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COMO SE APRENDE A odisséia do aprendizado, uma jornada em busca do real.

O aprendizado é uma longa jornada, que tem começo mas não tem fim, a não ser com o término da existência do indivíduo. Esta jornada é nada mais que a busca do ser humano pela compreensão da realidade ou das realidades, já que a realidade é multifacetada, composta de vários aspectos tais como aspectos físicos, culturais e sociais. Essa compreensão que começa praticamente do zero, aperfeiçoa-se durante toda sua existência, no jogo das mediações entre o ambiente interno, subjetivo - estruturas potenciais ou em desenvolvimento no indivíduo - e o ambiente externo, objetivo, com suas leis, que se delineiam a partir de uma indiferenciação quase absoluta, tornando-se cada vez mais nítida, mais clara ao longo de todo o processo. Durante esse processo nosso aparato cognitivo passa por constantes ajustamentos, até funcionar como uma orquestra, um conjunto de instrumentos perfeitamente afinados. O desenvolvimento de nossa capacidade de apreender a realidade, decifrá-la da maneira mais eficaz assemelha-se metaforicamente ao ato de polir nosso espelho para que possamos refletir a realidade a cada dia com mais perfeição. É na ação, mais propriamente no jogo das interações, que nos confrontamos com a realidade, e aprendemos a definir seus contornos, a tornarmo-nos conscientes das corretas distâncias entre sujeito e objeto, onde termina o eu e onde começa o mundo. Nesse processo tomam parte segundo Piaget (2007), os mecanismos de assimilação e acomodação. Esse mundo, que em princípio é apenas físico, vai aumentando em complexidade, a partir da interação com os demais indivíduos que nos trazem os símbolos cunhados pela cultura a qual pertencemos, e através deles nos transmitem a cada dia uma gama de valores e regras sociais que acompanham cada expressão, cada gesto, cada palavra. Aprender é um contínuo e constante desfazerse das ilusões. Desiludir-se, desmistificar a realidade é o resultado de constantes revisões e aquilo que é apreendido em um determinado momento, mostra-se insuficiente ou inadequado em uma nova situação. Vamos por assim dizer tateando o mundo com nossos sentidos, interpretando e reinterpretando a realidade ao longo desse trajeto, quase ad infinitum. Quanto mais freqüentes e mais ricas as interações com o mundo dos objetos e dos seres; maiores as possibilidades de interpretarmos suas leis e de colocarmos em cheque nossas hipóteses e, conseqüentemente, maior será o sucesso em nossos confrontos com a realidade. Partimos do conhecimento da realidade dos objetos e fenômenos físicos, paralelamente, ao encontro de nossa realidade social e cultural, culminando, ao final, com o afloramento da consciência política, com a percepção do papel do cidadão e de sua responsabilidade pessoal e intransferível com seu mundo, seus companheiros de jornada e com a herança que será deixada para as futuras gerações. Mas precisamos então, voltar ao começo. O início da jornada ± a estruturação das estruturas sensório-motoras No início não havia o sujeito apenas o verbo, agir-sentir, não intransitivo, no dizer de Paulo Freire (VER DATA), porque permeável aos desafios fora da órbita vegetativa. Não havia ainda objetos, apenas o corpo como o centro indiferenciado do mundo, ou talvez apenas um mundo, sem centro, sem fronteiras. Nesse adualismo segundo o termo de Piaget (2007), ainda não se constituiu o eu. Agimos e sentimos no centro do universo. Somos o universo inteiro, inconsciente de si próprio.

Nas palavras de Vigotski (1996), somos um ser orgânico, sem noção de espaço e de perspectiva e eis que começa nossa primeira saga sensorial, nossa revolução copernicana pessoal. Nosso descentramento ocorre gradualmente. A princípio o mundo é percebido pela criança como algo bem à mão, bem próximo, ao alcance do toque, da preensão ou do tateio, isto é, de todas essas formas primitivas de posse. De fato a criança começa a conhecer o mundo primeiro com a boca, depois com as mãos e só depois disso, sua visão assenta as pedras angulares para percepções que se desenvolvem plenamente, muito mais tarde. (Vigotsky, 1996)1 Nosso corpo deixa de ser o centro e passa a ser mais um objeto entre outros, no espaço que contém a todos e passamos a ligar as ações dos objetos sob o efeito das coordenações de um sujeito que começa a conhecer-se enquanto fonte e enquanto senhor dos seus movimentos2 (Piaget, 2007). Fantástica descoberta: não somos o centro do universo... Mas objeto entre objetos, sujeito entre sujeitos, agindo e sofrendo a ação dos demais. Passamos então a ver o mundo, não só com nossos olhos, mas com toda nossa experiência acumulada a partir do registro dos efeitos de nossas ações sobre os objetos que percebemos. Outras conquistas da ciência, principalmente com Copérnico, Darwin e Freud, completariam o descentramento do homem em relação ao universo físico, biológico e psíquico. Cujas obras colocaram por terra muitas de nossas preciosas ilusões. Aprender é desiludir-se. Durante nosso desenvolvimento, ação e percepção andam juntas e se complementam mutuamente, como pares numa dança sem fim,
L.S. Vygotsky, A.R. Luria. Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
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ao longo da qual, formam-se as conexões entre meios e fins, que caracterizam os atos da Inteligência propriamente dita. ³A coordenação das ações é a origem da diferenciação sujeito-objeto e da descentração que tornará possível, com o concurso da função semiótica o advento da representação ou do pensamento´ (Piaget, 2007).2 O desenvolvimento de todo o aparelho sensório motor é, ao mesmo tempo, causa e conseqüência do processo de aprendizagem. A visão, a audição e a fala, por exemplo, não surgem com suas funções prontas e acabadas, mas aperfeiçoam-se constantemente, no jogo das interações, num processo de feed-back, onde a estruturação é mediada pela ação no confronto com a realidade. Segundo Vigotsky (1996), no caso da visão, o mundo indiferenciado das percepções puramente fisiológicas é substituído pelo mundo das imagens visuais. Mas ao início a distinção entre formas e cores de objetos é precária, a noção de perspectiva e a distinção entre os objetos e sua representação, vão aos poucos sendo conquistadas e aperfeiçoadas a partir da experiência do conjunto dos órgãos sensório motores. Um longo caminho precisa ser trilhado até que visão possa atingir a eficiência que apresenta em um adulto. Para Vigotsky a aquisição da fala tem um grande impacto no desenvolvimento das estruturas ligadas ao aprendizado, complementando e incrementando o desenvolvimento da função semiótica que produz uma mudança fundamental e decisiva na elaboração dos instrumentos de conhecimento. Segundo Vigotsky (1996), no processo de uso dos signos no desenvolvimento da memória, o que era interno se torna externo. O aperfeiçoamento do desenvolvimento das operações psicológicas vem de fora e é determinado pela vida social do grupo ou do povo a que o indivíduo pertence. E, principalmente é através da fala que o indivíduo entra em contato com o conteúdo simbólico de sua cultura, capacita-se a

Jean Piaget. Epistemologia genética. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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interagir socialmente com os demais indivíduos de seu grupo social, começando pela família a partir da qual são transmitidos os rudimentos da convivência e abrindo-se para o mundo através da escola e das demais instituições que farão parte de sua vida social e política. Os pontos em comum nas teorias de Piaget, Vigotsky e Paulo Freire ± a ênfase na autonomia e na ação. As teorias do aprendizado desenvolvidas por Piaget, Vigotsky e Paulo Freire, relacionam-se complementam-se e encadeiam-se, oferecendo um panorama não apenas rico e complexo, mas que em cada abordagem obriga os educadores a profundas reflexões sobre o processo do aprendizado e o seu papel nesse processo. As diferentes ênfases das abordagens de cada pesquisador, desde a abordagem bio-psíquica de Piaget, passando pela abordagem históricocultural de Vigotsky e chegando a abordagem histórico-política-cultural de Paulo Freire, têm muitos princípios em comum. O primeiro deles, o aprendizado depende da ação, está centrado, calcado na ação. Sem a possibilidade de ação, experimentação, interação, as possibilidades de aprendizagem se reduzem a quase nada. Por isso todas as abordagens, em seus diferentes enfoques, apregoam a necessidade de autonomia do indivíduo no processo da aprendizagem. Os três autores acreditam na construção do conhecimento como um processo interativo e dialógico, que proporciona ao indivíduo compreender e lidar com as leis de seu mundo físico e biológico em Piaget; histórico e cultural em Vigotsky e Freire, adicionando-se no último o aspecto político. Para todos eles o indivíduo deve ser ativo e criativo dentro do processo, construindo o conhecimento, sendo sujeito do processo, e não recebendo-o passivamente, dentro de uma estrutura hierárquica e rígida. Outro princípio fundamental é que o indivíduo não é tabula rasa e traz consigo estruturas pré-

existentes ao processo de aprendizagem. Essas estruturas podem ser biológicas, psicológicas e seu desenvolvimento é mediado desde o princípio pela cultura á qual o indivíduo pertence, que, por sua vez é produto de um processo histórico, social e político que a produz. Por isso além da necessidade de identificar a fase de desenvolvimento em que se encontram as estruturas cognitivas do educando, o educador precisa levar em conta seu ambiente cultural e em idade adulta, as ideologias políticas que servem de base à sua relação com o mundo que o cerca. Podemos, complementando a idéia do aprendizado como um processo de desilusão, acrescentar um conceito mais freireano, mais feliz, de que o aprendizado pode ser também uma jornada em direção à autonomia e à liberdade do indivíduo. Levando-o a entender o mundo que o cerca, superando seus medos, suas limitações, desmistificando este mundo, aprendendo a ver os liames que o deixam prisioneiro e vislumbrando aos poucos seu papel e sua responsabilidade no processo de sua libertação. Liberdade não se conquista sem conhecimento; conhecimento e liberdade não se conquistam sem ação. E essa busca não acaba nunca porque somos seres abertos, em contato com o mundo e no dizer de Freire (2011), ³inacabados´, ³inconclusos´, como os demais seres da natureza, mas ao contrário deles, conscientes de nossa inconclusão. ³Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que inacabado, se sabe inacabado´.
Amava a escola mais por ser o caminho que me levava aos livros, mas das coisas que quiseram me ensinar, as únicas pelas quais, realmente me interessei, foram a linguagem, a matemática e a história antiga. A matemática talvez, porque pela sua harmonia, me lembrava a música. A linguagem porque era como um rio por onde passavam as estórias e os cantos. E a história antiga pelo sentimento de ancestralidade que me trazia, fazendo com que me descobrisse ligada a toda a humanidade, me sentisse parte do imenso rio humano que atravessa os tempos desde eras tão distantes. A única parte da geografia que me encantava era aquela que me fez descobrir que o mundo era muito maior do que as terras em que cresci e que nele, além de imensos oceanos, singrados por animais fantásticos como baleias, ainda havia florestas intocadas, rios imensos, muito maiores que o meu, e que a Terra era uma esfera azul, que flutuava na escuridão do espaço, iluminada pelo sol que alimentava a vida e ditava o ritmo e a seqüência das estações e que as montanhas azuis, que eu via do meu quintal não estiveram ali desde a criação do mundo, mas que se soergueram, afloraram, como massas de rochas que se empurraram e se dobraram sobre si, numa longa e lenta gênese que me dava imenso prazer imaginar. Ver tudo isso ocorrendo na minha imaginação, como um filme acelerado; a terra se moldando em montanhas e vales, o surgimento dos rios e dos lagos, as férteis planícies sendo cobertas pela vida, transformando-se em florestas e campos e sendo povoadas pelos

animais foi uma das coisas mais prazerosas da minha infância. Não podia deixar de me perguntar como esse harmonioso sistema se sustentava girando no espaço pelas eras infindas, na solidão do cosmos, e até onde iria o que chamavam de infinito e que eu imaginava era onde morava Deus. Esse processo de descoberta era fascinante para mim. Me fazia

sentir dona de uma potência imensurável. Infinita por dentro... Essas perguntas que não me abandonavam, me fizeram querer mergulhar no mundo da ciência. O resto passou batido pela parte do meu cérebro que sabia decorar e depois esquecer. A memória seletiva detectava os conteúdos descartáveis. E foram muitos... (Rosane Tietböhl Depoimento pessoal)