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Bolhas tupiniquins e Curitibas-fantasmas

Alceu A. Sperança Dedicado à memória de Maria de Jesus Taborda Rocha, 1924−2012

Chanos na Bloomberg

Casa pré-fabricada na China

Jim Chanos tem um nome que vem a calhar para gato de madame brasileira, mas seria falta de respeito com um dos caras que mais sabem lidar com grana neste mundo. Ele foi um dos raros analistas econômicos que não foram na onda e anteciparam a ruína da Enron, aquela dos “caras mais espertos da sala”, a empresa-símbolo da vitória capitalista que virou pó. Chanos e sua bola de cristal previram, em janeiro de 2010, que a China iria desabar naquele mesmo ano ou em 2011. Em reportagem da TV Bloomberg, Chaninho, como diria madame, disse que o mercado imobiliário da China era uma bolha prestes a estourar. Mais dois janeiros passaram e o barco segue andando. Em tempos de crise, a receita é fortalecer o mercado interno e isso explica o estímulo à construção, uma das atividades mais manejáveis. É fácil imaginar um imóvel, financiá-lo e vê-lo rapidamente se erguer diante dos olhos. Chanos disse em janeiro de 2010 que “a China está no caminho do inferno” e que o desenvolvimento do setor imobiliário é o “único” fator de elevação do PIB oriental. Exageros à parte, os preços dos imóveis aumentaram muito na China e o governo agiu para esfriar a especulação, o que talvez também tenha travado a língua solta de Chanos. Desde o estouro da bolha estadunidense ficou fácil prever bolhas similares. É aquela coisa da Teoria da Relatividade: depois que Einstein a formulou, é mole dizer que “tudo é relativo” e dar uma aula a respeito. Quando a bolha estourou nos EUA, os cidadãos engabelados pela financeirização começaram a perder as casas. Quando (ou se) a bolha estourar na China a história tende a ser outra, porque as reservas internacionais chinesas se garantem e o jogo lá dentro é outro.

Operários chineses em greve em fábrica da Honda, em 2010

Os trabalhadores chineses sabem que têm direitos e vão à luta. Se estivessem na situação de declínio dos EUA, o governo em peso cairia ou teria se suicidado. Não é fácil impor “austeridade” para quem ameaça se jogar do telhado das fábricas e de fato se joga quando o governo não se mexe. No caso de Chaninho e sua previsão apocalíptica para a Chininha, a resposta foi dada por seu xará, o poderoso investidor Jim Rogers: “É interessante como gente que nem sabia soletrar China há dez anos agora virou especialista em economia chinesa!” Passando ao território tupiniquim, existe uma bolha imobiliária brasileira? Há controvérsias, mas há certamente uma penca de lideranças “bolhas” incapazes de resolver os problemas do País. Comem banana e arrotam lagosta com seus pífios programas de casas populares, que transformam o direito à moradia em dever de ralar anos a fio para pagar por ele. Os operadores governamentais e privados que transmutam direito em sacrifical dever faturam muita grana e prestígio político: “O prefeito me deu a casinha”, diz uma sofrida senhora. Ela e outros sofredores só vão sentir o drama da bolha criada pelos “bolhas” quando caírem em si, notando que um imóvel financiado por R$ 500 mil não vale nem a metade e sua dívida será maior no pós-bolha. Há um artigo não escrito na “constituição” obedecida pelos líderes brasileiros, de Brasília ao mais remoto município, segundo o qual “todo direito será convertido em fonte de lucro para os sócios e parceiros locais e internacionais de quem estiver no poder”.

Operário chinês e prédios populares

Onde estará a bolha da vez?

Todos têm garantidos os direitos à boa saúde, ótimo transporte (o meu via helicóptero, please!), educação excelente, perfeita segurança e moradia ótima se puderem pagar ou aguentar anos esperando em filas por cirurgias, casas populares ou ganhar na Mega-Sena. Os bolhas brasileiros conseguiram a interessante proeza de negar ao redor de dez milhões de moradias a quem precisa e ter um mercado imobiliário em expansão, com cerca de... dez milhões de imóveis desocupados! Gente como Chaninho se apavora com as tais “cidades-fantasmas” da China, sem saber que os bolhas brasileiros, ao exibir um portfólio de 10 milhões de imóveis desocupados, criaram, considerando três moradores por imóvel, algo como umas doze a quinze Curitibas-fantasmas. alceusperanca@ig.com.br .... O autor é escritor