I.S.P.A.

– INSTITUTO SUPERIOR DE PSICOLOGIA APLICADA Departamento de Formação Permanente 1º Curso avançado DESENVOLVIMENTO TRANSPESSOAL Consciência e Espiritualidade Outubro de 2010 – Abril de 2011

TRANSCENDENDO A HISTÓRIA PESSOAL: PERCURSOS DO TRAUMA PARA A «CURA»

Maria da Conceição Costa Nobre de Abranches

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Introdução O texto que se segue pretende ser a minha resposta «pessoal» a um desafio duplo. Ele constrói-se, por um lado, em torno da proposta lançada pelo Mestre João da Fonseca, coordenador do curso, para que entregássemos um trabalho final cuja 1ª parte consistiria num «diário de bordo», no qual relataríamos o desenrolar dos sucessivos módulos, e a 2ª no desenvolvimento dum tema à escolha, de entre os expostos ao longo da formação, enquanto, por outro lado, representa a minha vivência, pretérita e actual, do que é o transpessoal e da maneira como esta formação se veio entrelaçar com temas que, pela minha própria experiência, já me eram sobremaneira caros. Assim, a 1ª parte deste trabalho será um registo das minhas impressões dos diferentes módulos, impressões essas que não sei se terão alguma coisa de objectivo, dada a intensidade com que vivi todo o curso. Na 2ª parte, recuperarei o tema de um dos módulos – a psicossíntese – e tentarei abordar, muito brevemente, a problemática da adicção e da recuperação na perspectiva da psicossíntese, enquanto teoria inserida no amplo «movimento» transpessoal.

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I.Vivência da inefabilidade e consequente dificuldade em relatar a experiência 3 . que me fizeram recitar mentalmente o 3º passo vezes sem conta: «decidimos entregar a nossa vontade e as nossas vidas aos cuidados de Deus. antes e durante a escrita dos meus raros poemas. ou já o tive mesmo. Francisco de Assis. de transbordo?) 9 de Outubro de 2010 Enquadramento e compreensão do transpessoal. muitas vezes em silêncio. de Maurice Bucke. A consciência que (quase) não tive até perto dos 50 anos e depois disso o exercício diário da vontade a que a minha nova condição de abstinente. penso eu outra vez. às vezes quando me lembro de imagens da minha infância solitária. também ele diário. na forma em que O concebíamos» e penso que fui sempre conseguindo manter-me em recuperação e continuar em frente). O professor fala do livro «Consciência cósmica». em sentido amplo. só isso para começar.Diário de bordo (ou deveria dizer antes. penso nos tempos mais difíceis que passei. É um módulo com muita informação. E mesmo sem eles. A vontade e a consciência (tudo o que ganhei em recuperação. hoje) . Antes de mais: O transpessoal pressupõe a existência da alma. O credo ocidental.Transcendendo a história pessoal: . Dr. versus a oração de S. Penso no meu «programa» espiritual de doze passos. da vontade de viver. um primeiro contacto que me está a agradar muito. ou self. a espiritualidade é física e mentalmente saudável: dá resiliência (pois dá. Mais o exercício. pelo Prof. às vezes com música. me tem vindo a obrigar. que não tive tempo de copiar. Características da consciência cósmica: . ou eu superior. As práticas transformativas. onde conheci o terror e o maravilhamento. não é tempo. mas que sei que é baseado exclusivamente nas premissas do ego.Sentimento de unidade com todas as coisas (já o vislumbrei. Essa é a verdadeira razão por que estou aqui. que está tintim-por-tintim na contra-capa do livro do Wayne Dyer que por acaso ou não trouxe comigo. toda ela sobre a superação do ego. Acho que é a «Cosmic consciousness» que comprei na rua há 4 ou 5 anos e ainda não tive não. nas conversas com companheiros e na «literatura». que aprendi nas reuniões. Vítor Rodrigues Módulo de informação sobre o que é o transpessoal e a forma como a psicologia transpessoal se insere na história e na dinâmica da psicologia. de recuperar a vida e de a reconstruir). nem dou pela passagem do tempo. vou eu pensando com os meus botões. mas coragem de ler na íntegra .

Às vezes depois do zazen no dojo da Morais Soares era tudo tão real. luz. mas ao mesmo tempo densa e exigente. quem sabe.Sentido do sagrado em relação ao que está a acontecer (as três últimas estão intimamente ligadas naquelas experiências depois do zazen) . luz. porque me parece fundamental e porque sinto a felicidade do re-conhecimento. dar-lhe uma cor e respirá-la. associá-lo a um «coração interno luminoso». Expansão – isto é tudo sobre expansão.Desaparecimento do medo da morte perante a vivência da eternidade da vida. seus sucessos e vicissitudes e outras formas de conhecimento: A poesia (a metáfora). O verde alastrou e tornou-se imenso e depois.Carácter noético. Copiei tudo isto dos meus apontamentos. ir para dentro para sentir o sentimento. Dr. e lembrei-me de o ter sentido numa tarde em que vinha a descer pela estrada (eu moro no cimo dum planalto) e passei por um conjunto de arbustos que tinham florido há pouco tempo e parece que se chamam «grinaldas de noiva». que parecia que eu tinha entrado noutra vida. mas porque não chamar-lhe o devido nome?: transpessoal. já as experimentei nos meus sentidos e na minha mente. não permanentemente.. claro (ai!. a intuição (Jung). De me sentir muito próxima delas. dentro do verde. Exposição muito articulada. é tudo o que existe à minha volta. a impermanência de tudo!). com forte senso de realidade (o «despertar». paralela a esta que conheço) -Transcendência do espaço-tempo . Isto: o curso. intensifiquei-a e expandi-a. depois desta que conheço ou. luz. sim. num amor vibrante como seiva em circulação dentro e fora de mim. senti-me tentada a escrever trans-sensorial (porque começa nos sentidos mas vai muito além deles).explorar o momento sensorialmente. intensificar e expandir – Começou por ser um arbusto muito verde salpicado de flores brancas. A consciência é a totalidade da nossa vida psíquica. a arte. Praticámos depois sobre um exemplo que consistia em começar por procurar um momento no passado de ternura por um ser vivo. Mário Simões Outra vez muita informação. O transpessoal. antes desta que conheço – muitas vezes tive o sentimento de reentrar em «estados de graça» da infância -. a experiência pessoal de cada um. 23 de Outubro de 2010 Potencialidades e fenómenos da consciência. Fechei os olhos e lembrei-me do meu amor de sempre pelas árvores. Respirei a luz branca. tão inacreditavelmente real e presente. porque já vivi estas realidades. a 4 . foi o branco das flores que se concentrou num coração intenso de luz branca. O método científico. pelo Prof. mas já as senti. juntos noutra coisa que não sei o que é mas que está para lá dos sentidos: trans-não sei bem o quê. pelo menos foi o que uma amiga me disse .

o saber. O estudo da consciência Os dados que adquirimos podem ser subjectivos e objectivos. mas o Prof. uma instância que utiliza o cérebro? – ver «O Livro da consciência». Sou toda de metáforas. a sabedoria. Tudo aqui aponta para a transcendência: da razão ordinária. Nem da instância que lhe corresponde em termos pessoais: a consciência ordinária. . e da personalidade. os seus imensos saber e experiência e a simultânea acessibilidade e proximidade de nós. mais a sincronicidade existe. como dizia a Maria Flávia. O que é que foi. «egóica». que é um destilado das outras três e consiste em saber antes de saber (donde que. associada à «bolha» (universo. 5 . não sou nada científica. claro. fundador da logoterapia. Aqui impõe-se-me uma interrupção. trans-pessoal. como lhe chama o Eckart Tolle. embora ele também tenha algo que me fascina. mais o fora e o dentro são equivalentes). Mário Simões. infiro eu.Permanecem em aberto a questão e o debate: a nossa vida psíquica é uma secreção do cérebro ou. plano. mais de seis meses depois de as coisas terem «acontecido».Os EMC. sublinha que o futuro do conhecimento humano está na sabedoria da incerteza (faz-me lembrar o «viver um dia de cada vez» e o «só por hoje» de N. antes. o conhecimento não podem depender exclusivamente do paradigma lógico-racional. A alma? . enquanto meios terapêuticos e de investigação: a sua teorização rompe com vários paradigmas.O entusiasmo contagiante do prof. há sempre um certo grau de imprevisibilidade.). A sincronicidade é a «coincidência» que vem de fora e faz sentido (acrescento eu o que dei comigo a pensar: quanto mais integrada a consciência. Não me faz sentido nenhum tentar fazer um relatório bem comportado. E o milagre da comunicação verdadeiramente eficaz (real e feita com convicção). E o que retenho do que foi dito? . de facto. da lógica. não sei como lhe chamar) da personalidade. do hemisfério esquerdo. de quem li num dos livros do Wayne Dyer (espero não estar a fazer confusão.A. o mais importante para mim? . 13 de Novembro de 2010 Espiritualidade e tradições místicas. Pedro Veiguinha História do movimento transpessoal: dos nomes referidos em relação à «3ª força em psicologia» chamou-me a atenção o nome de Vítor Frankl. com a razão e com a intuição. muito mais do que o método científico. pelo Dr.A decisão certa é fruto da conjugação da sensação com a emoção.experiência subjectiva (e eu penso que todas estas formas me são bem familiares. do António Damásio. Ok. Mas não. de analogias). acho que não) que esteve num campo de concentração nazi e chegava a ver beleza numa cabeça de peixe a boiar numa mistela aquosa que passava por sopa. Daí.

induzidos por drogas e meditação» e recuo. recuo. recuo até aos meus 17 anos (que foram há precisamente 40) e às minhas experiências com drogas: a marijuana. Pedro Veiguinha apresentou muitos slides e deu muita informação. O primeiro foi sobre as subpersonalidades. dado que foi o que eu escolhi para apresentar na 2ª parte deste trabalho.ª Eugénia de Oliveira O «diagrama do ovo»: Constituição Bio-Psico-Espiritual do ser humano. o zazen. Mas refiro aqui os exercícios que fizemos. o programa de doze passos. 6 . O que me parece é que ele falou da transição do pessoal para o transpessoal.ª Eugénia. a multiplicidade psicológica que existe em cada um de nós e habita no inconsciente médio e ganha forma nos papéis que assumimos.) O Dr. com uma faixa amarela horizontal e é muito brilhante. Faço apenas questão de referir a extrema clareza e rigor com que o módulo foi organizado e exposto. Acho que acabei por conhecer diferentes tipos de EMC. tive medo de repetir. as drogas legais durante quase 30 anos e depois. a escrita. Foi interessante o Dr. e a minha experiência foi tão forte que não pude limitar-me a introduzir mudanças. De acordo com as instruções da Dr. É um autocarro vermelho. tanto na história da psicologia como na experiência dos indivíduos. e agora. São temas muito reais para mim. A personalidade é a soma de todos os conteúdos bio-psíquicos.Também o nome de Charles Tart me fez uma ressonância especial: «estudo dos novos estados de consciência. referiu a «inteligência espiritual»: é onde eu gostava de chegar. Só isto resume o «programa» e a «agenda» da psicossíntese. Mas é com perplexidade que me dou conta de que os assuntos que trouxe não coincidem com o tema que estava programado. apesar de fantástica (embora não tenha sido lá muito agradável ver a cara do Índio a derreter-se e a escorrer).A. do «trabalho de transmutação» e da meditação. que se aproxima cada vez mais. Não vou deter-me aqui sobre o conteúdo deste módulo. Brilhante. com cumes de montanhas a recortarem-se no céu em pano de fundo. precisamente porque foram induzidos por experiências de tipos muito diferentes: as drogas ilegais do fim da adolescência. a maconha e a única que tive com LSD porque. as subpersonalidades podem ser pessoais e transpessoais. (Leio dos apontamentos: pessoas com a experiência de estados alterados de consciência introduziram mudanças significativas nas suas vidas e concordo em absoluto: eu estava num estado tão lastimável quando cheguei a N. No fim. visualizo um deserto. pela Dr. Pedro Veiguinha ter falado das «emoções no sistema da psicologia budista». Ao longe surge um autocarro. Fui eu própria que tive de mudar. 27 de Outubro de 2010 Psicossíntese de Roberto Assagioli. a minha experiência pessoal em recuperação.

impor-me à consciência várias qualidades diferentes sucessivamente: energia. sem resultado. reflexo(s) de mim própria? Como um sistema circular. que não tem mais de 30 anos. um círculo com uma pinta no meio e depois. uma mistura de criança e de anciã. Chama-se Clara. e sabedoria para distinguir umas das outras». Tratava-se de receber a qualidade de que mais precisamos. mas sei que é bailarina de strip-tease. Não sei o nome dela. o par de palavras amor-confiança. É silenciosa. força. A sabedoria deve ser a Graça.ª Eugénia chamou «meditação receptiva». a que a Dr. não é nem muito jovem nem muito velha. culta e refinada da Europa ocidental – elegante. Ao princípio não correu nada bem. ou melhor. Mas não pegava. Não sei como vim a sabê-lo. É muito sexy e exuberante. ou alemã. A seguir vem uma índia norte-americana. fizemos mais um exercício. até o nome coincide.Dele saem três mulheres. distinta e com muito «charme». coragem para modificar aquelas que posso. Não se consegue perceber a idade. Diante dos meus olhos fechados surgiu-me o símbolo astrológico do sol. Mesmo antes do fim. Quando estava a escrever a descrição das três subpersonalidades. 7 . E de confiar. Senhor. no caso de uma delas. não era real. É como se já tivesse bastante idade mas fosse também. E interrogo-me sobre a origem destas «subpersonalidades»: são minhas. e mesmo assim preciso de amar. Tentei. vestida de vermelho. apesar de ter gostado muito. o que me faz lembrar a oração da serenidade da minha irmandade de anónimos: «Concede-me. dei-me conta de que podia perfeitamente «colar» cada uma destas três mulheres a uma determinada mulher presente na sala. Parei e deixei-me ficar em silêncio. de alguma maneira. Acho que é uma mulher muito sábia. bastante jovem. suavemente. Não posso deixar de falar da questão da vontade. sorridente e pacífica. penso eu. Até o mais absoluto da vida não é perfeito.estar a sentirme cansada). A primeira terá à volta de 50 anos e é francesa. ou foram-me induzidas pelas mulheres «reais»? mas também o que eu vejo nessas mulheres reais não será condicionado pela minha própria vivência interior. animação (era do que eu estava a sentir falta. e de como estes dois aspectos jogam um jogo constante ou dançam uma dança contínua. Por fim surge uma mulher bastante nova. e muito alegre. É uma típica mulher emancipada. de aspectos de mim própria? Não serão elas. o que eu vejo nelas. depois de chegar ao fim do módulo e. Chama-se Eva. serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar. ou de vasos comunicantes. que pode ser receptiva e activa. Até a totalidade perfeitamente redonda do sol tem uma pinta negra no meio.

o que me levou. e leva a questionar se o que se passou não foi apenas uma emergência. de conteúdos psíquicos. Sinto-me «em casa». porque também é um prazer. Eu às vezes chego a ter uma multidão de vozes dentro de mim. foi como se estivesse a ver um filme que depois tinha de contar. ouvidos. porque há outras ‘vozes’ que nos chamam. porque vai ao encontro dos autores de divulgação.11 de Dezembro de 2010 Terapias «ditas» regressivas. no meu «campo de consciência». É muito bom o Mário Resende não ter pudor de falar da «dimensão espiritual». que ele vai utilizar aqui. porque fiz uma que me deixou com as maiores dúvidas. diz o Mário. se calhar. as dos desejos. daquelas com V grande. o que significa que para chegar ao amor universal e fusional. Penso no Deepak Chopra e. misturados com a minha imaginação bastante fértil e uma certa tendência para «construir» narrativas. uma «regressão». o que está certo. custe o que custar. porque considera a pluralidade do Homem. mas metafísica e espiritual. – mas às vezes é difícil perceber a voz. lua em touro. o Mestre Mário referiu que o método de indução contemporâneo. é muito diferente do clássico e tem contribuições diversas: da 8 . Então. porque está certo. pelo menos. com os outros. memórias de eventos vistos. Sol em peixes. Antes de passar à prática. a lidar melhor comigo e com as minhas complicações e. o que deixa à partida o assunto bem claro e arrumado.«O Espírito é uma voz que nos chama – diz o Prof. o que devemos fazer) e isso para mim é uma Verdade. claro. exterior e interiormente. aparentemente) em oposição à terra e aos prazeres (mas garanto que não é tão banal como parece!. que fala muito do Espírito e que eu leio e volto a ler. sobretudo. dos medos e das fantasias. porque as coisas melhores que eu soube na minha vida foi assim: porque sim. não científica. mas admito que pode ser um problema meu) gosto. Ou símbolos daquilo que vivo. o que depois acaba por ser divertido quando relaciono com o meu tema astrológico e o (pouco) que sei de astrologia cármica. ao absoluto. emocional e mental. Absoluto/infinito (à partida e. doa a quem doer. o homem escreve mesmo bem – e que acredito que me ajudou a ser uma pessoa melhor ou. Sobre terapias «ditas» regressivas. . apesar de tudo (faz-me impressão o facto de eles serem praticamente milionários. Eu não senti nada. o que eu tenho a dizer é que acho muito bem as aspas.» Pois é. é uma grande complicação). E ainda o ascendente em leão. e porque permite vivências do domínio do pessoal e do transpessoal – é a definição de abertura dos meus apontamentos deste dia. no Wayne Dyer. tenho de seguir a via da afirmação da individualidade e da auto-expressão! Mas o que vale é que o regente do ascendente é o sol (leão) e deve ser por isso que me vou conseguindo «safar». incluindo a sua dimensão espiritual e não apenas a física. o Espírito manifesta-se no «saber sem saber» (sabemos o que é justo. que estão mais ou menos «na berra» (pelo menos nos Estados Unidos vendem que se fartam) e de que eu. lidos. não vivi nada. foi só uma sessão. Nem foi uma terapia. Tive gravíssimos problemas foi quando me fechei a essa Verdade e deixei que o medo e concomitante racionalização lhe ocupassem o lugar. pelo Mestre Mário Resende A terapia regressiva é uma psicoterapia de orientação transpessoal porque recorre a EMC.

8 de Janeiro de 2011 Psicanálise do sonho acordado. mas fui para a Brasileira. Não sei se ele disse. ou do meu passado de adicção «activa». Quando cheguei.terapia psico-corporal. entretanto já fumei o último. tirei a manhã de hoje para o fazer. mas não foi aquele) e fui para o módulo da tarde. 22 de Janeiro de 2011 Abordagens psicocorporais. Thomas Riepenhausen Devo confessar que este módulo me passou um bocado ao lado. Como entretanto não consegui chegar ao fim. Estava a anoitecer e eles disseram-me que podia lá passar a noite. Em desespero de causa – com os adesivos e as pastilhas de nicotina não estava a resultar – comecei a ler «O método simples para deixar de fumar». por uma noite. com paragens de duas ou três semanas no máximo e sucessivas recaídas. Mas as duas primeiras fases parece-me que foram detectáveis nas duas experiências que foram feitas aqui. a querer deixar de fumar sem conseguir. o que me agradava bastante. me acolheram e me deram um espaço-tempo de repouso e de pertença. A terapia propriamente dita desenrola-se em 3 fases: vivência – catarse – integração. Quando lá cheguei vi que afinal já não se pode fumar lá dentro (o que eu antecipava com deleite) e tive de ir para a esplanada. Aquele homem e aquela mulher foram. os pais. como as imagens dos livros infantis. Cheguei pacificada ao fim deste sábado. Depois da indução. mas eu acho que a integração deve ser a que leva mais tempo. Dr. vi-me numa floresta a caminho duma cabana: uma cabana idílica numa clareira da floresta. Estava um toldo.ª Maria Bjorn Faltei de manhã: ando há imenso tempo. mas naquela noite dormi um sono tranquilo e reparador. como se tivesse verdadeiramente acabado de chegar a casa. mas estava vento e às vezes chovia. o que me protegia dos aguaceiros. e eu fiquei. da programação neuro-linguística e do focusing. Eu estava completamente sozinha na esplanada e quando chovia havia alguma coisa de quase épico. Não estava muito frio. tipo chapéu de sol. Fui só à tarde outra vez. há anos. Saí de casa à hora a que sairia se fosse para o ISPA. pelo Dr. Depois almocei. por cima da mesa. um casal de meia-idade que me acolheu muito bem – e eu senti-me muito bem. o módulo já tinha começado. fui recebida pelos habitantes. pela Prof. Impressionaram-me fortemente pela sua intensidade e amplitude e pelo sentimento de «vivência total e integral» (as aspas são porque não sei bem como dizer) que me transmitiram. Acho que é assim tão difícil por causa da minha «personalidade adictiva» (não sei até que ponto isso é real). 9 . No dia seguinte ia retomar a minha viagem. cada uma com uma das colegas do curso. Integrar é difícil: longo e trabalhoso. que. lá fumei o meu «último» cigarro (que não o foi. ao contrário dos meus pais verdadeiros. Quando lá cheguei. O método consiste em continuar a fumar enquanto se lê o livro e parar quando se chega ao fim. A parte teórica já tinha sido dada e agora à tarde era só trabalho prático.

que minutos antes tinha falado dos «ousados» que tinham experimentado drogas psicadélicas. e os casos de conhecidos que vi ficarem no mínimo desequilibrados. a minha «droga de escolha» viria a ser legal). a única – primeira e última – vez de LSD. Zé Ninguém!».ª Fernanda Reboredo Hoje sinto-me outra vez em forma e o módulo promete ser bastante dinâmico e experimental. com quem andei toda entusiasmada quando tinha 20 e poucos anos: «A função do orgasmo». Eu vi o chão da canoa juncado de grandes flores vermelhas. É maravilhoso. E eu aqui arrebitei a orelha: isto era uma óptima ideia para o meu trabalho. não me sinto desconfortável a falar do meu passado.O que retive. referiu que Grof e a mulher. A páginas tantas. Fazemos as apresentações: cada um diz quem é. a Prof. mas aqui. não sei nem posso saber a que prazo: imediato. que era alcóolica. dou por mim a pegar nas palavras da Prof. Relatei brevemente a minha experiência do LSD com 17 anos. mas já havia também muita raiva e muita dor: e foram os hippies. aquilo que lhe apetece dizer). Fomos induzidos a visualizar uma canoa a seguir por um rio e a reparar naquilo que estava no fundo da canoa. não tenho a certeza. como o júbilo. felizmente. nomeadamente o LSD. creio eu. O meu episódio com o LSD acontece. Agora acho que fui mais que ousada. e a contar-lhe um pouco da minha história. desenvolveram um importante trabalho na recuperação do alcoolismo e dependências químicas. com estas pessoas. e a dizer que eu fui um desses ousados. como eu vi. fui louca. Uma máquina. À tarde tivemos a prática da respiração holotrópica. 5 de Fevereiro de 2011 Respiração holotrópica de Stan Grof. sem qualquer base de apoio: só entre nós. «Escuta. trouxe. porque anotei no meu diário. o «pai» da psicocorporal. o álcool e as drogas. as noitadas. sexo nem tanto. Ando cansada. uma coisa que eu na altura achei muito maluca mas fascinante ao mesmo tempo: o acumulador de orgone. longo? a mim. Quando chega a minha vez. o que faz. ainda fora da minha adicção (ironicamente talvez. pela Dr. feita ao som de música que a Prof. claro. flores de pétalas sedosas de um vermelho brilhante que sinto acariciarem-me os pés nus. Foi. (ou seja. 10 . médio. Estou apreensiva: dois módulos seguidos a faltar metade do dia. tenho de ter atenção às faltas para não exceder o limite. em casa dum casal alguns anos mais velho. No intervalo do café estive a falar com a Prof. É talvez estranho. segui na extremidade do «air du temps» porque era muito nova e não sabia praticamente nada. acho que não aconteceu nada. etc. foram as referências a Wilhelm Reich.. que transbordavam da canoa como a alegria. peço desculpa que se calhar a memória está a atraiçoar-me. Escrevi no caderno: Ideia para o trabalho: recuperação da adicção através do transpessoal.

embora esteja toda desarrumada. depois da minha «cena» toda. Mas não consigo parar. para não dar nas vistas. da minha tendência para os exageros). 11 . que neste momento não sei bem quem sou nem onde estou. Sinto energia a percorrer-me o corpo todo e começo a acompanhar o compasso da música com os braços e as mãos. e penso: pára. Não vou lá hoje dizer que o meu pai abusou sexualmente de mim até eu ter 12 anos. não sei para quê: para defender o meu pai. talvez medo. quando me nasceu um sobrinho que no fundo sei que era. A sala é a sala de sempre. nunca consegui saber inteiramente. todo o mundo. Aqui. Vai-se falar da família. que espectáculo que estás a dar. hoje não vou. batuque de tambores. E isso é muito mais forte do que «eu». Choro. se calhar «isto» é que sou eu. por muito conhecimento. a energia. é pura emoção libertada e libertadora. meu irmão. ou aquilo que para mim era todo o mundo – a minha família. penso. O som das minhas mãos ouve-se distintamente. deitados ou sentados no chão ou numa ou outra cadeira. nítido e sincopado. as lágrimas correm-me pela cara. De súbito sou um condor a voar nos altos céus por cima das montanhas. Fiquei todo o dia em casa a fumar cigarros e a deixar passar o tempo. 19 de Fevereiro de 2011 Constelações familiares de Bert Hollinger. e eu depois não consigo conter-me. um feiticeiro da naufragada Atlântida. mas sou também a música. porque agora sou um feiticeiro que bate no tambor o ritmo dum ritual sagrado. Fernanda o meu passado de adicção. mas não sinto. Sou o meu corpo que se move. Não. eu e os meus colegas também estamos desarrumados. Ocorre-me parar com tudo. os movimentos. Muito já eu me expus – falei da experiência com o LSD e contei à Prof.Depois começo a sentir a música no corpo. Abro os olhos e está tudo no sítio sem estar. da mãe. Joaquim Marujo Hoje não vou. mas acima de tudo sou o condor. muito serviço e muito amor. Podia sentir-me constrangida. é muita tristeza e muita alegria. todo o passado. E que eu fui ao tribunal e menti. do pai. e começo a bater o ritmo com as mãos no chão. pelo Prof. o céu e o cume das montanhas. é um som demasiado alto para ser feito por mim. a minha mãe. a música leva-me para o topo duma montanha. a minha vida – ou sei lá o quê. e reúno tudo em mim. é muita emoção para poder ser contida. Depois. à medida que vou fazendo a respiração. Bem vi como foi no último dia. presente e futuro. sou um xamã. Dr. embora com bastante contenção (tento não respirar com muita força. com força. mas não consigo: isto é mais forte do que «eu». Agora. e é. mas vou reconhecendoos um a um. Eles são os meus companheiros e este é um espaço sagrado. tenho consciência. é um som claro.

» e depois. A Isabel fez um exercício em que precisava de alguém para fazer de Deus e escolheu-me. Foram os meus únicos papéis no teatro até hoje. disse um coisa muito interessante: aquilo que gostávamos de ter recebido e não recebemos representa a missão da nossa alma e o sentido da nossa vida. temos. pela Dra. Do pai. Também não sinto ódio. 12 . Aos 12 anos fiz de Diabo numa peça de teatro. pelo coração. Tenho medo de ficar lá presa. e é o que tendemos a dar em abundância depois de. Em resposta à proposta de exercício que a Prof. em mim e nos meus colegas. que já aceitei. Isto tornou-se um mecanismo de defesa do meu ego durante quase 30 anos. já nem me lembro bem como nem porquê. fazermos todo um trabalho. que passa pelas emoções e pela inteligência emocional – a que emana do chakra do coração. Da mãe. E correu bem. pelo menos para mim). amor e cuidado. mas por enquanto – e com 5 anos de recuperação da adicção activa – ainda não consigo sentir qualquer gratidão por eles. claro. 1º exercício: O que eu gostaria de ter recebido e não recebi. uma mágoa ainda. Não aconteceu nada. de aceitação – e até de gratidão – pelos pais que tivemos.escrevi isto: «Aos 5 anos. A Prof. fechava-me em mim própria e chorava sozinha. Falei porque confiei na «terapeuta» (quase todos os professores foram aqui também terapeutas. fez seguidamente – «o que fazíamos aos 5 anos para termos a atenção da mãe» . que sabia que não ia ter. Foi algo que não consegui conter nem calar. Apenas uma grande perplexidade e uma pena.5 de Março de 2011 Souldrama. Mas aceitar acho que aceito.ª Manuela Maciel O souldrama é recente: tem dez ou onze anos. Um pai abusador e uma mãe cúmplice (porque não fez nem disse nada)? Talvez um dia consiga. Representa a evolução duma inteligência mais racional para outra mais espiritual. no liceu. acabei por falar do abuso do meu pai.) Mas isto que temos tendência para dar em abundância. É isto que me afasta da minha essência e do caminho da minha alma. para ter a atenção da minha mãe. também de aprender a receber (eu acho que ainda não sei receber inteiramente o que vem das pessoas. como fiquei durante tantos anos). força (apoio) e ternura. («Esta» anda-me atravessada há muitos anos.

ou melhor. Manchas de sol nos troncos e nas folhas das árvores. Este módulo foi diferente: muito suave. sóbrio e aparentemente imperturbável. propõe-se substituir o velho paradigma de fragmentação do indivíduo. o João da Fonseca. nem que podia aceder tão facilmente a ele.ª Dalila Paulo Um novo paradigma.ª Jacotte Chollet Um turbilhão de palavras e de sons – não pretendo ser objectiva.intuição irradiam do Ser. Começo a sair de dentro de um ovo. Lá à frente. Não gostei mais do que dos outros. Exercício: Escrever 4 textos. é como eu me sinto hoje . a música das árvores. 13 . cada um centrado numa destas funções. E aconteceu isto: «Uma clareira numa floresta (reparo que já é a minha 2ª clareira num floresta) tropical. lenta e docemente. verde tenro. Formas de desenvolver a intuição: Sonho lúcido. sintetista. Silêncio e luz. Que bom. Tudo verde: verde claro.» Não sabia que tinha um lugar tão pacífico e luminoso «dentro» de mim. construídos em torno das mesmas 10 palavras previamente escolhidas aleatoriamente (adorei! Parecia que estava num curso na escrever escrever. mas gostei de maneira muito diferente – foi quase só estar. fala da morte. Meditação. Talvez por isso. Funções psicológicas de Jung: sensação – sentimento – razão . e um calor tépido. 16 de Abril de 2011 Música multidimensional. verde de luz. Tão feliz que eu me senti). pelo Mestre João da Fonseca E chegámos ao último dia. 30 de Abril de 2011 Fenomenologia da morte e da passagem. A música multidimensional é um processo de «letting go» e eu vou deixar-me ir. E o silêncio. que é um processo de destruição da ecologia pessoal. A educação inclusiva engloba-as todas. Eu sempre amei profundamente a música. talvez um pouco vago e indefinido.19 de Março de 2011 Educação inclusiva. A Maria Flávia diria que foi neptuniano. pela Dr. soube-me muito bem. Estou envolta em luz e só há luz branca diante de mim. Saio completamente para a luz e para o verde-claro das folhas das árvores. pela Dr.

Ah. e que esse é um bom e vasto programa para o resto da minha vida.viajar – trabalhar . (agora que já li The Primal wound para a 2ª parte do trabalho. já os colegas estavam a falar uns dos outros.A morte. Mas o que me «bateu» foi o que disse a Maria João. porque não me era confortável falar delas. é o fim do ego. que eu sou um pássaro dentro da gaiola a precisar de se libertar. Um sentimento vivo e vibrante a que não sei dar nome. Mas tem de haver uma forma qualquer. como escrevi no papelinho que juntei aos papelinhos dos outros e o João recolheu e leu. e depois ficava «na berlinda»: os colegas que tinham alguma coisa a dizer dessa pessoa. à vez. e percebi que me liberto através destas coisas e doutras de que não me lembrei. de quem nunca consegui aproximar-me e que também nunca se aproximou de mim e eu pressenti que foi por sermos parecidos que tivemos todo este pudor: ele também teve uma experiência-limite. Paro sempre quando chego à metafísica. 14 . um a um. e depois de me ocorrer uma multidão de coisas. claro que é. disseram-me coisas muito simpáticas e elogiosas. Quando chegou a minha vez. Medo de que seja «o fim de tudo». a amizade e os risos. respondi: Escrever – estudar . de quase-morte. não tem? Se calhar não necessariamente – e aqui paro. Quando cheguei de manhã. o Eckart Tolle e a não-forma! A desidentificação das formas. Logo a seguir veio o exercício: tenho 5 minutos para fazer o que ainda não fiz. porque fui exposta a ele de forma violenta e prolongada). o Paulo. Entre elas. e que é de algum modo um interdito. diziam. Ao jantar a Margarida ofereceu uma flor a cada um.servir (estes dois últimos eu estava relutante em escrever porque pensei que podia ser «piroso»). Ou seja: Até sempre. pelo que aprendi. Só sei usar palavras para tentar dizer o que sinto diante de tudo. Só não consigo imaginar que «forma» assumimos depois da morte. Deixei passar algumas pessoas sem dizer nada a respeito delas. Depois foi o jantar. acho que descobri que o meu grande medo é o não-ser. todas elas acessórias. Ou é a minha imaginação a trabalhar.(e por fim). Será a morte a derradeira partilha? Sei que o ego se dissolve na partilha e fica uma coisaoutra no lugar. pelos amigos que ganhei e por ter chegado aqui com eles O fim deste curso não é o fim de nada.amar . Depois percebi que cada um dizia o seu nome. impôs-se-me o que a João disse: Libertar-me E depois à questão: tenho uma vida pela frente. porque não sabia o que dizer. para tentar traduzir essa música e partilhá-la. a transcendência das formas. Será que é o amor? Lá estou eu a divagar. o meu único grande medo. o que é que eu ainda posso fazer?. Sim. mas é seguramente o princípio de muitas coisas. Sinto uma imensa gratidão por este curso. Sinto que temos algo em comum que é estranho e diferente de todos os outros. pelo mundo de coisas que percebi que ainda não sei. pelas quais estou grata e que foi agradável ouvir.

3) Inconsciente Superior O inconsciente superior. De forma mais resumida. pode também dizer-se que a psicossíntese se refere à expressão espontânea da vida. Trata-se de um sector no qual os conteúdos. é nesta área que integramos experiências. por definição. é uma teoria. Roberto Assagioli. representa as nossas maiores potencialidades que esperam por se manifestar. ao mesmo tempo misterioso e contagiante. inacessível à consciência e a sua existência tem de ser inferida. mas mais do que isso: nas próprias palavras do seu fundador.A Psicossíntese A Psicossíntese é «uma abordagem psicológica de carácter integral». transpessoal e universal» (do guião do conteúdo). estão disponíveis para a expressão consciente normal. 2) Inconsciente Médio O inconsciente médio é formado por elementos psicológicos semelhantes aos que existem na nossa consciência e de fácil acesso. capacidades. embora inconscientes. esta inferência decorre de momentos em que conteúdos de grande intensidade emergem ao nível da consciência. A constituição bio-psico-espiritual do ser humano: o «diagrama do ovo» São sete os sectores que representam a totalidade da nossa vivência. Tal como o inconsciente inferior. o que acontece em momentos em que conteúdos desse nível afectam a consciência. traumas e memórias esquecidas do nosso passado psicológico pessoal. É nesta região que as nossas experiências são assimiladas. Desta região recebemos as nossas maiores intuições e 15 . a sua existência tem de ser inferida. Para além de armazenar uma série de elementos fora da consciência. e que até então desconhecíamos. Os seus princípios teóricos têm aplicação sobretudo nos campos da terapia e da educação. percursos do trauma para a «cura» a). ou seja. também de novas formas de viver. aprendizagens. ou supraconsciente. embora não na íntegra) a saber: 1) Inconsciente Inferior É o sector que contém complexos reprimidos. o inconsciente médio permite ainda que possam ser sintetizados em novos e mais complexos modos de expressão. de forma a dar à psicossíntese um carácter humanista. muito embora importante e por vezes expressando grandes faculdades psíquicas. inacessível à consciência. Representa a nossa parte instintiva mais primitiva.II. (utilizo textualmente a respectiva parte do «guião do conteúdo» que foi distribuído aos participantes. em que «o núcleo espiritual se serve da vontade e por ela de todas as funções biopsicológicas em função da expressão do potencial humano. esta área é. Tendo em consideração que um inconsciente reprimido é. feridas. é uma «entidade» e representa «o nascimento de uma nova identidade» ou seja. processo que ocorre naturalmente em cada pessoa. por definição. guiados por padrões do inconsciente colectivo e em relação com o nosso meio ambiente. mas que muitas vezes repelimos e reprimimos.

ele é uma realidade. imagens. É experienciado ao nível da individualidade.inspirações – artísticas. Lugar das experiências de pico ou de topo. escolhendo focá-la. analisar e julgar. podemos dizer que a consciência tem níveis de percepção diferentes e não se identifica com eles. uma fonte que opera para além do controlo da personalidade consciente. do eu transpessoal. vive ao nível da universalidade. desejos e impulsos que podemos observar. A sua existência deriva do eu mais profundo. dos estados de contemplação. pensamentos. O eu pessoal não é uma diferenciação ou um aspecto do eu transpessoal. porquanto expressão da nossa identidade. uma característica a que podemos chamar transcendenteimanente. não é uma entidade independente. embora retenha um sentido de individualidade. iluminação e êxtase. O eu pessoal é um reflexo do eu transpessoal. da genialidade. distinta mas não separada dos nossos conteúdos de experiência. a partir de onde podemos aprender a regular e a dirigir os vários elementos da personalidade. seja a nível transpessoal. muitas vezes confundido com a personalidade consciente. O eu transpessoal. O eu pessoal. 6) Eu Transpessoal É uma fonte profunda de sabedoria e orientação. 5) Eu Pessoal O eu é o domínio da personalidade consciente. mas muito diferente dela. É a fonte do amor altruísta. que nos dá o sentido de centragem e identidade. seja a nível pessoal. O eu pessoal tem a função da consciência e da vontade pessoal. imperativos éticos. o eu também é dinâmico: tem a capacidade de afectar os conteúdos da consciência e pode fazê-lo. 16 . no domínio onde os planos e as preocupações humanas são diluídos pela visão maior do todo. expandi-la ou contraí-la (a vontade pessoal). 4) Campo da Consciência Designa a parte da nossa personalidade de que estamos directamente conscientes: contém o fluxo incessante de sensações. o eu pessoal tem a mais profunda e directa relação com o eu transpessoal. motivações humanitárias e actos heróicos. sentimentos. A consciência do eu pessoal é um pré-requisito para a saúde psicológica. É o ponto de consciência pura. Neste domínio estão latentes as funções psíquicas mais elevadas e as energias espirituais. Além de ser receptivo. filosóficas ou científicas -. De entre os elementos do diagrama (do ovo). mas um seu reflexo directo. E no entanto.

religiosas. enquanto centros de consciência e de vontade) A vontade no âmbito das funções psicológicas De todas as funções psicológicas.No entanto não existem dois eus. 7) Inconsciente Colectivo Um domínio que rodeia e é subjacente ao inconsciente pessoal e que representa propensões e capacidades para formas particulares de experiência e acção comuns a todos nós. As subpersonalidades São subsistemas autónomos da personalidade. Integração e síntese – a auto-realização A auto-realização representa um crescimento psicológico. cada um composto por vários elementos da personalidade – capacidades. É a fonte mais profunda do nosso potencial humano partilhado. maior a auto-realização. Essa integração poderá conduzir à emergência duma síntese. estéticas. auto-identificação (esta última é a tomada de consciência de nós mesmos a níveis do eu pessoal e transpessoal. não existe uma fusão. São experiências da nossa identidade a níveis diferentes. Domínio dos processos de osmose psicológica. com outros seres humanos e com o ambiente psíquico geral. O trabalho de integração das subpersonalidades pressupõe o seu reconhecimento. valores. mas uma unidade funcional. É através dela que se dão as tomadas de consciência. Dado o carácter transcendente-imanente do eu transpessoal. mas. pois passam a operar no âmbito do inconsciente médio como recursos. Pode ser alcançada a diferentes níveis e não tem de incluir forçosamente o nível espiritual. Quanto maior a integração. deixam de ser tão notórias. aceitação e valorização. desidentificação. mas inseparáveis dos conteúdos da consciência. sem que tenham de ocupar o centro de consciência. de todos os níveis – é como se o campo de consciência se expandisse. na qual o todo é maior do que a soma das partes. podemos experienciar a qualquer altura da nossa vida e em qualquer 17 . no entanto a auto-realização não significa sempre uma integração da personalidade. visões da vida – que se organizam num todo operacional e através dos quais funcionamos em diferentes situações – donde que a personalidade é a soma de todos os conteúdos biopsíquicos e portanto diferente do cento de consciência. As subpersonalidades não desaparecem. Tomadas de consciência: Identificação. A realização do eu transpessoal é a marca da realização espiritual. Trata-se de uma realidade vivida a níveis diferentes. um despertar e a manifestação de potencialidades latentes: éticas. ao serem integradas. A consciência e a vontade permitem a integração de toda a personalidade. que acontecem a todo o momento. atitudes. a vontade é a mais central. Tanto o eu pessoal como o eu transpessoal são distintos.

O inconsciente inferior e o inconsciente superior As adicções expressam o trauma inicial: cada adicção parece basear-se numa dinâmica destrutiva entre aqueles dois sectores. sem que tenha desenvolvido uma personalidade organizada e harmoniosa. ou seja. música. de eu pessoal e eu transpessoal e da sua íntima relação. como se envolvesse uma síntese dolorosa do positivo e do negativo em luta constante entre si (quando eu tomava uma dose de comprimidos. E em resposta a esta ameaça de não-ser. que constituiria em si mesma uma ameaça de não-ser. das subpersonalidades pela sua relação com o conceito de «personalidade de sobrevivência». ser por eles aceite e estar 18 . esquecer tudo e fugir de tudo (inconsciente inferior). que me conduzirá a um inevitável questionamento perto do final deste trabalho. ou seja. mas queria também. de total aniquilação do sujeito. bem como a noção de «despertar espiritual». O trauma inicial surge das falhas nas funções empáticas dos «outros significativos» (o pai. uma reacção a uma experiência ou série de experiências – o «trauma inicial» – de tal modo sentida como intolerável e ameaçadora. ao mesmo tempo. 1997).para estar próxima dos outros. perante a qual ele se terá sentido completamente indefeso e impotente. o positivo e o negativo. Deste modo. a mãe ou outro cuidador). aqueles que nos garantem o sentido da vida e do mundo. ser «normal» . a personalidade divide-se em dois sectores. dos «centros unificadores externos». despertar espiritual e realização espiritual são experiências diferentes da consciência do eu transpessoal. Estes foram os conceitos que extraí do guião entregue. um positivo e outro negativo.). Uma pessoa pode ter experiências espirituais genuínas sem que tenha uma personalidade integrada. designadamente os conceitos de inconsciente inferior. Dada a exiguidade do espaço. por um lado. O «trauma inicial» Assim. quer através da ascensão da consciência a níveis do inconsciente superior (através da meditação. a adicção seria. oração. State University of New York Press. que mais não são do que o inconsciente inferior e o inconsciente superior. em torno de alguns conceitos-chave. sem que isso signifique integração. porque me parecem fundamentais para as alíneas que se seguem.o que apenas equivalia a sentir-me «normal» . apenas posso fazer uma abordagem muito sucinta e quase esquemática da questão da adicção e da «recuperação» da adicção. A síntese traduz a auto-relização como experiência do centro de consciência a nível pessoal e transpessoal. e segundo os autores. queria.nível de experiência o eu transpessoal. médio e superior. b) A adicção à luz da psicossíntese: do «trauma inicial» à (esperança de) autorealização Para abordar esta questão. e desesperadamente. sendo neste caso aquilo a que Maslow chamou de experiências de pico. Ambos incluem vários tipos de percepção dos conteúdos do inconsciente superior. quer pela sua descida até ao campo de consciência (podendo ser chamado de inspiração). a questão da autorealização. ou seja. addiction and growth (ed. etc. integração e síntese. na sua génese. recorri à leitura do livro de John Firman e Ann Gila. The Primal wound – a transpersonal view of trauma.

trocamos a nossa personalidade autêntica por uma personalidade de sobrevivência. Ele tem de se render. é uma admissão de impotência perante o ciclo positivo-negativo que domina o processo adictivo e . c) O movimento de recuperação: pontos em comum com a psicossíntese O movimento de recuperação. . É uma mensagem muito poderosa para o centro do nosso ser: se queremos evitar a aniquilação e o não-ser.em relação com eles (inconsciente superior). o que só acontecerá um pouco adiante. falta de valor) e de procura de qualidades positivas e transpessoais (força. muito simplesmente. quase tudo é possível: até a auto-realização e a realização espiritual. auto-estima. Contudo o trabalho não pode ficar por aqui: é necessária também uma desidentificação com a personalidade de sobrevivência e a (re)construção duma personalidade autêntica sobre os destroços deixados pelo processo adictivo. depois. a admissão da derrota do eu pessoal. mais actuar para obter conforto. de sobrevivência. ligação. mas pelo contrário encara a pessoa como um objecto a ser usado para os seus próprios fins.A detecção da personalidade compulsiva. que pode tomar o lugar da primeira durante uma vida inteira – ou até que o ciclo positivo-negativo (inconsciente superiorinconsciente inferior) seja finalmente quebrado. com o que obviamente concordo. Adiccão e recuperação. Assim. são dois os seus aspectos positivos fundamentais: . e progressiva desidentificação. e quase só. escondemos a nossa verdadeira natureza e tornamonos naquilo que o meio precisa que sejamos. nas adicções está sempre presente esta dualidade de qualidades do inconsciente inferior (impotência. em vez de expressarmos quem verdadeiramente somos no nosso meio. merece uma referência directa na introdução de The Primal wound. tenho razões para acreditar que. a culpa. por alguns exemplos que conheço e pela minha própria experiência. vulgarmente conhecido por «grupos de doze passos» ou «grupos de auto-ajuda». como tentarei mostrar um pouco mais à frente. a vergonha e o remorso. e por aí fora – porque até o ciclo doloroso entre positivo e negativo é preferível ao não-ser. na recuperação da ligação entre o eu pessoal e o eu transpessoal que constitui. que tínhamos perdido o controle das nossas vidas. O processo adictivo é muitas vezes.A centralidade da espiritualidade na vida humana. A desidentificação A recuperação da adicção baseia-se. amor). A base: o programa de doze passos O 1º passo – Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção. Ou seja. A personalidade de sobrevivência O trauma inicial constitui uma ruptura na ligação eu pessoal-eu transpessoal. mas de que tentarei dar aqui alguns detalhes. o que representa uma tarefa que irá provavelmente ocupar o resto da vida. a tarefa primeira e central do movimento de recuperação. um ciclo contínuo entre experiências positivas e negativas: o sentimento inicial de conforto por actuar a adicção. uma vez restabelecida aquela ligação e substituída gradualmente a personalidade de sobrevivência por uma personalidade autêntica. vazio. De facto. 19 . Segundo os autores. ao mesmo tempo. O centro unificador não responde ao eu-pessoal essencial do sujeito. Mas. o melhor é tornarmo-nos naquilo que nos é exigido.

porventura causadas e introduzidas pelas pessoas que o compõem – que não são perfeitas e demoram muito tempo a livrar-se da personalidade de sobrevivência. depois de estarem em recuperação. pela progressiva identificação com este. Na verdade. é introduzida a fé numa dimensão até aqui desconhecida. Contudo e independentemente disso. mas. como eu própria sei). mas têm falhas e limitações. é um facto comum que muitos adictos a substâncias químicas desenvolvem. muitas vezes ele não é acompanhado por uma integração da personalidade.No 2º. aos relacionamentos românticos. No nosso mundo era-o. até podia destruir-nos totalmente) e o 3º passo – Decidimos entregar a nossa vontade e a nossa vida aos cuidados de Deus. a de que o espírito humano está dependente de uma comunhão empática com um poder espiritual superior (e no caso do adicto. claro. o «despertar espiritual». pelo menos. No movimento de recuperação é muitas vezes referido. Limitações dos grupos de recuperação. No movimento de recuperação é praticamente interdito falar de cura. a partilha da experiência. de que por vezes têm bastante dificuldade em recuperar. a identificação com as experiências partilhadas pelos outros membros – permitindo ao mesmo tempo a desidentificação da personalidade de sobrevivência e. na forma em que o concebíamos.. e talvez o sejam. passo – Viemos a acreditar que um poder Superior a nós mesmos nos poderia restituir a sanidade. por exemplo. Esta «comunhão empática» assume diferentes formas na estrutura de um grupo de doze passos . só faz sentido falar de recuperação – e de facto isso obriga-nos. a questão permanece em aberto. É a expressão de uma verdade fundamental. por seu lado. Penso que uma das principais limitações reside precisamente aí: dificilmente a reestruturação total da personalidade do adicto. 20 . porque exige um trabalho-outro – grande parte dos adictos em recuperação faz também psicoterapia (que. a da trans-pessoalidade (o nosso poder em actuar a adicção parecia ser o único existente no mundo. que seria necessária para se poder falar de cura. poderá acontecer no seio duma entidade colectiva. como já Jung referia. à comida. Por outro lado. com mais de uma década de abstinência. se não for transpessoal tem também óbvias limitações!. consagra finalmente uma rendição – a do eu pessoal ao eu transpessoal. acabe por recair se se deixar ficar «sozinho».o serviço (um dos vários cargos existentes que um membro pode ocupar para que seja assegurado o normal funcionamento do grupo). a continuar a pertencer e a manter-nos abstinentes. a ligação do eu pessoal ao eu transpessoal. outras adições: ao sexo. só ela pode colmatar a falha presente no trauma inicial). não é raro que alguém. às compras. pela minha experiência própria e de outros. «Recuperação» ou «cura»? A estrutura e princípios espirituais do movimento de recuperação parecem perfeitos. embora em termos de rendição do ego ao Self. etc.

e feliz. Uma espécie de epilogo provisório. Seja como for. algumas coisas aconteceram na minha vida: coincidências e mudanças. E deixei mesmo de fumar. Como me penitenciei pelas revelações que fui fazendo sobre a minha vida pessoal ao longo dos módulos do curso. E o ambiente foi sempre muito bom. «isto seja só por hoje». É que assim ganhamos mais espaço no inconsciente médio.Conclusão Todo este trabalho teve aspectos muito pessoais e penso que cheguei a penitenciar-me por isso. vim a aprender no próprio curso que pessoal e transpessoal andam de mãos dadas e não se separam nunca e. Mas em recuperação aprendi a confiar em «estranhos».as pequenas multidões de estranhos que fui conhecendo . como ouço às vezes numa reunião.e percebi que só pela confiança os estranhos deixam de o ser e se transformam em amigos. seja como for. 21 . claro. Porque isso não se faz – não se conta a nossa vida a estranhos. embora. foram a minha história e vida pessoais que me trouxeram ao curso. Como tive oportunidade de referir na última aula. seja feita honra aos professores e a todos os meus colegas. não podia ter gostado mais e não podia estar mais grata. Depois do final do curso. conquistado às pressões do inconsciente inferior e às idealizações do inconsciente superior. de desenvolvimento transpessoal.