Como funciona um tribunal do júri no Brasil?

por Ricardo Arcon
É mais ou menos parecido com o que você vê nos filmes americanos. Debates acalorados entre a acusação e a defesa, pessoas comuns decidindo o futuro do réu e um juiz responsável por lavrar a sentença – tudo permeado por uma verdadeira guerra de nervos. Mas o tribunal do júri brasileiro tem lá suas peculiaridades. Por exemplo: se o popstar Michael Jackson estivesse sendo processado no Brasil por abuso sexual, não teria de enfrentar o júri popular, como acontece nos Estados Unidos. Isso porque a lei por aqui prevê que só crimes intencionais contra a vida (ou seja, apenas homicídio doloso, auxílio ou instigação ao suicídio, aborto e infanticídio – quando a mãe mata o bebê logo após o parto) são julgados por esse órgão especial. Mas, assim como nos filmes, o ponto culminante do julgamento é o debate entre a acusação, a cargo do promotor público, e a defesa, feita pelo advogado do réu. Como precisam convencer pessoas comuns, como eu e você, de suas versões do fato, eles costumam lançar mão de um discurso com forte apelo emocional. E essa é uma das principais polêmicas sobre esse tipo de julgamento: há quem alegue que o júri decide mais pelo instinto do que pela razão. Mas, ainda assim, o tribunal do júri encontra defensores. “Acredito que esse tipo de julgamento deveria até abranger outros crimes. É democrático, conta com a participação popular e aumenta o sentido de cidadania”, diz o promotor Eduardo Rheingantz, do Primeiro Tribunal do Júri de São Paulo.
Entenda quem é quem no tribunal e como pessoas comuns decidem o destino do réu

Promotor Seu papel é defender os interesses da sociedade. Se ele perceber que o réu é inocente – ou que merece tratamento diferenciado em virtude das circunstâncias do crime – deve pedir a sua absolvição ou a atenuante aplicável à provável pena. A família da vítima pode contratar um assistente que dividirá o tempo da acusação com o promotor Juiz-Presidente Autoridade máxima do tribunal, faz valer a decisão dos jurados, mas não é responsável por ela nem pode induzi-la. Ele conduz o julgamento e resolve as questões de Direito, como definir a pena no caso de condenação. O escrivão – que registra tudo o que é dito no julgamento – fica ao seu lado Espectadores Salvo em casos de grande repercussão, qualquer pessoa pode assistir ao julgamento. Em geral, o auditório é ocupado por parentes do réu e da vítima, jornalistas e estudantes de direito Testemunha Defesa e acusação podem chamar até cinco testemunhas cada. O juiz também pode requerer a presença de alguém. Muitas vezes, as testemunhas de defesa não viram o que aconteceu (vão falar do caráter do réu ou apresentar um álibi), enquanto as de acusação estavam no local do crime Réu Quando está preso, o réu fica algemado e é acompanhado por policias militares. Apesar de ser a figura central do julgamento (afinal, é seu destino que está sendo decidido), sua participação é pequena dentro do tribunal Conselho de sentença

para garantir que não troquem informações entre si Quem são os jurados Vinte e um cidadãos são intimados a comparecer ao tribunal na data do julgamento.O juiz formula os quesitos (perguntas) que serão votados pelo conselho de sentença e os lê. Devem ser maiores de 21 anos.É escolhido o conselho de sentença. Conheça as dez etapas do processo 1 . Defesa e promotoria podem dispensar até três jurados sorteados.Começam os debates entre a acusação e a defesa.O advogado – ou defensor público. no caso de pessoas que não podem pagar – também tem duas horas para a defesa 7 . Sete formarão o conselho de sentença.O juiz apresenta aos jurados o processo. As decisões são tomadas por maioria simples de votos (nos Estados Unidos. seguidas pelas de acusação e depois pelas de defesa 5 . Nesse caso. os jurados recebem uma cédula com a palavra “sim” e outra com a palavra “não”. nessa ordem. formando o conselho de sentença. ou seja. os jurados se hospedam em alojamentos e são acompanhados por oficiais de justiça. Primeiro as indicadas pelo juiz (quando há).Juiz. a decisão deve ser unânime) e a votação é sigilosa. Os votos são contabilizados pelo juiz 10 . só sete participam do julgamento. o promotor pode preferir não ter pessoas com forte crença religiosa no conselho). os jurados não podem falar sobre suas impressões do processo. O primeiro a falar é o promotor. perguntas para o réu. para os jurados 9 . se necessário 8 . religiosa ou filosófica implica a perda dos direitos políticos Passo a passo Um julgamento pode durar de algumas horas a alguns dias. Também pode haver uma tréplica do advogado. São permitidas até três recusas sem motivo (por exemplo. expondo os fatos.Dos 21 jurados intimados. Se um julgamento demorar dois dias ou mais. O serviço do júri é obrigatório e recusá-lo por convicção política. novos nomes serão sorteados Sala secreta Para cada quesito a ser votado. promotor. as provas existentes e as conclusões da promotoria e da defesa 4 .O promotor pode pedir uma réplica.São ouvidas as testemunhas. Sete participarão do julgamento 2 . Os outros serão dispensados. que tem o direito de respondê-las ou não 3 . o juiz pede que todos se levantem e dá o veredicto em público.Um oficial de justiça recolhe as cédulas de votação dos quesitos. Cabe ao juiz concedê-la ou não. Eles são sorteados e podem ser recusados pelas partes. que tem duas horas para a acusação 6 . alfabetizados e não ter antecedentes criminais.Voltando ao plenário. em plenário. Estipula a pena e encerra o julgamento . defesa e jurados formulam.