ÈSÙ: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A DISMITIFICAÇÃO - I e II – AULO BARRETTI FILHO

(revista ébano, 1986)

Temos hoje em dia a obrigação de dismistificar o conceito imposto ao Orixá Exu — um dos deuses do panteão religioso yorubano pela religião católica e protestante à cultura africana, tanto no Brasil no tempo da escravatura, por imposição e necessidade dos negros escravos como na África, no tempo do Colonialismo. A imagem representativa do Orixá Exu é de um homem com o pênis ereto, com adornos de ossos nos seus pés e nos ombros grandes fileiras de búzios. Imagens estas, colocadas nas entradas das cidades, templos, palácios e casas, dentro de santuários próprios. Quando missionários europeus encontraram essas esculturas de Exu, associaram erroneamente, o aspecto sexual da imagem afro aos conceitos religiosos europeus de imoralidade sexual. Por esse e outros motivos, os missionários logo assimilaram Exu ao Diabo das religiões européias e quando escreveram sobre os yorùbá, espalharam para o mundo seus conceitos errôneos sobre Exu, um dos deuses de um povo de uma cultura e de uma religião, que não conhecia nem o nome e nem os dotes do Diabo europeu, então sincretizado com Exú. Alguns sacerdotes europeus, tentavam explicar a dificuldade e o fracasso da conversão dos negros as suas religiões argumentando que eles adoravam e cultuavam, o mais terrível inimigo do Deus católico, o Diabo. Para piorar a situação explicavam que os negros faziam holocausto de animais e oferenda de alimentos, fortalecendo cada vez mais o “Diabo” e impedindo assim que eles, sacerdotes, realizassem suas missões. Trataremos, nesta pequena contribuição de esclarecer alguns conceitos incorretos que até hoje persistem mas estão perto do fim e que são impostos à Esu. Por incrível que pareça, esses conceitos não existem somente para os leigos no credo, principalmente no Brasil. Os próprios seguidores dos cultos afros e muitos sacerdotes (Babalorisas) aceitam esses conceitos como certos e os transmitem aos fiéis do templo sem estudar a fundo a sua religião. Os meios de comunicação (rádio, televisão e imprensa escrita) espalham asneiras aos quatro cantos, orientados ou através de entrevistas desses pseudo sacerdotes do culto. Na própria África, os missionários conseguiram converter várias famílias e grupos à sua religião. O conceito incorreto tornou-se interessante para a Igreja, que o utilizou contra os cultos por elas denominados de “pagãs”. Esses convertidos e suas gerações contribuíram para que na atualidade, se continue a divulgar aspectos impostos às suas próprias culturas, com um único objetivo de as aniquilar e de arrebanhar novas ovelhas as religiões européias. Com isso, estão tentando destruir as já bastante danificadas, culturas e religiões africanas, especificamente a dos yoruba. Èsù para os yorubanos (no Brasil, culto Ketu) Legba, para os Fon e Ewe (no Brasil culto Jeje) Bombogiro para os bantos do Congo, Aluvaia e Mavambo para os bantos de Angola (no Brasil, culto Angola) são deuses da maior importância em toda a África Negra. Queremos ressaltar que o fato de falarmos em deuses não significa que essas religiões sejam politeístas, são indiscutivelmente monoteísta. Para eles, existe apenas um único criador e responsável por tudo, chamado Olodumare. Os Orisa, e todos os outros viventes se originam diretamente ou indiretamente do único e todo poderoso Olodumare, também conhecido

por Olorun, o que nos permite afirmar que a religião yoruba é puramente monoteísta. Falaremos na parte II dessa contribuição, nos conceitos afrotradicionais de Exu. E chegaremos nas conclusões. Parte II — Descreveremos, nesta II parte, os conceitos tradicionais do Orisa Esu, do panteão yorubano, analisaremos e chegaremos as conclusões e as deturpações religiosas desses significados e simbolismos. ESU é indiscutivelmente o Orisa de maior importância do panteão. É a divindade responsável por toda a dinâmica dos Orisa e dos próprios seres humanos, pois sem a intervenção de Esu, tudo seria estático. Abrangendo e estendendo o conceito dinâmico de Esu, iremos desfraldar toda a sistemática que está envolvido o Orisa Esu. ESU, é conhecido por vários ‘apelidos” ou cognomes que estão relacionados às variações e particularidades dessa dinâmica, o que nos leva a conhecer vários apelidos em relação as suas diversas e específicas funções dentro do panteão e em todo contexto religioso. O que queremos ressaltar é que somente existe um e único Orisa Esu, mas com vários “apelidos” referentes as são suas funções. Este conceito de apelido ou qualidade serve para todo os Orisa do panteão. É evidente que não poderemos estender todos os conceitos e funções de Esu no panteão e nos seres. Nesta matéria, daremos uma pequena visão da sua importância. ESU é responsável pela dinâmica da comunicação, pelo movimento do corpo, pela ativação do libido sexual, e consequentemente pela relação sexual e indiretamente pela fertilidade das pessoas. Pela dinâmica Esu é considerado como senhor dos caminhos: caminhos que levam, trazem e cruzam, que fazem as pessoas se encontrarem e distanciarem. Por essa função é que Esu é considerado astuto e traquina, por armar encontros e desencontros, com a finalidade de fazer com que elas cumpram certos rituais abandonados ou nunca cumpridos, com a finalidade de trazer as pessoas para a realidade, em função da religião. Dessa maneira as pessoas cumprirão rituais religiosos para que seja estabelecido o elo de ligação, do mundo material com o espiritual, e que essa dinâmica de ligação cumpra suas finalidades. Por estes fatos Esu é conhecido por ESU LONA, ESU OLO ONA, Esu senhor e dono dos caminhos. ESU AGBO, é nome qual Esu é conhecido pela sua função de ativar o libido sexual e leválas ao incitamento e a realização do ato sexual, essa caraterística de Esu em síntese é indiretamente responsável pela fertilidade e fecundidade, pois sem o ato sexual não existiria a procriação. Esse conceito yoruba, nada tem a ver com a imoralidade sexual de conceitos europeus, pois essa função é representada por uma imagem de Esu, na qual ele esta representado com o pênis sempre ereto, simbolizando sua importante função de dinamizar a energia sexual contida nos seres. O pênis também está representado por um instrumento manual, o qual os sacerdotes de Esu, e o próprio quando em transe em seus iniciados carrega. Esse instrumento em forma de bastão recebe o nome de Ogo, que é um pênis esculpido em madeira decorada com traços simbólicos e com adornos representativos de Esu. ESU é responsável pelo movimento dinâmico e fisiológico do corpo das pessoas e pela geração da energia, Àse, armazenada em todos Orisa do panteão. Ele é quem faz todo o sistema funcionar, por isso Esu é chamado de ESU BARA, que é ESU OBA ARA, Esu rei do Corpo, nome dado com muita propriedade pela extensão do seu significado, pois Esu nesta condição, tem sua mais importante função dentro do sistema religioso e na própria vida individual de cada ser, ESU OBARA, é o ESU individual “existente” em cada ser. Sem dúvida o assunto é extenso e de muita importância mas a finalidade desta contribuição

é de levar ao conhecimento de todos, leigos, iniciados e sacerdotes a real identidade do Òrìsà Esu. Para leigos ou pretendentes ao culto, a intenção é de mostrar quem é realmente ESU, para não serem levados por fieis que usam dos sincretismos ou por artigos aculturados no tema, e assim assimilarem conceitos não pertencentes a real tradição religiosa. Para os próprios iniciados, fica o artigo no intuito de alertar e despertar o verdadeiro significado do então “mal conceituado” ESU, tentando com isso cobrar dos seus sacerdotes as verdadeiras razões e finalidades de Esu dentro do culto, pois os iniciados têm todo o direito de exigir o conhecimento permitido em cada grau de suas iniciações. O completo esclarecimento não só se restringe a Esu, mas de toda sistemática da seita. Para classe dos “sacerdotes’, que realmente tem a responsabilidade de cultuar os Orisa, fazer novos iniciados e preparar futuros sacerdotes, têm por obrigação de transmitir seus “conhecimentos”, e não devem e nem podem ensinar conceitos errôneos que levam a falsos ritos e cultos, pois assim todos continuarão na total ignorância religiosa. Consequentemente, levando os futuros sacerdotes a continuarem a retransmitir a outros fieis, os mesmos falsos conceitos. E o pior, que pela falta de conhecimento, prejudica o funcionamento dos ritos, e dessa maneira, o culto não está cumprindo os propósitos religiosos preestabelecidos. Realmente esperamos, que os sacerdotes e/ou “pseudo-sacerdotes”, estudem e pesquisem em suas verdadeiras raízes e tradições religiosas. Pois só dessa maneira é que conseguirão que a religião ocupe com seriedade seu devido lugar e respeito dentro da sociedade. Os sacerdotes precisam se esclarecer e revisar seus conceitos, principalmente os errôneos, para o bem da sua própria religião.
Realmente esperamos!

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