Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS

Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS 26 a 29 de abril de 2006

AIDS NA INFÂNCIA: A INFÂNCIA DO SEGREDO
Maria Antonia Pinto Pizarro CEDEDICA – Santo Ângelo/RS mantpizarro@yahoo.com.br Palavras-chave: discurso, segredo, aids. A partir de pesquisa quali-quantitativa, de caráter etnográfico com 08 crianças portadoras de HIV por transmissão vertical, este trabalho discute o papel do segredo na manutenção dos discursos que criam o ‘sujeito-criança-aidético’. A aids surgiu há mais de 20 anos e, apesar do grande volume de informações sobre sua transmissão e tratamento, muito pouco mudou com relação ao pré-conceito que rege a sociedade. O bebê humano é, na natureza, aquele que nasce com um dos maiores graus de dependência de cuidados, em face de sua imaturidade e imperícia no processo de adaptação à vida, sendo um ser dialógico por excelência. Logo, as relações, as práticas sociais e o desenvolvimento humano só podem ser pensados como sendo construídos na inter-relação da biologia e da cultura (BOWLBY, 1981), nascendo nessas relações uma mãe, um pai, uma família, que vem a constituir o primeiro grupo social a que essa criança irá pertencer e onde, dialogicamente, irá atuar transformando seus parceiros e sendo por eles transformada (BRAZELTON, 1988). Essas transformações são diretamente influenciadas por saberes, se anunciando na “finitude do homem,[...] na positividade do saber” (FOUCAULT, 2002). Saberes que contornam e controlam os indivíduos de um determinado grupo social, saberes que estabelecem verdades, que os escravizam quando não se permitem pensar sobre eles e mudar sua conduta se com eles não concordarem. A maneira como as pessoas agem está diretamente relacionada à maneira como pensam, e está maneira de pensar é construída a partir de verdades que são transmitidas pela tradição e educação (FOUCAULT, 2003). Não há como se chegar a um ser adulto sem ser criança, porém, é de fundamental importância compreender como, e o que, esses “mecanismos discursivos acerca da infantilização [...] produzem em termos de mecanismos de poder, vontade de saber e formas de subjetivação, que inflexionam, fortalecem e azeitam a maquinaria da infantilidade” (CORAZZA, 2002, p.80), estabelecendo a norma, numa patologização de toda ‘forma-de-ser-diferente’, localizando a diferença e transformando-a em doença, tornando-a desvio verdadeiro da vida e desvelando a morte como algo concreto que deve ser dissipado, excluído (FOUCAULT, 1993). Com o reconhecimento da necessidade da intervenção dos adultos na formação da criança a prática pedagógica foi-se transformando e, nesse processo de subjetivação e construção do ‘sujeito-criança’, a escola torna-se o local central, onde as práticas discursivas serão utilizadas de forma ampla e contínua, numa pedagogização da infância, governando a infância desde a mais tenra idade, disciplinando, criando corpos dóceis e úteis, atuando no eixo político da individualização que se torna descendente, normalizando ‘formas-de-ser’ numa microfísica do poder que atua no coletivo a partir do individual, inventando a infância e subjetivando os infantis (FOUCAULT, 2003a).

alinhar. 2000. calando a verdade de sua história.54). foi e é transformada a cada dia.13). as formas do dever que se impõem como óbvias e indubitáveis” (LAROSSA. A palavra segredo deriva do latim secretu. separado. como alternativa de representar. uma vez que a necessidade de guardar o segredo constitui-se um fardo muito pesado para a criança. estando sempre em construção. estigmatizada. a partir do modelo idealizado. segregada e excluída de muitas oportunidades. pré-determinada em cada um de nós como uma matriz genética. espaço de socialização. do grupo social. logo. de “monstros” que põem em perigo a segurança das verdades que governam aqueles grupos sociais. a partir de como imaginamos ser vistos pelos outros (2003).97-148). p. O monstro é aquele que expõem a fragilidade do sistema da norma. p.84). marcada. salientando a necessidade de se auxiliar as famílias a modular suas atitudes frente à decisão de revelar o diagnóstico. a fresta que se cria entre o ‘normal’ e o que resiste na sua diferença. Logo. o outro. de ser tratado como qualquer outra criança. porém. se a criança vive dentro de uma realidade fictícia. que julga e exclui é construído em momentos diferentes da história. é o que não se rotula. “exige um repensar radical da fronteira e da normalidade” (COHEN. constrói uma percepção de si não verdadeira. ela é uma criança-aidética. todos os componentes que caracterizam o indivíduo. Esse préconceito. 2002. Ameaça à liberdade de conviver. aquilo que não pode ser revelado. uma falsa identidade com a qual a criança de identifica. aquele que habita a fenda. viver num regime de segredo é viver numa condição de estar separado daquilo que não se é capaz de aceitar como parte de si. p. na verdade reforça a postura discriminatória que pode levar a uma autoexclusão quando não se enfrenta a realidade discursiva que rege a sociedade. nos afastamos da perspectiva essencialista da identidade cultural. Essa mentira piedosa. O preconceito leva a posturas de discriminação que expulsam o novo. assim como para seus irmãos e familiares (1993. de convivência. Somos as fronteiras de nosso preconceito e “os preconceitos são os tópicos da moral. . afastado. não excludente. Utilizando o conceito de identidade de Stuart Hall. não se identifica dentro dos padrões de uma sociedade hierarquizada. ou de alguma forma. mas refere-se sempre ao mesmo tema: a escolha diversa. criando para a criança uma identidade patológica diversa.Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS 26 a 29 de abril de 2006 Em nossa sociedade uma criança portadora de HIV não é apenas uma criança portadora de uma doença crônica para a qual ainda não se tem uma cura estabelecida. é negar aquilo que fere. ibiddem. vindo a discriminação pela condição aidética. que identifica. Afirma Mansour que a questão do segredo tem-se apresentado central nas discussões sobre os aspectos psicológicos da aids na criança e na vida familiar. “é o que e situa no limiar do tornar-se” (ibid. macula o ideal de ser. o diferente. o que todo mundo valoriza igualmente. que visa proteger a criança. Oportunidades como pertencer à escola. pois uma vez diferente. O reconhecimento do diferente como “portadores de doenças” ou “de grupos de risco”. é aquele que revela o fracasso do ‘modo-de-ser-pré-determinado’. algo como uma imagem. construído a partir da herança familiar. onde o preconceito gerado pela ignorância ainda é percebido como ameaça. entendendo que nenhuma identidade é capaz de reunir. fundante e constituidora. A idéia de um Eu indivisível. imutável. estável e estático. p. Encontramos nas entrevistas com as crianças a realidade do segredo como possibilidade de vida. A possibilidade de ser identificado e excluído leva muitos pais ao estabelecimento do segredo com relação à real patologia.

COHEN. Paris: Editions Odile Jacob. SIDA.. (1981). T. (2002). IN: Chevallier. p132-133). que se reconhecem na sua condição ‘aidética’ por serem desacreditadas e descaracterizadas de sua condição humana. 1999. (2000). (2003). (1999). Sylvie. Belo Horizonte: Autêntica. mas de outra maneira [. Um merveilleux malheur. (1988). criança. MANSOUR. Petrópolis: Vozes. é experimentar ainda uma vez mais. Infância e educação – era uma vez. portador de HIV ou de outra patologia. (2003a).Quer que conte outra vez? Petrópolis: Vozes. 97-148. _________________. (org. BRAZELTON. imersos nos sistemas de representação. a possibilidade de partilhar um segredo é a possibilidade de se ‘reapresentar’. Berry. Enfrentar a ordem discursiva que cria ‘verdades’ sobre a aids é fundamental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS: BOWLBY. Petrópolis: Vozes. O sujeito da Educação. (2002). A ordem do discurso. Lês retentissements psychologiques de l’infection à l’VIH sur l’enfant et sa familie. conscientes de que nenhum olhar é inocente. T. Os estereótipos criados pelo pré-conceito. Tecnologias do Eu e Educação. (2002). Falar. pois estamos todos.). o segredo só alimenta o preconceito pois reforça a alienação e a ignorância sobre a doença. São Paulo: Martins Fontes. (1993).. enfant. Michel.Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo/RS 26 a 29 de abril de 2006 Para uma criança portadora de HIV. sem a necessidade de esconder ‘algo-de-si’ que a põem em risco. e trad. Stuart. p. amar. (2003). CORAZZA. (ccord. In: Silva. In: Silva. . LAROSSA. E. só auxilia a sociedade que se vê poupada das mudanças necessárias no processo de inclusão de todo e qualquer diferente. Para o paciente. Mudar o olhar. Rio de Janeiro: DP&A Editora. As palavras e as coisas. famille – l’implications de l’infection à VIH pour l’enfant et la famille. Porto Alegre: Artes Médicas. e sempre. HALL. de ser conhecida por aqueles com quem convive como se vê. Jorge. A pedagogia dos monstros – os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Para qualquer criança “falar as coisas. A cultura dos monstros. Essa consciência que é produzida por meio do ato de nomeação cria identidades parciais. _________________. CYRULNK. a forma de pensar é a possibilidade de nos aceitar como somos e aceitar o outro como ele é.).. FOUCAULT. São Paulo: Martins Fontes. A identidade cultural na pós-modernidade. O desenvolvimento do apego – uma família em formação. São Paulo: Edições Loyola. como qualquer outra criança. Jeffrey. fruto de muita ignorância e falsos moralismos estabelecem identidades perversas que induzem a sociedade a criar ‘soluções’ para as representações que ela própria criou. _________________. John. que desde seu nascimento convive com essa ‘identidade’. Vigiar e punir.]A confidencia tece um laço afetivo que explica a intensidade do vínculo que se segue (tradução livre) (Cyrulnik. Sandra. sentir. France: Centre International de l’enfance. olhar. de ser excluída. Cuidados maternos e saúde mental.. (1993). Boris. História da loucura. São Paulo: Perspectiva. Paris. risco de ser nomeada.

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