JORNALISMO PERSPECTIVAS DE REVERSÃO Jorge Arlan de Oliveira Pereira Jornalista e professor.

Coordenador do Curso de Jornalismo da Unochapecó

A decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com a obrigatoriedade do diploma em  curso superior para o exercício do jornalismo revelou algo novo e altamente promissor em termos de  comunicação:   os   jornalistas   não   estão   sozinhos.   O   atual   momento   da   sociedade   brasileira,  amplamente   midiatizada, poderia sugerir que as organizações e os indivíduos se encontram num  estado de completa letargia, sem capacidade de reação às proposições dos meios de comunicação.  Não foi isso, porém, o que aconteceu.  Verificou­se que são muitos os segmentos que levam o jornalismo profundamente a sério,  pois foram diversas as manifestações defendendo que a atividade seja exercida por profissionais  com formação técnica e ética, na qual o compromisso público constitua o referencial balizador. As  notícias e reportagens produzidas e divulgadas por diferentes mídias ocupam um lugar importante  na vida dos cidadãos. Eles consideram fundamental confiar nos fatos que lhe são narrados e pensam  que esse serviço, de absoluta relevância, não deve estar nas mãos de pessoas despreparadas.  Seria um grande retrocesso o jornalismo se afastar desse caminho de profissionalização que  vem   percorrendo   nas   últimas   décadas,   pois   seu   exercício   requer   uma   formação   mais   densa   e  apropriada, na qual convergem conhecimentos sobre a sociedade e competências específicas. Um  jornalismo simplório num tempo em que os fatos se tornam mais complexos caracterizaria evidente  contradição. Todo o esforço deve ser no sentido de que as mútuas exigências sejam compatíveis. Os  cursos de Jornalismo têm contribuído para as transformações acima referidas. A presença do Curso  de Jornalismo da Unochapecó também colaborou para que as práticas jornalísticas da região se  aprimorassem nos últimos anos, embora existam ainda vários aspectos a melhorar. É certo também  que   os   cursos   devem   buscar   cada   vez   mais   qualificação,   respondendo   bem   às   necessidades   da  sociedade e às demandas do mercado de trabalho.   Entendemos como normal e justo que o mercado selecione os melhores profissionais entre  os jornalistas formados. Mas, como em qualquer profissão, os jornalistas recém formados precisam  de um certo tempo de experiências no cotidiano dos meios de comunicação para desenvolverem  todo o seu potencial. Parte das críticas dirigidas aos novos profissionais parece atender a outros  interesses, como a não constituição de uma categoria profissional bem organizada, empenhada em  dispor de boas condições de trabalho e melhor remuneração. Pelas   manifestações   de   muitos   setores,   portanto,   percebeu­se   que   a   obrigatoriedade   do  diploma para o exercício do jornalismo diz respeito ao interesse geral da sociedade e não a desatinos  meramente  corporativistas. No momento crítico, de repente,  a valorização.  Tal constatação   não  deixa de ser altamente estimulante, pois o que parecia derrota pode se transformar numa grande  vitória. O 17 de junho pode assumir para a categoria dos jornalistas brasileiros um valor simbólico  importante, assim como datas marcantes são motivo de reflexão e comemoração para outras causas  sociais. Vemos perspectiva de reversão naquilo que foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal,  compreendendo­se   que   a   alegada   inconstitucionalidade   do   Decreto­Lei   972/1969   carece   de  fundamentação.   O   fato   do   decreto   ter   sido   editado   durante   a   ditadura   militar   não   o   torna  automaticamente ilegítimo, caso contrário várias outras leis também deveriam perder a validade, 

 em  conformidade com a Constituição.  inconstitucional. para quem o jornalismo se destina. derrubar  uma   lei   seguindo   critérios   de   mera   discordância   ou   contrariedade. sem base legal e. legitimamente. Não há  dúvida. por descontentamento. o jornalismo é uma profissão que requer adequada formação. o direito mais  baixo. Também é autor do livro  “Fundamentos da liberdade de expressão” (Insular.  Também é importante assinalar que a lei do diploma não impede nenhuma pessoa de exercer o  jornalismo. O fundamental é que o decreto se encontrava em conformidade  com a Constituição anterior e que não feriu os princípios da Constituição promulgada em 1988. estaria caracterizado o ato de arbitrariedade.porém não estão sendo contestadas. perfeitamente compatível com os novos tempos da comunicação.   de   forma   expressa   e  categórica. e não simplesmente negando. NY.   a   atual   Constituição   deveria   conter   explicitamente. visando restituir a obrigatoriedade  do   diploma   e   estabelecer   uma   nova   regulamentação   da   profissão. apenas condiciona o acesso à profissão. temos plenas condições de reverter o quadro. publicado no  site da FENAJ. Sabemos perfeitamente que o poder de  expressar   opiniões   está   bem   mais   relacionado   à   linha   editorial   dos   veículos   e   a   quem   tem   as  condições para estabelecê­la. Qualquer pessoa que deseje ser jornalista pode  livremente cursar uma faculdade de jornalismo e se habilitar à profissão. A tese de que o  diploma agride a liberdade de expressão não tem consistência. com pós­doutorado pela  Faculdade de Direito da Universidade de Colúmbia.            Assegura Martins Neto que. Procurador do Estado de Santa  Catarina. no caso do diploma. tem valor a lei ordinária. porque a cláusula possui o único  sentido de impedir que o Poder Público censure a circulação de informações por razões ideológicas. Se assim não fosse. bacharel em Jornalismo e Direito. o conflito normativo jamais existiu. Para  que   isso   ocorresse. portanto. e com o apoio do  público.” Como isso não acontece. pois os  profissionais não são a fonte e sim o canal da informação. normalmente um trabalhador contratado.  . nas mãos  do jornalista. mestre e doutor em direito. Estados Unidos.   Pode   fazê­lo   em   razão   da  necessidade de impor respeito a uma norma de nível superior. João Neto é professor de Direito Constitucional nos cursos de graduação e de pós­ graduação de Direito da Universalidade Federal de Santa Catarina. propostas de emendas à Constituição. que prevê o requisito do diploma de jornalista. Certamente esse poder não se encontra.   Fundamentados   em   lei  democrática. caso em que estará defendendo e  prestigiando o direito mais alto.          Estas e outras argumentações poderiam ser apresentadas no sentido de defender que a decisão  do   Supremo   Tribunal   Federal   pode   ser   revertida.            Sustenta o autor que no Estado Constitucional nenhum juiz pode.  Amparo­me aqui na argumentação apresentada por João dos Passos Martins Neto.   Já   tramita   no   Congresso  Nacional   (  tanto   na  Câmara como no Senado). 2008). algo do tipo: “o exercício da atividade jornalística é livre a todas e quaisquer pessoas e  independe de formação em curso superior.          O diploma não tem qualquer efeito contrário à amplitude da liberdade da informação. em seu artigo “O  extermínio do diploma de jornalismo e a acrobacia temerária do Supremo Tribunal”. em última instância.