O que é o Homo Virtualis?

A realidade parece ser cada vez mais dinâmica. Este dinamismo por certo não se refere ao movimento físico/planetário, pois não é pelo facto de a nossa espécie se deslocar cada vez mais rapidamente no espaço, ou executar mais tarefas por unidade de tempo que o movimento de rotação do planeta será por isso, uniformemente acelerado - à imagem da ideia de progresso. O dinamismo da realidade a que me refiro é apenas uma impressão mental causada pela relativização cada vez mais rápida das ideias por influência directa da tecnologia. Se - no passado - a indústria permitiu ao Homem sobreviver ao desconforto, às intempéries e aos perigos, explorar novos continentes por via marítima, revolucionar a produção pela industrialização, então o advento da energia eléctrica fez surgir a tecnologia (informática incluída), que reorganizou a informação de forma a minimizar gastos, maximizando recursos e investimentos. Assim a tecnologia tornou-se um movimento de ponta que lidera o conhecimento e a acção humana - em direcção ao progresso {[Lt. PRO(em frente)+GRESSUS(passos)] = passos-em-frente}. Tal não levantaria problemas, não fosse o facto de a tecnologia ter que dar respostas imediatas aos problemas de cada época, não podendo por isso perder tempo com questões reflexivas ou mesmo com dilemas ético/morais, os quais são sempre tratados a posteriori pela especificidade de cada ramo do conhecimento. Por outras palavras, a prática tecnológica não permite tempo para pensar e não dispõe de uma teorização que fundamente a amplitude e o âmbito da sua acção. Assim afirmo que a tecnologia não tem uma epistemologia que a sustente, pois não é Ciência. A tecnologia apenas segue a ideia de inovação e esta está submetida à ideia de progresso, o que força o sistema a ir mais além, sem pressupor o seguimento de qualquer projecto definido. Este movimento tecnológico “de ponta” origina no sistema uma dualidade radical. Se por um lado as atenções e todo o esforço humano são impulsionados segundo a ideia de progresso, por outro existe um constante apelo à convenção e à preservação dos valores da tradição. É algures por entre a distensão deste intervalo oscilante, que reside a génese da injustificada sensação psicológica de insegurança que as consciências sentem no quotidiano. Dessa relação entre opostos surgem acontecimentos cíclicos de auto-organização e reequilíbrio do sistema. A cada um desses momentos históricos chamamos crise. Esta surge sempre que o esforço humano em direcção ao progresso é maior que a real capacidade para conciliar esse avanço com a memória colectiva do passado. Aí tudo é readaptado; da realidade aos conceitos que a definem. Recentemente a influência tecnológica gerou um novo conceito, o qual está a propagar-se mediática e metodicamente sem qualquer pensamento que o questione. Refiro-me à concepção de pós-humano. Graças a tanto dinamismo aparente o conceito “humano” parece ter-se esgotado em si, pelo que sofreu um upgrade intencional. Tal actualização pareceu basear-se na crença de

que o corpo físico já não é adequado ao ritmo que as necessidades da metamorfose tecnológico/social ditam como ideal ou seja, a tecnologia está a passar a definir os paradigmas correntes, implantando a ideia de que a espécie pode, necessita e deve ser melhorada para acompanhar o ritmo dos tempos. Tudo começou com os primeiros passos dados pela manipulação genética. A partir daí fizeram-se outras experiências que cruzaram componentes electrónicos, neurónios e células cardíacas a fim de obter equipamentos cibernéticos, os quais pudessem vir a substituir a maior parte dos órgãos do corpo. Para além da actual banalização dos bypass cardíacos (entre outros), já são aplicadas com sucesso próteses biónicas, as quais proporcionam mobilidade a amputados. Existe equipamento que permite a cegos distinguir contornos, bem como restituir uma visão perfeita a pessoas que tenham grande deficiência visual. Já se fala que a memória e o desempenho da inteligência poderão ser exponencialmente aumentados - através de interfaces implantados. Por um lado devo conceder o benefício da dúvida a este processo citando Desidério Murcho, quando esperançado afirma «… se a humanidade é o que tem mostrado ao longo dos milénios - exploração dos fracos, frivolidade, injustiça, provincianismo - talvez valha a pena sonhar com um futuro pós-humano, em que os nossos descendentes, mais inteligentes e sensatos, possam fundar uma sociedade que, ao contrário de todas as sociedades humanas, não seja uma vergonha cósmica.»1. Em contraponto posso afirmar que a Humanidade não tem feito outra coisa senão sonhar. Graças ao sonho é que toda esta parafernália tecnológica continuará a perpetuar o mesmo erro de sempre ou seja, a aplicação de soluções imediatistas destinadas ao corpo físico, enquanto as mentes ainda se situam num patamar funcional provinciano, mesquinho e medíocre. Por outras palavras, persiste um grande hiato entre a atenção dada ao corpo e a dada à mente. É que, se a tecnologia segue a ideia de progresso, então a Ciência ainda segue paradigmas Renascentistas baseados na prova física, o que legitima a lógica circular do materialismo. Tal reincidência fará com que se mantenha a deficiência da tipologia social actual e se continuem a perpetuar novos e mais rápidos ciclos de injustiça, opressão e exploração, travestidos de novidade aparente devido a outras roupagens/imagens. Essa estética da aparência fará com que continuemos a viver na ilusão de que os seres viventes do presente são sempre mais evoluídos do que os seus antecessores, quando a evolução é apenas material e as mentes que ocupam os corpos bem poderiam pertencer a um Homo Stupidus. Dito isto, tenhamos nós corpos de carne e osso ou venhamos um dia a ser biónicos continuaremos a ter atitudes humanas, tão humanas que por certo continuaremos a questionar-nos acerca do sentido da nossa existência neste plano da realidade. Aqui importa definir de que realidade falamos; da real ou da virtual? É que “realidade virtual” foi mais um daqueles conceitos que se instalou arbitrariamente - a partir da irreferência
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Azar cósmico e o futuro pós-humano, in http://criticanarede.com/html/azarcosmico.html.

tecnológica - sem discussão prévia nem pensamento que o suportasse, pois quando o analisamos com rigor a sua consistência deixa bastante a desejar. Senão vejamos. A realidade não nos deixa margem para dúvidas. Sentimo-la ou seja, apercebemo-la por via dos sentidos porque estamos imersos nela. Ela é tudo aquilo que existe e existe porque é a materialização da essência i.é., do essere ou do ser no Mundo. Já o virtual não se pode afirmar que exista concretamente, pois dele apenas resulta uma projecção imagética que embora se concretize visualmente não nos impregna a totalidade dos sentidos. Na Grécia Antiga as concepções que estariam mais próximas do virtual seriam um misto das ideias Aristotélicas de potência (Dynamis) e de propensão para a acção (Energétykos). Mas como a ideia de virtual não existia, a única referência que temos é o facto de a palavra “virtual” definir algo que reside em potência mas que não tem acção directa na realidade (um objecto - situado num ecrã - pode vir na minha direcção que jamais me atingirá). O “virtual” parece surgir da adopção da palavra latina VIRTUS, a qual designava o conjunto de características morais que resultava naquilo que veio a chamar-se virtude, associada a um ideal. Assim temos virtus+ideal = virtude+ideal = virtual. Daqui se segue que o virtual não é mais que um neologismo que tenta inculcar a tecnologia na cultura, querendo - por certo - promovê-la à condição confusa de virtude ideal.

Se um dia a Antropologia com base no evolucionismo da espécie classificou um Homo faber (como aquele que fazia) seguido de um Homo sapiens (como aquele que sabia), então o Homo virtualis - por via da especialização/fragmentação da experiência e do conhecimento -, parece caracterizar-se por já não fazer nem saber. O Homo virtualis surgiu quando o humano deixou de se entender como ente concreto e se transformou aos poucos num ser abstracto, ocioso, dependente dos seus hábitos e impotente para corrigir a relação causal que os seus erros originaram. Em suma, o Homo virtualis é o fruto de um dispositivo de poder, que criou um corpo colectivo massificado, inconsciente, amedrontado e submisso, cujo ideal máximo é a felicidade aparvalhada do conforto consumista. Assim se preserva um feliz nonsense Aristotélico que já só tem sentido no Mundo Platónico das ideias.

A imagem de felicidade entretém as mentes enquanto a realidade real colapsa…

José Neto.