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Edgar Martins – “o que eu pretendo é questionar o documento”

A máquina de grande formato com que a grande maioria das fotografias desta exposição foram executadas foi o fotógrafo comprá-la aos Estados Unidos. Uma máquina, analógica, em segunda mão – oportunidades que se oferecem na era do digital. O detalhe com que as imagens, em grandes e médias ampliações, apresentam a superfície dos objectos e dos espaços nelas inscritos, causa por vezes vertigens, ou mesmo um efeito de alucinação. Na era do digital e do HD, a imagem de origem analógica concorre, na exposição de Edgar Martins a partir de hoje patente na Fundação EDP, com o efeito de imersão convocado nos mais recentes processos de imagem digital. Fotógrafo português residente no Reino Unido, Edgar Martins foi em 2009 objecto de polémica internacional a propósito de um trabalho seu, realizado com pós-produção e manipulação digital, mas publicado no New York Times online, bem como na revista impressa, com um texto prévio, da responsabilidade do jornal, que assegurava que as fotografias publicadas nas suas páginas nunca seriam objecto de manipulação digital. Esse trabalho (“Ruins of the Second Gilded Age”), cujo tema era a recessão americana, centrou-se nas casas abandonadas pelos seus proprietários e usava uma técnica de edição espelhada (tornando as imagens simétricas), sendo que muitas das fotografias resultavam de encenações no local. Para o seu autor, este era um princípio estético que procurava reflectir sobre o binómio unidade especular/fragmentação identitária, tema com o qual pretendia apresentar o seu olhar sobre a recessão. A polémica então gerada (ver Público, “Y”, de 7 de Agosto de 2009) prendia-se com a eventual fraude no contrato com o New York Times, mas Edgar Martins sempre assegurou que o contrato era de natureza criativa, que lhe tinham sido mostrados outros exemplos de trabalhos que não tinham qualquer tipo de limitação técnica ou estética e que a etiqueta colocada pelo New York Times como preâmbulo às suas fotografias lhe era completa alheia e sem qualquer conhecimento prévio. Para o artista no entanto, este episódio veio oportunamamente lançar o debate sobre a identidade do fotojornalismo nos moldes tradicionais mas veio, sobretudo, “relançar o debate sobre a essência do ‘documental’”. Nascido em Évora mas criado em Macau, Edgar Martins foi estudar fotografia para Reading, tendo ingressado, no ano seguinte, na St. Martins’ School of Arts. Edgar Martins distingui-se no campo da Fotografia pelas suas imagens que mantêm uma ligação à realidade dentro de limites formais muito peculiares: por vezes são quase gráficas, quase abstractas, como na série “When Light Casts no Shadow” (DewiLewis, 2008) ou as que publicou em “Topologies ( Aperture, 2008). “The Time Machine — un incomplete and semi-objective survey of hiropower stations”, mantém uma fidelidade de base a estes princípios de ‘contacto com a realidade’. Resultou de um convite feito pela Fundação EDP, na pessoa do dr. António Mexia, que tinha em mente uma intervenção por parte de três diferentes artistas em torno dos projectos hidráulicos da EDP. Ao fim mais de dois anos, e de uma visita inicial que o fotógrafo realizou a três das barragens (Picote, Bemposta e Miranda), pelo menos este chegou ao fim. Nos corredores do piso superior de exposições temporárias da Fundação, cerca de 50 fotografias realizadas de norte a sul do país oferecem ao visitante uma visão muito

da paisagem. Esta decisão de contornar a água como elemento central conduziu o fotógrafo a concentrar-se noutras aspectos da vida das barragens. A relação de Edgar Martins com o documentalismo é referida pelo mesmo como “uma relação inevitávelporque o real é sempre o seu ponto de partida.pessoal das barragens portuguesas. a destruição das florestas. depois de processadas analogicamente. Foi essa aversão ao ‘fotojornalista intrépido. etc)”. de modo a obter o máximo de informação possível e a tornar homogénea a informação que suge no espaço da representação. As imagens que constituem a exposição foram. mas em funçaõ da sua lógica interna. que o levou a encarar de forma mais livre a . as barragens “colocavam um problema: o que acrescentar a uma memória já saturada de imagens de barragens?” Por outro lado. este objecto de trabalho oferecia-se a Edgar Martins como um desafio. De facto. para evitar a colagem mais imediata ao documentalismo. sobre a morte da paisagem natural e sobre a morte da paisagem como tema da representação fotográfica”. por outro. as 48 fotografias expostas. ou seja. mas também para o facto de as barragens exprimirem uma utopia (social. um prémio de conteúdo ambiental. em que esta foi eliminada digitalmente. na eliminação de luzes intrusivas. que contribui para uma cultura de consumo acrítico das iamgens”. em 2009. que é sempre uma imagem atada ao tempo. “The Time Machine” é um título que remete para uma dupla referência ao tempo: por um lado remete “para a representação fotográfica em si mesma”. Por exemplo. ao longo de décadas. sendo que a manipulação posterior à sua digitalização entra. política. para o Prix Picté (prémio de um banco suiço). na grande maioria dos casos. nomeadamente a questão da sua transformação ao longo do tempo. No final. que perdem a escala e pairam sobre o negro com uma iluminação igualmente distribuída. “as centrais são espços que o público não conhece e parecia particularmente interessante evitar a água”. apenas duas das imagens do conjunto das 48 expostas são imagens de água (as duas últimas do percurso expositivo). onde a única abstracção aparente reside na forma como intercala imagens de peças (parafusos e outras. digitalizadas e impressas em lambda. mas também é sobre o processo de produção das imagens. mas há casos. 60 anos as barragens “eram o futuro”… Com uma máquina tão pesada – uma Toyo 8´´x10´´— é necessário trabalhar com a abertura máxima. A este trabalho Edgar Martins designa de ‘semi-objectivo’. bem como o total das imagens impressas no livro não foram escolhidas de forma a representarem geograficamente a distribuição das barragens pelo território. um imaginário muito poderoso. no trabalho que realizou em 2005 sobre os incêndios em Portugal —e com o qual esteve nomeado. em função da coerência estética que constituem. e tendo já oferecido. Objecto de sonhos e devaneios de políticos e engenheiros. Para Edgar Martins. ferramentas) realizadas em estúdios improvisados nas caves das centrais. como a existência de uma grua indesejada no ‘campo’ da fotografia. dado que não era possível tirá-la do sítio. O resultado são imagens de grande definição e concretude. remete “para as mudanças ocorridas na construção das barragens ao longo do tempo. Assim. ou seja. considera que o essencial é que o trabalho é sobre o ambiente. mas sempre no sentido de procurar questionar o que é essa coisa do ‘documental’”. com longas exposições e flash de mão. isto é. de todo o trabalho efectuado. porque se “assumisse que era um documentário teria de justificar as escolhas todas. todas as opções ou tópicos escolhidos”. há 50.

mas quase nada do seu exterior) surgem-nos aparatosamente coloridas e cenográficas. Av. Terça a Dom. das 10h às 18h. Museu da Electricidade.. Parece ser essa também. e é através desta aproximação quase teatral que. . afirma. Paralelamente à exposição. com texto de Geoff Dyer e João Pinharanda. Margarida Medeiros LISBOA. Até 11 de Dezembro. curador da exposição. pretende “atingir um realismo preferencial — mas das ideias”. não das coisas.encomenda do New York Times. Brasília – Central Tejo. a determinaçaõ fundamental em The Time Machine”: as imagens das barragens (do seu interior. sairá mais tarde um livro com o mesmo título.