A ARBITRAGEM NOS CONTRATOS INTERNACIONAIS

Luizella Giardino B. Branco∗

A arbitragem é um meio alternativo de solução de controvérsias através da intervenção de uma ou mais pessoas que recebem seus poderes de uma convenção privada, decidindo com base nela, sem intervenção estatal, sendo a decisão destinada a assumir a mesma eficácia da sentença judicial. Carlos Alberto Carmona

O CONTRATO INTERNACIONAL

O conceito de contrato pode ser traduzido como sendo a manifestação de um acordo de vontades entre as partes, que cria, extingue ou modifica direitos, produzindo efeitos de natureza patrimonial para os seus contratantes. De acordo com o entendimento adotado pelo Brasil, o contrato internacional caracteriza-se pela inserção de um elemento de conexão entre o contrato e o sistema jurídico que o irá regular. O elemento de conexão, que pode ligar o contrato a dois ou mais ordenamentos jurídicos, pode ser o domicílio das partes, o local da execução do objeto contratual, o local da produção do resultado pactuado, ou outro elemento equivalente.

Mestra em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; Pós-Graduada em Direito Comunitário pelo Centro de Estudos Europeus da Universidade de Coimbra; Professora da Pós-Graduação da Universidade Cândido Mendes - UCAM; Autora do Livro Sistema de Solução de Controvérsias no Mercosul. Perspectivas para a criação de um Modelo Institucional Permanente, São Paulo, LTr, 1997; Co-autora do livro: “Responsabilidade Civil e Gestão da Qualidade”, Rio de Janeiro, Forense, no prelo. Advogada associada ao escritório Castro, Barros, Sobral, Gomes Advogados.

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Assim, de acordo com o conceito brasileiro, para que se forme um contrato internacional basta que uma das partes seja domiciliada em um país, enquanto outra esteja fora dos seus limites territoriais, ou ainda, que o contrato seja celebrado em um país, para ser executado em outro. Desse modo, de acordo com as correntes jurídicas que definem a caracterização dos contratos internacionais, podemos afirmar que a distinção entre um contrato internacional e um contrato interno (de esfera nacional) pauta-se na circunstância de estar o primeiro vinculado a mais de um sistema jurídico. O processo de preparação de um contrato internacional é mais complexo por reunir na sua formação uma série de elementos diferenciados e especializados, que não se apresentam no âmbito de um contrato interno. Tais diferenças podem ser observadas nos mecanismos de sua construção e execução. Os participantes de um contrato internacional confrontam-se com a diversidade de distintos sistemas jurídicos e econômicos, na variação de língua estrangeira, da moeda e câmbio, entre outras particularidades. Vejamos a seguir algumas diferenças práticas entre as duas espécies de contrato: CONTRATO NACIONAL CONTRATO INTERNACIONAL

♦ Existência de apenas uma jurisdição ♦ Várias jurisdições competentes (Estado) competente ♦ Competência interna ♦ Legislação nacional ♦ Apenas uma cultura/política ♦ Mesma ótica empresarial e comercial ♦ Competência internacional e interna ♦ Duas ou mais legislações ♦ Contextos cultural e diversificados e diferenciados ♦ Práticas distintas empresariais e político comerciais

Como previsões essenciais de um contrato internacional, fazem parte as seguintes cláusulas:

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situações que os ingleses denominam Acts of God (ou Atos de Deus). linhas férreas. os particulares. raios. “infortúnio” ou “privação” dos fatos e circunstâncias. bloqueios. motins. Hardship . há cláusulas usualmente utilizadas nos contratos internacionais que buscam minimizar os efeitos do inadimplemento contratual e dos problemas que eventualmente possam surgir em seu curso: Força maior – São cláusulas que objetivam exonerar de responsabilidade as partes no caso do surgimento de situações não previstas e impossíveis de serem evitadas. Tais eventos são de ordem variada. epidemias. Língua do Contrato. podendo ir desde desequilíbrios naturais como: tempestades. livremente traduzido como “endurecimento das condições”. que procuram assim restringir ao máximo os seus riscos e garantir a qualidade de mercadorias e serviços. etc. ou ainda como “adversidade”. Convenção Arbitral Nos negócios internacionais é muito comum que os modelos contratuais contenham dispositivos expressos que limitem a responsabilidade das partes. congelamento de estradas.Qualificação dos contratantes Finalidade do contrato Direitos e deveres das partes Detalhamento do projeto e sua localização Imprevisão ou força maior e hardship Escolha da lei aplicável. terremotos. se valendo do princípio da autonomia da vontade que lhes confere a liberdade contratual para dar forma ao conteúdo do contrato. Desta forma.Assim como na força maior. secas. Não há uma definição uniforme do que seja “força maior” e sua concepção pode variar muito de acordo com cada sistema jurídico. Sigilo. Assim. as cláusulas hardship. inundações. atentados terroristas. passando por desastres provocados pela mão do homem como: guerras. incêndios. erupções vulcânicas. criam normas materiais que irão regular a própria relação contratual e seus procedimentos recíprocos futuros. greves. prevêem situações de natureza 3 .

que é o estudo da arbitragem estritamente sob órbita dos contratos internacionais entre particulares. 1 Cretella Neto. Entre particulares sujeitos a ordenamentos jurídicos diversos. o assunto será tratado apenas sob o prisma do direito internacional privado à luz da legislação nacional sobre o tema. antes de avançarmos. e entre particulares sujeitos ao mesmo ordenamento jurídico. Portanto. 4 . Entre Estado e particular nacional. com o objetivo de encontrar uma fórmula que possibilite a continuação da relação contratual nas situações em que uma das partes se vê duramente prejudicada.extraordinária que afetam a execução do contrato a ponto tornar impossível o seu cumprimento. A diferença entre elas reside no fato de. Forense. convém esclarecer. que diante da proposta do presente trabalho. distinguem-se 5 (cinco) espécies agrupadas de acordo com a natureza das partes envolvidas. Rio de Janeiro. não iremos nos estender ao âmbito do direito internacional público. 2004. nas cláusulas hardship. Como lembra José Cretella Neto 1. dentre os litígios que podem ser dirimidos pela arbitragem. que alteram de forma acentuada a equivalência anterior das partes. Embora o tema da arbitragem possa ser contemplado sob as perspectivas do direito público e privado. a saber: Entre Estados. Entre Estado e particular estrangeiro. sofrendo uma onerosidade excessiva em virtude da ocorrência de fatores imprevisíveis. José. Curso de Arbitragem.16. existir um conteúdo notadamente econômico que autoriza as partes reverem as bases do contrato. pg.

contamos com os dados da Corte Internacional de Arbitragem. em seu livro intitulado Negociação.Desse número. a Comunidade Internacional de Negócios se utiliza em 80% da arbitragem como método de solução de conflitos. ADRs. 357 árbitros vindos de 62 países diferentes foram indicados ou confirmados pela Corte Internacional de Arbitragem 5.622 partes de 126 diferente países. Em 9. que apontam para um aumento na demanda pela arbitragem em nível mundial.Dessas requisições. 2 5 . Editor Lúmen Júris. 3 Corroborando com a afirmativa anterior.593 novas requisições de arbitragem foram instauradas.000. pág.00 em 54% das controvérsias 7. Negociação.Foram fixadas 43 sedes diferentes de arbitragem 6. São Paulo. Ano XLII. como podemos verificar do exame das informações abaixo: FATOS NA CORTE INTERNACIONAL DE ARBITRAGEM EM 2002 1. figuraram 1.O valor das disputas superou US $ 1. ADRs (Alternative Dispute Resolutions).4% dos casos pelo menos uma das partes era um ente governamental ou paraestatal Valério. 2003.71. 151. Editores Malheiros. atualmente. sem que tenha sido proporcionado por uma convenção de arbitragem. a tal ponto de alguns autores não admitirem hoje em dia a existência de contrato internacional sério.2 José Maria Rossani Garcez. 3. Mediação e Arbitragem. abril-junho -2003. e dos contratos internacionais de complexos industriais. Rio de Janeiro. mais da metade das partes foram provenientes da Europa. com destaque para o Transporte Marítimo. casos em que se chega a empregar a arbitragem em aproximadamente 100% dos litígios. Mediação e Arbitragem.A ARBITRAGEM COMO MÉTODO ALTERNATIVO DE SOLUÇÃO DE CONTROVÉRSIAS A crescente internacionalização dos negócios tem tornado cada vez mais recorrente a adoção do instituto da arbitragem nos contratos internacionais. pág. Indústria do Petróleo. 2. indica que. vol. 130. “Cláusula compromissória nos contratos de Joint Venture” In: Revista de Direito Mercantil. 2a edição. 130. José Maria Rossani. 23% das Américas e 16% da Ásia 4. 3 Garcez.000. n. Marco Aurélio Gumieri. Industrial Econômico e Financeiro.

Isso se justifica. esses mecanismos. indiscutivelmente. 95-96. 4 Assim. Negociação. 5 São assim denominados as fórmulas de resolução de litígios que não empregam a justiça estatal. não sendo obtido um resultado plenamente satisfatório através da mediação ou da conciliação. é muito usual que. pautados em técnicas especiais de negociação que se utilizam de métodos persuasivos e psicológicos. e na evolução da legislação específica nos países latinoamericanos. Editora Forense. Mediação e Arbitragem . uma vez esgotadas todas as alternativas de acordo e entendimento. as partes prossigam na busca da solução de seu diferendo através da arbitragem. a arbitragem vem assumindo um papel cada vez mais ativo e preponderante nas disputas internacionais. Teoria e Prática. Deste modo. 4 Juan Luis Colaiácovo e Cynthia Alexandra Colaiáccovo.Na América Latina também se observa uma substituição da antiga desconfiança existente sobre o instituto da arbitragem pela sua progressiva aceitação. o litígio é mais eficiente e rapidamente resolvido. Juan Luis Colaiácovo e Cynthia Alexandra Colaiácovo explicam que essa mudança de comportamento pauta-se essencialmente em dois fatores: na maior interação entre os países da área. Por conseguinte. Chegar a um acordo evita o desgaste econômico e emocional que implica a manutenção de um conflito. como a mediação e a conciliação. Rio de Janeiro. apontamos alguns motivos para se negociar: Aos negociantes em geral interessam as relações duradouras. Nesse sentido. A negociação prévia oferece uma maior força moral para se recorrer ao litígio. resultante da cooperação regional e da abertura comercial promovida através dos processos de integração. favorecendo. ao lado de outros métodos alternativos de solução de controvérsias5. O grau de satisfação é maior quando agimos em com base em acordos. em geral abalada pelo surgimento da altercação. propiciam resultados mais harmoniosos e satisfatórios para as partes que se confrontam. bem como quando conjugadas com estas. o que garantiu aos contratantes a segurança jurídica necessária à sua adoção. a manutenção da relação dos contratantes. 6 . 1999. pois. págs.

ou uma combinação de técnicas de solução De acordo com o novo Regulamento. merece também destaque o fato de a arbitragem.CCI por um ou mais árbitros. Se a disputa não for solucionada sob tais Regras nos 45 dias seguintes do Requerimento de ADR. a mediação. 5.Vejamos a seguir a cláusula sugerida pela Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional (CCI) aos contratos internacionais que autoriza as partes a iniciarem o procedimento arbitral. 7 . 3. nomeados de acordo com as mesmas Regras”. embora figure na categoria dos mecanismos extrajudiciais de solução de conflitos. uma vez que o método não adversarial escolhido não tenha resolvido ou tenha solucionado apenas parcialmente o conflito:6 “Caso surja qualquer controvérsia oriunda ou em conexão com o presente contrato. não obstante serem usualmente previstas como tentativas prévias de solucionar a disputa através de uma composição amigável. são as seguintes: 1. ou em qualquer outro período ajustado por escrito entre as partes. 2. a controvérsia será solucionada definitivamente sob as Regras de Arbitragem da Câmara Internacional de Comércio . 4. Nesse ponto faz-se importante destacar que. Da mesma forma. qualquer outra técnica de solução. as partes acordam em submetê-las aos procedimentos de solução de conflitos sob as Regras de ADRS – Alternative Dispute Resolution da Câmara de Comércio Internacional. a avaliação de um terceiro. a mediação e a conciliação são institutos independentes. o mini-julgamento. se não houver acordo pelas partes em optar pelo método alternativo. não representando etapas ou pressupostos a serem exauridos antes da instalação de um juízo arbitral. em vigor desde 2001. a mediação será escolhida pela Corte para solucioná-lo. não poder ser 6 As técnicas ADR da CCI que se aplicam exclusivamente às questões comerciais.

pois. pois o conciliador não pode impor o seu ponto de vista. inclusive para além do território em que são proferidas. enquanto essas últimas chegam a resultados que dependem da concordância e do consentimento das partes para passar a produzir efeito no mundo jurídico. A conciliação representa um grau a mais em relação à mediação. Ele atua como facilitador. 1998. Malheiros Editores. o conflito decidido será obrigatório e impositivo para estas. opinando. além de serem reconhecidas e executadas como títulos judiciais. elas mesmas. terceiro imparcial. Arbitragem e Processo. José Maria Rossani.307/96. é preciso ainda lembrar que a arbitragem apresenta o princípio do contraditório9. 8 7 Carmona. propondo soluções e emitindo uma decisão. Isso se justifica. encontrem a solução para a sua questão e conflito. a função de ajudá-las de maneira mais efetiva do que na negociação direta a chegar a um acordo. o acordo resultando do processo de conciliação requer o consentimento de ambas as partes. 10 Garcez. Op. dentro de procedimentos preestabelecidos. Cit. delegam a um mediador.7 meios estes autocompositivos e não adversariais de controvérsias.confundida com a mediação e a conciliação. Um comentário à Lei 9. fundada na heterocomposição do litígio. pois o terceiro conduz as partes na direção do acordo. 9 Princípio no direito que garante a ampla defesa. o mediador induz a que as partes. Utilizando conhecimentos e técnicas apropriadas. São Paulo. recorremos ao gráfico abaixo: Negociação AUTOCOMPOSIÇÃO Mediação e Conciliação HETEROCOMPOSIÇÃO Arbitragem Nesse sentido. as partes. pág. Carlos Alberto.10 Na mediação. aproximando as partes. na arbitragem. Pág. 2 8 . ajudando-as a chegar a um acordo entre si.8 Para melhor entendimento.45. A exemplo da mediação. O mediador não resolve o problema nem impõe uma solução. e que suas sentenças possuem a mesma força coercitiva das sentenças emanadas pelo poder judiciário.

fazendo uma breve síntese dos meios com que contam os indivíduos para ter resolvida uma avança contratual. Editora Renovar. Note-se que a arbitragem só será exeqüível em relação a direitos patrimoniais disponíveis. físicas ou jurídicas. Carlos Augusto da Silveira. pág. 12 11 9 . a arbitragem apresenta elementos mais vantajosos e atraentes aos olhos dos contratantes internacionais que. juízo arbitral. mas somente àqueles cujo objeto puder ser transacionado ou renunciado. pág. Instituições do Processo Civil do Brasil. contamos com Afonso Fraga11 que identifica três modalidades de juízos: 1. 3. v. Em relação ao sistema judiciário. sobre as quais essas possam dispor livremente. VANTAGENS DA ARBITRAGEM COMO MÉTODO DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS A arbitragem pode ser definida como uma técnica que visa solucionar questões de interesse de uma ou mais pessoas. a língua corrente e os costumes alienígenas.4. as regras processuais a este inerente.Portanto. mais familiar à parte contrária.12 Fraga. através de autorização expressa dada pelas partes. que estão investidas com o poder de resolver a causa. preferem recorrer à neutralidade a correr o risco de verem seus litígios solucionados pelo sistema judiciário de um país estrangeiro. o juízo comum. Questões da Doutrina e da Prática. In: Arbitragem Internacional. Affonso. São Paulo. Rio de Janeiro. Lobo. e por isso não são aplicáveis a todos os tipos de contrato. por decisão de uma ou mais pessoas (árbitros). 2003. por desconhecerem a legislação nacional de outro país. 1940. 10. 2.1. o juízo conciliatório.

na instituição arbitral 10 . Além disso.Destacamos como principais vantagens da arbitragem sobre o sistema estatal tradicional: a) Especialização dos árbitros. A confidencialidade do procedimento é garantida às partes que muitas vezes por se verem envolvidas com grandes somas preferem manter o sigilo do processo. fato que garante um resultado mais expedito às partes.307. e) Flexibilidade Procedimental. o procedimento arbitral é menos dispendioso comparativamente aos custos judiciais. Por ser menos burocrática. É de se notar também que em razão de o laudo arbitral ter caráter definitivo e vinculante. caso as partes e os árbitros não convencionem outro prazo. nas normas de procedimento. uma arbitragem não pode estender-se mais do que 6 meses. b) Tempo.307/96. Em geral. d) Despesas. sobretudo na arbitragem internacional em que poucos juizes estatais estão preparados para lidar com litígios de conexão internacional e relacionados ao comércio. de 23 de setembro de 1996). formal e não estar submetida a prazos cartoriais. A possibilidade de escolha dos árbitros gera entre as partes mais segurança quanto ao resultado do litígio. não se sujeita a recurso ou revisão. a especialidade do julgador permitirá a produção de resultados mais eqüitativos e ajustados à questão técnica sob exame. a arbitragem apresenta uma celeridade processual muito maior do que a justiça convencional. A liberdade que as partes dispõem na escolha dos árbitros. que cabem apenas em casos excepcionais previstos no artigo 32 da Lei 9. c) Sigilo. De acordo com o artigo 23 da lei brasileira de arbitragem (Lei 7.

no qual. fato dificilmente observado no âmbito judicial. A maior satisfação quanto ao resultado obtido confere às sentenças arbitrais um alto índice de efetividade pelo cumprimento espontâneo das partes. Assim como identificado também em outros métodos alternativos de solução de conflitos. no idioma em que será realizada a arbitragem. f) Neutralidade. h) Baixo impacto na relação comercial das partes. A seguir.que irá abrigar a questão. além da livre escolha da lei a ser aplicada ao litígio. exaurem todas as possibilidades recursais antes do cumprimento do mandamus. A possibilidade que as partes desfrutam de eleger um local neutro para a decisão de suas questões torna a arbitragem o meio de resolução de conflitos mais utilizado no âmbito comercial internacional de hoje. pontuamos as principais diferenças entre a arbitragem o processo judicial: 11 . g) Efetividade. verifica-se um baixo impacto na relação comercial das partes. torna muito atrativo para as partes este sistema de solução de controvérsias. na maioria das vezes.

Da forma semelhante. da lei). A eqüidade somente poderá ser utilizada excepcionalmente quando a lei permitir. da entidade. PROCESSO JUDICIAL ♦ Todos e quaisquer direitos entre os particulares ou envolvendo o poder público ♦ Não há qualquer necessidade de previsão contratual para o ajuizamento de ação nos tribunais ♦ Publicidade ♦ Contexto rígido e uniforme do Direito codificado ♦ Processo controlado pelo Juiz e pelas leis ♦ Hierarquia e formalismo ♦ Duplo grau de jurisdição ♦ Toda questão levada a análise do Pode Judiciário é decidida com base na lei. ou outro prazo estabelecido a critério das partes. Mecanismo de solução de litígios criado e controlado pelas próprias partes (escolha dos árbitros. os usos e costumes. Só será cabível recurso da decisão arbitral ao Poder Judiciário no caso de nulidade da mesma. princípios gerais do direito e a analogia só serão utilizados quando a lei for omissa. ♦ Pode ser dar por direito ou eqüidade.ARBITRAGEM ♦ Direitos patrimoniais disponíveis (todos os direitos que têm conteúdo de ordem patrimonial ou econômica e dos quais se pode dispor) ♦ É necessário haver a previsão da arbitragem em contrato (através de cláusula compromissória ou documento escrito à parte) ♦ Confidencialidade ♦ Flexibilidade. 12 . ♦ Única instância. a critério das partes. o prazo para prolação do laudo arbitral é de 6 meses. ♦ Pela lei brasileira de arbitragem. ♦ Não há prazo previsto na legislação para o encerramento do processo judicial.

91. do cumprimento da prestação. Sobre esse tema. O tribunal estatal que poderá vir a ter jurisdição sobre o processo arbitral. Rio de Janeiro. caso uma intervenção se faça necessária. desta forma. Identifica o procedimento a ser seguido para a execução do laudo arbitral. pág. ter partes domiciliadas em países diversos. 2003. 14 Dolinger Jacob e Tiburcio. será em princípio. A lei que regula a arbitragem. Editora Renovar. Carmem. Não há diferença essencial entre a arbitragem interna e a internacional. Nádia de Araújo define: “a arbitragem internacional deve envolver relação jurídica subjetivamente internacional.13 Portanto. etc”. As razões à seguir demonstram a importância da nacionalidade de uma arbitragem: 14 1. 13 13 . caso seja aplicada uma Araújo. ou seja. 2003. Direito Internacional Privado. Arbitragem Comercial Internacional. isto é. a lei dessa nacionalidade. Como lembra Jacob Dolinger. pág. Rio de Janeiro. 420. pois ambas são governadas pelos mesmos princípios.ARBITRAGEM INTERNACIONAL A Arbitragem pode ser doméstica ou internacional. a Grécia e a Líbia adotam o critério da lei que rege a arbitragem. Direito Internacional Privado. Editora Renovar. local de sua constituição. Teoria e Prática Brasileira. a nacionalidade ou domicílio das partes envolvidas. Nádia de. e 3. 2. serão determinantes para estabelecer a nacionalidade de uma arbitragem internacional: o lugar onde o tribunal arbitral adotar a sua sede. ou conter algum elemento objetivo estraneidade. muitos países como a Alemanha. o que vai distingui-las é o fator de estraneidade que irá permear a relação jurídica existente.

não faz tal distinção. a sentença arbitral que for proferida em território nacional é considerada doméstica.norma estrangeira. A arbitragem veio assim contrariar a Lei de Introdução ao Código Civil — LICC (Decreto Lei n. Como resultado. O Brasil. sendo o objeto da arbitragem conectado ao exterior. 9. deverá este passar pelo exame e homologação do STF para ter valide e executoriedade no país. mesmo envolvendo partes sediadas no exterior. fonte de Direito Internacional Privado no país. A Arbitragem Internacional e a Lei de Arbitragem – Lei No. CLÁUSULA DE DIREITO APLICÁVEL. O Brasil adota o critério da sede da arbitragem como se depreende do artigo 34 § da Lei 9. o laudo arbitral proferido no exterior. e entre partes brasileiras aqui residentes. José Maria Rossani. que tenham escolhido a legislação do Brasil para resolver o litígio. In: Aspectos Atuais da Arbitragem. Editora Forense. aplicando as mesmas normas da legislação brasileira em ambos os casos. que determina: “Considera-se sentença arbitral estrangeira a que tenha sido proferida fora do território nacional”. a arbitragem é considerada internacional ou estrangeira. verifica-se não ser necessário esta ser homologada pelo Supremo Tribunal Nacional – STF para ser executada no país. 4. pág. 14 . a exemplo de outros países como Inglaterra e Holanda. Rio de Janeiro.15 Alguns países possuem legislações distintas dedicadas à arbitragem interna e à internacional.307/96. de 1942). e a lei de regência ser a de um país estrangeiro. ainda que se relacione com questão de contrato firmado no Brasil.173. seja regido por leis brasileiras. A contrario sensu.657.307/96. e portanto não nacional. A ESCOLHA DA LEI APLICÁVEL NOS CONTRATOS INTERNACIONAIS Um ponto de grande importância e caracterização da arbitragem é a liberdade dadas às partes para a escolha da lei de fundo que irá reger a solução do conflito. que não consagrou a 15 Garcez. Por conseguinte.

caberá ao árbitro aplicar ao mérito da questão a lei material que julgar apropriada. O artigo 90 que regula as questões relativas às obrigações contratuais entre os presentes restringe essa autonomia à “lex loci contractus”. fenômeno 15 . o artigo 10 do Acordo sobre Arbitragem Comercial no Mercosul. este deverá sempre levar em conta os termos do contrato e as práticas comerciais pertinentes. à lei do local de celebração do contrato. Por outro lado. caso as partes não tenham acordado previamente sobre o direito a ser aplicável. destacamos a seguir os dispositivos internacionais que estabelecem o procedimento a ser seguido nesta ocorrência.autonomia da vontade nos contratos internacionais. que. o Tribunal tem a prerrogativa de aplicar a lei que achar mais apropriada. Nesse sentido. determinando que as obrigações serão regidas no país em que se constituirem. o artigo 30 do Centro de Arbitragem e Mediação Comercial CAMCA da American Arbitration Association e o artigo 59 do regulamento de arbitragem da Organização Mundial da Propriedade Intelectual – WIPPO (World Intellectual Property Organization) garantem às partes liberdade para escolherem as normas que serão aplicadas pelo Tribunal ao mérito da controvérsia. Nesse caso. há de fato uma tendência em aplicar-se o princípio da proximidade na busca da lei mais adequada à hipótese em questão. Pela via arbitral. O artigo 17 do atual regulamento de arbitragem da Corte de Comércio Internacional – CCI. A dúvida acerca da norma jurídica só surgirá quando as partes não tiverem eleito uma lei específica para dirimir o litígio. Neste caso. Do exposto podemos perceber que. as partes têm então total independência para a escolha da lei aplicável ao contrato. embora não estando sob as limitações das regras de conexão do direito internacional privado. de 1998. ou seja. em dissonância das prescrições anteriores. menciona expressamente a utilização das regras de conexão. excepcionando. no caso de divergência na escolha da lei.

permite que as partes declinem da escolha de uma lei para que a disputa seja resolvida através da eqüidade (ex aequo e bono). justificando ser esta uma forma indireta de as partes revelarem sua decisão pela lei de fundo. Em realidade esta deverá ser definida caso a caso.. Interpretando tal dicotomia. mas o árbitro é considerado desvinculado do país no qual a arbitragem se desenvolve. Op.. Nesse sentido. 16 . conceito que será visto mais adiante. cumpre ainda mencionar que a arbitragem internacional. de acordo com as características e peculiaridades da situação apresentada. em resumo. 77. o que não significa obrigatoriamente vincular-se apenas à questão territorial.este que os ingleses denominam de proper law. Com relação ao direito aplicável. representando a arbitragem internacional. essa liberdade traduz-se nas regras de procedimento que o árbitro irá se utilizar e da opção do direito material a ser aplicado na solução do litígio.17 Por fim. Dolinger afirma que “. Cit. pode-se dizer que ainda vigora o recurso às regras de conexão. assim. uma jurisdição independente e autônoma. Carmem. LEIS E REGRAS DE DIREITO NA ARBITRAGEM A arbitragem garante aos contratantes grande liberdade na escolha do modo pelo qual será resolvido o conflito. Pág. assim como a doméstica ou interna. A arbitragem é bastante atraente para os negociadores e 16 17 Dolinger Jacob e Tiburcio.16 Por este princípio o árbitro deverá considerar a lei mais proximamente ligada ao litígio para solucioná-lo. que possui suas próprias regras”. vale lembrar que há muitas decisões que reconhecem aplicável a disputa à lei onde o processo arbitral deverá ocorrer. Idem.

18 De acordo com o artigo 2° da legislação nacional que rege a matéria. considerado fundamental. ou por algum segmento da sociedade. Prosseguindo.contratantes internacionais não somente pela possibilidade de evitar a solução judicial. ♦ Eqüidade – é a adaptação da lei ao caso concreto (bom senso). ♦ Ordem Pública – conjunto de princípios na ordenação jurídica que. 17 . 18 Carmona. ♦ Bons Costumes – prática de atos em acordo com a moral da sociedade. ou tradicionais são repetidas por todos. que. 61. aceitas e repetidas. Carlos Alberto.. às vezes até não escritos. Cit. fato que. mas também pela possibilidade de determinar qual direito material será aplicável na hipótese de litígio. é especialmente importante no campo do direito do comércio internacional. Ex: No direito do trabalho o princípio geral é a proteção ao trabalhador. existentes em cada ramo do Direito e percebidos por indução. ou a criação de uma solução própria para uma hipótese em que a lei é omissa. Vejamos com mais o significado de cada um dos itens anunciados por esse artigo. pág. a critério das partes. nem mesmo escritas. ♦ Usos e costumes – normas ou regras. Op. excluindo qualquer validade a relações jurídicas que lhe sejam contrárias. a arbitragem poderá ser de direito ou de eqüidade. desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública. nos usos e costumes e nas regras internacionais de comércio. impõe-se imperativamente. os parágrafos seguintes deste artigo prescrevem total liberdade às partes para decidirem livremente sobre as regras de direito que serão aplicadas na arbitragem. ♦ Princípios Gerais de Direito – são critérios maiores. como lembra Carlos Alberto Carmona. estabelecendo que a arbitragem se realize com base nos princípios gerais de direito.

Curitiba.conjunto de regras comerciais uniformes originário dos costumes. Editora Juruá. pág. as legislações e convenções internacionais que regulam a matéria conferem a convenção arbitral independência e validade em relação ao contrato de que faz parte. 18 . mesmo estando embutida neste.12.20 19 Lee. A fim de assegurar máxima eficácia à sua validade. Arbitragem Comercial Internacional nos países do Mercosul. de comum acordo. a arbitragem é o método extrajudicial de solução de controvérsias que envolvam direitos patrimoniais disponíveis. também conhecido como princípio da separabilidade.19 Desta forma. Cit. A maneira de se formalizar esse consenso é através da chamada convenção de arbitragem. b) as partes podem eleger uma lei para regular o contrato. 72. afastar a atuação do Poder Judiciário. Carlos Augusto da Silveira. dois efeitos são acarretados por este princípio: a) a nulidade de um contrato não resulta na nulidade da convenção de arbitragem. não podendo ser revogada senão pelo mútuo consentimento das partes. Op. através do qual as partes envolvidas em uma relação jurídica específica decidem. denominado árbitro. João Bosco. para que profira decisão a respeito do conflito que tenha surgido ou que venha a surgir entre elas.♦ Regras Internacionais de Comércio . atribuindo responsabilidade às partes envolvidas. 20 Lobo. Trata-se do quase universalmente consagrado princípio da autonomia. 2003. pág. A CONVENÇÃO ARBITRAL Como se sabe. conferindo poderes a um terceiro imparcial. e outra para a convenção de arbitragem. Um exemplo destas regras são os INCOTERMS (International Commercial Terms – Termos Comerciais Internacionais) criados pela Câmara de Comércio Internacional (CCI) com o objetivo de evitar erros de interpretação nas transações comerciais internacionais. assumindo verdadeira força legal.

avaliando a eficácia e extensão dos poderes que as partes lhe conferiram tanto por via de cláusula compromissória quanto por meio de compromisso arbitral”.307/96. Vamos a seguir analisar rapidamente ambas as formas. embutido da prerrogativa a ele conferido pelo princípio da compétence-compétence21. mas não continha obrigatoriedade capaz de forçar as partes à arbitragem. os efeitos práticos dessas modalidades não se diferem.307/96 a cláusula compromissória não era reconhecida pelo direito brasileiro.competência do árbitro para decidir sobre sua própria competência.. “. apenas o compromisso arbitral era capaz de conduzir as partes à arbitragem. Carmona. resolvendo as impugnações que surjam acerca da sua capacidade de julgar. Entretanto. pág. gerar direito a indenização por descumprimento contratual. Dessa forma. ou concordar expressamente com a sua instituição.. bem como na sub-rogação legal e sucessão a título universal. 13.307/96. 22 Parágrafo único do artigo 8º da Lei 9.Caberá ao árbitro. como resultado. Em sua definição Carlos Alberto Carmona explica o princípio da “ competência-competência”. exceto por previsão expressa prevista na própria convenção de arbitragem. a cláusula compromissória é a convenção escrita. da extensão de seus poderes. no máximo. por estar vinculada ao princípio da autonomia da vontade nos contratos de adesão. contudo. a ) A CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA De acordo com o artigo 4 da Lei 9. Parágrafo 2º da Lei 9. 24 Antes da entrada em vigor da Lei nº 9. Op. pág. verifica-se que na cessão de direitos de um contrato. 23 Idem.307/96.23 O Legislador brasileiro optou por distinguir em duas formas o modo pelo qual uma arbitragem pode ser instaurada: através da cláusula compromissória e pelo compromisso arbitral24. 21 19 .22 Como lembra Carlos Augusto da Silveira Lobo. decisão esta que poderá ser dada de ofício ou a pedido das partes. que pode estar ou não inserida no próprio contrato. Carlos Alberto. O descumprimento da cláusula de arbitragem poderia. a convenção de arbitragem segue o contrato cedido. a modalidade de convenção arbitral pela cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa. validade e eficácia da convenção de arbitragem. através da qual as partes comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam a vir a surgir relativamente a tal contrato. da arbitrabilidade da controvérsia. enfim. determinar as questões acerca da existência. Cit. 120.

designados de acordo com as referidas Regras. A chamada cláusula compromissória vazia. por um ou mais árbitros. em dia. a parte interessada poderá convocar a outra para juntas. denominou-se cláusula compromissória o acordo formalizado por escrito entre as partes antes do surgimento da controvérsia. em razão da liberdade de escolha em relação à lei. A cláusula compromissória pode ser cheia ou vazia. entretanto. ou outro documento fora do contrato. Exemplo de Cláusula Compromissória cheia: “As partes acordam que quaisquer controvérsias surgidas deste contrato serão definitivamente resolvidas mediante arbitragem. a cláusula vazia deve ser evitada.Assim. segundo as Regras do Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem. Na falta de acordo que estabeleça a forma de se estabelecer uma arbitragem. sem. é aquela que apenas determina que o conflito será resolvido por arbitragem. uma vez que não estipula de forma clara e precisa quando e como a arbitragem será instituída. também conhecida como em branco. hora e local certos firmarem 20 . ou sem mencionar a forma como serão escolhidos os árbitros. Por não ser auto-suficiente. através de uma cláusula contratual. Exemplo de Cláusula Compromissória em branco: “As partes acordam que quaisquer controvérsias surgidas deste contrato serão definitivamente resolvidas mediante arbitragem”. proceder à escolha de uma entidade especializada na administração de procedimentos arbitrais. que as obriga a submeter à arbitragem os litígios surgidos relativamente a esse contrato. A sentença arbitral será definitiva e vinculante para as partes”. ao árbitro e ao foro onde será decidida a demanda.

a outra não é obrigada a ajuizar uma ação de execução da cláusula compromissória. Nesse caso. assim. podendo também seguir o rito sumário a depender do valor da causa. a alternativa prevista é a de levar a questão perante o Poder Judiciário para que então sejam determinadas em juízo as regras do procedimento. Essa ação segue o rito ordinário. Artigo 275 do Código de Processo Civil. a parte interessada pode obrigar a outra recalcitrante a submeter o litígio à arbitragem. De acordo com o parágrafo 3 do artigo 22 da Lei brasileira de arbitragem. e o compromisso não será necessário. também conhecida como em preto. É o que dispõe o modelo de compromisso arbitral da Câmara de Comércio Internacional – CCI: “Todos os litígios emergentes do presente contrato ou com ele relacionados serão definitivamente resolvidos de acordo com o Regulamento de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional. esta autoridade poderá designar o árbitro no lugar da parte reticente. através da execução26 da cláusula compromissória. esta recusar-se a firmar o compromisso arbitral. terá plena eficácia. comparecendo. Desta forma. Nesse sentido ainda a CCI estabelece no seu artigo 6° que “a arbitragem ocorrerá mesmo em caso de recusa de uma das partes”. através da formalização do compromisso arbitral judicial. por um ou mais árbitros nomeados nos termos desse Regulamento”. promovendo. se uma das partes não se submete à arbitragem. Portanto.307/96. Firmando as partes uma cláusula compromissória cheia.25 Não comparecendo a parte convocada ou. a sentença que vier a ser proferida pelo tribunal arbitral. Uma questão interessante se dá em relação à determinação da jurisdição competente para a execução da cláusula compromissória nos contratos internacionais. mesmo quando da falta de participação ativa da parte. que prevê uma instituição arbitral para dirimir o litígio. De Ver artigo 6º da Lei nº 9. a arbitragem. como define a lei. que resultará no compromisso. 26 25 21 .o compromisso arbitral. “a revelia da parte não impedirá que seja proferida a sentença arbitral”.

a ação tem por origem um fato superveniente ou um ato passado no Brasil Entretanto. Por isso. à escolha de uma entidade especializada em administração de arbitragens e a forma como serão escolhidos os árbitros. uma vez reunidas todas as condições para ser instituída a arbitragem na iminência do conflito. Desse modo. elaborando uma cláusula bem estruturada. a jurisdição competente para julgar a ação de execução da cláusula compromissória é o juiz que teria sido originariamente competente para conhecer do litígio se nenhuma arbitragem estivesse prevista. as partes devem formalizar adequadamente os termos de sua convenção. será necessário evocar as regras de competência internacional do Código de Processo Civil – CPC. Neste caso. a sede da arbitragem. 56.acordo com o parágrafo único do artigo 6° da lei brasileira de arbitragem. pág. a execução da obrigação for localizada no Brasil. Irineu. 22 . estariam afastados os revezes que a atual fórmula brasileira pode ocasionar. a fim de evitar situações desgastantes antes mesmo de se entrar no mérito da questão destinada a ser resolvida através da arbitragem. São Paulo. 28 27 28 Lee.27 Ante o exposto. procedendo. Op. 1998. 81. comungamos inteiramente com a opinião de João Bosco Lee quando este declara ser mais satisfatória a solução que determina a competência da ação de execução da cláusula compromissória. inclusive. Cit. com o máximo de previsões possíveis. para definir o juiz competente que irá conhecer da mencionada ação de execução. O artigo 88 do CPC determina que a autoridade judiciária brasileira será competente quando: I) II) III) o réu for domiciliado no Brasil. pág. os critérios adotados pela legislação brasileira podem criar um conflito de competência entre um tribunal brasileiro e a jurisdição estrangeira da sede do tribunal arbitral. Editora Ltr. João Bosco. Comentários à Lei Brasileira de Arbitragem. Desta forma. será possível passar validamente da cláusula compromissória à arbitragem sem deter-se formalmente no estágio do compromisso. Strenger.

Embora em arbitragem internacional o compromisso só seja necessário na falta de uma cláusula arbitral válida. ao elaborar o compromisso as partes devem tomar todo o cuidado em observar as exigências previstas na lei para a condição de sua validade. que visa resolver um litígio futuro. Parágrafo 2º do artigo 9º da Lei nº 9. pág. dela desistindo. quando as partes firmam a instituição de arbitragem estabelecendo suas regras de procedimento. uma vez celebrado o compromisso. Como visto anteriormente. 31 Artigo 32 da Lei 9. assinado por duas testemunhas. extrajudiacial. Irineu.b) O COMPROMISSO ARBITRAL O compromisso pode ser definido como um contrato fora do contrato29. por livre convencimento e observando o princípio da autonomia da vontade.31 29 30 Strenger. Op. Cit.307 . vale lembrar que a nulidade do compromisso torna nula a sentença arbitral. resolvam desistir da ação. 74. 23 . Assim.307/96. Diferentemente da cláusula arbitral. O compromisso arbitral extrajudicial será celebrado por escrito particular. ficando a cargo do tribunal arbitral a decisão final. e instituir a arbitragem para resolver a controvérsia. será extinto o processo. convencionam resolver o conflito pelo procedimento arbitral ou. ou por instrumento público. no Brasil este aparece como um dos pilares fundamentais do procedimento arbitral. o compromisso poderá ser judicial. Pela definição do artigo 9° da Lei 9. Por isso. quando tomada a termo perante juiz ou tribunal em que se processa a demanda judicial da qual as partes. não obstante a existência de um processo judicial em curso. enquanto essa não tiver transitado em julgado. ainda não suscitado. nada impede que as partes.307/96.30 Desta forma. o compromisso deve prever a solução de um litígio já ocorrido e atual. o compromisso é a convenção através da qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas. Nesse sentido.

Como exemplo de órgãos arbitrais internacionais. Desde a sua fundação. os procedimentos de arbitragem seguem normas estipuladas por uma instituição de arbitragem que prevê ou seu próprio regulamento. Diferentemente de outras instituições arbitrais. idôneas e com um corpo de árbitros altamente capacitados e especializados. embora sediada em Paris. e a demanda por seus serviços continua crescendo ano após ano com a globalização econômica e a expansão internacional do comércio.ICC (FRANÇA) Desde a sua criação. Existem atualmente no mundo diversas instituições de arbitragem de caráter privado de renome. Seu quadro de membros se compõe de árbitros provenientes de 77 países de todos os continentes. a Corte. ou quando são determinadas pelo árbitro. a Câmara Internacional de Comércio foi pioneira na arbitragem comercial internacional.AS INSTITUIÇÕES ARBITRAIS Diferentemente da arbitragem ad hoc (que significa “para isto”. Enquanto a maioria das instituições de arbitragem são de cunho regional e nacional. a Corte da ICC é verdadeiramente internacional. “com esta finalidade”). CHAMBER OF COMMERCE . em 1923. conta com comitês nacionais em 80 diferentes países. ou administrada. garantindo assim ampla liberdade de escolha e flexibilidade na constituição do Tribunal Arbitral. podemos citar dentre os mais conhecidos: INTERNATIONAL COURT OF ARBITRATION.000 casos de casos de arbitragem envolvendo partes e árbitros de mais de 170 países e territórios. O corpo de arbitragem da International Chamber of Commerce – ICC. na arbitragem institucional. modalidade de arbitragem em que os procedimentos seguem as disposições fixadas pelas partes. O comitê nacional tem competência para identificar potenciais árbitros ao redor de todo o mundo. 24 . a Câmara Internacional de Comércio tem sido a organização líder na área de controvérsias internacionais comerciais. a Corte administrou mais de 12. a Corte não requer que os árbitros sejam selecionados de listas pré-estabelecidas. Além disso.

arbitragem e outros métodos alternativos de solução de controvérsias não apenas em conflitos comerciais. Localizado em Vancouver. que se assemelham com as Regras de Arbitragem e Mediação da Comissão das Nações Unidas para o Direito Mercantil Internacional. 25 . composta por 35 árbitros de várias nacionalidades vindos de grandes áreas de comércio como Hungria.AAA (EUA) Fundada em 1926. recentemente atualizadas em 2000. AMERICAN ARBITRATION ASSOCIATION . é uma instituição internacional. e embora seja sediada em Londres. LONDON COURT OF INTERNATIONAL ARBITRATION . Estados Unidos e China. Austrália. mas em numerosos tipos de desavenças como questões trabalhistas. de seguro. questões financeiras. o Centro adotou regras sobre procedimento de arbitragem e mediação comerciais internacionais. O AAA dispõe de 36 escritórios nos Estados Unidos e Europa. além de possuir 59 acordos de cooperação com instituições arbitrais em 41 países. Nigéria. BRITISH COLUMBIA INTERNATIONAL COMERCIAL ARBITRATION CENTRE . comércio eletrônico. dentre outras.(CANADÁ) O Centro de Arbitragem Internacional Britânica de Colômbia é uma organização estabelecida em 1986 com o apoio dos governos federais e das províncias do Canadá. A Associação Americana de Arbitragem oferece seus serviços de mediação.O mecanismo resolução de disputas desenvolvidas pela ICC é focado especificamente no contexto de litígios negociais internacionais.LCIA (INGLATERRA) A LCIA foi criada em 1995.

e a Associação dos Árbitros Marítimos em Londres e da Comissão de Arbitragem Marítima da Rússia. já faz parte hoje das seguintes Convenções e Protocolo: CONVENÇÃO DE NOVA YORK. a American Arbitration Association e a London Court of Arbitration.As instituições arbitrais oferecem vantagens adicionais quando comparadas à arbitragem ad hoc. Na ampla lista de entidades de arbitragem há aquelas de caráter geral (que não fazem qualquer tipo de restrição a todos os tipos de arbitragem) e também as que se especializaram em determinados tipos de litígio. e com o objetivo de facilitar a cooperação internacional e o trânsito da execução de decisões arbitrais internacionais no país. 1958 (DEC. demonstrando amadurecimento sobre a matéria. ♦ Credibilidade da sentença assegurada pelo prestígio da instituição. 4. No plano internacional. Cada Estado signatário reconhece as sentenças como obrigatórias e as executa 26 . podemos citar como exemplos de instituição de competência geral: a International Court of Arbitration. Assim. Podemos citar como pontos favoráveis das arbitragens institucionalizadas: ♦ Conveniência e segurança aos que a estas recorrerem. proferidas no território de um Estado estrangeiro. de pessoas físicas ou jurídicas.311/2002) – Por força desta Convenção. e as de cunho especializado: a Associação Japonesa de Arbitragem Comercial. que só cuida das contendas de natureza comercial. ambas dedicantes somente às arbitragens de direito marítimo. o Brasil.32 AS CONVENÇÕES INTERNACIONAIS. seus signatários comprometem-se mutuamente a reconhecer e a executar as sentenças arbitrais estrangeiras.

PROTOCOLO DO MERCOSUL. 1988 (DEC. esse meio tem demonstrado ter a preferência dos contratantes que. Strenger. 1998. São Paulo. 31. 1975 (DEC. 1. Embora a atual legislação nacional sobre o tema esteja em compasso com as demais legislações estrangeiras sobre a matéria.902/96) . Particularmente na esfera internacional. possibilitando uma uniformização e organização para o funcionamento da arbitragem internacional nos países do Cone Sul.em conformidade com as regras de procedimento do território no qual a sentença é invocada. 4. CONVENÇÃO INTERAMERICANA. 32 27 . respaldados pela neutralidade. concluída no Panamá. Por este Tratado. Coordenadora: Adriana Noemi Pucci. e confidencialidade inerentes ao método arbitral. em 23 de julho de 1988. pág. os Governos dos Estados-Membros da Organização dos Estados Amercianos reconhecem como válidas e executáveis as decisões arbitrais validamente proferidas no âmbito destes países. Irineu.719/2003) – Institui. In: Arbitragem Comercial Internacional. em 30 de janeiro de 1975. sentem-se mais seguros e confiantes no resultado conseguido pela arbitragem do que em relação à via judicial. “Arbitragem Internacional”.dispõe sobre Eficácia Extraterritorial das Sentenças e Laudos Arbitrais Estrangeiros. a arbitragem no Brasil ainda sofre resistências como herança do preconceito e o do desuso deste instituto ao longo do século XX no país. rapidez. o Acordo sobre arbitragem comercial do Mercosul. CONCLUSÃO A arbitragem é um dos mais rápidos e eficientes métodos de solução de controvérsias utilizados hoje em nível mundial. Editora Ltr.

Em primeiro lugar podemos citar resistência por parte dos advogados que temem ver diminuído o seu mercado de trabalho. Por fim. na medida em que. uma vez que no procedimento arbitral.Algumas razões podem ser apontadas como obstáculos para a utilização da arbitragem. ao contrário do judicial. Ora. mas também dos procedimentos a que todo o processo está submetido. o instituto da arbitragem é um mecanismo facilitador do desenvolvimento comercial harmônico entre os países. que passará então a ser utilizado com freqüência não apenas no âmbito dos contratos internacionais. pela ampla liberdade na escolha das leis e procedimentos que irão regular o litígio sob exame. Para as relações internacionais. 28 . auxiliando o seu cliente durante todo o procedimento. Em segundo lugar. permanecendo as demais sendo tuteladas pelo Estado. deverão estar presentes. obtidas pela neutralidade característica deste método. como já foi visto. as partes não são obrigadas a constituir procuradores. e por fatores culturais ainda muito arraigados à litigância. observando seu estrito cumprimento. por permitir decisões mais satisfatórias para as partes. na prática. como também nas questões domésticas. os advogados. inclusive o arbitral que sempre obedecerá ao Regulamento de alguma instituição arbitral ou ao procedimento estabelecido pelas próprias partes ou pelo árbitro no caso da arbitragem ad hoc. Acreditamos que na medida em que for sendo praticada e difundida a arbitragem no país. verificamos ainda existir uma desconfiança por parte dos próprios particulares que por falta de conhecimento apropriado sobre o instituto da arbitragem. ainda não descobriram os benefícios da justiça privada. notamos também o temor de certas correntes do Poder Judiciário no sentido de que a arbitragem venha a competir com a sua função. bem como pela expertise de seus julgadores. que não são apenas conhecedores das leis. somente as questões relacionadas a direitos patrimoniais disponíveis são passíveis de serem dirimidas através da arbitragem. haverá uma mudança de mentalidade e mais pessoas se tornarão adeptas desse método de solução de controvérsias. Esse argumento também carece de fundamento.

Lobo. Mediação e Arbitragem . Cretella Neto. 6. Arbitragem e Processo. 13. 14.1. n. In: Aspectos Atuais da Arbitragem. Editora Renovar. Teoria e Prática. Direito Internacional Privado. João Bosco. José. v.307/96. Industrial Econômico e Financeiro. 9. Coordenadora: Adriana Noemi Pucci. Comentários à Lei Brasileira de Arbitragem. Editora Forense. Arbitragem e Mediação. 11. Curitiba. Carmem. Lee. 2003. Arbitragem Comercial Internacional nos países do Mercosul. Editora Ltr. “Cláusula Compromissória nos Contratos de Joint Venture” In: Revista de Direito Mercantil. Teoria e Prática Brasileira. Garcez. 2a edição. ______________. ADRs. Dolinger Jacob e Tiburcio. 4. Arbitragem Comercial Internacional. 1999. 12. 130. In: Arbitragem Internacional. Editora Lúmen Júris. Rio de Janeiro. Affonso. _______________. 2003. Mediação e Arbitragem. São Paulo. Editora Renovar. São Paulo. Caetano. Valério. Rio de Janeiro. Nádia de. Juan Luis Colaiácovo e Cynthia Alexandra Colaiáccovo. Rio de Janeiro.307/96. Araújo. vol. 1998. 130. 2003. Editora Renovar. A Arbitragem Internacional e a Lei de Arbitragem – Lei No. São Paulo. 10. São Paulo Editora Ltr. Ano XLII. Malheiros Editores. José Maria Rossani. Um comentário à Lei 9. Negociação. 9. Instituições do Processo Civil do Brasil. Curso de Arbitragem. 2003. Editora Atlas. Luiz Antunes. Questões da Doutrina e da Prática. Editora Forense. Editora Juruá. 8. Rio de Janeiro. abril-junho –2003. 1998. Irineu. São Paulo. 2002. 2004. Carmona. 2001. 3. 2003.BIBLIOGRAFIA: 1. Strenger. Carlos Augusto da Silveira. Editores Malheiros. 1940. 29 . Marco Aurélio Gumieri. 1998. 2. Rio de Janeiro. “Arbitragem Internacional”. Rio de Janeiro. In: Arbitragem Comercial Internacional. Carlos Alberto. 5. Fraga. Editora Forense. 7. Direito Internacional Privado. São Paulo. Negociação. Rio de Janeiro.

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