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O Porquinho no Espelho
José Guimarães

Bion era um menino que não gostava de tomar banho. Não só não gostava de tomar banho, como também não gostava de jogar lixo na lixeira. Só jogava fora dela. - O espaço fora da lixeira é muito maior, por isso a gente erra o alvo - desculpava-se. Só isso? Não! Detestava fazer muitas outras coisas que o manual de boas maneiras recomenda. Chutava tudo o que encontrava pelo caminho, falava palavrão e ainda era respondão. Quando tomava sorvete, saboreava a guloseima com gosto, despertando inveja nas crianças, lambuzando o rosto, a roupa, as mãos, o chão, enquanto caminhava bem devagar. Os lábios dele chegavam a ficar da mesma cor do sorvete. Ele não se importava com isso, por isso não os limpava. Na escola era o único a sentar-se isolado, porque ninguém gostava de se sentar perto dele. Mas não pense você que Bion se chateava com isso. Nem um pouco. Ao contrario, ficava contente e se achava o máximo. - Bion, Bion, Bion... – sua mãe vivia lhe dizendo. – Você vai sofrer muito na vida por causa desse seu comportamento esquisito. - Vou nada, mãe! Eu vou é lucrar. - De que jeito? - De todo jeito. - Como? - Na escola, posso sentar onde quero e ninguém me incomoda. - Mas você não sabe o que falam de você. - E daí? - E daí que não gosto que falem de meu filho nem inventem apelido pra ele. Seu pai também não. Nem seus avôs. Nem seus tios e primos. Nem ninguém da família! - Preocupação boba, mãe. A senhora não devia se preocupar com isso.
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O que é consciência? A Drª..A senhora quer dizer que eu posso saber se o que faço é certo ou errado? . A Drª.Às vezes sinto. Dona Gracildes levou-o a Dra. Em casa contou para os pais que havia dentro dele um outro “Bion”..Sente ou não sente? . pressentia que alguém o observava. ela explicou-o na linguagem dele. Só não sabia como esse outro “Bion” faria isso. Bion estudando. .. 3 . assustou-se ao ver a imagem de um porquinho no espelho. Mírian comprometeu-se em ajudar Bion.. Paaaaiiiiiêêêê!. É como se existisse dentro de você um outro “Bion”. ela lhe perguntou: .. entretanto. Até que um dia alguém aconselhou-a a levá-lo ao psicólogo. fico com vergonha de só fazer o que eles não gostam.Isso.É assim. Depois disso Bion passou a observar mais sua “consciência”. no primeiro encontro com ele. Só que dentro da cabeça dele surgia um conflito que ele não sabia resolver. psicóloga da escola. Só que você não o obedece.Mãããnhêêê!. Aprendendo. .. . E daí? . tipo banho de gato. E se queixava aos familiares. Às vezes não. Ao mesmo tempo em que achava que ninguém sabia o que ele estava fazendo. tia.Não sei..Sim. Quando alguém faz uma coisa que eu não gosto. Mírian. mas alguém quem? Numa manhã. que lhe dissesse o tempo todo como fazer corretamente.Ah! Então sua consciência lhe diz que é errado o que você faz? ..Você poderia me explicar melhor? . Como Bion não conhecia o significado de algumas palavras. . . que era o oposto dele e iria ajudá-lo. ao escovar muito mal os dentes e passar apenas as pontas dos dedos molhados nos olhos. Assim. – gritou apavorado.Mas Dona Gracildes se preocupava. quero fazer pra ele uma coisa que ele não gosta.Você se sente bem fazendo as coisas que faz? . Bion. Mírian pegou o dicionário e leu a definição de consciência. pensando que enganava todo mundo. O tempo foi passando. e contou-lhe sua aflição.Daí que quando me fazem coisas que eu gosto. .Não sei.

. Bion. Lanchou. Foi sua imaginação que viu. 4 . Muito menos com um porquinho invisível. .Trate de se arrumar logo senão vai se atrasar – disse Dona Gracildes para Bion. Almeida cuidar dos afazeres domésticos. . mostrou-lhe a língua. fez careta. mas só viu seu rosto.Não.Não vejo nada também – disse sua mãe – a não ser nós mesmos. mas o Sr. Os pais saíram do banheiro. ☺☻☺ Na escola. Eles olharam no espelho e nada viram a não ser eles próprios. No encontro com a Drª. estudou. sorriu e depois saiu correndo. A família Almeida. A porta estava aberta. Bion. Ficariam nisso a manhã toda. Bion? – perguntaram os dois quase ao mesmo tempo. Sua consciência não aparece no espelho.Isso é reflexo de sua consciência. Bion – disse seu pai. Aí. aliás. . Bion não viu.Mas então por que eu vi o porquinho no espelho? . A consciência de ninguém aparece no espelho.Mas eu vi um porquinho aí! Bion viu. – O espelho só reflete o que está na frente dele.Tem um porquinho aí! . olhou para o espelho a distância. Ela fica na mente da pessoa. mas ainda teima em manter seu hábito atual.Os pais dele correram ao banheiro. .Olhem no espelho. se não tem um porquinho no banheiro. zombando da própria imagem. assim como todas as famílias logo cedo. Brincou no recreio. .Que foi.. Isso é lógico! . A imagem no espelho era a de seu rosto. não tinham tempo a perder. mas não conseguiu. Mírian contou-lhe o acontecido e ela lhe disse: . antes de sair.Então minha consciência aparece no espelho? A psicóloga riu. . . Não pode refletir um porquinho.Não tem nada aqui. . Todavia. Almeida tinha de deixar Bion na escola antes de ir trabalhar e a Srª. desconfiado. Bion ficou. Tentou esquecer o porquinho. Eles entraram.. com medo de ter-lhe acontecido algo. Você começa a se conscientizar do erro que faz.Você não viu.Como tem um porquinho aqui? – perguntou o pai.

Quem é você? . ouviu? Você é só minha imaginação. Mírian. . Um tremor gélido. evitou entrar no banheiro.Verdade?! Quem é a Drª.Ah.. ☺☻☺ Dias seguidos ele ficou sem olhar para o espelho. Bion. porque você não existe. O porquinho estava lá.Mas eu vi um porquinho no espelho e não sou um porquinho. quando seus avôs. O porquinho nem se mexeu. Com medo de ver o porquinho de novo. 5 . não olhou para o espelho. Quero ver. Entrava no banheiro. Porém.Ué! Não vai chamar sua mãe nem seu pai como fez da outra vez? – perguntou-lhe o porquinho como se zombasse dele. sim.A Drª. Não é um porquinho que você viu. Pensou pedir proteção da mãe.Existo. ele entrou no banheiro.Mentira! Minha consciência não existe. vou fazer você desaparecer daí – Bion passou a mão molhada no espelho. Bion foi para casa. fazia tudo muito depressa e depois saía correndo. é? Então você tem uma psicóloga? Que lindo! . numa tarde de domingo. tios e primos foram à casa dele assistir a uma partida de futebol. sim. Mas logo se refez e corajosamente perguntou ao invasor: . . Entrou. Seu time tinha vencido.Se é assim. . – Não está com medo de mim? . olhando para ele. Olhou distraidamente para o espelho. . O porquinho não desapareceu.Sou sua consciência – respondeu o porquinho. . . Esfregou uma toalha.Sei disso. Por isso.Tenho. Ele assobiando lavou somente as pontas dos dedos em vez de as mãos. Contudo.Eu vi um porquinho! Ao término do atendimento. Mírian? . .A psicóloga da escola. então sai daí e fica aqui perto de mim. E ela falou que você não existe. mas mudou de idéia.É mesmo? Quem disse isso? . Mas teve uma hora em que precisou entrar.Não estou. mas sim você mesmo. Bion sentiu um arrepio no corpo. Um medo repentino. Por isso estou aqui. . .

Oba. Bion saiu do banheiro.. A menina poderia ficar com medo. Assim você não aparece no espelho pra me assustar. encolhendo os ombros. mas não falou. . Assim. Quer saber de uma coisa? Não vou mais pensar em você. Ele pensou falar pra ela: “Cuidado com o porquinho”. .Que porquinho é esse? – quis saber tio Gustavo. . . Os familiares estavam na sala aguardando a pipoca. Vai esperar quietinho lá na sala – disse-lhe a mãe -. Agora diz que conversa com ele.Ah.Como assim? Nisso a mãe de Bion o chamou: . Dona Gracildes perguntou para Bion: .Biiiooon!!! Vai ficar o tempo todo no banheiro? Tem gente querendo entrar! .Viu como você não existe? Você não consegue sair daííí – cantarolou Bion. pipoca! – alegrou-se. .Sim. Aí ia dar um susto daqueles em você. .O quê? – perguntou o Sr. mãe! O porquinho desapareceu. Dona Gracildes e tia Ingrid faziam pipoca lá. Ele entrou na cozinha. .Já vou. Também não venho pra te assustar.Conversei com o porquinho. – Sou só sua imaginação. esposo de tia Ingrid. . Você acredita nisso? . A família toda riu. Almeida. que já vamos lá. . Dona Gracildes e tia Ingrid colocaram a pipoca na mesa. é? Coitadinho. Momentos depois. Gustavo! Nem te conto..Eu.Apareço. varrendo com isso o porquinho do seu pensamento. simplesmente voaria dali.Ih.Você tem razão – disse o porquinho meio desconsolado. Meu aparecimento aqui não depende de seu pensamento. Mas bem que gostaria de sair daqui. Até parece. não! 6 . uma menina em seguida entrou. – Conversou com o porquinho? . Ficou com medo dele. sim.Claro que o porquinho não sairia. Claro também que Bion ficou com um pé na porta e outro levantado para poder pular caso o porquinho saísse. Um dia ele viu um porquinho no espelho.O que você fez no banheiro esse tempo todo? .

) .Viu. . mãe. . – Vê se inventa outra.Há! Há! Há! Há! – a turma não agüentava mais de rir. sua prima.. Conversei com o porquinho de verdade.Ah! Ah! Ah! Ah!. – E pensa que conversou com ele? . . . .. decepcionados. (Tio Marcelo tinha ficado chateado porque torcia pelo time que perdeu.. Outra hora ele aparece. filho.Muitas coisas.Mas. . pai. como não é verdade? – disse o Sr.Vocês não acreditam? Então vamos lá ver – disse Bion. . Almeida para Bion.Nada de mas! Não existe porquinho no espelho e ponto final. – Vamos pro quarto pessoal. mãe. – Tá melhor que o jogo. da cor do porco – respondeu Bion. choramingou: . .Será que ele não assistiu “Branca de Neve e Os Sete Anões” e agora pensa que o espelho daqui é mágico. filho de tia Ingrid.O que você conversou com o porquinho.Oba! Vamos ver o porquinho no espelho! – alegraram-se as crianças. . – Você não sabe a cor do porco? Mais risadas. João Hélio. meu filho? – perguntou Dona Gracildes.Será que você não sonhou. . As crianças mais ainda. Mas só viam o rosto deles mesmos.De que cor era o porquinho? – perguntou Larissa.Ah! Ah! Ah! Ah!. rindo... Almeida para Bion.. no colo da mãe.Essa história tá divertida demais – disse tio Marcelo. A mãe o agradou. 7 . Alguns até quase engasgaram com a pipoca. . porque o espelho de lá é grande e dá pra todo mundo ver. Mais risos. . . como se acreditasse.Eu quero ver o porquinho. .Eu quero ele pra mim. . – todos caíram na risada.Chega dessa história de porquinho aqui – disse o Sr. Voltaram todos para a sala. como o lá da história? – zombou tio Valter. ..Vamos! – levantou-se o pai.Ora. . Vamos ver o porquinho misterioso de Bion. Quero levar ele pra casa – tornou o menino. vai. filho? – perguntoulhe a mãe.Não sonhei. mãe.Ele não quis aparecer. Foram todos para o quarto e ficaram na frente do espelho.

JÁ SEI!!! – gritou Bion se levantando. – todos riram. – Não fique bravo com ele. . – Quem sabe o porquinho aparece lá. não é um fantasma?! .Tinha sim – respondeu Bion para Patrícia. .Por que não vamos ver no espelho do banheiro. Se assustasse. Agora de olho na TV os familiares riam com as cenas do filme cujos personagens eram eles mesmos. – Senão não seria porco.Depois mamãe compra um igualzinho pra você.. É mais confortável lá. mas. . Foram ao banheiro. porque muita gente vai querer vir aqui ver o fantasma. Fantasma pra mim é aquilo que assusta. . porque acho que não vai aparecer porquinho nenhum aqui.A gente só vê o porquinho no espelho do banheiro. . . esposo dela. Mais risos. Bion não conversaria com ele. . 8 .Uaaauuu!. que anda por aí. Almeida – disse Dona Gracildes.Se é que existe – disse tio Valter -. . E o pior é que não sabemos sequer a cor do porquinho. Almeida ainda rindo para as crianças –.. . Então se espremeram para entrar. está bem. Almeida zangou. ninguém perderia a oportunidade de ver o porquinho. como ele não existe. de repente: . não vai ser brincadeira. assustando todo mundo.. Bion? – o Sr. perguntou para Bion: .Fantasma? Quem falou em fantasma? – perguntou tio Marcelo. se levantando.. Porém.Sim. ..Ah! Ah! Ah! Ah!. irmã mais nova de Larissa. filho? Aí você vai ter um porquinho pra brincar com ele o tempo todo.Obááá!.Agora vamos ficar em silêncio – disse o Sr.Não sei. .De novo. Mas o espaço de lá era pequeno demais para tanta gente.. enquanto comiam ruidosamente a pipoca e bebiam refrigerante. pra gente poder assistir ao filme que gravamos no sítio. Afinal. Pâmela. então? – propôs tio Gustavo. .Calma.Se essa história for verdade – disse tia Pâmela – vocês vão ter que aumentar o tamanho do banheiro.O que vai ter de criança querendo brincar com o porquinho do espelho – riu tio Marcelo –. . Melhor a gente ir ver o vídeo na sala.O porquinho que você viu tinha orelhas de porco? .. Patrícia. – É só um porquinho. E esse porquinho pelo visto não assusta ninguém e não sai do espelho.

. . E você.. Como iria impedir que as crianças comentassem noutro dia na escola? Talvez.Vai ver que ele ficou com vergonha de aparecer – disse tia Ingrid.Quem disse que fantasma tem vergonha? – perguntou o esposo dela.Isso é normal nessa idade. nem do banheiro – disse olhando para Bion. Almeida pensou dizer aos familiares. – Ainda vai dar o que falar. tal qual tia Juliana dissera. Mais risos. se não desse importância.Ah. Olharam no espelho. mesmo assim.Eu não! – disse Igor. .Ah! Ah! Ah! Ah!. . . rindo. entretanto. concluiu. que também tinha nove anos de idade. esquecessem... Aos nove anos toda criança gosta de soltar a imaginação. Percebendo o desapontamento deles. tia Juliana disse para consolá-los: . A história do porquinho já estava indo longe demais.. o pai dele.. passando a mão nos cabelos dele.Essa história de porquinho é mesmo muito boa – disse tio Valter para tio Marcelo. quando Bion tomava banho de gato na frente do espelho. – Não existe porquinho nem no espelho do quarto. Contudo.PAPAI. . filho – consolou-o a mãe. – Se eu contar suas histórias aqui não sobra tempo pra gente ver o filme da família. Almeida. pareciam não achar muita graça. Mas só viram eles mesmos. Querendo provar sua existência.Se vai!.. Os pais de Bion. mas achou que bancaria o ridículo. o Sr. o porquinho apareceu. A psicóloga já havia dito para ela não dar atenção às histórias dele. de mentir..É só sua imaginação. ela estava louca para 9 . seu filho. que “essas invencionices de criança passam com o passar do tempo”. “Essa história não deve sair daqui”. Saíram dali. . entretanto. costuma contar histórias??? ☺☻☺ Um dia. . é? Olha só quem diz – disse tio Valter. Bem. Bion gritou: . MAMÃE! VEM VER O PORQUIIINHOOO! Os pais correram ao banheiro. cá entre nós.Também acho – concordou o Sr.

não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Lembre-se disso. não. Eu não imagino você. Bion lhe perguntou: . Eles até inventaram uma musiquinha assim. ouviu? – continuou o porquinho. .Porque sou sua imaginação. O Sr.ver o porquinho.Porque você anda sempre sujinho.É o que você pensa.O porquinho riu e depois falou: . Provérbio inglês. Agora. “quando você apontar com um dedo.O que é provérbio? . Limpa o salão na frente dos outros. o anular e o mindinho ficam apontados para você. Você aponta o indicador para frente. Sabe como eles apelidam você? . apontando o porquinho.Bion porquinho. ó: 10 . Na imaginação deles eu não existo. Joga lixo na rua. Bion testou na hora e viu que era verdade. lembre-se de que outros três dedos seus apontam para você”. Calça tênis com pés molhados. Faça essa experiência!!! . Um modo de dizer: “faça isso” ou “não faça isso”. nem depois de comer. .Não sei. . ☺☻☺ Depois disso o porquinho misterioso ficou algum tempo sem aparecer. quando apareceu. o médio. – Porquinho sabido. Você tá certo. De escovar os dentes.Pára! . . Quer ver? Observe seus coleguinhas de escola. Em seu subconsciente eu apareço como um porquinho. Almeida também. – Nunca aponte ninguém. .Por que “pára”? Então tudo isso não é verdade? .Ah. Porém.Não é! É mentira sua. De lavar o rosto quando acorda. – Não acredito em você! .Oh.. mesmo que dobre o polegar. é? . Eles ficam fedorentos. em vez de chamar os pais..É bom que você aprenda isso.Sabia que você ia perguntar.Por quê? .Não sei. rei da sujeira. .Por que todo mundo não vê você se eu vejo? . É uma lição. o que eu lhe disse antes não é mentira.É mesmo! – sorriu Bion. Não gosta de lavar as mãos nem antes. ouviu? – disse Bion muito zangado. . senão não correria para vê-lo.

cara! Bion chorou muito.É por isso que o apelido dele é Bion porquinho – lembrou Mateus. rindo: – Bion porquinho. O porquinho bem que tinha razão. rei da sujeira. . . Esperou que todos saíssem do banheiro para sair sem ser visto.” . no banheiro. fedorento e vai embora. escondido. pensando que ele não estava perto. aluno novo na classe.Coitado – apiedou-se Diego.É o que eles dizem. 11 . Rei da su-jei-rá-.Porque não cantam perto de você. E riem o tempo todo. Bion pensou em dizer ao porquinho: .. . Ninguém gosta de ficar perto dele – disse Tales. – Por que a gente não fala pra ele tomar banho? .Mentira sua! Por que então eu nunca ouvi? ..Ah. “Então é verdade”. preferiu verificar.Pára! – Bion o interrompeu. Bion porquinho. . comentou: . depois de uma partida de futebol.Men-ti-ra! – soletrou Bion com as mãos em volta da boca em forma de funil.“Bion porquinho. Só entre eles. concluiu. Nos dias seguintes observou o zunzum na classe.Não é só você. Ao contrario. Não deu outra. Calça aquele tênis sujo.“Não vou prestar atenção em ninguém! Nem vou mais falar com você! Não gosto de você!” Porém. Você não vê depois do futebol? A gente vai pro chuveiro e ele não. Bion porquinho. quando menos esperava. .Não gosto de ficar perto de Bion. Ele fede muito. Nem se despede da gente. Diego. No dia seguinte ninguém agüenta ficar perto dele. Mas escondido pra não verem você. não disse. é? Então preste atenção neles. E é o que cantam também. Certo dia.Sim . Rei da su-jei-rá-rá. .completou Pedro. .Ele não gosta de tomar banho. Bion porquinho. .

.Opa! Xingamento.Por que fica me dizendo isso. sempre de olhos fechados. Mas seus pais sim.Porque não quero! E fique sabendo que covardia é falar mal dos outros. colocava a pasta na escova e escovava os dentes olhando para a parede.Por quê? . . comigo – disse a mãe. Dando uma surra neles.Claro que não. Você percebeu isso? ☺☻☺ Nos dias seguintes.Não senhor.Não vai conseguir. E bater nos mais fracos é covardia. distraidamente usou o banheiro e não lavou as mãos. Vão ter que parar com isso. abria o armário. – Vai ser tão vaidoso quanto eu. Não lhe diziam nada para não “quebrar o encanto”. . Aqueles..Em casa. porque vou acabar com todos eles. Quando ia guardar os objetos que usara no armário. seu burro. Mas se alegravam e até comemoravam.. entrava no banheiro e não olhava para o espelho. . Aqueles. Só que não vai ficar assim. – Sou eu quem ensina ele o tempo todo.. Desse jeito mesmo. rei da sujeira”? . . . 12 .Ele está aprendendo comigo – gabou-se o pai.Vai acabar com todos eles como? Matando um por um? . .Porque muitos deles são maiores e mais fortes que você.Acredito.Você tinha razão – disse tristemente.Por quê? . entretanto. Assim.Disseram assim: “Bion porquinho. com raiva do porquinho. só para não ver o porquinho. Por que não lhes dá o troco mudando seu comportamento? . ouviu? Eles são covardes e acho que você também. sim. fechava novamente os olhos.. Tirava a roupa depressa. Tomava banho. não! Quer dizer que agora acredita em mim? . Não demorou muito o porquinho apareceu. Entrava no boxe. mas ajudá-lo era tudo o que o porquinho estava tentando fazer. . em vez de me ajudar – disse Bion muito zangado e saiu do banheiro. Ele não percebia. Depois. . o tempo foi passando e ele não percebia o que acontecia com ele. – Eles falam de mim o tempo todo.Por que você repete? Disseram. depois do almoço.

Os avôs. Passou a usar roupas da moda. tios e primos também. Sr. Bion de fato mudou muito. De andar na rua sem chutar mais nada e comentavam: .Nossa escola seria a mais destacada de Pouso Alegre. Bonés sofisticados... . nem sapatos espalhados pelo chão. 13 . Tão desleixado antes.Exemplo positivo – disse maldosamente o professor de Geografia. Conferia as respostas dos outros com base nas respostas dele. A Professora Elenira se admirava. com um computador. agora cuidava do material escolar. Como sempre sabia a resposta. a conversar com ele. ela dizia. numa das reuniões de professores.. As meninas descobriram que era bonito. – Que negativo já temos demais aqui.Mas que gracinha! Que bom se acontecesse isso com todos os alunos – suspirou. Os pais não cabiam em si de contentes. livrou-se dos tênis velhos e fedorentos e passou a usar os novos que sua mãe comprara.Na escola também notavam a mudança no comportamento dele. com a reforma do quarto. Eles tinham sofrido demais com o comportamento desregrado do menino rebelde. . – Ele vai servir de exemplo para os outros alunos da escola. Os meninos. que era um bom amigo. A mãe com um skate.Que será que aconteceu com ele? Na sala de aula passaram a sentar-se perto dele. e quanto ao porquinho? Você deve estar se perguntando. Antônio e Dona Teodora. Os colegas notavam também a maneira de Bion se vestir. nem roupas. Bion tirou pôsteres rasgados. .É que eu estudo – respondia ele sem dar muita explicação. Almeida presenteou-o com uma bicicleta. Otávio e Dona Lenira. Caprichava na letra e evitava rasuras.Uhuuu!. Os maternos. adesivos e outros objetos danificados das paredes.Que bom! – alegrou-se Dona Isabel. . Limpava a carteira sempre que usava a borracha. Não deixava mais brinquedos.. A diretora ignorou o comentário maldoso dele e depois continuou: . queriam saber como aprendia tão depressa. Sr. Colocou novos. “O meu Bion”. Além disso. Estudava mais e fazia os exercícios direitinho. Os avôs paternos. No aniversário dele o Sr. Mas. diretora da escola. . Nem parecia o Bion de antes.

. Bem. ficou muito triste por não ver o misterioso amigo. os pais já tinham desistido de vê-lo. tanto paternos quanto maternos.” Afinal. Isto é. Você concorda comigo? ☺☻☺ 14 . Por que insistir com um porquinho irreal? Os avôs. Mas o porquinho não apareceu. tomava banho sem esquecer as dobrinhas. Bion se transformando. ele fazendo tudo direitinho. Por outro lado.Bion é o maior! Abraços e beijos. nos tênis e não os calçava com os pés molhados. Agora passava talco anti-séptico nos pés. o nariz. Um ás! . De outro. Enfim. Bion ficou tão certinho que não tem nem graça continuarmos nossa história. se afastou. melhor deixá-lo de lado. O tempo foi passando. o tempo foi passando. em vez de dedo. que mais dizer de Bion? Que resolveu fazer as pazes com o porquinho. Ficando cada vez mais bonito. mesmo sem ver o tal porquinho. Escovava demoradamente os dentes. nada! Ficou decepcionadíssimo. Depois passava fio dental. E ainda se destacava nos esportes. “Quem sabe era só minha imaginação. “Vai ver que ele não existia mesmo”. O mais organizado. ☺☻☺ Bem. acreditavam na história dele. Olhou de um lado. Em casa. concluiu por fim. tios e primos. sim. que fizeram no fim de semana uma big festa para comemorar o evento e ainda deram-lhe presentes. Além de ser o mais asseado. avôs. no último dia de aula ele recebeu o prêmio de melhor aluno da escola. ele pensava assim: “Já que não consigo provar a existência dele.Viva Bion! – aplaudiam os colegas. Usando roupa bonita. Era o mais aplicado. Pensando assim. simplesmente o ignorava. Não olhava para o espelho. Emoções a mil. foi surpreendido pelos pais.” Entretanto.Bion continuava sem vê-lo. Usava cotonete para limpar o salão. as orelhas. decididamente entrou no banheiro e ficou algum tempo olhando para o espelho. depois disso tudo. Tornou-se outro. Tudo o que ele via era seu próprio rosto.

Isto é. . Aí a Drª. . a nova professora. Nenhum aluno dos que permaneceram na escola ousaram lembrar-se sequer do apelido dele. . .Tá louco? De que jeito? . eu não devia te contar. Ela também era nova na escola. ao passar água no rosto com as pontas dos dedos. Ainda mais agora que nossa história chega ao fim. não é verdade? Por falar nisso.Isso é incrível! – admirou-se ela. Muitos alunos foram para outras escolas. Andréia. . . Eu só apareci porque você era relaxado. perto de Bion qualquer um poderia parecer malvestido. ficou surpresa ao saber que em anos anteriores ele fora um dos alunos mais relaxados da classe. Agora você não faz mais nada disso. Turma nova. Vamos encerrá-la. tampouco eu o farei.Como o seu próprio rosto. todos os dias. Mas. um dia. viu seu rosto se transformar pouco a pouco no do porquinho. porque sei. Escovar dentes. por isso estou aqui. início das aulas. Agora eram eles que deviam se cuidar. Descuidado. senão passariam a ser os famosos “sujinhos” da escola. Colegas novos. Porém. Só que quando você vê seu rosto. – Que milagre será que aconteceu com ele? .O tratamento que fez com a Drª. Vivia limpando o salão com o dedo. que tal. – Estou sempre aqui.Eu não sumi – respondeu o porquinho. Caca! Ainda jogava lixo na rua e chutava tudo o que via. Só relaxou esses dias. Não gostava de tomar banho.É isso aí. Lavar rosto.Bem. portanto. Aí ele ficou olhando surpreso para o porquinho e depois perguntou: . não vê o meu. De novo aquela mania de achar que ninguém o observava. você gostou dela? Dê-me sua opinião. Às vezes escovava os dentes depressa e não passava fio dental. por que eu não vejo você? . Classe nova. se eles não fizeram isso.Vê sim.Nem precisa me explicar isso. insistia com o chato banho de gato.Meu rosto eu vejo quando olho no espelho.Se é assim. Bem. duas semanas antes do Carnaval. Muitos vieram de outras escolas. Na sala dos professores. Mírian – lembraram. vai! Só é preciso dizer que no meio do ano ele se descuidou. . Bion.O que aconteceu com você? Por que sumiu? .No ano seguinte. teve uma recaída. Além disso. achou-o demais. não eu. estragando os sapatos. Afinal. Tô falando de ver você. 15 . Mírian teve lugar de destaque. já que insiste. com chave de ouro.

Boa pergunta. Você quer ver? . . quando? . .Êh. menino esperto. como faço pra conversar com você. -FIM16 . sua mãe correu ao banheiro. como não sou você? Você riu e eu não. menino curioso! Você faz tanta pergunta que nem sei se devo responder.Viu. Existe apenas na sua imaginação. mãe.Ah.Isso mesmo! Entendeu agora? .Então. Bateu à porta e chamou: .Por nada. . por que você sabe coisas que eu não sei? . Tá explicado. “Esse menino! Deve ter dormido sentado no vaso sanitário e sonhado com o tal porquinho imaginário dele”. Lembre-se disso: “Aquele que odeia sofre mais que o odiado”.Entendi. porque Bion não era sonâmbulo. Converse com sua imagem. ora! Mais uma: Já que agora vou fazer tudo direitinho.. ficou em dúvida. é. pensou.Quero. quando eu quiser? .Bion? Você está bem? . Mas essa é uma outra história. O porquinho foi se transformando pouco a pouco no rosto de Bion e este gritou: .Muito simples. porque eu não existo. .Tá certo.Pra outra vez. mãe.Tá bom. Mas me explica mais uma coisa: Se eu sou você. Só não sei a resposta – o porquinho riu. que sou eu mesmo.É que gosto de saber. Puxa vida! E eu que pensava odiar você por me dizer aquelas coisas. . por que gritou? . Você só ia odiar você mesmo e ódio não leva ninguém a lugar nenhum. “Não adianta falar pra ela do porquinho”. Todavia. Fica pra outra vez. então é assim? Quando eu me arrumo direitinho eu vejo o meu rosto? Quando não me arrumo eu vejo o seu? . concluiu por fim Dona Gracildes. Ao ouvir o grito... . Lembre-se: O porquinho não existe.Porquiiiiinhoooooo!.Não ia adiantar nada. .Estou.

louvar. plástica ou fotográfica de pessoa ou de objeto.f. Utensílio cônico. gulodice: Doce ou iguaria qualquer.f. Pessoa exímia em determinada atividade.m. entusiasmo.f. Fazer o elogio de. V. se cumpre um dever. Vocabulário que figura como apêndice a uma obra. excitação.t. preconizar as boas qualidades de. destinado a transvasar líquidos.Fig. Imaginação – s. muito apetitosa. molhando apenas partes do corpo com as pontas dos dedos. Banho de gato – Diz-se de banho que se toma superficialmente. fantasmagoria. Guloseima – s.GLOSSÁRIO A Mil – Bras. Cuidado com que se executa um trabalho. fantasia. alegria. Funil – s. Fantasma – s. vive a gabar os filhos. Faculdade que tem o espírito de representar imagens. provido de um tubo. Ás . senso de responsabilidade.d. Imagem – s. Em estado de grande animação. Imagem ilusória. principalmente para elucidação de palavras e expressões regionais ou pouco usadas. elogiar: Mãe coruja.f. 17 . Consciência – s. Representação gráfica. Gabar – v.f.m. Glossário – s. celebrar.

m. Diz-se de pessoa que anda. Sonâmbulo – Adj. Estudante novo na escola. calouro. Novato – s. Terapia: Processo destinado a curar ou a paliar.Limpar o nariz com o dedo. expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens. indisciplinado: criança rebelde. comum a todo um grupo social.t. oculto. Teimoso. Em que há. Med.m. Rebelde – adj. fala e se levanta durante o sono.d. Provérbio – s. falatório sobre assunto ou pessoa. noctâmbulo. Fonte: Dicionário Aurélio Editora Nova Fronteira 18 . Tratamento – s.m. obstinado. Zunzum – s. minerar. 2 g. Pressentir – v. secreto. Misterioso – Adj.m. Boato. Sentir antecipadamente. Máxima ou sentença de caráter prático e popular.Limpar o salão . ou que envolve mistério.

Virtual Books Editora. Morou em Cuiabá até a idade de 19 anos. Pará de Minas (MG). Virtual Books Editora. Antologia 17ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. conto infantil. Depois. Shogun Editora e Arte.blogsport. Papel & Virtual Editora. Rio de Janeiro (RJ).sites. onde concluiu o curso de Ciências Físicas e Biológicas. romance infanto-juvenil. que sempre elogiava suas redações. Virtual Books Editora. Mokolóton.br Blogs: http://livrosgratis. Deu aulas em escolas da rede estadual e particular de São Paulo. conto.com 19 . conto que deu origem ao livro Mokolóton. motivado pela professora de Português. “Prêmio Joaquim Duarte Baptista”. procurando expressar seus sentimentos e experiências. A Campainha. Reside atualmente em Pouso Alegre. do Serviço Social do Comércio – SESC Carmo. Scortecci Editora. romance infanto-juvenil.br/arte/planetamokon e http://guimasil. conto infantil. O Ursinho Chorão. Depois vieram outros prêmios.Sobre o autor: José Guimarães e Silva Nasceu em Cáceres. Segunda edição. Home Pages: http://www.blog.. Livros publicados: Companheiro de Viagem. Mestrado em Matemática na Pontifícia Universidade Católica – PUCSP. O Desconhecido. Licenciatura Primeiro Grau e Matemática Segundo Grau. passando depois a residir em São Paulo. Brasil. Rio de Janeiro (RJ).terra. Virtual Books Editora.com http://paginas.mokoloton. Mokolóton. Coletânea “Nova Literatura Brasileira”. Sul de Minas Gerais. São Paulo (SP). O Pintinho Amarelinho e Os Patinhos Nadadores. Papel & Virtual Editora. Rio de Janeiro (RJ).com. romance infanto-juvenil. ficção científica. Keity.com.com. Estado de Mato Grosso. O desejo de escrever surgiu de forma espontânea. E essa motivação cresceu quando foi premiado no concurso literário “Em Breve Nascerá Outro Escritor”. conto juvenil. na Universidade São Judas Tadeu..terra.uol.br e http://mokoloton. São Paulo (SP) e Virtual Books Editora.

com 20 . 5 – Você gostou do livro? 6 – Faça um resumo do livro. Para corresponder com José Guimarães escreva: guima.sil@hotmail.sil@bol.Qual o nome do livro e do autor? 2 – Qual é a moral da história? 3 – O que você entendeu do livro? 4 – Você encontrou no texto palavras que não conhecia? Quais? 4 – Escreva uma frase sobre o livro. 7 – Ilustre o “O Porquinho no Espelho”.br e guima.Atividades em sala de aula: 1 .com. mas tente imaginá-lo de sua cabeça.