoolismo. possuem efeito terapêutico por permitir a recuperação e a reordenação da vida social de seus membros. ela se manifestaria igualmente em todas as sociedades.A.A. teve como objeto entender de que maneira o modelo terapêutico dos A. É durante as reuniões dos A. Por isso. ISBN: 978-85-7541-190-2 Ao ser compreendido como um problema de saúde pública.. realizada entre os anos de 2001 e 2002 junto ao Grupo Sapopemba da cidade de São Paulo.. Enquanto os 12 passos formam um conjunto de princípios que contribuem para controlar a compulsão pelo álcool e para construir a identidade de doente alcoólico. as reuniões dos A. Entretanto. A pesquisa etnográfica. institui um processo de fabricação da "pessoa alcoólica" e de reconstrução subjetiva dos seus membros. Se as causas do alcoolismo são múltiplas e determinadas por esses contextos. o alcoolismo é definido pelas ciências biomédicas como uma doença que assola alguns indivíduos que possuem predisposição orgânica para tornarem-se dependentes do álcool. estudos antropológicos demonstram que o alcoolismo assume configurações particulares de acordo com o contexto sociocultural onde ele acontece. Os A. que os sentidos atribuídos ao alcoolismo emergem. são rituais terapêuticos que regulamentam atitudes.A. chamadas de partilhas.A.A. disponibilizam aos seus integrantes uma linguagem .A.

e outra "cultural" ligada aos valores estruturantes do universo social que os seus membros estão inseridos .da doença por meio da qual eles podem falar sobre suas experiências com o álcool. Nesse caso. o modelo terapêutico dos A.A.a "família" e o "trabalho". Para tanto eles operam com o "dispositivo de incorporação da doença como alteridade no próprio corpo". Portanto. propiciaria então um . Aqui. a pessoa necessita se abster do álcool e de todas as coisas a ele associadas: é preciso "evitar o primeiro gole!". Os A.A. o que permite à pessoa internalizar a condição de doente alcoólico e aprender a conviver e a controlar esse "outro" que existe dentro de si. Esse regime contribui para delinear os contornos da pessoa alcoólica e é por meio das partilhas realizadas durante as reuniões que ele é continuamente reafirmado.A. Enquanto doença crônica e fatal. objetivo maior dos A. O alcoolismo tem sua origem no próprio indivíduo que tende a tornar-se dependente das bebidas alcoólicas. mantendo-o sob controle. estabelecendo que cabe ao indivíduo a decisão e a atitude de cuidar de si. mas. Dessa forma.A. Para alcançar a sobriedade. o alcoolismo combina uma predisposição orgânica a uma obsessão mental pelo álcool. Uma das categorias estruturantes dessa linguagem e que orienta as ações dos seus membros é a de doença alcoólica. ele o é por sua recuperação. Ao instaurar esse processo de construção da pessoa alcoólica.. seria informado por duas lógicas distintas: uma "terapêutica" centrada no indivíduo e associada à construção da identidade de doente alcoólico. Ela também constitui uma doença espiritual associada à dimensão moral da pessoa por alterar seus comportamentos e comprometer suas relações familiares e profissionais. A memória coletiva construída a partir da troca estabelecida entre os ex-bebedores os auxilia em sua recuperação ao lembrá-los constantemente da condição de dependentes do álcool compartilhada por eles. que ele precisa do auxilio da irmandade para se recuperar e restabelecer os vínculos sociais perdidos no tempo do alcoolismo ativo. a palavra é o remédio utilizado para que os A. instauram um regime de alteridade baseado na fabricação de um corpo e de um espírito doentes onde o alcoolismo é situado como um "outro" que a pessoa traz consigo. o programa de recuperação dos A. o modelo terapêutico dos A. se o indivíduo não é responsável pela aquisição do alcoolismo.A. se protejam contra o alcoolismo que trazem dentro de si. redimensionaria os valores do individualismo moderno da igualdade e da liberdade.A.

1 Rio de Janeiro Jan.A. que passa a ser entendido como doença.A. O livro escrito por Campos demonstra que para se compreender o alcoolismo é preciso considerar as dimensões culturais e coletivas constitutivas deste fenômeno.27 no. As reuniões da irmandade são eventos comunicativos que possibilitam tanto a emergência da definição do alcoolismo como uma doença crônica e fatal quanto instauram um processo de construção da pessoa alcoólica. A terapêutica também se constitui em um constructo cultural produzido pela irmandade.. estando associada aos sentidos atribuídos ao alcoolismo e ao processo de construção da pessoa alcoólica. para compreendermos a eficácia desse modelo é preciso tanto considerar as relações existentes entre os múltiplos aspectos que conformam a cultura instituída pelos A.uma terapêutica e a outra cultural. Nesse caso. Saúde Pública vol.A. Sendo assim. Referencia: Cad. não opera com duas lógicas distintas .deslocamento simbólico no que se refere tanto à redefinição do sentido do alcoolismo.A. ao informar a linguagem da doença acessada pelos seus membros. 2011 . A análise focada no processo de fabricação da pessoa de modo associado à construção cultural da doença alcoólica contribui para a compreensão situada do modelo terapêutico dos A. gostaria de pontuar tanto o que considero os pontos fortes quanto os que poderiam ter sido melhor dimensionados pelo autor. quanto atentar para o poder simbólico que. Apesar de o livro ser bastante repetitivo. a identidade de doentes alcoólicos e faz da palavra um remédio utilizado no combate ao alcoolismo. Em última instância. instituindo as condições necessárias para a eficácia simbólica do próprio programa de recuperação. opera um modelo de gestão coletiva da saúde. Entretanto. em que os princípios são colocados acima das personalidades. institui a realidade da recuperação. Essa passagem é permitida pela condição de anonimato assumida pelo indivíduo ao ingressar nos A. quanto à posição social ocupada pelo bebedor: de um lugar marginal e estigmatizado para o de doente alcoólico em recuperação. é esse modelo que emerge e se atualiza enquanto um sistema simbólico por meio das palavras proferidas pelos seus membros durante esses eventos comunicativos. a perspectiva adotada por Campos é bastante profícua. de fato. Ao reconhecer que esse modelo está inscrito em um universo sociocultural particular. Nesse contexto. o texto torna claro que ele não se aplica a contextos sociais que operam com noções de pessoas distintas da idéia de indivíduo moderno vigente na sociedade ocidental. o modelo terapêutico dos A.

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Brasil --------------------------------------------------------------------------- . Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro.