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Empreendedorismo e desenvolvimento
As discussões em torno do fenômeno do empreendedorismo e das questões relevantes ao desenvolvimento das micro e pequenas empresas (MPEs) têm se pautado em informações baseadas pelo senso comum. Ou relegadas ao plano de problemas conjunturais, como a recessão econômica, a alta carga tributária, o excesso de burocracia, dentre outras mazelas do Estado. Estudos recentes iluminam o caminho da discussão dessas questões, permitindo uma análise mais objetiva e auxiliando a formulação de políticas concretas de fomento e sustentação da atividade empreendedora. Um deles é a pesquisa Fatores Condicionantes e Taxa de Mortalidade de Empresas de Minas Gerais, realizada pelo Sebrae Minas com o objetivo de analisar os fatores que levam à mortalidade de quase metade dos empreendimentos nos seus primeiros dois anos. Esses fatores podem ser tanto conjunturais, que têm sua origem no ambiente externo à empresa, mas seus efeitos são potencializados dentro da organização devido às dificuldades dos empresários em lidar adequadamente com questões como, concorrência, falta de clientes, etc; quanto gerenciais, que dizem respeito a questões que poderiam ser tratadas quase exclusivamente por ações adequadas dos empresários e se relacionam diretamente aos aspectos administrativos do negócio, tais como, desconhecimento do mercado, inadimplência, ponto inadequado, etc. Ao investigar as características das empresas informais (que neste caso mais se relaciona com os aspectos estruturais do negócio do que com os aspectos legais de formalização), a pesquisa Economia Informal e Urbana 2003 (ECINF), realizada pelo IBGE, mostra que a ação dos fatores já mencionados se relaciona ao baixo nível de especialização (e consequentemente baixa capacidade de diferenciação), produção em pequena escala e baixo nível de organização. Esta condição é ilustrada com o fato de que a maioria das
Cristiano Machado

Felipe Brandão de Melo*

A maioria das empresas não possui nenhum tipo de registro contábil dos custos e receitas do negócio e determinam o preço dos seus produtos pelo acompanhamento direto da concorrência ou negociando com o cliente na hora da venda. A combinação dessas duas práticas pode ser potencialmente perigosa para o empreendimento.
empresas não possui nenhum tipo de registro contábil dos custos e receitas do negócio e determinam o preço dos seus produtos pelo acompanhamento direto da concorrência ou negociando diretamente com o cliente no momento da venda. A combinação dessas duas práticas pode ser potencialmente perigosa para o empreendimento, pois uma vez que não tem conhecimento dos seus custos, a formação de preços inadequada pode corroer a rentabilidade da operação, obrigando o empresário a realizar um grande esforço para obter resultados mínimos. Neste contexto, a pesquisa Global Enterpreneurship Monitor (GEM) traz uma importante contribuição ao analisar a alta taxa de empreendedorismo por necessidade no Brasil, ou seja, de pessoas que são impelidas a iniciar um empreendimento devido a falta de outras oportunidades de emprego e renda. Em países desenvolvidos a predominância é do empreendedorismo por oportunidade, pelo qual as pessoas se motivam a empreender devido à identificação de uma oportunidade de negócio ainda pouco explorada. Tanto a pesquisa do IBGE quanto a do Sebrae Minas apontam um expressivo número de empresários que começaram seus negócios por motivos circunstanciais, sem experiência anterior no ramo e com baixo nível de escolaridade. As evidências apontam que o aumento da escolaridade é diretamente proporcional ao crescimento do empreendedorismo por oportunidade, talvez pelas melhores condições de interpretar o mercado e identificar novas oportunidades. A análise aprofundada dessas três pesquisas aponta evidências de que o fomento da atividade empreendedora deve considerar, além do estabelecimento de políticas públicas específicas (tais como a iniciativa da Lei Geral das MPEs), ações de capacitação empresarial e políticas educacionais que estimulem a adequada formação de crianças e jovens nos ensinos fundamental e médio, bem como o estímulo à atividade empreendedora. Além disso, devem ser estimulados novos estudos e pesquisas que permitam enriquecer a discussão em torno dos aspectos econômicos e sociais das MPEs e, desse modo, criar condições para que esses empreendimentos liberem todo seu potencial para o desenvolvimento do País.
(*) Felipe Brandão de Melo é economista do Sebrae Minas

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