4Revista de evangelização cristã católica - periódico mensal - ano 3 - 2012

Uma publicação da Paróquia São João Batista do Brás - São Paulo - SP
Em nome da Verdade

do utrina | espir itualidade | tir a-dúvidas | prática | polêmica | história do cris tianis mo

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Vitral gótico - detalhe (Carmel Rochefort, Bélgica)

Aparições de das Graças
Nossa Senhora

Quaresma
quaresmais

exercícios

Antiga Aliança

A Arca da e as novas

heresias

INTERCESSÃO DOS SANTOS
PRIMEIRA PARTE DE UMA SÉRIE ESPECIAL EM CINCO ARTIGOS
num deserto há muitos dias, e já quase morre de sede: um viajante passa por você, conduzindo um jipe ou um camelo, e não lhe presta socorro nem lhe dá de beber, mas indica a direção que você deve seguir para se salvar. Desesperado, você segue a orientação desse viajante, e encontra um oásis, com sombra e água fresca. Você bebe, descansa e recupera suas forças. Assim, consegue completar o caminho indicado pelo viajante até a área povoada mais próxima, e assim salvar a sua vida. Pois bem: quem o salvou? O viajante não lhe deu água nem carona; mas ele indicou o caminho. O mesmo ocorre com a intercessão dos santos. Eles mesmos não são o Caminho. O único Caminho é Jesus. Mas os santos nos indicam o Caminho, caminham conosco; eles levam nossas intenções a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Agora veja: se você só crê naquilo que está escrito na Bíblia, você também precisa crer na intercessão dos santos. Por quê? Porque não podemos tomar uma parte isolada da Bíblia, acreditar somente nessa parte e descartar todas as outras. Se cremos na Bíblia Sagrada, precisamos crer em toda a Bíblia, meditar em tudo o que ela diz. E por acaso não ensina o Apóstolo Paulo, nas Escrituras, que os cristãos devem dirigir orações a Deus em favor de todos? Vejamos o que diz o primeiro versículo do livro de 1Timóteo, ainda no capítulo 2: “Acima de tudo, recomendo que se façam súplicas, pedidos e intercessões, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade” (1 Tm 2, 1).
“Todos os Santos do Altar” (Albrecht Dürer – séc. XVI)

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esde o início, a Igreja sempre ensinou que aqueles que morreram na Amizade do Senhor intercedem pelos que ainda se encontram na Terra. Esta doutrina, que é bíblica e cristã, é denominada Doutrina da Intercessão dos Santos. Para a Igreja Católica, portanto, os santos intercedem por nós junto ao Pai, não por seu próprio poder, mas pelos méritos de Cristo, Nosso Senhor, único Mediador entre Deus e os homens para a nossa salvação. Os adeptos do fundamentalismo bíblico, porém, costumam apresentar objeções à este ensinamento. Tais objeções podem ser divididas, basicamente, em cinco categorias, que passamos a analisar a partir desta edição. Neste artigo buscaremos analisar e responder à primeira dessas objeções.

Primeira objeção à Doutrina da Intercessão dos Santos: Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens

Este é o argumento principal dos que não aceitam a doutrina. Fundamenta-se na passagem bíblica de 1Timóteo 2, 5: “Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens: um homem, Cristo Jesus”. Para algumas pessoas, a Sagrada Escritura está dizendo, aí, que só Jesus pode interceder pelos homens junto a Deus, e tais pessoas estão certas, neste ponto específico. Não há nenhum santo, nem Pedro nem Paulo e nem a Virgem Maria, que possa interceder por nós junto a Deus no sentido de salvar as nossas almas. “Só Jesus salva!”, gritam alguns dos nossos irmãos “evangélicos” mais exaltados, sempre que falamos dos santos... E, nesse ponto, nós concordamos com eles! De todos os que pisaram a terra, somente Jesus é Deus, e somente Ele, sendo Deus, se fez o Cordeiro Imolado para a nossa salvação: o único Sacrifício capaz de nos resgatar do pecado e da morte é Cristo. Esta é a fé católica. Então, em que sentido cremos na intercessão dos santos? Eles podem nos salvar? Podemos responder a esta pergunta com outra pergunta: através do testemunho e do exemplo dos bons cristãos, que já conhecem Jesus, nós não podemos também encontrar a salvação? Se alguém nos apresenta Jesus, nós não podemos dizer que, indiretamente, essa pessoa nos salvou? Embora quem salve de fato seja Jesus, aqueles que nos conduzem ao Salvador foram, num certo sentido, nossos “salvadores”! Imagine que você está perdido

Ora, Paulo nos pede abertamente, no versículo 1, que antes de tudo sejamos intercessores junto a Deus, uns pelos outros. E no versículo 5 ele diz que só Jesus é nosso Mediador. Se eu faço uma oração pela sua vida, estou intercedendo por você junto a Deus. Estaria então o Apóstolo se contradizendo? Claro que não! Também na carta de S. Tiago (5, 16) está escrito o seguinte: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos”. E agora? Eu creio na Bíblia; devo crer que só Jesus intercede por nós, ou que nós também podemos interceder uns pelos outros? A Bíblia ensina uma coisa numa parte e outra coisa diferente, em outra parte? Claro que não! Se a Bíblia falasse contra si mesma, não seria a Palavra de Deus. A solução é simples: ocorre que, dentro do contexto bíblico, a natureza da mediação tratada no capítulo 2 de 1Timóteo é diferente da intercessão do 5º capítulo de S. Tiago.

No Antigo Testamento, a mediação entre Deus e os homens se dava através da prática da Lei e dos muitos sacrifícios e ofertas no Templo. No Novo Testamento, isto é, na Nova e Eterna Aliança entre Deus e os seres humanos, é Cristo quem nos reconcilia com Deus através do seu Sacrifício na cruz. É neste sentido que é Ele o nosso único Mediador, pois foi somente através dele que recuperamos para sempre a Amizade com Deus: “Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5, 19). Portanto, a exclusividade da medição de Cristo refere-se à justificação e à salvação dos seres humanos. Mas a intercessão dos santos é de uma outra natureza: refere-se à Graça que Deus nos concede, de intercedermos em oração uns pelos outros. É dessa maneira que os santos intercedem por nós.
Artigo baseado no texto de Alessandro Lima, do website Veritatis Splendor http://veritatis.com.br

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Cap. 5 - Da leitura das Sagradas Escrituras

IMITAÇÃO DE CRISTO

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as Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e não o falar bonito. Os livros santos, que tratam das coisas sagradas, devem ser lidos com o mesmo Espírito que os ditou. Nas Escrituras, devemos antes buscar mais o proveito do que a beleza da linguagem. Tão grata deve ser a leitura dos livros simples e piedosos quanto a dos sublimes e mais profundos. Não te mova nome do escritor, se é ou não de um doutor de grandes conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor e busca a verdade. Não te importes com quem o disse; considera o que se diz. Os homens passam, mas a Verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116, 2). De vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras, porque queremos compreender e discutir aquilo que deve ser entendido de maneira simples. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do renome dos letrados. Pergunta de boa vontade e ouve calado às palavras dos santos; também não te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão.

prestar atenção à simplicidade da mensagem. A simplicidade do coração é preferível à ciência, quando alimenta a soberba. O desejo de saber foi o que levou à perdição o primeiro homem: Adão buscava a ciência, achou a morte. Deus, que nos fala na Escritura, não quis satisfazer à nossa vã curiosidade, mas esclarecer-nos acerca dos nossos deveres, exercer nossa fé, purificar e nutrir nossa alma com o amor dos verdadeiros bens, que a todos os outros encerram em si. A humildade de espírito é, pois, a disposição mais necessária para ler com fruto os livros santos; e já não é pouca coisa compreender o quanto eles são superiores à nossa razão fraca e limitada.

Reflexões
O que é o que a razão humana compreende? Quase nada; mas a fé abraça o infinito. Aquele que crê está muito acima daquele que discute, que busca somente as explicações complexas, sem

Aparecestes, Luz Divina, à gente que estava como em trevas de pecados; aparecei também ao meu espírito, quando leio e medito vossa Palavra na Sagrada Escritura. Ó Luz Divina, que nunca escureceis, ó Resplendor Celeste que nunca tendes trevas, ó Dia Formoso que nunca anoitece, ó Sol Radiante que não tendes fim: caminhai com vossa formosura e entrai nesta alma que está desejosa de vossa claridade; encheia-a de vosso clarão divino para que em vós entenda a Verdade, por vós a pratique e goze de Vós, que sois Eterna Verdade. Amém.
KEMPIS, Tomás. A Imitação de Cristo, São Paulo: Vozes, 2006, pp. 34-37.

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TEMPO DA QUARESMA
Entendendo o significado e o propósito do jejum e dos exercícios quaresmais
além do corpo físico e dos prazeres meramente mundanos. O jejum no tempo quaresmal também expressa a nossa solidariedade para com Jesus Cristo, preso, torturado, flagelado, coroado de espinhos, humilhado, crucificado e morto pela nossa salvação. Ao jejuar, você deve se concentrar não somente na abstenção de alimentos e bebidas, mas principalmente no significado mais profundo dessa prática. Alimentar-se é indispensável para a vida humana: o pecado começa quando os meios se tornam os fins, isto é, quando você deixa de comer e beber para viver, e passa a viver para comer e beber. O jejum também leva ao equilíbrio e à libertação do consumismo exagerado, tão característico da sociedade atual. O jejum bem feito nos dá a possibilidade de reconhecer as nossas faltas e misérias, porque, por meio dele, vemos o quanto ainda somos egoístas e mesquinhos.

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om a Quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia o período quaresmal. Quaresma é o tempo de preparação para a celebração da Páscoa, que é o momento central e mais alto da Liturgia e da vida da Igreja ao longo do ano. São quarenta dias de intenso preparo para celebrar bem a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bem observados, esses dias podem render preciosos frutos espirituais, que acabam se refletindo também na vida prática, já que a saúde da alma transparece em todos os aspectos da vida humana. Todo o período quaresmal é uma oportunidade especial para que você renove a sua conversão, intensifique a sua intenção de abandonar o pecado e os hábitos prejudiciais, produza frutos de justiça e caridade, avance no conhecimento de Jesus Cristo e corresponda ao Seu Amor. Durante esse tempo, a Igreja exorta os fiéis cristãos a realizarem os exercícios quaresmais, que são as práticas mais antigas e piedosas da Igreja. São eles a penitência, a caridade e a oração: os três juntos representam o tripé principal das práticas cristãs por excelência. É claro que essas práticas devem fazer parte da vida do cristão ao longo do ano todo, mas na Quaresma devem ser exercidas mais intensamente. Pelo jejum, praticamos a penitência, pois não é só de pão que vive o homem, mas também da Palavra de Deus (Mt 4, 4). E a Palavra Sagrada recomenda muito o jejum, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Jesus o realizou por quarenta dias no deserto antes de enfrentar o demônio e começar a vida pública; e o recomendou em várias ocasiões. “Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível do que os tesouros de ouro escondidos” (Tb 12,8). É um meio de praticar o desapego dos prazeres do mundo que podem impedi-lo de amar e servir a Deus acima de todas as coisas. Praticar corretamente o jejum leva à reflexão da fragilidade da vida neste mundo, e ajuda a ordenar a existência para Deus. O jejum corporal dá à vida humana um significado sagrado; é como focalizar a sua atenção

A Igreja Católica Apostólica Romana coloca como preceito o jejum na Sexta-feira da Paixão de Nosso Senhor e na Quarta-feira de Cinzas. Mas o jejum que agrada a Deus vai muito além das práticas de mortificação ou abstinência. O verdadeiro jejum deve partir do coração, provocar libertação e mudança de vida, ou seja, de comportamento. Senão, de nada vale, já que a maior prova da vida de oração e jejum é a mudança do comportamento de quem o pratica. De que adianta rezar muito e fazer exercícios espirituais se o comportamento não muda? É preciso entender que a renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio, um caminho para conquistas mais profundas. Por isso, essa prática não pode ser triste, enfadonha, cansativa, mas sim uma atividade feliz e libertadora. O cristão deve abster-se dos desejos de consumo exagerados, dos estímulos viciantes, da satisfação desregrada dos sentidos. Jejuar significa abster-se. O ser humano é ele mesmo quando consegue dizer não a si mesmo. Na Bíblia, Deus diz que é muito mais necessário “rasgar o coração” do que as vestes (cf. Joel 2, 12-13). Isto quer dizer que, mais importante do que jejuar e cobrir-se de cinzas, melhor do que ficar sem comer isso ou aquilo, é converter verdadeiramente o coração, vivendo a Vontade de Deus de forma concreta e prática, em atitudes e gestos. Seguindo este princípio, repassar para os menos favorecidos tudo aquilo que não é consumido, ou o que é excedente, é uma ótima forma de praticar a caridade na Quaresma. Dom Alberto Taveira (Arcebispo de Belém do Pará) produziu um pequeno roteiro para viver bem os exercícios quaresmais1, de forma simples e bem didática. Segundo o Arcebispo, além do jejum/penitência, durante os quarenta dias da Quaresma, os fiéis católicos devem realizar: l- A leitura diária da Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, ao menos por 15 minutos ou um parágrafo por dia, seguida de oração pes-

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soal, dedicada ao Espírito Santo - Ler, meditar e rezar a Palavra de Deus durante a Quaresma é uma obra de oração muito proveitosa. Para cada semana é indicada a leitura do Evangelho do próximo domingo; assim também servirá como preparação para uma participação mais proveitosa na Santa Missa. 2- A partilha - Durante a Quaresma, converse com outras pessoas, testemunhe o que você está rezando e vivendo. Compartilhe com o seu vizinho, seu colega de trabalho ou escola/faculdade. Fale com o seu próximo, onde quer que esteja, sobre o quanto é bom ser católico, sobre o quanto você está aprendendo e crescendo com a prática dos exercícios quaresmais nesse tempo santo! Essa é uma das melhores maneiras de evangelizar: compartilhar as bênçãos que Deus lhe concede. 3- O aperfeiçoamento da formação pessoal - além da leitura da Bíblia, seria muito interessante se você pudesse também aproveitar estas semanas da Quaresma para conhecer melhor a Igreja da qual você é parte. Procure ler um Documento da Igreja, que pode ajudar a entender a história e a doutrina da grande comunidade católica. Procure uma livraria católica, pergunte pelas encíclicas dos Papas, pelas cartas apostólicas... Estude, cresça em conhecimento, isso só vai lhe fazer bem! E partilhe esses conhecimentos também! 4- A caridade - Acolha em sua vida o eterno convite de Jesus Cristo: viva a caridade de maneira concreta no seu dia a dia. Saia da teoria para a prática! Procure sua paróquia e informe-se a respeito das pastorais, grupos de apoio e ajuda aos menos favorecidos. Você vai se surpreender ao saber quantas oportunidades de fazer o bem estão à sua espera, ali na esquina mesmo, de acordo com as suas possibilidades. Deus não nos trouxe a este mundo a passeio: a partir do instante em que você crê em Jesus, assume também a missão sagrada de ser um(a) imitador(a) de Cristo neste mundo, de ser alívio para o que sofre, de ser exemplo para os que andam perdidos. 5- A oração - participe das orações da Via-Sacra em sua paróquia, e, na medida do possível, também da reza do Terço, do Rosário e outras. Você verá que rezar em comunidade é ainda mais gratificante! Deus nos fez irmãos pelo Amor de Cristo; devemos ser unidos: viva esta fraternidade com Amor e alegria no tempo quaresmal!

DOUTRINA SOCIAL

DA IGREJA

“‘Aprendei a fazer o bem, procurai a Justiça, chamai à

razão o espoliador, fazei justiça ao órfão, tomai a defesa da viúva. Vinde e discutamos’, diz o Senhor.”
(Isaias 1,17-18)

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Catolicismo se apresenta, diferentemente, das religiões protestantes (conhecidas como ‘evangélicas’), pois se baseia também na Tradição e no Magistério da Igreja, além da imprescindível Palavra de Deus - a Bíblia Sagrada. A Tradição e o Magistério, obviamente, foram desconsiderados pelas novas “igrejas” por se referirem à origem que querem negar: o Catolicismo. Nesse contexto, os católicos, para sua formação integral, precisam conhecer o Catecismo da Igreja Católica e a Doutrina Social da Igreja, documentos elaborados em consonância com o Evangelho. Na cabeça de muitos, pode surgir o seguinte pensamento: “Eu rezo a Ave Maria, o Pai Nosso, o Credo, a Salve Rainha, a Invocação do Espírito Santo, o Rosário... sei todos de cor, porque meus pais e catequistas me ensinaram. Canto no grupo de oração, louvando, bendizendo e dando glórias ao Senhor, por que aprendi num seminário que muito me ensinou. No entanto, tenho dificuldade de conhecer, por exemplo, a Doutrina Social da Igreja e, ao que me parece, esse assunto está distante das coisas espirituais!”... Você gostaria de ser um católico completo? Para isso é importante conhecer, entre outras coisas, a Doutrina Social da Igreja (DSI). A partir desta edição abordaremos, numa linguagem simples, os principais pontos da DSI, visando uma introdução ao pensamento da Igreja sobre as questões sociais. Nosso louvor, acompanhado da vivência e da atuação cristã no mundo, certamente constituirão um canal de bênçãos do Senhor. Não se pode viver alheio ao que ocorre na sociedade da qual fazemos parte e na qual temos a obrigação de ser sal, luz e fermento, como diz o Senhor nos Evangelhos. Vamos dar um basta à alienação.
Irineu Uebara é advogado, ministro extraordinário da Eucaristia e da Palavra e estudante de Teologia (PUC-SP)

Oremos:
Senhor, Pai Santo da Misericórdia, guia-me nesta Quaresma a dar mais alguns passos na fé, em tua direção. Quero viver este tempo com amor, devoção e alegria; quero estar mais atento(a) a cumprir tua Vontade. Amém.

* O jejum consiste em deixar de fazer uma das principais refeições do dia. - A abstinência consiste em não comer carne.

* A Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são dias de

abstinência e jejum. Com esses sacrifícios, todo o seu ser (corpo e alma) reconhece a necessidade de praticar obras para reparar os seus pecados e para o bem da Igreja.

* O jejum e a abstinência podem ser trocados por outro sacri-

fício, dependendo do que ditem as Conferências Episcopais de cada país, pois elas têm autoridade para determinar as diversas formas de penitência cristã.
1 CORRÊA, Alberto Taveira. Retiro Popular Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo, São Paulo: Canção Nova, 2012.

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A ARCA DA ANTIGA ALIANÇA E AS HERESIAS MODERNAS

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E quando vos multiplicardes e frutificardes na Terra, naqueles dias, diz o SENHOR, nunca mais se dirá: ‘A Arca da Aliança do SENHOR’, nem ela lhes virá mais ao coração; nem dela se lembrarão, nem a visitarão; nem se fará outra. Naquele tempo chamarão a Jerusalém Trono do SENHOR, e todas as nações se ajuntarão a ela, em nome do SENHOR, em Jerusalém; e nunca mais andarão segundo o propósito do seu coração maligno.” (Jeremias 3, 14-17) Não somos judeus, somos cristãos resgatados pelo Sangue do Cristo Jesus, o Cordeiro de Deus, que nos purifica e resgata dos nossos pecados! Temos visto o Evangelho sendo deturpado, esculhambado e distorcido por falsos profetas que se chamam a si mesmos de “pastores” e até de “apóstolos”! Esses verdadeiros lobos em pele de cordeiro são incansáveis na criação de todo tipo de heresia e falso misticismo, que vendem como “cristianismo bíblico”. São cegos, e pior: guiam outros cegos! Márcia Gizela, administradora de um blog “evangélico” denominado “Não Abro Mão da Graça!”, desabafa: “Vocês dizem para os católicos: ‘Vocês são idólatras’! (Mas) E vocês, que se enchem de (e vendem) relíquias da Terra Santa? Que se ajoelham diante de uma réplica da Arca? (...) Vocês que enlouquecem quando se fala dos seus pastores, criticando suas práticas heréticas? Vocês que correm atrás de milagreiros e profeteiros? O QUE VOCÊS SÃO?”... Dirigimos nosso alerta a todos os católicos: já passa da hora de desmistificar a ideia que temos aqui no Brasil, de que “o ‘evangélico’ entende a Bíblia, e o católico não”. O que o “evangélico” conhece bem é a interpretação que o seu “pastor” faz da Bíblia: normalmente é uma interpretação completamente literal e equivocada. Talvez você, católico, não tenha o hábito de memorizar versículos bíblicos, mas saiba que você pode, naturalmente, praticar a Palavra de Deus em sua vida de modo muito mais coerente e sensato do que muitos que o fazem, por ser conduzido diretamente pela Igreja que Nosso Senhor Jesus Cristo deixou neste mundo. A Arca da Antiga Aliança levava os Livros da Lei de Moisés, gravados em tábuas de pedra. A nova Arca nos trouxe o Verbo de Deus, isto é, a Palavra de Deus

em forma de homem. E a Palavra caminhou entre nós e deixou-nos o Caminho para o Pai. O próprio Senhor, no Evangelho segundo S. Lucas (11, 27-28) afirma que todo aquele que acolher as suas palavras, colocando-as em prática, torna-se também Arca da Nova Aliança, trazendo inscrita no coração a Palavra de Deus. Maria de Nazaré recebeu, gerou e abrigou em seu útero a Palavra Divina Encarnada, e também acolheu em seu coração o Evangelho que seu Filho Jesus ensinou, tornando-se, ela também, discípula dele. Portanto, é Maria Santíssima a Arca da Nova e Eterna Aliança entre Deus e a humanidade, até o fim dos tempos. O simbolismo da Arca da Aliança aparece no Livro do Apocalipse (11, 19; 12, 1. 3-6.10). Na visão de S. João, a Arca da Aliança dá lugar a uma mulher grávida que reina sobre os elementos e, apesar disso, sua imagem humana é frágil: depende da proteção divina contra Isto é uma prática cristã?

nova “moda” das novas comunidades ditas “evangélicas” é a produção de réplicas da Arca da antiga Aliança, mencionada e descrita no Antigo Testamento da Bíblia. Tais arcas são expostas durante os cultos e literalmente adoradas pelos pastores e pela assembleia reunida. Espanta ver essas mesmas pessoas, que tanto caluniam os católicos, chamando-nos de “idólatras” por conta do uso das imagens na igreja, agir dessa maneira! Parece que, na mentalidade de tais “pastores”, a reprodução de imagens dos personagens do Novo Testamento, conforme a Tradição cristã legítima, é proibida e pecaminosa; mas a reprodução de imagens dos símbolos do Antigo Testamento é permitida e abençoada! Suprema contradição, já que a partir de Jesus Cristo foram renovadas todas as coisas, e estabelecida a Nova e Eterna Aliança entre Deus e os homens: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Cor 5, 17). Curioso: os assim denominados “evangélicos”, afirmam entender muito bem a Bíblia Sagrada. Então, se as Escrituras proclamam a renovação de todas as coisas, por quê renegar os símbolos da Nova e Eterna Aliança, trazida por Jesus, e usar símbolos da Antiga Aliança, isto é, das coisas que já passaram e não tem mais sentido sagrado, como é o caso da Arca? Mais: na Bíblia Sagrada, Deus mesmo decreta o fim do culto à antiga Arca. Vejamos (atenção aos destaques): “Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o SENHOR; pois eu vos desposei; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião. (...)

um inimigo poderoso. O Sinal da Mulher substitui a antiga Arca da Aliança. A Antiga Aliança dá lugar à Nova Aliança, celebrada pelo Filho nascido da mulher. A Igreja, significada pela mulher, substitui o antigo Israel. A missão da Igreja é ser sinal da salvação de Deus no mundo. Mesmo com todas as injustiças, calúnias e perseguições, a Igreja é a portadora do Evangelho de Jesus Cristo, a Palavra viva do Pai. Ela conduz ao Caminho da nova Aliança para a salvação do mundo.
Inspirado na homilia do Pe. Silvio José Dias, da Par. Nossa Senhora D’Ajuda, Caçapava - SP

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A GLORIOSA HISTÓRIA DA IGREJA - IV
Continuação da série sobre a História da Igreja, (parte anterior: 20ª edição de Voz da Igreja)

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aulo (Schaoul), era natural de Tarso da Cilícia, filho da tribo de Benjamim, a mesma do Rei David. Filho de ricos comerciantes, cidadão romano, ligado à seita dos fariseus, aluno do célebre Rabino Gamaliel, zeloso defensor da Torá, a lei judaica. No ano 35, Saulo tinha cerca de 30 anos. Era um grande inimigo da Igreja primitiva; ele chefiava um grupo até Damasco, autorizado pelos sumos sacerdotes a eliminar um grupo de cristãos que havia por lá, e levar seus chefes algemados até Jerusalém. Depois de oito dias atravessando a estrada que ligava Jerusalém a Damasco, com o coração cheio de fúria, inflamado pelo fanatismo religioso, Saulo estava cansado, mas prosseguia, guiado por seu gênio forte. Subitamente, uma luz muito forte o envolveu e o fez cair por terra. Enquanto tentava compreender o que estava acontecendo, ouviu uma voz que dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Assustado, perguntou: “Quem és?” E a voz lhe respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. A história é bem conhecida. Saulo recebeu instruções diretamente do Senhor Ressuscitado, e percebeu o quanto estivera enganado até então. Saulo, o perseguidor, converteu-se no grande Apóstolo Paulo, pilar da Igreja e arauto do cristianismo. Claro que o seu caso é único, em muitos aspectos: trata-se de alguém que não chegou a conhecer Jesus pessoalmente, que não fazia parte do grupo dos doze Apóstolos de Cristo, mas que se lançou na difícil missão de evangelizar os povos pagãos. Parece ter sido o primeiro a perceber que não era necessário a ninguém passar pelos costumes e tradições do judaísmo para se tornar discípulo de Jesus. Embora o Apóstolo Pedro já tivesse aberto a porta da Igreja para os gentios, isto é, para os não judeus, Paulo merece sem dúvida o título de “Apóstolo das Gentes”. No ano 44, Paulo estava na cidade de Antioquia, com Barnabé. Foi lá que, pela primeira vez, os discípulos de Jesus receberam o nome de “cristãos”: até então eram chamados “seguidores do Caminho”. Ao longo de um ano, Paulo e Barnabé trabalharam juntos. Na primavera do ano 45, tomaram um barco para a ilha de Chipre e depois seguiram para a Panfília, percorrendo depois a Licaônia. Paulo entrava nas sinagogas, proclamava o Evangelho ao povo, procurando demonstrar que Jesus era o Salvador, o Messias esperado desde os tempos antigos, conforme anunciado pelos Profetas e confirmado nas Escrituras. Ia também até os pagãos, às reuniões dos povos que acreditavam em muitos deuses e deusas, em necromancia e magia, anunciar-lhes a Boa-Nova de Jesus Cristo. Podemos imaginar o quanto foi difícil para Paulo, como ele encontrou difíceis obstáculos no seu ministério, principalmente a oposição de seus irmãos judeus. Quando voltou a Antioquia, entrou em confronto com os cristãos “judaizantes”, os que queriam impor o rito da circuncisão como exigência para quem quisesse seguir Jesus. Essa controvérsia foi levada até Jerusalém, diante de Pedro, o primeiro Papa da Igreja e comandante dos Apóstolos, embora nessa época ele ainda não fosse chamado “Papa”. Encontraram-se com Tiago e João, que aprovaram o procedimento de Paulo, de não exigir mais a circuncisão para quem quisesse seguir Jesus Cristo. Chegaram à conclusão de que, para uma pessoa se salvar, o que importa não é a circuncisão, e sim a fé em Cristo, que opera pelo Amor, espiritualmente. Este foi o primeiro concílio da Igreja, chamado Concílio de Jerusalém, e ocorreu

São Paulo Apóstolo é tradicionalmente representado com o Livro e a Espada, que simbolizam a Palavra de Deus e o “Bom Combate” espiritual.

por volta do ano 49. Foi a partir daí que o cristianismo assumiu seu caminho próprio, independente do judaísmo. No ano 49, Paulo sai de Antioquia para uma viagem de três anos. Deixa Barnabé e toma Silas como companheiro. Na cidade de Listra, Paulo e Silas encontram Timóteo e seguem atravessando a Frígia e a Galácia, alcançando a Macedônia. Em Filipos são presos. Em Tessalônica, assim como acontecera com o Cristo, eles são acusados pelos judeus de inimigos do imperador, porque diziam que Jesus era Rei. Em Bereia, a sinagoga escutou atentamente a pregação de Paulo, comparando suas palavras com o que eles estudavam nas Escrituras (Antigo Testamento). Ao entrar em Atenas, Paulo impressionou-se com a grande quantidade de ídolos e monumentos aos deuses. Debateu com os atenienses na Ágora (praça pública da Grécia Antiga, onde aconteciam reuniões para debates políticos, filosóficos, religiosos, etc.), usando da linguagem da filosofia para lhes falar de Jesus. Quando tratou da Cruz e da Ressurreição, no entanto, foi ridicularizado. Crer que um judeu crucificado saiu do túmulo era demais para a sofisticação intelectual dos gregos antigos.

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...Continuação de “Gloriosa História da Igreja”

Logo a seguir, Paulo desceu para Corinto, cidade portuária na qual existiam dois escravos para cada homem livre(!). Lá, onde havia muita gente vinda do Oriente, o acolhimento do Evangelho foi maior do que em Atenas. Como fabricante de tendas, Paulo ficou nessa cidade por dezoito meses. Nesse período, enviou duas cartas aos Tessalonicenses. Após uma breve escala em Éfeso, volta para a Síria pelo mar. Em 53, realiza sua terceira viagem missionária, a mais longa. Escolhe Éfeso como base (entre os anos de 54 e 57), de onde envia a epístola (carta) aos Gálatas e a primeira epístola aos Coríntios: em Corinto estavam surgindo divisões que enfraqueciam a comunidade. Então, um fabricante de estatuetas de Artemis provoca um grande tumulto em Éfeso contra os cristãos, o que obriga Paulo a partir. O Apóstolo segue então para a Macedônia, onde escreve a segunda epístola aos Coríntios. Fica em Corinto novamente e de lá redige a carta aos Romanos, pedindo ajuda para efetuar uma viagem evangelizadora até a Espanha. Antes, porém, era preciso ir a Jerusalém levar a coleta feita no Oriente em favor da Igreja-Mãe. Saindo de Filipos, passa por Trôade e depois chega a Mileto. Aos efésios, que foram encontrar-se com ele, confidencia que não tinha esperança de revê-los. Em Cesareia tentam detê-lo. No ano de 58, em Pentecostes, encontra-se na Cidade Santa. Quase linchado, é preso. Antes de ser flagelado, apela para sua condição de cidadão romano, e assim consegue que o enviem à Cesareia, onde mora o procurador Félix. Seu processo se arrasta por dois anos. O sucessor de Félix, Festo, cansado de ouvir os apelos de Paulo a César, envia-o para Roma. Quando finalmente chega à capital do Império, passa dois anos em liberdade vigiada, correspondendo-se com as comunidades de Colossas, Éfeso e Filipos. É neste ponto que se encerram as narrativas dos Atos dos Apóstolos. As cartas que Paulo escreveu às primeiras comunidades da Igreja, hoje, fazem parte da Bíblia Cristã, normalmente denominadas epístolas. As epístolas a Tito e a Timóteo são de outra ocasião em que Paulo esteve preso por amor ao Evangelho, na época da perseguição de Nero. Continua...

COMPÊNDIO DO CATECISMO
II Seção - Capítulo 2º

«JESUS CRISTO FOI CONCEBIDO PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO E NASCEU DA VIRGEM MARIA»

101. Em que sentido toda a vida de Cristo é Mistério?
Toda a vida de Cristo é acontecimento da Revelação: o que é visível na vida terrena de Jesus conduz ao seu Mistério invisível, sobretudo ao Mistério da sua filiação divina: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 19). Além disso, embora a salvação provenha plenamente da cruz e da ressurreição, toda a vida de Cristo é Mistério de salvação, porque tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha como objetivo salvar o homem caído e restabelecê-lo na sua vocação de filho de Deus.

102. Quais foram as preparações para os Mistérios de Jesus?
Antes de mais, houve uma longa preparação de muitos séculos, que nós revivemos na Celebração Litúrgica do Tempo do Advento. Para além da obscura expectativa que colocou no coração dos pagãos, Deus preparou a vinda do seu Filho através da Antiga Aliança, até João Batista, que é o último e o maior dos profetas.
Brasão de São Paulo Apóstolo

103. Que ensina o Evangelho sobre os Mistérios do nascimento e da infância de Jesus?
No Natal, a Glória do Céu manifesta-se na debilidade de um menino; a circuncisão de Jesus é sinal da pertença ao povo hebraico e prefiguração do nosso Batismo; a Epifania é a manifestação do Rei-Messias de Israel a todas as gentes; na sua apresentação no Templo, em Simeão e Ana está toda a esperança de Israel que vem ao encontro do seu Salvador; a fuga para o Egito e a matança dos inocentes anunciam que toda a vida de Cristo estará sob o sinal da perseguição; o seu regresso do Egito recorda o Êxodo, e apresenta Jesus como o novo Moisés: Ele é o verdadeiro e definitivo Libertador.

Fontes e bibliografia: Livro dos Atos dos Apóstolos (Bíblia Sagrada); Website Bíblia Católica (9/2/2012), em: http://bibliacatolica.com.br/historia_igreja/4.php#ixzz1kxrG6Dea; MONDONI, Danilo. História da Igreja, 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2006; LENZENWEGER, Josef et. al. História da Igreja Católica, 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2006.

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“A Virgem dos Lírios” - William Adolphe Bouguereau (1899)

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