ARTIGO ARTICLE

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Prevalência e caracterização da dor crônica em idosos não institucionalizados Prevalence and characterization of chronic pain among the elderly living in the community

Mara Solange Gomes Dellaroza 1 Cibele Andrucioli de Mattos Pimenta 2 Tiemi Matsuo 3

Abstract
1 Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Brasil. 2 Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. 3 Centro de Ciências Exatas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Brasil.

Introdução
Muito se tem estudado sobre o envelhecimento populacional como um fenômeno mundial. Visando a assegurar boa qualidade de vida à população idosa, é essencial avaliar os fatores de morbidade a que esta população está exposta. O crescimento da população mundial tende a confirmar as projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) que prevê para o ano 2025, 30 milhões de idosos, o que corresponderá a 10% da população brasileira 1,2. Essas cifras levarão o país a ocupar a sexta posição entre os países com maior número de idosos do mundo (OMS, 1982, apud Silvestre 2). Em Londrina, cidade do interior do Estado do Paraná, Brasil, o fenômeno do envelhecimento populacional já é percebido quando comparamos dados dos censos de 1991 e 2000. No primeiro (1991) o índice de envelhecimento da população de Londrina era de 15% passando a 24% em 2000 3. Essa mudança na pirâmide populacional traz conseqüências na estrutura onde os idosos estão inseridos: família, mercado de trabalho, política econômica, organização e metas dos serviços de saúde e sociais 1,4,5. O processo de envelhecimento, na maioria das vezes, não se caracteriza como um período saudável e de independência. Ao contrário, caracteriza-se pela alta incidência de doenças crônicas e degenerativas que, muitas vezes, re-

Correspondência M. S. G. Dellaroza Departamento de Enfermagem, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina. Rua Borba Gato 1078, apto. 904, Londrina, PR 86010-630, Brasil. maradellaroza@dilk.com.br

The purpose of this cross-sectional study was to determine the prevalence of chronic pain in elderly municipal employees (n = 451) in Londrina, Paraná State, Brazil, and to characterize the pain in relation to: location, intensity, duration of episode, periodicity, and most frequent time of day. Data were collected using home interviews. Chronic pain was defined as lasting ≥ six months and the elderly were defined as ≥ 60 years of age. Overall prevalence of chronic pain was 51.44%, involving mostly the back (21.73%) and lower limbs (21.5%). Back pain was described as daily (31.63%), continuous, or lasting 1-6 hours (19.39%), mild (50%), and without a specific time of day (56.12%). Pain in the lower limbs was described as daily (42.27%), of variable duration (32.99%) or continuous (22.68%), mild (53.61%), and without a specific time of day (48.45%). The study showed a high prevalence of chronic pain in the elderly, with characteristics that can interfere in their quality of life, causing unnecessary suffering. Pain; Aging Health; Cross-Sectional Studies

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(5):1151-1160, mai, 2007

desequilíbrio econômico. Esse fato dificulta a sensibilização de profissionais da área de saúde para o problema da dor dos idosos. A coleta de dados ocorreu de outubro de 1999 a março de 2000. recusa 20.11. A segunda parte objetivou determinar a prevalência de dor crônica no último ano e sua caracterização quanto ao local. Apesar da magnitude da dor. As conseqüências biopsicossociais da dor crônica enfatizam a importância do dimensionamento da sua prevalência visando ao planejamento de medidas para seu controle e tratamento.6.7. com mais de sessenta anos. constipação. alterações na dinâmica familiar. Considerou-se idoso todo indivíduo com mais de sessenta anos. que causam dor contínua ou recorrente em intervalos de meses ou anos. Dor crônica é definida como “aquela que persiste além do tempo razoável para a cura de uma lesão” 14 (p. duração. “Tem alguma outra dor que não ocorreu na última semana?”. apontada em estudos internacionais. freqüência e horário preferencial do episódio. “Há quanto tempo sente estas dores?”.8. As perguntas utilizadas para avaliar a ocorrência de dor crônica. A população constituiu-se de 529 idosos. A dor passa a ser o centro. ou seja. em significativa parcela deles. p.1152 Dellaroza MSG et al. a totalidade dos servidores municipais de Londrina. sócio-culturais e ambientais são fatores que compõem o fenômeno 9. Rio de Janeiro. do tipo transversal de base populacional. intensidade.47% da população (78 idosos). xi). 2007 . e a lesão tecidual. tempo Cad. o que representou perda de 14. sentimento de morte e outros. reais ou potenciais. Muitos desses quadros são acompanhados por dor e. dificuldade de concentração. Fatores como depressão. fadiga. conforme preconizado pela IASP 14.3% (1 idoso). alterações do sono. ainda. Assim.7% (52 idosos). incapacidade física e funcional.10. Foram entrevistados 451 idosos. desesperança. a criação de serviços. A impossibilidade de controlá-la traz sempre sofrimento físico e psíquico 13. as causas das perdas foram incapacidades física ou cognitiva 11.5% (16 idosos) e não localização do idoso após 6 tentativas 66. 23(5):1151-1160. Acarreta. Método Este estudo. afastamento social. e foi realizada por dez entrevistadores de campo selecionados a partir de um treinamento de trinta horas com temas teóricos práticos sobre dor e técnica de entrevista a idosos. de caráter contínuo ou recorrente. o planejamento de programas e a alocação de recursos humanos e materiais visando ao controle da dor crônica nessa população. O roteiro de entrevista constituiu-se de três partes. encontram-se associados a quadros de dor crônica. mudanças na sexualidade. O método de coleta foi entrevista domiciliar. os objetivos do presente estudo foram: determinar a prevalência da dor crônica em idosos servidores municipais de Londrina e caracterizar a dor crônica em idosos quanto ao local. A dor é sempre subjetiva e cada indivíduo aprende e utiliza este termo a partir de suas experiências anteriores”. fato que pode interferir de modo acentuado na qualidade de vida dos idosos. A dor crônica. anorexia. foi autorizado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Londrina e pelos órgãos competentes da Prefeitura Municipal de Londrina. é emergente a necessidade de estudos epidemiológicos sobre a prevalência de dor crônica entre idosos. Foi realizado em julho de 1999 o teste piloto para adaptações no roteiro de entrevista e no sistema de tabulação dos dados. segundo os critérios estabelecidos foram: “Sentiu alguma dor nesta última semana incluindo hoje?”. sultam em elevada dependência 5. intensidade. entre outros 12. a dor é das mais significativas. alcoolismo 1. náuseas. É também descrita como aquela associada a processos patológicos crônicos.5% das perdas (9 idosos). mai. dependência. conforme preconizado pela OMS para países em desenvolvimento 15. direciona e limita as decisões e comportamentos do indivíduo. A primeira com o objetivo de realizar a caracterização sócio-econômica. como uma doença e não um sintoma pode ter conseqüências na qualidade de vida. A dor é compreendida como um fenômeno multifatorial. A proporcionalidade das perdas quanto a sexo e idade não interferiu na representatividade da população pesquisada. Neste estudo foi considerada dor crônica aquela com duração igual ou superior a seis meses. Saúde Pública. a dor crônica é a principal queixa do indivíduo. que refere-se à dor como “uma experiência sensorial e emocional desagradável que é descrita em termos de lesões teciduais. no Brasil não se encontraram estudos sobre prevalência de dor crônica em idosos da comunidade. 210). aspectos emocionais. Assumiremos neste estudo o conceito de dor da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) de 1986 (apud Merskey 14. Todos esses fatores associados parecem aumentar a morbidade entre os idosos e onerar o sistema de saúde. Diante disso. Entre as conseqüências que a transição demográfica e a longevidade têm trazido à sociedade.

1% foi descrita como intensa. Todas as categorias apresentaram grande variabilidade de renda per capita.2% dos casos o período da noite foi descrito como preferencial.4% dos casos. moderada em 38. Nessa escala os copos “2” e “3” representaram dor leve. 23(5):1151-1160. optou-se por organizar os dados de acordo com as variáveis: dor em membros inferiores.1%) e. Para avaliação da intensidade.4% das vezes.4% dos casos. mas a distribuição quanto ao sexo não reflete a realidade do Brasil.8% das dores. mai. optou-se pela escala de copos proposta por Whaley & Wong 16 e testada por Wong & Baker 17. A duração dos episódios foi descrita como variável em 37. o que aumenta a probabilidade de maior presença de homens. Foram realizadas análises de freqüência absoluta e relativa e medidas de posição: média e mediana e dispersão através do desvio padrão. moderada em 38. e em 10. dor com duração igual ou superior a seis meses. possivelmente devam-se ao fato de que a base populacional do estudo foi uma fonte empregatícia 3.12 (SAS Institute. Conforme relatado.1% foi descrita como intensa. em 20. em 11. A duração dos episódios foi variável em 31.37.3% das vezes. Considerando-se que dores em membros inferiores e em região dorsal foram as mais freqüentes.50 e desvio padrão de 6.2% e maior que 6 horas em 18. consideram como significativos os testes cujo valor de p for menor do que 0. Não houve horário preferencial na maior parte das queixas (56. A Tabela 2 abaixo apresenta a prevalência de idosos com dor crônica.7% dos relatos. sabe-se. seguida de episódios semanais (30. A referida escala compõe-se do desenho de seis copos onde o primeiro copo “vazio” representa sem dor e o sexto copo “cheio”. A dor foi leve em 53. 19. Já os idosos acima de 75 anos apresentaram média de 22.2%.9% referiram uma dor crônica.3% dos casos. Não houve horário preferencial em 52.3%. Desses. 2007 . em 20. Os escores obtidos no Mini Exame de Estado Mental demonstraram um nível cognitivo normal entre os idosos entrevistados. Cary. Os 232 idosos com dor crônica referiram ao todo 294 locais de dor crônica.8% dos casos.95. o período da manhã foi referido como o de maior ocorrência.7% das vezes.4% apresentaram queixa de dor crônica. Os dados coletados foram organizados em planilhas do programa Excell e realizada análise estatística utilizando-se o programa SAS versão 6. Dor em outros locais teve freqüência variável em 31. A dor em região dorsal teve freqüência variável em 38. Não houve horário de maior ocorrência em 48. Rio de Janeiro. visto que a mulher figura em maior número na faixa etária acima de sessenta anos. Referente à categorização social observa-se uma significativa representatividade de todas as categorias sócio-econômicas. a duração dos episódios foi variável em 33% dos casos e descrita como contínua em 22. e os locais mais prevalentes foram: região dorsal (21. A distribuição entre as faixas etárias está de acordo com a realidade nacional.05.45% das dores e.3% duas dores e 2. mediana de 24. com mediana de 26 e desvio padrão de 3. 9. copos “4” e “5” dor moderada e o copo “6”. ou seja. representa a pior dor imaginável. em cerca de 19% dos casos.5% das queixas e.84. Realizaramse teste de χ2 para avaliar a homogeneidade das freqüências ou Fisher e Tukey para comparação múltipla entre as médias considerando-se em ∝ = 0.32. a dor em membros inferiores foi diária em 42. dor intensa. Estados Unidos). e com duração de 1 a 6 horas em 21.5%). seguida de episódios diários (31. As diferenças encontradas quanto ao sexo. e avaliada como adequada no teste piloto e em estudo realizado com idosos brasileiros 18.6%). conforme a classificação de classe sócio-econômica da Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado (ABIPEME) 20. freqüência e duração dos episódios. e em 10.4% dos casos. Para essa categorização utilizou-se a classificação de dor crônica da IASP 14. influi no relato da queixa de dor. A intensidade da dor dorsal foi leve em metade dos casos e moderada em 42. foi descrita como intensa. A intensidade foi leve em metade dos casos.05.2%). 39.2% das dores crônicas. os horários da tarde e da noite foram descritos como os de maior ocorrência.31%. Observa-se que 51. Saúde Pública. dor em região dorsal e outras dores.PREVALÊNCIA E CARACTERIZAÇÃO DA DOR CRÔNICA EM IDOSOS 1153 de ocorrência. pela presente pesquisa. A opção por realizar a avaliação cognitiva deveu-se ao desejo de obter informações sobre um aspecto que.3%) e diários (24. Resultados Na Tabela 1 apresentamos o perfil sócio-demográfico dos idosos pesquisados.4% dos casos e com duração entre 1 e 6 horas também em 19. ou seja. que inclui todos os outros locais de dores referidas. Os idosos en- tre 60 e 75 anos apresentaram escore médio de 24.7%) e membros inferiores (21.6% das queixas.2% três dores crônicas. moderada em 35% das vezes e. A intensidade foi leve em metade dos casos. A última parte do instrumento constituía-se no Mini Exame do Estado Mental proposto por Folstein et al. Não houve horário pre- Cad. contínua em 19. correspondendo a 43.

mai. motorista. 2000.8 51. Idosos n Não referiram dor Referiram somente dor com duração de até 6 meses Referiram dor com duração igual ou maior do que 6 meses Referiram dor sem determinar a duração Total 175 35 232 9 451 Freqüência % 38.0 318 133 70.0 100. carpinteiro. Tabela 1 Distribuição dos idosos quanto ao sexo. Paraná. cinegrafista.5-10. técnico de contabilidade.8 12.832/94 40. fotolitógrafo.4 6. situação e categoria ocupacionais. Rio de Janeiro.1 0.9 159 292 35. superior: funções cujos critérios de admissão exigem o curso superior. desenhista. 2007 . Londrina. Londrina. Paraná. *** Em dois idosos não foi possível obter todos os dados para a análise de categoria social.9 18.7-56.7 46.3 64. jardineiro.1154 Dellaroza MSG et al.4 2.0 2. estado conjugal.7 Freqüência absoluta Freqüência relativa * Classificação baseada na Lei Municipal no. impressor.3-43. merendeira. administrativo: aqueles que exercem função de: agente administrativo. 23(5):1151-1160. Variáveis (n = 451) Sexo Feminino Masculino Idade (anos) 60-75 76-85 + de 85 Estado conjugal Casado Viúvo Separado Solteiro Situação ocupacional Aposentado Ativo Categoria ocupacional * Operacional Técnico Administrativo Superior Não categorizável ** Categoria sócio-econômica (n = 449) *** Categoria A e B Categoria C Categoria D e E 101 175 173 22. técnico: funções como: auxiliar de enfermagem e odontologia. ** Não foi possível realizar a categorização da ocupação dentro do quadro de cargos vigentes. Brasil.9 12.5 29.5 225 85 58 56 27 49. telefonista e.98-3.5 39.7 415 32 4 92.7 22.9 IC95% Cad. agente de biblioteca. 2000. professor de 1a a 4a. guarda.6 8. Brasil.0 34. idade. 5.5 5. Tabela 2 Distribuição dos idosos quanto ao tempo de dor. Operacional: aquele que exerce funções como auxiliar de serviços gerais.0 7. operador de computação. que trata sobre o quadro de cargos de funcionários municipais de Londrina.0 38.8 7.1 0. Saúde Pública.5 301 102 36 12 66.

23.1-1.0-1. Roy & Thomas 23.0 0. encontrou 58. e 21.8 Total * O total não atinge 100% por haver idosos com dores múltiplas e nove idosos com dores que não foi possível categorizar entre aguda ou crônica. Brasil.2 2.1 0.9-8.7 0.2-2.7 21.0 1.7%. Aos idosos com dores múltiplas foi indagado qual dor mais o incomodava.0 1.0-1.4 0.4 IC95% 21.1-1. 23(5):1151-1160.4 0.7 0.1-1.0-10.8 0.8-3.1 0.5.8 0.8 1. quando comparados com idosos da comunidade 25.3 0.2 n 98 97 32 20 20 9 7 6 3 2 Dor crônica (com duração maior do que 6 meses) %* 21.3% de prevalência de dor no grupo de 65 a 74 anos e 53.4% dos casos a incidência da dor não esteve limitada a um horário específico.6 1. ** Na categoria dor generalizada. 48% para idosos (75 a 85 anos) e de 55% para os “mais idosos” (acima de 85 anos).24. Paraná.5-3.8-6. ao estudarem 205 idosos vinculados a uma associação social e recreativa.3 4.9 2.3% para os idosos acima de 75 anos. o que sugere que nesta prevalência podem estar incluídas as dores agudas.7 1. potencialmente. 22 pesquisaram 537 idosos da comunidade com mais de 77 anos e encontraram 72.PREVALÊNCIA E CARACTERIZAÇÃO DA DOR CRÔNICA EM IDOSOS 1155 ferencial em 52.6% e em 31. foram incluídas dores descritas como generalizadas e dores articulares envolvendo diferentes segmentos corporais. Local de dor n Região dorsal Região de membros inferiores Região cefálica Região abdominal Região de membros superiores Região torácica Dor generalizada ** Região cervical Região pélvica Região perineal e genital 15 21 6 6 8 3 1 2 1 Dor com duração até 6 meses %* 3.44% do presente estudo.1-11. Prevalência mais elevada de dor em idosos institucionalizados pode ser devido a piores condições de saúde dos mesmos. As prevalências de dor crônica encontradas na região dorsal. Discussão Neste estudo foi observada dor crônica em 51. O estudo de Birse & Lander 27 realizado com adultos canadenses (n = 410) com 12.8 n 113 118 38 26 28 12 8 8 4 2 %* 25. em 19.3.2% dos casos o período da noite foi descrito como preferencial. Brattberg et al.9 17. 22 e Roy & Thomas 23 talvez seja justificada pela não explicitação dos critérios utilizados na definição da dor. Há que se refinar esse conceito.1 0.2 8.8 6. Rio de Janeiro.8% com alguma queixa dolorosa.1 0. Em 52.0-3.5 7.5 1.4 IC95% 18.0 0.4% e intensa em 9.44% dos idosos.3-2.26. 2000.2 IC95% 1. mai.1% foi de 1 a 6 horas de duração e em 18.6 0.3% a freqüência foi variável.6% no período da manhã e no da tarde.6% dos casos.2-9. cabeça e face. a freqüência diária ocorreu em 32.4 5.4% foi contínua.9 0.5-3. Londrina.7 0. Nota-se o quanto os critérios estabelecidos para definir dor crônica permitem grande variabilidade de achados e a inclusão de queixas.3% a incidência deu-se no período da noite e em 13.0 0.5% das queixas e.8-3.2 0.2-2.1 26. observaram que 69.9 0.1-25. Relativamente às dores crônicas. em 7. Essas variações devem-se aos diferentes critérios utilizados na definição de dor crônica e a não explicitação do tempo de ocorrência de dor. e para 19. muito diversas.0-7.2-30. Saúde Pública.5% da amostra de idosos. A duração do episódio foi considerada variável em 34%. A maior prevalência encontrada nos estudos de Brattberg et al. Helme & Gibson 21 que estudaram mil idosos comunitários com dor há mais de três meses.1 4. Tabela 3 Prevalência e intervalo de confiança de 95% (IC95%) das dores quanto ao local. em 16.4 22. A terceira dor que mais incomoda foi a dor abdominal. no abdômen e nos membros superiores (Tabela 3) coincidem com estudos que também encontraram dor em região dorsal e em membros inferiores como as mais prevalentes na população idosa 25.0 2.5 3.8-3.4 4.9-5. A dor foi leve em 50.9-25. moderada em 38.4-4. Estudos sobre dor em idosos institucionalizados relataram prevalência que variou de 71 a 83% 12. 2007 .3 0.9 1.7-3.6 0. valores que se aproximam do valor de 51.4 2. a dor em região dorsal.5%.5 6.8-6. observaram prevalência de 51% para jovens idosos (60 a 75 anos). em 20.6 5. membros inferiores.4 4.5 3.3 1.75% tiveram alguma queixa de dor.6 0.2-29.7% deles responderam ser a dor em membros inferiores.8 0.3 1.6%. Cad.

bem-estar e qualidade de vida do idoso. Em estudos sobre dores em geral em idosos institucionalizados.9.34.34% tiveram dor no quadril por artrite e dor nos pés e 5. assim a prevalência encontrada pode ter incluído dores agudas.05% dos que informaram dor em membros inferiores e 38. Em estudo de dores em geral entre idosos institucionalizados foi possível discriminar as prevalências relacionadas a membros inferiores. Não há nesse estudo especificação do tempo de duração da dor.73%). Outros estudos referem-se a partes dos membros inferiores como o joelho.37. a prevalência de dor lombar variou de 14 a 49% 5. não encontraram relação entre idade e dor no dorso.29. Esses dados são apresentados na Tabela 4. em torno de 10% 28. 31 observaram em 3. As variações de prevalência constatadas nos estudos devem-se aos diferentes delineamentos de pesquisa.29.33. Os estudos citados não especificam critérios para a classificação da dor. repercutem na funcionalidade. em que se incluíram idosos. a prevalência varia conforme a classificação utilizada e conforme o sexo. Em estudos realizados com adultos.094 idosos.2% 12. No presente estudo.29.33. Dessas.31. duração do episódio e intensidade da dor (Tabela 4). Poucos estudos caracterizaram a dor quanto à freqüência dos episódios. Um aspecto que pode interferir na qualidade de vida das pessoas com dor crônica é a intensidade da dor. 4. 2007 . ficando esta entre 36 e 53% 36. A terceira dor crônica mais prevalente no presente estudo foi dor na cabeça e face. semelhante à encontrada no presente estudo (21. que acometeu 7. As características de freqüência. a prevalência de cefaléia variou entre 7 e 23. encontrou-se 34% dos idosos com dores contínuas e 66% com dores recorrentes. Na maioria dos estudos a intensidade do fenômeno álgico é amplamente estudada e relacionada ao grau de incapacidade.29. situações nas quais poderíamos esperar maior “gravidade” de queixas de dor.32.43% das queixas de dor em geral. Andersson et al.29.8%. devido à diversidade das dores estudadas. Entretanto. o que faz supor que nessa prevalência tenham-se incluído dores agudas. quando comparada com outras faixas etárias 28.43% por claudicação 12. no último ano. o que torna difícil a comparação.33. A dor foi descrita em aproximadamente 10% das vezes como intensa em membros inferiores e em outros locais. 35.35 e nos quadris. Tais estudos utilizaram para avaliar a magnitude da dor instrumentos diferentes dos utilizados na presente pesquisa. Em vários estudos observou-se que com o aumento da idade a prevalência de dor em região dorsal tende a diminuir. Cabe salientar que a maior freqüência de episódios de dor com freqüência “variável” era esperada na presente pesquisa. 9. e em cerca de 7% dos casos de dor dorsal. e que a porcentagem de dores com freqüência diária foi bastante significativa. acredita-se que o quadro de dor descrito é significativo e apresenta características que podem comprometer a funcionalidade dos indivíduos. Rio de Janeiro. cuja prevalência variou entre 12. Considerando que a população da presente pesquisa não foi selecionada a partir de um serviço de saúde ou de idosos institucionalizados. porém. A diferença entre os valores descritos e os observados na presente pesquisa pode ser explicada pela maior sensibilidade dos estudos específicos.52% dos avaliados.24.5%. Esses aspectos são pouco explorados nos estudos epidemiológicos.1156 Dellaroza MSG et al. von Korff et al.7 e 48% 28. A tentativa de analisar a duração e a freqüência da recorrência deveu-se à compreensão de que tais aspectos estariam ligados ao desconforto e comprometimento da qualidade de vida. e estudaram idosos de hospital-dia (18% de dor intensa) 24 e de uma instituição de internação permanente e com diferentes graus de dependência (52% de dor intensa) 12.34. Cad. Saúde Pública. A maioria dos estudos demonstrou que a freqüência de dor nas pernas e nos pés aumenta com a idade 25.09% dos idosos. Tais aspectos justificam que o controle da dor em idosos é uma questão de saúde pública e de respeito humano. 42.24.6 e 31% 28. nos pés cuja prevalência ficou entre 9. não apresentaram critérios quanto ao tempo de dor.71% daqueles com dor na região dorsal. sendo que 51% destas dores ocorriam diariamente e 35% semanalmente 12. Os autores.29. Um estudo com 100 idosos institucionalizados encontrou 66% deles com dores intermitentes. Em estudo de dores em geral. Na presente pesquisa a prevalência de dor crônica em membros inferiores foi de 21. 64% de prevalência de dor em membros inferiores.30. Dois estudos sobre dores em geral. 51% recorriam diariamente 12. podendo resultar em forte impacto na qualidade de vida do idoso. Em estudos específicos de cefaléia em população de comunidade. associadas aos aspectos psicossociais. 23(5):1151-1160. Herr et al. consideraram a dor como moderada. 29 utilizaram como critério de dor crônica aquela com duração superior a três meses e encontraram prevalência de 23. mai. encontraram entre 18 e 52% dos idosos com dor intensa 12. realizados com idosos institucionalizados. Cãibras em membros inferiores e dores nos joelhos ocorreram em 6.

Rio de Janeiro.4 4.7 31 7 10 11 38 1 31. situação ocupacional. já normalmente alterado entre idosos. somente o sexo associou-se à presença de dor.2 52.2 13. Brasil.1 20.4 37.0 1.2 11. membros inferiores e outros locais.38.3 18.2 52 34 11 53.5 38. 2007 .1 4.2 6.6 13.4 34.3 2.7 33. Cabe destacar a porcentagem de idosos com dores noturnas. fato que certamente interfere na qualidade do sono.6 6.33.3 6. A maioria dos estudos epidemiológicos encontrou maior prevalência de dor entre mulheres 22.5 20.3 6.5 31.1 7.1 24 6 30 6 31 2 24. Londrina.2 19.4 4. classe social e renda familiar e renda per capita.3 2. mai.PREVALÊNCIA E CARACTERIZAÇÃO DA DOR CRÔNICA EM IDOSOS 1157 Tabela 4 Caracterização da dor crônica em região dorsal.7 38.1 31. Caracterização da dor Região dorsal (n = 98) n Freqüência dos episódios Diariamente Menos que 1 vez por semana Semanalmente Mensalmente Variável Sem dados Duração dos episódios Menos de 1 hora Entre 1 e 6 horas Mais que 6 horas Contínua Variável Sem dados Intensidade Leve Moderada Intensa Sem dados Horário preferencial Manhã Tarde Noite Não há Sem dados 20 9 9 55 5 20.1 13. intensidade e horário preferencial.1 11.1 14 21 18 13 31 2 14.0 % n (n = 97) % n Locais de dor Membros inferiores Outros locais (n = 99) % n Total (n = 294) % A escassez de estudos que abordam esse aspecto inviabiliza comparações.5 3.8 1.4 15.1 5. Cad.4 9.0 11 16 14 22 32 2 11. o que concorda com o observado na presente pesquisa.0 18.39. categoria profissional.0 42. Os achados demonstraram que a dor foi freqüente e com características capazes de comprometer a qualidade de vida dos idosos. 23(5):1151-1160.4 9.5 14. quanto à freqüência.7 7.3 2.7 3.6 16. já que para o estudo de algumas variáveis o tamanho da amostra foi insuficiente.0 149 113 28 4 50. Das variáveis sócio-demográficas analisadas (Tabela 5).0 2. 2000.6 7.6 35.1 31. Cabe ressaltar que o presente estudo não teve como objetivo determinar a etiologia da dor.0 41 6 19 5 23 3 42.1 48 41 7 50.3 49 38 10 4 49.3 16.0 33 56 47 54 100 5 11.0 40 40 48 145 12 13.1 9 18 19 47 4 9.8 1. A dor foi mais freqüente em mulheres.1 23. Não se observaram associações entre dor e faixa etária.2 9. escolaridade. Conclusão Trata-se do primeiro estudo brasileiro sobre a prevalência de dor crônica em idosos não vinculados a serviços de saúde. Encontrou-se na literatura estudo em que 77% dos idosos relataram dor em membros inferiores relacionada a cãibras noturnas 31.2 38. Paraná.5 1. estado conjugal.6 48.2 19.1 10.1 11 13 20 52 3 11. O número de idosos pesquisados pode ter interferido na análise das variáveis.3 19. e que tem conseqüências sobre a disposição física e mental para as atividades diárias.6 5.4 10.2 19.6 19. Saúde Pública.2 56.2 18.4 8 19 15 19 37 1 8.29.1 21.4 22.0 96 19 59 22 92 6 23.3 52.1 30. duração dos episódios. O presente estudo forneceu dados para o planejamento de medidas visando à prevenção e controle da dor crônica.34.0 16.

90 0.29 104 29 34 29 14 23.19 0.10 15.17 0.864 1.90 15. Variáveis n Faixa etária (anos) (n = 442) * 60-75 Acima de 76 Sexo (n = 442) * Feminino Masculino Categoria ocupacional (n = 442) * Operacional Técnico Administrativo Superior Não classificável Situação ocupacional (n = 442) * Aposentado (n = 385) Ativo (n = 63) Escolaridade (anos) (n = 438) * 0-1 2-4 5-8 9-12 > 12 Estado conjugal (n = 442) * Com companheiro Sem companheiro Categoria sócio-econômica (n = 440) * Categoria A + B Categoria C Categoria D + E 48 74 88 10.53 6.131 Sem dor crônica % n Com dor crônica % 0.123 2.76 4.91 16.03 14.25 7.25 33.999 ≅ 0.01 17.32 3.29 17.43 5. 23(5):1151-1160.48 166 66 37. Paraná.82 20. faixa etária. Tabela 5 Comparação dos idosos sem dor e com dor crônica quanto às variáveis sócio-demográficas: sexo.90 5.66 2. mai.69 6. Saúde Pública.272 2. 2000.14 22. escolaridade. estado conjugal e categoria sócio-econômica.26 91 141 20.98 5. situação e categoria ocupacionais.62 7.009 189 21 42.56 7. Rio de Janeiro.76 8. Cad.17 118 53 24 25 12 26.602 53 70 25 23 35 12.377 Valor de p χ2 * As diferenças de “n” avaliado em cada variável devem-se à ausência de dados e o “n” máximo é 442 devido à exclusão dos nove idosos cuja dores não foi possível categorizar.042 4.56 14.01 146 64 33. Brasil.59 31.93 0.61 156 76 35. 2007 .71 0.35 6.218 63 147 14.75 218 14 49.640 0.40 141 69 31.99 57 76 29 34 36 13.00 49 98 83 11.27 18.70 11. Londrina.22 0.061 9.71 5.1158 Dellaroza MSG et al.56 3.

Perfil do idoso em área metropolitana na região sudeste do Brasil: resultados de inquérito domiciliar. Ramos LR. Referências 1. Transição demográfica e transição epidemiológica. Estudo transversal de base populacional realizado em área urbana de Londrina. Côrrea CF. Arq Geriatr Gerontol 1996. São Paulo: Editora Limay. Dor: conceitos gerais. duração. velhecimento populacional brasileiro e o setor saúde.45%). Introdução. 103-10. contínua ou com duração entre 1 e 6 horas (19. Pimenta CAM. intensidade. M. Pimenta elaboraram o artigo. http://www. Laurenti R. 2007 . projeções e alternativas. 38:409-14. 76:27-35. A população pesquisada foi de 451 idosos servidores municipais. 7. Constatouse prevalência de dor crônica de 51.39%). 3. Ferrel BA. G. In: Anais do I Congresso Brasileiro de Epidemiologia. Rio de Janeiro: ABRASCO. Jacob WF. 10. 23(5):1151-1160. Avaliação da dor. Valkenburg HA. freqüência do episódio e horário preferencial. Medina MCG. impondo sofrimento desnecessário. In: Teixeira MJ. A dor em região dorsal foi descrita como diária (31. p. Revista de Medicina 1997. Evidenciou-se alta prevalência de dor crônica em idosos. Santos FRG. Rev Saúde Pública 1993. organizador. Teixeira MJ. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Kruger A. In: Jacob WF. Silvestre JA. Rodrigues RAP O idoso e a aposenta. 12:173-83. Paraná. (1):81-9. Chiamolera M. Brasil. 11. An epidemiologic comparison of pain complaints. Epidemiologic considerations of the geriatric population. 143-65. mai. Dor em membros inferiores foi descrita como diária (42. todo servidor com mais de sessenta anos. Considerou-se dor crônica toda dor com duração igual ou superior a seis meses. Chaimowicz F.68%). Rev Esc Enfermagem USP 1992. Le Resche L. 27:87-94. Rio de Janeiro. Matsuo foi responsável pelas análises estatísticas. Magold RM. Rev Saúde Pública 1997. Kalache A. p. Gerontology 1988. 9. Veras RP O en. Rosa TEC. 31:184-200. Ferrel BR.12%). 34 Suppl 1:2-10. von Korff M. Universidade de São Paulo. Estimativas de população. 26:275-88. As características da dor observadas podem interferir na qualidade de vida dessa população. doria. Pain in the nursing home.44%.gov. p. br/home/estatistica/populacao/estimativa2006/ (acessado em 30/Set/2006). Osterweil D. Teixeira MJ. Estudos Transversais Colaboradores M. Os locais de dores mais freqüentes foram: região dorsal (21. Pain 1988. A coleta de dados foi realizada por entrevista domiciliar. organizadores. e idoso. 12.61%) e sem horário preferencial (48. S. T. leve (53. A. Dellaroza e C. Dwokin SF. Envelhecimento do sistema nervoso e a dor no idoso. São Paulo: Faculdade de Medicina. A saúde dos idosos brasileiros às vésperas do século XXI: problemas. 8. leve (50%) e sem horário preferencial (56. 1996.ibge.63%). Pimenta CAM. Oliveira ZM. Castro CRN. Saúde Pública.73%) e membros inferiores (21.PREVALÊNCIA E CARACTERIZAÇÃO DA DOR CRÔNICA EM IDOSOS 1159 Resumo Os objetivos deste estudo foram: determinar a prevalência da dor crônica em idosos servidores municipais e caracterizar esta dor quanto ao local.5%).27%). Saúde do Idoso. 3-6.99%) ou contínua (22. J Am Geriatr Soc 1990. 1990. 4. Pimenta CAM. Característica da dor no idoso. com duração variável (32. 1994. aplicada ao idoso. 2. 5. Cad. Dor. 6. Ramos LR.

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