QUEM É IMPERATRIZENSE, AFINAL?

Adalberto Franklin Fui hoje indagado por uma acadêmica em fase de elaboração de seu trabalho de conclusão de curso que queria minha delimitação sobre o que é “literatura imperatrizense”. À primeira vista, sem maior reflexão, pareceu-me uma pergunta óbvia, merecedora de uma resposta óbvia. Logo, porém, detiveme em responder. Verifiquei que há muitas possibilidades para a resposta. E uma resposta a essa indagação delimita também essa adjetivação em muitas outras áreas, inclusive o uso do próprio gentílico: “imperatrizense”. Ora, quem pode ser chamado “imperatrizense” numa cidade em que mais de 70% dos habitantes com mais de quarenta anos nasceram em outros municípios? Em que a maioria dos seus dirigentes sociais, empresariais e políticos não nasceram aqui? Em que mais da metade dos professores vieram de outras cidades? Em que a maior parte dos artistas, escritores, fazedores culturais são “de fora”? Quem é imperatrizense, então? O que é ser imperatrizense, afinal? Repassando à memória, constatei que dos atuais quarenta membros da Academia Imperatrizense de Letras, apenas cinco nasceram em Imperatriz: Tasso Assunção, Edna Ventura, Jucelino Pereira, José Herênio e Luiz Carlos Porto. E quantos dos hoje vereadores são imperatrizenses de nascimento? Qual o último prefeito nascido aqui? Algum deputado, representante de Imperatriz, nasceu aqui? São, dessa forma, “imperatrizenses” os que comandam a cidade? Podemos afirmar que Imperatriz tem uma cultura “imperatrizense”, uma sociedade “imperatrizense”, uma política “imperatrizense”? O que é, então, “cultura imperatrizense”, “literatura imperatrizense”? O que é “imperatrizense”, quem é “imperatrizense”? Há pouco tempo, um gesto polêmico do poeta Zeca Tocantins deixou chocada muita gente. Nascido em Xambioá, mas vivendo na cidade desde criança, e considerado um dos maiores artistas “imperatrizenses”, membro da Academia de Letras, em protesto contra o “descaso cultural” do poder público municipal, resolveu devolver o título de “Cidadão Imperatrizense” que recebera

em 1999. Deixou ele, entretanto, de ser menos cidadão de Imperatriz do que sempre foi, divulgando e contribuindo com a cultura local e regional? Não é ele mais imperatrizense que os ex-presidentes militares Castelo Branco e Garrastazu Médici e os ex-ministros César Cals e Camilo Calazans, que também têm o título de “Cidadão Imperatrizense”, concedidos pela Câmara Municipal? O que legitima a utilização de um gentílico? A naturalidade, o envolvimento, a colaboração, a inspiração? A música do paraense Neném Bragança, o mais conhecido dos cantores de Imperatriz, identificado como “imperatrizense” por todos os rincões nacionais onde venceu festivais, é menos “imperatrizense” que a de Lena Garcia, originária de uma família que vive no município desde o século XIX? Também eu, que escrevi vários livros sobre a história de Imperatriz, não nasci aqui, apesar de ter chegado criança e ter passado menos de dois meses na minha cidade de origem, contabilizando-se todas as três vezes em que lá estive… me considero tanto imperatrizense quanto os que aqui nasceram. O que dizer de intelectuais literatos como Vito Milesi, que, sequer brasileiro, foi um dos maiores baluartes da educação, da cultura, da literatura e da inteligência de Imperatriz (sem falar sua condição de cidadão assumida com a determinação e a paixão de poucos)? E de um Edmilson Sanches, de um Livado Fregona, de um Ribamar Silva… todos escritores com vida e obra “locadas” em Imperatriz, apesar de provenientes de outras plagas? Inversamente, poderíamos nos perguntar se se pode chamar “imperatrizense” a obra de Regina Sader, uma expoente geógrafa aposentada, ex-professora da USP, que tem uma obra sobre Imperatriz? Ou a do historiador João Renôr, apenas por ser ele membro da Academia Imperatrizense de Letras? É mesmo imperatrizense a obra literária de Manoel de Sousa Lima, primeiro escritor nascido em Imperatriz, em 1889, que somente passou a publicar depois de não mais morar na cidade? Chego à conclusão de que não é um título de cidadania, nem mesmo o registro de nascimento, que criam a “cidadania”, o que dá legitimidade a um gentílico. Creio que este deve ser dado apenas àqueles que tenham participação ou motivação na vida, na cidadania ou na cultura da localidade.

Então,

“literatura

imperatrizense”,

“arte

imperatrizense”,

“música

imperatrizense” são as obras criadas com o sopro, com a inspiração, com o ar, com a motivação das circunstâncias da vida imperatrizense, seja qual for a temática. Sem esse “ar” local, o que justifica essa condição? Basta um livro ter sido escrito ou publicado em Imperatriz para ser “imperatrizense”? Não concebo isso. Neste ano a Ética Editora publicou livros em língua estrangeira, de autores que sequer conhecem o Brasil. E também de autores de outras regiões e estados brasileiros, pessoas que nunca tiveram qualquer relação com esta cidade. Estes também não podem receber esse gentílico. O que é “imperatrizense”? Quem é “imperatrizense”, afinal? A questão está aberta. Publicado em Imperatriz, Língua e Linguagem, Mais Cultura | 12 Comentários »

Fonte: Adalberto Franklin» Arquivo do Blog » Quem é imperatrizense, afinal?
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