Debate técnico e jurídico a respeito do conceito da venda a rendimento de carcaça Publicado em 25/2/2011 às: 16:49:36 << Voltar

Além de produtor rural sou advogado, e ao longo de minha trajetória profissional tenho atuado no meio frigorífico. Pelo conhecimento que adquiri nestas "duas pontas" somada a visão jurídica, me senti inclinado a sugerir que teu site fomente, um debate técnico e jurídico a respeito do conceito da "venda a rendimento de carcaça", contrato atípico concluído por regras ditadas unicamente pelo comprador, no seu estrito interesse. O peso da pecuária na economia nacional, envolvendo milhões de produtores e meia dúzia de empresas frigoríficas, necessita de instrumentos de proteção aos pecuaristas que isoladamente não possuem poder de barganha e tampouco conhecimento técnico para lutarem pelo real valor da sua mercadoria. Somente com a intervenção de nossas entidades representativas mobilizando parlamentares ligados ao agronegócio é que se poderá conseguir a regulamentação desta modalidade de compra, há anos praticada, somente pelo interesse do comprador, que estipula conceitos e condições, definições de pontos de pesagem. Não conheço muito bem a história, mas pelo pouco que estudei, sei que no tempo das charqueadas, o pagamento do gado era feito pelo número de unidades da tropa e empiricamente conforme seu peso. As tropas eram adquiridas vivas e pagas no ato com moedas de ouro ou promissórias de poucos dias para serem descontadas nas principais casas comerciais onde situavam as charqueadas. Com a frigorificação, os americanos e ingleses (Swift, Armour, Anglo, Wilson) passaram a utilizar balanças instaladas em estações de trem e algumas propriedades privadas. Se chamavam balanças credenciadas. Igualmente o gado era pago pelo seu peso vivo. Não sei a partir de quando começou a venda "a rendimento", mas com toda a certeza foi imposta unilateralmente pelos frigoríficos, que nesta modalidade tiraram do produtor o controle do valor da sua mercadoria. Antes a forma de comercialização era objetiva. Pesa tanto. Vale tanto. Depois, cada frigorífico impôs seus critérios de classificação, descontos, pontos de pesagem, etc. Estes critérios nem sempre são éticos ou juridicamente justificáveis e pela brutal concentração, o produtor rural tornou-se o elo mais fraco da cadeia. O hiposuficiente econômico. E por questão de sobrevivência obrigado, a sujeitar-se as condições de pagamento, preços e classificações depois do gado morto. Depois da rês abatida não há como desistir do negócio. Abaixo exemplifico algumas práticas realizadas pelos frigoríficos e que na minha visão jurídica, salvo melhor juízo, são ilegais, antiéticas e abusivas, e por isto invoco um estudo e debate técnico e jurídico, a nível nacional como é a abrangência do BeefPoint. - HEMATOMAS: Antes da pesagem da carcaça são retirados fartamente os hematomas ocorridos durante o transporte dos animais. O artigo 496 do Código Civil/2002 assim preconiza: Art. 492. Até o momento da tradição, os riscos da coisa correm por conta do vendedor, e os do preço por conta do comprador. Como a tradição (entrega) é feita na fazenda, então a partir do embarque do gado os riscos são do frigorífico. O produtor não tem de responder por qualquer fato ocorrido depois, sejam hematomas acidentes ou qualquer outro evento. Dispõe também a lei comercial que a responsabilidade por fatos ocorrido durante o transporte é objetiva do transportador. Quer dizer, a culpa sempre é do transportador, salvo os casos fortuitos ou da força maior. - CISTICERCOSE: Hoje o MARFRIG, desconta 20% do valor da carcaça que apresentar cisticercose viva, por necessitar de tratamento de frio por 6 dias. Questiono? De onde surgiu este número? Pelo que sei, o congelamento da carcaça não acarreta quebra de 20%, e o

couro sebo etc. Também poderão contestar também dizendo que o preço fixado pela carne corresponde a remuneração do animal inteiro e que o rendimento seria só um parâmetro. Não há nenhum acordo anterior a venda que permita toalete de certo tecidos e também porque os parâmetros variam consideravelmente. Estes corretores sempre revisam o gado antes do carregamento e na maioria das vezes descartam os animais que não interessam ao frigorífico. 489 Nulo é o contrato de compra e venda. febre flutuante. Não recebi pela língua. proporcionando apenas um diagnóstico presuntivo. Bom. já que o que vendo e recebo é somente pela carne e sua quantidade. a bibliografia veterinária assinala que pela variabilidade de sintomas e lesões. a venda se realiza por intermédio de corretores/consignatários credenciados pelos frigoríficos. fazem com que o diagnóstico clínico tenha um valor relativo. Estes são só alguns exemplos do que ocorre. quando se deixa ao arbítrio exclusivo de uma das partes a fixação do preço. não possa ser portador de tuberculose. mas deixo esta indagação para os técnicos. mas existem situações onde o vendedor nunca vê tal atestado. perda de peso. e que tal risco era parte da atividade negocial do frigorífico. cabeça. mas eu revidarei dizendo que frigoríficos não são prestadores de serviços. também não são pesados junto com a carcaça? Penso as vezes entabular uma ação judicial. um processo que exige pelo menos oito semanas. Existem muito mais argumentos jurídicos. Se vendi a carne. Poderia dizer que na venda a rendimento não existe uma objetiva determinação. entranhas. e o custo para abater e encargo da atividade comercial deles e não minha.487 É lícito às partes fixar o preço em função de índices ou parâmetros. prevê a nulidade do negócio quando ao fixação do preço é ao arbítrio de uma só das partes. acredito que um boi ou vaca gorda. como no Uruguai e Argentina.MÍUDOS E SUBPRODUTOS: Aqui vem o ponto que considero mais polêmico sob o ponto de vista jurídico.. Não raras vezes o produtor em uma tropa de gado completamente gordo é surpreendido pelo desconto de uma rês que apresentava tuberculose. fígados. língua etc. O diagnóstico definitivo é efetuado através de cultura de bactérias em laboratório. que determina a licitude da fixação do preço em momento posterior. . Poderão contestar dizendo que miúdos e subprodutos pagam o custo de abate. é pesada a carcaça. certa vez. Ganhei a ação e o produtor recebeu o dinheiro. alegando que a escolha do gado foi feita pelo comprador. a razão de terem fixado 2% de quebra pelo resfriamento. havia aproveitamento econômico pela graxaria. É muito interessante e esclarecedor a segunda parte do artigo 487. perda de apetite. Entendi pela leitura do material ofertado pela internet. Tanto que na venda ao varejo. tosse seca intermitente. mas neste caso também é impossível ressuscitar o boi e devolvê-lo ao pecuarista. Mesmo assim com o fornecimento do atestado. cálculos bilhares. Abatido o boi. e ressalto minha dúvida em certas avaliações porque a única prova certa para atestar tuberculose é pela prova da tuberculina. naturalmente. feita a toalete. Neste tema. desde que suscetíveis de objetiva determinação. diarréia e gânglios linfáticos grandes e proeminentes. e que mesmo condenada a carcaça. . Art.? Quanto isto representa no valor da rês? Porque a cabeça não é pesada junto com a carcaça. É claro que existem casos onde o frigorífico envia o atestado fornecido pelo SIF. mondongo. não deveria o frigorífico me devolver os miúdos subprodutos. se o boi no momento que entrou no caminhão não é mais meu e sim do frigorífico. o preço é determinado em razão do preço pago ao produtor. Esta sistemática é feita por ser considerada a carne o ÚNICO bem comercial obtido. mas aí já é caso de Polícia.TUBERCULOSE: Aqui no sul. mas . Vale a pena a título de informação pensar nestes dois artigos do Código Civil. que os sinais clínicos habituais são cansaço. E ai eu revidarei também questionando. desde que suscetíveis de objetiva determinação. para obrigar um frigorífico a me informar a destinação dos miúdos e subprodutos que a meu ver ele se apropria indevidamente. e se fossem não comprariam o gado. O artigo 489. Sobre este peso é que vai ser estipulado o valor da rês. chamada Prestação de Contas. se dela sai a língua e carne indústria? O que é literalmente a carcaça? Porque os rins e o sebo. Vou tentar simplificar meu raciocínio. impetrei uma ação de um produtor contra um frigorífico. rim. que regulam a compra e venda que abaixo transcrevo: Art. bem como o caráter crônico da tuberculose. Assim a escolha é feita pelo comprador.aproveitamento econômico pelo frigorífico é quase igual ao da carne resfriada.

Eduardo Piccoli Machado. sugiro. chamando ao debate pecuaristas que possuem formação jurídica.entendo que o caminho não é de litígios individuais. onde se busque dentro de vários itens. a proibição de desconto por quebra de frio. quando nos encontram na mínima irregularidade. para agir em defesa da enorme coletividade de produtores rurais. E ainda. tutor dos interesses difusos. que incentive um debate. no mais alto nível. destas questões que afetam um conjunto enorme de produtores pecuários. devido ao conceito e penetração deste prestigiado site. a obrigação do fornecimento de Nota Promissória Rural na venda a prazo. Saudações. que posso dizer que são milhares neste país. olhando mais profundamente a situação entendo também que cabe hoje a intervenção do Ministério Publico. até mesmo proibindo a aquisição de matéria prima na modalidade de "rendimento". mas a regulamentação legislativa pela pressão social e política. para obrigar as indústrias a termos de conduta como firmamos quando somos fiscalizados por órgãos ambientais e trabalhistas. visto que garante ao produtor crédito privilégio na hipótese de quebra da empresa. ou quem sabe. Desta maneira. diante do poderio econômico e monopólio dos frigoríficos. . que sofrem os abusos econômicos e que também podem ser acionados pelos nossos sindicatos. hoje hiposuficientes.