EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA E FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA ESPACIAL CIDADÃ NO ENSINO FUNDAMENTAL: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS Valdir Nogueira /Universidade Federal

do Paraná valdirnog@unerj.br Sônia M. M. Carneiro /Universidade Federal do Paraná sonmarc@brturbo. com. br O estudo em questão tem como objetivo trazer uma contribuição ao avanço da educação geográfica contemporânea. Com base em pesquisa de doutorado, quer-se socializar, neste trabalho: reflexões teóricas sobre as finalidades hodiernas de ensino e aprendizagem da Geografia escolar, em termos da formação da consciência espacialcidadã e crítico-participativa dos sujeitos em escolarização; bem como apresentar resultados da investigação de campo, em torno da construção do saber geográfico dos educandos do ensino fundamental, em vista dessa formação. O referencial teórico parte dos seguintes pressupostos: a aprendizagem de Geografia, na educação básica, é um processo de construção da espacialidade, como dinâmica de organização e mudanças, pela ação dos cidadãos em seus espaços de vida; as contribuições da Geografia escolar à formação de uma consciência espacial-cidadã estão relacionadas ao significado políticocultural do trabalho pedagógico e comprometidas com a realidade sócio-espacial, desde suas dimensões locais às mais globais; entender a educação geográfica como prática sócio-cultural sustentada em uma concepção dinâmico-relacional da realidade e, porquanto, o próprio processo pedagógico-didático como práxis transformadora. Nesse contexto de pressupostos, a escola é o lugar de desenvolvimento do potencial crítico e criativo dos sujeitosalunos, na medida em que lhes possibilite exercitar a dúvida, a indagação, o questionamento constante na compreensão da realidade, para melhores condições de vida no planeta; o aprendizado escolar é vital, pois, para a leitura consciente do mundo em que se vive, local e globalmente. Paulo Freire, já nos anos de 2 1970 (2005, p. 33), focalizava a importância de uma consciência transformadora da realidade: O desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a realidade se faz cada vez mais urgente. Na medida em que os homens, dentro de sua sociedade, vão respondendo aos desafios do mundo, vão temporalizando os espaços geográficos e vão fazendo história pela sua própria atividade criadora.

Nesse sentido, a escola é lugar-força, espaço-tempo em que os sujeitos podem ser projeto e projetar a vida, a sociedade, o mundo. Na escola-projeto há um projeto de

sociedade e, este, é parte do projeto da Geografia escolar: está em questão um projetomundo, de sociedade, de cidadania, pois a Geografia pressupõe um projeto do/sobre o homem (...) (DAMIANI, 2001, p. 54), incluindo não só um pensamento, mas um pensamento-ação; e, nesse sentido, a Geografia tem a função de desvendar os significados sócio-espaciais, em vista da formação da consciência espacial-cidadã. Para efeito de explicitação, o sentido do termo consciência, neste estudo, relaciona-se à construção dialeticamente estruturada da sociedade (MARX; ENGELS, 1999), emergindo entre os homens no entrelaçamento das relações de trabalho e de produção, de tensões e conflitos, enfim, das situações e modos de vida na realidade concreta. Não é uma consciência sem contexto, sem chão; mas nasce, constrói-se, forma-se a partir do modo de vida do homem. Na sua condição existencial de ser consciente, o homem é sujeito histórico, que vive o processo de construção da sua identidade, do seu sentir, pensar, saber e agir. Nesse processo de formação da consciência, ou de um homem que pensa sua concretude no contexto da realidade histórico-sócio-cultural do mundo, o sentido de cidadania participativa, democrática, atuante, unifica os processos da vida real e incorpora experiências, sentidos, significados e representações inclusive, reflexos ideológicos e ecos desse processo de vida, na vida (FREIRE, 2005). Esta visão é crucial, dado o risco da escola prestar-se sociopoliticamente a condicionar deformações da consciência mentalidades alienadas, preconceituosas, extremistas e exclusivistas na linha dos interesses de grupos e classes dominantes. Por isso, consciência não é inculcação de determinada representação da sociedade, presente em discursos e práticas sociais manipuladoras mas posição reflexivo-problematizadora das representações socioculturais, em toda sua extensão. Assim, a consciência espacial-cidadã é processo de formação ativa para um cidadão ativo, não o resultado de processo natural, evolutivo; é processo desencadeado pela vida, por condições e modos de viver, por práticas sociais engajadas e eticamente referenciadas. 3 No contexto da problematização posta, a educação geográfica apoiará os sujeitos-alunos a formarem uma consciência da espacialidade dos fenômenos vivenciados como parte da sua história sócio-cultural: consciência da possibilidade de intervenção no mundo, do agenciamento da condição de sujeitos nesse mundo. Assim, os atos de ler o mundo, indagar-se sobre ele, questioná-lo, explicá-lo, implicam ao educador entender a educação geográfica como processo que entende o sujeito-aluno enquanto agenciador, alguém que, ao ler o mundo, projeta um mundo; e a Geografia escolar assume capital relevância na formação da consciência espacial-cidadã, objetivando a: Aumentar o conhecimento e a compreensão dos espaços nos contextos locais, regionais, nacionais, internacionais e mundiais e, em particular: conhecimento do espaço territorial; compreensão dos traços característicos que dão a um lugar a sua identidade; compreensão das semelhanças e diferenças entre os

lugares; compreensão das relações entre diferentes temas e problemas de localizações particulares; compreensão dos domínios que caracterizam o meio físico e a maneira como os lugares foram sendo organizados socialmente; compreensão da utilização e do mau uso dos recursos naturais (CASTELLAR, 2005, p. 211). Entre tantas temáticas sócio-pedagógicas, em seus contextos locais e globais, a cidadania crítico-participativa é de urgência nuclear, pois releva a intervenção dos sujeitos-cidadãos no contexto global a partir de ações locais na linha da solidariedade e convivência, do respeito entre povos e diferentes etnias; questionando terrorismos e a degradação socioambiental, focando sociedade e natureza em suas múltiplas interdependências. Para tal cidadania constituir-se socialmente, mais que necessidade formativa na escola, deverá ser uma experiência sócio-individual vivenciada na e com a escola. A década 1980-90 trouxe notáveis mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais, ao mundo e ao Brasil, determinadas pela ideologia neoliberal e voltadas à globalização econômica, por sua vez, relacionada ao desenvolvimento científicotecnológico influenciando a forma de se pensar e organizar a realidade global e local (SANTOS, 2003). Esse foco implica uma leitura do mundo e das ações do homem sob o ponto de vista sistêmico, considerando-se as relações entre os sistemas econômicoprodutivos e as estruturas sociais que se re-organizam em dinâmica constante, criando e recriando novas formas geográficas, de acordo com cada dinâmica espaço-temporal. Santos (2003, p. 18-21), destaca três aspectos no entendimento da mundialização: o mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade. No primeiro, o mito do encurtamento de distâncias, a partir da fábula da aldeia global , faz crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas, encurtando tempo e espaço, pois é como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão (ibid., p. 19); nessa lógica, Santos ressalta que um mercado avassalador dito global é a-4 presentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas (id.). Fome, pobreza, miséria, falta de recursos na educação, baixos salários, decadência material e física dos espaços de aula, entre outros aspectos, estão no fosso que aumenta com esse processo. Nas palavras de Santos (id.), o desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes . A perversidade do modelo sócio-econômico isso, [...] o mundo se torna menos unido, tornando mais o segundo aspecto entra em cena: com

. Aquilo que torna o lugar específico é um objeto material ou um corpo. o concreto. não é estático.] pensar na construção de um outro mundo. 2005). das subjetividades. o local e o global. Esse espaço-movimento é complexo. Uma análise simples mostra que um lugar é também um grupo de objetos materiais [. o espaço passa a ser vital. no século XXI. Nessa linha. é visto e entendido como espaço do existir com. das singularidades. 2005). 20). Ainda que esta realidade pareça insuperável. a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta (idem).] é. e de uma história heterogênea. Diante dessas questões. contextualmente localizado e complexamente percebido em sua fluidez. nele se reconhecendo o singular. o individual. Cada lugar tem uma identidade que permite ao sujeito apropriá-lo como o seu espaço habitado. construtor de uma história singular sua história. resultando das forças que nele atuam e o caracterizam como construído comportando outras possibilidades de se olhá-lo. p.. desestrutura.. vem a ser entendido como casa-morada do sujeito situado sente. o espaço geográfico é espaço construído social. CAMARGO. É o lugar do pertencimento. 152).. No sentido do pensamento complexo. uma porção da face da terra identificada por um nome. . É o lugar da relação do sujeito consigo mesmo. a unicidade da técnica.distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal.] . das relações de trabalho. por ações e atitudes. mas dinâmico (SUERTEGARAY. a partir do modo de viver dos sujeitos que organizam e pensam os seus espaços-lugares. lugar que abarca o certo e o incerto. Santos destaca a idéia de mundo como possibilidade o terceiro aspecto no sentido de [. da possibilidade. a ordem e a desordem... Para tanto. Não é apenas espaço da existência material.] bases materiais do período atual. a sócio-história (VESENTINI. cultural e historicamente. 2004.). confronta. são entre outras.. O espaço geográfico. o culto ao consumo é estimulado (id. da reinvenção. exigem novas posições do professor e do aluno ante o conhecimento e os processos de ensinar e aprender. 5 de vivenciar sua subjetivação e identificação... onde pode criar formas de relacionar-se. p. de pertencimento. percebê-lo e de nele intervir. salienta que as [. o lugar [. da experimentação. Enquanto isso. mediante uma globalização mais humana (ibid. Historicamente situado. cunhado por Morin (2000) e pesquisadores que tratam essa concepção na Geografia (SILVA. antes de tudo. adquire significado de espaço vivido. percebe. provoca. é aquele que vê. É fundamental que as práticas de ensino e aprendizagem possibilitem ao sujeito-aluno apreender que é sujeito histórico. afeta o lugar onde vive. GALEANO. 2004). reinventado. Segundo Santos (2004. o espaço passa a ser entendido como tessitura. o ensino e a aprendizagem de Geografia. tem mobilidade pelos sujeitos que nele vivem e interferem.

em especial na educação básica. da inconstância. 1999). estão submetidas a um pensamento redutor que traz graves conseqüências à humanidade. da estética e da ética. social. em sua cidade . Para Cavalcanti (2002. O espaço torna-se objeto de estudo não só pela forma ou pelas coisas que nele são produzidas. no sentido do progresso contínuo. 1999). 19).criteriosa e prudente .espaço-lugar da convivência. mas um espaço-projeto. econômico. O espaço geográfico não é apenas uma categoria teórica que serve para pensar e analisar cientificamente a realidade. como as práticas sociais. então. espaço do desejo. Forrester (1997. A educação geográfica. o que importa é o lucro e a competição acirrada.194). com seqüelas irredutíveis. segundo a autora. Nesse contexto. p. necessário ou natural. já no final da década de 1970. Mais que trabalhar conhecimentos conceituais e procedimentais nas diferentes modalidades de ensino. que implica uma intervenção ética . da criatividade. Jonas (1995). a escola e suas diferentes práticas educativas são fundamentais. Nessa conexão. da vontade.. que se busca. Ainda conforme a autora (2003. ele é essa categoria justamente porque é algo vivido por nós e resultante de nossas ações . é fundamental que se trabalhe com a formação de atitudes (ZABALA. cultural e natural (CARNEIRO. Tempo e espaço são utilitários do modo de ser e viver do economicismo. e abertura à exigência de cuidado como dever para com o ser do outro.do sujeito situado no universo político. problematizando e levantando questões . toma outras formas: faz-se espaço singular com o sujeito singular.] tem o compromisso de efetivar as reais possibilidades de ela contribuir para a formação dos cidadãos voltados para uma vida participativa em seu espaço. Não é um espaço-receptáculo (SANTOS. da arte. [. dos sonhos. 2006). nessa visão de mundo. em perspectiva de compromisso ao futuro dos homens. O espaço geográfico.. cabendo sanar e melhorar as condições de vida. mas pelos modos de vida que o produzem pelos projetos dos sujeitos no espaço. propunha o princípio da responsabilidade. 6 parece não ter nada de irreversível. Por meio delas. p. 2001) também chama a atenção para a ditadura da economia neoliberal. Um projeto de ensino de Geografia. uma pseudo-economia que. como base a uma ética para a civilização tecnológica futuro o imperativo da sobrevivência da humanidade: recusa à discutindo em perspectiva de inevitabilidade histórica dos dinamismos socioeconômico e tecnológico. do sincrônico e do diacrônico. A lógica das formas e condições de vida. é possível refletir sobre as mudanças contextuais e suas implicações no modo de ser e viver das pessoas. é comprometida com a formação da cidadania responsável com a sustentabilidade do mundo.

na troca compartilhada e comprometida de saberes. cada pessoa. no processo de formação da consciência cidadã autônoma diferente da alienada. sim. da competitividade. p. Na contramão dessa lógica. para induzir a novas formas de alienação [. ler a realidade em sua complexidade como prática de des-alienação. ideologicamente por mecanismos de produção. nas aulas de Geografia. do consumismo e da lógica do cidadão sem espaço (SANTOS. os modos de ser e viver dos sujeitos. é dar condições para que os escolares.. de posição crítica. num mundo dinâmico e complexo. alimentadores de padrões de consumo alienantes e que neutralizam os sujeitos. mas também cada coisa. 1998) cabe acentuar que se busca.] : um . desvelando por meio de uma atuação cidadã as estruturas alienantes da sociedade. os conceitos e temas programáticos mas sem questionar condições e modos de vida. excluindo e marginalizando povos e nações. Estas dinâmicas são influenciadas. nele. daqueles que lêem o mundo e. interpreta. pela indagação dialética. possam viver e fazer a própria história de sujeitos em formação. sem relações e produtora. por igual. de uma consciência também desconexa e falsa. em vista da formação da consciência espacial-cidadã dos sujeitos. permitindo entender como cada lugar. registrar que. formadora da cidadania crítico-participativa. com a necessária mediação docente pois a construção de um saber-mundo e fazer-mundo dá-se na dialogia. em contato 7 com os objetos da Geografia. mecanicista.. Nesse contexto. Cabe destacar a contribuição de Santos (2003. cada relação dependem do mundo . Como foca Freire (2005. as dinâmicas que organizam e estruturam espaços do viver. mas contraditoriamente também pela força de decisões sócio-individuais de superação dos condicionamentos de acomodação e passividade. ultrapassar a Geografia Tradicional. interpenetram e completam as noções de mundo e de lugar. Assim. nos sujeitos-alunos. limitada à divisão dos lugares em escalas desconexas. de uma pseudoconsciência de mundo. de fato. situam-se as práticas de ensino e aprendizagem de Geografia. a realidade do cotidiano em que vivem. Cabe. sob a hegemonia do economicismo. por professores. alunos e outros sujeitos. estuda o espaço. 169): É a partir da visão sistêmica que se encontram. p. Nesse movimento sobressai-se a importância do entendimento contextual das relações escalares local-globais e das estruturas que sustentam. Urge. muitas vezes se lê.9): Não se pode falar de conscientizar como se este fato fosse simplesmente descarregar sobre os demais o peso de um saber descomprometido. emancipadora.em relação à lógica economicista mundial. de saber-pensar a realidade espácio-temporal em suas múltiplas relações e determinações. portanto. está a educação como prática libertadora . Contribuir à formação da consciência-espacial-cidadã.

Para Lacoste. mas a reproduzilo alienadamente. estruturar a formação de uma consciência espacial-cidadã.] as práticas espaciais têm um peso sempre maior na sociedade e na vida de cada um. Estudar e formar um pensamento espacial. das tomadas de decisão. isto é... Frente a tal necessidade. 192). um saber-pensar o espaço (LACOSTE. ser e estar situado nos contextos sociais. depende de um instrumental conceitual. na chamada sociedade do conhecimento. em função de diversas práticas. a evolução. Se hoje. onde o sujeito é possibilidade. como ato histórico de viver. pois que os fenômenos relacionais (a curta e a longa distância) ocupam um lugar cada vez maior (ibid. nessa sociedade. 2006. sustenta: Será preciso que esse saber pensar o espaço como o saber ler cartas se difunda largamente. conhecendo. para fazer-se democrático e agir democraticamente. pois. quaisquer que sejam sua configuração e sua escala de maneira a dispor de um instrumental de ação e reflexão (LACOSTE. é condição sine qua para a vida em sociedade. muito mais é condição vital. p. na escola. cedo ou tarde. a nível coletivo. em razão das exigências da prática social. como um saber-pensar o espaço. Para Lacoste. p. é um mal a ser desvelado e vencido no cotidiano das práticas escolares. de um saber pensar o espaço. conhecer. Portanto. é devir . o processo de espacialidade diferencial é essencial para que os sujeitos possam saber pensar o espaço. Essa consciência espacial. as múltiplas representações espaciais que é conveniente distinguir. Isso é possível. no sentido da multiplicidade de espaços em um espaço. a consciência do espaço e das coisas nesse espaço saber pensar e apreender a própria realidade. no sentido de saber pensar o espaço.. de uma cabeça 8 que pensa local e globalmente as mudanças contextuais e suas implicações nos modos de ser e viver. 53).saber-mundo que não leva a conhecer o mundo. formando conjuntos. para participar de seus processos. a familiarização de cada um com um instrumento conceitual que permite articular. explicá-lo. O desenvolvimento do processo de espacialidade diferencial acarretará. é condição da historicidade humana. A tese da espacialidade diferencial entrelaça-se à da consciência espacial como leitura crítica e ética do espaço. saber pensar o espaço tem a ver com o sentido e o significado que professor e aluno atribuem ao saber-aprender Geografia. que é também um saber-pensar a si mesmo e as conseqüências das próprias ações no espaço. 2006). necessariamente. Tal instrumental constrói-se por meio de vários conjuntos espaciais. para formar-se nas estruturas cognitivas do sujeito em desenvolvimento. como propõe Morin (2001). Assim. no sentido de uma cabeça bem-feita. entendê-lo. porém. saber e aprender são necessidades vitais. leva à idéia de comprometimento com o mesmo. o saber-pensar o espaço está na idéia de espacialidade diferencial: [.

o processo de conscientização do e. O comprometimento de saber pensar o espaço. justa. por sua inserção no universo das discussões. com as lutas por melhores condições de vida. Essa consciência intencionada. por cuidados com o lugar de pertencimento. de participação nas tomadas de decisões: por trás da desordem. que intervém no lugar de vivência. da bagunça política. subjetivo-objetivamente construída. mecanicistamente compartimentada. no envolvimento com os movimentos. estabelecer novas relações de instituições e pessoas. 52). no mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos. pelo bem coletivo nos diferentes espaços de vida. assim. é intencional. Viver na sociedade. 77). Há uma justificada desconfiança dos sistemas 9 democráticos. diferente do espaço geométrico. como geograficidade crítico-construtiva. atitudes e ações de hetero e autocrítica. por isso. aparece na proposta freireana de problematização do mundo.de si no espaço (OLIVEIRA. sob a ótica de uma gestão cidadã do espaço social gestão solidária. exige compromisso com os destinos da humanidade. mas nos homens como corpos conscientes e na consciência como consciência intencionada ao mundo. diferenciam-se de atitudes e ações do infracidadão: aquele que não se reconhece em sua produção. é projeto de mundo conscientemente esboçado e atitudinalmente praticado: A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres vazios a que o mundo encha de conteúdos. Viver o espaço social como participação política eticamente sustentada. uma vez enfraquecida a democracia participação ativa do cidadão . 2001. 2005. não pode basear-se numa consciência espacializada. com o Planeta e todas suas formas de vida compromisso explícito do cidadão hodierno. refletindo-se no modo de viver o espaço social. da realidade em perspectiva de ação-reflexão-ação proposta que não se distancia daquela de Lacoste. Daí que é preciso ocupar os lugares da atuação cidadã o lugar público-privado de ação política. p. humana e prudente. mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo. Assim. obra e vivência (DAMINANI. intervindo nela. há uma ordem economicista. (FREIRE. p. reduzido e abstrato. compensatório-assistencialistas e. 2005). significa romper o jogo do clientelismo político e das manobras demagógicas. a ideologia privatista ocupando o espaço público-político de participação cidadã. na sociedade e nas decisões políticas. é reconhecer-se nela como cidadã/cidadão. pois. na conquista de direitos e no exercício da correspondente responsabilização pelos deveres. ação. comprometida consigo e com a realidade de outrem.

p. são políticas de progresso fundadas no economicismo alienante e . enquanto bem vital. 2007. para se conhecer as questões geopolíticas envolvidas nas decisões tomadas e sancionadas em diferentes níveis escalares. A política democrática deve. é preciso [. em seus grupos étnicos. Saber ouvir não é silêncio passivo mas ato de indagação propositiva. o que acontece em determinado lugar tem um peso sobre a forma como as pessoas de todos os outros lugares vivem. Saber ouvir e aprender é cidadania exercida com os outros. usá-lo. com isto. Pensamento e ação democrática devem-se transformar. pela tomada de consciência do agir de um ator social. os diferentes em suas culturas. forma e ação (SANTOS. é preciso saber ouvir e saber falar o que remete a uma base teórico-metodológica consistente. em sua diversidade de modos de vida. em diferentes contextos geográficos. 21). 2001) e. política e juridicamente. nunca é inocente em relação à miséria de outro (BAUMAN. A reforma democrática passa pela reforma do pensamento (MORIN.. no exercício da cidadania. 2006) organizam e dinamizam a construção do espaço geográfico como locus das problemáticas e fenômenos que envolvem as relações sociedade-natureza. sociedade-cultura e homem-homem. País e cidade. [.nos contextos sociais enfraquece-se a posição do cidadão e. sentir e agir. garantir ao cidadão questionar as estruturas e condições sociais. do que aprendeu sobre o mundo. qualquer que seja. organiza-se o espaço..] num planeta aberto à livre circulação de capital e mercadorias. haja vista que: [. compreender que estrutura. 2002). sem negar-lhes o direito de falar. porém. falar e ouvir indagando e problematizando. de também se pronunciarem e construir espaços com sua forma específica de ver. Daí. É de importância estratégica.. sobre as formas de organização espacial. influenciando a todos e a vida de modo geral no Planeta.. são lugares de ação e atuação de forças mobilizadoras contrárias à cidadania ativa. também é bem pensar o espaço.12). transformar o pensamento. O espaço. A democracia deve deixar de ser elitizada aquela de ator estrangeiro . região. o valor da própria cidadania (SACRISTÁN. de minoria dominante. p. Território.. é analisado e valorado não só para melhor organizá-lo.] reivindicar voz permanente sobre a maneira como esse espaço é administrado . que agem a modo 10 de revolução liberal.. enquanto espaços política e ideologicamente estruturados. esperam ou supõem viver.] O bem estar de um lugar. o cidadão age a partir do que conhece. que contribua para que o sujeito-aluno saiba argumentar com propriedade. As políticas democráticas. Ouvir os outros é ouvir as diferenças. são espaços da prática de questionamento e indagação. por definição. a partir da análise crítica e coerente sobre como. Como afirma Bauman (2000. mas e principalmente. Estado.

2002).] é uma área do conhecimento comprometida em tornar o mundo compreensível para os alunos.. mediante práticas educativas sustentadas por valores humanos: não aqueles das elites globais ou valores voláteis (BAUMAN.degradante da vida e do homem.] define-se por sua responsabilidade em estimular o pensamento crítíco/reflexivo sobre o meio em que vive o aluno (SANTA CATARINA. É preciso pensar. p. 10). para continuar a luta contra as hegemonias.. regional e local. A Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina (1998). contrapondo-se ao atual modelo gerador de desigualdades e exclusão social que impera nas políticas educacionais de inspiração neoliberal (BARRA . uma vez que a Geografia serve para fazer a guerra (LACOSTE. Como destaca Pontuschka (2005. partindo dos pressupostos e princípios orientadores da Proposta Curricular Catarinense. p. 1998.] contribuir para a construção de uma sociedade cidadã (id). Outros dois documentos.. Nessa direção. propõe que tal ensino deva [. 2007.. p. 2006) justificadamente. p.. da convivência sadia e próspera com a sociodiversidade. 1998. 26). não levam o cidadão a participar do processo econômico construtor da história social. Em contraposição a essa necessária reconcepção sociopedagógica e epistêmica. ao enfocar que a Geografia [. mas valores referenciados à ética da responsabilidade. uma política de atores sociais.] responsável pelo estudo do espaço construído pelos homens em relação com a natureza e que seu compromisso social [.. sustentam que a conquista da cidadania brasileira é uma meta a ser alcançada também por meio do ensino dessa disciplina. Isso precisa ser lido nas formas ou formações espaciais. isso também aparece em documentos oficiais dos sistemas de educação em escala nacional. explicável e passível de transformações . convergem a essa finalidade da Geografia escolar. Nesse contexto. a partir de uma prática reflexiva e do autolimite (BAUMAN. os Parâmetros Curriculares Nacionais PCNs (BRASIL. a conviver e a ser com e para os outros. 174). referenciais no âmbito da pesquisa empírica deste estudo.. 11 espaço em que se aprenda a aprender. 112): É quase consenso nos escritos oficiais ou nãooficiais que a escola precisa contribuir para a construção da cidadania . pesquisas e estudos entre o fim do século XX e início do XXI vêm mostrando que as orientações da Geografia escolar no Brasil têm sido pontuais.. enfatiza na sua introdução: Urge empreender um esforço coletivo para vencer as barreiras e entraves que inviabilizam a construção de uma escola pública que eduque de fato para o exercício pleno da cidadania e seja instrumento real de transformação social. o Projeto Político Pedagógico da Rede Municipal de Ensino de Barra Velha (2007). envolvendo compromisso pelos deveres consigo mesmo e com os outros na construção do direito de ser o que se aspira a ser. ao focar o ensino de Geografia como [. geograficamente. mas fazem-no cobaia de manobras com objetivos velados.

A partir de uma investigação inicial exploratória. Assim. 2007.. é preciso transformá-lo. assim como os PCNs. nesse caso. p. Nessa linha.] oportunizar aos alunos compreenderem de forma mais ampla a realidade.. a que apresentava maior abertura de diálogo e interação entre um dos professores de Geografia (6a. dos planos de ensino do docente e de provas escritas. na construção do saber geográfico em vista da formação da consciência espacial-cidadã. atuação profissional. 269). dos Parâmetros Curriculares Nacionais e da Proposta Curricular Catarinense. entrevista semi-estruturada e questionário qualificação. optando-se por um estudo de caso (ANDRÉ.8a. séries) e os sujeitos-alunos.. foi selecionada uma das quatro escolas. p. com peculiaridades diferenciais em relação às demais. p. sobre esse postulado e assumindo orientações teóricas em parte. Sendo assim. do Projeto Político Pedagógico da escola. sabendo conhecer e utilizar o conhecimento geográfico (BARRA VELHA. o ensino de Geografia na rede municipal de Barra Velha propõe-se a [. séries dessa cidade. 2007. sustenta: Essa nova perspectiva considera que não basta explicar o mundo. 5). para uma apreensão mais aprofundada do objeto. O tratamento dos dados embasou-se no método de análise de conteúdos . 2005).8a. por meio de observações diretas semi-estruturadas.. o objetivo deste trabalho foi avaliar as práticas de ensino e aprendizagem de Geografia nas séries finais do ensino fundamental público da cidade de Barra Velha litoral norte de SC. condições de trabalho e contexto de vida com o professor. considerando-se as implicações curriculares acima e a importância da compreensão e leitura de mundo na escola e. ou seja. Para tanto. O levantamento de dados deu-se por observação direta das aulas de Geografia e outras técnicas: entrevistas coletivas semi-estruturadas com os alunos das diferentes séries. 270). A pesquisa é de cunho qualitativo.VELHA. possibilitando que nela interfiram de maneira mais consciente. com quatro escolas da rede pública de ensino de 5a. a Geografia ganha conteúdos políticos que são significativos na formação do cidadão (ibid. o Projeto Político Pedagógico da rede municipal em foco. e análise documental da Proposta Curricular de Santa Catarina.. mediante as contribuições da educação geográfica na formação de uma consciência espacial-cidadã.

em contraposição a uma Geografia simplesmente descritiva. mas também foram detectados aspectos problemáticos da prática escolar. pela triangulação dos dados (ANDRÉ. na análise de um aspecto eram considerados.). e c) análise dos dados realizando-se. simultaneamente. Cabe observar que o tratamento dos dados foi não-linear. assim como no registro das observações das aulas estabelecendo-se. ao pesquisador. localização. homem-homem e nesse contexto. um entendimento de Geografia escolar como conhecimento do mundo. como seguem. tendo como base conceitos e princípios fundamentais (espaço. seguindo as fases: a) pré-análise leitura e organização geral dos dados. como o estudo de caso. foram constatados alguns aspectos deveras significativos. paisagem. atividade. ao docente e aos seus alunos. categorias de conteúdos temáticos para a análise dos significados das informações obtidas na pesquisa. orientando a próxima fase. Com base nesse entendimento de Geografia escolar. analogia. essa leitura prévia possibilitou. uma visão geral dos dados coletados. YIN. ou seja. pelo docente. lugar. b) exploração dos dados. a validade do construto teórico-empírico dá-se. propriamente. e nessa ótica.(BARDIN. sob o foco das relações homem-natureza. 2006). com identificação de aspectos 12 significativos no depoimento dos sujeitos da pesquisa. já que em pesquisas qualitativas. 1 .Quanto ao docente: ficou evidenciado um conjunto de idéias valiosas sobre o ensino de Geografia. de modo a construírem um entendimento sobre o que seja habitar o lugar. Com base no foco dos conceitos. região. 2005. conexidade. Os resultados referem-se. nas e entre as diferentes escalas.Uma concepção de Geografia. verifica-se a possibilidade da formação dos mesmos sujeitos na direção de um agir local desde a escola. em sentido de entendimento e apreensão da espacialidade geográfica pelo aluno. complementarmente. dados levantados pelos diversos instrumentos da pesquisa. As relações que o docente estabelece entre a ciência geográfica e a Geografia escolar mostram o significado dessa área curricular no processo educativo. bem como uma maior interação sua com os educandos. nessa área. temas e princípios da lógica geográfica em perspectiva relacional e considerando-se a reflexão geográfica a partir da realidade de vida dos alunos. extensão). o docente traz uma visão relacional e dinâmica de espaço geográfico. enquanto ciência social. destacando a dimensão ambiental da educação geográfica. sob os pontos de vista global e local. 1977). principalmente. interatividade. com base no referencial teórico da pesquisa e em outras fontes pertinentes. 1 . Em relação aos processos que possibilitam a construção de um saber geográfico em vista da formação de uma consciência espacial-cidadã. território. segundo Bardin (ibid. a interpretação dos dados em torno dos sentidos e significados dos conteúdos. o que é . a partir da realidade de vida do aluno.

uma possibilidade rica para se potencializar as práticas de ensino e de aprendizagem de Geografia. ainda de acordo com o docente. à . pelos alunos. o docente evidenciou preocupações importantes sob o ponto de vista de uma cidadania comunitária. mostra na colocação do docente a possibilidade dos alunos perceberem e entenderem as dinâmicas espaciais estabelecidas nas relações entre homens e destes com o meio natural. b) abordagem de conteúdos em torno de conceitos básicos da lógica geográfica. ao mudar o mundo na relação com outros. desta dimensão. Abre-se nessa direção. como o respeito de si mesmos e pela diversidade social. com base em seus contextos de vida. a partir do embricamento entre educa-13 ção geográfica e educação ambiental. a formação cidadã de sujeitos atuantes e responsáveis com seu entorno. do engajamento na produção de espacialidades possíveis de se habitar e às quais possam pertencer enquanto sujeitos-cidadãos. para o mundo. com isso. Esse direcionamento implica. logo. crítico e participativo em prol da melhoria de condições em seu contexto de vida. Para tanto. cultural e biológica. pela potencialização da consciência espacial-cidadã: a) dinâmica pedagógica de motivação e mobilização dos alunos. pelos alunos. nos âmbitos local e global. ao considerar nelas o sentido da questão socioambiental e.Uma proposta e visão dessa área curricular condizente com a finalidade da escola hodierna. bem como pela dialogia didática.pertencer ao lugar de vivência aspecto que amplia o entendimento de mundo. no sentido de que se percebam sujeitos em construção. quanto aos espaços regional. é fundamental o desenvolvimento. como território. a formação de um sujeito-aluno cidadão. e temas referenciais ligados à regionalização. em vinculação ao conhecimento e à aprendizagem escolar. segundo o docente. mas também considerando a escala macro. isto é. Nesse sentido. Sob tal pressuposto é que os educandos terão condições de uma atuação transformadora no mundo.Uma perspectiva de encaminhamento pedagógico-didático das práticas de ensinar e aprender Geografia. da participação. em termos de atitudes e ações socioambientais nos espaços em micro escala desde a preocupação com a atuação dos alunos no espaço escolar no espaços local. pelo sujeito-aluno. em sua comunidade e. paisagem. nacional e global. relacionada com a vida escolar dos alunos e com a escola. 3 . sustentados em valores. contribuir à formação de uma consciência espacial-cidadã mais efetiva. a partir da motivação do próprio professor. A construção do pensamento geográfico. de cidadania. pelo domínio do conhecimento e de sala de aula. em processo de mudança de si próprios. da auto-estima e auto-valorização. lugar. que reconheçam o valor da honestidade. região. pelos alunos. 2 .assim como em suas inter-relações.

nos níveis macro e micro escalares. pela formação cidadã do aluno. 15 . Esses quatro aspectos de resultados são fundamentais no planejamento e construção do saber geográfico emancipatório. 14 c) procedimentos de ensino e de aprendizagem variados: além do uso do livro didático e exposições dialogais. na medida em que. na perspectiva de participação no processo educativo. e algumas dinâmicas espaciais. compreender a si mesmo na relação com o mundo. O que se verificou quanto a aspectos a serem potencializados. Além disso. d) e uma avaliação contínua e diagnóstica. Em grande parte. dissocia-se da prática observada em sala de aula. principalmente relativas a mudanças no local de vida.Quanto aos alunos: expressam uma assimilação básica de aspectos da espacialidade geográfica. a valorização de mapas e imagens no sentido de ajudar o aluno a abstrair significados e concretizar dimensões geográficas. identificam elementos do espaço. mostraram um senso crítico inicial quanto a questões de cidadania vinculadas aos deveres de cuidado com os ambientes de vida. quando se verificou uma deficiência de clareza sobre conceitos e princípios básicos ao tratar os conteúdos: ele identifica as categorias e princípios geográficos. em seu desenvolvimento pessoal e social. especialmente nas suas narrativas. tal proposta intencionalmente apresentada na lógica discursiva (entrevistas). enquanto cidadãos. a questões multiculturais e destaque das questões socioambientais locais e globais. parte de um ponto de vista discursivo do professor. a compreender o mundo onde vive e. capacitandoo a pensar seus espaços de vida. socioeconômica. com isso. a partir de suas vivências cotidianas. de canções etc. 2 . quanto ao poder político do voto. que se colocam como limitantes desses processos. gráficos. é a questão do próprio domínio epistemológico da Geografia.globalização. pelo docente. de acompanhamento da aprendizagem dos alunos. ou narrada pelos alunos também em relação ao professor. maquetes. e ainda. Um fator limitante básico. sob o ponto de vista cognitivo e de atitudes. Essa dissociação entre discurso e prática permite apontar alguns entraves nas práticas de ensinar e aprender Geografia. natural e socioambiental. mas não discerne sua diferenciação específica e de abrangência. aos direitos de cidadão relacionados à participação na vida social e cultural da cidade. nas perspectivas sociocultural. relatórios. procedimentos desenvolvidos a partir do que o aluno sabe sobre sua realidade. atuantes já no presente e em perspectiva de futuro a partir de práticas de ensino e aprendizagem na construção de um saber geográfico problematizante de suas realidades locais-globais de vida. utilização de mapas. Tais indicadores evidenciam potencialidades no processo de formação de sujeitosalunos. nesse âmbito. na Geografia escolar.

Essa fragilidade teórico-metodológica do docente reflete-se em sua prática escolar: a) um trabalho escolar fragmentado pela disjunção teoria-prática. isoladas de sua tessitura coletiva. de avaliar atitudes separadas da cognição. nas relações intra e inter escalares. não dando conta de pensar o lugar de vivência e o mundo. pelas relações de causalidade. por primeiro (1º. aparece mais na perspectiva de uma concepção conservacionista-naturalista. semestre). sob o pressuposto de que as desejáveis mudanças pela qualidade de vida resultariam da soma das decisões e ações individuais. semestre) mais tipificado na fala dos alunos. desproblematizada e não transformável pela ação dos sujeitos: o lugar é normalmente apenas referência de um comentário no início da aula. Também apresenta falta de referência conceitual quanto à dimensão ambiental no processo educativo escolar. trabalhar aspectos teórico-conceituais para depois desenvolver atividades práticas (2º. problemas (aspecto focado pelos próprios alunos). por conseguinte. baseada sobretudo no livro didático adotado. mostrado no conjunto dos dados. com isso.para relacioná-los em benefício de uma análise das dinâmicas espaciais. sem verticalização do processo de construção de um saber-pensar o espaço. dificultando uma leitura de codificação e decodificação dos processos estruturantes da espacialidade geográfica e. de uma análise reflexiva problematizadora de mundo as aulas giravam em torno de comentários sobre muitas temáticas. esta mostrou-se precariamente referenciada e. ou seja: na seqüência operacional de. na não-continuidade de um trabalho na perspectiva de educação ambiental entre os níveis de ensino fundamental e médio etc. de seus contextos socioculturais e históricos. c) constatação de uma Geografia ausente no espaço habitado. por conseguinte. a educação ambiental. na potencialidade de cidadãos críticos e participativos . mas não é tomado como referencial de um trabalho que ajude o aluno a . enquanto concreção. na separação que se dá no processo avaliativo. portanto. ao focar problemas dessa natureza numa linha tradicional. b) uma perspectiva fragmentada de tratamento dos conteúdos geográficos. do que propriamente crítica e emancipatória. mas sem aprofundamento.. a despeito de ter o docente apresentado uma proposta de ensino adequada às finalidades da educação geográfica hodierna formação de sujeitos-alunos situados espacialmente. foca uma realidade imediata não pensada. Nessa conexão. alunos focados no senso comum e desreferenciados da epistême geográfica. geradora de um trabalho de cunho mais descritivo-informativo.

em que cada docente desenvolve seus projetos. ainda numa relação bancária. verificando-se um potencial de docência. verificou-se insuficiência de mapas. resultando em que o processo proposto no discurso se perca na ação. laboratórios e outros indicando 16 que a escola tinha limitações ao processo educativo. a partir de seu discurso. mnemônica e reprodutivista. e) um processo de avaliação. se o . Além dessas questões. as provas elaboradas não validavam a proposta discursiva do docente. ciente de suas escolhas epistemológicas. havia uma prática cartográfica.. É fundamental que se entenda que um posicionamento referenciado ajuda o educador a construir o seu projeto também de forma referenciada. a sua realidade de vida. pelo processo auto-avaliativo centrado em formalidades como a cobrança de uniforme. vídeos. na direção dos referenciais atuais da educação geográfica. desde já a ausência de um planejamento de aulas. no mínimo. indica a falta de clareza da dimensão prática das aulas de Geografia. d) sob o ponto de vista dos recursos específicos e de apoio à Geografia. em sentido de verificação das aprendizagens dos alunos quanto à construção do conhecimento geográfico. centrada na lógica da informação. não é viável dar conta de um planejamento sério e rigoroso. inclusive. a Geografia apresenta-se esvaziada de seu instrumental teórico-metodológico. O que se encontrou foi um plano docente genérico. burocrático. Nesse contexto. Tal problema é em parte. sem pensar por si ou construir um pensamento da realidade-mundo. Esses problemas identificados e que são limitantes de uma educação geográfica voltada à formação da consciência espacial-cidadã. ajuda-o a definir um caminho para conduzir o trabalho na educação geográfica. No entanto. A ausência de um trabalho planejado. como uma lista de conteúdos. estão relacionados a outros problemas de cunho estrutural e organizacional. é contraproducente. dificultando uma prática coletiva no processo educacional. e um projeto da disciplina de Geografia no Projeto Político Pedagógico da escola. há que chamar a atenção para um aspecto: uma carga horária de trabalho com mais de 60 horas aula e em três cidades diferentes. globos. também se observou um trabalho escolar individualista. Há uma válida e interessante proposta no discurso do professor. a mais. ou ainda. habilidades e formas de se encaminhar o trabalho. ou seja. livros. que oriente os alunos a pensar criticamente o espaço.construir espacialidades possíveis. livros encapados etc. de conteúdos. entre outros procedimentos didáticos. pelo formato das provas bimestrais ou pelas provas de recuperação. da reprodução: os alunos apenas reproduzem um espaço já pensado. ocorria uma ausência de critérios indicativos de uma avaliação processual-diagnóstica. reflexo da ausência de uma política educativa de suporte pedagógico-didático aos docentes. que objetive a uma educação geográfica hodiernamente valiosa.

educador exerce sua profissão em condições desprofissionalizantes, senão desumanas. 17 A partir desses resultados, em termos de potencialidades e problemáticas, nas práticas de ensino e de aprendizagem de Geografia, podem ser propostas algumas considerações indicativas: 1) organizar a construção do Projeto Político Pedagógico da escola, com efetiva participação dos docentes, de modo que possam demarcar no projeto as bases, ou perspectivas e orientações da educação geográfica na educação escolar; 2) construir os projetos, por disciplinas curriculares, a partir de uma intrínseca relação com o domínio científico, para tornar a ciência mais próxima e atuante na escola, não só sustentando as diretrizes de trabalho, mas colocando-as na perspectiva cidadã para dar sentido de vida ao aprendizado do aluno; 3) desenvolver processos de formação inicial e continuada dos docentes, com foco nas questões próprias dos domínios científico e pedagógico-didático da Geografia, com vistas a embasar o processo educativo escolar; 4) efetivar no contexto da escola, trabalhos coletivos e interdisciplinares, como entre educação geográfica e educação ambiental e que envolvam outras disciplinas e a comunidade; 5) desenvolver políticas voltadas à estrutura pedagógico-didática da educação geográfica, em sentido de alicerçar o trabalho docente com recursos criteriosamente suficientes; 6) desenvolver políticas pedagógicas em que sejam asseguradas ao professor, tempo para pensar sua prática, seu trabalho nos processos de ensino e de aprendizage; 7) e incorporar, às propostas curriculares, aos projetos pedagógicos e projetos disciplinares diretivos, a dimensão jurídica-política nos conteúdos de ensino e aprendizagem de Geografia a partir das relações entre conhecimentos científicos, escolares e da legislação, em sentido de se entender o que é e como se habita o espaço segundo dispositivos legais, sob o ponto de vista dos direitos e deveres. Com base nessas considerações, põe-se, presentemente, um grande desafio para as práticas educativas e, no caso da educação geográfica, o compromisso com a formação do cidadão situado em sua localidade, comunidade, cidade porém, não isolado e, sim, vivenciando a relação intrínseca entre seus valores de vida e a construção do mundo. Daí: - como desinstalar e motivar os sujeitos-alunos a entenderem e viverem quem são e onde estão, como cidadãos desde já e, mais ainda, como construtores do seu e do

futuro de todos? Nesse sentido, torna-se fundamental uma inovação curricular transformadora, que assuma o sentido e sinalize efetivamente a vida em sociedade, enquanto cidadania: a experiência humana humanizada, acontecendo nos espaços físicos socio-18 culturalizados e simbolicamente multidimensionados como exercício da política e da democracia, como fruição dos laços sociais, como produção do dia-a-dia em sua sustentação material e cultural, enfim, como história do hoje-amanhã, superando-se passado e presente no projeto do futuro. Para finalizar esta abertura de reflexões teóricas-práticas, potencialmente geradores de viabilidades ao avanço da educação geográfica, vale trazer a posição de Cavalcanti (2002, p. 51): [...] a idéia de cidadão é aquele que exerce seu direito a ter direitos, ativa e democraticamente, o que significa exercer seu direito de, inclusive, criar novos direitos e ampliar outros. É no exercício pleno da cidadania que é possível, então, transformar direitos formais em direitos reais.

I Introdução No presente estudo, considera-se a cidade como espaço urbano que pode ser analisado como um conjunto de pontos, linhas e áreas. Pode ser abordado a partir da percepção que seus habitantes ou alguns de seus segmentos têm do espaço urbano e de suas partes. Outro modo possível de análise considera-o como forma espacial em suas conexões com estrutura social, processos e funções urbanas. Por outro lado ainda, o espaço urbano, como qualquer outro objeto social, pode ser abordado segundo um paradigma de consenso ou de conflito. A maior parte deste trabalho focaliza os processos e as formas espaciais: o espaço das cidades brasileiras. II O Que é Espaço Urbano? Em termos gerais, o conjunto de diferentes usos da terra justapostos entre si. Tais usos definem áreas, como: o centro da cidade, local de concentração de atividades comerciais, de serviço e de gestão; áreas industriais e áreas residenciais, distintas em termos de forma e conteúdo social; áreas de lazer; e, entre outras, aquelas de reserva para futura expansão. Este conjunto de usos da terra é a organização espacial da cidade ou simplesmente o espaço urbano fragmentado. Eis o que é espaço urbano: fragmentado e articulado, reflexo e condicionante social, um conjunto de símbolos e campo de lutas. É assim a própria sociedade em uma de suas dimensões, aquela mais aparente, materializada nas formas espaciais.

III Quem Produz o Espaço Urbano? Quem são estes agentes sociais que fazem e refazem a cidade? a) Os proprietários dos meios de produção, sobretudo os grandes industriais; b) Os proprietários fundiários; c) Os promotores imobiliários; d) O Estado; e) Os grupos sociais excluídos. Que estratégias e ações concretas desempenham no processo de fazer e refazer a cidade? a) Os grandes proprietários industriais e as grandes empresas comerciais são, em razão da dimensão de suas atividades, grandes consumidores de espaço. Necessitam de terrenos amplos e baratos que satisfaçam requisitos locacionais pertinentes às atividades de suas empresas junto a portos, a vias férreas ou em locais de ampla acessibilidade à população.

1 Resumo do livro O Espaço Urbano, de Roberto Lobato Corrêa (Editora Ática, Série Princípios, 3a. edição, n. 174, 1995. p.1-16.2 Porém, as relações entre os proprietários dos meios de produção e a terra urbana são mais complexas. A especulação fundiária tem duplo efeito. De um lado onera os custos de expansão na medida em que esta pressupõe terrenos amplos e baratos. Do outro, o aumento do preço dos imóveis, resultante do aumento do preço da terra, atinge os salários da força de trabalho. É importante também considerar, que os conflitos entre proprietários industriais e fundiários não mais constituem algo absoluto como no passado. Isso se deve: ao desenvolvimento das contradições entre capital e trabalho, que torna perigosa a abolição de qualquer forma de propriedade, entre elas a da terra, pois isto poderia levar a que se demandasse a abolição da propriedade capitalista; através da ideologia da casa própria, que inclui a terra, pode-se minimizar as contradições entre capital e trabalho; à própria burguesia adquirir terras, de modo de que a propriedade fundiária passou a ter significado no processo de acumulação; à propriedade da terra ser pré-requisito fundamental para a construção civil que, por sua vez,

que tenham rendas capacitadas a participar do mercado de terras e habitações. a ação deles modela a cidade. interessando-se em que estas tenham o uso mais remunerador possível. loteiam. poderão até mesmo ter suas terras valorizadas através do investimento público em infraestrutura. portanto. Estão interessados no valor de troca da terra e não no seu valor de uso. e consequentemente seu preço sobe. E com isso os bairros fisicamente periféricos não são mais . e à propriedade fundiária e seu controle pela classe dominante terem ainda função de permitir o controle do espaço através da segregação residencial. significativo papel na organização do espaço. b) Os proprietários de terras atuam no sentido de obterem a maior renda fundiária de suas propriedades.3 Estas terras são destinadas à população de status. o seguinte: urbanização de status e urbanização popular variando de acordo com a localidade da área. Nas grandes cidades. produzindo seu próprio espaço e interferindo decisivamente na localização de outros usos da terra. vendem e constroem casas de luxo. e agem pressionando o Estado visando à instalação de infraestrutura. Os diferenciais das formas que a ocupação urbana na periferia assume são. especialmente viária. Alguns dos proprietários fundiários. como mar. onde a atividade fabril é expressiva. Depende ainda da política que o Estado adota para permitir a reprodução do capital. lagoa. sol. Como se trata de uma demanda solvável. especialmente uso comercial ou residencial de status. é possível aos proprietários tornar-se também promotores imobiliários.. os mais poderosos. Deste modo. como reforço do aparelho estatal pelo aumento do número de funcionários e através da ideologia da casa própria. e campanhas publicitárias exaltando as qualidades da área são realizadas ao mesmo tempo. porém próximo às áreas proletárias.desempenha papel extremamente importante no capitalismo. etc. A demanda de terras e habitações depende do aparecimento de novas camadas sociais. cumprindo. amortecendo áreas de atividade industrial. Aquelas bem localizadas são valorizadas por amenidades físicas. em relação ao uso residencial. onde mora a elite. a ação espacial dos proprietários industriais leva à criação de amplas áreas fabris em setores distintos das áreas residenciais nobres. verde. Tais investimentos valorizam a terra.

É possível haver a produção de habitações para os grupos de baixa renda? Quando esta produção é rentável? é rentável se são super-ocupadas por várias famílias ou por várias pessoas solteiras que alugam um cômodo. o que amplia a exclusão das camadas populares. serão realizados os loteamentos: as habitações serão construídas pelo sistema de autoconstrução ou pelo Estado. Recife e Fortaleza. financiamento. pois afinal de contas bairros de status não são socialmente periféricos. e. e comercialização ou transformação do capital-mercadoria em capital-dinheiro. elevando os preços a níveis insuportáveis. Salvador. um preço de venda cada vez maior. acessibilidade. em primeiro lugar. De fato. amenidades naturais ou socialmente produzidas. obtém-se ajuda do Estado no sentido de tornar solvável a produção de residências para satisfazer a demanda não solvável. entende-se um conjunto de agentes que realizam. parcialmente ou totalmente. As estratégias dominantes. com seu custo reduzido ao mínimo. A estratégia basicamente é a seguinte: dirigir-se. têm um significativo rebatimento espacial.percebidos como estando localizados na periferia urbana. à produção de residências para satisfazer a demanda solvável. a ação dos promotores se faz correlacionada a: preço elevado da terra de auto-status do bairro. as cidades litorâneas como Rio de Janeiro. que ocasionam vários distúrbios sociais. são frutos das valorizações fundiárias. depois. FGTS. é rentável quando se verifica enorme escassez de habitações. obtendo-se. as seguintes operações: incorporação. estudo técnico. eficiência e segurança dos meios de transporte. que aí implanta enormes e monótonos conjuntos habitacionais. de construir habitações para a população que constitui a demanda solvável. Quais são as estratégias dos promotores imobiliários? Produzir habitações com inovações. e esgotamento dos terrenos para a construção e as condições físicas . Como exemplos. c) Por promotores imobiliários. construção ou produção física do imóvel. é rentável se a qualidade da construção for péssima. Exemplos: BNH. com valor de uso superior às antigas. portanto. COHABS. Naquelas mal localizadas e sem amenidades. agora acrescido de lucro.

e implantação de infra-estrutura. sistemas de autoconstrução. organização de mecanismos de créditos à habitação. Sua atuação tem sido complexa e variável tanto no tempo como no espaço. que ao lado do desemprego. subnutrição. operações-testes como materiais e procedimento de construção. delineiam a situação social dos grupos excluídos. controle de limitação dos preços das terras. regulamentação do uso do solo. d) O Estado atua também na organização espacial da cidade. a segregação é ratificada. e pesquisas. ocasionar transformação da camada populacional excluída em agente modelador . São os seguintes: direito de desapropriação e precedência na compra de terras. afetando o preço da terra e orientando espacialmente a ocupação do espaço. desmontes. através de obras de drenagem. bem como o controle de produção e do mercado deste material. A estas pessoas restam como moradia: cortiços. investimento público na produção do espaço. A atuação espacial dos promotores se faz de modo desigual criando e reforçando a segregação residencial que caracteriza a cidade capitalista. limitação da superfície da terra de que cada um pode se apropriar. Este é um dos fatores. na medida em que os outros setores do espaço produzem conjuntos habitacionais populares.4 O Estado dispõe de um conjunto de instrumentos que pode empregar em relação ao espaço urbano. mobilização de reservas fundiárias públicas. E. doenças. As três primeiras possibilidades habitacionais pressupõem uma vinculação a um agente sem. conjuntos habitacionais fornecidos pelo agente estatal e as degradantes favelas.dos imóveis anteriormente produzidos. aterros. impostos fundiários e imobiliários que podem variar segundo a dimensão do imóvel. levando a uma utilização mais completa do espaço urbano. e) Os grupos sociais excluídos são aqueles que não possuem renda para pagar o aluguel de uma habitação digna e muito menos para comprar um imóvel. taxação de terrenos livres. refletindo a dinâmica da sociedade da qual é parte constituinte. uso da terra e localização. no entanto.

entre os quais há acumulação de capital e a reprodução social tem importância básica. Outro fenômeno observado é a progressiva urbanização da favela. criam atividades e suas materializações. Acreditamos ser útil repensar e recuperar o conceito de processos espaciais devido a sua utilidade na conexão ação humana-tempo-espaço-mudança. Isto se explica pela ação dos moradores que pretendem a melhoria das condições de vida. É na produção da favela. por motivos diversos. de modo semelhante. Assim como em Copacabana. agentes modeladores. entretanto de início mal sucedidas. associado a outros capitais. estava. Do exposto dessume-se de que a partir de fins do século XIX. repetiu-se o fenômeno na Barra da Tijuca. Os processos espaciais e as respectivas formas são os seguintes: Centralização e área central. Aparentemente desprovida de qualquer elaboração espacial. ou seja. produzindo 5 mesmo residências de veraneio e novos espaços. Estes processos criam funções e formas espaciais. promotores imobiliários. . IV Processos e Formas Espaciais A grande cidade capitalista é o lugar privilegiado de ocorrência de uma série de processos sociais.do espaço urbano. as favelas acrescentam uma lógica que inclui a proximidade a mercados de trabalho. destina recursos à urbanização das favelas. Como exemplo. são verificadas tentativas de valorização fundiária da área. conjuntamente com o Estado que. No processo de produção concreta de um bairro residencial ou de um distrito industrial. A ocupação destes terrenos que dão ensejo à criação das favelas é uma forma de resistência à segregação social e sobrevivência ante a absoluta falta de outros meios habitacionais. efetivamente. entretanto. até se tornar um bairro popular. iniciou-se a valorização do local resultante de uma aliança de interesses comuns. a cidade tornou-se objeto de lucro. O capital fundiário-imobiliário. firmada entre proprietários fundiários. o bairro de Copacabana. vários agentes estão presentes. A partir de 1892. cuja distribuição espacial constitui a própria organização espacial urbana. O Estado fazia-se presente pelos interesses comuns no poder. interessado apenas em produzir habitações para a população de status elevados. Desde a década de 1870. bancos e empresas industriais e comerciais. em terrenos públicos e privados que os grupos sociais excluídos tornam-se.

onde o custo é menor. de serviço. A cidade mantém uma série de relações com entes e pessoas exteriores a ela. Os empresários buscavam se estabelecer próximos às massas de pretensos consumidores. A partir de então se verifica um processo de aglutinação em torno das estações ferroviárias. O grande aumento de produtos industrializados gerou a necessidade de uma malha de transportes que suprisse a crescente demanda. As grandes 6 indústrias de base que independem da clientela no local estão se instalando em terrenos mais afastados.Descentralização e os núcleos secundários. iniciou-se a aglutinação de investimentos e estabelecimentos em torno destas estações de transportes. foi dito linhas atrás: terrenos grandes e baratos. A figura abaixo indica a localização destes dois setores em uma . pode-se afirmar que os processos espaciais são complementares entre si. Com isso. Coesão e as áreas especializadas. É conveniente deixar claro que estes processos e formas espaciais não são excludentes entre si. da gestão pública e privada. Centralização e área central A área central constitui-se no foco principal não apenas da cidade. dando ensejo à construção das grandes ferrovias. Nela concentram-se as principais atividades comerciais. O surgimento da área central foi percebido de forma nítida com a Revolução Industrial. Dinâmica social da segregação. como inclusive. Segregação e as áreas sociais. Ela se destaca na paisagem da cidade pela sua verticalização. Inércia e as áreas cristalizadas. mas também de sua hinterlândia. Passa-se a seguir ao debate de cada processo espacial acima mencionado. delimitando a área central da cidade. A gênese da área central. e os terminais de transportes inter-regionais e intra-urbanos. O núcleo central e a zona periférica do centro. o preço do imóvel elevou-se sobremaneira. pelo grande fluxo de pessoas que circulavam destas estações. Com isto. Com a forte procura por localizações próximas à área central da cidade. com dois setores: de um lado o núcleo central e de outro. podendo ocorrer simultaneamente na mesma cidade ou no mesmo bairro. a zona periférica do centro. apenas os empreendimentos nos quais o lucro deriva diretamente do fator localização continuam a buscar um ponto nesta área da cidade. atualmente. O processo de centralização ao estabelecer a área central configurou-a de modo segmentado. Neste sentido.

na segunda metade do século XX. . em estacionamentos. juntos uns aos outros. há terrenos abandonados. Área de decisões: no núcleo central localizam-se as sedes ou escritórios regionais das principais empresas que atuam na cidade e em sua região de influência. na segunda metade do século XX. o comércio atacadista. demolindo-se os prédios mais antigos. quando o processo de centralização já não mais desempenha o papel relevante que desempenhou no passado. Limitado crescimento horizontal: sua expansão se faz. o ponto de baldeação para os bairros situados ao longo de diferentes direções. 7 A zona periférica do centro constitui uma área em torno do núcleo central. são: Uso semi-intensivo do solo: as atividades que aí se encontram são. apresenta-se deserta a noite. por uma mais acentuada verticalização. Focos de transporte intraurbanos: é o ponto de convergência do tráfego urbano e. Concentração diurna. sobretudo do setor terciário. Ampla escala horizontal: as atividades aí localizadas ocupam prédios baixos. O núcleo central caracteriza-se. durante as horas de trabalho. em muitos casos. sobretudo de pedestres. Suas principais características. Por não constituir área residencial. com maior concentração de atividades econômicas.cidade imaginária. possível de ser percorrido a pé. justificando-se assim a intensidade do uso do solo. viabiliza as ligações interpessoais vinculadas ao negócio. É ai que se encontram os mais elevados preços da terra. correlacionando-os com os transportes inter-regionais e intra-urbanos. O Estado tem aí muitas de suas instituições. pelos seguintes aspectos: Uso intensivo do solo: trata-se da área da cidade de uso mais intensivo. sendo fortemente consumidoras de espaços. Ampla escala vertical: a presença de edifícios de escritórios. sobretudo. em muitos casos. via de regra. sendo. Estas atividades são fortemente vinculadas às do núcleo central e em toda cidade. beneficiando-se da acessibilidade que o conjunto da área central desfruta. Limitada escala horizontal: o núcleo central é limitado em termos de extensão. que são substituídos por outros mais elevados. sobretudo. transformados. da população. o armazenamento e as indústrias leves. É assim o ponto focal da gestão do território.

justificando a presença de numerosos depósitos. que dificulta e onera as interações entre firmas. limitando. Fatores de repulsão da área central: Aumento constante do preço da terra. muitas delas deterioradas. facilidade de transporte. Área residencial caracterizada por residências populares e de baixa classe média. Restrições legais implicando ausência de controle do espaço. Dificuldade de obtenção de espaço para expansão. possibilidades de controle do uso da terra.Limitado crescimento horizontal: seu crescimento restrito deve-se. garagens e hotéis baratos. como as seguintes: terras não ocupadas. criadas recentemente.8 . De outro lado. onde reside parcela da população que trabalha na área. resulta de uma menor rigidez locacional no âmbito da cidade. aí se localizando os terminais ferroviários e rodoviários. amenidades. Ausência ou perda de amenidades. a baixos preços e impostos. portanto. afetando certas atividades que perdem a capacidade de se manterem localizadas na área central. A descentralização verifica-se quando há ou são criadas atrações em áreas não centrais. ao fato de muitas das novas empresas e atividades. qualidades atrativas do sítio. Foco de transportes inter-regionais: a área constitui-se no mais importante foco da circulação inter-regional. como cortiços. Congestionamento e alto custo do sistema de transporte e comunicações. primeiramente. infraestrutura implantada. Descentralização e os núcleos secundários. impostos e aluguéis. as ações das firmas. como topografia e drenagem. Descentralização e os núcleos secundários aparecem como uma medida das empresas visando eliminar as deseconomias geradas pela excessiva centralização da área central. em razão do aparecimento de fatores de atração em áreas não-centrais. já não necessitam mais desta localização.

mas com demandas diferentes de espaço e capacidade distintas de pagar pela terra que ocupam. a fábrica e o depósito. para realizar todas as suas operações. pode localizar-se na área central. descentralizam-se primeiramente aquelas que são consumidoras de espaço. com vários núcleos secundários de atividades. De outro lado. como a de direção dos negócios. a descentralização apresenta ótima oportunidade para os promotores imobiliários. Citamos como exemplo os shopping centers. pode variar em razão de peculiaridade do sítio urbano. Em termos de trabalho da cidade: a descentralização começa a se verificar partir de uma dimensão urbana que.A descentralização está associada ao crescimento da cidade. ou pelo menos dificultar a sobrevivência das pequenas empresas que não tem estrutura para enfrentar o processo descentralizador. das funções urbanas e do nível de renda da população. no sistema de transporte. Pode assim localizar fora da área central adicionando outras vantagens. Por fim. a grande e moderna fábrica não depende mais das externalidades da área central. Em termos temporais: em relação à indústria. O significado de descentralização. ali permanecendo a sede das empresas industriais e comerciais. A seletividade da descentralização. . iniciando o ciclo no salário dos empregados. ou a localização de outras fábricas e serviços junto de si. Para o consumidor gera economia de transporte e tempo. O capital industrial. A seletividade verifica-se nos seguintes tipos: Em termo de atividades: algumas se descentralizam mais. realizam uma descentralização seletiva: abandonam o centro. com o custo do terreno e a proximidade da força de trabalho. Os modernos meios de comunicações levam a uma flexibilidade locacional. Com isso. as grandes empresas. com pontos de vendas em vários locais. além das vantagens da nova localização tem grandes lucros com a troca de terrenos com grandes diferenças de preços. Em termos de divisão territorial do trabalho: atividades que comportam várias funções complementares. Este fenômeno tende a fazer desaparecer. A descentralização torna o espaço urbano mais complexo. até mesmo das atividades de gestão. atuam como agente acumulador de capital. Sua grande escala é suficiente para justificar que nela própria sejam produzidas algumas matérias-primas e bens intermediários. A sede social da empresa. no entanto. como as indústrias. tanto em termos demográficos como espaciais. com abertura de novos mercados. enquanto outras são poucos tendentes à descentralização. no entanto. ou poluentes.

residindo em vilas operárias: criou-se assim um espaço industrial constituído de lugar de produção e de residência. O segundo padrão locacional envolvia as indústrias que não eram dependentes da força hidráulica. Os núcleos secundários: o comércio e serviços. mas não distantes no espaço urbanizado de modo contínuo. a introdução de novas técnicas produtivas e o aumento da escala de produção. Ruas de autopeças. Tratava-se de fiações e tecelagens localizadas junto às fontes de energia hidráulica e de suas águas límpidas necessárias às suas diversas operações fabris. lojas de esquina. que exigiam terrenos maiores. tais indústrias tinham junto a si uma força de trabalho cativa. A descentralização no que se refere ao comércio e serviços gerou um complexo conjunto de núcleos. muitas indústrias. Distritos médicos. que se vislumbra no quadro abaixo: FORMA/FUNÇÃO HIERARQUIZADA ESPECIALIZADA Áreas Subcentros: regional de bairros. etc. A partir de meados do século XIX a industrialização vai gerar dois padrões locacionais intraurbanos.Em termos de territórios: certos setores da cidade são mais procurados do que outros pelas atividades da área central. tornaram para. distrito de diversões. Em breve esse espaço seria efetivamente incorporado à cidade. ruas de imóveis. ruas de confecções. A descentralização industrial inicia-se nos primórdios do século XX. As deseconomias externas da área central. De um lado um padrão envolvendo áreas que eram periféricas. Tal padrão tinha na indústria têxtil um bom exemplo.9 Os núcleos secundários: a indústria. Tais indústrias localizavam-se no espaço que hoje constitui a área central. Eixos Rua comercial de bairros. etc. de bairro. tornando-se um bairro ou um subúrbio. rua comercial de bairro. Isoladas da cidade. impraticável uma .

sede de empresas industriais com ligações entre si tanto à montante como à jusante. Na estrutura descentralizada da atividade industrial há ainda numerosas pequenas e médias indústrias distribuídas por quase toda a cidade. A coesão ou magnetismo funcional é verificado em relação as atividades que: apesar de não manterem relações entre si. O distrito industrial. formando um conjunto coeso que pode induzir o consumidor a comprar outros bens que não faziam parte de seus propósitos.10 Segregação e as áreas sociais. como terrenos preparados (acessibilidade. Exemplo: pequenas indústrias que sozinhas não teriam escala suficiente para atraírem outros industriais. através da socialização de vários fatores de produção. empresas de transportes e serviços de reparação de máquina. são complementares entre si. juntas criam economias de escala. resulta de uma ação do Estado visando. que formam um conjunto funcional que criam monopólio espacial. O processo de coesão pode ser definido como aquele movimento que leva as atividades a se localizarem juntas. água e energia) e de acordo com interesses de outros agentes sociais. acessibilidade é fundamental. criam economias de aglomeração para as atividades de produto industrial. como se exemplifica com as associações funcionais entre fabricação. é sinônimo de economias externas de aglomeração. mesmo sendo de natureza distinta. Exemplo: shopping centers e subcentros regionais espontâneos. Exemplo: as que produzem grandes portões. estão localizadas juntas umas das outras. O primeiro destes processos é o de segregação residencial que é definido como sendo uma concentração de tipos de população dentro de um lado do território. atacado de confecções. A expressão espacial da segregação é a área natural . Neste caso. Coesão e as áreas especializadas. ou autopeças. atraindo consumidores.localização na área central. bancos. exigem contatos pessoais face a face. de localização periférica. companhias de seguros. são exemplos deste fenômeno. como as lojas varejistas de mesma linha de produtos. As ruas especializadas em móveis. definida por Zorbaugh sendo uma área geográfica caracterizada pela . como proprietários fundiários e industriais. esquadrias metálicas no Rio de Janeiro.

desvios de consciência de classe e projeção ideológica. Segregação e classes sociais. e não apenas a cidade capitalista. classes distintas de consumo visando a uma demanda variável e contínua. A segregação residencial é. . que emergem devido às necessidades de preservar os processos de acumulação de capital através de inovações tecnológicas e controlar as mudanças na organização social. replicando ao nível da cidade de processos que ocorrem no mundo vegetal. Trata-se. aparecimento de uma classe médio burocrata. um processo que se origina a tendência a uma organização espacial em áreas de forte homogeneidade social interna e de forte disparidade entre elas . urbanização e etnia. de um processo que caracteriza a cidade. ainda que sob a égide do capitalismo a segregação assume novas dimensões espaciais. bairros operários com modestas residências unifamiliares. como se verifica o rebatimento no espaço das classes sociais fragmentadas? Verificase basicamente devido ao diferencial da capacidade de cada grupo social tem de pagar pela residência que ocupa. Porém. segregados. capital e trabalho. portanto. o conceito de áreas sociais definido por Shevky e Bell como sendo áreas marcadas pela tendência à uniformidade da população em termos de três conjuntos de característica: status sócio-econômico. é importante que se conheça como no capitalismo as classes sociais foram estruturadas. Há três forças básicas que estruturam as classes sociais: uma força primária. etc. Tais forças geram: fragmentação da classe capitalista e proletária devido à divisão do trabalho e especialização funcional. bairros homogêneos. Para se compreender isto melhor. como por exemplo. a qual apresenta características diferentes no que se refere ao tipo e à localização. parcialmente liberado de suas raízes naturalistas. A uniformidade de tais características origina áreas sociais. A segregação residencial é uma expressão espacial das classes sociais. controle sobre a mobilidade social através da criação de barreiras. conforme aponta Castells.individualidade física e cultural. em realidade. contato entre um modo de produção dominante e subordinado. forças derivativas. Ao conceito de áreas naturais aparece mais tarde. Seria ela resultante do processo de competição impessoal que geraria espaços de dominação dos diferentes grupos sociais. isto é. uma força residual.

fábricas e escritórios. Sua atuação se faz. em alguns casos. mas também um meio de controle e de reprodução social para o futuro. Este generalizava a maneira como os grupos sociais estavam distribuídos nas cidades da Europa continental. a segregação residencial significa não apenas um meio de privilégios para a classe dominante. Subjacente à ação estatal está a classe dominante ou algumas de suas frações. mais recentemente. constitui-se no local de produção. as residências e os bairros. o serviço de escolas públicas eficientes. de 11 um lado. Quem produz a segregação? Já vimos o papel do Estado na segregação residencial. entre eles. Esta diferença reflete em primeiro lugar um diferencial no preço da terra que é a função da renda esperada que varia em função da acessibilidade e das amenidades. enquanto o lugar de trabalho. Neste sentido. através da auto-segregação na medida em que ela pode efetivamente selecionar para si as melhores áreas. De fato. a reprodução das relações sociais de produção constituiu o papel mais importante que a organização espacial na cidade está destinada a cumprir: e é via áreas sociais segregadas que isto pode ser implementado. a primeira referindose a segregação da classe dominante e a segunda a dos grupos sociais cujas opções de como e onde morar são pequenas ou nulas. O significado da segregação. Quais são os padrões espaciais da segregação? Existem três padrões de segregação residencial que são conhecidos pelos nomes daqueles que formalizaram evidências empíricas sobre a distribuição espacial das classes sociais e suas frações na cidade: são os denomidados modelos de Kohl. Os padrões espaciais. excluindo-as do restante da população: irá habitar onde desejar. constituemse no local de reprodução. dispondo de áreas de lazer e certos serviços de uso exclusivo. A segregação residencial pode ser vista como um meio de reprodução social. conforme a figura abaixo: O primeiro modelo foi formulado em 1841. o espaço social age como um elemento condicionador sobre a sociedade. A expressão desta segregação da classe dominante é a existência de bairros suntuosos e. de acordo com Lefébvre. definidos como unidades territoriais e sociais.Em relação ao onde morar é preciso lembrar que existe um diferencial espacial na localização de residências vistas em termos de conforto e qualidade. dos condomínios exclusivos e com muros e sistemas próprios de vigilância. Em realidade pode se falar em auto-segregação e segregação imposta. de Burgess e de Hoyt. Assim. e nesse sentido. numa época em que os efeitos do capitalismo sobre a organização espacial não se faziam sentir plenamente: tratava-se na realidade da .

etc. assim como anteriormente à mobilidade intra-urbana era muito limitada e a localização junto ao centro da cidade constituía uma necessidade para a elite porque ali se localizam as mais importantes instituições urbanas. O padrão latino-americano. um padrão espacial pode permanecer por um longo período de tempo. O processo de inércia atua na organização espacial intraurbana através da permanência de certos usos e certos locais. O processo em questão vai traduzir-se na preservação simultânea da forma e do . Com base nas grandes cidades norte-americanas da década de 1920 (ver o segundo esquema). caracterizada por forte imobilismo sócio espacial. Ex. A dinâmica da segregação é própria do capitalismo não sendo típica da cidade pré-capitalista. através do processo de renovação urbana. As áreas residenciais de auto status localizam-se nos setores de maiores amenidade. ou mudar rapidamente. generalizava-se um padrão de segregação residencial em que os pobres residiam no centro e a elite na periferia da cidade. A dinâmica espacial da segregação gerou de um lado. área de absolescência em torno de um núcleo central. apesar de terem cessado as causas que no passado justificaram a localização deles. A coexistência dos três padrões aparece claramente nas grandes cidades latino-americanas. A segregação é dinâmica. a partir de um dado momento. encontrando-se cercadas pelos setores de população de baixo status. em aprazíveis subúrbios. A segregação tem um dinamismo onde uma determinada área social é adequada durante um período de tempo por um grupo social e. Mobilidade e segregação. A lógica deste padrão residia no fato de que na metade do século XIX. Este processo de fazer e refazer pode ser rápido ou lento: como uma fotografia. a segregação espacial não assumia um padrão em círculos em torno do centro. A figura abaixo procura dar conta desta dupla dimensão da dinâmica da segregação:13 A segunda figura indica a mobilidade da população de baixo status.cidade pré-industrial. aquilo que a literatura registra como sendo a zona em transição . por outro grupo de status inferior ou. enquanto na 12 periferia viviam os pobres. também denominada de zona periférica do centro . Moscou no final do século XIX. A cidade era marcada pela segregação da elite junto ao centro. No esquema três.: cidades africanas no período colonial. Dinâmica espacial da segregação. envolvendo espaço e tempo. em alguns casos superior. mas em setores a partir do centro. Inércia e as áreas cristalizadas.

estrutura territorial e espaço socialmente produzido. Que relações existem entre os diversos tipos funcionais de cidade e a organização espacial? São significativas. Estão organizadas em dois grandes blocos. também. Valor de uso e valor de troca: o primeiro está relacionado à esfera de consumo e o segundo à de circulação. Em relação aos proprietários dos meios de produção. . bem como núcleos urbanos de diferentes dimensões demográficas e de renda. Organização espacial: é o conjunto de objetos ou formas espaciais criados pelo homem ao longo da história. na realidade. Renda da terra: constitui-se na remuneração que se obtém em razão da exploração da terra. entre outros tipos. O mesmo que arranjo espacial. o processo de substituição ou invasão-secessão. proprietários fundiários. V Considerações Finais Vamos finalizar este trabalho apresentando algumas questões para pesquisa. Estado e grupos sociais excluídos. e não apenas na forma como mudança de conteúdo. O primeiro refere-se aos agentes modeladores do espaço urbano e o segundo aos processos e formas espaciais. Externalidades: efeitos econômicos sobre as empresas e atividades decorrentes da ação de elementos externos a ela. Quais são as implicações deste fato? Ex. Segundo bloco: Que diferenças na organização do espaço urbano existem em cidades de diversos tamanhos? Deve-se à natureza das funções e forma espaciais. portuárias. pois isto seria. VI Vocabulário Crítico Escola de Chicago: constitui uma tentativa de transposição dos princípios básicos da ecologia vegetal para o urbano. centros metropolitanos e centros regionais. as diferenças de organização espacial de cidades com diferentes taxas de crescimento demográfico.: cidades na fronteira agrícola que apresentam taxas de crescimento muito elevadas. promotores. configuração espacial. Que estratégias e práticas desempenham cada um dos agentes nos diferentes tipos e tamanhos de cidades? Esta questão envolve a ação dos agentes em cidades industriais.conteúdo.

geralmente. a que se refere. Os Atlas escolares apareceram no século XIX com a inclusão da Geografia nos currículos escolares. Porém. indicando um nome. Em seu Atlas Général.Os Atlas Escolares na Sala de Aula Clézio dos Santos[*] publicado em 01/09/2008 O Atlas Escolar. depois. um Atlas apresenta uma organização dada por seu conteúdo. regionais. em que país fica.. o trabalho didático com Atlas deve começar por levar os estudantes a aprender como entrar em um Atlas e saber o que podem encontrar aí. Em muitas escolas fazem parte da lista de materiais a serem adquiridos e raramente faltam nas bibliotecas escolares até mesmo nas pouco equipadas. partindo de planisférios para mapas continentais e.12). Os mais completos possuem um índice analítico que possibilita localizar rapidamente o que se deseja. Vidal de la Blache já tinha incluído encartes e diagramas em grande quantidade para seguir a seguinte concepção: um Atlas que facilite as comparações e. na maior parte das vezes. Novos estudos vêm sendo desenvolvidos pela área de cartografia escolar no Brasil. O Atlas escolar serve como apoio ao ensino nas aulas de Geografia e no desenvolvimento de trabalhos. bibliografia e outros documentos anexos. (AGUIAR. Isto porque muitos professores ainda não sabem utilizar esse precioso instrumento para enriquecer suas aulas. informações a respeito de alguns países ou orientações sobre como usá-lo. LE SANN & ALMEIDA (2002) apresentam algumas idéias para o ensino com Atlas geográficos. mas pouco explorado. de diagramas. nacionais. textos explicativos. BRA (PR) . Os Atlas trazem. a página e a quadrícula onde se encontra. regionais. glossário. Então. Os Atlas geográficos vinculam-se a uma interface entre Geografia e Cartografia e sua definição usual é a de uma coleção ordenada de mapas com o propósito de representar um dado e expor um ou vários temas. tais como bandeiras. o entendimento e o conhecimento do espaço geográfico. Como todo compêndio. onde novos formatos de Atlas escolares estão sendo construídos e testados. ou mesmo um objeto pouco folheado nas bibliotecas . Ele é um importante instrumento de ensino aprendizagem da geografia no ambiente escolar. Os Atlas podem ser mundiais. Segundo AGUIAR (1997) Um Atlas pode ser definido como uma publicação formada por um conjunto de mapas acompanhada. publicado na França em 1894. uma seqüência de pranchas que apresentam mapas temáticos. p. a seqüência Guaratuba Cid BRA (PR) 109 3B pode ser assim entendida: Guaratuba Cid significa que é o nome de uma cidade. escolares ou ainda. de vegetação.1997. Por exemplo.. ou não. temáticos (climático. um material didático presente nas aulas de geografia. conseqüentemente.). da fauna. ele ainda é um peso na mochila .

Valéria Aguiar chamava a atenção da comunidade científica para a necessidade de produzir Atlas locais e municipais para atender às necessidades de trabalhar os conceitos geográficos.aprender a manusear o Atlas. continente americano. . As práticas de sala de aula devem possibilitar aos alunos: . Por exemplo. diversos professores e pesquisadores ligados ao grupo de cartografia escolar no Brasil elaboraram Atlas locais. e Atlas escolar de Santo André (2005). O desafio de produzir Atlas locais e municipais próprios se transforma num grande desafio metodológico que pode envolver toda a escola num trabalho interdisciplinar propiciando um ambiente de ensino-aprendizagem ainda mais rico. Esse conceito está vinculado ao de escala. Uma sugestão de atividade interessante e simples é pedir para os alunos formarem grupos. países e regiões.saltoparaofuturo. Histórico e Ambiental de Rio Claro (2002). disponível no site: www. depois mapas que abrangem áreas menores. Os alunos devem justapor os Atlas nessa seqüência e discutir as seguintes perguntas:O que acontece com as áreas abrangidas.perceber a distribuição geográfica dos fenômenos ou dos dados mapeados. partindo do espaço vivido pelo aluno. . valem à pena conferir. mapa da região brasileira onde se localiza a cidade na qual os alunos moram. Atlas Geográfico. 109 é o número da página onde se encontra essa cidade e 3B indica em que quadrícula. Nesse sentido. Eles devem abri-los nas páginas que apresentam os seguintes mapas políticos: planisfério. Atlas Escolar de Gouveia (1997). que não apareciam nos mapas anteriores. usando vários exemplares do mesmo Atlas. vários foram os Atlas municipais escolares produzidos no Brasil. duas experiências brasileiras de produção de Atlas escolares municipais interativos.perceber que o Atlas apresenta primeiro mapas de toda a superfície da Terra. quanto mais uma área é reduzida. no mapa regional é possível ver cidades. .br. como continentes.gov.refere-se ao Brasil (estado do Paraná). Isso é chamado de generalização cartográfica. LE SANN & ALMEIDA (2002) apresentaram em seu texto. Em 1997. menos detalhes podem ser incluídos e maior é a área abrangida pelo mapa. destacamos Atlas Escolar Ijuí (1994). Os Atlas escolares devem estar mais presentes dentro da sala de aula na disciplina escolar de geografia. do primeiro para o último mapa? O que acontece com os detalhes apresentados em cada um dos mapas?Irão perceber que os detalhes aumentam conforme a área abrangida diminui. iniciando pela consulta do índice. Brasil. . Atlas Geográfico de Juiz de Fora (2000). isto é. rios. estradas etc. que consiste na relação entre a área abrangida pelo mapa e a quantidade de informação que ele apresenta. Com a intenção de contribuir para que outros também desenvolvam Atlas para sua cidade. . seja no ensino fundamental como no médio. Desde o início da década de 1990. América do Sul.identificar as diferentes seções e seu conteúdo. Atlas Escolar da Cidade do Rio de Janeiro (2002).comparar mapas e estabelecer relações entre eles.

contudo. foi comum a utilização de São Paulo. em geral. que resultaram na difusão de expressões como "reversão da polarização". São Paulo e região mantiveram sua relevância demográfica e econômica e ainda exercem forte influência em grande parte do território nacional. possa representar um quadro de desconcentração espacial da população brasileira. É por essa lacuna que o presente trabalho pretende trilhar. há pelo menos um relativo consenso acerca das evidências empíricas de queda no ímpeto de crescimento populacional dos grandes centros metropolitanos brasileiros nas últimas décadas do século passado. resultado de critérios distintos na delimitação e definição dos municípios que integram cada uma delas. estando ainda restrita às periferias imediatas das metrópoles? No levantamento das evidências empíricas. tendo em vista tratar-se. foram utilizadas as bases referentes aos dois últimos Censos Demográficos. mesmo que os principais centros metropolitanos tenham mantido sua expressão demográfica regional e continuado a atrair expressivos contingentes populacionais. o que possibilitou identificar os movimentos migratórios intermunicipais. Embora os processos de urbanização e metropolização no Brasil sejam recentes.Introdução Uma das questões de interesse dos estudos regionais refere-se ao suposto processo de desconcentração espacial da população e das atividades econômicas. notadamente no que se refere aos movimentos migratórios. algumas questões podem ser exploradas: as evidências trazidas pelos dados censitários das últimas duas décadas demonstraram uma dispersão espacial a partir dos principais aglomerados metropolitanos? Haveria um rearranjo dos fluxos migratórios no interior das Regiões de Influência das principais cidades brasileiras? Seria a dispersão espacial evidenciada pela intensificação e difusão da emigração metropolitana? Ou essa dispersão é muito incipiente. de espaços com razoável contiguidade física e forte nível de interdependência. estabelecidas pelo IBGE. Contudo. Rio de Janeiro/Niterói. Ainda que outras pesquisas tenham considerado o núcleo e a periferia entidades distintas e separadas. são raros os trabalhos sobre migrações internas. O objetivo principal é avaliar a atual magnitude da dispersão espacial da população brasileira. Além do mais. Em estudos anteriores. Cabe. Embora sejam unidades políticas e administrativas distintas. A análise centrada . Além das contribuições da economia regional. expor algumas considerações iniciais. Afora as recorrentes controvérsias. parece pouco razoável não considerar as RMs em sua integralidade. Veja os exemplos de São Paulo/Guarulhos. "desenvolvimento poligonal". A análise espacial dos fluxos migratórios permite reconhecer dimensões ainda pouco exploradas na abordagem convencional nos estudos sobre o processo de desconcentração ou dispersão espacial da população. Outro ponto diz respeito à não adoção de um único núcleo polarizador. RM ou Estado. "desconcentração concentrada". tendo como recorte espacial de análise as Regiões de Influência das principais metrópoles do país. tanto econômica quanto social e política. a partir do qual era avaliada a suposta desconcentração espacial. Curitiba. como centro aglutinador. O pressuposto principal é de que essa dispersão se materializa pelo crescimento no volume dos fluxos de população migrante das Regiões Metropolitanas (centro dispersor) para os demais municípios de cada uma das Regiões de Influência. cujas inter-relações justificaram o próprio estabelecimento das Regiões Metropolitanas. Belo Horizonte/Contagem. por exemplo. No âmbito da Geografia. os dados referentes aos dois últimos Censos Demográficos parecem confirmar uma tendência de dispersão espacial da população. Diante desse propósito. são espaços altamente articulados. etc. Uma primeira refere-se à adoção da Região Metropolitana (RM) como centro de dispersão. parece pouco plausível supor que a aceleração do crescimento demográfico das Regiões Metropolitanas de Belo Horizonte. Mesmo que existam diferenças quando comparadas as diversas Regiões Metropolitanas no Brasil. principalmente aqueles que utilizam informações censitárias para estimar os movimentos espaciais da população. esse debate requer ainda novas evidências sobre os efeitos da distribuição espacial da população. praticamente restrita à Demografia e à Economia. considerada a distância envolvida nos vetores migratórios. optou-se em manter a unidade dessas regiões. seja o município. Recife e Salvador.

o ponto de inflexão médio e os custos sociais marginais refletem o começo de crescentes deseconomias de aglomeração. o crescimento continuado da concentração das atividades econômicas não leva a um perpétuo aumento da eficiência. a área central começaria a perder população. da elevação no preço médio da terra (que passa a sofrer concorrência entre usos alternativos de solo) e do trabalho (aumento do custo de vida devido aos custos crescentes de transporte e habitação. Richardson. a exemplo do papel da migração na dinamização de São Paulo ou do CentroOeste brasileiro. quando haveria uma dispersão ampliada. todavia. Para Redwood III (1984). Reversão da polarização. a partir da qual ocorreria a dispersão para fora da região central.. explicados em parte pelas altas do preço da terra).2 O crescimento demográfico e econômico das cidades secundárias reflete uma combinação de diversos fatores. desconcentração concentrada e desenvolvimento poligonal Uma obra de referência na discussão sobre o processo de reversão da polarização foi elaborada por Richardson (1980). a Reversão da Polarização [RP] pode ser definida como o ponto de inversão. na sequência a dispersão também atingiria os centros secundários. 1984). em que os núcleos adjacentes passariam a apresentar crescimento mais acelerado do que o centro. exigem a intervenção pública na economia local (REDWOOD III. para além da expansão das cidades secundárias no entorno do core metropolitano. A relação custobenefício altera-se a favor de custos crescentes. tornando-se catalisadora de profundas mudanças na realidade regional.3 De acordo com esse autor. a redistribuição da população deixa de ser uma mera consequência de determinados processos espaciais. p. em várias circunstâncias. serviços públicos e administração governamental local aumentam em termos per capita com o crescimento da cidade. Para esse autor. a produção e divulgação de indicadores específicos podem ser úteis à elaboração e proposição de políticas públicas necessárias à redução das desigualdades regionais no país..67-68. e finalmente. Em várias circunstâncias. (RICHARDSON. Mais que uma ampliação de escala. 1980. quando as tendências de polarização espacial na economia nacional dão lugar a um processo de dispersão espacial fora da região central em outras regiões do sistema. Os benefícios marginais derivados da escala urbana e da concentração produtiva tendem a diminuir a partir de certo tamanho de população. que ocorrem em função do incremento da congestão e contaminação (em conjunto com os fatores sociais tais como aumento da criminalidade e da marginalidade).] Esse processo de dispersão inter-regional é a principal característica da RP. [. Os custos médios de prover infraestrutura física. essa abordagem regional permite identificar processos espaciais que ocorrem em níveis hierárquicos inferiores. em sequência ocorreriam transformações estruturais na área central. . Esse processo acontece a partir de uma sequência de fases: no início haveria um processo bem definido de concentração econômica. Para Richardson. políticos ou econômicos determinantes da dispersão espacial. que. quando se estabelecem um centro e uma periferia. as deseconomias caracterizam-se pela mudança de tendência de polarização espacial na economia nacional. afirma que a difusão do crescimento inter-regional é uma condição inerente ao processo de reversão da polarização. mais próximos das relações que se estabelecem entre os centros regionais e os demais municípios de sua área de influência.1 Ainda que não seja objetivo deste trabalho investigar os fatores sociais.nas Regiões de Influência das principais Regiões Metropolitanas do país pode conduzir a resultados mais consistentes e coerentes com a realidade atual. tradução nossa). o terceiro estágio marcaria o início do processo de reversão da polarização.

Ao trabalhar com as principais tendências demográficas e a localização da atividade industrial. de modo que a razão entre a população da maior cidade e a população total do Estado começa a decrescer. em um sentido . favorecendo os centros secundários mais próximos. hospitais e algumas atividades comerciais. No exame do desenvolvimento econômico regional. madeira. papel e metalurgia. As controvérsias vão desde as evidências empíricas. Um dos primeiros trabalhos que avaliou a possível reversão da polarização no Brasil foi realizado por Townroe e Keen (1984). No âmbito da análise regional. Azzoni (1986). que cumprem papel fundamental na eficiência econômica e no desenvolvimento regional. Com a constatação da perda da participação do Estado de São Paulo a partir do final da década de 1950. Townroe e Keen calculam quatro índices de reversão da polarização: porcentagem da população urbana localizada na área metropolitana. a atenção dirigida às necessidades das cidades secundárias. há várias tentativas de aplicação desses modelos para o caso brasileiro. as proposições sobre o possível processo de reversão da polarização no Brasil sofreram inúmeras críticas. as evidências indicam que. o fenômeno observado em São Paulo estaria mais próximo de um espraiamento da indústria dentro da área mais industrializado do país. Para Azzoni. o que é possível pelas oportunidades abertas pelo desenvolvimento tecnológico. critica o fato de o tamanho da cidade ser considerado indicador de economias aglomerativas. incluindo aço) podem estar localizadas próximas de grandes cidades. Ao admitir que as vantagens aglomerativas estão presentes no ambiente urbano. A ideia essencial é que a atração regional transcende o ambiente urbano.4 É essencial. Outro grupo de indústrias se dirige às cidades secundárias para se servir dos mercados locais protegidos da concorrência externa. o autor sugere que certos tipos de atividade industrial tendem a naturalmente se localizar nessas cidades. Os autores consideram que esse processo verifica-se a partir do ponto em que a concentração da população urbana na região central começa a declinar. por exemplo. longe de constituir-se um sinal de reversão da polarização. como universidades. que a partir de um ponto passariam a atuar na direção oposta: da desconcentração. descentralização urbana e reversão da polarização se difundiam em todo o sistema urbano (REDWOOD III. a exemplo da linha de polarização psicológica e do transporte de ideias. Redwood III (1984) também apresentou evidências sobre o caso brasileiro. representados pelo papel concentrador de determinadas forças sociais e econômicas. é imprescindível considerar a região capaz de gerar um campo de atração sobre novos investimentos. dados os custos de transportes relativamente altos. os graus de desigualdade social e econômica. A transição demográfica. mudança na porcentagem da população urbana localizada na área metropolitana. Seria aproximadamente um tipo de suburbanização das atividades industriais em âmbito mais abrangente. valendo-se da proximidade dos mercados. Alguns serviços de maior magnitude e mais especializados. porcentagem do crescimento da população urbana absorvido pela área metropolitana. embora os custos locacionais sejam essencialmente urbanos. 1984). o autor acredita que estaria em curso um processo de desconcentração das principais áreas metropolitanas. procuram se instalar em centros médios. Pelo contrário. As indústrias de bens intermediários baseadas em recursos naturais (química. na interpretação de Redwood III. plásticos.Talvez seja exatamente essa dispersão inter-regional o principal aspecto controverso sobre a ocorrência da reversão da polarização no Brasil. cujas particularidades estruturais e setoriais vão oferecer dificuldades adicionais à interpretação desse fenômeno. em um processo do tipo "desconcentração concentrada". e diferença da taxa média anual de crescimento populacional entre a área metropolitana e o restante do Estado. é no mínimo apressada a suposição de que haveria um processo de reversão da polarização no Brasil. os padrões de desenvolvimento rural e as formas institucionais e sociais de difusão de informações e inovações podem incrementar ou não a concentração na distribuição da população urbana. até o tipo de variáveis e a metodologia utilizada. de modo a reduzir custos de transportes. foram encontradas evidências de que os processos de suburbanização. Esses autores ainda sugerem certa dualidade dos fatores que levam à concentração das atividades econômicas. Ainda que possam parecer bastante atraentes.

mas sim a ação de um campo aglomerativo que inclui um conjunto de cidades. Ao contrário. Nesse nível de análise. ficando de fora o Rio de Janeiro e a maior parte do território brasileiro. Azzoni acredita que a Região Metropolitana de São Paulo não deve ser considerada referência para análise das alterações espaciais no Estado paulista. (AZZONI. p. (DINIZ. a grande ênfase em indústrias de alta tecnologia e o relativo declínio e fracasso das políticas regionais e do investimento estatal abrem uma terceira possibilidade. se encontra presente nos grandes centros urbanos do país (MATOS. Diniz (1993) incorpora uma série de outros aspectos. 1993. o autor reforça essa dualidade. as economias de aglomeração. além das economias de aglomeração. Entretanto. esse campo exerce uma forte força de atração sobre os investimentos industriais e. p. presentes em recortes espaciais como o do polígono do desenvolvimento de Diniz. o processo de unificação do mercado nacional e suas implicações para a concorrência intercapitalista e as estruturas produtivas regionais. Para Diniz (1993). Estamos chamando este processo de aglomeração poligonal. 1986. as redes geográficas e particularmente as redes urbanas mostram-se mais eficientes à análise econômico-espacial do que as visões duais do território brasileiro. Ao contestar alguns dos pressupostos e os resultados apresentados por Azzoni. As conclusões de Diniz (1993) introduzem a ideia de que o resto do país ficaria à margem dos efeitos cumulativos do desenvolvimento do core paulista. o qual. refletindo. especialmente porque os novos centros estão no próprio Estado de São Paulo ou relativamente próximos dele. o autor não trabalha com uma temporalidade prospectiva de longa duração e. o papel do Estado. é mais apropriado considerar o Brasil como um caso de desenvolvimento poligonal. Contudo. num raio de aproximadamente 150 km da Região Metropolitana. ocorreria a relativa reconcentração no polígono definido pela região formada por Belo HorizonteUberlândia-Londrina/ Maringá-Porto Alegre-Florianóplis-São José dos Campos-Belo Horizonte.amplo. esse campo aglomerativo amplia-se e reduz o próprio poder de atração do núcleo central. não vislumbra outras possibilidades de desenvolvimento econômico para o resto do país fora do padrão técnico-moderno prefigurado pelas sociedades de consumo dos países desenvolvidos. não parece que esta tendência de reversão em sentido amplo continuará até o final do século. 2003). De acordo com o autor. consequentemente. estendendo-se de Belo Horizonte a Porto Alegre. que cria obstáculos à desconcentração regional da indústria.126). Após a incontestável concentração econômica e demo-gráfica verificada até final da década de 1960. Diniz reforça a abrangência espacial restrita da suposta reversão da polarização para o caso brasileiro. iniciou-se. mas sim em espaços seletivos bem equipados e ricos em externalidades no país. onde um número limitado de novos pólos de crescimento ou regiões tem capturado a maior parte das novas atividades econômicas. afirmando que o Brasil verdadeiramente dinâmico está restrito a um "polígono" que abrange o Sul e parte do Sudeste do país. Ao avaliar o processo recente de desenvolvimento industrial e desconcentração econômica. O resultado está longe de ser uma verdadeira desconcentração. À medida que aparecem novos avanços tecnológicos.35). sobretudo. o "espraiamento" industrial brasileiro não ocorreu apenas dentro do limitado raio de 150 km da área metropolitana de São Paulo. Nesse espaço. o processo de desconcentração não teria ocorrido de modo ampliado. Segundo o autor. p. o processo de reversão dessa polarização. Nesta o processo de desconcentração será enfraquecido e o crescimento tenderá a se circunscrever ao estado de São Paulo e ao grande polígono em torno dele. em um primeiro momento. que se ressente da ausência da . assim. (DINIZ. Em uma segunda fase. o espraiamento para o interior de determinados Estados. 1993. sobre a população. e a concentração regional da pesquisa e renda. evidentemente. destacam-se: a distribuição espacial dos recursos naturais.54). para separação das atividades produtivas das atividades de comando empresarial. Desses aspectos.

5 Matos (1995b) também acredita que importantes mudanças no padrão de distribuição espacial da população estão em curso. e se as explicações existentes abrangem todos os casos. a decisão de migrar está vinculada a uma decisão racional entre os chamados fatores positivos e negativos nas áreas de origem e destino. contudo. a predominância da migração feminina e também o fato de que as migrações tendiam a gerar movimentos sucessivos a partir de áreas próximas a um centro industrial ou comercial. A migração pode responder claramente aos fatores de expulsão do meio urbano (notadamente aos custos de moradia e à escassez de emprego). Acrescenta-se o fato de as mudanças recentes na distribuição da população e na estrutura econômica nacional terem ocorrido de forma bastante acelerada. ou mesmo em uma mudança de tendência demográfica de longo prazo. tradicionais ou modernas. no qual os movimentos migratórios internos assumem importante papel explicativo. reagem aos impactos das deseconomias de aglomeração buscando localizações alternativas. As principais regularidades encontradas pelo autor compreendiam a distância. incorporando informações a respeito dos movimentos internos nas sociedades de capitalismo tardio. sendo. tanto quanto as atividades. são depositárias de estruturas sociais pretéritas e futuras. como salienta Matos (1995b). os movimentos por etapas. no entanto. não parece plausível afirmar categoricamente sobre um amplo processo de reversão da polarização ou de desconcentração espacial. É bem provável que o país esteja passando por um ciclo de descompressão do crescimento urbano central. As redes mais importantes estão carregadas de técnica e história social. fluxos de pessoas. por exemplo. mas comumente traduzem materialidades espaciais. Para o autor: . apresentava-se explicitamente a relação entre as atividades econômicas e os deslocamentos espaciais da população. cujo motor principal é o acirramento das desigualdades regionais. ideias e culturas. que boa parte da expansão da urbanização do país nas últimas décadas deriva dos efeitos multiplicadores de espraiamento da concentração urbana e industrial do Sudeste. sem se conhecer. As redes podem expressar dimensões abstratas. lugares articulados por fluxos multivariados. informações. não econômicas. A suposição de que a realidade brasileira possa se enquadrar no modelo analítico da reversão da polarização. Fluxos migratórios e a dispersão espacial da população É importante destacar que a relação entre a migração e a estruturação do espaço não é tema novo na literatura.6 Quase um século mais tarde. e ao retorno às localidades de origem após a aposentadoria. Lee (1980) retomou as formulações de Ravestein. Dessa forma. Lee também acredita que a decisão de migrar nunca é completamente racional. ainda é prematura. São espaços e subespaços em movimento. qual é o verdadeiro alcance desse fenômeno. É indiscutível. Quando Ravenstein (1980) formulou suas teses sobre os movimentos migratórios. É seguro afirmar que as pessoas. famílias e instituições. mas pode também se associar a outro grupo de causas. a configuração das correntes e contracorrentes. Singer (1973). Esse processo estimulou o adensamento da rede urbana e os vínculos de complementaridade entre as centralidades. relacionadas à melhoria da qualidade de vida e/ou busca de amenidades. construções dinâmicas relativamente duráveis. que dão forma e sentido à vida de milhares de pessoas. portanto. capitais. é natural que pessoas distintas sejam afetadas de maneira diferente por uma série de obstáculos ou incentivos à possibilidade de migrar. portanto. considera a migração um reflexo da estrutura e dos mecanismos de desenvolvimento do sistema capitalista. diferente do que aconteceu em boa parte dos países desenvolvidos. Na interpretação desse autor. As redes urbanas. Dessa forma.noção moderna de rede geográfica.

1973. em geral. Para Singer. por exemplo. mais que um indicador de concentração ou dispersão das atividades econômicas. por exemplo. decorrentes da penetração do capitalismo no campo e da adoção de um sistema poupador de mão de obra.É claro que qualquer processo de industrialização implica uma ampla transferência de atividades (e. (SINGER. alguns pontos dessas definições devem ser destacados no desenvolvimento de determinados pressupostos e hipóteses deste trabalho. tanto na economia como na demografia.8 . Nessa mesma perspectiva estruturalista. Os fatores de expulsão podem ser divididos em: "fatores de mudança". em determinado intervalo ou em pontos definidos no tempo. associado à ideia de reversão da polarização e/ou de desconcentração espacial. Apesar de seu mérito. 1995b). que funcionam como forças de concentração espacial. nos moldes capitalistas. o que permite. permitem e alimentam o dinamismo das formas e funções dos elementos que compõem e caracterizam o espaço. os fluxos de informação. Ao analisar a migração.7 Em face das recorrentes controvérsias sobre o processo de dispersão espacial da população. Além disso. Essa condição de fluidez é particularmente relevante aos estudos sobre as migrações internas. Poucos avaliam o peso da migração de origem urbana. 222). tecnologia e experiência profissional. Também investem de modo insuficiente no entendimento dos efeitos positivos que a migração pode gerar na dinamização das regiões de destino. mas também causa para outros fluxos. a migração reflete processos sociais mais amplos. esvaziando as demais. não vinculada apenas às necessidades estruturais do sistema capitalista. várias possibilidades de análise extraídas a partir da variável distância ainda são pouco exploradas. e quase nunca consideram a migração de retorno (MATOS. Já as áreas de estagnação apresentam deterioração da qualidade de vida. estreitamente vinculada à criação. a certas possibilidades de novos investimentos e de intercâmbio técnico. por essência. O desenvolvimento desigual do sistema capitalista faz com que a população se distribua seguindo a mesma lógica de intensificação dos espaços econômicos. Os primeiros referem-se à necessidade de mão de obra decorrente do crescimento da produção industrial e da expansão do setor de serviços urbanos. Singer identifica os chamados "fatores de atração" e os "fatores de expulsão". Se a análise dos fluxos migratórios é recorrente no estudo demográfico. formando grandes reservatórios de mão de obra. ignoram as vantagens comparativas e as potencialidades externas que têm transformado os espaços de destino. Nesse sentido. de pessoas) do campo às cidades. expansão e articulação dos mercados de trabalho do país. Se o modo como são organizados os elementos do espaço pode ser visto como um resultado histórico da atuação dos atores sociais. no que diz respeito à oferta de mão de obra qualificada. mas a produtividade aumenta. fluxos que se manifestam e materializam no espaço. Tais desequilíbrios regionais são bem conhecidos e se agravam na medida em que as decisões locacionais são tomadas tendo por critério apenas a perspectiva da empresa privada. cujas causas e consequências vão além dos aspectos estruturais da economia. capitais e pessoas. Esses contingentes de migrantes que se deslocam no espaço são não apenas resultado de uma realidade social e/ou condição econômica momentânea. envolvendo. por exemplo. boa parte dessas teses responde apenas parcialmente às causas mais dinâmicas e específicas da migração. p. São. Para Santos (1997). vários autores que expressam a migração como mobilidade. há. uma melhora nas condições de vida locais. pelo menos em princípio. a necessidade de fluidez é uma das mais importantes características do mundo atual que é. As regiões de mudança perdem população. tal transferência tende a se dar a favor de apenas algumas regiões em cada país. e os "fatores de estagnação". que por definição envolvem o movimento de populações no espaço. portanto. condição e resultado. Embora Ravenstein (1980) já tivesse indicado a predominância dos movimentos de curta distância e a ocorrência do que denominou de correntes migratórias contrárias e o estabelecimento de etapas de migração. são raros os trabalhos que incorporam diretamente a dimensão distância como elemento efetivo da distribuição espacial da população. investimento. causa. Mas. ao mesmo tempo. a distinção entre áreas de emigração (sujeitas aos fatores de mudança) e de estagnação permite visualizar melhor suas consequências. tais formulações. associados à pressão demográfica sobre a disponibilidade de terras. funcionando às vezes como "viveiros de mão de obra" para os latifundiários e as grandes empresas agrícolas.

foram delimitadas suas áreas de atuação. também foi excluído da base Fernando de Noronha. saúde. as sedes de empresas cujas decisões afetam direta ou indiretamente um dado espaço que passa a ficar sob o controle da cidade através das empresas nela sediadas. Para investigar a articulação dos centros de gestão. além do próprio Estado de São Paulo. Uma delas refere-se à inclusão da rede de influência de Uberaba na Regic de São Paulo e não de Belo Horizonte. os diversos órgãos do Estado e. A intensidade das ligações entre as cidades permitiu estabelecer suas áreas de influência e a articulação das redes no território. foram realizados pelo IBGE. com base em dados secundários e informações obtidas por questionário específico da pesquisa.As Regiões de Influência das Cidades (Regics) do IBGE De acordo com o próprio IBGE. Em posição hierárquica superior na rede de influência destaca-se a Regic de São Paulo. . polarizada pela Grande Metrópole Nacional. o que reduziu o total de municípios para 5. em 1966. complementados pelos serviços de saúde. como representado na Figura 1. 1978 e 1993. De modo simplificado. Afora o mérito na delimitação regional proposta pelo IBGE. Com base nos dados do Censo Demográfico e na divisão política administrativa de 2000.506. que resultaram na divisão do Brasil em regiões funcionais urbanas de 1972. a partir de questionários que investigaram a intensidade dos fluxos de consumidores em busca de bens e serviços. apontando as permanências e as modificações registra-das. e a gestão empresarial. de um lado. Em função de sua posição peculiar e da consequente sobrevalorização das medidas de distância e implicações nos modelos propostos. ensino superior. retoma a concepção utilizada nos primeiros estudos elaborados pelo IBGE. a classificação de hierarquia na rede de cidades leva em conta dois níveis de centralidade: a gestão federal. que representam espaços altamente articulados social e economicamente. Nesse estudo privilegia-se a função de gestão do território. o Triângulo Mineiro e o Estado de Mato Grosso do Sul. possibilitando identificar 12 redes de primeiro nível. a delimitação das Regiões de Influência das Cidades (Regics) dá continuidade à tradição de estudar a rede urbana brasileira e visa construir um quadro nacional. denominadas Regiões de Influência (RI). Classificados em seis níveis de hierarquia. que separava as áreas de influência de Uberlândia e Uberaba. conforme sua posição no âmbito da gestão federal e empresarial. instituições financeiras. o sul de Minas Gerais. envolvendo.56% dos residentes no território nacional. nesse trabalho foram implementadas algumas adaptações metodológicas necessárias para a definição das unidades espaciais de análise. essa Regic compreende um conjunto de 847 municípios. segundo o qual o centro de gestão do território "é aquela cidade onde se localizam. de outro. e a delimitação de sua região de influência. Internet. que definiram os níveis da hierarquia urbana e estabeleceram a delimitação das regiões de influência das cidades brasileiras. avaliada a partir da existência de órgãos dos Poderes Executivo e Judiciário federais. bem como a presença de diferentes equipamentos e serviços (comércio e serviços. A reconfiguração das RIs está representada na Figura 2. integram o conjunto final 711 centros de gestão do território. redes de televisão aberta e conexões aéreas). como sugerido por Corrêa (1995)." Duas etapas metodológicas são centrais nessa nova Regic: a definição hierárquica dos centros de gestão do território. As áreas de influência dos centros foram delineadas a partir da intensidade das ligações entre as cidades. A atualização. Outra alteração foi a fusão das Regics de Brasília e Goiânia. Nessa proposta foi inicialmente estabelecida uma classificação hierárquica dos centros metropolitanos do país. Em seguida. Essa modificação se justifica pela descontinuidade espacial gerada na conformação do limite da Regic proposta pelo IBGE. foram considerados os eixos de gestão pública e de gestão empresarial. que identifica as 11 divisões regionais que compõem o primeiro nível hierárquico estabelecido nas Regics 2007 (Regiões Metropolitanas).38% do total e abrigam 24. Os estudos anteriores. realizada em 2007 e divulgada em 2008. que representam 15.

fruto. ainda que possa suscitar ressalvas e limitações. No entanto. onde os volumes e fluxos da população são especialmente relevantes.507 municípios (exceto Fernando de Noronha). a partir da avaliação das entradas e saídas de população nas principais regiões metropolitanas do país. serviu de base para as tabulações e análise de dados. pelo menos dois grupos regionais podem ser identificados (Tabela 1). nos dois quinquênios. mesmo que essas regiões funcionassem como núcleos de atração de população em suas respectivas Regiões de Influência. Os fluxos migratórios nas Regics metropolitanas: algumas evidências empíricas Um dos sinais de dispersão espacial da população brasileira pode ser identificado pelos fluxos migratórios intermunicipais. destacadamente para a RMSP. que envolvem mais diretamente os propósitos desse trabalho. com exceção das RMs do Rio de Janeiro e de Brasília. que compreendia um total de 5. porém. Nesse mesmo período. da redução no volume da emigração. ainda que baixos. Nesse mesmo período. ainda marcadas pelo histórico fluxo de migrantes que se deslocavam das RMs de Fortaleza. os valores foram menos expressivos e inferiores àqueles verificados no período anterior. Um deles compreende a dinâmica observada na Região de Influência de São Paulo (Risp). as demais RMs analisadas apresentavam saldo positivo nos dois períodos. em boa medida. significando um incremento de mais de 100 mil pessoas nessa corrente migratória. essas RMs ostentavam saldo migratório negativo em torno de 200 mil pessoas. Mais que isso. oferece um retrato mais próximo das relações de interdependência que se estabelecem no espaço. Nos dois quinquênios avaliados. encaminharam-se para esta região. sobreposto à divisão político-administrativa de 2000. enquanto no quinquênio anterior esse volume correspondeu a pouco menos de 273 mil. Em cada um desses períodos. ainda indicava um saldo migratório bruto positivo. Recife e Salvador perdeu mais de 400 mil migrantes no quinquênio 1995-2000. Essa atualização metodológica. denominadas de fluxos inter-Regics. o que dava sustentação aos níveis de crescimento demográfico positivos. Esse quadro. mais de 373 mil deixaram a RMSP.9 compreendidos nos períodos 1986-1991 e 1995-2000. por consequência. vindos das diversas regiões do país. resultante de uma emigração elevada. reflete as trocas diretas de população. divididos entre os fluxos inter e intrarregionais. em boa medida. quando analisadas as trocas de população entre as RMs e as demais Regics metropolitanas. no intervalo 19861991 cerca de 410 mil pessoas emigraram da RMSP para sua Região de Influência. tendo como ponto de inflexão as respectivas Regiões de Influência. o quadro é distinto. resultado direto do sensível crescimento no volume de emigrantes. com o crescimento demográfico verificado nesse intervalo. que mantinham um alto saldo migratório negativo. o saldo da RMSP manteve-se negativo e consideravelmente elevado. No que se refere aos fluxos migratórios no interior da mesma Regic. Em 1995-2000. Contudo. que envolviam os imigrantes ou emigrantes em cada uma das RMs. Em situação oposta destacavam-se as grandes regiões metropolitanas do Nordeste brasileiro. Recife e Salvador para o Sudeste. Como pode ser observado na Tabela 2. Ainda que esse volume tenha relação direta com o estoque da população residente em cada um dos levantamentos censitários e. Curitiba e Porto Alegre também apresentaram saldos negativos no quinquênio 1995-2000. o número absoluto de imigrantes foi reduzido quando . cerca de 600 mil imigrantes. nota-se também um expressivo aumento no número de emigrantes: no período 1995-2000. Cada uma das Regiões Metropolitanas de Fortaleza. que também exibiam saldos negativos. o volume desse fluxo atingia mais de meio milhão de migrantes. Em uma primeira aproximação. Por outro lado. o número de imigrantes na RMSP foi inferior a 150 mil. Foram considerados os fluxos migratórios de Data Fixa. a diferença entre as entradas e saídas de população. Quando comparados os dois quinquênios.Esse recorte espacial das Regiões de Influência elaborado pelo IBGE (2008). a RMSP destacava-se como a principal área de atração de população. As Regiões Metropolitanas de Belo Horizonte. essa regionalização permitiu avaliar a suposta dispersão espacial da população no interior das Regiões de Influência. quando comparado aos saldos migratórios da metrópole paulista.

Também cabe destacar os casos do Rio de Janeiro e Manaus.68%. como já descrita por Ravenstein (1980). em 1995-2000. os vínculos com a metrópole paulista também configuram campos de atração de população.08% do total.comparados os dois quinquênios. nos dois quinquênios. a intensificação da emigração procedente das RMs (número de vetores e volume de migrantes) sugere um rearranjo na dinâmica migratória regional do país. os valores referentes à distância média ponderada não corroboram de imediato essa tendência. foi observada pequena redução quando comparados os dois períodos (372. etc. notadamente nos casos de redução dos escores relativos à distância. clima. 85. Mesmo que os valores referentes às distâncias médias permanecessem elevados no caso da RMSP. elevando-se de 387. a proporção de emigrantes que se dirigiram para a RI-1. Em Brasília e Fortaleza. em 1986-1991. Quando avaliados os vetores migratórios que representam os deslocamentos espaciais da população. por exemplo. 788 municípios da Risp receberam emigrados da RM. Tabela 3 Ainda que fosse esperado um maior volume de migrantes com destino a essa RI-1. em 1986-1991. mais da metade dos emigrados das RMs encaminhou-se para a sub-região RI-1. hidrografia. foi o crescimento na emigração metropolitana. Em todas as Regics. entretanto. Manaus.11 A análise de dados. como resultado das trocas de migrantes com a RMSP. indica aumento no volume da população migrante que se dirigiu às áreas mais próximas da Região Metropolitana.456 dirigiram-se para a RI-1. em todas as Regics. novamente deve ser mencionado. foi superior a 90%. No período 1995-2000. Salvador e Curitiba. No quinquênio anterior. exceto as de Belo Horizonte e Manaus. a notoriedade dos fluxos migratórios na Regic de São Paulo chama atenção. nos dois quinquênios estudados. o que alimentou a redução das médias de distância dos movimentos migratórios. o crescimento no número de vetores foi ainda mais significativo. como na Regic de Porto Alegre. mais de 89% (722) exibiram saldo positivo. Algumas observações devem ser consideradas na interpretação desses indicadores. um crescimento absoluto e relativo no número de imigrantes procedentes das RMs. em 19952000.10 Excluídos os casos do Rio de Janeiro.. Novamente. em 1995- .77 km em 1995-2000). que exibiam os valores de distância mais elevados (todos com média superior a 300 km).79 km em 1986-1991 e 366. de um total de 808 municípios que integravam a Região de Influência de São Paulo (Risp). para 510 municípios. enquanto no intervalo anterior eram 702. De 1995 a 2000. dos 135. com características físicas peculiares. Mesmo que boa parte do crescimento no número seja consequência direta do aumento de municípios emancipados entre os dois Censos. O caso da RM de São Paulo. bastante diferenciados geograficamente. cujos volumes são mais expressivos. Em apenas alguns municípios localizados no Triângulo Mineiro e ao sul de Mato Grosso do Sul foram observados saldos migratórios negativos. em vários casos. observado em todas as Regics. os migrantes que tiveram como destino a RI-1 passaram de 62. No entanto. o que correspondia a 63. acrescenta-se o fato de também ter ocorrido. Muito mais relevante. discriminados em três Regiões de Influência (RI-1. Em alguns casos. RI-2 e RI-3). mesmo nesses espaços. No caso de São Paulo.12 conforme tercis de distância em relação ao núcleo metropolitano. Como representado na Figuras 3. para 68.13 Na RMRJ. na maior parte das Regics verificou-se redução na distância dos fluxos migratórios procedentes das respectivas RMs nos quinquênios 1986-1991 e 1995-2000. foram verificados ganhos de população em grande parte dos municípios de sua Região de Influência.84%. como relevo.19%. tendo em vista a predominância da migração de curta distância. Mesmo que o aumento na frequência de vetores de emigração das RMs para suas respectivas Regiões de Influência pudesse confirmar uma nítida dispersão espacial da população.482 emigrados. essa proporção era de 52. nota-se um aumento generalizado no número de municípios que receberam emigrantes das respectivas regiões metropolitanas. No quinquênio anterior eram 626 municípios nessa condição.

mas oferecem sinais de dispersão espacial da população. Campinas. bem como a desaceleração no ritmo de crescimento populacional das principais Regiões Metropolitanas. São Vicente. Santos. Contudo. Em vários aspectos. Praia Grande.957 pessoas de um universo de 510. Se a progressiva queda nas taxas de fecundidade foi responsável direta pela forte desaceleração no ritmo de crescimento demográfico do país. mas também pela consolidação de uma rede de cidades de médio e grande portes. onde os fluxos migratórios conferem a materialidade densa da rede. os efeitos dessa dispersão espacial da população mostram-se mais consolidados. Itanhaém. definida pelo limite de 240. fortemente vinculada à Região Metropolitana. nem a suposta desconcentração econômico-demográfica destacada por Redwood III (1984). todos com mais de 10 mil imigrantes. o crescimento demográfico acelerado de vários pontos na rede urbana brasileira que têm se destacado na atração de migrantes indica uma redistribuição espacial da população no interior das Regiões de Influência das principais metrópoles do país. a intensificação nos fluxos de emigrantes tem refletido diretamente no crescimento demográfico de vários núcleos urbanos fora das principais regiões metropolitanas brasileiras. No caso da Região de Influência de São Paulo. As últimas três décadas do século passado são centrais na análise da dinâmica demográfica brasileira. Mesmo que as maiores regiões metropolitanas brasileiras tenham mantido sua centralidade regional. nesse último quinquênio. como sugerida por determinados autores e proposta nos modelos clássicos da economia regional. Mesmo que as metrópoles e suas Regiões de Influência continuem atraindo expressivos contingentes.14 A Regic de São Paulo é emblemática não apenas pelo volume expressivo do contingente envolvido. a intensificação da emigração metropolitana sugere a alusão a uma das fases do modelo apresentado por Richardson (1980). entre outros. quando da redistribuição da população ao longo do sistema urbano. Mongaguá. Hortolândia. tem se mostrado inapropriada à análise do caso brasileiro. apontadas por Redwood III (1984). a progressiva queda relativa no peso econômico e demo-gráfico dos principais centros urbanos do país. já proeminente em determinados casos. Sorocaba e Sumaré. São José dos Campos. sobretudo no interior da rede de cidades mais próximas à capital. dos 18 municípios com mais de 5 mil imigrantes procedentes da RMSP. acumulam-se evidências acerca da redução do peso relativo das metrópoles. Considerações finais Ainda existem inúmeras incertezas acerca de determinados padrões de distribuição espacial da população brasileira. que se mantém como principal centro de atração de imigrantes do país. Campinas. Em 1995-2000. o que perfaz 347. Indaiatuba. boa parte dos municípios que mais receberam emigrados da RMSP pertencia à RI-1.260 emigrantes da RM com destino a toda a RI. requer um maior aprofundamento na avaliação de novas tendências e padrões na distribuição espacial da população brasileira. que cumprem função crucial na eficiência econômica e no desenvolvimento regional. A denominada Região de Influência 1 (RI-1) compreende muitos municípios que têm atraído um crescente número de pessoas que . Peruíbe. Praia Grande. Os resultados obtidos nesta pesquisa não confirmam a integralidade da reversão da polarização nos termos de Richardson (1980). refletindo as vantagens relativas das cidades secundárias. 14 localizavam-se na RI-115 (Figura 4): Atibaia. Sorocaba e São José dos Campos foram aqueles que mais atraíram população. Jundiaí. tornando mais densa a rede de cidades em cada uma de suas Regiões de Influência. São exatamente essas cidades secundárias. Como pode ser observado naFigura 3.2000. como na Região de Influência de São Paulo. A crença na suposta reversão da polarização. ou mesmo de desconcentração espacial.32 km. A partir da década de 1970. o que torna equivocado falar em desconcentração absoluta. as migrações internas foram fundamentais no processo de redistribuição espacial da população. Desse grupo.

Essas evidências. exercendo papel fundamental na distribuição geográfica da população e. como normalmente acarretam uma certa dose de prestígio. para além dos modestos 150 km do campo aglomerativo de Azzoni (1986). Outra conclusão deste trabalho refere-se à necessidade de se explorarem as ferramentas oferecidas pela análise espacial. . de se explorarem as bases de dados extraídas de fontes como o Censo Demográfico. sendo freqüente o uso de informações associadas. 2009). como dispersão urbana. uma aproximação para o dinamismo do mercado de trabalho. saúde. obviamente. Os indicadores elaborados e expostos. Uma revisão conceitual pode facilitar um melhor entendimento da possível dispersão espacial. Implicam também determinados graus de poder sobre os outros. conurbação. na Demografia ou mesmo na Geografia. adaptados à análise regional. 3Configurar a população brasileira a partir da distribuição de sua estrutura ocupacional traria novos e importantes elementos para compreender seu extremo quadro de exclusão e desigualdade. entretanto. confirmando ou não determinadas tendências ou indícios observados nesse trabalho. ainda que circunscritas aos fluxos migratórios ocorridos nas décadas de 1980 e 1990. culturais e ambientais influenciam o grau de desenvolvimento socioeconômico de uma região. são também relevantes para o status social. as ocupações estão ligadas à inserção dos indivíduos no mercado de produtos e. além de fornecer uma nova e relevante dimensão para a análise das relações entre espaço e desenvolvimento socioeconômico. Acrescenta-se. dada a conjuntura econômica e condições sociais específicas. deixar de considerar as diferentes posições sociais que podem surgir desta definição. a essas potencialidades. seja diretamente sobre os subordinados de uma empresa. escolaridade e infra-estrutura dos domicílios familiares (SEADE. 2A ocupação das pessoas é fator fundamental na definição da estrutura de uma sociedade. 2003). tal como tradicionalmente empregado na literatura.deixaram a RMSP. já recorrentemente utilizado pela Demografia. sugerem a necessidade de revisão dos conceitos de centro e periferia. devem ser requalificados diante das formações em rede. têm sido dedicada aos indicadores associados à composição da estrutura ocupacional. A centralidade regional restrita ao core metropolitano já não é suficiente à compreensão adequada da organização do espaço regional. na configuração espacial da sociedade. o que sugere tratar-se de uma forma de dispersão polinucleada (LOBO. sem. megalópole. Como fontes de renda. Assim como os condicionantes históricos. O recorte espacial oferecido pelas Regiões de Influência das Cidades. são exemplos das possibilidades oferecidas às pesquisas nas áreas de Ciências Humanas e Ambientais. 1979). Novas evidências podem ser trazidas à luz. portanto. à renda. por onde se observam claros sinais de expansão no interior da Região de Influência. O volume desses fluxos direcionados para os principais polos de atração nessa região foi tão expressivo que reduziu os valores de distância ponderada. das relações sociais e possibilidades de geração de renda de uma população. notadamente para a Geografia da População e os estudos sobre migrações. tendo como base a variável distância. Também deve ser destacada a importância. uma das vocações da Geografia: os estudos regionais. Conceitos tradicionalmente aplicados na análise urbana. que reúne evidências empíricas relativas às duas últimas décadas do século passado. por exemplo. os diferentes estágios de desenvolvimento regional determinam distintas estruturas ocupacionais. ou indiretamente em outras áreas da vida social (Mills. proposto pelo IBGE. ainda que possa ser criticado e contestado em relação aos conceitos e elementos metodológicos utilizados. Pouca atenção. consumo. permite uma análise diferenciada das tradicionais abordagens desenvolvidas pela Economia. O estágio de desenvolvimento socioeconômico de uma população pode ser verificado sob vários enfoques. Essa possibilidade ganha relevância tendo em vista a aproximação do Censo de 2010. ainda pouco utilizadas na Economia.

definir uma metodologia condizente de estratificação das posições no mercado de trabalho. seja em atividade de autoconsumo ou em ajuda a membro do domicílio. como descreve a Tabela 1. onde predominam atividades relacionadas ao comércio. que são exercidas de forma assalariada pelo ocupado (zeladores e ascensoristas. cuja identificação é dada em função do poder político. A posição ocupacional do indivíduo define sua classe ocupacional. deseja-se identificar clusters de desenvolvimento socioeconômico da estrutura ocupacional.) 5Para cumprir com os objetivos propostos1. do setor agrícola ou não agrícola. exercidas de forma assalariada pelo ocupado (auxiliares administrativos. escritório e prestação de serviços. Esta estrutura de classes é representada por 12 grupos principais. prestígio social e possibilidade de geração de renda de sua ocupação. aprendiz ou estagiário. que empregam menos de 10 ocupados Ocupações típicas de classe média. D Profissionais assalariados Trabalhadores autônomos F G Trabalhadores assalariados . entre outros) Ocupações não agrícolas de perfil operário ou assemelhado popular. Essa metodologia pressupõe que grupos ocupacionais relativamente homogêneos podem ser obtidos a partir da combinação entre a posição ocupacional (classes ocupacionais) e o rendimento do trabalho principal (estratos econômicos). aqueles que exerceram algum trabalho remunerado na semana de referência (inclusive afastados). Nessas estruturas. mostrando que as regiões geográficas também cumprem papel importante na configuração sócio-econômica dos municípios. a elaboração dos mapas coropléticos no programa Philcarto e a editoração das imagens no programa Inkscape. professores. supervisores. consideraram-se apenas os indivíduos ocupados. prestadores de serviços na área de higiene e estética corporal. entretanto.. do setor agrícola ou não agrícola. Estrutura ocupacional 7A distribuição dos municípios brasileiros segundo a composição de suas estruturas ocupacionais foi obtida a partir das informações da base de microdados da amostra do Censo Demográfico 2000. os resultados deste trabalho serão apresentados em três blocos principais. escritório e prestação de serviços. ajudantes de obras. onde predominam atividades relacionadas ao comércio.. ou seja. que são exercidas de forma independente pelo ocupado (vendedores ambulantes. as estruturas deste trabalho referem-se à distribuição dos ocupados e não dos integrantes familiares como um todo. ou seja. com a diferença de que estes se baseiam na composição do mercado de trabalho e não da sociedade como um todo. As análises estatísticas foram realizadas no pacote SAS. ii) identificação dos grupos de municípios relativamente homogêneos de desenvolvimento da estrutura ocupacional.4Aliando o emprego de técnicas de análise espacial e estatística multivariada. 6Os resultados são semelhantes aos apresentados por Gori Maia (2008). entre outros). além desta parte introdutória e das considerações finais: i) descrição da metodologia de estratificação ocupacional. ou não remunerado. Tabela 1 ± Classes ocupacionais Sigla A-1 A-2 C Classe Ocupacional Empregadores >= 10 Empregadores < 10 Profissionais autônomos Descrição Empreendedores. representantes comerciais. iii) distribuição territorial desta configuração. y 1 Agradecimentos especiais às fundamentais contribuições dos professores Waldir José de Quadros e He(. recepcionistas. que empregam 10 ou mais ocupados Empreendedores. Profissões típicas de classe média. trabalhadores da construção civil. padrões espaciais de desenvolvimento ou atraso relativo do mercado de trabalho. exercidas de forma independente pelo ocupado (vendedores e demonstradores. 8A classificação dos ocupados segundo grupos ocupacionais baseou-se na metodologia de estratificação proposta por Quadros (2003). entre outros) Ocupações não agrícolas de perfil operário ou assemelhado popular. ambas desenvolvidas durante pelo menos uma hora por semana. ou seja. O primeiro passo é.

caçadores. v) massa trabalhadora agrícola (H-1. G e I).507 municípios presentes na base de microdados do Censo Demográfico 2000 foram relacionados às 12 classes ocupacionais (A-1. na qual. H-1. permitindo uma primeira aproximação para os padrões de associação espacial. seja em atividade de autoconsumo ou em ajuda à produção familiar 9Conforme a especificidade analítica. ii) subclassificados: integrantes dos estratos inferior e ínfimo. Assim.325 e R$ 2.. y 2 Valores em reais de janeiro de 2005 e pouco superior ao salário mínimo vigente na época (260 reais(. Médio. Enquanto as menores participações de subclassificados estariam associadas às maiores participações de empregadores. ii) Profissionais (C e D). Tabela 2 ± Estratos econômicos Estrato Econômico Superior Médio Baixo Inferior Ínfimo Renda do trabalho Acima de R$ 2. Esta desigualdade é ainda mais acentuada pelo fato de se tratar de uma sociedade notadamente heterogênea como a brasileira. H-2. não podem ser desconsideradas significativas distinções no nível de renda que podem surgir dentro de cada um destes agrupamentos. um importante papel de distinção do nível econômico de posições ocupacionais relativamente homogêneas. Grupos de desenvolvimento socioeconômico 13Os 5. médio e baixo.I J-1 H-1 H-2 H-3 J-2 Trabalhadores domésticos Trabalhadores não remunerados não agrícolas Proprietários agrícolas conta-própria Trabalhadores agrícolas autônomos Assalariados agrícolas Trabalhadores não remunerados agrícolas guardas e vigias. dessa forma. Inferior e Ínfimo) para formar as estruturas sociais municipais. H-3.650 Entre R$ 1. iv) Trabalhadores não remunerados não agrícolas (J-1).325 Entre R$ 265 e R$ 530 Abaixo de R$ 265 12Para simplificar as análises. G. J-1.. a população foi desagregada em 5 estratos econômicos definidos pelo rendimento do trabalho principal. é comum encontrar significativas distorções distributivas.) 11A classificação interna das classes ocupacionais segundo faixas de renda cumpriria. as classes ocupacionais podem ainda ser agregadas em seis grupos ocupacionais principais: i) Empregadores (A-1 e A-2). entre outros) Profissões agrícolas exercidas de forma assalariada permanente ou temporária (bóiafria) Ocupações não remuneradas agrícolas exercidas durante pelo menos uma hora por semana. os estratos econômicos podem ainda ser agregados em dois grupos econômicos principais: i) classificados: integrantes dos estratos superior. A Figura 1 ilustra a distribuição dos municípios segundo grupos quantílicos de participação nos principais grupos ocupacionais e econômicos. J-2) e aos 5 estratos econômicos (Superior. como descreve a Tabela 2. D. H-2 e H-3). A-2. Baixo.650 Entre R$ 530 e R$ 1. 10Embora as classes ocupacionais sejam um importante indicador da inserção dos indivíduos no mercado de trabalho e na sociedade. I. extrativistas. C. aprendiz ou estagiário Ocupações associadas à pequena produção no ramo da agricultura ou pecuária familiar realizada sem o emprego de mão-de-obra assalariada Profissões agrícolas exercidas de forma autônoma (pescadores. F. a partir de múltiplos de 265 reais2. . entre outros) Ocupações associadas ao trabalho no serviço doméstico remunerado Ocupações não remuneradas não agrícolas exercidas durante pelo menos uma hora por semana em ajuda a membro do domicílio. mesmo em grupos sociais com oportunidades relativamente homogêneas. iii) Massa trabalhadora não agrícola (F. vi) trabalhadores não remunerados agrícolas (J-2).

sobretudo. Figura 1-6 ± Distribuição territorial dos municípios brasileiros segundo participação nos grupos ocupacionais e econômicos Ampliar Original (png.profissionais e da massa trabalhadora não agrícola. 185k) . de trabahadores não remunerados. as maiores participações de subclassificaods estariam associadas às maiores particpações da massa agrícola e.

. IBGE. 186k) Ampliar Original (png. microdados. Fonte: Censo Demográfico 2000.club. 184k) Elaborado com Philcarto (http://philgeo.fr).Ampliar Original (png. Edição de imagem no InkScape.

187k) Ampliar Original (png. 174k) .Ampliar Original (png.

16Como resultado dessas análises. classes ocupacionais e estratos econômicos segundo o princípio da mínima variabilidade dentro dos grupos formados3. As duas principais dimensões resultantes dessa técnica foram utilizadas pela análise de cluster para classificar as categorias de municípios. definiu-se uma tipologia municipal de desenvolvimento socioeconômico a partir do emprego conjunto das técnicas estatísticas multivariadas de análise de correspondência e análise de cluster. 171k) 14Para resumir essa complexa estrutura de relacionamentos em alguns grupos municipais relativamente homogêneos. a análise de cluster permitiu a agregação de características relativamente homogêneas para constituição dos grupos municipais de desenvolvimento socioeconômico. Do primeiro ao último grupo. a tendência é a redução do desenvolvimento socioeconômico.. Uma síntese dos grupos identificados é descrita a seguir: . contendo as freqüências observadas para os múltiplos relacionamentos entre municípios.. identificaram-se cinco grupos municipais com distribuições relativamente homogêneas da estrutura ocupacional. foi utilizada pela análise de correspondência para reduzir a dimensionalidade dos dados e viabilizar a identificação de grupos de municípios relativamente homogêneos. Embora a classificação obtida não permita quantificar as relações entre os municípios brasileiros. a qual busca criar grupos hierárquicos d(. Enquanto a análise de correspondência possibilitou a redução da estrutura de relacionamentos entre as variáveis de interesse. com uma progressiva participação das classes agrícolas e dos ocupados subclassificados economicamente. utilizou-se a metodologia de Ward. permite identificar uma clara hierarquia de desenvolvimento socioeconômico entre os grupos municipais. y 3 Na análise decluster. classes ocupacionais e estratos econômicos.Ampliar Original (png. 17A estrutura ocupacional agregada dos grupos municipais de desenvolvimento socioeconômico é apresentada na Tabela 3.) 15A tabela de Burt.

dessa maneira. além de proprietários conta-própria (18%).Municípios rurais assalariados: possuem 45% da população ocupada nas classes agrícolas e 85% de subclassificados. Entre os grupos municipais. 26k) Fonte: Censo Demográfico 2000. sendo 75% miseráveis do estrato ínfimo. com 53% da população nos estratos superior.18Grupo 1 . IBGE. Além da maior participação nas classes agrícolas. Nesse grupo. Possuem 96% da população ocupada nas classes ocupacionais tipicamente urbanas. 21Grupo 4 . microdados. sobretudo. sobretudo autoconsumo (17%). Apresentam ainda 90% de subclassificados economicamente. embora apresentem uma significativa participação da população ocupada nas classes agrícolas (18%). é aquele com a maior participação de trabalhadores agrícolas assalariados e autônomos (15%). y 4 A classe ocupacional ignorada foi excluída do corpo da tabela mas considerada no total absoluto Tabela 3 ± Distribuição da população ocupada segundo grupo municipal de desenvolvimento socioeconômico4 ± Brasil 2000 Ampliar Original (png. superior à média nacional (17%). com destaque para a participação de profissionais (42%). a participação dos estratos inferior e ínfimo representa mais de ¾ da população ocupada. estão em processo relativamente avançado de urbanização. De maneira geral. com 24% de profissionais e 54% de massa trabalhadora não agrícola. 22Grupo 5 . uma menor participação dos setores mais organizados da econômica não agrícola. 19Grupo 2 . sendo 65% miseráveis do estrato ínfimo.Municípios urbanos desenvolvidos: pertencem a este grupo os municípios com o maior grau de desenvolvimento da estrutura ocupacional. . sugerindo uma estrutura agrícola mais concentrada e voltada à contratação de mão-de-obra.Municípios rurais urbanizados: municípios que possuem praticamente 30% da população nas classes agrícolas e distinguem-se dos municípios do grupo 2. Reflete. apresentam um padrão de vida típico de classe média. pela menor participação da massa de trabalhadores não agrícolas assalariados (9 pontos percentuais inferior).Municípios rurais autoconsumo: no estágio mais baixo de desenvolvimento socioeconômico estão esses municípios rurais onde predominam as atividades agrícolas não remuneradas (33%). médio e baixo.Municípios urbanos agrícolas: municípios que. 67% da população ocupada nos estratos inferior e ínfimo. 20Grupo 3 . distinguem-se ainda dos municípios urbanos mais desenvolvidos pela elevada participação de subclassificados econômicos.

sobretudo. no Sertão nordestino e na parte centro-oeste da região Sul. Figura 2 ± Distribuição territorial dos municípios brasileiros segundo grupos de desenvolvimento socioeconômico .. Tal fato sugere que o estágio de desenvolvimento socioeconômico de um município é responsável não só pela composição da estrutura ocupacional da sociedade. onde prevalecem ocupados marginalizados do estrato ínfimo e baixos padrões sociais. por sua vez. com predomínio das atividades relacionadas à prestação de serviços e de maior prestígio social. Não significa. Os municípios agrícolas menos desenvolvidos. Distribuição territorial 26A Figura 2 ilustra a distribuição territorial dos 5. por exemplo. que o maior contingente populacional de subclassificados esteja nos grupos 3. na área da mesorregião da Grande Fronteira do Mercosul. é possível que municípios com predomínio de atividades tipicamente agrícolas apresentem alguns bons indicadores de qualidade de vida. A maior participação de profissionais e empregadores nos municípios não agrícolas. a distribuição dos estratos econômicos.507 municípios brasileiros segundo grupos de desenvolvimento socioeconômico. em grande medida. Da mesma forma que a distribuição das classes ocupacionais de um município determina. embora não seja esse o padrão vigente na maioria dessas populações. e não às concentrações absolutas da população. que também influencia a maior participação relativa de classificados economicamente. 4 e 5) estariam associados. sudoeste de Minas Gerais e em partes da região Centro-Oeste. no estado de São Paulo. constanta-se a concentração de municípios mais desenvolvidos. 25Outra importante consideração é a complementaridade dos critérios de classificação ocupacional e econômica. com predomínio de atividades não agrícolas de menor prestígio social. está associada ao maior estágio de desenvolvimento socioeconômico desses municípios. por exemplo. ao grau de desenvolvimento socioeconômico dos municípios. y 5 Por exemplo. concentram-se na região da floresta Amazônica.23Enquanto os municípios do grupo 1 estariam inseridos na terceira onda de desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro. associadas. por sua vez. mas sim que a estrutura ocupacional pouco diversificada desses municípios não possibilita muitas alternativas econômicas à parcela expressiva de suas populações5. os municípios do grupo 2 estariam na fase de industrialização. Da mesma forma.. e os dos demais grupos (3. ao desenvolvimento do setor primário. o contingente de subclassificados do grupo mais desenvolvido desenvolvidos (urbanos d (. ela está também associada à parcela de classificados e subclassificados dentro de uma mesma classe ocupacional. seguindo um aparente prolongamento do desenvolvimento observado no oeste paulista. como também pelas diferentes oportunidades de geração de renda dentro de uma mesma classe. 4 e 5.) 24É importante destacar que essa tipologia municipal se refere às participações relativas na estrutura ocupacional. De maneira geral. sobretudo.

a Figura 3 apresenta a distribuição dos grupos de desenvolvimento socioeconômico representada por círculos proporcionais à população de cada município. Figura 3 ± Distribuição da população dos municípios brasileiros segundo grupos de desenvolvimento socioeconômico . Na verdade.club.fr). Para complementar a análise. microdados. 27Uma das limitações dos mapas coropléticos é que áreas mais largas tendem a dominar o visual. IBGE. Fonte: Censo Demográfico 2000. Por exemplo. o que pode gerar distorções na análise da distribuição espacial. elas predominam no espaço. as áreas rurais costumam ser maiores e tendem a dominar a aparência do mapa coroplético. dando a falsa impressão de que as características da população rural predominam na população. embora as áreas urbanas mais desenvolvidas concentrem boa parte da população. especialmente próximas aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. 174k) Elaborado com Philcarto (http://philgeo.Ampliar Original (png. Edição de imagem no InkScape. mas não na população.

representando os municípios rurais menos desenvolvidos. apresenta uma estrutura característica de urbano desenvolvido. nos últimos anos. está Manaus. O predomínio de áreas pouco povoadas de atividades de autoconsumo. A presença da companhia na região movimenta o comércio. 30O avanço do agronegócio no cerrado e na borda sul da floresta amazônica. Provocam. contrasta com alguns pontos isolados de desenvolvimento municipal e concentração populacional. São comunidades ribeirinhas com precárias condições de desenvolvimento socioeconômico. Os subsídios oferecidos à Zona Franca impulsionam as indústrias de Manaus.) 28É na Região Norte. onde o extrativismo ainda se mantém como a principal fonte de subsistência. agricultores enriquecem na região plantando milho. pousadas. 150k) Elaborado com Philcarto (http://philgeo.. isolada em meio à pobreza das populações ribeirinhas. pequenos hotéis e aumenta a geração de renda e impostos. o maior pólo industrial da região e o único município classificado como tipicamente urbano no estado do Amazonas. por exemplo. que se observa a maior mancha vermelha escura do mapa coroplético.(. que sobrevive da riqueza movimentada pela companhia Vale do Rio Doce na Serra de Carajás. dinamizando sua estrutura ocupacional. 29O extrativismo mineral é outra importante fonte de riqueza na região. que respondem por 65% de todos os impostos recolhidos pelo governo federal na região6.fr). é o responsável pelas principais transformações na estrutura ocupacional de municípios dos estados de Rondônia. y 6 Fonte: Ricardo Galuppo. onde prevalece o trabalho não remunerado de autoconsumo. além das precárias condições de trabalho agrícola. por exemplo. Edição de imagem no InkScape. com sementes desenvolvidas pela EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) especialmente para as peculiares condições equatoriais. microdados. No coração da floresta amazônica..club. por outro . Reportagem publicada no jornal Estado de São Paulo (Novo Mapa do Brasil). IBGE. Atraídos pelo baixo preço da terra e pela elevada produtividade. sobretudo no estado do Amazonas. Fonte: Censo Demográfico 2000. Tocantins e Pará. O município paraense de Paraupebas. arroz e principalmente soja.Ampliar Original (png.

Mais da metade da riqueza do país continua sendo produzida na região. UNESP (Universidade Estadual Paulista) e unidades da USP (Universidade de São Paulo) no interior. como isenções fiscais e construção de distritos industriais. As irregulares ocorrências de chuva nessa região provocam secas cíclicas ou periódicas. produzindo alimentos para essa área mais desenvolvida da região. ii) políticas de atração municipal. 1998b. respectivamente. 243). como a concentração de terras nas mãos dos coronéis latifundiários. tecnologia e informática. Agreste e Sertão) exerceram um papel muito claro na constituição da estrutura ocupacional dos municípios. rodoviário. industrial. há uma forte estrutura voltada para o turismo e para a indústria do petróleo.. está o Agreste. três outros municípios do estado figuram entre os 15 maiores PIBs municipais brasileiros: Campos dos Goytacazes (6º maior PIB). concentra as forças produtivas mais desenvolvidas da região devido à herança da base econômica formada na produção de açúcar e algodão para o mercado externo. ainda se mantém na liderança da geração de riqueza nacional. castigando a população que sobrevive da pecuária extensiva. iv) investimentos federais no interior. agrícola. que também tem se constituído em um centro de referência internacional na prestação de serviços de ponta nas áreas de saúde. apresentam 64% e 54%. é sede de alguns dos principais órgãos federais. Duque de Caxias (9º maior PIB) e Macaé (12º lugar). a devastação descontrolada e criminosa da floresta. 2003). Além da cidade do Rio de Janeiro. como o açúcar refinado e o suco de laranja. No estado do Rio de Janeiro. de subclassificados em suas estruturas ocupacionais. 31No Nordeste. 325) chama de processo dedesconcentração industrial Grande São Paulo±Interior: i) políticas de descentralização do governo estadual. São Paulo desenvolveu um compartimento industrial eficientemente estruturado e com alta produtividade. ameaçando uma das mais ricas biodiversidades do planeta. da agricultura de subsistência e de baixa produtividade. Na área de transição entre a Zona da Mata e o Sertão semi-árido. disponível e (. 35A distribuição espacial dos municípios paulistas indica ainda um eixo integrado de desenvolvimento em direção ao noroeste do estado.o Sudeste. posição privilegiada no desenvolvimento econômico nacional. educação. em particular o estado de São Paulo. como aumento dos custos de controle da poluição. iii) custos excessivos da concentração na Grande São Paulo. A capital fluminense possui uma ampla rede hoteleira. já antes da grande crise de 1929. todos com economias associadas à indústria petrolífera e estruturas tipicamente urbanas desenvolvidas. As raízes dessa configuração territorial paulista podem ser encontradas entre os principais determinantes do Cano (1998a.. Ao contrário das demais regiões. o crescimento dinâmico e integrado dos setores cafeeiro. que se mantém até os dias atuais (Cano. e culturalmente. A Zona da Mata. entre as quais o investimento em rodovias e centros de pesquisa como a UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas).como a migração da agroindústria ao Centro-Oeste e Norte do país. segurança e a consolidação de sindicatos organizados no Grande ABCD. o que lhe garantiu competitividade nacional e internacional. as três zonas climáticas bem definidas (Zona da Mata. Aos condicionantes climáticos aliam-se problemas de origem estrutural. por exemplo.) 32Mesmo com as ações tomadas nas últimas décadas para redução da concentração regional . Campos dos Goytacazes e Duque de Caxias. o isolamento geográfico e o atraso social de sua população (Thery & Mello. além de possuir uma forte estrutura turística em muitas de suas belas praias. que se estende pela faixa litorânea atlântica nordestina. Já a extensa área do Sertão nordestino é a mais isolada geográfica. continua sendo feito na região. O processamento dos produtos agrícolas com maior valor agregado. 34Em São Paulo. 33Os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro concentram os municípios urbanos mais desenvolvidos. sendo que só o estado de São Paulo responde por 32% de todo o PIB (Produto Interno Bruto) nacional7. p. bem como o deslocamento de parte da indústria de transformação para as Regiões Sul e Nordeste . Mas o aumento da arrecadação de impostos e as novas oportunidades de emprego geradas pela indústria do petróleo não se refletem plenamente na inclusão de suas populações. formado historicamente como uma espécie apêndice econômico da Zona da Mata. y 7 O PIB da Região Sudeste corresponde a 56% do PIB nacional (Fonte: PIB Municipal 2003. p.lado. dos quais podem-se destacar as refinarias da Petrobrás em . econômica. comercial e financeiro conferiram ao estado.

o valor agregado total movimentado pelos serviços no município de Bagé correspondia a 48% (. cultura e o desenvolvimento social lembram muito o interior nordestino. além de baixo desenvolvimento social9. Dois municípios dessa área refletem bem a estrutura ocupacional desse extremo meridional: Bagé. em 2000. com a produção de grãos. concentra-se a massa de miseráveis de Minas Gerais. onde predominam a pequena propriedade rural8 e precárias condições de moradia para uma parcela significativa da população. sobretudo. 63% e 67% de subclassificados na estrutura ocupacional. prevalecem municípios com uma estrutura ocupacional tipicamente prestadora de serviços e um número relativamente elevado de miseráveis para os grupos de desenvolvimento aos quais pertencem. respectivamente. y y y 9 Kageyama (2005). 10 Fenômeno semelhante se observa na região centro-oeste. Em Minas Gerais os municípios urbanos mais desenvolvidos aparecem com maior freqüência na zona do Triângulo Mineiro e na região metropolitana de Belo Horizonte. suínos. oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. no parque industrial de Joinville e Blumenau. com uma clara prevalência de municípios dos 3 últimos grupos de desenvolvimento socioeconômico. apresentam. 40Os principais centros de desenvolvimento da região Sul estão localizados no pólo automobilístico na região metropolitana de Porto Alegre e Curitiba. uma configuração espacial bem heterogênea. próximo à fronteira com a Argentina e o Paraguai. É historicamente uma região com grau de urbanização relativamente baixo. Compreende justamente a área da mesorregião Grande Fronteira do Mercosul. e Santana do Livramento. 36A desconcentração industrial Grande São Paulo±Interior não tirou. na mesorregião da Metade Sul. embora a agropecuária ocupe boa parte (. Ambos possuem 38% de profissionais em suas estruturas ocupacionais e uma economia que gira. a hegemonia econômica da capital paulista. que abrange o norte do Rio Grande do Sul.. Em contrapartida. y 8 A economia é baseada na agroindústria e na agropecuária. a Região Sul apresentava.. porém. A presença da Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA) e da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) na mais populosa cidade brasileira são fortes justificativas para São Paulo ser a sede de praticamente todas as instituições financeiras do país.) 11 Em 2003. enquanto que a média dos municípios urbanos desenvolvidos brasileiros é de 47% e a média do estado do Rio Grande do Sul é de 58%. na região de Novo Hamburgo.. A cidade também possui uma sofisticada rede prestadora de serviços e uma estrutura ocupacional com 71% da população ocupada nos estratos superior. concentram-se os municípios agrícolas menos desenvolvidos. Na parte centro-oeste da região. 37Já os estados de Minas Gerais e Espírito Santo apresentam padrões espaciais mais semelhantes aos estados vizinhos da Região Nordeste.) 38Colonizada. mas se justifica pela distribuição da população ocupada entre as classes ocupacionais10. onde o clima. o que os caracteriza como municípios urbanos desenvolvidos.. com 90 mil. na base da pequena e média propriedade agrícola. A classificação urbana desenvolvida de muitos desses municípios pode parecer um contraste em uma região historicamente caracterizada por extensas áreas de pecuária e produção de arroz.Paulínia e Cubatão. em função da prestação de serviços11. Na parte norte desse estado. ga (.. aves. médio e baixo. onde. São próximos a esses municípios que se concentram as áreas mais desenvolvidas e as menores taxas de ocupados excluídos do . sobretudo. os centros de pesquisa da ESALQ (Escola Superior de Agricultura ³Luiz de Queiroz´) e UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos). com 120 mil habitantes. no pólo turístico e do vinho das Serras Gaúchas e no pólo calçadista no Vale dos Sinos.) 39No extremo meridional do Rio Grande do Sul. que passou a gerenciar boa parte da riqueza gerada no país..

43A prosperidade alcançada pelo agronegócio também alavancou a estrutura ocupacional de municípios na região central de Mato Grosso. Os poucos municípios urbanos desenvolvidos concentram a maior parte da população brasileira e. provocando possíveis distorções na identificação de padrões espaciais. alguns cuidados especiais e impõe importantes limitações e desafios à análise. com o êxodo de inúmeros minifundiários empobrecidos da Região Sul atraídos por facilidades como concessão de terras e financiamentos oficiais. Nova Mutum e Sorriso. como também abriga um dos pólos produtivos mais modernos do país. A prosperidade trazida pela soja atraiu investidores gaúchos e paulistas a Rio Verde. Sustentado pela riqueza proporcionada pelo agro-negócio. 2003). os quais concentravam 55% da população total brasileira e 18 milhões dos 40 milhões de ocupados subclassificados economicamente em 2000. o Centro-Oeste já começa a alavancar uma segunda onda de expansão da economia. que hoje é não só um dos maiores produtores de soja do estado12. já se classificava em 2000 na mais desenvolvida tipologia urbana. 11% em Bento Gonçalves. com predomínio das atividades agrícolas e uma massa expressiva de trabalhadores mal remunerados. Mesmo municípios com elevados padrões sociais podem apresentar significativos bolsões de miséria em sua área intra-urbana. o que ressalta a importância da divisão social do trabalho na formação da estrutura das sociedades capitalistas modernas e na configuração do território. por exemplo. contribuindo para determinar o estágio de desenvolvimento socioeconômico dos municípios brasileiros. A percentagem da população ocupada no estrato ínfimo.. É o caso. 10% em Joinville e Curitiba. como Primavera do Leste. O importante é destacar que os padrões identificados pelos mapas se referem ao predomínio de áreas e não de população. por exemplo. com centenas de empresas gravitando em torno da processadora de alimentos da Perdigão. sendo que a análise espacial apenas apresentará os valores médios da população. baseada na industrialização. os resultados confirmam uma imagem do Brasil ja obtida por outros autores a partir de outros indicadores (Thery & Mello. 51% de trabalhadores não agrícolas e apenas 18% de ocupados no estrato ínfimo. y 12 Rio Verde possui o maior PIB agropecuário do Estado de Goiás (6% do total) e o terceiro maior PIB (. 45O problema da escala geográfica exige. do município de Rio Verde e suas adjacências no estado de Goiás. O município de Primavera do Leste. é de apenas 7% em Blumenau. De maneira geral. com 30% de profissionais. na inovação tecnológica e na prestação de serviços. Outro problema freqüente em análises de mapas coropléticos é que áreas maiores tendem a dominar o visual da imagem. por exemplo. identificaram-se apenas 560 municípios urbanos desenvolvidos no Brasil. Para se ter uma idéia. 11% em Porto Alegre e de 13% em Novo Hamburgo. .país. Lucas do Rio Verde. entretanto. acabam concentrando grande parte dos subclassificados do país..) 42Os principais pólos de desenvolvimento dessa região estão associados à indústria agropecuária. Considerações finais 44A configuração do espaço nacional a partir das estruturas ocupacionais municipais é um importante instrumento para análise das disparidades territoriais. emancipado de Poxoréu em 1986. que atribuem ao estado do Mato Grosso a maior responsabilidade pelo desmatamento da floresta amazônica nos últimos anos. 46A grande maioria dos municípios brasileiros apresenta um baixo padrão de desenvolvimento socioeconômico. 41A região Centro-Oeste começou a se configurar como uma das principais produtoras agropecuárias brasileiras a partir da inauguração de Brasília em 1960 e na década de 70. embora apresentem uma maior participação relativa de ocupados nos estratos econômicos mais elevados. Mas todo esse crescimento vertiginoso das últimas décadas também trouxe a ira dos ambientalistas.

47A área mais contígua de municípios mais desenvolvidos ocorre próxima aos estados de São Paulo. provocando uma importante perda de informação. a questões históricas. 48A redução da dimensionalidade das complexas diferenças municipais em algumas tipologias sociais acaba. e não necessariamente a especificidades das atividades agrícolas. indubitavelmente. Aparecem também importantes bolsões de desenvolvimento socioeconômico próximo ao litoral brasileiro. Os municípios rurais menos desenvolvidos. Muitos municípios rurais da Região Sul apresentam indicadores socioeconômicos invejáveis aos centros urbanos mais desenvolvidos do país. por exemplo. Rio de Janeiro e sudoeste de Minas Gerais. onde há 500 anos prevalece o latifúndio e a exclusão social de boa parcela da população. Municípios com participações relativamente semelhantes entre as classes ocupacionais e estratos econômicos podem ainda apresentar significativas diferenças sócio-econômicas. por sua vez. em grande parte. perpetuam-se as piores condições sócio-econômicas do país. O atraso relativo dos municípios rurais brasileiros deve-se. predominam nas áreas do Sertão nordestino. como na região metropolitana de Porto Alegre e nos pólos industriais de Blumenau e Joinville. por exemplo. floresta amazônica e na Mesorregião da Grande Fronteira do Mercosul. . Nesse sentido. enquanto que nos municípios rurais do Nordeste. condições sócio-econômicas consideravelmente inferiores aos municípios urbanos. devido à composição internas dessas classes ou ao próprio dinamismo de suas atividades econômicas. embora os municípios rurais apresentem. como a herança da forma de colonização. seja. é possível conciliar desenvolvimento social da população com uma estrutura predominantemente agrícola.

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