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Avaliação de Antropologia Contemporânea I - 2011

“A contradição entre a simetria e o fogo que queima nas florestas da noite não pode ser abolida.” William Blake A noção de estrutura Levi-Straussiana se refere justamente à o que seria uma parte do mito referente ao significante da linguística, um inconsciente escondido, que é preciso ser decodificado. Existem os modelos concebidos pelos nativos, que é o que é visto na crueza dos dados etnográficos, porém há outro modelo inconsciente, que deve ser descoberto. Portanto Levi-Strauss funda um estruturalismo que tem uma grande influência da linguística e que ele pretende efetivar nas mitológicas, procurando como objeto de estudos os mitos. A estrutura em Levi-Strauss no entanto não condiz somente à uma cristalização, se difere da noção de estrutura dos estrutural funcionalistas, ela precisa ser compartilhada e ser possível a sua simetrização, sendo assim os modelos mecânicos (referentes as sociedades primitivas) tem transformações, mas eles mudam dentro do que permite a estrutura. Um exemplo dado pelo professor Filipe Vander Velden em aula parece exemplificar de forma adequada como é o funcionamento dessa noção de estrutura: Um caleidoscópio permite um número enorme de variações, porém dentro dos termos que lhe são inerentes. Portanto para Levi-Strauss as sociedades primitivas possuem simetrizações, que funcionam através de conjuntos de transformações que definem o que é efetivamente a estrutura. Dessa forma, a busca de Levi-Strauss na análise estrutural é uma busca da simetria, de onde pode emergir enfim a estrutura. Em detrimento do modelo mecânico que define as sociedades primitivas, existe o modelo estatístico que vem definir a sociedade complexa, a nossa. Para Levi-Strauss as sociedades primitivas são baseadas na estrutura, são fundadas na estrutura e se regram por ela, portanto a troca de mulheres através da dádiva, representam como um exemplo, a forma como a estrutura define por si só os rumos que se deve tomar, existem regras que determinam o casamento, no modelo estatístico em que o que comanda é a história, (a dicotomia aí se constitui entre estrutura e história) pode-se dizer que há apenas tendências que podem ou não ser seguidas, na escolha do casamento, por exemplo, não há uma obrigação clânica para a troca de mulheres apesar de determinados estratos sociais aceitarem melhor o casamento em determinadas situações, que são tendências, essa visão está ligada estritamente a visão Levi-Straussiana de natureza e cultura, que se relaciona ao tabu do incesto: a estrutura é formada quando o tabu do incesto como regra gera a passagem de natureza e cultura, quando a cultura como construção reflete uma necessidade natural de trocar as mulheres para não haver o incesto.

Levi-Strauss ilustra bem a forma como pretende trabalhar os mitos como ferramentas para se chegar à um dialogo de onde se possa desencobrir as estruturas, em uma passagem em que defende a originalidade do mito em relação aos demais fatos linguísticos: “A poesia é uma forma de linguagem extremamente difícil de traduzir em outra língua, e toda tradução acarreta deformações múltiplas. O valor do mito, ao contrário, permanece, por pior que seja a tradução” Para LeviStrauss o mito consegue “deslocar-se do fundamento linguístico no qual inicialmente rodou.” Depois de formular portanto, modelos relacionados ao parentesco, Levi-Strauss parte para uma pesquisa mais ligada a ontologia indígena, tendo como objeto de estudo os mitos amerindios. No artigo “Simetria e entropia: sobre a noção de estrutura”, Almeida, Mauro W.B. Traça fundamentos da matemática que definiram as noções de modelo e máquina utilizadas em LeviStrauss, um dos principais traços que define a antropologia estrutural de Levi-Strauss e que é herdado da teoria estrutural matemática é dito desta forma: “Era a idéia de que a atividade cientifica consistiria na busca de invariantes revelados ao nível dos modelos, mais do que no estudo de propriedades de objetos.” é de se considerar essa influência ao deparar-se com um projeto que busca dialogar os mitos em si, como pensamento puro, um esquema kantiano que Almeida definiu: “em que as estruturas-mãe da matemática tomassem o papel do espaço e do tempo como formas a priori da sensibilidade.” e simetrizar suas estruturas ao invés de efetivamente buscar informações demonstradas de forma explicita pelas informações etnográficas. “(...) consegue-se ordenar todas as variantes conhecidas do mito numa série, formando uma espécie de grupo de permutações, no qual as duas variantes situadas nas duas extremidades da série apresentam, uma em relação a outra, uma estrutura simétrica, mas invertida” (STRAUSS, Levi, Antropologia Estrutural, pag. 241). A noção de simetria, fundamental para a estrutura Levi-Straussiana se debate com o que seria uma célula de pessimismo na teoria de Levi-Strauss, que diz respeito a irreversibilidade, a passagem do tempo que impreterivelmente tende a degenerar a estrutura e dessa forma traçar um limite para a analise estrutural. A noção de Entropia é o que define a flecha do tempo inversa, que ao invés de denominar uma construção, uma noção de progresso com o passar do tempo, denomina uma degeneração, uma minimização. O conceito de entropia vem da termodinâmica, como Almeida ressalta. Um bom e clássico exemplo de como a entropia funciona na termodinâmica é o de um cubo de gelo dentro de um copo de água, a medida que o gelo vai derretendo, a entropia dentro do copo vai aumentando, vai diminuindo o grau de cristalização da água e aumentando o “grau de desordem” (Artigo do Wikipédia sobre entropia na termodinâmica). De forma semelhante é o processo em que a história vai destruindo a estrutura. Nas sociedades de história fria (porque LeviStrauss não designa essas sociedades primitivas como sociedades sem história, mas sim como detentoras de uma historicidade diferente) onde é a estrutura que determina o funcionamento, esse

traço irreversível do tempo como uma degeneração da estrutura é uma célula pessimista do pensamento de Levi-Strauss, como já salientado por Almeida. “Também os mitos morrem. Um mito que se transforma em outros respeita os invariantes do grupo de transformações a que pertence até que se cansa. Como ondas que a pedra criou no lago: a forma circular se amortece com a distância e com o tempo, até deixar de ser distinguível no movimento da água sob a brisa da manhã” (ALMEIDA, de, Mauro W.B.) O movimento de entropia portanto age contra o modelo de simetria que Levi-Strauss se utiliza para fundar uma noção de estrutura baseada na diversidade mitológica e portanto em uma miríade de transformações e diversidades culturais. Pode-se considerar um pensamento pessimista e diretamente ligado ao etnocídio, que funciona na medida em que nossa sociedade “complexa” se expande, talvez seja possível ligar a morte do “paraíso estruturalista” de simetria de Levi-Strauss com a noção de Etnocídio caracterizada por Pierre Clastres no artigo intitulado “O Etnocídio” (CLASTRES, Pierre, Arqueologia da violência, pag 79, Cosac & Naify), Clastres trata o termo etnocídio como uma forma designar a morte da cultura indígena, que caminhou junto com o genocídio, tratando de diferenciar essas duas, “O etnocídio, portanto, é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição” (Pag. 83). Esse parece ser no minimo um dos aspectos que funcionam na Entropia que Levi-Strauss confronta. No texto Raça e História, Levi-Strauss traça uma Paradoxo do que seria um duplo sentido do progresso, na medida em que a diversidade de culturas é que gera inicialmente uma progressividade através da difusão de técnicas e costumes, ao mesmo tempo em que ela gera uma destruição da diversidade na medida em que uma sociedade se sobrepõe a outra. Levi-Strauss fala de um mundo ameaçado pela “uniformidade e pela monotonia” (Raça e História, pag. 23). Indo agora mais efetivamente para a noção de máquina, que condiz com o conceito de entropia na medida em que existem máquinas de irreversibilidade e máquinas de suprimir o tempo. Máquinas de irreversibilidade se refere à passagem do tempo por onde passar o caminho em que a entropia passa de baixa para alta entropia, é o ponto em que a onda na água, já dada em exemplo, começa a se estabilizar, é a degeneração da estrutura. Em oposição, as máquinas de suprimir o tempo, que Almeida mostra serem frutos do teoria matemática do “demônio de Maxwell”, “Podemos imaginar os demônios de Maxwell como uma variedade de mecanismos — seja repressão, consciência coletiva, tradição, votação, constituições . Regras, tabus, preferencias, mapas, estilos e cosmologia são demônios de Maxwell” As máquinas de suprimir o tempo, assim como a música, funcionam num tempo fisiológico, cultural, o que Levi-Strauss chama de “tempo fisiológico”. O mito é uma máquina de suprimir o tempo, funciona na manutenção da estrutura, na contenção da entropia, Almeida salienta que se fosse possível existir uma máquina perfeita de suprimir o tempo a entropia poderia ser contida, porém até mesmo as máquinas anti-entrópicas

estão sujeitas a ação da história, apesar de poderem ser reforçadas de forma externa. Porém como já dito no trecho que impulsiona esse texto, a irreversibilidade não é apenas um limite da análise estrutural mas é um “aspecto essencial do espirito com que Levi-Strauss trabalha com sistemas de parentescos e mitos”, nesse sentido é possível afirmar que a simetria existe para ser quebrada, retomando a metáfora musical, em que a beleza do composição surge justamente na quebra da simetria, em oposição ao ritornelo do refrão. Bibliografia: LEVI-STRAUSS, Claude, O pensamento Selvagem, Papiros Editora LEVI-STRAUSS, Claude, Antropologia Estrutural, Cosac & Naify LEVI-STRAUSS, Claude, Raça e História ALMEIDA, Mauro W.B. Simetria e Entropia: sobre a noção de estrutura. Revista de AntropologiaUSP. CLASTRES, Pierre, Arqueologia da Violência, Cosac & Naify http://pt.wikipedia.org/wiki/Entropia