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“A jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades relativa ao efeito directo da directiva comunitária”

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Teresa Leal Coelho
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Análise crítica de jurisprudência Coordenação: Professor Doutor e Meritíssimo Juiz Conselheiro Jorge Henrique da Cruz Pinto Furtado Curso para Doutoramento 2005/2007 Universidade Lusíada de Lisboa
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s 00205 e seg.Introdução “É imperioso construir um espécie de Estados Unidos da Europa.tes. a organização mais alargada só sobreviverá se a sua construção se apoiar em agrupamentos naturais coerentes. proc.. Trabuchi e Lecourt. para ter por recompensa felicidade em vez de sofrimento.europa.. E por que razão não poderá existir um agrupamento europeu capaz de conferir um sentido de patriotismo alargado e cidadania comum aos povos aturdidos deste continente poderoso e turbulento? E por que não haveria ele de ocupar o lugar a que tem direito.tes. Delvaux. os Juizes Donner. Riese Hammes.. fortalecem-na.s 00205 e seg... revista. 1963. 1963. 3 Acórdão Van Gend en Loos. afirmaram a existência de “uma nova ordem jurídica de direito internacional”3. 26/62. este é incumbido de uma dupla função: a de juiz nacional e a de juiz comunitário”5. Estes agrupamentos não enfraquecem a organização mundial. Existe já um agrupamento natural no Hemisfério Ocidental. in www.. a 19 de Setembro de 19461 A 5 de Fevereiro de 1963. são o seu principal alicerce.” Winston Churchil. 2 1 5 . 2005.. na Universidade de Zurique. 2ª ed. Pelo contrário.eu.. O processo é simples. Col. “50 anos de Europa”. assinado em Roma a 25 de Março de 1957. que “ao mesmo tempo que (ele direito comunitário) cria obrigações na esfera jurídica dos particulares. Basta a determinação de centenas de milhões de homens e mulheres empenhados em fazer o que está certo em vez de fazer o que está errado.. A partir de Van Gend en Loos4. Rossi. Na realidade. Tratado de Roma que institui a Comunidade Económica Europeia. no exercício da função de interpretação do Tratado de Roma2. 4 Acórdão Van Gend en Loos. 26/62. está também destinado a gerar direitos que entram no seu património jurídico” que “as jurisdições internas devem salvaguardar”. Britânicos temos a nossa própria “Commonwealth” de Nações. Lisboa. “Uma nova era começou para o juiz nacional nesse dia. pág. Parlamento Europeu. moldando os destinos dos homens?. Nós. Col. Não há qualquer motivo para que a existência de uma organização regional na Europa colida com a organização mundial das Nações Unidas. Antes pelo contrário. proc. pág. Só dessa forma centenas de milhões de trabalhadores poderão recuperar as alegrias e esperanças simples que dão sentido à vida.

o qual de acordo com a definição estabelecida pelo Tribunal comunitário significa que uma norma positivada de direito comunitário. a evitar que a “confusão” normativa pudesse desvirtuar a consolidação daquela ordem jurídica. 2003. Delimitação da problemática. Natureza jurídica das Comunidades Europeias. Esta formulação tem subjacente a ideia de que na maioria das situações controvertidas no âmbito da ordem jurídica comunitária o in “O Juiz nacional e o Direito Comunitário. Este princípio geral implica duas condições. 1. para ser efectivada quando estabeleça direitos aos particulares. a norma de direito comunitário tem que ser reconhecida enquanto tal pelo foro da respectiva aplicação. O efeito directo e o primado do direito comunitário. A necessidade de lhe conferir este estatuto prende-se com a problemática do “efeito útil” do direito comunitário. deve ser garantida pelos tribunais nacionais. usada pelo Tribunal de Justiça de forma constante. “law of the land”. 6 5 6 . Gomes.é. embora em domínios distintos. Desde cedo que o Tribunal de Justiça das Comunidades qualificou o princípio da aplicabilidade directa como um “princípio essencial da ordem jurídica comunitária”. Por outro lado. Esta expressão “efeito directo”. 1. a norma de direito comunitário está habilitada a conferir direitos aos particulares. Nesta matéria o conceito chave firmado pelo Tribunal de Justiça é designado por “efeito directo”6. Almedina. determinou a caracterização da nova ordem jurídica comunitária. i. com o objectivo de garantir plena e uniforme eficácia ao direito comunitário. 1º ed. à natureza jurídica das Comunidades Europeias determinada pela respectiva singularidade.1. sobretudo. José Luís Caramelo. enquanto elementos caracterizadores e estruturantes da ordem jurídica comunitária. Tal facto implicou a respectiva configuração de forma a garantir a plena e uniforme eficácia e. sobre os quais recai o dever de respeito e salvaguarda. Por um lado.é. nomeadamente. O dualismo de ordens jurídicas a operar no mesmo território e sobre os mesmos sujeitos. não pode ser encontrada nos tratados comunitários constitutivos. A questão enunciada reporta. a respectiva natureza jurídica deve ser reconhecida pelos tribunais nacionais. i.

Ou mesmo o Estado (em sentido amplo) pode querer fazer valer um direito que lhe assista. têm tido um tratamento autonomizado pelo Tribunal de Justiça. no caso Van Gend en Loos.que está em causa é a salvaguarda de um direito de um particular contra o Estado (efeito directo em sentido vertical ascendente). bem como determinado soluções diversas. contra um particular (efeito directo vertical em sentido descendente). 1. há muito que se encontra consolidada pela jurisprudência constante do Tribunal de Justiça das Comunidades. 2. Quanto a esta questão. conferido por uma norma de direito comunitário. em razão de norma comunitária. Embora a aplicabilidade directa do Tratado CEE7 (actualmente Tratado CE) não tenha sido expressamente consagrada no respectivo conteúdo. pág. no âmbito da formulação do efeito directo da directiva comunitária. Todas as situações referenciadas estão intimamente ligadas. No entanto. 7 O que for dito para o Tratado CE nesta matéria. que em nosso entendimento debilita a arrojada concepção relativa à natureza e caracterização da ordem jurídica comunitária. nalguns aspectos.tes. Col. um particular pode pretender fazer valer um direito. O princípio do efeito directo. no âmbito de uma das mais relevantes e expressivas decisões do Tribunal de Justiça.1963. É precisamente esta questão que será objecto de apreciação crítica no âmbito do presente trabalho. proc. o Tribunal comunitário enunciou os critérios que determinam o efeito directo das normas consagradas pelo Tratado de Roma. 8 Acórdão de 5 de Fevereiro de 1963. 26/62. vale para apreciação da natureza jurídica da CEEA e da CECA enquanto o Tratado de Paris se manteve em vigor. o Tribunal de Justiça das Comunidades tem vindo a firmar uma jurisprudência constante. Iremos analisar a evolução jurisprudencial sobre a questão específica do efeito directo da directiva comunitária. contra outro particular (efeito directo em sentido horizontal). A questão é particularmente relevante.s 00205 e seg. o Acórdão de 5 de Fevereiro de 1963. 7 . enquadrada pela jurisprudência do Tribunal de Justiça relativa à caracterização das Comunidades Europeias. processo 26/628. A natureza das Comunidades Europeias. nomeadamente no que respeita aos instrumentos de salvaguarda do “efeito útil” do direito comunitário. Desde logo. No entanto.

é susceptível de garantir aos particulares o direito de respeito. se os cidadãos de Estados-membros. o Tribunal de Justiça afirmou a autonomia do direito comunitário e. nomeadamente do Tratado de Roma. no processo Simmenthal. produz efeito directo no território dos Estados-membros. da cláusula “stand still” que estabelecera para o período transitório até à abolição dos direitos aduaneiros entre os Estadosmembros. pelos Estados. podem reclamar direitos individuais que os tribunais nacionais têm que garantir?” O art. 106/77. 25 do Tratado CE. 8 . detentor de jurisdição não recorrível. No processo Van Gend en Loos. a quem os serviços alfandegários holandeses haviam exigido o pagamento de direitos aduaneiros em valor superior aos que incidiam sobre o produto importado à data da entrada em vigor do Tratado CE. sem que o respectivo teor aparente vise os particulares.tes. Perante o que. fundando-se no referido art. Col. in fine. embora não tenha enunciado uma noção de aplicabilidade directa. 9 10 Acórdão de 9 de Março de 1978. 12 do Tratado CEE (actual art. 12 do Tratado de Roma. noutras palavras. no Acórdão de 9 de Março de 1978. de referência incontornável. colocou ao Tribunal de Justiça.” Um importador holandês. Embora com nova redacção. 12 do Tratado CEE. solicitando a devolução do montante que excedia o valor devido por aplicação das taxas vigentes à data da entrada em vigor do Tratado CEE. hoje reformulado nos termos do art. 1978. pág. com base na norma em questão. proc. dispunha: “Os Estados-membros abster-se-ão de introduzir entre si novos direitos aduaneiros de importação e de exportação ou encargos de efeito equivalente e de aumentar aqueles que já se aplicam nas suas relações comerciais mútuas. um tribunal administrativo holandês. o que veio a fazer pela primeira vez. a título prejudicial. 25 do Tratado CE10). reclamou para a jurisdição holandesa competente (Tarief Comissie). a Tarief Comissie suscitou junto do Tribunal de Justiça a questão de saber se uma norma do Tratado de Roma formulada em termos expressamente dirigidos aos Estadosmembros.9 enunciou os critérios que determinam o efeito directo das normas comunitárias. a seguinte questão: “O art.s 243 e seg.Neste Acórdão.

o direito comunitário. ainda. cuja finalidade é a de assegurar a unidade na interpretação do Tratado pelas jurisdições nacionais – confirma que os Estados-membros reconheceram ao direito comunitário uma autoridade susceptível de ser invocada pelos respectivos nacionais perante essas jurisdições. fundador desta concepção relativa à natureza jurídica das Comunidades. independente das legislações nacionais. que tais direitos surgem não somente quando o Tratado explicitamente os atribui mas também por força de obrigações que o Tratado impõe de maneira bem definida. concluiu que o art. Perante a questão suscitada. o Tribunal de Justiça no caso Van Gend en Loos. e de forma mais concreta. justifica enunciar algumas das suas passagens mais expressivas. 12 do Tratado CEE. tanto aos particulares como aos Estados-membros e às Instituições Comunitárias…”. o papel do Tribunal de Justiça. do mesmo modo que cria obrigações para os particulares é igualmente destinado a originar direitos que integram o seu património jurídico. mas também os seus cidadãos. 12 (reformulado para o actual 25 do Tratado CE) do Tratado CEE. 177 (actual 234 do Tratado CE) do Tratado CEE. procedendo ao reenvio prejudicial da questão de interpretação do art. no quadro do art.” “Que. além disso.Foi este o enquadramento que levou a Tarief Comissie a suspender a instância. além dos Governos. o Tribunal de Justiça no seu Acórdão de 5 de Fevereiro de 1963. Suportando-se na concepção enunciada. pela criação de órgãos que institucionalizam direitos soberanos e cujo exercício afecta tanto os Estados-membros como os seus cidadãos. afirmou: “A Comunidade está endossada de direitos de soberania.” “Que. 9 .” Neste Acórdão o Tribunal de Justiça diz. no exercício dos quais afecta os Estados-membros. visa os povos. nomeadamente: “Que esta concepção se acha confirmada pelo preâmbulo do Tratado que. que os Estados-membros “limitaram os seus direitos de soberania em determinados domínios” pelo que o direito comunitário está habilitado a conferir direitos aos particulares “que irão integrar o seu património jurídico”. por isso. A importância do Acórdão Van Gend en Loos.

”11 Quanto aos requisitos da norma que determinam o respectivo efeito directo. Desde logo. Quanto ao requisito da clareza foi derrogado pelo argumento de que. Em casos posteriores. Com a jurisprudência subsequente. Quanto ao terceiro requisito mencionado. de que apenas as obrigações negativas geravam efeito directo. a jurisprudência constante do Tribunal de Justiça desenvolveu-se no sentido de considerar 11 Processo 26/62.s 205 e seg. foi suplantado pela evolução daquela concepção no sentido do reconhecimento do efeito directo das normas dos tratados comunitários que imponham aos Estados-membros quaisquer obrigações positivas ou negativas. 1. art.tes. o Tribunal enunciou nesta primeira fase. A natureza intrínseca desta proibição confere-lhe as qualidades inerentes à determinação do respectivo efeito directo. que não constitui uma obrigação positiva. esta eventual fragilidade da norma é anulada pela competência de interpretação do direito comunitário atribuída ao Tribunal de Justiça. 12 10 . 1963. que a respectiva operacionalidade não dependesse de normas posteriores comunitárias ou nacionais. ao alcance e à extensão da norma. 220 e 234. mas sim negativa. No direito comunitário. pág. para os Estadosmembros. as condições exigidas para a verificação do efeito directo da norma tornaram-se menos restritivas.. Col. que a norma fosse clara e sem elevado grau de ambiguidade. permitindo interpretações diversas. 2. Competência cujo exercício o Tribunal comunitário não pode omitir . Da interpretação da norma comunitária pelo Tribunal de Justiça resulta uma apreciação clara quanto ao sentido. o considerando subjacente ao Acórdão Van Gend en Loos.sob pena de denegação de justiça12. Esta obrigação negativa não surge acompanhada de qualquer reserva que a condicione à adopção de medidas nacionais ou comunitárias complementares. 3. a falta de clareza caracteriza com frequência normas de complexos normativos de qualquer ordem jurídica. que a norma fosse incondicional. em anexo.“. Tratado CE. esta concepção sofreu alterações no sentido do respectivo aprofundamento.contém uma proibição clara e incondicional.

1964. a incondicionalidade. cuja redacção tinha o seguinte teor: “Cada Estado-membro deve durante o primeiro período adoptar. 11 . a jurisprudência constante do Tribunal de Justiça.que. 15 Acórdão de 15 de Julho de 1964. Col.s 564 e seg. O Tribunal de Justiça pronunciou-se sobre esta norma. No entanto. Assim. 119 (actual art. considerando que o efeito directo não deixa de ser qualidade da norma.tes. n.s e seg. que perdura até hoje. Reformulado pelo Tratado de Amsterdão para a actual versão do art. Efectivamente. a aplicação do princípio de que homem e mulher devem receber igual pagamento para igual trabalho. apenas.15 o Tribunal caracterizou o Tratado de Roma. que o efeito directo da norma é diferido no tempo sempre que a norma estabelece um prazo limite. embora a sua produção seja diferida para o momento fixado pela norma. “ Esta norma determina uma obrigação de agir para os Estadosmembros. pág. pág. no sentido de adoptarem as acções adequadas a garantir os princípios da igualdade e da não discriminação de género nas relações laborais. Van Gend en Loos. 2. No caso Defrenne v. 1. proc. conferindo ao efeito directo um sentido menos restritivo do que aquele que havia sido inicialmente formulado por este Acórdão pioneiro. para o efeito estabelece um prazo: o fim do primeiro período de transição.tes. 141 do Tratado CE) do Tratado CEE14. 6/64. No processo 6/64. 1976. apesar da exigência de uma acção nacional posterior. Sabena13. diferenciando-o quanto à 13 14 Acórdão de 1976. a concepção relativa à natureza jurídica das Comunidades Europeias foi objecto de diversas e estruturantes decisões adoptadas pelo Tribunal de Justiça das Comunidades. o efeito directo se verifica. O mesmo juízo vale para os casos em que a norma estabelece uma obrigação de acção dirigida às Instituições Comunitárias. fixando um prazo para o efeito. 141º do Tratado CE. que gerou o Acórdão Costa / Enel. A jurisprudência constante veio reafirmar e aprofundar a concepção enunciada no seu Acórdão de 5 de Fevereiro de 1963. e subsequentemente manter. firmou-se na determinação de dois requisitos da norma enquanto condição de efeito directo. A precisão. proc. o Tribunal de Justiça pronunciou-se sobre o efeito directo do art. Significa.º 43/75. nos casos em que a operacionalidade da norma está dependente de normas posteriores comunitárias ou nacionais. Col.

art. de capacidade de representação internacional e. O Tribunal de Justiça acabou por admitir esta posição. tomando como referência o sentido em que evoluiu. ainda que aquela não seja precisa e incondicional.18 por outro. pelos tribunais constitucionais sobre matéria 16 12 . os seus direitos soberanos. uma norma parâmetro de normas nacionais de implementação. 1976. 234 (inicialmente art. Col. dos restantes tratados internacionais.condicionado o desenvolvimento conceptual relativo à natureza das Comunidades Europeias. carece de interpretação para validação da norma aplicável. ainda que em domínios restritos. Uma Comunidade de duração ilimitada. vide. implique o considerando de que o reenvio para interpretação de normas constantes dos Tratados e/ou dos actos de direito derivado pressupõe o efeito directo das normas objecto de interpretação. permitiria perspectivas decorrentes de anseios nacionalistas. por um lado. O princípio do efeito directo.respectiva natureza jurídica. A transferência de soberania operada pelos Estados. 17 Nomeadamente os Estados. 111/75. mais precisamente. embora constitua um pilar essencial das Comunidades enquanto valor essencial desta nova ordem jurídica. Porventura. de poderes reais decorrentes de uma limitação de competências ou de uma transferência de atribuições dos Estados para a Comunidade…. de personalidade jurídica.” A determinação da natureza jurídica das Comunidades. tal solução permitiria interpretações diversas e. das suas ordens jurídicas internas para a ordem jurídica comunitária. nomeadamente. dotada de atribuições próprias. não se encontram expressos nos Tratados constitutivos. bem como a enunciação dos princípios fundamentais. pág. 18 Tal diversidade de posições resulta comprovada pelas interpretações distintas que têm vindo a ser formuladas pelos tribunais nacionais e. previsto no Tratado de Roma. dos direitos e obrigações correspondentes às disposições dos tratados implica uma limitação definitiva dos seus direitos soberanos contra a qual não poderá prevalecer um acto unilateral posterior incompatível com a noção de Comunidade. os autores dos Tratados17 assumiram que seriam os tribunais nacionais que iriam decidir sobre esta matéria. essenciais à respectiva consolidação. Por um lado a prática do Tribunal desenvolveu-se no sentido da interpretação de normas que não gozam de efeito directo. Por outro lado. 177 do Tratado CEE). Isto porque. proc. não tem formulação nos Tratados16. Fê-lo nos seguintes termos: “Uma ordem jurídica própria …. Não pode ser considerado que o reenvio a título prejudicial. Acórdão Mazzalai.” Continua este Acórdão fundamental para a caracterização da ordem jurídica comunitária: “Os Estados limitaram.s 657. Embora o Tribunal de Justiça tenha utilizado este argumento. e criaram um corpo de direito aplicável aos seus cidadãos e a si próprios…. Esta solução teria provavelmente . o mesmo é facilmente refutado.

foi o Tribunal de Justiça que. Embora os Tratados constitutivos das três Comunidades Europeias sejam também omissos no que respeita à consagração do princípio do primado do direito comunitário. i.é. Acresce que as concepções liberais que têm presidido. desde cedo o Tribunal de Justiça afirmou o carácter essencial do primado enquanto decorrência da aplicabilidade directa e enquanto relativa à natureza das Comunidades e à problemática das relações entre o direito comunitário e o direito nacional. por regra. O Tribunal de Justiça menciona pontualmente o objectivo de consagração e preservação da “qualidade da ordem jurídica comunitária”. 1. 13 . Esta orientação firmada pelo Tribunal de Justiça respeitante à natureza jurídica das Comunidades é consolidada com a formulação do princípio do primado do direito comunitário. determinam a qualificação dos meios de acção do âmbito da jurisdição pelo Tribunal comunitário como instrumentos de tutela efectiva dos direitos dos particulares. tal como as interpretou. esta inversão de lógica constituiu um extraordinário desenvolvimento para a consolidação da natureza das Comunidades. ao sentido da formulação jurisprudencial pelo Tribunal de Justiça. hoje essencialmente formulada pela jurisprudência constante do Tribunal de Justiça. em razão da dinâmica imprimida no seio das Comunidades. Se o juízo afirmado no parágrafo anterior é verdadeiro. das quais decorrem concepções personalistas assentes no princípio do primado da pessoa humana. O princípio do primado do direito comunitário. assumiu a respectiva jurisdição nesta matéria. O impulso dado pela jurisprudência do Tribunal comunitário é de grande importância para a caracterização da ordem jurídica comunitária.O facto é que. 3. afere-se justamente pela plena eficácia. no exercício das suas competências. visada pelo Tribunal de Justiça. A qualidade da ordem jurídica comunitária. por razões de cariz essencialmente político sobejamente conhecidas. Este posicionamento ideológico programático tem vindo a implicar um desenvolvimento das concepções relativas à natureza e à caracterização da ordem jurídica comunitária no sentido da implementação de uma ordem jurídica de qualidade. capacidade de salvaguarda efectiva dos direitos dos particulares.

através do Acórdão. declarou: “A aplicabilidade directa. Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 9 de Março de 1978. assim perspectivada. proc. a não aplicação de qualquer norma de direito interno que as contrarie. No âmbito do Processo n.º 106/77 / SimmenthaI. o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias colocado perante a questão relativa às consequências da aplicabilidade directa de uma disposição de direito comunitário. 106/77. pág.tes. a partir da sua entrada em vigor e durante todo o período da respectiva vigência.s 629 e seg. Col. Ao formular o princípio do primado do direito comunitário. Assim. implica que as normas de direito comunitário produzam a plenitude dos seus efeitos. 19 V. quer se trate de Estados-membros ou de particulares que sejam titulares de relações jurídicas às quais se aplique o direito comunitário”. no âmbito das suas competências. por aplicar o direito comunitário. Trata-se de uma garantia do foro da necessidade de preservar o “efeito útil” do direito comunitário. de modo uniforme em todos os Estados membros. por autoridade própria. tem obrigação de assegurar. Sem os princípios do efeito directo e seu corolário primado a plena eficácia do direito comunitário seria inviável. 1978. de 9 de Março de 197819. ainda que tal norma seja posterior. Trata-se de uma manifestação essencial à sustentação do princípio da legalidade comunitária. o Tribunal de Justiça visou assegurar uma protecção jurídica efectiva dos particulares como garante do efeito directo da norma comunitária. se necessário for. 14 . Ainda no âmbito do Acórdão Simmenthal. sem que tenha de solicitar ou esperar a prévia eliminação da referida norma por via legislativa ou por qualquer outro processo constitucional”. em caso de incompatibilidade com uma norma interna.pressuposto dos princípios da interpretação uniforme e da interpretação conforme do direito comunitário. traduzido na prossecução da plena e uniforme eficácia do direito comunitário em todo o espaço territorial que lhe está subjacente. estas disposições constituem uma fonte imediata de direitos e obrigações para todos os seus destinatários. o Tribunal comunitário concluiu: “o juiz nacional responsável.

a ordem jurídica aplicável no território dos Estados-membros – impedir a formação de novos actos legislativos nacionais. ou prática legislativa.”20 Nestes termos firmados pelo Tribunal de Justiça das Comunidades. A aplicabilidade directa dos regulamentos comunitários. na medida em que estes sejam incompatíveis com normas comunitárias. “…por força do princípio do primado do direito comunitário. 1. que tenha por consequência a diminuição da eficácia do direito comunitário. o Conselho e a Comissão adoptam regulamentos e directivas. considerou “.. Assim o efeito directo traduz-se na qualidade inerente à norma comunitária de ser invocada em juizo por quem tenha interesse legítimo (pressuposto de recorribilidade do âmbito da legitimidade activa) na norma. pág. proc. qualquer norma na ordem jurídica interna. mas também – e uma vez que essas disposições e actos integram. 249 do Tratado CE.”21 Acórdão de 9 de Março de 1978.tes. 106/77. está habilitado a produzir efeito directo. tomam decisões e formulam recomendações ou pareceres. incompatível com as exigências inerentes à própria natureza do direito comunitário. ainda no Acórdão citado (n..s 629 e seg. Todo o direito comunitário.De facto. Art.”. que o Tribunal de Justiça da Comunidades Europeias. nomeadamente precisão e incondicionalidade.ºs 22 e 23).. É obrigatório em todos os seus elementos e directamente aplicável em todos os Estados-Membros. o Parlamento Europeu em conjunto com o Conselho. com posição de precedência.. 1978. Veja-se. qualquer norma de direito interno que lhes seja contrária. É obrigatório em todos os seus elementos e directamente aplicável em todos os Estados-Membros. O art. não apenas tornar inaplicável de pleno direito. nas suas relações com o direito interno dos Estados-membros. originário ou derivado. desde que preencha os requisitos que o determinam. O regulamento tem carácter geral. devido ao simples facto da sua entrada em vigor. no que respeita ao regulamento comunitário. a utilidade do efeito directo é incompatível com a existência de obstáculos à respectiva efectivação. as disposições do Tratado e os actos das Instituições comunitárias que sejam directamente aplicáveis têm por efeito. 249 do Tratado CE: “Para o desempenho das suas atribuições e nos termos do presente Tratado. não são apenas as normas contidas nos tratados comunitários que se caracterizam pelo efeito directo. administrativa ou judicial. . Col. 4. estabelece: “O regulamento tem carácter geral. 20 21 15 .

deixando. Os regulamentos do Conselho e da Comissão. deixando. Note-se. na falta desta. Isto porque o próprio regulamento pode estabelecer condições de aplicação. Porém. que o efeito directo do regulamento comunitário não será necessariamente imediato. Ao contrário do que acontece com o regulamento comunitário “…. 1. Os regulamentos. 249 do Tratado CE. na falta desta. no entanto. condicionada à publicação no jornal oficial comunitário22. cuja formulação será abordada em 1. 5.o são assinados pelo Presidente do Parlamento Europeu e pelo Presidente do Conselho e publicados no Jornal Oficial das Comunidades Europeias.2.” 22 Artigo 254.” As diferenças essenciais entre regulamento e directiva poderão assim ser sistematizadas em quatro pontos: a) O efeito directo da directiva. directivas e decisões adoptados de acordo com o procedimento a que se refere o artigo 251. como aliás acontece na ordem jurídica nacional no que respeita aos actos com carácter obrigatório geral. As recomendações e os pareceres não são vinculativos. A decisão é obrigatória em todos os seus elementos para os destinatários que designar.6.Nestes termos é o próprio Tratado de Roma que atribui aplicabilidade directa ao regulamento comunitário. às instâncias nacionais a competência quanto à forma e aos meios…. Naturalmente que não há exigência de publicação no jornal oficial nacional. no entanto. a eficácia do regulamento está na ordem jurídica comunitária. entrando em vigor na data por eles fixada ou. Distinção entre regulamentos comunitários e directivas comunitárias. só opera decorrido o prazo de transposição da directiva e nos casos em que há incumprimento ou cumprimento defeituoso da directiva pelo A directiva vincula o Estado-Membro destinatário quanto ao resultado a alcançar.É obrigatório em todos os seus elementos e directamente aplicável em todos os Estados-membros…”. assim como as directivas destas instituições dirigidas a todos os Estados-Membros. no vigésimo dia seguinte ao da publicação. Se assim fosse estaria negada a aplicabilidade directa em sentido formal do regulamento. Aquilo que distingue regulamentos comunitários das directivas comunitárias está expresso no já mencionado art. no vigésimo dia subsequente ao da publicação. do presente trabalho. às instâncias nacionais a competência quanto à forma e aos meios. a directiva comunitária “….o do Tratado CE: 1. no entanto. são publicados no Jornal Oficial das Comunidades Europeias e entram em vigor na data por eles fixada ou. 16 .vincula o Estado-Membro destinatário quanto ao resultado a alcançar.

Se os Estados-membros cumprirem todas as suas obrigações impostas pelo direito comunitário. 249 do Tratado CE. No entanto. d) A directiva comunitária não tem carácter geral. Quanto à directiva o efeito directo tem natureza excepcional. 254º do Tratado CE. Por seu lado. no que respeita à directiva cabe ao Estado-membro a escolha da forma e dos meios que considere adequados à prossecução do(s) objectivo(s) por ela fixados24. b) No que respeita ao regulamento. Pelo contrário. o Tribunal de Justiça sustentou-se num conjunto de outros princípios para colmatar a fragilidade da posição firmada. Efectivamente. e se nomeadamente implementarem as directivas nos termos e nas condições fixados pelos tratados comunitários e pela própria directiva. provavelmente. O reconhecimento do efeito directo da directiva constitui. fornecendo aos particulares outros instrumentos e/ou meios de ressarcimento pela não efectivação através do efeito 23 24 Vide art. alguns Estados ou todos os Estados. O efeito directo das directivas comunitárias. o Estado-membro não está normalmente habilitado a intermediar a produção do efeito directo do regulamento comunitário. um dos maiores passos dados pelo Tribunal de Justiça. para a consolidação da efectividade do direito comunitário. A directiva opera enquanto instrumento de harmonização legislativa. o regulamento produz efeito directo a partir do respectivo início de vigência23. Está na sua génese associada ao princípio da subsidiariedade. a questão do efeito directo da directiva não se coloca. o reconhecimento do efeito directo da directiva ficou manifestamente aquém das arrojadas concepções formuladas pelo Tribunal de Justiça no âmbito da caracterização da ordem jurídica e dos princípios que lhe são essenciais e estruturantes. Vide Art. 1. 6. a jurisprudência constante do Tribunal de Justiça firmou-se numa concepção restritiva quanto ao efeito directo da directiva.Estado destinatário. 17 . Consciente desta realidade. Tem como destinatário o Estado. que como veremos reconhece exclusivamente no sentido vertical ascendente. c) O efeito directo do regulamento é característica inerente à sua natureza e função.

respeitante a um reenvio prejudicial efectuado pelo Finanzgericht Munchen. por outro. O Tribunal de Justiça. a disposição segundo a qual as decisões são obrigatórias em todos os seus elementos para os destinatários permite suscitar a questão de saber se a obrigação que decorre da decisão pode apenas ser invocada pelas instituições comunitárias contra aqueles destinatários ou poderá eventualmente sê-lo por qualquer pessoa interessada no cumprimento daquela obrigação. Designadamente. proc. através do qual questiona o Tribunal de Justiça sobre o efeito directo combinado das disposições contidas numa decisão e numa directiva. tivessem obrigado um Estado-membro ou todos os Estados-membros a adoptar um determinado comportamento. 9/70. afirmou: “Nas suas observações. ficando tais efeitos reservados aos regulamentos. ao distinguir entre os efeitos dos regulamentos. no Acórdão Grad25. e os das decisões e das directivas. isto não implica que outras categorias de actos referidos por aquele artigo não possam produzir efeitos análogos. por meio de uma decisão. o art. 249 do Tratado CE. mas sobretudo o instituto da responsabilidade patrimonial do Estado pelos danos provocados em resultado da violação do direito comunitário. 189 (actual 249 do Tratado de Roma26) teria excluído a possibilidade de as decisões e directivas acarretarem os efeitos visados na questão formulada. pág. por um lado. Especialmente nos casos em que as autoridades comunitárias. como adiante resultará desenvolvido. Seria incompatível com o efeito vinculativo que o art.s 511 e seg.tes. 18 . 189 que os regulamentos são directamente aplicáveis e. Col. Contudo. 1970. Art. se resulta da disposição do art.directo dos direitos consagrados nas directivas. o Governo federal (da Alemanha) sustentou a opinião de que. 189 reconhece à decisão negar por princípio que a obrigação que ele impõe possa ser invocada pelas pessoas a quem diz respeito. por natureza susceptíveis de produzir efeitos directos. o efeito útil de um tal acto seria grandemente atenuado se os particulares desse Estado se vissem impedidos de 25 26 Acórdão de 6 de Outubro de 1970. consequentemente. o princípio da interpretação conforme. São eles.

tes. pág. 1974. Col. desvalorizam o critério formal subjacente ao art. Relatório H. a mais significativa decisão do Tribunal comunitário relativa ao efeito directo da directiva surge com o Acórdão Van Duyn. 9/70. pág.s 567 e seg. referindose à Directiva 68/31 da Comissão.tes. 1969/1970. pág. Col. afirmou: “Uma Directiva cuja finalidade é fixar a um Estado-membro uma data limite para o cumprimento de uma obrigação comunitária não diz respeito somente às relações entre a Comissão e esse Estado. 30 Acórdão de 4 de Dezembro de 1974. 33/70.dele se valerem em juizo e os órgãos jurisdicionais nacionais impedidos de o tomar em consideração como elemento do direito comunitário. no Acórdão Sace27.30.s 511 e seg. proc.” Relativamente à problemática do apuramento do efeito directo da norma comunitária. nesta fase ainda na seguinte formulação: “Esta obrigação é assim incondicional e suficientemente clara e precisa para se poder considerar como susceptível de produzir efeitos directos nas relações entre os Estados-membros e os particulares29. Neste âmbito. 1974. Col. como os particulares. 1970. Desta forma. proc. Grad. 41/74..” No entanto. Mayers. estes dois Acórdãos Grad e Sace. o Tribunal comunitário tornou a reafirmar os critérios determinantes do efeito directo da norma. proc. 27 28 Acórdão de 17 de Dezembro de 1970. pág. proc. eles próprios interessados no cumprimento. Col. 41/74. sustentando que o efeito directo da norma comunitária de direito derivado deverá ser aferido pela própria natureza da norma em apreciação. 249 do Tratado CE.s 685 e seg.” Por outro lado. 19 . 29 Acórdão de 6 de Outubro de 1970. adoptados sucessivamente a 6 de Outubro e a 17 de Dezembro de 1970. 580. Os Acórdãos Grad e Sace constituem um claro avanço na consolidação do efeito directo como valor essencial da ordem jurídica comunitária. o Tribunal de Justiça. mas tem também consequências jurídicas de que se podem prevalecer tanto os outros Estados-membros.tes. o Tribunal de Justiça ultrapassa as categorias jurídicas formais28. quando pela sua própria natureza a disposição que estabelece essa obrigação seja directamente aplicável.

A livre circulação dos trabalhadores fica assegurada na Comunidade.” Esta decisão foi tomada de acordo com a posição definida pelo Governo do Reino Unido em 1968. sem prejuizo das limitações justificadas por razões de ordem pública. à remuneração e demais condições de trabalho. 20 . invocando o direito a permanecer em território britânico. segurança publica e saúde pública. Acórdão Van Duyn. a título prejudicial. o Tribunal de Justiça das Comunidades foi consultado. que considerou então – e continuava a considerar em 1973 – as actividades da Igreja da Cientologia como socialmente danosas (“socially harmful”). o direito de: a) Responder a ofertas de emprego efectivamente feitas. designadamente. entre dos Estados membros. A livre circulação dos trabalhadores compreende. cuja sede se localizava em East Grinstead. 2 A livre circulação dos trabalhadores implica a abolição de toda e qualquer discriminação em razão da nacionalidade. O motivo que determinou a proibição de entrada no Reino Unido ficou expresso no documento de expulsão. no Reino Unido. no que diz respeito ao emprego.No processo 41/74. Perante a declaração prestada por Yvonne van Duyn. Perante os serviços de fronteira declarou que iria ocupar o cargo de secretária na Igreja da Cientologia da Califórnia. para o efeito. desembarcou a 9 de Maio de 1973 no aeroporto de Gatwick. 48 (actual 39 do Tratado CE31) do Tratado CEE 31 Art. pelo “High Court” de Londres sobre as seguintes questões: a) Efeito directo do art. c) Residir num dos Estados-membros a fim de nele exercer uma actividade laboral. cidadã holandesa. no território dos Estados-membros. 3. Os factos que deram origem ao reenvio a título prejudicial são os seguintes: Yvonne van Duyn. 48 (actual 39 do Tratado CE) do Tratado CEE. em Saint Hill Manor. o Secretário de Estado considera inoportuno autorizar a entrada no Reino Unido de qualquer pessoa que trabalhe para essa organização ou que se encontre ao seu serviço. 39 do Tratado CE: “1. “Solicitou uma autorização para entrar no Reino Unido com o objectivo de ocupar um emprego ao serviço da Igreja da Cientologia. b) Efeito directo da Directiva 64/221/CEE do Conselho. no Condado de Sussex. Perante a decisão do Home Office britânico. Yvonne van Duyn apresentou queixa perante a Chancery Division do High Court de Londres. o serviço de imigração decretou a sua expulsão imediata para os Países Baixos. c) Segurança pública e noção de comportamento pessoal. fundando-se no regime da livre circulação de trabalhadores instituído pelo art. b) Deslocar-se livremente.

no n. 48 (actual 39 do Tratado CE) do Tratado CEE. regulamentares e administrativas que regem o emprego dos trabalhadores nacionais. pelo que nos termos do art. no comportamento pessoal do indivíduo em causa. 3º1.” 21 . Foi neste enquadramento. por razões de ordem pública. ainda. é directamente aplicável. 3º da Directiva 64/221/CEE32 para a coordenação das medidas especiais relativas a estrangeiros em matéria de deslocação e estada justificadas por razões de ordem pública. o High Court pergunta ao Tribunal de Justiça se.º 1. do art. O n. 48 (actual 39 do Tratado CE) do Tratado CEE. c) A terceira questão reporta à interpretação das normas invocadas. O disposto no presente artigo não é aplicável aos empregos na administração pública. 3º da Directiva 64/221/CEE do Conselho. b) Na segunda pergunta-se ao Tribunal de Justiça se a Directiva 64/221/CEE do Conselho. segurança pública e saúde pública. materializando na respectiva esfera jurídica o direito de a invocar perante os tribunais nacionais. nas condições que serão objecto de regulamentos de execução a estabelecer pela Comissão.e. do art. invocada por Yvonne van Duyn. Neste âmbito. que o High Court entendeu ter dúvidas quanto a três questões relativas aos efeitos e à interpretação das normas comunitárias em apreciação. pode considerar relevante para a referida noção de comportamento pessoal os seguintes factos: em conformidade com as disposições legislativas. segurança pública e saúde pública. 4. i. justificadas por razões de ordem pública. por um estrangeiro no exercício da livre circulação de trabalhadores. As medidas de ordem ou de segurança pública devem fundamentar-se. 3º da Directiva 64/221/CEE determina que as derrogações ao direito de permanecer no território de um Estadomembro. se devem basear “no comportamento pessoal do indivíduo”. exclusivamente. 177 (actual 234 do Tratado CE) do Tratado CEE. recusar a entrada no território nacional a um cidadão comunitário com base no seu comportamento pessoal. por outro lado o art. suspendeu a instância e procedeu ao reenvio prejudicial das três questões que considerou pertinentes para o juizo: a) A primeira refere-se ao efeito directo do art. d) Permanecer no território de um Estado-membro depois de nele ter exercido uma actividade laboral.é. “caso a autoridade competente de um Estadomembro para decidir.º 1. por um lado o art. se confere direitos aos particulares.” 32 Directiva 64/221/CEE do Conselho: “Art.

s e seg. isto é. 22 . quando os nacionais que exercem uma actividade análoga não estão sujeitos a qualquer tipo de restrição. sem que todavia sejam proibidas pela legislação desse Estado-membro. Col. exercer uma actividade ao serviço dessa organização. pág. Foi essa mesma a argumentação inscrita nas conclusões pelo advogado-geral H. vide Acórdão de 1976. A circunstância de a pessoa em causa pretender. a aplicação da norma comunitária não deve estar sujeita a qualquer regulamentação posterior. a jurisprudência ainda não tinha evoluído no sentido de fazer cessar a exigência de clareza como requisito para o efeito directo da norma comunitária. não nos ocupará muito tempo. existirem algumas excepções. supra 1. Col.. quer dos Estados-membros.. todavia. Acórdão Van Duyn. nota 8. de forma a que estes não disponham de um verdadeiro poder de apreciação discricionária quanto à aplicação da norma em causa36. meus senhores. . proc. A circunstância da pessoa em causa ser ou ter sido membro de uma organização cujas actividades são consideradas pelo Governo do Estado-membro como contrárias ao interesse público. pág. suscitada.1. 1974. Desde há muitos anos que os critérios elaborados pela jurisprudência do Tribunal para determinar se uma disposição do direito comunitário – nomeadamente uma norma do Tratado de Roma – é directamente aplicável.2. . por terem 33 34 Vide capítulo 1.a disposição deve impor aos Estados-membros uma obrigação clara35 e precisa. se. a jurisprudência ainda não tinha evoluído no sentido de fazer cessar a exigência deste requisito para o efeito directo da norma comunitária.. 48.deve ser incondicional. não ser acompanhada de qualquer tipo de reserva. 1976.2. 35 À data do Acórdão Van Duyn.. se encontram claramente determinados: . parte da qual já foi enunciada e descrita no presente trabalho33. 2.tes. (actual 39 do Tratado CE) que se contam entre as mais importantes do Tratado. 579.O facto de as disposições do art. quer das instituições comunitárias.” Quanto à primeira questão. (supra a)).” “. no território do Estado-membro. devem ser rigorosamente definidas e delimitadas. no sentido de conferir aos particulares determinados direitos que podem ser invocados em juízo. 36 À data do Acórdão Van Duyn. o órgão jurisdicional nacional poderia ter recorrido à jurisprudência anteriormente firmada pelo Tribunal de Justiça relativa ao efeito directo do Tratado de Roma.por fim. Mayers34: “A primeira questão. 43/75.

na esfera jurídica dos interessados. proc. 1973. neste ponto. De qualquer forma. de 4 de Abril de 1974. 48 do Tratado de Roma. 1972. 48. ainda. 9/73. 23 . pág.à data do reenvio em apreciação o Tribunal de Justiça havia já elaborado jurisprudência clara e suficiente reportando ao efeito directo do Tratado de Roma. Para além da jurisprudência constante já mencionada supra.tes. Col. proc. uma vez que o despacho de reenvio data do passado dia 1 de Março.” “Se o juiz do High Court tivesse conhecimento deste Acórdão quando decidiu submeter ao Tribunal o presente pedido de decisão prejudicial. 48 do Tratado de Roma e do Regulamento n. proc. relativa ao efeito directo da Directiva 64/221/CEE do Conselho. Col. e. não concordamos com a necessidade de conhecimento do Acórdão de 4 de Abril de 1974. 167/73. Compreende-se que tenha considerado necessário fazêlo.”37 “Nesta decisão. sendo as disposições do art.s 21 a 24/72.como objecto estabelecer a liberdade de circulação dos trabalhadores assalariados.. França.s 423 e seg. satisfazerem estes critérios deixou de poder ser objecto de qualquer dúvida após o Acórdão também recente. a qual permitiria sustentação sólida sobre o efeito directo do então art. Relativo ao emprego de trabalhadores migrantes. o advogado-geral H. direitos que as autoridades nacionais devem respeitar e salvaguardar. Mayers. Acórdão de 24 de Outubro de 197340. Sobre a segunda questão. Schluter. o Tribunal afirmou precisamente que. pág.s 407 e seg. pág. criam. processos 21 a 24/7239. é provável que tivesse renunciado a colocar a primeira questão. 187. tes. na medida em que – embora interpretando outras normas do Tratado de Roma . 40 Acórdão de 24 de Outubro de 1973. o problema encontra-se resolvido e bastará o Tribunal confirmar. data anterior aquela em que o Tribunal expressamente consagrou o efeito directo do art. 39 Acórdão de 12 de Dezembro de 1972. Col.º 1612/6838 directamente aplicáveis na ordem jurídica de qualquer Estado-membro. podem juntar-se os Acórdão de 12 de Dezembro de 1972. Mayers considerou: 37 38 Acórdão Comissão v. o Acórdão do passado dia 4 de Abril” No que respeita ao teor deste último trecho das conclusões do advogado-geral H. 1074..

Col. os Acórdão Grad e Sace supra referenciados41. de 25 de Fevereiro de 1964.tes. na medida em que deixam aos Estados a escolha dos meios para a sua execução. 48 (actual 39 do Tratado CE) do Tratado CEE tem efeito directo nas ordens jurídicas dos Estados-membros e confere aos particulares direitos que os órgãos jurisdicionais nacionais devem salvaguardar. a natureza e a sistemática das disposições em causa são susceptíveis de produzir efeitos directos entre os Estados-membros destinatários e os seus nacionais. confere aos particulares direitos que estes podem invocar em juízo e que os órgãos jurisdicionais nacionais devem salvaguardar. e perante as questões suscitadas. em princípio. nos seguintes termos: “1. O art. 48 (actual 39 do Tratado CE) do Tratado CEE e o art. se a letra. para coordenação das medidas especiais relativas a estrangeiros em matéria de deslocação e estada justificadas por razões de ordem pública. ao efeito directo da directiva do Conselho de 25 de Fevereiro. Van Duyn. É sabido que o artigo 189 (actual 249 do Tratado CE) do Tratado distingue entre os regulamentos. 24 . 2. O art. pág.“Menos evidente é a solução da segunda questão. relativa. igualmente obrigatórias para os Estados mas que.º 1. o facto de este 41 42 supra notas 21 e 22. O art. o Tribunal de Justiça pronunciou-se no seu Acórdão de 4 de Dezembro de 197442. e as directivas. é legítimo que um Estado-membro tome em consideração. da Directiva 64/221/CEE do Conselho.41/74. como vimos. como relevando do comportamento pessoal do indivíduo em causa. não possuem efeito directo. n. entre os quais. em cada caso. 1974.” O advogado-geral continuou enunciando o teor de alguns Acórdãos do Tribunal de Justiça. 3. não somente obrigatórios como directamente aplicáveis em todos os Estados-membros. 3º. Sustentou-se na jurisprudência daqueles Acórdãos para concluir: “Em presença de uma directiva. 3º da Directiva 64/221 devem ser interpretados no sentido de que. Proc. é preciso pois analisar.” Neste enquadramento.s 00580 e seg. ao impor restrições justificadas por razões de ordem pública. segurança pública e saúde pública.

Sobre a questão. Neste enquadramento. o Tribunal afirmou: “. A jurisprudência do Tribunal de Justiça impede deste modo que o Estado oponha o seu próprio incumprimento aos particulares.s 01891 e seg. decorrente de uma directiva. era apenas esta a questão que se suscitava em juízo . por força do art. ao Estado-membro incumpridor. No caso Van Duyn colocava-se a questão. de atingir o resultado por ela prosseguido. o Tribunal de Justiça reconheceu o efeito directo da directiva em sentido vertical ascendente.” Foi nestes termos que o Tribunal de Justiça declarou o efeito directo da directiva.º: A Comunidade actuará nos limites das atribuições que lhe são conferidas e dos objectivos que lhe são cometidos pelo presente Tratado. Artigo 5. o que de mais relevante estatuem sobre a matéria: No Acórdão Von Colson e Kamann43.tes. na directiva. 1984.pertencer a um grupo ou organização cujas actividades são consideradas pelo Estado-membro como um perigo social. não sendo admissível que o Estado possa. através de uma jurisprudência constante. sem todavia serem proibidas e sem que sejam impostas quaisquer restrições aos nacionais desse Estado que desejem exercer uma actividade análoga ao serviço desses mesmos grupos ou organizações. A nossa crítica vai para o facto de o Tribunal de Justiça não ter evoluído na jurisprudência sobre a matéria no sentido da afirmação do efeito directo em sentido horizontal. 14/83. Até hoje essa é a posição do Tribunal comunitário que tem. da possibilidade de um particular opor uma norma constante de uma directiva comunitária ao Reino Unido.a da oponibilidade de um direito reconhecido aos particulares. sustentado uma concepção restritiva do efeito directo da directiva. bem como o seu dever. ainda assim. pág. aproveitar o próprio incumprimento para opor a norma constante na directiva incumprida a um particular. Col.. proc. 25 . Aliás. 5º44 do Tratado. Vejamos alguns dos Acórdãos mais significativos. designadamente. a obrigação dos Estados-membros. de tomar medidas gerais ou 43 44 Acórdão de 10 de Abril de 1984. não lhe reconhecendo efeito directo em sentido vertical descendente – o que compreendemos na medida em que o efeito directo da directiva pressupõe um incumprimento do Estado. o Tribunal invoca questões de segurança jurídica e de legalidade para manter a sua posição restritiva..

s 00723 seg. os órgãos jurisdicionais. Este Acórdão reveste-se de enorme importância por ter sido fundador desta proibição. à luz do texto e da finalidade da directiva. o Tribunal determina a obrigação para todas as autoridades nacionais – incluindo os órgãos jurisdicionais nacionais – à interpretação conforme do direito nacional com o direito comunitário. de acordo com o princípio da subsidiariedade. Col. no Acórdão de 26 de Fevereiro de 198645. Dois anos depois. o órgão jurisdicional nacional chamado a interpretá-lo é obrigado a fazê-lo.” Nos domínios que não sejam das suas atribuições exclusivas. 189 (actual 249). 1986. devido à dimensão ou aos efeitos da acção prevista.especiais adequadas a assegurar a execução dessa obrigação. impor obrigações a um particular e que a norma da directiva não pode ser invocada por um particular contra outro particular”. 45 Acórdão de 26 de Fevereiro de 1986. como medida de recurso compensatória. se e na medida em que os objectivos da acção encarada não possam ser suficientemente realizados pelos Estados-Membros. quer se trate de disposições anteriores ou posteriores à directiva. 189 (actual 249) e designadamente na caracterização da directiva “. Ao proibir o efeito directo horizontal da directiva. Daqui resulta que.tes. e possam pois. o Tribunal de Justiça afirmou expressamente. do Tratado. Southampton and South West Hampshire Area Health Authority. A acção da Comunidade não deve exceder o necessário para atingir os objectivos do presente Tratado.” Neste Acórdão. pela primeira vez. em Fevereiro de 1986 – doze anos decorridos sobre o Acórdão Van Duyn – pela primeira vez o Tribunal proíbe o efeito directo horizontal da directiva. na medida do possível. ser melhor alcançados ao nível comunitário. 152/84. pág. que a directiva “não pode. ainda que se trate de normas constantes de uma directiva. ao aplicar o direito nacional.. para atingir o resultado por ela prosseguido e cumprir desta forma o art. incluindo. proc. no Acórdão Marshall. Marshall v. o princípio da interpretação conforme aqui formulado é utilizado pelo Tribunal de Justiça em diversos Acórdãos relativos ao efeito directo horizontal da directiva. 26 . por si.. o Acórdão em causa funda-se na interpretação do art. Assim. que apenas admite a invocabilidade perante um tribunal nacional contra o Estado-membro destinatário. no âmbito das suas competências. Como veremos. impõem-se a todas as autoridades dos Estados-membros. a Comunidade intervém apenas.

uma directiva não pode ter por efeito. Esta obrigação é limitada. nomeadamente as disposições do seu direito de uma lei nacional especialmente aprovada com a finalidade de dar cumprimento à directiva. as disposições de uma directiva não podem ser invocadas enquanto tais contra eles. enunciado no Acórdão Von Colson). 189 (actual 249) do Tratado. com vista a alcançar o resultado referido no terceiro parágrafo do art. Todavia. decretado pelo Tribunal cerca de 20 meses antes no Acórdão Marshall. determinar ou agravar a responsabilidade criminal de quem quer que aja em violação das suas disposições. em conformidade com o art. em Outubro de 1987. o carácter obrigatório de uma directiva na qual se fundamenta a possibilidade de a invocar perante um órgão jurisdicional.” Continua o Acórdão em apreciação: “.Ao aplicar o direito nacional. bem como reformula o princípio da obrigação de interpretação conforme. seja quando este deixe de transpor no prazo determinado a directiva para o direito nacional. pelos princípios gerais de direito comunitário e designadamente os da segurança jurídica e da não retroactividade.s 03969 e seg. 27 . Em consequência uma directiva não pode por si própria criar obrigações para os particulares e.tes. seja quando proceda a uma transposição incorrecta da mesma. o órgão jurisdicional nacional deve interpretar o seu direito nacional à luz do texto e dos objectivos da directiva (princípio de interpretação conforme. 1987. já enunciado pelo Acórdão Von Colson em Abril de 1984. Col. Nijmegen. mas introduzindo as limitações decorrentes da proibição relativa ao 46 Acórdão de 8 de Outubro de 1987. incondicionais e suficientemente precisas.. por si própria e independentemente de uma lei interna adoptada por um Estado-membro para a sua aplicação. reafirma assim a proibição relativa ao efeito directo horizontal da directiva.. Assim. pág.. existe apenas relativamente “aos Estados membros destinatários”. 189 (actual 249).. os particulares podem invocá-las contra o Estado. proc. o Tribunal de Justiça dispõe: “Sempre que as disposições de uma directiva se revelem.” O Acórdão Nijmengen.No Acórdão de 8 de Outubro de 198746. no entanto.. deste modo. perante um órgão jurisdicional nacional. do ponto de vista do seu conteúdo. 80/86.

249 do Tratado CE. por violação do direito comunitário. 1994. Daqui resulta que.tes. a fundamentação que sustenta a posição do Tribunal neste Acórdão. O Acórdão Faccini Dori teve particular relevância nesta matéria por ter sido adoptado pelo Tribunal em pleno. que será limitada pelos princípios gerais de direito comunitário e designadamente os da segurança jurídica e da não retroactividade. são introduzidas limitações ao resultado permitido no âmbito da interpretação conforme. o Tribunal de Justiça pronunciou-se no seguinte sentido: “A possibilidade de invocação de direitos contra entidades estatais assenta no carácter obrigatório que o art. no essencial. determine obrigações para os particulares. por si só. por unanimidade dos treze juizes. Desta forma. proc. e a conferir a estes o benefício de certos direitos. e que só existe para o Estado-membro destinatário e visa evitar que um Estado possa tirar proveito da sua inobservância do direito comunitário. deveres na esfera jurídica dos particulares quando ela só tem essa competência nas áreas em que lhe é atribuído o poder de adoptar regulamentos. 18948 (actual 249). Actual art. possa invocar a inexecução dos seus deveres para privar os particulares do benefício desses direitos. um particular não pode basearse numa directiva para pretender invocar um direito contra outro particular e invocar esse direito perante uma jurisdição nacional”. No Acórdão de 14 de Julho de 199447.s I –03325 e seg. Alargar este princípio ao domínio das relações entre particulares equivaleria a reconhecer à Comunidade o poder de criar. Col. Faccini Dori v. 47 48 Acórdão de 14 de Julho de 1994. o tribunal declara a responsabilidade patrimonial do Estado pelos danos causados ao particular. com efeito directo.efeito directo horizontal fundada pelo Acórdão Marshall em Fevereiro de 1986. No Acórdão Faccini Dori. confirma a fundamentação já utilizada no Acórdão Marshall. posteriormente a Von Colson. Aliás. pág. a que o legislador comunitário impôs a adopção de determinadas regras destinadas a reger as suas relações ou as das entidades estatais com os particulares. lhes reconhece. na falta de medidas de transposição nos prazos prescritos. Com efeito. não podendo atingir um resultado de tal modo que a directiva. C-91/92. como aliás na maior parte da jurisprudência que nega o efeito directo horizontal da directiva. seria inaceitável que o Estado. 28 . Recreb.

tes. funda-se nos 49 Acórdão de 7 de Março de 1996.como forma de ressarcir o particular impedido de opor a directiva ao outro particular. Col. 1970. A 7 de Março de 1996. proc. com efeito imediato. pág. pág. adoptados sucessivamente a 6 de Outubro e a 17 de Dezembro de 1970. o Tribunal esgrime as características decorrentes do carácter formal da distinção enunciada no art. 1974. Por outro lado. Col. que só existe no que se refere aos Estados-membros destinatários. 50 29 .s I-01281 e seg.. Mayers. no Acórdão El Corte Inglés49. Recorde-se que. o Tribunal de Justiça ultrapassa as categorias jurídicas formais52para enunciar o efeito directo de actos de direito comunitário que não sejam regulamentos. Alargar este princípio ao domínio das relações entre particulares. 580. precisamente para negar o efeito directo horizontal da directiva. proc. 33/70.s 511 e seg. susceptibilidade que nega às directivas. 249 do Tratado CE. 52 Relatório H. Acórdão de 6 de Outubro de 1970.” Note-se que. o Tribunal de Justiça dispõe sobre a questão do efeito directo da directiva nos seguintes termos: “A invocabilidade das directivas contra entidades estatais baseia-se no carácter vinculativo das directivas. Col. sustentando que o efeito directo da norma comunitária de direito derivado deverá ser aferido pela própria natureza da norma em apreciação. proc. 249 do Tratado no que respeita aos actos comunitários. C – 192 / 94.s 685 e seg. quando ela só tem essa competência nos casos em que tem o poder de adoptar regulamentos e decisões. pág. e pretende evitar que um Estado possa tirar proveito da sua inobservância do direito comunitário. nos Acórdãos Grad50 e Sace51.tes. Desta forma. 1969/1970. Em suma. 41/74. 249. Distingue assim a directiva dos regulamentos e das decisões pela capacidade destes últimos poderem criar obrigações na esfera jurídica dos particulares. o Tribunal de Justiça desvaloriza o critério formal subjacente ao art. 51 Acórdão de 17 de Dezembro de 1970. Col. proc. 1996. o Tribunal releva o critério formal subjacente ao art. na apreciação do efeito directo horizontal da directiva. 9/70. neste Acórdão. aliás como vinha fazendo na abordagem da questão específica da apreciação do efeito directo horizontal da directiva. equivaleria a reconhecer à Comunidade o poder de criar.tes. obrigações na esfera jurídica dos particulares. pág.

No Acórdão de 26 de Setembro de 1996. o conteúdo desses direitos deve poder ser identificado com base nas disposições da directiva. não retroactividade e legalidade. designadamente por tal interpretação ser susceptível de revelar obrigações para os particulares. Seguidamente.. Deve existir. da directiva em causa. supra mencionado. pág. 53 54 Acórdão Nijmengen. o Tribunal de Justiça acrescenta: “No caso de o resultado prescrito por uma directiva não poder ser atingido por via da interpretação. caso esta não possa operar em razão das limitações53 estabelecidas pelo Tribunal. o Tribunal estabelece a salvaguarda do direito do particular por via da interpretação conforme e. 1996. 3º. uma vez que essa possibilidade apenas existe a favor dos particulares e relativamente aos “Estados-membros destinatários”. 2. subjacente ao art. 3º. da não retroactividade e da legalidade.. contra um particular.princípios gerais da segurança jurídica. A primeira é que a directiva tenha como objectivo atribuir direitos a particulares. deverá então o particular socorrerse da responsabilidade patrimonial do Estado para ressarcir os danos causados pela violação do direito comunitário. O carácter formal da distinção entre directivas e os restantes actos de direito derivado. e portanto do seu art. o direito comunitário impõe aos Estados-membros a reparação dos danos que causaram aos particulares pela não transposição da directiva. no prazo fixado. No Acórdão El Corte Inglés. 30 .” De novo.s I-04705 e seg. 249 do Tratado CE. . O recurso aos princípios da ordem jurídica comunitária. desde que estejam reunidas três condições. designadamente segurança jurídica. Col. um nexo de causalidade entre a violação da obrigação que incumbe ao Estado e o prejuizo sofrido. Podemos pois enunciar duas ordens de argumentos invocadas pelo Tribunal para rejeitar o efeito directo horizontal da directiva: 1.tes. o Tribunal decide “Na falta de transposição completa. finalmente. proc C – 168/95. uma autoridade pública desse Estado não pode invocar aquele art. Acórdão de 26 de Setembro de 1996.54 Processo crime contra Luciano Árcaro.

a responsabilidade penal daqueles que actuem em violação das suas disposições. 80/86. Col. e reafirmada no Acórdão Nijmengen. uma decorrência do imperativo de salvaguarda do efeito útil da norma comunitária e da exigência de aplicação uniforme do direito comunitário. A jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias.s I-01281 e seg. quando leve a determinar ou a agravar. O princípio da responsabilidade patrimonial do Estadomembro pelos danos provocados por violação do direito comunitário. proc.Neste Acórdão. Col. sobretudo no que respeita à protecção dos direitos dos particulares.1. o que havia já sido declarado pelo Tribunal de Justiça nos citados Acórdãos Nijmengen56 e El Corte Inglés57. 2. Trata-se de um instrumento jurídico. 56 Acórdão de 8 de Outubro de 1987. proc. só poderá ocorrer na medida em que de tal interpretação não decorra a fixação de uma obrigação para um particular. criado pelo Tribunal como garante da plena eficácia do direito comunitário. 2.” Assim.tes. Conceptualização e consagração do princípio. nestes termos: “No entanto. fora fixada pelo Acórdão Von Colson. 55 Recorde-se que a obrigação de interpretação conforme. 1996. quando tal interpretação leve a impor a um particular uma obrigação prevista numa directiva não transposta ou. sendo já posterior a Marshall. por maioria de razão. com base na directiva e na falta de uma lei adoptada para sua aplicação. 57 Acórdão de 7 de Março de 1996.tes. É. recorrendo ao teor de uma directiva como parâmetro da interpretação. A conceptualização e a consagração do instituto da responsabilidade patrimonial do Estado-membro pelos danos causados aos particulares pela violação do direito comunitário são da responsabilidade do Tribunal de Justiça das Comunidades. pág. esta obrigação de o juiz nacional ter em conta o conteúdo da directiva ao interpretar as normas relevantes do direito nacional encontra os seus limites.s 03969 e seg. anterior a Marshall. C – 192 / 94. o Tribunal manda recorrer à interpretação conforme e reafirma as condições relativas ao alcance e à extensão do recurso ao princípio da interpretação conforme55. 31 . que fixou a proibição relativa ao efeito directo horizontal da directiva. reafirma-se que a interpretação conforme. que veio fixar os limites da interpretação conforme. 1987. de acordo com a perspectiva do Tribunal comunitário. pág.

europa. na sua redacção actual. Disponível em www. conferindo-lhes maior visibilidade por meio de uma Carta. proclamada em Nice a 7 de Dezembro de 2000. o princípio da responsabilidade patrimonial do Estado pelos danos causados pela violação do direito comunitário tem uma função subsidiária e complementar dos princípios do efeito directo e do primado. consubstancia uma síntese dos valores comuns aos Estados-Membros. Desta forma. entrou em vigor a 1 de Novembro de 1993.Como resultou sobejamente demonstrado pela enunciação do teor da jurisprudência do Tribunal.enquanto valores essenciais sem cuja preservação a ordem jurídica comunitária seria inviável . como já atrás foi referido. Por outro lado. à luz da evolução da sociedade. 59 O Tratado da União Europeia foi assinado em Maastricht a 7 de Fevereiro de 1992.º 2 do artigo 17º do Tratado da Comunidade Europeia. A abordagem deste conceito de responsabilidade patrimonial do Estado enquadra-se nas orientações já enunciadas relativas aos traços específicos da ordem jurídica comunitária. do progresso social e da evolução científica e tecnológica”. resultaram aprofundados com o reconhecimento de direitos fundamentais58 próprios da Comunidade Europeia. do conceito de cidadania europeia. as concepções liberais e personalistas assumidas pelo Tribunal. Aquele imperativo e aquela exigência.eu. Os objectivos enunciados no preâmbulo: "é necessário. nomeadamente os princípios do efeito directo e do primado do direito comunitário. bem como pela introdução. 32 . com menção expressa no n. reforçar a protecção dos direitos fundamentais. o imperativo de salvaguarda do efeito útil da norma comunitária e a exigência de aplicação uniforme do direito comunitário estiveram subjacentes à jurisprudência comunitária .desde os primórdios da actividade do Tribunal. Aliás.europa. Disponível em www. com o Tratado da União Europeia59.eu. influenciou decisivamente o sentido da caracterização das Comunidades. bem como a formulação dos princípios que a estruturam e lhe são essenciais. a determinar o primado da pessoa humana como princípio parâmetro da formulação jurisprudencial. no percurso seguido para o reconhecimento deste princípio o Tribunal declarou: “…o direito à reparação dos danos constitui um corolário necessário do efeito directo reconhecido às disposições comunitárias cuja violação estiver na origem do dano causado”. É precisamente nesta linha de orientação que o 58 A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. ao princípio da igualdade: “Os cidadãos da União gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres previstos no presente Tratado”.

surge no campo das garantias dos particulares que vêem por esta via reforçados os meios ao seu dispor. reiteradamente afirmado expressa e/ou implicitamente pelo Tribunal de Justiça. no âmbito da respectiva formulação jurisprudencial. por a análise da sua consagração ser extraordinariamente relevante para a apreciação da actual concepção relativa à natureza da ordem jurídica comunitária. serão abordados os Acórdãos fundadores do instituto em apreciação. salvo diferente opinião. desta forma.Tribunal de Justiça vem reconhecendo o princípio da responsabilidade de um Estado-membro pelos danos causados aos particulares por violação do direito comunitário. permite-nos uma melhor compreensão da natureza jurídica das Comunidades e. bem como o Acórdão mais recente cujo teor constitui. por um lado. i. em matéria de efeito directo da directiva. a respeitar e a aplicar as normas comunitárias. bem como à estrutura do pensamento do Tribunal de Justiça. uma excelente peça de Direito elucidativa do ambicioso pensamento jurisprudencial do Tribunal de Justiça. aferida pela garantia efectiva dos direitos dos particulares. Assim. o 33 . por o Tribunal de Justiça de forma sistemática ter vindo a colmatar a proibição do efeito directo horizontal da directiva. Por esta razão. no âmbito do presente trabalho. É o próprio Tribunal de Justiça que defende a caracterização da ordem jurídica comunitária de acordo com a “qualidade da ordem jurídica”. considerámos relevante abordar este princípio. e a inviabilidade de recurso à interpretação conforme com a directiva em razão das limitações que estabeleceu. Por estas razões. um paliativo para a fragilidade da posição que assume. traduz de forma clara a sustentação do princípio do primado da pessoa humana. Assim. com o recurso a este regime. adequados a instar as autoridades nacionais. legislativo ou judicial. sobretudo. da evolução jurisprudencial nesta matéria. a referência. por outro. o reconhecimento da responsabilidade patrimonial do Estado. Mas. seja o poder executivo.é. Concretizando. Efectivamente. ainda que em traços gerais. do “estado da arte”. constitui um relevante aprofundamento das garantias dos particulares face à violação do direito comunitário. regime jurídico do instituto da responsabilidade patrimonial do Estado pelos danos provocados pela violação do direito comunitário.

A afirmação jurisprudencial deste princípio é enunciada. A Directiva 80/987/CEE visava assegurar aos trabalhadores assalariados um mínimo comunitário de protecção em caso de insolvência do empregador. a referida Directiva previa o estabelecimento de garantias específicas destinadas a assegurar o pagamento de créditos em dívida respeitantes à remuneração pela empresa em processo de falência. Evolução jurisprudencial.2. Para esse efeito. C-6/90 e C-9/90. do Tribunal de Justiça. Procs. num prazo que terminava a 23 de Outubro de 1983. Acórdão de 19 de Novembro de 1991/FRANCOVICH e outros. pela “Pretura” de Vincenza (Itália / processo C-6/90) e pela “Pretura” de Bassano de Grappa (Itália / processo C-9/90) sobre a interpretação da Directiva 80/987/CEE do Conselho62.tes. sem prejuízo das disposições mais favoráveis existentes nos Estados-membros.s. relativa à aproximação das legislações dos Estados-membros. i. O Tribunal de Justiça das Comunidades declarou o seu incumprimento.qual no nosso entendimento não caracteriza a solução firmada a partir de Marshall60 relativa ao efeito directo da directiva. I-5357 e seg. de 19 de Novembro de 199161. motivados pela não transposição de directivas comunitárias notificadas ao Estado. de 20 de Outubro de 1980. pela primeira vez. nos Acórdãos Francovich e Bonifaci. no Acórdão de 2 de Fevereiro de 60 61 Acórdão de 26 de Fevereiro de 1986. das quais resultavam direitos subjectivos. que reconheceram a responsabilidade do Estado-membro para os casos em que se verifiquem danos na esfera jurídica dos particulares. De acordo com o artigo 11 da Directiva 80/987/CEE. Col. O Acórdão Francovich. que proíbe o efeito directo horizontal da directiva comunitária. pág. respeitantes à protecção dos trabalhadores assalariados em caso de insolvência do empregador. mas relativamente às quais não se verificavam os requisitos de tutela jurisdicional. 34 . de 20 de Outubro de 1980. 2. do efeito directo. A República Italiana não respeitou a obrigação de transposição no prazo estabelecido. regulamentares e administrativas necessárias para dar cumprimento aos fins nela estabelecidos. tem por objecto dois pedidos. dirigidos a título de reenvio prejudicial. 1991.é. 62 Directiva 80/987/CEE. os Estadosmembros deveriam adoptar as disposições legislativas.

o Tribunal de Vincenza teve que redigir certidão negativa de penhora. Col. em Vincenza. parte no processo principal C-6/90. incumprimento64. uma indemnização. Daniela Bonifaci e trinta e três outras assalariadas.tes. que havia sido admitido no passivo da empresa falida. 22/87. tendo em conta a obrigação que lhe incumbia de aplicar a Directiva 80/987/CEE. no processo C9/90.s 226. a título subsidiário. pelo que intentou uma acção na “Pretura” de Vincenza. face ao que as trabalhadoras moveram uma acção contra a República Italiana. pedindo que o Estado fosse condenado no pagamento dos créditos que lhes eram devidos a título de salários em atraso. perante o que Andreia Francocivh invocou o direito de obter do Estado Italiano as garantias previstas na Directiva 80/987/CEE. Proc. pelo menos relativos aos últimos três meses ou. Neste contexto. Andreia Francovich. questões idênticas quanto à responsabilidade do Estado pelos V Acórdão de 2 de Fevereiro de 1989.s 163 e seg. ao pagamento de uma indemnização. 63 35 . Mais de cinco anos após a falência não lhes havia sido pago qualquer montante. 1989. intentaram uma acção na “Pretura” de Bassano del Grappa. tinha trabalhado para a empresa “CDN Wlettronica Snc”. No âmbito do contrato recebeu apenas pagamentos esporádicos por conta do seu salário. afirmando que haviam trabalhado na qualidade de assalariadas para a empresa “Gaia Confezioni Srl”. pág. Em sede de execução de sentença. os órgãos jurisdicionais italianos competentes levantaram junto do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. em alternativa. as autoras eram credoras de um montante de mais de 253 milhões de LIT. 227 e 227 do Tratado CE. e no âmbito dos processos acima identificados. Comissão/Itália. Aquando da cessação das relações de trabalho. a título prejudicial.198963. que resultou na condenação da empresa demandada no pagamento no montante de cerca de seis milhões de LIT. a partir de 23 de Outubro de 1983. ou. no âmbito de uma acção por desencadeada pela Comissão contra a Itália. declarada em situação de falência em 5 de Abril de 1985. 64 Art. Haviam ainda sido informadas pelo administrador da falência de que uma repartição mesmo que parcial a seu favor era absolutamente improvável.

relativas à possibilidade de determinar por interpretação do teor da directiva em apreciação: a) quem seriam os 36 . qual é a garantia mínima que o Estado deve assegurar. Nomeadamente: a) O particular que tenha sido lesado pela falta de cumprimento. da Directiva 80/987/CEE incumprimento declarado pelo Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias .pode reclamar o cumprimento por esse Estado das disposições que a mesma contém. esse Estado é obrigado a pagar os direitos dos trabalhadores assalariados na medida estabelecida no artigo 3º? c) Em caso de resposta negativa à segunda questão. nos termos da Directiva 80/987. em todo o caso. de forma a obter as garantias que esse Estado deveria assegurar e. no caso de o Estado não ter feito uso da faculdade de estabelecer os limites referidos no artigo 4º.prejuízos que decorrem da violação das obrigações decorrentes da directiva comunitária não transposta. O primeiro problema prendia-se com o efeito directo das disposições da Directiva que definem os direitos dos trabalhadores. 2. O Tribunal de Justiça entendeu que a primeira questão suscitava dois problemas. que o Tribunal se digne a estabelecer. que impunha uma clarificação quanto à existência de responsabilidade patrimonial do Estado pelos danos que decorrem da violação das obrigações que lhe incumbem por força do direito comunitário. No âmbito do primeiro problema. o Tribunal de Justiça analisou separadamente três questões. relativo à verificação das condições que conferem o efeito directo à Directiva 80/987/CEE. cuja análise deveria ser feita separadamente. pelo Estado destinatário. 1. ao trabalhador titular do direito de forma que. O segundo decorria da apreciação da questão suscitada na parte final da primeira das questões levantadas pelos órgãos jurisdicionais nacionais (in fine da alínea a) supra descrita). que são suficientemente precisas e incondicionais. pedir a reparação dos prejuízos sofridos no que respeita às disposições que não gozam de efeito directo? b) As disposições dos artigos 2º e 3º da Directiva 80/987 devem ser interpretadas no sentido de que. a parte do salário que lhe é devida possa ser considerada como execução da própria Directiva. invocando directamente contra o Estado membro faltoso a directiva. nomeadamente.

que especifica as hipóteses em que um empregador deve ser considerado em estado de falência. nos termos dos n. Em função desta escolha.º 3 do artigo 4º estabelece a possibilidade do Estado membro fixar um limite máximo para a garantia de pagamento a fim de evitar o pagamento de somas que ultrapassem a função social da Directiva. o Tribunal concluiu serem suficientemente precisas e incondicionais para permitir ao órgão jurisdicional saber quais os beneficiários da Directiva. b) o conteúdo da garantia. pode optar por três hipóteses: a) a data da superveniência da insolvência do empregador. assiste ao Estadomembro a faculdade de limitar a obrigação de pagamento a períodos de três meses ou de oito semanas. calculados com as modalidades fixadas no mesmo artigo.º 1 do artigo 1º da Directiva em causa. ocorrida por força da insolvência do empregador. O n.º 2 do artigo 2º remete para o direito nacional quanto à determinação das noções de “trabalhador”. Quanto aos beneficiários da garantia.beneficiários da garantia. “assalariado” e “empregador”. o artigo 3º da Directiva estabelece a previsão de que deve ser assegurado o pagamento dos créditos em dívida resultantes de contratos de trabalho ou de relações de trabalho e relativos à remuneração referente ao período que se situa antes de uma data determinada pelo Estado-membro que. c) a identidade do devedor. Assim sendo. a mesma estendia o respectivo âmbito aos trabalhadores assalariados. Quanto ao conteúdo da garantia. c) a da superveniência da insolvência do empregador ou da cessação do contrato de trabalho ou da relação do trabalho do trabalhador assalariado em causa. Por último. b) a data do aviso prévio de despedimento dado ao trabalhador em causa por força da insolvência.º 1 do artigo 2º. consoante os casos. da apreciação das disposições mencionadas da Directiva 80/987/CEE. por contratos de trabalho ou relações de trabalho relativos a empregadores que se encontrassem em situação de insolvência na acepção do n. a esse respeito.ºs 1 e 2 do artigo 4º da directiva em causa. Embora a Directiva estabeleça uma diversidade de meios possíveis para atingir os respectivos fins. o Tribunal de Justiça tem entendido que tal facto não exclui a possibilidade de os particulares invocarem perante os órgãos jurisdicionais nacionais direitos cujo conteúdo 37 . nos termos do n. o n.

relativa à aproximação das legislações dos Estados-membros respeitantes à protecção dos trabalhadores assalariados em caso de 65 Acórdão de 19 de Novembro de 1991. não obstante estabelecer que o Estado membro é obrigado a organizar um “sistema institucional de garantia” e. 38 . de 20 de Outubro. pág. Quanto à primeira questão.do sistema através de poderes públicos. o Estado-membro dispunha de uma grande margem de apreciação quanto à organização. 1991. cabendo ao Estado a obrigação de as organizar. embora o fosse quanto ao destinatário da garantia e quanto ao respectivo conteúdo. o artigo 5º da Directiva prevê um sistema ambíguo que.s 630 e seg. “As disposições da Directiva 80/987/CEE do Conselho. Assim sendo. Col. C-6/90 e C-9/90. Assim. Só neste último âmbito é que o Estado membro poderia prever então o integral financiamento – ou não . De facto. a Directiva 80/987/CEE não poderia ser invocada contra o Estado perante os órgãos jurisdicionais nacionais na falta de medidas de transposição adoptadas dentro dos prazos.tes. Quanto à identidade do devedor. Desta forma. Proc. no Acórdão proferido a 19 de Novembro de 199165. a obrigação de pagamento competia às “instituições de garantia”. isto por não preencher integralmente os requisitos do efeito directo. o Tribunal afirmou que a Directiva 80/987 não seria suficientemente precisa no que respeita à determinação de quem seria o devedor da garantia.possa ser determinado com precisão suficiente com base nas disposições da Directiva. concluiu: 1. Francovich. Sublinhe-se o facto. ao funcionamento e ao financiamento das projectadas “instituições de garantia”. O Tribunal de Justiça das Comunidades. então invocado pela Comissão. de que a Directiva ao prever que o sistema fosse integralmente financiado pelos poderes públicos não poderia significar que o Estado fosse o devedor dos créditos em dívida. como atrás referido. apesar de a Directiva prever a possibilidade de financiamento integral das “instituições de garantia” pelos poderes públicos. o Tribunal concluiu que a Directiva era suficientemente precisa no que respeita à determinação do seu conteúdo.

insolvência do empregador que definem os direitos dos trabalhadores, devem ser interpretados no sentido de que os interessados não podem invocar estes direitos contra o Estado perante os órgãos jurisdicionais nacionais, na falta de medidas de execução tomadas dentro dos prazos.” Concluindo pela não verificação das condições sine qua non do efeito directo da Directiva, havia que apurar da responsabilidade do Estado pelos prejuízos decorrentes da violação das obrigações que lhe incumbem por força do direito comunitário. Como vimos, a conclusão do Tribunal em resposta à primeira questão suscitada inviabilizou a possibilidade de invocar a Directiva junto dos órgãos jurisdicionais nacionais para efectivação dos direitos nela reconhecidos. Contudo, tinha sido colocado, também e de forma autónoma, o problema da existência de responsabilidade patrimonial do Estado pelos prejuízos decorrentes da violação das obrigações que lhe incumbem por força do direito comunitário. Quanto à questão das condições da responsabilidade do Estado, o Tribunal no Acórdão Francovich declarou: “Embora a responsabilidade do Estado seja imposta pelo direito comunitário, as condições em que a mesma institui um direito a reparação dependem da natureza da violação do direito comunitário que está na origem do prejuízo causado.” Efectivamente, o Tribunal considerou, no âmbito do Acórdão em apreciação, que quando o Estado-membro ignora a obrigação que lhe incumbe por força do Tratado de adoptar as medidas necessárias para atingir o resultado prescrito pela directiva, a plena eficácia dessa norma impõe um direito a uma reparação quando estejam reunidas três condições: a) o resultado prescrito pela Directiva implique a atribuição de direitos a favor dos particulares; b) o conteúdo desses direitos possa ser identificado com base nas disposições da Directiva; c) se verifique um nexo de causalidade entre a violação da obrigação que incumbe ao Estado e o prejuízo sofrido pelas pessoas lesadas.

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Verificadas as condições enunciadas, como atrás se expôs a propósito da apreciação da verificação das condições pressuposto do efeito directo da Directiva 80/987/CEE, no âmbito dos processos Francovich e Bonifaci o Tribunal concluiu pela instituição a favor dos particulares de um direito de obter reparação, fundado directamente no direito comunitário. E quanto às condições de responsabilidade do Estado, decidiu que “O Estado membro é obrigado a reparar os prejuízos causados aos particulares pela não transposição da Directiva”. A jurisprudência fundadora do princípio da responsabilidade patrimonial dos Estados-membros, delimitava a responsabilidade dos Estados-membros aos casos em que se verificassem danos na esfera jurídica dos particulares, motivados pela não transposição de directivas comunitárias notificadas ao Estado, das quais resultavam direitos subjectivos mas relativamente às quais não se verificavam os requisitos de tutela jurisdicional, i.é, do efeito directo. Desta forma, o Tribunal de Justiça garantiu o ressarcimento patrimonial dos danos causados na esfera jurídica do particular, pelo Estado incumpridor da directiva, verificados os requisitos supra indicados, a), b) e c)), sempre que a directiva não produza efeito directo. Esta solução aplica-se no caso de incumprimento de directivas que não preencham os critérios determinantes do efeito directo, (precisão e incondicionalidade), mas também para colmatar a ausência de efeito directo horizontal da directiva. Sobre esta última afirmação, note-se que este Acórdão surge após a jurisprudência Marshall, que proibiu o efeito directo horizontal, bem como após o Acórdão Nijmengen que estabeleceu os limites ao recurso à interpretação conforme com a directiva. A jurisprudência após Francovich reformula o princípio da responsabilidade e, tornando-o menos restritivo, veio sustentar que tal princípio integra todas as violações do Direito Comunitário pelo Estado-membro geradoras de dano na esfera do particular, e não apenas a violação decorrente da não transposição de directivas. No processo Brasserie du Pêcheur66, a jurisdição nacional consulta o Tribunal de Justiça a título prejudicial, sobre a questão de saber
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Acórdão de 5 de Março de 1996, Brasserie du Pêcheur, Proc. C-46/93 e C-48/93, Col. 1996, pág.s I-1029 e seg.tes.

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se o princípio segundo o qual os Estados-membros são obrigados a reparar os danos causados aos particulares, em virtude de violações do direito comunitário que lhes sejam imputáveis, é aplicável quando o incumprimento se reporta ao comportamento do legislador nacional. No Acórdão de 5 de Março de 1996 o Tribunal de Justiça, dando sequência à jurisprudência constante anteriormente pronunciada em matéria de efeito directo e primado do Direito Comunitário e de reconhecimento dos direitos fundamentais próprios da Comunidade, concluiu: “1. O princípio segundo o qual os Estados-membros são obrigados a reparar os prejuízos causados aos particulares em virtude das violações do Direito Comunitário que lhes são imputáveis é aplicável sempre que o incumprimento em causa seja atribuído ao legislador nacional; 2. Quando uma violação do Direito Comunitário por um Estadomembro é imputável ao legislador nacional - que actua num domínio onde dispõe de um amplo poder de apreciação para efectuar escolhas normativas -, os particulares lesados têm o direito à reparação desde que a regra de direito comunitário violada tenha por objecto conferir-lhes direitos, que a violação seja suficientemente caracterizada, e que exista um nexo de causalidade directo entre essa violação e o prejuízo sofrido pelos particulares. Com esta reserva, é no quadro do direito nacional da responsabilidade que incumbe ao Estado reparar as consequências do prejuízo causado, pela violação do direito comunitário que lhe é imputável, subentendendo-se que as condições fixadas pela legislação nacional aplicável não podem ser menos favoráveis do que as que dizem respeito a reclamações semelhantes de natureza interna, nem estabelecidas de forma a tornar, na prática, impossível ou excessivamente difícil a obtenção da reparação; 3. O órgão jurisdicional nacional não pode, no quadro da legislação nacional que aplica, subordinar a reparação do prejuízo à existência de dolo ou negligência por parte do órgão estadual a quem o incumprimento é imputável, que vá para além da violação suficientemente caracterizada do Direito Comunitário; 4. A reparação pelos Estados membros, dos prejuízos que causaram aos particulares em virtude das violações do Direito Comunitário deve ser adequada ao prejuízo sofrido. Não existindo disposições comunitárias nesse domínio, incumbe ao
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Brasserie du Pêcheur.ordenamento jurídico interno de cada Estado membro. se também o puderem ser no quadro de reclamações ou acções baseadas no direito nacional. o prejuízo reparável apenas aos prejuízos causados a determinados bens individuais especialmente protegidos. não podem ser mais favoráveis do que os relativos às reclamações ou acções semelhantes. Uma regulamentação nacional que limita. de acção ou de omissão de tal forma precisa que não lhe resta grande margem de apreciação. podem ser fixados de forma a tornar. subentendendo-se que. devem. por outro lado. fixar os critérios que permitem determinar a extensão da indemnização.” Nestes termos. A obrigação dos Estados membros de repararem os prejuízos causados aos particulares pelas violações do Direito Comunitário que lhes são imputáveis não pode ficar limitada apenas aos prejuizos sofridos após pronúncia de um acórdão do Tribunal de Justiça em que se declara o incumprimento imputado.tes. considerando que os particulares lesados têm o direito à reparação desde que: a) a regra de direito comunitário violada tenha por objecto conferir-lhes direitos. C-46/93 e C-48/93. atendendo à obrigação incumprida pelo Estado-membro. 42 . viola o Direito Comunitário. c) e que exista um nexo de causalidade directo entre essa violação e o prejuizo sofrido pelos particulares. Para os casos em que o Estado dispõe de um amplo grau de apreciação. baseadas no direito interno e que. impossível ou excessivamente difícil a reparação. de modo algum. Neste âmbito o Tribunal determinou (vide ponto 2. b) quando o Estado-membro dispõe de um amplo grau de apreciação. pág. se podem destacar duas situações diferenciadas: a) quando o Estado-membro tem uma obrigação de resultado. b) que a violação seja suficientemente caracterizada. poder ser concedidas indemnizações específicas. No quadro de reclamações ou acções baseadas no Direito Comunitário. como a indemnização “exemplar” do direito inglês. com exclusão do lucro cessante dos particulares. na prática. no Acórdão de 5 de Março de 199667. Col. Proc. o Tribunal estabeleceu as condições de efectivação da responsabilidade do Estado-membro. o Tribunal de Justiça formula um princípio de responsabilidade geral do Estado pelos actos e omissões do poder legislativo. de um modo geral. 5. 1996. 67 Acórdão de 5 de Março de 1996. do trecho do Acórdão supra transcrito) que.s I-1029 e seg.

Estabeleceu. devem apreciar: a) o grau de clareza e de precisão da norma violada. Quando a violação do direito comunitário por um Estado-membro é imputável ao legislador nacional. Por outro lado. determinou que se verifica sempre violação suficientemente caracterizada quando esta se mantém após um Acórdão do Tribunal em sede de acção por incumprimento ou de reenvio de interpretação ou quando a ilicitude do comportamento estadual possa resultar da jurisprudência assente. ou não. 43 . que actua num domínio onde dispõe de um amplo poder de apreciação para efectuar escolhas normativas. o princípio da responsabilidade geral por violação do direito comunitário é aplicável sempre que o incumprimento em causa seja atribuído ao legislador nacional. Dillenkofer e outros. 1996. Col. d) o carácter desculpável. C-188/94. b) que a violação seja suficientemente caracterizada. adopção ou manutenção de medidas nacionais contrárias ao direito comunitário. Na esteira da jurisprudência analisada. o Tribunal clarificou o conceito de violação suficientemente caracterizada como “uma violação manifesta dos limites do poder de apreciação”. Concluindo. de um eventual erro de direito. c) que exista um nexo de causalidade directo entre essa violação e o prejuízo sofrido pelos particulares. os particulares lesados têm o direito à reparação desde que a regra de direito comunitário violada tenha por objecto: a) conferir-lhes direitos. C-189/94 e C-190-94. I-4845 e seg.as jurisdições nacionais na análise da gravidade da violação. os parâmetros de decisão sobre a matéria . no entanto.tes. C-179/94. surgiu o Acórdão de 8 de Outubro de 199668. ou não. proc C-178/94. relativo à Directiva 90/341/CEE do Conselho sobre a aproximação das legislações relativas a viagens. Dillenkofer. férias e circuitos organizados que visam estabelecer um sistema de 68 Acórdão de 8 de Outubro de 1996.Para o efeito. do incumprimento e do prejuízo. p. b) a margem de apreciação que a regra violada deixa aos Estados-membros. e) se as instituições comunitárias contribuíram para a omissão. c) o carácter internacional.. remetendo para as jurisdições nacionais a análise da gravidade da violação.

com atribuição. como noutros acórdãos. ainda. de direitos.s. de acórdão de incumprimento. col. iniciado no Acórdão Brasserie du Pêcheur. por si só. um princípio de responsabilidade geral pelos actos e omissões do Estado. E. uma violação caracterizada do Direito Comunitário. de direitos cujo conteúdo possa ser identificado e se existir um nexo de causalidade entre a violação da obrigação que incumbe ao Estado e o prejuízo sofrido. decorrentes da violação do direito comunitário que lhe seja imputável. British Telecommunications e Denkavit. declarando: “A inexistência de qualquer medida de transposição de uma Directiva para a consecução do resultado nela prescrito no prazo e para o efeito estabelecido. O órgão jurisdicional nacional questiona o Tribunal de Justiça especificamente. ou não. se o resultado prescrito na Directiva implicar a atribuição. proc. constitui. por si só. a qual. C/392/93. manifesta e grave dos seus deveres.tes. cria. I-1631 e seg. um direito a reparação. de que o prazo de transposição da directiva se revelou insuficiente. 44 . em consequência.” O Tribunal de Justiça consolida neste. em benefício dos particulares. pág.protecção contra o risco de insolvência ou falência do operador. em favor dos particulares lesados. se a responsabilidade dos Estados pressupõe uma violação caracterizada do direito comunitário. A jurisprudência constante do Tribunal de Justiça consolidou o princípio da responsabilidade geral do Estado pelos danos causados no património jurídico dos particulares. suficiente para originar um direito a ser indemnizado em benefício dos particulares lesados ou se é necessário atender a outras condições. Sobre as questões suscitadas o Tribunal de Justiça pronunciou-se no Acórdão Dillenkofer.. independentemente da existência. em benefício do viajante. 69 Acórdão de 26 de Março de 1996. nomeadamente British Telecomunications69. sobre a relevância a conceder à objecção formulada pelo Governo alemão. Neste processo as questões suscitadas visavam essencialmente esclarecer sobre se a não transposição de uma directiva no prazo estabelecido é. ou seja.

tes. Mais recentemente. nomeadamente no que respeita ao alcance e extensão deste princípio enquanto instrumento de garantia efectiva dos direitos dos particulares. d) se verifique um nexo de causalidade entre a violação da obrigação que incumbe ao Estado e o prejuízo sofrido pelas pessoas lesadas. b) o conteúdo desses direitos possa ser identificado com base nas disposições da directiva. desde que estivessem reunidas as seguintes condições: a) o resultado prescrito pela directiva implique a atribuição de direitos a favor dos particulares. numa jurisprudência cujo teor é extraordinariamente elucidativa das concepções do Tribunal respeitantes às condições de “qualidade da ordem jurídica comunitária”. a responsabilidade patrimonial do Estado efectiva-se desde que estejam reunidas três condições: a) que a norma comunitária implique a atribuição de direitos. 45 . por outro. Col. pág. o Estado-membro não adoptasse as medidas necessárias para atingir o resultado prescrito pela directiva e. o Tribunal de Justiça havia iniciado a jurisprudência relativa à responsabilidade do Estado pelos danos provocados pela não transposição de uma directiva. o Tribunal de Justiça pronunciou a responsabilidade patrimonial do Estado Juiz. e) as normas violadas da directiva não produzam efeito directo. mais uma vez conferindo proeminência ao primado da pessoa humana.s C6/90 e C9/90. quer a norma violada não goze de efeito directo. Desta forma. de 19 de Novembro de 199170 que a responsabilidade patrimonial do Estado se verificava quando. b) que o conteúdo desse direito possa ser identificado com base na disposição comunitária. se aplica a qualquer violação de normas comunitárias e que.Nos parâmetros estabelecidos pelo Tribunal de Justiça. c) que se verifique um nexo de causalidade entre a violação de obrigação que incumbe ao Estado e o prejuízo sofrido pelo particular. Recorde-se que. considerando no Acórdão Francovich e outros. o Tribunal reforçou consideravelmente o princípio da responsabilidade geral do Estado que. se aplica quer a norma violada goze de efeito directo. por um lado. cinco anos antes. 70 Proc.s I 5357 e seg. 1001.

1999. 71 72 Acórdão de 1 de Junho de 1999.tes. de 19 de Novembro de 1991. Konle. Dillenkofer e outros. pág. n. Konle. independentemente da entidade do Estadomembro cuja acção ou omissão está na origem do incumprimento (Acórdãos Brasserie du Pêcheur e Factortame.tes. 2003. em virtude da violação de um compromisso internacional. cabe à ordem jurídica de cada Estado-Membro designar o órgão jurisdicional competente para decidir os litígios relativos a tal reparação. Acórdão 30 de Setembro de 2003.º C-302/96. 46 . c) Se. Brasserie du Pêcheur e Factortame. na ordem jurídica internacional. Col. Gerhard Köbler/Aústria. Hedley Lomas. O Tribunal de Justiça. é considerado na sua unidade. proc. que o Tribunal de Justiça decidiu que o princípio da responsabilidade de um Estado-membro por prejuízos causados aos particulares por violações do direito comunitário que lhe sejam imputáveis é inerente ao sistema do Tratado.s. I-10239 e seg. de 1 de Junho de 1999. pág. desde já. na esteira da sua jurisprudência anterior e quanto ao princípio da responsabilidade do Estado. de 2 de Abril de 1996).s:. de 1 de Junho de 1999). independentemente da violação que está na origem do prejuízo ser imputável ao poder legislativo. quando todos os organismos do Estado. o Estado cuja responsabilidade está em causa. de 26 de Março de 1996. tanto mais deve assim ser na ordem jurídica comunitária. de 23 de Maio de 1996. em caso afirmativo. No caso Köbler. (Acórdãos Francovich e outros.Serão exemplificativos desta posição os Acórdãos Konle71 e Köbler72. Iremos referir o mais recente. b) O Tribunal de Justiça declarou igualmente que este princípio é válido para qualquer violação do direito comunitário por um Estado-membro. de 8 de Outubro de 1996. o órgão jurisdicional de reenvio perguntava essencialmente se o princípio segundo o qual os Estados-membros são obrigados a reparar os danos causados aos particulares pelas violações do direito comunitário que lhes são imputáveis é igualmente aplicável quando a violação em causa resulta de uma decisão de um órgão jurisdicional decidindo em última instância e se. British Telecommunications. Col. e “inter alia”. acentuou: a) Recorde-se. judicial ou executivo. I-3099 e seg.

são obrigados. Alguns dos governos que apresentaram observações no âmbito do presente processo. do Tratado CE. Deve aqui sublinhar-se que um órgão jurisdicional que decide em última instância constitui por definição a última instância perante a qual os particulares podem fazer valer os direitos que o direito comunitário lhes confere. Atendendo ao papel essencial do poder judicial na protecção dos direitos que as normas comunitárias conferem aos particulares. obter ressarcimento quando os seus direitos são lesados por uma violação do direito comunitário imputável a uma decisão de um órgão jurisdicional de um Estadomembro decidindo em última instância. 47 . nomeadamente. já referidos). no desempenho das suas funções. a plena eficácia destas seria posta em causa. se os particulares não pudessem. a respeitar as normas impostas pelo direito comunitário que sejam susceptíveis de regular directamente a situação dos particulares (Acórdão Brasserie du Pêcheur e Factortame. por uma decisão desse órgão jurisdicional que se tornou definitiva. geralmente ser sanada. alegaram que o princípio da responsabilidade do Estado pelos danos causados aos particulares por violações do direito comunitário não podia 73 Reenvio prejudicial. ressarcimento do prejuízo causado pela violação destes direitos por uma decisão de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância. Não podendo uma violação destes direitos. resulta das exigências inerentes à protecção dos direitos dos particulares que invocam o direito comunitário que os mesmos devem ter a possibilidade de obter. terceiro parágrafo. os particulares não podem ser privados da possibilidade de accionarem a responsabilidade do Estado a fim de obterem por este meio uma protecção jurídica dos seus direitos.°73. para evitar que os direitos conferidos aos particulares pelo direito comunitário sejam violados que. um órgão jurisdicional cujas decisões não sejam susceptíveis de recurso judicial previsto no direito interno é obrigado a submeter a questão ao Tribunal de Justiça. por força do artigo 234. É aliás. e a protecção dos direitos que as mesmas reconhecem ficaria diminuída.d) e) f) g) h) inclusive o poder legislativo. Deste modo. junto de um órgão jurisdicional nacional. sob certas condições.

mas não necessariamente que seja posta em causa a autoridade do caso definitivamente julgado da decisão judicial que causou o dano. decidindo em última instância. nomeadamente. bem como na inexistência de um órgão jurisdicional competente para conhecer dos litígios relativos à responsabilidade do Estado por tais decisões. invocaram argumentos assentes. Um processo destinado a responsabilizar o Estado não tem o mesmo objecto e não envolve necessariamente as mesmas partes que o processo que deu origem à decisão que adquiriu a autoridade de caso definitivamente julgado. é necessário que as decisões judiciais que se tornaram definitivas após esgotamento das vias de recurso disponíveis ou decorridos os prazos previstos para tais recursos já não possam ser impugnadas. há que considerar que o reconhecimento do princípio da responsabilidade do Estado pela decisão de um órgão jurisdicional nacional.pôr em causa a autoridade do caso definitivamente julgado de tal decisão. o princípio da responsabilidade do Estado inerente à ordem jurídica comunitária exige tal ressarcimento. No entanto. o demandante numa acção de indemnização contra o Estado obtém. na independência e na autoridade do juiz. Daqui resulta que o princípio da autoridade do caso definitivamente julgado não se opõe ao reconhecimento do princípio da responsabilidade do Estado por uma decisão de um órgão jurisdicional decidindo em última instância. Os argumentos assentes na independência e na autoridade do juiz também não podem ser acolhidos. De qualquer modo. mas não a revisão da decisão judicial que causou o dano. mais especialmente na autoridade do caso definitivamente julgado.i) j) k) l) ser aplicado às decisões de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância. Com efeito. 48 .por consequência . a fim de garantir tanto a estabilidade do direito e das relações jurídicas como uma boa administração da justiça. não tem em si . em caso de êxito. Com efeito. Cabe aqui assinalar que a importância do princípio da autoridade do caso definitivamente julgado não pode ser contestada (Acórdão Eco Swiss). a condenação deste no ressarcimento do dano sofrido. no princípio da segurança jurídica. Para o efeito.

cabe aos Estados-Membros permitir aos interessados invocarem este princípio. o princípio da responsabilidade do Estado que é inerente à ordem jurídica comunitária deve aplicar-se em relação às decisões de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância. pondo à sua disposição uma via de direito adequada. a reparação dos efeitos danosos de uma decisão judicial errada pode também ser vista como sinónimo de qualidade de uma ordem jurídica e portanto. também da autoridade do poder judicial. a responsabilidade do Estado por decisões judiciais contrárias ao direito comunitário comporte riscos especiais de que seja posta em causa a independência de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância. A aplicação do referido princípio não pode ser comprometida pela inexistência de foro competente. sob certas condições. não se afigura que a possibilidade de ver accionada. permitindo accionar a responsabilidade do Estado devido às mesmas. finalmente.m) No que diz respeito à independência do juiz. por razões essencialmente relacionadas com a necessidade de se assegurar aos particulares a protecção dos direitos que as normas comunitárias lhes reconhecem. afectada pelo facto de as suas decisões transitadas em julgado poderem ser implicitamente postas em causa por um processo. sob certas condições. na ausência de regulamentação comunitária. q) Segundo jurisprudência constante. há que considerar que. p) A este respeito. verifica-se que a existência de uma via de direito permitindo. há que esclarecer que o princípio da responsabilidade em causa diz respeito não à responsabilidade pessoal do juiz mas à do Estado. é à ordem jurídica de cada Estado-Membro que compete designar os órgãos jurisdicionais competentes e regulamentar as modalidades processuais das acções judiciais destinadas a assegurar a 49 . decidindo em última instância. dado que. Ora. n) Quanto ao argumento assente no risco de se ver a autoridade de um órgão jurisdicional nacional. o) Vários Governos sustentaram igualmente que constituía um obstáculo à aplicação do princípio da responsabilidade do Estado às decisões de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância a dificuldade de se designar um órgão jurisdicional competente para conhecer dos litígios relativos à reparação dos danos resultantes de tais decisões.

de 27 de Fevereiro de 1980. como o advogado-geral assinalou nos n. ou da independência dos juizes. SEIM. 68/79. n. Colect. n. p. I-73.. Colect.° 25. a CEDH. Colect. já referido). Acórdão Dulaurans c. Rewe. TEDH. que o princípio segundo o qual os Estados-membros são obrigados a ressarcir os danos 50 .. Just. em todas as circunstâncias. Colect. Pode ainda assinalar-se que. uma protecção efectiva aos direitos individuais derivados da ordem jurídica comunitária. mesmo que tal só se verifique em condições restritivas e heterogéneas.° 32. tais considerações não excluíram de modo absoluto essa possibilidade. 813. n. Resulta do que precede. 2043. e de 14 de Dezembro de 1995. p. ainda não publicado). C-446/93. p. França de 21 de Março de 2000. I4599. permite ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenar um Estado que violou um direito fundamental a indemnizar os danos que resultaram deste comportamento para a pessoa lesada. n. 33/76. e mais especialmente o seu artigo 41. p. Peterbroeck. Resulta da jurisprudência do referido tribunal que tal compensação pode ser igualmente concedida quando a violação resulta do conteúdo de uma decisão de um órgão jurisdicional nacional decidindo em última instância (v. no mesmo sentido.r) s) t) u) plena protecção dos direitos conferidos aos cidadãos pelo direito comunitário (Acórdãos de 16 de Dezembro de 1976. Com efeito. 835.° 5.° 12).ºs 77 a 82 das suas conclusões. 501. 45/76. Comet. embora considerações relacionadas com o respeito do princípio da autoridade do caso definitivamente julgado. e Dorsch Consult. a qualificação de certas situações jurídicas assentes no direito comunitário (Acórdãos de 18 de Janeiro de 1996.. Com a reserva de que os Estados-membros devem assegurar. C-312/93. a aplicação do princípio da responsabilidade do Estado às decisões judiciais foi aceite sob uma forma ou outra pela maioria dos Estados-membros.° 13. por vezes severas.. no quadro da organização judiciária nacional. à possibilidade de accionar a responsabilidade do Estado por danos causados por decisões judiciais erradas. n. Colect. p.°. não compete ao Tribunal de Justiça intervir na solução dos problemas de competência que possa suscitar. p. Colect.. Francovich e o. tenham podido inspirar aos sistemas de direito nacionais restrições. Há ainda que acrescentar que.

o Tribunal caracterizou o Tratado de Roma. Uma Comunidade de duração ilimitada. 1964. 6/64. Os Estados limitaram. O Tribunal de Justiça das Comunidades mantém. ainda que em domínios restritos. pág. A formulação do princípio do efeito directo do direito comunitário foi iniciada no Acórdão Van Gend en Loos75. de capacidade de representação internacional e. os seus direitos soberanos. proc. está também destinado a gerar direitos que entram no seu património jurídico” que “as jurisdições internas devem salvaguardar”. 76 Acórdão de 15 de Julho de 1964. a 5 de Fevereiro de 1963. das suas ordens jurídicas internas para a ordem jurídica comunitária. Neste Acórdão o Tribunal afirmou a existência de “uma nova ordem jurídica de direito internacional”. 152/86. no Acórdão Costa Enel76. Col.causados aos particulares pelas violações do direito comunitário que lhes são imputáveis. de poderes reais decorrentes de uma limitação de competências ou de uma transferência de atribuições dos Estados para a Comunidade…. no Acórdão Marshall74. que “ao mesmo tempo que cria obrigações na esfera jurídica dos particulares. de personalidade jurídica.s 00723 e seg. A transferência de soberania operada pelos Estados. 1963. Cabe à ordem jurídica de cada Estado-Membro designar o órgão jurisdicional competente para resolver os litígios relativos a esta reparação.s 00205 e seg.tes. 1986..s 564 e seg. dotada de atribuições próprias. dos direitos e obrigações correspondentes às disposições dos tratados implica uma limitação definitiva dos seus dos seus direitos soberanos 74 75 Proc.tes. Col. e criaram um corpo de direito aplicável aos seus cidadãos e a si próprios…. é igualmente aplicável. uma jurisprudência constante. que proíbe o efeito directo horizontal da directiva. Col. quando a violação em causa resulte de uma decisão de um órgão jurisdicional decidindo em última instância. 3. Acórdão Van Gend en Loos. 26/62. Conclusões. até hoje. A 15 de Julho de 1964.tes. 51 . proc. dos restantes tratados internacionais. pág. iniciada a 26 de Fevereiro de 1986. mais precisamente. nos seguintes termos: “Uma ordem jurídica própria …. diferenciando-o quanto à respectiva natureza jurídica. pág.

Nestes termos o Tribunal de Justiça formulou o princípio do primado do direito comunitário. Col. de jure. 1978. O princípio do primado constitui um corolário do efeito directo da norma comunitária. incompatível com as exigências inerentes à própria natureza do direito comunitário. quer se trate de Estados membros ou de particulares que sejam titulares de relações jurídicas às quais se aplique o direito comunitário”..00629 seg. .”. por autoridade própria. De facto e... sem que tenha de solicitar ou esperar a prévia eliminação da referida norma por via legislativa ou por qualquer outro processo constitucional……. Ainda no âmbito do Acórdão Simmenthal.s . a não aplicação de qualquer norma de direito interno que as contrarie. se necessário for. no âmbito das suas competências. a partir da sua entrada em vigor e durante todo o período da respectiva vigência. ou prática legislativa.” No Acórdão Simmenthal. declarou: “A aplicabilidade directa.contra a qual não poderá prevalecer um acto unilateral posterior incompatível com a noção de Comunidade. visa aprofundar os instrumentos de protecção jurídica efectiva dos particulares. e. Assim. estas disposições constituem uma fonte imediata de direitos e obrigações para todos os seus destinatários. a utilidade do efeito directo é incompatível com a existência de obstáculos à respectiva efectivação. administrativa ou judicial. 106/77.tes 52 . ainda que tal norma seja posterior. de modo uniforme em todos os Estados membros. qualquer norma na ordem jurídica interna. o Tribunal comunitário concluiu: “o juiz nacional responsável. proc. é. de 9 de Março de 197877. por aplicar o direito comunitário. tem obrigação de assegurar. que tenha por consequência a diminuição da eficácia do direito comunitário. implica que as normas de direito comunitário produzam a plenitude dos seus efeitos. pág. o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias colocado perante a questão relativa às consequências da aplicabilidade directa de uma disposição de direito comunitário em caso de incompatibilidade com uma norma interna. assim perspectivada. 77 Acórdão do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias de 9 de Março de 1978.

na medida em que estes sejam incompatíveis com normas comunitárias. pela caracterização da norma como incondicional e suficientemente clara82 e precisa. pág. relativo à proibição do efeito directo horizontal da directiva. Aqueles dois Acórdãos tirados em Outubro e em Dezembro de 1970. 81 Art. 249 do Tratado CE. está habilitado a produzir efeito directo. Todo o direito comunitário. desde que as normas em causa preencham os requisitos que o determinam. Acórdão de 6 de Outubro de 1970.s 685 e seg. 1969/1970. não apenas tornar inaplicável de pleno direito. o Tribunal de Justiça referindo-se à Directiva 68/31 da Comissão. na desvalorização do critério formal. 80 Acórdão de 17 de Dezembro de 1970. 1970. e dezasseis anos antes da produção de Marshall. com posição de precedência. as disposições do Tratado e os actos das Instituições comunitárias que sejam directamente aplicáveis têm por efeito. originário ou derivado.tes. 78 79 53 . sustentaram uma concepção jurídica fundamentada. No Acórdão SACE.tes. sustentando que o efeito directo da norma comunitária de direito derivado deverá ser aferido pela própria natureza da norma em apreciação. Col.”78 O princípio do primado abrange não só o direito comunitário originário. 1978. 106/77. proc. pág. nas suas relações com o direito interno dos Estados-membros. mas também – e uma vez que essas disposições e actos integram. 9/70. 82 À data ainda se exigia o requisito da clareza. Com a formulação do princípio do primado.s 00825 e seg. Col.629 ss. Nomeadamente. pp. devido ao simples facto da sua entrada em vigor. em anexo. nomeadamente precisão e incondicionalidade. O efeito directo dos actos comunitários de direito derivado. proc. Col. a ordem jurídica aplicável no território dos Estados-membros – impedir a formação de novos actos legislativos nacionais. oito anos antes da produção do Acórdão Simmenthal. enquanto condição de efeito directo da norma comunitária.“…por força do princípio do primado do direito comunitário. 33/70. enquanto valores essenciais que a caracterizam e a viabilizam. qualquer norma de direito interno que lhes seja contrária. subjacente ao art. havia sido apreciado no âmbito dos Acórdãos Grad79 e Sace80. a ordem jurídica comunitária estrutura-se no efeito directo e no primado. afirmou: Acórdão de 9 de Março de 1978. proc. 189 (actual 24981) do Tratado de Roma. como também o direito comunitário derivado.

” Na primeira metade dos anos setenta.s 00723 seg. o Tribunal de Justiça afirmou expressamente. tanto os outros Estados-membros. 189 (actual 249) e.. 41/74. com a proibição do efeito directo horizontal da directiva iniciado com o Acórdão Marshall de 26 de Fevereiro de 198685. eles próprios interessados no cumprimento.” Em 1974. Este Acórdão ao proibir o efeito directo horizontal da directiva. que apenas admite a invocabilidade perante um tribunal nacional contra o Estado-membro destinatário. que a directiva: “não pode. pela primeira vez. Col.tes. 85 Acórdão de 26 de Fevereiro de 1986. podemos afirmar que a linha de orientação seguida pelo Tribunal de Justiça fluía no sentido da prevalência do critério material determinado pelo imperativo de preservação dos efeitos da norma comunitária. Como vimos. sobre o critério formal subjacente ao art. a disposição que estabelece essa obrigação seja directamente aplicável.“Uma Directiva cuja finalidade é fixar a um Estado-membro uma data limite para o cumprimento de uma obrigação comunitária não diz respeito somente às relações entre a Comissão e esse Estado. 249 do Tratado CE. 54 . proc.. 152/84. na caracterização da directiva “. Neste Acórdão. funda-se na interpretação do art. pág. é preciso pois analisar se a letra. Mayers. Proc. por si.” Desta forma. 1974. o Tribunal esgrime as características decorrentes do carácter formal 83 84 H. o advogado geral83 no processo Van Duyn84 afirmou nas conclusões: “Em presença de uma directiva comunitária.s 00567 e seg. 1986. a natureza e a sistemática das suas disposições são susceptíveis de efeito directo. designadamente. como os particulares. quando pela sua própria natureza. pág.tes. Col. o Tribunal de Justiça inverteu o sentido acima referido. impor obrigações a um particular e que a norma da directiva não pode ser invocada por um particular contra outro particular”. na apreciação do efeito directo horizontal da directiva. mas tem também consequências jurídicas de que se podem prevalecer.

não foi a esta perspectiva que o Tribunal nos habituou. nos Acórdãos Grad. considerados valores essenciais a esta ordem jurídica. enquanto corolário do efeito directo e da aplicação uniforme do direito comunitário. impede que a directiva crie obrigações para os particulares. Aliás. enunciar duas ordens de argumentos invocados pelo Tribunal para negar o efeito directo horizontal da directiva: a) O carácter formal da distinção entre directivas e os restantes actos de direito derivado. Sobretudo numa perspectiva jurídica clássica e formalista. subjacente ao art. No entanto. tal como resultou caracterizada pelo Tribunal. e à formulação do primado. Podemos. precisamente para negar o efeito directo horizontal da directiva. não retroactividade e legalidade a sustentar a impossibilidade da directiva criar obrigações para os particulares.da distinção enunciada no art. Por outro lado. 249 do Tratado CE. indiciavam uma evolução no sentido da declaração do efeito directo horizontal da directiva. Por outro lado. Efectivamente as arrojadas concepções do Tribunal. As concepções aqui enunciadas sustentaram-se precisamente na sublimação do critério formal subjacente ao art. Van Duyn e Simmenthal. consideramos que muito provavelmente o teria admitido. como verificámos ao abordar a jurisprudência posterior a Marshall sobre a matéria. consistência que acima referenciámos. 249 do Tratado CE. resulta desvalorizada pela contradição verificada na argumentação do Acórdão Marshall. b) O recurso aos princípios da ordem jurídica comunitária. Sace. então. da não retroactividade e da legalidade para rejeitar o efeito directo horizontal da directiva. face à argumentação que o Tribunal sustentou na sua concepção relativa ao efeito directo das normas de direito comunitário derivado. 55 . o Tribunal funda-se nos princípios gerais da segurança jurídica. designadamente segurança jurídica. Não podemos negar a consistência jurídica das fundamentações apresentadas pelo Tribunal. sobejamente demonstradas ao longo deste trabalho. 249. se o Tribunal se tivesse pronunciado sobre o efeito directo horizontal da directiva comunitária no princípio dos anos setenta.

É que. um particular o possa invocar e o outro não veja garantida essa prerrogativa. só será sustentável se a legalidade das “directivas regulamentares” for simultaneamente contestada com fundamento em incompetência. a produção jurisprudencial nacional. a ordem jurídica comunitária tem vindo a produzir directivas regulamentares. obrigações para os particulares. directivas cujo conteúdo é de tal forma exaustivo no estabelecimento do regime jurídico completo da questão em apreciação. da não discriminação e da legalidade 56 . a par do efeito directo vertical ascendente. a admissibilidade do efeito directo vertical ascendente da directiva. Com efeito. Nomeadamente atentatórias do princípio da igualdade e da não discriminação.Efectivamente. direito que não assiste ao particular com vínculo a uma entidade privada. o reconhecimento do direito de um particular opor uma norma constante duma directiva ao Estado. Talvez não tenha sido estranho à inversão do sentido jurisprudencial. Outra contradição resulta da praxis comunitária em matéria de produção normativa. As chamadas “directivas regulamentares”. se se tratar de matéria laboral. Isto porque. nomeadamente proferida pelo Conseil d´Etat Francês e pelo Bundesfinanzhof Alemão no sentido da rejeição do efeito directo horizontal. seguido da proibição do efeito directo horizontal da directiva pode determinar soluções concretas injustas. A título de exemplo. o particular com vínculo a uma entidade munida de autoridade pública pode invocá-la. e a proibição de a opor a outro particular vai permitir que no parâmetro do direito estabelecido na mesma directiva. sem que – até hoje – a respectiva legalidade tenha sido posta em causa. O argumento sustentado na incompetência das Comunidades para criar através de directiva. Outro argumento que consideramos essencial resulta da sustentação dos princípios e valores materiais da ordem jurídica comunitária.é. Assim consideramos que os princípios essenciais da ordem jurídica comunitária. i. e por efeito desta. as concepções em matéria de efeito directo sustentadas pelo Tribunal nos anos setenta. foram institucionalizadas pela praxis das instituições comunitárias. da igualdade. eram manifestamente propícias à consagração do efeito directo horizontal. de tal forma que podemos afirmar que a directiva comunitária no que respeita à respectiva caracterização evoluiu no sentido de cada vez mais se aproximar do regulamento.

º 2 do artigo 17º do Tratado da Comunidade Europeia. 89 Processo de deliberação enunciado no art.eu. 86 O Tratado da União Europeia foi assinado em Maastricht a 7 de Fevereiro de 1992. consubstancia uma síntese dos valores comuns aos Estados-Membros. Este argumento é particularmente relevante no âmbito das directivas notificadas a todos os Estados-membros. no vigésimo dia subsequente ao da publicação. à luz da evolução da sociedade. no caso de incumprimento ou incumprimento defeituoso e decorrido o prazo fixado pela directiva. porque no que respeita aos resultados a prosseguir a directiva é competente tanto no que respeita à criação de direitos. Isto claro.intercedidas pelo Estado ao adoptar os actos de transposição. do conceito de cidadania europeia. de não retroactividade e de legalidade não procedem. entrou em vigor a 1 de Novembro de 1993. como de obrigações dirigidas aos particulares. bem como com o aprofundamento relativo ao reconhecimento de direitos fundamentais87 próprios da Comunidade Europeia. 2. são notificadas aos respectivos destinatários produzindo efeitos mediante essa notificação. Disponível em www. na falta desta. com menção expressa. 254º88 do Tratado ocorre na maior parte dos casos. 254º do Tratado CE: 1. sendo actualmente o procedimento mais comum à deliberação comunitária. Os regulamentos do Conselho e da Comissão. ao princípio da igualdade: “Os cidadãos da União gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres previstos no presente Tratado”. reforçar a protecção dos direitos fundamentais. na falta desta.europa. vinculado pelo resultado estabelecido na directiva ou. As outras directivas. efectivadas em razão do efeito directo da directiva. 251 do Tratado CE. 88 art. implicam o reconhecimento do efeito directo horizontal da directiva. com o Tratado da União Europeia86.eu. O que em razão do art. Ora se estas obrigações são na sua efectivação . 87 A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Por outro lado. bem como as decisões.europa. na sua redacção actual. desde que as directivas sejam publicadas. proclamada em Nice a 7 de Dezembro de 2000. bem como às directivas adoptadas de acordo com o procedimento de co-decisão89. assim como as directivas destas instituições dirigidas a todos os Estados-Membros. Desde logo. Os regulamentos. do progresso social e da evolução científica e tecnológica”. Disponível em www.o são assinados pelo Presidente do Parlamento Europeu e pelo Presidente do Conselho e publicados no Jornal Oficial das Comunidades Europeias. os argumentos de segurança jurídica. Os objectivos enunciados no preâmbulo: "é necessário. 3. no vigésimo dia seguinte ao da publicação. 57 . o resultado é o mesmo. são publicados no Jornal Oficial das Comunidades Europeias e entram em vigor na data por eles fixada ou. directivas e decisões adoptados de acordo com o procedimento a que se refere o artigo 251. entrando em vigor na data por eles fixada ou. conferindo-lhes maior visibilidade por meio de uma Carta. no n.uniforme do direito comunitário. Este argumento é tanto ou mais relevante após a introdução.

alegando argumentos jurídicos tradicionais.de garantir a plena eficácia e a aplicação uniforme do direito comunitário e.de acordo com as posições assumidas pelo Tribunal .. que o Tribunal.Consideramos. 58 . desviou-se do ousado percurso que tem vindo a estabelecer no âmbito da jurisprudência respeitante à natureza jurídica das Comunidades e aos princípios que lhe são estruturantes e essenciais. Ao proibir o efeito directo horizontal da directiva.em matéria de efeito directo horizontal da directiva comunitária .por considerarmos que a solução no sentido da afirmação do efeito directo horizontal da directiva é aquela que melhor se integra na concepção afirmada pelo Tribunal relativa à caracterização da ordem jurídica comunitária. inverteu a sua posição nesta matéria. foi o Tribunal que diversas vezes utilizou a expressão “.” Recorde-se que. a solução firmada desvia-se do objectivos proeminentes .” É nestes termos que refutamos a solução jurisprudencial adoptada pelo Tribunal de Justiça .imperativo de salvaguarda do efeito útil da norma comunitária e da exigência de aplicação uniforme do direito comunitário. De facto. assim. consequentemente de garantir a “qualidade da ordem jurídica comunitária.

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