!

! CATEQUESES!INTERNACIONAIS!
http://www.madrid11.com/pt/caminho/catequese

Í NDICE
Catequeses internacionais ................................................................................................ 1! Mensagem do Papa Bento XVI para a XXVI Jornada Mundial da Juventude ....................... 5! Catequese 1 Deus fez-nos capazes de viver com Ele ........................................................ 13! Catequese 2 Deus vem ao nosso encontro em Jesus Cristo ............................................... 19! Catequese 3 Nascido da Virgem Maria, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem............... 32! Catequese 4 Anunciava o Reino de Deus: o seu ensinamento e suas obras....................... 43! Catequese 5: Chamava a partilhar a sua vida e a sua missão.......................................... 57! Catequese 6: Entrega-se à morte, livremente aceite ......................................................... 73! Catequese 7: Ressuscitou ao terceiro dia ........................................................................ 88! Catequese 8: Dá-nos o seu Espírito, que nos une a Ele e nos consagra ........................... 101! Catequese 9: Consagração dos jovens ao Coração de Jesus ......................................... 115!

I NTRODUÇÃO
Este documento junta as traduções portuguesas das catequeses propostas para a preparação da Jornada Mundial da Juventude Madrid 2011.

O RAÇÃO
Amigo e nosso Senhor Jesus Cristo como és grande! Com as Tuas palavras e obras revelaste-nos Quem é Deus, Teu Pai e Pai de todos nós E quem Tu és: nosso Salvador Tu nos chamas a estar conTigo. Queremos seguir-Te onde quer que vás Damos-Te graças pela Tua Encarnação És o Filho Eterno de Deus, mas não Te incomodou humilhares-Te e fazeres-Te homem Damos-te graças pela Tua Morte e Ressurreição Obedeceste à vontade do Pai até ao fim E por isso és Senhor de todos e de todas as coisas Damos-Te graças porque na Eucaristia ficaste entre nós A Tua Presença, o Teu Sacrifício, o Teu Banquete Convidam-nos a sempre nos unirmos a Ti Chamas-nos a trabalhar conTigo Queremos ir onde Tu nos enviares A anunciar o Teu Nome, a curar em Teu Nome, a acompanhar os nossos irmãos até Ti Dá-nos o Teu Espírito Santo, que nos ilumine e fortaleça A Virgem Maria, a Mãe de Deus que nos deste na Cruz anima-nos A fazer o que Tu nos dizes Tu és a Vida! Que o nosso pensamento, o nosso amor e o nosso trabalhar tenham as suas raízes em Ti! Tu és a nossa Rocha! Que a fé em Ti seja o fundamento sólido de toda a nossa vida! Pedimos-te pelo Papa Bento XVI, pelos Bispos E por todos os que preparam a próxima Jornada Mundial da Juventude em Madrid Pedimos-te pelas nossas famílias, pelos nossos amigos E em especial pelos jovens que te vão conhecer neste encontro Pelo testemunho firme e gozoso da fé

MENSAGEM!DO!PAPA!BENTO!XVI!PARA!A!! XXVI!JORNADA!MUNDIAL!DA!JUVENTUDE!
«ENRAIZADOS E EDIFICADOS N’ELE... FIRMES NA FÉ» (C
Queridos amigos! Penso com frequência na Jornada Mundial da Juventude de Sidney de 2008. Lá vivemos uma grande festa da fé, durante a qual o Espírito de Deus agiu com força, criando uma comunhão intensa entre os participantes, que vieram de todas as partes do mundo. Aquele encontro, assim como os precedentes, deu frutos abundantes na vida de numerosos jovens e de toda a Igreja. Agora, o nosso olhar dirige-se para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar em Madrid em Agosto de 2011. Já em 1989, poucos meses antes da histórica derrocada do Muro de Berlim, a peregrinação dos jovens fez etapa na Espanha, em Santiago de Compostela. Agora, num momento em que a Europa tem grande necessidade de reencontrar as suas raízes cristãs, marcamos encontro em Madrid, com o tema: «Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7).
L

2, 7)

Por conseguinte, convido-vos para este encontro tão importante para a Igreja na Europa e para a Igreja universal. E gostaria que todos os jovens, quer os que compartilham a nossa fé em Jesus Cristo, quer todos os que hesitam, que estão na dúvida ou não crêem n’Ele, possam viver esta experiência, que pode ser decisiva para a vida: a experiência do Senhor Jesus ressuscitado e vivo e do seu amor por todos nós.

1. N A

NASCENTE DAS VOSSAS MAIORES ASPIRAÇÕES !
1. Em todas as épocas, também nos nossos dias, numerosos jovens sentem o desejo profundo de que as relações entre as pessoas sejam vividas na verdade e na solidariedade. Muitos manifestam a aspiração por construir relacionamentos de amizade autêntica, por conhecer o verdadeiro amor, por fundar uma família unida, por alcançar uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz. Certamente, recordando a minha juventude, sei que estabilidade e segurança não são as questões que ocupam mais a mente dos jovens. Sim, a procura de um posto de trabalho e com ele poder ter uma certeza é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude permanece contudo a idade na qual se está em busca da vida maior. Se penso nos meus anos de então: simplesmente não nos queríamos perder na normalidade da vida burguesa. Queríamos o que é grande, novo. Queríamos encontrar a própria vida na sua vastidão e beleza. Certamente, isto dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e durante a guerra nós fomos, por assim dizer, «aprisionados» pelo poder dominante. Por conseguinte, queríamos sair fora para entrar na amplidão das possibilidades do ser homem. Mas penso que, num certo sentido, todas as gerações sentem este impulso de ir além do habitual. Faz parte do ser jovem desejar algo mais do que a vida quotidiana regular de um emprego seguro e sentir o anseio pelo que é realmente grande. Trata-se apenas de um sonho vazio que esvaece quando nos tornamos adultos?

Não, o homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente. Santo Agostinho tinha razão: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti. O desejo da vida maior é um sinal do facto que foi Ele quem nos criou, de que temos a Sua «marca». Deus é vida, e por isso todas as criaturas tendem para a vida; de maneira única e especial a pessoa humana, feita à imagem de Deus, aspira pelo amor, pela alegria e pela paz. Compreendemos então que é um contrasenso pretender eliminar Deus para fazer viver o homem! Deus é a fonte da vida; eliminá-lo equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: «De facto, sem o Criador a criatura esvanece»
(Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 36).

A cultura actual, nalgumas áreas do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um facto privado, sem qualquer relevância para a vida social. Mas o conjunto de valores que estão na base da sociedade provém do Evangelho — como o sentido da dignidade da pessoa, da solidariedade, do trabalho e da família — constata-se uma espécie de «eclipse de Deus», uma certa amnésia, ou até uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder a própria identidade profunda. Por este motivo, queridos amigos, convidovos a intensificar o vosso caminho de fé em Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Vós sois o futuro da sociedade e da Igreja! Como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Colossos, é vital ter raízes, bases sólidas! E isto é particularmente verdadeiro hoje, quando muitos não têm pontos de referência estáveis para construir a sua vida, tornando-se assim profundamente inseguros.

O relativismo difundido, segundo o qual tudo equivale e não existe verdade alguma, nem qualquer ponto de referência absoluto, não gera a verdadeira liberdade, mas instabilidade, desorientação, conformismo às modas do momento. Vós jovens tendes direito de receber das gerações que vos precedem pontos firmes para fazer as vossas opções e construir a vossa vida, do mesmo modo como uma jovem planta precisa de um sólido apoio para que as raízes cresçam, para se tornar depois uma árvore robusta, capaz de dar fruto.

2. E NRAIZADOS EM C RISTO

E FUNDADOS

Para ressaltar a importância da fé na vida dos crentes, gostaria de me deter sobre cada uma das três palavras que São Paulo usa nesta sua expressão: «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Nela podemos ver três imagens: «enraizado» recorda a árvore e as raízes que a alimentam; «fundado» refere-se à construção de uma casa; «firme» evoca o crescimento da força física e moral. Trata-se de imagens muito eloquentes. Antes de as comentar, deve-se observar simplesmente que no texto original as três palavras, sob o ponto de vista gramatical, estão no passivo: isto significa que é o próprio Cristo quem toma a iniciativa de radicar, fundar e tornar firmes os crentes.

A primeira imagem é a da árvore, firmemente plantada no solo através das raízes, que a tornam estável e a alimentam. Sem raízes, seria arrastada pelo vento e morreria. Quais são as nossas raízes? Naturalmente, os pais, a família e a cultura do nosso país, que são uma componente muito importante da nossa identidade. A Bíblia revela outra. O profeta Jeremias escreve: «Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano; continua a produzir frutos» (Jr 17, 7-8). Estender as raízes, para o profeta, significa ter confiança em Deus. D’Ele obtemos a nossa vida; sem Ele não poderíamos viver verdadeiramente. «Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho» (1 Jo 5, 11). O próprio Jesus apresenta-se como nossa vida (cf. Jo 14, 6). Por isso a fé cristã não é só crer em verdades, mas é antes de tudo uma relação pessoal com Jesus Cristo, é o encontro com o Filho de Deus, que dá a toda a existência um novo dinamismo. Quando entramos em relação pessoal com Ele, Cristo revela-nos a nossa identidade e, na sua amizade, a vida cresce e realiza-se em plenitude. Há um momento, quando somos jovens, em que cada um de nós se pergunta: que sentido tem a minha vida, que finalidade, que orientação lhe devo dar? É uma fase fundamental, que pode perturbar o ânimo, às vezes também por muito tempo. Pensase no tipo de trabalho a empreender, quais relações sociais estabelecer, que afectos desenvolver...

Neste contexto, penso de novo na minha juventude. De certa forma muito cedo tive a consciência de que o Senhor me queria sacerdote. Mais tarde, depois da Guerra, quando no seminário e na universidade eu estava a caminho para esta meta, tive que reconquistar esta certeza. Tive que me perguntar: é este verdadeiramente o meu caminho? É deveras esta a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de Lhe permanecer fiel e de estar totalmente disponível para Ele, ao Seu serviço? Uma decisão como esta deve ser também sofrida. Não pode ser de outra forma. Mas depois surgiu a certeza: é bem assim! Sim, o Senhor quer-me, por isso também me dará a força. Ao ouvi-Lo, ao caminhar juntamente com Ele torno-me deveras eu mesmo. Não conta a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida torna-se autêntica. Tal como as raízes da árvore a mantêm firmemente plantada na terra, também os fundamentos dão à casa uma estabilidade duradoura. Mediante a fé, nós somos fundados em Cristo (cf. Cl 2, 7), como uma casa é construída sobre os fundamentos. Na história sagrada temos numerosos exemplos de santos que edificaram a sua vida sobre a Palavra de Deus. O primeiro foi Abraão. O nosso pai na fé obedeceu a Deus que lhe pedia para deixar a casa paterna a fim de se encaminhar para uma terra desconhecida. «Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça e foi chamado amigo de Deus» (Tg 2, 23). Estar fundados em Cristo significa responder concretamente à chamada de Deus, confiando n’Ele e pondo em prática a sua Palavra. O próprio Jesus admoesta os seus discípulos: «Porque me chamais: “Senhor, Senhor” e não fazeis o que Eu digo?» (Lc 6, 46).

E, recorrendo à imagem da construção da casa, acrescenta: «todo aquele que vem ter Comigo, escuta as Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa: Cavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. Sobreveio a inundação, a torrente arremessou-se com violência contra aquela casa e não pôde abalá-la por ter sido bem construída» (Lc 6, 47-48). Queridos amigos, construí a vossa casa sobre a rocha, como o homem que «cavou muito profundamente». Procurai também vós, todos os dias, seguir a Palavra de Cristo. Senti-O como o verdadeiro Amigo com o qual partilhar o caminho da vossa vida. Com Ele ao vosso lado sereis capazes de enfrentar com coragem e esperança as dificuldades, os problemas, também as desilusões e as derrotas. Sãovos apresentadas continuamente propostas mais fáceis, mas vós mesmos vos apercebeis que se revelam enganadoras, que não vos dão serenidade e alegria. Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho. Acolhei com gratidão este dom espiritual que recebestes das vossas famílias e comprometei-vos a responder com responsabilidade à chamada de Deus, tornando-vos adultos na fé. Não acrediteis em quantos vos dizem que não tendes necessidade dos outros para construir a vossa vida! Ao contrário, apoiai-vos na fé dos vossos familiares, na fé da Igreja, e agradecei ao Senhor por a ter recebido e feito vossa!

3. F IRMES

NA FÉ

«Enraizados e fundados em Cristo... ... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). A Carta da qual é tirado este convite, foi escrita por São Paulo para responder a uma necessidade precisa dos cristãos da cidade de Colossos. Com efeito, aquela comunidade estava ameaçada pela influência de determinadas tendências culturais da época, que afastavam os fiéis do Evangelho. O nosso contexto cultural, queridos jovens, tem numerosas analogias com o tempo dos Colossenses daquela época. De facto, há uma forte corrente de pensamento laicista que pretende marginalizar Deus da vida das pessoas e da sociedade, perspectivando e tentando criar um «paraíso» sem Ele. Mas a experiência ensina que o mundo sem Deus se torna um «inferno»: prevalecem os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e entre os povos, a falta de amor, de alegria e de esperança. Ao contrário, onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, o adoram na verdade e ouvem a sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual todos são respeitados na sua dignidade, cresce a comunhão, com os frutos que ela dá. Contudo existem cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem aderir a estas chamadas, simplesmente deixaram esmorecer a sua fé, com inevitáveis consequências negativas a nível moral.

Aos irmãos contagiados por ideias alheias ao Evangelho, o apóstolo Paulo recorda o poder de Cristo morto e ressuscitado. Este mistério é o fundamento da nossa vida, o centro da fé cristã. Todas as filosofias que o ignoram, que o consideram «escândalo» (1 Cor 1, 23), mostram os seus limites diante das grandes perguntas que habitam o coração do homem. Por isso também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Nós cremos firmemente que Jesus Cristo se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna. Deste modo fomos libertados do que mais entrava a nossa vida: a escravidão do pecado, e podemos amar a todos, até os inimigos, e partilhar este amor com os irmãos mais pobres e em dificuldade.

Queridos amigos, muitas vezes a Cruz assusta-nos, porque parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem, a expressão máxima do seu amor e a nascente da qual brota a vida eterna. De facto, do coração aberto de Jesus na cruz brotou esta vida divina, sempre disponível para quem aceita erguer os olhos para o Crucificado. Portanto, não posso deixar de vos convidar a aceitar a Cruz de Jesus, sinal do amor de Deus, como fonte de vida nova. Fora de Cristo morto e ressuscitado, não há salvação! Só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de justiça, de paz e de amor pelo qual todos aspiram.

4. C RER

EM SEM O VER

J ESUS C RISTO

No Evangelho é-nos descrita a experiência de fé do apóstolo Tomé ao acolher o mistério da Cruz e da Ressurreição de Cristo. Tomé faz parte dos Doze apóstolos; seguiu Jesus; foi testemunha directa das suas curas, dos milagres; ouviu as suas palavras; viveu a desorientação perante a sua morte. Na noite de Páscoa o Senhor apareceu aos discípulos, mas Tomé não estava presente, e quando lhe foi contado que Jesus estava vivo e se mostrou, declarou: «Se eu não vir o sinal dos cravos nas Suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e não meter a mão no Seu lado, não acreditarei» (Jo 20, 25). Também nós gostaríamos de poder ver Jesus, de poder falar com Ele, de sentir ainda mais forte a sua presença. Hoje para muitos, o acesso a Jesus tornou-se difícil. Circulam tantas imagens de Jesus que se fazem passar por científicas e O privam da sua grandeza, da singularidade da Sua pessoa. Portanto, durante longos anos de estudo e meditação, maturou em mim o pensamento de transmitir um pouco do meu encontro pessoal com Jesus num livro: quase para ajudar a ver, a ouvir, a tocar o Senhor, no qual Deus veio ao nosso encontro para se dar a conhecer. De facto, o próprio Jesus aparecendo de novo aos discípulos depois de oito dias, diz a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente» (Jo 20, 27). Também nós temos a possibilidade de ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor: nos Sacramentos Ele torna-se particularmente próximo de nós, doa-se a nós. Queridos jovens, aprendei a «ver», a «encontrar» Jesus na Eucaristia, onde está presente e próximo até se fazer alimento

para o nosso caminho; no Sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta a sua misericórdia ao oferecer-nos sempre o seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres, nos doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda. Abri e cultivai um diálogo pessoal com Jesus Cristo, na fé. Conhecei-o mediante a leitura dos Evangelhos e do Catecismo da Igreja Católica; entrai em diálogo com Ele na oração, dai-lhe a vossa confiança: ele nunca a trairá! «Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 150). Assim podereis adquirir uma fé madura, sólida, que não estará unicamente fundada num sentimento religioso ou numa vaga recordação da catequese da vossa infância. Podereis conhecer Deus e viver autenticamente d’Ele, como o apóstolo Tomé, quando manifesta com força a sua fé em Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!».

5. A MPARADOS PELA I GREJA PARA SER
TESTEMUNHAS

FÉ DA

Naquele momento Jesus exclama: «Porque Me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditaram!» (Jo 20, 29). Ele pensa no caminho da Igreja, fundada sobre a fé das testemunhas oculares: os Apóstolos. Compreendemos então que a nossa fé pessoal em Cristo, nascida do diálogo com Ele, está ligada à fé da Igreja: não somos crentes isolados, mas, pelo Baptismo, somos membros desta grande família, e é a fé professada pela Igreja que dá segurança à nossa fé pessoal. O credo que proclamamos na Missa dominical protege-nos precisamente do perigo de crer num Deus que não é o que Jesus nos revelou: «Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé» (Catecismo da Igreja Católica, n. 166). Agradeçamos sempre ao Senhor pelo dom da Igreja; ela faz-nos progredir com segurança na fé, que nos dá a vida verdadeira (cf. Jo 20, 31).

Na história da Igreja, os santos e os mártires hauriram da Cruz gloriosa de Cristo a força para serem fiéis a Deus até à doação de si mesmos; na fé encontraram a força para vencer as próprias debilidades e superar qualquer adversidade. De facto, como diz o apóstolo João, «Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?» (1 Jo 5, 5). E a vitória que nasce da fé é a do amor. Quantos cristãos foram e são um testemunho vivo da força da fé que se exprime na caridade; foram artífices de paz, promotores de justiça, animadores de um mundo mais humano, um mundo segundo Deus; comprometeramse nos vários âmbitos da vida social, com competência e profissionalismo, contribuindo de modo eficaz para o bem de todos. A caridade que brota da fé levou-os a dar um testemunho muito concreto, nas acções e nas palavras: Cristo não é um bem só para nós próprios, é o bem mais precioso que temos para partilhar com os outros. Na era da globalização, sede testemunhas da esperança cristã em todo o mundo: são muitos os que desejam receber esta esperança! Diante do sepulcro do amigo Lázaro, morto havia quatro dias, Jesus, antes de o chamar de novo à vida, disse à sua irmã Marta: «Se acreditasses, verias a glória de Deus» (cf. Jo 11, 40). Também vós, se acreditardes, se souberdes viver e testemunhar a vossa fé todos os dias, tornar-vos-eis instrumentos para fazer reencontrar a outros jovens como vós o sentido e a alegria da vida, que nasce do encontro com Cristo!

6. R UMO À J ORNADA M UNDIAL DE M ADRID
Queridos amigos, renovo-vos o convite a ir à Jornada Mundial da Juventude a Madrid. É com profunda alegria que espero cada um de vós pessoalmente: Cristo quer tornar-vos firmes na fé através a Igreja. A opção de crer em Cristo e de O seguir não é fácil; é dificultada pelas nossas infidelidades pessoais e por tantas vozes que indicam caminhos mais fáceis. Não vos deixeis desencorajar, procurai antes o apoio da Comunidade cristã, o apoio da Igreja! Ao longo deste ano preparai-vos intensamente para o encontro de Madrid com os vossos Bispos, os vossos sacerdotes e os responsáveis da pastoral juvenil nas dioceses, nas comunidades paroquiais, nas associações e nos movimentos. A qualidade do nosso encontro dependerá sobretudo da preparação espiritual, da oração, da escuta comum da Palavra de Deus e do apoio recíproco. Amados jovens, a Igreja conta convosco! Precisa da vossa fé viva, da vossa caridade e do dinamismo da vossa esperança. A vossa presença renova a Igreja, rejuvenesce-a e confere-lhe renovado impulso. Por isso as Jornadas Mundiais da Juventude são uma graça não só para vós, mas para todo o Povo de Deus. A Igreja na Espanha está a preparar-se activamente para vos receber e para viver juntos a experiência jubilosa da fé. Agradeço às dioceses, às paróquias, aos santuários, às comunidades religiosas, às associações e aos movimentos eclesiais, que trabalham com generosidade na preparação deste acontecimento. O Senhor não deixará de os abençoar.

A Virgem Maria acompanhe este caminho de preparação. Ela, ao anúncio do Anjo, acolheu com fé a Palavra de Deus; com fé consentiu a obra que Deus estava a realizar nela. Pronunciando o seu «fiat», o seu «sim», recebeu o dom de uma caridade imensa, que a levou a doar-se totalmente a Deus. Interceda por cada um e cada uma de vós, para que na próxima Jornada Mundial possais crescer na fé e no amor. Garanto-vos a minha recordação paterna na oração e abençoo-vos de coração. Vaticano, 6 de Agosto de 2010, Festa da Transfiguração do Senhor.

BENEDICTUS PP. XVI

CATEQUESE!1!

DEUS!FEZ9NOS!CAPAZES!DE!VIVER!COM!ELE!
UMA PERGUNTA, UMA INTUIÇÃO ABRE UM CAMINHO
SÍNTESE:!

1. "Pensar no infinito": A abertura ao infinito está inscrita na experiência que o homem faz da vida. A vida e a realidade "abrem" permanentemente o horizonte do homem. 2. A vida é este desejo do infinito (chamamos-lhe "pergunta religiosa"): por isso a Tradição da Igreja fala do homem - de todo o homem - como capax Dei. 3. O desejo do infinito, que constitui o coração do homem, coloca-o a caminho. As religiões e a inevitável tentação da idolatria dizem com claridade que é inevitável buscar uma resposta à pergunta religiosa. 4. O desejo do infinito, quando amadurece, converte-se em súplica ao mesmo infinito para que se manifeste: não somos capazes de satisfazer a nossa sede por nós mesmos, por isso suplicamo-lo. 5. Neste caminho de desejo e súplica, o cristão é companheiro de todos os homens.

1 "P ENSAR

NO

I NFINITO

«Nunca encontrastes na vossa vida uma mulher que vos tenha enfeitiçado durante um momento e que depois tenha desaparecido? Estas mulheres são como estrelas que passam rápidas nas noites sossegadas de verão. Já encontrastes, alguma vez, na praia, numa estação, numa loja, num comboio, uma dessas mulheres cuja vista é como uma revelação, como um florescimento repentino e potente que surge desde o fundo da vossa alma (.) E será somente um minuto; essa mulher desaparecerá, cairá na vossa alma como um ténue rasgo de luz e bondade; sentireis uma indefinível angústia quando a virdes afastar-se para sempre (.) Eu senti muitas vezes estas tristezas indefiníveis; era jovem, nos verões, ia frequentemente à capital da província e me sentava na praia. Eu via, então, algumas dessas mulheres misteriosas que, como o mar azul que se alargava à minha vista, me fazia pensar no Infinito» O género literário de Azorín expressa muito eficazmente uma experiência elementar que todo o homem vive. Há circunstâncias que abrem de par em par o coração. Abrem-no no sentido de que fazem presente o seu verdadeiro horizonte, a sua "capacidade do infinito". Há circunstâncias que nos permitem descobrir quem somos, que rompem todas as imagens reduzidas do nosso ser homens, que nos dizem que nada nos basta. São circunstâncias ou experiências que descrevem a verdadeira natureza e estatura da vida, do nosso ser homens. São circunstâncias que, antes de tudo, não dizem "o que nos falta", mas tornam presente a intuição do eterno para o qual somos feitos.

Uma pessoa "pensa no infinito" porque a realidade que tem diante de si se abre de par em par, lhe diz que há algo mais e que deve durar para sempre. Sem dúvida, amar é uma destas experiências. Todo o homem vive a experiência do amor, na sua família, com os seus amigos, encontrando a mulher com que compartirá a sua vida, na virgindade. No rosto da mulher que começamos a amar - o enamoramento é o início de um caminho! - se concentra o nosso desejo de infinito, a intuição de que estamos feitos para o eterno. E também a tristeza ou a angústia que podemos sentir perante a ideia de perder a pessoa que amamos é sinal desta abertura ao infinito. É uma abertura que pode ser descrita como desejo e como nostalgia, e que nasce das experiências mais verdadeiras da nossa vida: no amor, mas também na percepção da beleza, na paixão pela própria liberdade, na revolta ante a injustiça, no mistério do sofrimento e da dor, na humilhação do mal que alguém faz, na busca apaixonada da verdade, no gozo do bem. Na experiência que faz da sua própria vida, o homem percebe a presença do infinito. Esse mesmo infinito que se anuncia no mundo. Na imensidade e na beleza esmagadora da criação: desde as montanhas e oceanos até à cadeia genética do ADN! «O mundo e o homem atestam que não têm neles mesmos nem o seu primeiro princípio nem o seu fim último, mas participam d' Aquele que é o Ser em si, sem origem e sem fim».

2. A

VIDA É ESTE DESEJO

Todos os homens, independentemente da idade, raça ou cultura, experimentam este desejo/intuição do infinito que coincide com a verdade mais "evidente" da vida. Não podemos negá-lo, somos este desejo, o nosso ser mais autêntico é "pensar no infinito" Este desejo coincide com a vida. Não é algo que surge no coração na primavera ou quando se encontra particularmente melancólico! É simplesmente "a vida". Por isto, desejar o infinito é desejar a plenitude da vida: não de uma dimensão da vida mas sim da vida com todas as suas letras. Porque este desejo é o fio conduto que dá unidade a cada instante, a cada situação, a cada circunstância da nossa vida. É a cadeia que permite intuir a unidade que existe entre o amor dos teus pais e o teu desejo de construir, entre a raiva perante a injustiça e a compaixão perante a dor, entre o amar e o ser amado e a chamada a ser fecundo. Sem a unidade que engendra este desejo que atravessa cada célula do teu ser, a vida seria uma simples manta de retalhos de feitos e sucessos, uma acumulação de experiências, de tentativas e erros, incapazes de edificar a tua pessoa. Na linguagem comum, a esta busca do infinito chama-se "pergunta religiosa". Quando se fala de "religião" fala-se precisamente disto: da busca do infinito por parte de todos os homens.

Todo o homem, pelo mero facto de viver, percebe em si este desejo, esta pergunta religiosa - seja ou não seja capaz de expressá-lo - porque a pergunta religiosa é a pergunta sobre a vida e o seu significado. Por isto, todo o homem, independentemente da resposta que dê a esta pergunta, é "religioso". Não pode deixar de sê-lo, não pode arrancar-se do coração o "pensamento do infinito". A tradição cristã descreveu esta realidade falando do homem como capax Dei: o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é capaz de Deus, deseja-o e pode encontrá-lo. «A santa Igreja, nossa mãe, mantém e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza mediante a luz natural da razão humana a partir das coisas criadas (Vaticano I: DS 3004; cf. 3026; Vaticano II, DV 6). Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade porque foi criado "à imagem de Deus" (cf. Gn 1,26)» O salmista expressou-o com grande beleza usando a imagem da sede: "Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio por ti! A minha alma tem sede de ti; todo o meu ser anseia por ti, como terra árida, exausta e sem água." (Sl 62)

3. O

CAMINHO

Uma pergunta, uma intuição abre um caminho. O homem, que pensa no infinito, põe-se em marcha. A intuição do infinito é o motor da vida, a razão pela qual o homem ama e trabalha. Começa para o homem a apaixonante aventura de buscar o infinito, de conhecer o seu rosto. Trata-se de uma aventura na qual estamos todos implicados. Não é algo reservado a temperamentos particularmente "religiosos". É possível reconhecer o caminho do homem na busca do rosto do infinito em dois factos que estão ao alcance de todos. O primeiro é a constatação da existência das religiões. Hoje, mais do que no passado, somos testemunhas da pluralidade de experiências religiosas que os homens vivem. Quando tudo parecia anunciar uma sociedade sem Deus, movimentos e seitas religiosas, de índole muito variada, invadiram o Ocidente e começam a compartir o cenário social junto às religiões estabelecidas. São expressões concretas, históricas da busca do infinito e, neste sentido, ajudam a razão e a liberdade do homem a não se fecharem no seu horizonte próprio, a não se reduzir ao espaço opressivo do finito. Assim ensina o Concílio Vaticano II: Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? Qual o sentido e finalidade da vida? Que é o pecado? Donde provém o sofrimento, e para que serve? Qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? Que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? F

inalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos? Conviver com pessoas de outras religiões é a ocasião para reconhecer a identidade do desejo e das perguntas que constituem o seu coração e também o nosso. O que poderia parecer à primeira vista como uma dificuldade, pois a multiplicidade de respostas pode gerar confusão, também é uma ocasião privilegiada para reconhecer a unidade entre todos os homens. As respostas que se oferecem são muitas, é verdade, mas a pergunta é só uma. Em segundo lugar, podemos reconhecer a nossa busca do infinito numa experiência que todos fizemos: a identificação do infinito com algo concreto. Pode ser a namorada, a carreira profissional, o êxito económico, a paixão pelo poder. Quantas vezes identificámos o infinito que intuímos com algo particular! Qual foi o resultado? A desilusão. Na nossa busca do infinito chegámos a uma momento no qual nos detivemos e acreditámos poder identificá-lo com algo à nossa medida. Chama-se "idolatria" e é uma tentação que vive cada homem na primeira pessoa. Em vez de reconhecer que a mulher suscitou em nós o pensamento do infinito, é sinal do infinito, esperamos dela que cumpra com plenitude o desejo que suscitou. Quando o sinal deixa de ser reconhecido como tal e se confunde com a plenitude a que remete, então se converte num ídolo. Mas os ídolos, sabemos por experiência, defraudam-nos.

O salmista identificou com grande precisão a tragédia da idolatria. É a tragédia de uma promessa incumprida. Parece que podem responder e, contudo, são incapazes de todo: «Os ídolos dos pagãos são ouro e prata, obra das mãos dos homens: têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem, e nariz, mas não cheiram; têm mãos, mas não apalpam, e pés, mas não andam, nem da sua garganta emitem qualquer som. Sejam como eles os que os fabricam e todos os que neles confiam.» (Sl 113) «Obra das mãos dos homens»: com poucas palavras o salmista identifica a raiz da incapacidade dos ídolos para responder ao nosso desejo do infinito. Um ídolo é fruto das minhas mãos; tem, por assim dizer, as minhas mesmas dimensões: é finito. Por isto não poderá nunca responder adequadamente ao desejo que constitui a minha vida. A multiplicidade de respostas - as religiões - à única questão e a incapacidade dos ídolos, na hora de cumprir o desejo do infinito, põem manifestamente, de maneira todavia mais urgente, a "exigência" de uma resposta definitiva. Um homem que viva seriamente a sua própria vida, que não censure a intuição do infinito que descreve quem é, não se pode dar por vencido.

4. A O

NOSSO ENCONTRO

Se dar-se por vencido é abandonar a aventura da vida, o que fazer? Como pode o homem perseverar no caminho do desejo? Como pode não se deter em respostas insuficientes? Não é possível pensar que a imagem da nossa vida seja o mito de Sísifo, condenado a começar sempre de novo a tarefa sem encontrar jamais cumprimento nem descanso. A vida é este desejo e, contudo, todas as nossas tentativas para satisfazê-lo parecem vãs. As nossas tentativas, não a possibilidade do cumprimento. De facto, o nosso desejo seria vão, seria absurdo, se estivesse destinado a ficar eternamente insatisfeito. Mas isto não quer dizer que sejamos nós a satisfazê-lo. Somos "capazes" de ser satisfeitos, não de nos satisfazermos a nós próprios. A sede que seca a garganta do homem diz que este é capaz de beber, mão que ele mesmo seja a fonte fresca e cristalina que pode sacia-lo. Assim, o homem é capaz do infinito, capax Dei, porque pode acolhê-lo se este sai ao seu encontro e não porque se possa construir por si mesmo o infinito que anseia. Quando o homem se reconhece capax Dei, o seu desejo, a sua nostalgia, o seu anseio, são abraçados pela sua liberdade e convertem-se em súplica. E nesta súplica, o homem adquire a sua verdadeira estatura. «Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus» (Mt 5,3)

A pobreza de espírito que bendiz Jesus nas bem-aventuranças, e cuja expressão mais eloquente é a prece, a súplica, constitui a plenitude da experiência humana. É o momento no qual o coração do homem diz ao Infinito que intuiu: "vem, manifesta-te!". Cada fibra do ser do homem espera e deseja, pede e suplica que o infinito saia ao seu encontro. Quer conhecer o seu rosto e pede-lhe: «buscarei o teu rosto, Senhor, não me escondas o teu rosto» (Sl 26) E Deus não deixou sem resposta a súplica do homem: «Mediante a razão natural, o homem pode conhecer a Deus com certeza a partir das suas obras. Mas existe outra ordem de conhecimento que o homem não pode de nenhum modo alcançar pelas suas próprias forças, a da Revelação divina (cf. Vaticano I: DS 3015). Por uma decisão inteiramente livre, Deus revela-se e dá-se ao homem. Fá-lo revelando o seu mistério, o seu desígnio benevolente que estabeleceu desde a eternidade em Cristo, em favor de todos os homens. Revela plenamente o seu desígnio enviando o seu Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e ao Espírito Santo». As orações dos salmos, os textos da Eucaristia, o tempo do Advento, toda a liturgia da Igreja são uma educação permanente a viver de maneira consciente e cada dia mais disponível esta súplica ao Senhor. Pela manhã, no início do dia, na oração de laudes, as primeiras palavras que a Igreja nos faz recitar são: «Deus vinde em nosso auxílio. Senhor socorrei-nos e salvainos». Deste modo, educa-nos e nos ajuda a compreender que o desejo está chamado a converter-se em súplica.

5. C OMPANHEIROS

DE CAMINHO DE TODOS OS HOMENS
Nesta súplica todos os homens se percebem companheiros de caminho. Reconhecer o desejo do infinito que constitui o coração de cada homem permite-nos dar-nos conta da unidade que existe entre nós. As expressões deste desejo podem ser muito diferentes. Algumas delas podem resultar duras, ofensivas e violentas. E, ainda assim, são expressões da mesma busca que vive no nosso coração. Quem se reconhece em busca sabe que está próximo de todo o homem: nada nem ninguém lhe é estranho. Para a Igreja não há "distantes: porque todos os homens vivem, perguntam-se e desejam. Todos buscam. Por isso, o cristão não teme falar da sua busca com todos. Inclusive com aqueles que se riem dele, que o chamam sonhador ou visionário. Uma simpatia imensa por todo o homem o acompanha quotidianamente. A arte, a literatura, a música, tudo o que expressa o génio do homem é, para quem busca, ocasião de reconhecer de novo o desejo que o constitui. Se alguém tenta discutir este assunto com os seus colegas de turma, dar-se-á conta que é verdade.

CATEQUESE!2!

DEUS!VEM!AO!NOSSO!ENCONTRO!! EM!JESUS!CRISTO!
O PRÓPRIO DEUS, ENVIANDO O SEU FILHO, SATISFAZ A NOSSA SEDE
SÍNTESE:!!

1. O nome próprio do desejo ou busca do homem é espera. As tentações perante a espera: a presunção e o cepticismo. 2. Deus responde a espera do homem: e fá-lo através da história dos homens (profetas, aliança com o povo de Israel). 3. A resposta definitiva de Deus é o envio do seu Filho. Em Jesus, verdadeiro Deus, é o próprio Deus – o único capaz – quem responde ao homem. E fá-lo humanamente, pois Jesus é homem verdadeiro. A resposta de Deus é absolutamente superabundante e concreta. 4. Jesus revela o homem ao homem. Por isso “a questão da vida” é encontrar-se com Jesus.

1. O

PARADOXO DA ESPERA

A vida, vimo-lo na catequese anterior, impele-nos a encontrar uma resposta ao desejo de infinito que nos constitui. O homem é “capax Dei”, e isto significa, antes de tudo, que é um ser em busca. Mas a busca do homem possui um nome mais adequado: é uma espera. O homem, todo o homem, independentemente da sua cultura, da sua raça, das suas circunstâncias pessoais, está à espera. Quantas vezes escutámos que “a esperança é a última a morrer”. E é verdade, não porque sejamos ingénuos ou iludidos, mas porque “estar à espera” é o mais característico do homem. Mas, o que esperamos? Ou melhor ainda, quem esperamos? Já vimos que as dimensões da nossa espera nos superam por todas as partes. O homem é um ser paradoxal, pois sendo finito e limitado pensa o infinito e deseja-o. Ante este paradoxo surge uma dupla tentação: ou se nega que somos limitados ou se nega a nossa abertura ao infinito, o facto de sermos “capax Dei”. Trata-se de tentações muito mais actuais do que se possa pensar à primeira vista. Em relação à primeira há que reconhecer que negar o limite do homem é a pretensão secreta que guia, em muitos casos, a aplicação da ciência e da técnica ao início e ao fim da vida do homem. Os prementes problemas bioéticos dos nossos dias têm na sua base uma grande questão sobre o homem: somos capazes de dominar o nosso início e o nosso fim? Podemos considerar-nos “criadores” de nós mesmos?

A tentação de negar o nosso ser limitado acompanhou sempre o caminho do homem: «A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-seão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal’. Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.»
(Gn 3, 4-6)

O homem não resiste à espera da resposta que colmate a sede infinita do seu coração, e cede à tentação de pensar que pode dar essa resposta por si mesmo. Sabemos bem qual é o final desta intenção: «Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus» (Gn 3, 7). A tentativa falhada de dar resposta por si mesmo conduz o homem à vergonha: o seu limite deixa de ser ocasião de abertura e espera e converte-se em ferida e condenação. E então, quase inevitavelmente, faz-se presente a outra grande tentação: pensar que o limite é a ultima palavra sobre a nossa vida, negar a nossa abertura, a nossa espera do infinito. Assume espaço na vida do homem este terrível inimigo que se chama “cepticismo”. Esta tentação também acompanhou os homens desde o início da história. O poeta Esquilo na sua obra “Los persas” afirma: «nenhum mortal deve fomentar pensamentos que ultrapassem a sua condição mortal» (v. 820). Hoje, este cepticismo manifesta-se na busca frenética de satisfações e prazeres limitados que se sucedem uns aos outros vertiginosamente.

Como se a multiplicação do limitado pudesse ter como resultado o infinito! Não é preciso recorrer aos exageros, desses que nos fala a imprensa, para descobrir que a tentação do cepticismo esconde-se no modo com o qual, em muitas ocasiões, enfrentamos o nosso diaa-dia de estudo e de descanso. Atenção: o mundo não se divide em pretensiosos e cépticos! Todos somos um pouco pretensiosos e um pouco cépticos. Normalmente passamos a ser cépticos quando nos damos conta que a nossa pretensão não tem fundamento, quando as nossas forças nos desiludem. Mas logo que recuperamos um pouco, não é difícil que ao cepticismo suceda de novo a tentação do super-homem. E assim passamos o tempo de uma tentação à outra! O problema é que dizer “sou capaz por mim mesmo” ou, pelo contrário, afirmar “não é possível”, são duas formas de censurar e negar o paradoxo do ser homem. São duas formas de abandonar a espera.

2. D EUS

RESPONDE À ESPERA DO HOMEM
A alternativa a dar resposta por si mesmos e a negar a possibilidade de uma resposta, consista na espera. Os profetas do Antigo Testamento expressam com particular intensidade esta espera do que é o homem. A espera do Messias, da resposta de Deus ao seu povo. Durante o tempo do Advento os profetas acompanharam o nosso caminho até ao Natal, mantendo e educando o nosso coração à espera de Deus, que vem, que responde à nossa seda: «Destilai, ó céus, lá das alturas o orvalho, e que as nuvens façam chover a justiça. Abra-se a terra para que floresça a salvação e germine igualmente a justiça.» (Is 45, 8). Mas é possível esperar? O poeta francês Charles Péguy, numa famosa obra sobre a esperança chamada “O pórtico do mistério da segunda virtude” – uma óptima leitura para o tempo de Advento! – afirma: «Para esperar, filha minha, é preciso ser feliz de verdade, é preciso ter obtido, recebido uma grande graça». Porque certamente só a resposta de Deus que vem ao nosso encontro salva e alimenta a espera que constitui o nosso ser homens. Efectivamente, a espera mantém-se e cresce porque a resposta vem ao nosso encontro. É uma resposta que não sai de nós, que não é limitada como nós, porque tem as dimensões do infinito. Não é uma resposta que me é oferecida simplesmente por outro homem, profundamente sedento como eu. Não é simplesmente a ajuda de um “génio humano”, capaz de expressar melhor do que o que se passa no meu coração sedento.

É uma resposta capaz de responder à minha sede de infinito porque provém do próprio infinito que vem ao meu encontro. A resposta, efectivamente, é a expressão da piedade de Deus pelo homem. Deus, não abandona o homem à pretensão de dar resposta por si mesmo à sede que o constitui ou a um desespero céptico, mas inicia com os homens uma história de salvação. Ensina o Concílio Vaticano II que Deus “depois da sua queda alimentou neles a esperança da salvação com a promessa da redenção, e teve incessante cuidado do género humano, para dar vida eterna aos que buscam a salvação com a perseverança nas boas obras”
(Dei Verbum 3).

filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles. E agora, vai; Eu te envio ao faraó, e faz sair do Egipto o meu povo, os filhos de Israel.»
(Ex 3, 7-10)

A história da salvação que Deus constrói com o seu povo encontra na libertação do Egipto – a Páscoa – e na aliança do Sinai o seu momento culminante. Deus respondeu e fê-lo com superabundância e ao alcance do homem: o povo de Israel pôde comprovar na sua própria carne que Deus salva. E contudo, a infidelidade – ou como presunção ou como cepticismo: de novo as duas tentações contra a espera do homem! – ganha espaço na vida do povo. Mas Deus não cede perante a fragilidade do seu povo. Pelo contrário, «pelos profetas, Deus forma o seu povo na esperança da sua salvação, na esperança de uma nova e eterna Aliança destinada a todos os homens
(cf. Is 2, 2-4),

E assim estabeleceu a aliança com Noé e, sobretudo, escolheu Abraão, pai de todos os crentes, de quem nascerá o povo da promessa. Deus responde à espera do homem na história. Deus sai ao encontro do homem ali onde o homem vive, ama, trabalha, sofre, se alegra. Na história concreta de um povo e através dessa história Deus fazse resposta para o homem. Assim o encontramos expresso nas palavras que Deus dirige a Moisés no início do livro do Êxodo: «O Senhor disse: ‘Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel, terra do cananeu, do hitita, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu. E agora, eis que o clamor dos

e que será gravada nos corações
(cf. Jr 31, 31-34; Hb 10, 16).

Os profetas anunciam uma redenção radical do povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades
(cf. Ez 36)

uma salvação que incluirá todas as nações
(cf. Is 49, 5-6; 53, 11)

3. J ESUS C RISTO : A RESPOSTA DE D EUS AO

HOMEM

Deus não cessa de responder, e fá-lo cada vez com maior misericórdia e superabundância. Quis responder à nossa espera na história e por meio da história. E quis levar à plenitude o seu desígnio histórico de salvação. São Paulo indica-o com uma expressão eficacíssima que podemos considerar uma espécie de síntese do cristianismo: «ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à lei, para resgatar os que estavam debaixo da lei, e para que recebessem a filiação adoptiva»
(Gal 4, 4-5)

Durante o ano teremos a ocasião de aprofundar a pergunta “quem é o Filho, quem é Jesus?”. Neste momento é importante reconhecer o caminho que Deus, na sua misericórdia, quis percorrer para sair ao nosso encontro e responder à nossa sede de infinito. Enviando o seu Filho, Deus quis responder pessoalmente à nossa espera. O Filho não é um simples enviado, não é um mero profeta. O Filho é, como recitamos no credo em cada Domingo, «Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai». Isto significa que o Filho pode responder à nossa espera: é o Infinito que vem ao encontro do nosso coração que tudo deseja. À sede do homem só Deus podia responder, e fê-lo pessoalmente. São João da Cruz intuiu esta superabundância da resposta de Deus à nossa sede com a grande claridade: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. [...] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelouo totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade»
(Subida a monte Carmelo 2,22,3-5).

Deus enviou o seu Filho: esta é a resposta de Deus à espera do homem. Ainda que possamos ter muitas imagens ou ideias do que é o cristianismo e a fé, fruto da educação que recebemos na nossa família ou no Colégio, ou fruto do que afirmam os meios de comunicação aos diversos agentes culturais, o certo é que, sintetizando ao máximo, o cristianismo diz de si mesmo isto: Deus enviou o seu Filho. Tudo o resto expressa e está em função deste facto que constitui o centro e o fundamento da história e do cosmos. É importante que confrontemos a ideia que temos da fé, com este anúncio, simples e radical ao mesmo tempo. Radical porque se Deus enviou o seu Filho, então a minha sede de infinito pode encontrar quem a sacie. Simples porque se trata simplesmente de encontrar, ou melhor, de ser encontrado por Aquele que Deus enviou: o Filho de Deus foi enviado pelo Pai para vir ao meu encontro.

Mas Deus não só quis responder pessoalmente à sede do homem. Quis responder humanamente ao homem. E assim, no credo, depois de termos confessado que o Filho é Deus, continuamos a nossa profissão de fé afirmando: «que por nós homens, e para nossa salvação desceu dos céus, e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem». O Filho de Deus fez-se homem para responder humanamente à nossa sede, para estabelecer um diálogo com o homem, pois em Jesus Cristo «Deus invisível fala aos homens como amigos, movido pelo seu grande amor e mora com eles, para os convidar à comunicação consigo e recebê-los na sua companhia»
(Dei verbum 2).

Que mais queremos além de um amigo tão bom ao nosso lado?»
(Livro da Vida 22, 6-7).

Jesus Cristo é Deus que responde humanamente ao homem. Se nos aproximamos dos encontros de Jesus que nos narram os Evangelhos, podemos vê-lo descrito com simplicidade. Jesus encontra os seus primeiros discípulos, João e André, enquanto eles escutavam o Baptista a pregar. Cheios de curiosidade pelas palavras que o profeta do Jordão diz sobre Jesus, seguem-no e recebem uma resposta humaníssima à sua pergunta: «Jesus voltou-se e ao ver que O seguiam disse-lhes: "O que procurais?". Eles responderam-Lhe: "Rabbí - que quer dizer 'Mestre' - onde moras?". Respondeu-lhes: "Vinde e vereis"» (Jo 1, 35-39). O Evangelho continua a narrar que O seguiram e estiveram com Ele: passaram juntos a tarde. E através dessa convivência entre amigos, revela-se o mistério da pessoa de Cristo: «Encontrámos o Messias» (Jo 1, 41), dirá André ao seu irmão Simão Pedro. Zaqueu promete devolver o que roubou porque a salvação entrou em sua casa (cfr. Lc 19, 1-10), os apóstolos perguntam-se quem é Jesus vendo-O acalmar a tempestade (cfr. Mt 8, 23-27); a Samaritana anuncia aos seus conterrâneos que encontrou alguém que lhe disse tudo l que tinha feito (Jo 4, 1-42), o cego de nascença dá testemunho da sua cura milagrosa (9, 1-41), a multidão admira-se e glorifica a Deus vendo a cura do paralítico e o perdão dos seus pecados (cfr. Mc 2, 1-12), o bom ladrão pede ao Senhor que participe do paraíso com Ele (23, 39-43).

Deste modo não há outro caminho para receber a resposta que o próprio Deus é e que nos oferece gratuitamente, do que a humanidade de Jesus Cristo. Santa Teresa de Jesus convida-nos a não abandonar nunca este caminho: «E vi com clareza, e continuei a ver, que Deus deseja, para O agradarmos e para que nos conceda grandes favores, que os recebamos por meio dessa Humanidade sacratíssima, em que Sua Majestade se deleita. Muitíssimas vezes o tenho visto por experiência; o Senhor me disse. Tenho certeza de que temos de entrar por essa porta se quisermos que a soberana Majestade nos revele grandes segredos. Assim, que vossa mercê, senhor, não deseje outro caminho, mesmo que esteja no auge da contemplação; pois esse caminho é seguro. É por meio desse Senhor nosso que nos vêm todos os bens. Ele o ensinará; o melhor modelo é contemplar a Sua vida.

Os Evangelhos testemunham continuamente como na vida, na humanidade de Jesus se torna presente o próprio Deus respondendo à espera do homem. Este é o caminho que a Trindade quis percorrer para sair ao encontro do homem: clama-se Encarnação. Fazendo-se homem para encontrar os homens como um amigo encontra outro amigo, Deus revelou profundamente o rosto do homem. O Concílio Vaticano II recorda-o no nº 22 da Constituição Gaudium et spes, um dos textos chave de todo o ensinamento conciliar: «Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime». Em Jesus Cristo, a resposta que Deus ofereceu humanamente ao homem, este reconhece a verdadeira natureza da sua espera e recebe "a grande graça" que lhe permite continuar em espera. Jesus Cristo é a resposta superabundante à nossa espera. A liturgia da Igreja expressa-o com particular eficácia quando diz que as promessas do Senhor «superam todo o desejo»
(Oração Colecta, XX Semana do Tempo Comum).

Deus de bondade infinita, que preparastes bens invisíveis para aqueles que Vos amam, infundi em nós o vosso amor, para que, amando-Vos em tudo e acima de tudo, alcancemos as vossas promessas, que excedem todo o desejo.
(Oração Colecta, XX Semana do Tempo Comum).

Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias.
(Oração Colecta, XXI Semana do Tempo Comum).

Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais.
(Oração Colecta, XXX Semana do Tempo Comum).

Se o cristianismo é Deus que enviou o seu Filho, se Jesus Cristo é a resposta que Deus ofereceu humanamente à espera do homem, então "a questão fundamental" da vida é encontrar-se com Ele.

ANEXOS:

O RAÇÃO : E SCUTA - ME , S ENHOR
Si me conocierais a mí, conoceríais también a mi Padre Escúchame, Señor, que te llamo; ten piedad, respóndeme. Oigo en mi corazón: "Buscad mi rostro". Tu rostro buscaré, Señor, no me escondas tu rostro. Señor, enséñame tu camino, guíame por la senda llana.
(Salmo 26)

Dios y Señor nuestro, ninguno te hemos visto tal como eres en ti mismo. Y, sin embargo, no eres del todo invisible para nosotros. No has quedado fuera de nuestro alcance. Tú nos has amado primero, y ese amor tuyo ha aparecido entre nosotros, se ha hecho visible. Pues Tú enviaste al mundo a tu Hijo único para que vivamos por medio de él. Así te has hecho visible: en Jesús podemos ver tu rostro.
(Según Deus caritas est 17)

Te damos gracias, Padre santo, Dios todopoderoso y eterno. Porque Cristo, el Señor, sin dejar la gloria del Padre, se hace presente entre nosotros de un modo nuevo: el que era invisible en su naturaleza, se hace visible al adoptar la nuestra [naturaleza]; el eterno, engendrado antes del tiempo, comparte nuestra vida temporalpara asumir en sí todo lo creado,para reconstruir lo que estaba caídoy restaurar de este modo el universo,para llamar de nuevo al reino de los cielos al hombre sumergido en el pecado.
(Según el Prefacio II de Navidad)

Texto!complementar!

J ESUS C RISTO
CEGOS
Palavra!de!Deus!

ILUMINOU OS
Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá - oráculo do Senhor. Não será como a aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, embora Eu fosse o seu Deus - oráculo do Senhor. Esta será a Aliança que estabelecerei, depois desses dias, com a casa de Israel oráculo do Senhor: Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará mais o seu próximo ou o seu irmão, dizendo: 'Aprende a conhecer o Senhor!' Pois todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, porque a todos perdoarei as suas faltas, e não mais lembrarei os seus pecados» - oráculo do Senhor.
(Jeremias 31, 31-34).

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeulhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis.’ A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal’.» Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins. Ouviram, então, a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim.
(Génesis 3, 1-8).

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! - Pai!" Deste modo, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus.
(Gálatas 4,4-7).

Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.» Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, ‘mostra-nos o Pai’? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim?
(João 14, 5-10).

Padres!da!Igreja!
“Eia, homenzinho, deixa por um momento as tuas ocupações habituais; entra por um instante dentro de ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Deita para fora de ti as preocupações angustiantes; afasta de ti as tuas penosas inquietações. Dedica-te por um momento a Deus e descansa um pouco na sua presença. Entra no aposento da tua alma; exclui tudo, menos Deus e aquilo que pode ajudar-te a encontrá-lo; e assim, fechadas todas as portas, vê através dele. Dá, pois, alma minha, dá a Deus: ‘Procuro a tua face, Senhor, anseio ver o teu rosto’. E agora, Senhor, meu Deus, ensina o meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, onde te procurarei, estando ausente? Se estás por perto, como descubro a tua presença? É certo que habitas numa claridade inacessível. Mas, como se encontra essa claridade inacessível? Como me aproximarei dela? Quem me conduzirá até lá para ver-te nela? E depois, em que sinais, que pistas seguirei? Nunca te vi, Senhor, meu Deus, não conheço o teu rosto. (...) Olha para nós, Senhor; escuta-nos, ilumina-nos, revela-te a nós. Manifesta-nos de novo a tua presença para que tudo nos corra bem, pois sem isso tudo correrá mal. Tem piedade dos nossos trabalhos e esforços para chegar até ti, pois sem ti nada somos. Ensina-me a procurar-te e a mostrar-te a quem te procura, porque não posso ir ao teu encontro, a menos que me ensines, e não posso encontrar-te se não te manifestares. Desejando te encontrarei, procurando te desejarei, amando te falarei e falando te amarei.
(Santo Anselmo, Bispo, Proslogion, cap. 1).

“Queres saber por onde deves caminhar? Ouve que o Senhor disse primeiro: Eu sou o caminho. Antes de dizer-te onde, te disse por onde. Eu sou o caminho. E, onde leva este caminho? À verdade e à vida. Primeiro disse por onde tinhas de ir, e depois aonde. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Permanecendo junto do Pai, é a verdade e a vida. Ao incarnar, fez-se caminho. Não te disse: «Trabalha para encontrar o caminho, para que chegues à verdade e à vida»; não te ordenou isso. Preguiçoso, levanta-te! É o próprio caminho que vem até ti e te desperta do sono em que estavas a dormir, se é que em verdade te desperta. Levanta-te, pois e caminha. Muito bem estás a tentar caminhar e não podes, porque te doem os pés. E, porque te doem os pés? Por acaso andaram por caminhos tortuosos, seguindo os impulsos da avareza? Mas pensa que a Palavra de Deus também curou os coxos. «Tenho os pés sãos – dizes -, mas não posso ver o caminho». Pensa que, também, iluminou os cegos.
(Santo Agostinho, Sobre o Evangelho de São João 34, 9)

Catecismo!da!Igreja!Católica!
51. «Aprouve a Deus, na sua sabedoria e bondade, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tomam participantes da natureza divina» (DV 2).

65. «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo seu Filho» (Heb 1, 1-2). Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N'Ele, o Pai disse tudo. Não haverá outra palavra além dessa. São João da Cruz, após tantos outros, exprime-o de modo luminoso, ao comentar Heb 1, 1-2: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. [...] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedirLhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade» (São João da Cruz, Subida del monte Carmelo 2, 22, 35: Biblioteca Mística Carmelitana, v. 11, Burgos 1929. p. 184. [ID. Obras Completas (Paço de Arcos, Edições Carmelo 1986) p. 196 = Segunda leitura do Ofício de Leituras da Segunda-Feira da II Semana do Advento]. ).

52. Deus, que «habita numa luz inacessível» (1 Tm 6, 16), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens que livremente criou, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adoptivos (cf. Ef 1,4-5). RevelandoSe a Si mesmo, Deus quer tornar os homens capazes de Lhe responderem, de O conhecerem e de O amarem, muito para além de tudo o que seriam capazes por si próprios.

Testemunho!
“Com um tão grande amigo presente – nosso Senhor Jesus Cristo -, com um tão bom capitão, que quis ser o primeiro no sofrimento, tudo se pode sofrer. Ele ajuda e dá força, nunca falta, é um amigo verdadeiro. E eu vejo claramente, e vi isto depois, que para agradar a Deus e para que nos conceda graças quer que seja por mãos desta Humanidade santíssima, em quem expressou a sua Majestade. Muitíssimas vezes aquilo que vi por experiência, tínhamo-lo dito o Senhor. Vi claramente que por esta porta teremos de entrar, se queremos que nos mostre a soberana Majestade grandes segredos. Assim, não desejamos outro caminho, ainda que estejamos no auge da contemplação. Por aqui seguimos seguros. É por este nosso Senhor que nos vêm todos os bens. Ele o ensinará, olhando para a sua vida, pois é o melhor modelo. Que mais queremos que ter um bom amigo ao nosso lado, que não abandonará nos trabalhos e tribulações, como fazem os do mundo? Feliz quem de verdade o amar e trazer junto de si. Olhemos o glorioso São Paulo, que tinha sempre na boca a Jesus, pois era alguém que trazia no seu coração. Eu olhei com cuidado e depois entendi isto, a partir de alguns santos, grandes contemplativos que não iam por outro caminho: São Francisco, Santo António de Pádua (Lisboa), São Bernardo e Santa Catarina de Sena.

Com liberdade se deve andar neste caminho, pois nas mãos de Deus, se a sua Majestade nos quiser elevar a ser do seu convívio e segredo, irei de bom grado. Sempre que se pense em Cristo, recordarnos-emos do amor com que nos fez tantas graças e quão grande nos revelou Deus em darmos tal oferta que possuímos: que o amor obtém amor. Procuremos ir olhando sempre isto e despertamos para amar, porque, se uma vez o Senhor nos faz uma graça, que este amor fique impresso no coração e, ser-nos-á tudo mais fácil, e assim trabalharemos brevemente e sem muito esforço.
(Santa Teresa d’Ávila, Livro da sua vida, Cap. 22,6-7. 12. 14)

!
CATEQUESE!3!

NASCIDO!DA!VIRGEM!MARIA,!VERDADEIRO! DEUS!E!VERDADEIRO!HOMEM!
Contemplar o mistério da Encarnação (Natal) segundo as suas dimensões próprias, ajudando a recuperar a admiração perante a Misericórdia de Deus

SÍNTESE: !

1. A resposta de Deus é uma Pessoa, tem nome: Jesus. Por isso a questão é conhecer e amar Jesus. Conviver com Ele. 2. O coração cristão enche-se de admiração perante o mistério da Encarnação: o rebaixamento de Deus e a sua condescendência; a colaboração da liberdade do homem, tal e qual se vê no mistério da Virgem Maria; a humanidade de Deus. 3. O mistério da Encarnação inaugura o método que Deus escolheu para se manifestar: o método do encontro. Os encontros de Jesus narrados pelos Evangelhos. O encontro com Cristo como início de um caminho e de uma experiência de convivência com Ele.

1. A

RESPOSTA TEM UM NOME

«José, filho de David, não temas tomar contigo Maria como tua esposa, porque ela concebeu por virtude do Espírito Santo. Dará à luz um filho a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados»
(Mt 1, 20-21)

A resposta pessoal que Deus ofereceu humanamente à nossa sede de infinito, o seu próprio Filho, supera todos os nossos desejos. É absolutamente superabundante. E, efectivamente, como diz o anjo a José cujo coração se tinha enchido de temor perante algo incompreensível para ele - tal resposta é a mais concreto que existe, tem mesmo um nome preciso: Jesus. A resposta de Deus ao homem é uma Pessoa: o seu Filho Jesus. É importantíssimo que não passemos por alto esta afirmação: Deus não quis responder-nos ditando-nos uns princípios doutrinais ou ensinando-nos um caminho moral para que pudéssemos percorrê-lo. O Papa afirma-o ao princípio da encíclica Deus caritas est: «Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ele, uma orientação decisiva»
(DCE 1)

Por isso a finalidade da vida é a amizade com Jesus, conhecê-lO e amá-lO. Conviver com Jesus é a maneira do nosso coração saciar permanentemente a sede. É impressionante que o Evangelho descreva a primeira intenção de Jesus ao escolher os seus amigos mais directos, os doze, com estas palavras: «instituiu doze para que estivessem com Ele»
(Mc 3, 14)

Estar com Cristo: esta é a resposta, este é o caminho, isto é ser cristão. E isto, atenção, é o conteúdo da vida: porque a vida foi-nos dada para que o nosso coração se sacie, para que sejamos felizes. Normalmente quando nos tornamos amigos de alguém, vamos conhecendo, pouco a pouco, a sua vida: quem são os seus pais, onde nasceu e cresceu, de que gosta e o que prefere evitar. Também a amizade com Jesus Cristo implica conhecê-lO mais e mais, para poder segui-lO. O mistério do Natal, que celebraremos em breve, é uma ocasião privilegiada para aprofundar o conhecimento de Jesus.

Deus respondeu-nos enviando o seu Filho. Um Filho a quem podemos chamar pelo seu nome próprio: Jesus.

2. A D EUS

ADMIRAÇÃO PERANTE FEITO HOMEM

A)

HUMANAMENTE COM OS HOMENS .

D EUS HUMILHA - SE PARA SE ENCONTRAR

Jesus, já o vimos, é a resposta de Deus que vem humanamente ao nosso encontro: Deus e homem verdadeiro. Talvez estejamos demasiado acostumados a escutar estas palavras para que nos deixemos comover pelo que anunciam e significam. Às vezes dizemos "Deus fez-se homem", com a mesma intensidade de "hoje está frio": como se fosse o mais normal do mundo! E, no entanto, basta deter-se um momento e repetir estas palavras pensando no que dizemos, para que a admiração e a comoção nos invadam: Deus fez-se homem. É importante que contemplemos a verdade destas palavras.

O Novo Testamento oferece-nos numerosas passagens que nos podem ajudar a aproximarmo-nos de maneira nova deste mistério de misericórdia: «O nascimento de Jesus Cristo foi desta maneira: a sua mãe, Maria, estava desposada com José, e antes de começarem a estar juntos, encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo»
(Mt 1, 18)

«O anjo disse-lhes: Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador, que é Cristo Senhor; e isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e recostado numa manjedoura»
(Lc 2, 10-12)

«E a Palavra se fez carne, e assumiu a sua morada entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade»
(Jo 1, 14)

«Tende entre vós os mesmos sentimentos que teve Cristo: O qual, sendo de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus. Mas despojando-se a si próprio assumiu a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens e tido pelo aspecto como homem»
(Fil 2, 5-7)

«De uma maneira fragmentária e de muitas maneiras falou Deus no passado a nossos pais por meio dos profetas; nestes últimos tempos falou-nos por meio do Filho»
(Heb 1, 1-2)

«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e tocaram as nossas mãos acerca da Palavra de vida, - pois a Vida manifestou-se, e nós a vimos e damos testemunho e anunciamos-vos a vida eterna, que estava com o pai e que se nos manifestou - o que vimos e ouvimos, é o que vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco»
(1Jo 1, 1-3)

O mistério da Encarnação expressa, portanto, o amor gratuito e transbordante de Deus pelo homem. Um amor tão superabundante que não teme fazer-se em tudo igual ao amado, menos no pecado.

B)

D EUS ,

PARA NOS MANIFESTAR O SEU AMOR ,

CONTA CONNOSCO

Todos estes textos nos falam de um facto concreto: Deus nasceu. Deus, sendo Deus, quis fazer-se homem para poder ser visto, ouvido e tocado; para poder falar humanamente aos homens, para ser salvador do povo. Trata-se de um facto desconcertante porque implica um "rebaixamento de Deus". A tradição da Igreja usa uma palavra muito expressiva para se referir à vontade amorosa de Deus de vir ao nosso encontro, fazendo-se homem como nós: condescendência. Uma palavra que mostra a absoluta gratuidade e o abismo de amor da Encarnação do Senhor. Um antiquíssimo hino litúrgico - o Te Deum - descreve esta condescendência cantando: "Tu, ad liberandum suscepturus hominem, non horruisti Virginis uterum", Tu, para libertar o homem, aceitaste a condição humana sem desprezar o seio da Virgem. A tradução espanhola (e também a portuguesa) do hino mascara um pouco o original latino: a Igreja canta, cheia de assombro, que Jesus não sentiu horror em ser concebido no seio da Virgem Maria!

A superabundância do amor de Deus manifesta-se de maneira particular no facto de que nos chama a colaborar com Ele. Deus fez-se homem através do sim da Virgem Maria: “Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e perguntou-se a si própria o que significaria tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamarse Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra.

Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.”
(Lc 1, 26-38)

O amor não impõe. Quem ama convida o amado a responder, espera o seu sim como o dom mais precioso. Contemplando o mistério da Encarnação, podemos reconhecer que Deus bate discretamente à nossa porta, pede a ajuda da liberdade do homem - a liberdade inocente de Maria, a Imaculada - para poder entregar-se a ele e amá-lo.
—La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres. Digo esto, Sancho, porque bien has visto el regalo, la abundancia que en este castillo que dejamos hemos tenido; pues en mitad de aquellos banquetes sazonados y de aquellas bebidas de nieve me parecía a mí que estaba metido entre las estrechezas de la hambre, porque no lo gozaba con la libertad que lo gozara si fueran míos, que las obligaciones de las recompensas de los beneficios y mercedes recebidas son ataduras que no dejan campear al ánimo libre. ¡Venturoso aquel a quien el cielo dio un pedazo de pan sin que le quede obligación de agradecerlo a otro que al mismo cielo!

A condescendência do amor de Deus chega até ao ponto de solicitar a colaboração da sua criatura na obra da salvação. Por isso contemplando o mistério da Encarnação através do sim da Virgem Maria, podemos aprender a verdade e o valor da liberdade. A liberdade, «um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens; com ela não se podem igualar os tesouros que encerra a terra nem o mar encobre», como disse Dom Quixote a Sancho
(Don Quixote, Livro II, LVIII)

- é, antes de mais, a capacidade de dizer sim, de aderir ao desígnio de amor de Deus. E o homem é o único ser da criação que pode dizer sim ao seu Criador, que pode ser um verdadeiro interlocutor, que pode livremente amá-lO. Na vida da comunidade cristã, o homem aprende permanentemente o significado e o valor da liberdade. E quando dita liberdade decai para o pecado, o cristão é recuperado e as suas feridas são curadas com o bálsamo da misericórdia. Um gesto simples recorda diariamente aos cristãos que Deus os chama a colaborar com Ele, que a liberdade é o dom precioso que Deus lhes concedeu para poder amar: a oração do Angelus. Três vezes ao dia em algumas povoações ainda se ouvem os sinos a chamar à oração - recitando as palavras do anjo e da Ave Maria, somos chamados a reconhecer o grande mistério de Deus que se faz homem.

C)

A " HUMANIDADE " DE D EUS O mistério da Encarnação permite-nos, por último, falar - paradoxalmente! - da humanidade de Deus. Assim o faz o texto latino da Carta a Tito: «Quando se manifestou benignitas et humanitas Dei (a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens)»
(Tit 3, 4)

3. E NCONTRAR - SE

COM

J ESUS

Já dissemos que Deus quis responder humanamente ao homem. Isto significa que o caminho que Ele escolheu, a linguagem que preferiu, foi o caminho e a linguagem dos homens: Deus fala com a palavra humana. Por isso, desde que Deus se fez homem, para O conhecer e amar, para O ver, ouvir e tocar - como diz São João – a via que nos é apresentada é o homem. Concretamente este homem: Jesus de Nazaré. E n’Ele tudo o que é humano. A Igreja recorda-nos precisamente isso quando afirma que nada do que é humano nos é estranho: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de quantos sofrem, são por sua vez alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Não há nada verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração. A comunidade cristã é composta por homens que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo no seu peregrinar até ao reino do Pai e receberam a boa nova da salvação para a comunicar a todos. A Igreja, por isso, sente-se íntima e realmente solidária com o género humano e com a sua história» (Gaudium et spes 1).

Os Evangelhos da infância narram-nos o nascimento de Jesus. Os anjos, os pastores, os magos, foram testemunhas deste facto inaudito: Deus faz-se homem e nasce em Belém. Os prodígios da noite de Natal, porém, submergiram-se na normalidade da vida quotidiana da família de Nazaré. E assim foi durante trinta anos. O Evangelho diz-nos simplesmente que Jesus, após o episódio do encontro com os doutores no templo aos doze anos, «desceu com eles para Nazaré, e vivia submisso a eles. A sua mãe conservava cuidadosamente todas as cosas no seu coração. E Jesus progredia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens»
(Lc 2, 51-52)

Crescendo, Jesus deu-se a conhecer. Deus feito homem saiu ao encontro dos homens: concretamente, na história dos homens, no meio das suas vicissitudes quotidianas. O caminho que Deus escolheu para se comunicar aos homens – fazer-se um deles, fazer-se homem - adquire toda a sua densidade através do método normal e quotidiano com o qual se conhecem os homens entre si: o método do encontro. Os Evangelhos narram-nos os encontros de Jesus com os homens e mulheres do seu tempo. Encontros que acontecem nas circunstâncias normais da vida, as circunstâncias que todos vivemos: a boda de uns amigos (cfr. Jo 2, 1-10), a morte de um jovem (cfr. Lc 7, 11-17), a doença (cfr. Mt 8, 1-17), um passeio com os amigos (cfr. Mc 2, 23-28).

Como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica «os Evangelhos foram escritos por homens que pertenceram ao grupo dos primeiros que tiveram fé (cf. Mc 1, 1; Jo 21, 24) e quiseram partilhá-la com outros. Tendo conhecido pela fé quem é Jesus, puderam ver e fazer ver os traços do seu Mistério durante toda a sua vida terrena. Desde os panos do seu nascimento (Lc 2, 7) até ao vinagre da sua Paixão (cf. Mt 27, 48) e ao sudário da sua ressurreição (cf. Jo 20, 7), tudo na vida de Jesus é sinal do seu Mistério. Através dos seus gestos, dos seus milagres e das suas palavras, revelou-se que "nele reside toda a plenitude da Divindade corporalmente" (Col 2, 9). A sua humanidade aparece assim como o "sacramento", quer dizer, o sinal e o instrumento da sua divindade e da salvação que traz consigo: o que havia de visível na sua vida terrena conduz ao mistério invisível da sua filiação divina e da sua missão redentora»
(n. 515)

Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.»”
(Lc 19, 1-10)

De todos os encontros de Jesus vamos ler o episódio de Zaqueu. Nesta página evangélica podemos perceber alguns traços fundamentais do que significa encontrar-se com Jesus: “Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu

Jesus vem ao nosso encontro sem que nós o mereçamos, sem que tenhamos nenhum estatuto que nos torne dignos de encontrálO. Mais ainda: a razão pela qual vem ao nosso encontro é que necessitamos de ser salvos. Jesus vem ao nosso encontro porque vem buscar-nos, a nós que estávamos perdidos. Vem buscar-nos e se dirige a nós pronunciando o nosso nome. A comoção do coração de Zaqueu ao ouvir o seu nome, é a mesma que de São Paulo quando diz: Cristo « amou-me e se entregou a si mesmo por mim» (Gal 2, 20). O encontro gratuito com Jesus enche o coração de Zaqueu de alegria: é o sinal da presença de Deus na vida. Essa alegria que nasce da consciência de ser amado, e amado até ao ponto de que o nosso pecado é redimido e abraçado, submergido num oceano de misericórdia. E a tanto amor o homem quer corresponder: é o desejo de mudar, de seguir Jesus. O encontro com Jesus, que é um encontro de salvação, põe sempre o homem diante da decisão de O seguir, de mudar, de se converter. De novo a nossa liberdade torna a ser protagonista, de novo o amor chama a liberdade do homem a colaborar com ele.

Em todos os encontros de Jesus que nos narram os Evangelhos podemos descobrir estas características: a vida quotidiana dos homens mostra a sua necessidade, Jesus tem pena dela e vem ao seu encontro, a salva e enche o coração de alegria, de paz, e então o homem deseja segui-lO, mudar. Mas o encontro com Jesus é o início de um caminho. Milhares de pessoas O encontraram. Alguns começaram a seguilO. A alguns, poucos, fez o convite para que estivessem mais próximo d’Ele. No caminho do seguimento de Jesus a liberdade dos discípulos - e hoje a nossa! – estava todos os dias em jogo. Convivendo com Ele aprenderam a conhecê-lO, escutavam-nO, viam-nO relacionar-se com as pessoas, comover-se por causa das suas necessidades, reprovar-lhes a sua obsessão ou hipocrisia. Foi um caminho no qual partilharam a humanidade de Deus. E nesse caminho, pouco a pouco, cresceu o conhecimento e o amor por Jesus. Uma tarde, vendo que muitos O tinham abandonado, «Jesus disse então aos Doze: "Também vós quereis ir embora?". Respondeu-Lhe Simão Pedro: "Senhor, para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus»
(Jo 6, 67-69)

O RAÇÃO
Santa Maria, Mãe de Deus, tu deste ao mundo a verdadeira luz, Jesus, teu Filho, o Filho de Deus. Entregaste-te por completo ao chamamento de Deus e converteste-te assim em fonte da bondade que brota d’Ele. Mostra-nos Jesus. Guia-nos até Ele. Ensina-nos a conhecê-lo e a amá-lo, para que também nós possamos chegar a ser capazes de um verdadeiro amor e ser fontes de água viva no meio de um mundo sedento.
BENTO XVI, Deus caritas est, 42

Deus fez-se homem e veio ao nosso encontro para que todos nós, um dia, possamos assumir como nossas as palavras de Pedro.

T EXTO

COMPLEMENTAR

Nascido!da!Virgem!Maria:!! verdadeiro!Deus!e!verdadeiro!homem!
P ALAVRA DE D EUS "Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos."
(Gl 4, 4-5)

"Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Este Filho, que é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância e que tudo sustenta com a sua palavra poderosa"
(Heb 1, 1-3)

"Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero lixo, a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé. Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos. "
(Fl 3, 8-11)

"No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus!» Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que quereis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?» Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram as quatro da tarde."
(Jo 1, 35-39)

"Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.» Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, ‘mostra-nos o Pai’? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que Eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras."
(Jo 14, 6-10)

T EXTO

COMPLEMENTAR

Nascido!da!Virgem!Maria:!! verdadeiro!Deus!e!verdadeiro!homem!
P ADRES DA I GREJA "Apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com o homem. Graças sejam dadas a Deus, que fez abundar em nós a consolação no meio desta peregrinação, deste desterro, desta miséria. (.) Um menino nos foi dado, mas em quem habita toda a plenitude da divindade. Uma vez que quando chegou a plenitude do tempo, fez também a sua aparição a plenitude da divindade. Veio na carne mortal para que, ao apresentar-se assim diante dos que eram carnais, na aparição da sua humanidade se reconhecesse a sua bondade. Porque, quando se manifesta a humanidade de Deus, já não se pode manter oculta a sua bondade. De que modo poderia manifestar melhor a sua bondade do que assumindo a minha carne?"
(São Bernardo, Abade, Sermão 1 na Epifania do Senhor, 1-2)

"Foi o Pai quem enviou a Palavra, no fim dos tempos. Não quis que continuasse a falar por meio de um profeta, nem a fazerse adivinhar mediante anúncios velados; mas disse-lhe que se manifestasse com o rosto descoberto, a fim de que o mundo, ao vê-la, pudesse salvar-se. Sabemos que esta Palavra tomou um corpo através da Virgem Maria, e que assumiu o homem velho, transformando-o. Sabemos que se fez homem da nossa mesma condição, porque, se não fosse assim, seria inútil que nos mandasse logo imitá-lo como mestre. Porque, se este homem tivesse sido de outra natureza, como poderia ordenar-me as mesmas coisas que ele faz, a mim, débil por nascimento, e como seria então bom e justo? Para que ninguém pensasse que era diferente de nós, submeteu-se à fadiga, quis ter fome e não se negou a passar sede, teve necessidade de descanso e não rejeitou o sofrimento, obedeceu até à morte e manifestou a sua ressurreição, oferecendo em tudo isto a sua humanidade como primícia, para que tu não te desencorajes no meio dos teus sofrimentos, mas que ao te reconheceres homem, aguardes por sua vez o mesmo que Deus dispôs para ele"
(São Hipólito, Presbítero, Refutação de todas as heresias, Cap. 10, 33-34).

T EXTO

COMPLEMENTAR

Nascido!da!Virgem!Maria:!! verdadeiro!Deus!e!verdadeiro!homem!
C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA 464 O acontecimento único e totalmente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que ele seja o resultado da mescla confusa entre o divino e o humano. Ele se fez verdadeiramente homem permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A Igreja teve de defender e clarificar esta verdade de fé no decurso dos primeiros séculos, diante das heresias que a falsificavam. 516 Toda a vida de Cristo é Revelação do Pai: as suas palavras e os seus actos, os seus silêncios e os seus sofrimentos, a sua maneira de ser e de falar. Jesus pode dizer: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9); e o Pai pode dizer: "Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o" (Lc 9,35). Tendo-se Nosso Senhor feito homem para cumprir a vontade do Pai, os mínimos traços dos seus mistérios manifestam-nos "o amor de Deus por nós".

!
CATEQUESE!4!

ANUNCIAVA!O!REINO!DE!DEUS:!!
O!SEU!ENSINAMENTO!E!SUAS!OBRAS!
Apresentar Jesus Cristo como a Boa Nova que ilumina, unifica e dá sentido à existência humana

O Reino de Deus que Ele anuncia é a felicidade daqueles que, reconhecendo-se débeis, confiam n’Ele e dos pecadores que se aproximam da Sua misericórdia. Os milagres são sinais de libertação que nos convidam a acolher com fé o Reino de Deus pleno e definitivo. Jesus Cristo oferece-nos, hoje, o Reino de Deus.
SÍNTESE: !

1. Sentimo-nos interiormente atraídos pelo bem, mas rapidamente nos cansamos de o procurar e, inclusivamente, consentimos o mal, Somos contraditórios. 2. A própria pessoa de Jesus é a Boa Nova do Reino de Deus: água para o sedento, pão da vida, luz do mundo, conforto para os abatidos. O amor misericordioso de Deus revela-se nas suas palavras e acções. 3. O Reino de Deus – comunhão com Ele – é gratuito. É dom. É como uma semente que cresce dentro de nós. Alcança a sua plenitude definitiva na vida eterna. 4. Jesus, através do perdão dos pecados e dos milagres que faz, oferece os sinais da presença efectiva do Reino de Deus.

OBJECTIVOS:!

1. Descobrir Jesus Cristo como a Boa Nova que dá plenitude à minha vida. 2. Aceitar a mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus. 3. Interrogar-se sobre as condições para ter acesso ao Reino de Deus. 4. Orar juntos: louvar a Deus, dar-lhe graças, pedir-lhe para ser acolhidos no Seu Reino

1. U M

OLHAR SOBRE A REALIDADE
À medida que vamos crescendo e amadurecendo, damo-nos conta que existe algo, no mais fundo de nós mesmos, que por sua vez é o que nos motiva para viver, trabalhar e fazer projectos. Ninguém pode viver sem esse «algo» que provém da sua própria vida. Ainda que não possamos explicá-lo bem, o sentirmo-nos a salvo, a satisfação e a felicidade que não deixamos de perseguir ao longo da vida, estão relacionadas com essa realidade, mais ou menos identificada, que nos impulsiona. É o que tem mais valor. Gostaríamos que toda a nossa vida ficasse unificada em redor dessa força. Contudo, damo-nos conta que estamos divididos por dentro: queremos o belo, o bom, o verdadeiro, o melhor e, ao mesmo tempo, experimentamos a parcialidade e a finitude. Buscamos, apaixonadamente, autenticidade, afecto, relações interpessoais gratificantes, largos horizontes, liberdade, mas frequentemente sentimo-nos feridos pelo bem-estar e o conforto, enganados pelas ideologias, confusos pela desorientação moral. Aspiramos sinceramente construir um mundo mais justo e solidário, mas na prática terminamos por não saber bem o que queremos, nem o que queremos ser, ou por quais caminhos queremos avançar. Somos contraditórios. Pomos todo o nosso interesse em conseguir atingir metas nas quais esperamos encontrar a felicidade, mas, uma vez atingidas as metas, sentimos que aquilo que procurávamos era muito mais do que aquilo que alcançamos. Somos mais felizes com aquilo que desejamos que naquilo que possuímos. Sentimos uma sede imperiosa de mais, uma sede insaciável. Sonhamos com o infinito, mas as vitórias são sempre finitas. É preciso procurar outra vez, começar sempre de novo. A vida é uma contínua tensão.

2. O

ANÚNCIO DA

B OA N OVA

“Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a BoaNova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»”
(Lucas 4, 14-21)

A B OA N OVA É J ESUS A passagem da Escritura cumpre-se em Jesus. A Boa Nova é o próprio Jesus. Ele é a grande notícia para os desejos de plenitude, de felicidade e alegria que residem no nosso coração. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”
(Mateus 11, 28-30)

“Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede.”
(João 7, 37)

“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome”
(João 6, 35)

“Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.”
(João 8, 12)

Aos discípulos que vêem os milagres de Jesus e estão a acolher com fé os sinais da compaixão e da misericórdia de Deus, Jesus diz-lhes: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Porque - digo-vos muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!”
(Lucas 10, 23-24)

A Boa Nova é a própria pessoa de Jesus. Nas suas palavras e acções manifesta-se a dádiva da salvação que Deus faz à humanidade de todos os tempos. Tudo na vida de Jesus é sinal do seu Mistério. Através dos seus gestos, milagres e palavras revelou-se que «nele reside, corporalmente, toda a plenitude da Divindade». A sua humanidade aparece como o sinal e o instrumento da sua divindade e da salvação que traz em si. O visível da sua vida terrena conduz ao mistério invisível de Deus. «Toda a vida de Cristo foi um contínuo ensinamento: o seu silêncio, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor à humanidade, a sua predilecção pelos mais pequenos e pobres, a sua aceitação total do sacrifício da cruz pela salvação do mundo e a sua ressurreição, são a actuação da sua palavra e o cumprimento da revelação»
(Catecismo da Igreja Católica, 561)

Se o cristianismo, como se diz em muitas ocasiões, é em primeiro lugar uma Pessoa, Jesus, e não uma doutrina, tudo começa por conhecê-lo a Ele. O conhecimento é aquilo que abre caminho no coração a tudo o demais: há que conhecer Jesus para amá-lo e segui-lo. Não é um conhecimento teórico e abstracto; é um conhecimento concreto dos seus ensinamentos e acções, da sua vida, morte e ressurreição, os quais se podem chamar «mistérios» porque Deus se manifesta neles, porque neles Deus oferece a salvação a toda a humanidade. Por isso é tão importante meditar com atenção a vida de Jesus, absorver até os detalhes mais pequenos, com a luz e a profundidade que nos concede o Espírito Santo. Não se ama aquele que não se conhece e, se não se ama, não se procura e não se aprecia. «Toda a vida de Cristo é Mistério de Redenção. A Redenção é-nos dada através de todo o sangue da cruz, mas este mistério já está presente em toda a vida de Cristo»
(Catecismo da Igreja Católica, 517)

“Quem me vê, vê o Pai.”
(João 14, 9)

A sua pobreza, as parábolas, os milagres, a sua obediência, a sua fome e sede, as suas lágrimas pelo amigo, as noites de oração, a sua compaixão pelas pessoas, tudo na sua vida tem a força redentora. Por isso, redime e salva também a comunhão com a sua vida.

J ESUS ANUNCIA O R EINO DE D EUS O centro da vida de Jesus é a mensagem da chegada do reino de Deus. Os ensinamentos de Jesus giram em torno do anúncio do Reino de Deus. A frase «chegou até vós o Reino de Deus» é o coração, o cerne dos ensinamentos de Jesus. Quando dizemos «reino de Deus referimonos a «senhorio ou primazia de Deus». É o próprio Deus. A vinda (chegada) do reino de Deus significa a vinda do próprio Deus que, com a sua proximidade, nos convida a participar da vida divina. Jesus mostra o reino de Deus como um banquete para o qual o Pai do céu nos convida a todos. Cada um é responsável por aceitar ou recusar o convite. Aqueles que aceitam o convite com disponibilidade e confiança, entram na festa; fora só há pranto e trevas. O ensinamento de Jesus acerca do Reino, mais do que proclamar os direitos de Deus, proclama a felicidade do homem que acolhe a oferta. Jesus anuncia a melhor notícia para a humanidade. Os anseios da humanidade, os desejos mais fundos do coração humano, vêem-se atingidos no encontro com Jesus. Aí se vê com clareza que o cumprimento das aspirações humanas mais autênticas não é resultado do nosso empenho, mas acção de Deus, dom de Deus que nós acolhemos agradecidos. O reino de Deus não pode ser construído pelos homens através de acções violentas, como pretendiam no tempo de Jesus, nem mediante a luta contra a injustiça, por muito louvável que seja essa luta. Não é uma força humana (política, social, cultural), nem um programa de reforma, nem uma utopia que nos remete só para o futuro. Contém uma promessa que não podemos

planificar, nem organizar, ou construir exclusivamente com as nossas forças; é um presente, um dom que nos é dado gratuitamente. Só podemos pedi-lo, pois é a isso que nos convida Jesus: “Venha a nós o vosso reino”. Supõe um processo. Só alcançará a sua forma plena e definitiva na vida eterna, que já começou aqui. É como um grão de mostarda, a mais pequena das sementes, que cresce no oculto até converter-se numa árvore em que os pássaros do céu fazem os seus ninhos. Ainda que se desenvolva e realize neste mundo, alcança a sua plenitude nos céus: “os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai.”
(Mateus 13, 41-43)

A esperança na plenitude do reino de Deus, que já agora acolhemos como um dom, não nos deixa indiferentes. Muito pelo contrário, torna-nos mais sensíveis perante os problemas da liberdade, justiça e da paz no mundo. A certeza da presença próxima de Deus é uma força transformadora. Transforma o ser humano a partir de dentro, curando as enfermidades e libertando todas as suas possibilidades. Faz um homem novo. Como o fermento que transforma toda a massa, o reino de Deus transforma a vida inteira das pessoas, renovando-a. Poderia parecer utópico, mas quem o acolhe com fé e confiança, experimenta a alegria incomparável do amor de Deus que perdoa e reconcilia.

J ESUS OFERECE OS SINAIS DO R EINO O"perdão"dos"pecados" A presença do reino de Deus entre os homens manifesta-se, em primeiro lugar, no perdão que, por palavras e obras, Jesus anuncia, como a boa notícia que proclama aos pecadores e aos pobres que confiam em Deus. Mostra-nos isso através do repetido gesto de se sentar à mesa com publicanos e pecadores. Assim, Jesus anuncia que eles são acolhidos e perdoados por Deus e que também eles são chamados a participar do reino de Deus, convidados a entrar na presença de Deus, a partir da qual Ele cumpre definitivamente e de um modo insuspeito os anseios do coração humano. Não vim chamar os justos, mas os pecadores (Marcos 2, 17). Faz, inclusivamente, do publicano Mateus seu discípulo. Apresenta como modelo da verdadeira atitude de oração não o fariseu, supostamente bom e cumpridor, mas o publicano que se declara pecador diante de Deus. O próprio Jesus é a misericórdia de Deus incarnada. E isto provoca escândalo. Foi tão grande o escândalo que Jesus proclama bemaventurado aquele que não se escandaliza com ele, por causa do evangelho ser anunciado aos pobres. Esta boa nova do perdão expressa-se dum modo mais simples e compreensível nas parábolas que o evangelista Lucas reúne no capítulo 15 do seu evangelho. Nelas mostra-nos o pai que é Deus. Um filho pode ser frágil e deixar-se levar pela sedução dos bens passageiros; pode revoltar-se contra o seu próprio pai, desprezá-lo e sair de casa; pode extraviarse e cair no que há de mais baixo. Deus é um pai que respeita a liberdade do filho, por mais que este queira afastar-se

dele e exigir uma herança dada como um dom. Deus é um pai que sabe esperar a conversão do filho extraviado, que corre ao seu encontro quando ele regressa e o abraça sem reprovações ou castigos; é um pai que perdoa e festeja o regresso: roupa nova, anel, música e baile. Deus é assim. O amor misericordioso de Deus acolhe sempre todas as pessoas. Deus Pai compadece-se do pecador e atrai-o até si com um amor sem limites. Este anúncio da misericórdia de Deus que Jesus faz é, sem dúvida, mais necessário no nosso tempo: “A mentalidade contemporânea, mais do que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus da misericórdia e tende, a retirá-la da vida e a arrancar do coração humano a própria ideia de misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem produzir uma cisão no homem.”
(João Paulo II, Dives in Misericordia, n.º 2)

Jesus vive toda a sua existência em nome do Pai. Em nenhum momento, em nenhum lugar da sua passagem pela terra Jesus está fora do Pai. “O Pai e eu somos um” (João 10, 30). Nas orações de Jesus incluídas nos evangelhos vemos que se dirige sempre a Deus com uma invocação que constituía uma novidade dentro do judaísmo. “Abbá” = “Pai”. Com ela manifesta a especial confiança e familiaridade que, como Filho, o une a Deus. Com a mesma invocação começava a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos, o Pai Nosso. Revela-nos que podemos invocar Deus com a mesma confiança que ele, como membros da mesma família, em que ele (Jesus) é o irmão mais velho. Nós falamos com Deus com uma proximidade e familiaridade semelhantes à de Jesus, somos filhos de Deus à maneira de Jesus.

Os"milagres" “Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças.” (Mateus 9, 35). Os milagres fazem parte da proclamação do reino de Deus. São sinais de que o reino de Deus, com toda a sua força misteriosa, já está presente no meio da humanidade. Quando Jesus liberta algumas pessoas dos males como a fome, a injustiça, a doença ou a morte, quer fazer-nos ver que ele veio para libertar a humanidade da pior escravidão, que é o pecado, e que é também o maior obstáculo à vocação de filhos de Deus e a causa das tristezas humanas. Só uns olhos e ouvidos crentes podem compreender bem as acções de Jesus. Os milagres são sinais do seu amor e do seu poder, fazendo-os para nos atrair para a fé. Não só mostram que o reino chegou, mas iluminam-nos e convidam-nos a acreditar e a nos convertermos.
Certamente na vida terrena de Jesus irrompe o reino de Deus na história humana: ele é o centro do tempo. Na vida de Jesus, nos seus ensinamentos, nos seus milagres, na sua morte e ressurreição, Deus visitou e redimiu o seu povo. Depois, o Senhor ressuscitado dá o Espírito Santo aos discípulos e ordena-lhes que continuem a tornar presente o reino com palavras e obras, como ele fez. Os mesmos sinais vemo-los hoje em tantas pessoas que continuam a proclamar a Boa Nova e a manifestar os seus sinais.

“E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.”
(Marcos 16, 15.20)

3. A B OA N OVA

É ANUNCIADA HOJE A CADA UM DE NÓS
Se não tivéssemos escutado nunca o Evangelho e se não o conhecêssemos, não teríamos de nos afirmar a favor ou contra. Mas, ainda que tenha sido no meio do ruído, da confusão, das dúvidas, dos desejos mais nobres e das contradições pessoais, fomos alcançados pelo anúncio do Evangelho. Jesus revela-nos a proximidade com Deus. Ficamos fascinados, atraídos pelo «Bom Mestre» no qual podemos encontrar aquilo que mais necessitamos. Ao ser alcançados pelo Evangelho, também ficam expostas as nossas limitações, as distintas formas de egoísmo que nos bloqueiam e escravizam. Mas é justamente disto que o Senhor nos pode libertar. Ele diz-nos: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho”.
(Marcos 1, 15).

O RAÇÃO
Senhor Jesus Cristo, Tu que és a Boa Nova para toda a humanidade, Tu que conheces o caminho para chegar ao coração do homem para lhe dar a verdadeira liberdade, abre a mente e o coração dos jovens, que procuram e esperam uma palavra de verdade para a sua vida; fá-los experimentar que só no mistério da tua incarnação podem encontrar a luz plena; dá força àqueles que sabem onde encontrar a verdade, mas que têm medo. Tu, que és a Palavra do Pai, Palavra que cria e salva, Palavra que ilumina e sustém os corações, Vence com o teu Espírito as nossas resistências e vacilações, Olha para a nossa necessidade de salvação E transforma a nossa vida na luz da tua misericórdia.

Se assumimos isto a sério e desejamos que ressoe no nosso interior, torna-se numa proposta que desafia a nossa liberdade. Não podemos ficar indiferentes; temos que o acolher ou recusá-lo. Jesus é o único que pode concretizar as nossas aspirações. É ele próprio que nos chama, nos dá o ânimo e a força para nos convertermos a Ele. Procuramos realmente libertar-nos das correntes que nos impedem de fazer o bem? Que correntes nos prendem, impedindo-nos de avançar no caminho da liberdade que nos propõe Jesus Cristo?

T EXTO

COMPLEMENTAR

Jesus anunciava o Reino de Deus: o seu ensinamento e obras P ALAVRA DE D EUS «O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos.» Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado.»
(Mateus 13, 31-33)

“Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.»

«O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino do Céu é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.»
(Mateus 13, 44-45)

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»”
(Mateus 11, 25-30)

P ADRES DA I GREJA “Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade! Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia e noite. Quando te conheci pela primeira vez, ergueste-me para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu ainda era incapaz de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com o fulgor do teu brilho, e eu estremeci de amor e temor. Pareceu-me estar longe de ti numa região desconhecida, como se ouvira tua voz do alto: “Sou o pão dos fortes; cresce, e comer-me-ás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em mim”. Buscava um meio que me desse força necessária para gozar de ti, e não a encontrei nem enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ele une o alimento à carne (alimento que eu não tinha forças para tomar), porque o Verbo se fez carne, para que tua Sabedoria, pela qual criaste todas as coisas, fosse o leite de nossa infância”.
(Santo Agostinho, Confissões, 7, 10)

“Caríssimos irmãos: Nosso Senhor Jesus Cristo ao pregar o Evangelho do Reino e ao curar por toda a Galileia enfermidades de toda a espécie, a fama dos seus milagres tinha-se estendido até à Síria e, de toda a Judeia, acorriam imensas multidões até ao médico celestial. Como à fraqueza humana lhe custa a acreditar naquilo que não vê ou a esperar o que ignora, havia a necessidade de a sabedoria divina lhes conceder graças corporais e realizar milagres visíveis, para os animar e fortalecer, para que, ao tocar o seu poder bem feitor, pudessem reconhecer que a sua doutrina era salvadora. Querendo, pois, o Senhor converter as curas externas em remédios internos e chegar, depois de curar os corpos à cura das almas, afastando-se das multidões que o rodeavam e levando consigo os apóstolos, procurou a solidão de um monte próximo. Queria ensinar-lhes o mais importante da sua doutrina. Vede que hãode vir dias – oráculo do Senhor – em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Depois daqueles dias – oráculo do Senhor – porei a minha lei no seu peito e a escreverei nos seus corações.”
(São Leão Magno, Sermão sobre as Bemaventuranças, 95, 1)

C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA «O"Reino"de"Deus"está"próximo»" 541. «Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia. Aí proclamava a Boa-Nova da vinda de Deus, nestes termos: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na Boa-Nova!"»
(Mc 1, 14-15)

O"anúncio"do"Reino"de"Deus" 544. O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde. Jesus foi enviado para «trazer a Boa-Nova aos pobres»
(Lc 4, 18)

Declara-os bem-aventurados, porque «é deles o Reino dos céus»
(Mt 5, 3)

«Por isso, Cristo, a fim de cumprir a vontade do Pai, deu começo na terra ao Reino dos céus»
(LG 3)

Foi aos «pequenos» que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes
(Mt 11, 25)

Ora a vontade do Pai é «elevar os homens à participação da vida divina»
(LG 2)

E fá-lo reunindo os homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Esta reunião é a Igreja, a qual é na terra «o germe e o princípio» do Reino de Deus»
(LG 5)

Jesus partilha a vida dos pobres, desde o presépio até à cruz: sabe o que é sofrer a fome
(cf. Mc 2, 23-26; Mt 21, 18)

a sede e a indigência
(Jo 4, 6-7) (Lc 9, 58)

542. Cristo está no centro desta reunião dos homens na «família de Deus». Reúne-os à sua volta pela sua palavra, pelos seus sinais que manifestam o Reino de Deus, pelo envio dos discípulos. E realizará a vinda do seu Reino sobretudo pelo grande mistério da sua Páscoa: a sua morte de cruz e a sua ressurreição. «E Eu, uma vez elevado da Terra, atrairei todos a Mim»
(Jo 12, 32)

Mais ainda: identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor activo para com eles a condição da entrada no seu Reino
(Mt 25, 31-46).

Todos os homens são chamados a esta união com Cristo
(cf. LG 3)

545. Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores»
(Mc 2, 17) (1 Tim 1, 15)

Eles não pretendem satisfazer a curiosidade nem desejos mágicos. Apesar dos seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns
(Jo 11, 47-48)

Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e actos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai para com eles e a imensa «alegria que haverá no céu, por um só pecador que se arrependa»
(Lc 15, 7)

chega mesmo a ser acusado de agir pelo poder dos demónios
(Mc 3, 22)

549. Ao libertar certos homens dos males terrenos da fome,
(Jo 6, 5-15)

A prova suprema deste amor será o sacrifício da sua própria vida, «pela remissão dos pecados»
(Mt 26, 28)

da injustiça, da doença e da morte
(Lc 19, 8) (Mt 11, 5)

Os"sinais"do"Reino"de"Deus" 548. Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou
(Jo 5, 36; 10, 25)

Jesus realizou sinais messiânicos; no entanto, Ele não veio para abolir todos os males deste mundo
(Lc 12, 13.14; Jo 18, 36)

Convidam a crer n'Ele
(Jo 10, 38)

mas para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do pecado
(Jo 8, 34-36)

Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem
(Mc 5, 25-34; 10, 52)

que os impede de realizar a sua vocação de filhos de Deus e é causa de todas as servidões humanas.

Assim, os milagres fortificam a fé n'Aquele que faz as obras do seu Pai: testemunham que Ele é o Filho de Deus
(Jo 10, 31-38)

Mas também podem ser «ocasião de queda»
(Mt 11, 6)

Testemunho!
IF. era um jovem jugoslavo que aos 18 anos foi para a Alemanha. Ansiava ser livre. Não podia aceitar uma vida normal. O mundo que se lhe oferecia era demasiado limitado. “Sempre gostei muito da aventura. Muito cedo conheci o mundo do crime, do dinheiro e da droga. Com 18 anos já ganhava muito mais dinheiro do que aquele que necessitava para viver. Comecei a traficar droga. O dinheiro gastava-o em discotecas privadas e a levar a vida com que muitos jovens sonham. Aos 14 ou 15 anos já tinha experimentado algumas drogas leve. Quando comecei a vender heroína, comecei a consumi-la. Tinha o meu estilo de vida: música, concertos, clubes… o meu pequeno mundo. Mas tudo isto acabou rapidamente. Aos 25 anos estava saturado da vida. A minha família sabia que me drogava. Tinha todo o corpo marcado. Já não tinha veias e, hoje, 15 anos depois, continuo a não tê-las. Decidi fazer algo pela minha vida e entrei na Comunidade Cenáculo, uma comunidade de escola da vida em que nós rapazes abandonamos a droga através do trabalho e da oração. Lá conheci a Irmã Elvira. Num certo momento perguntou-nos quem queria ser bom. Todos à minha volta levantaram a mão, mas eu não podia. Fiquei tão impressionado

com a Irmã Elvira que não tive coragem de mentir e naquela noite não preguei olho. Chorei toda a noite. Deitei para fora muita fúria, muita amargura. Naquela noite decidi que queria fazer o programa da Comunidade até ao fim. Acreditei na Irmã Elvira. Finalmente encontrara uma pessoa em quem acreditava totalmente. Numa tarde, a Irmã Elvira disse-nos que nós não sabíamos quem éramos, e isso afectou-me como se alguém me tivesse ferido. Recordo o que pensei: «Que diz esta freira? Tenho 26 anos, como não sei quem sou?». Disse-nos que só poderíamos saber quem éramos se tivéssemos força suficiente para nos ajoelharmos diante de Jesus na Eucaristia. Também passei aquela noite a chorar e no dia seguinte fui à capela e disse: «Se é verdade o que diz a Irmã, que não sei quem sou, e se é verdade que Tu estás vivo na Eucaristia, quero ver a verdade, quero saber a verdade sobre mim, sobre quem sou». Posso afirmar que desde aquele dia, com a ajuda de Jesus, comecei a olhar para dentro do meu coração e a descobrir muitas coisas

que antes não queria reconhecer em mim próprio. Recordo que quando vi as minhas fraquezas, ficava muito magoado. Sentia um forte arrependimento e vivi a experiência do perdão. Confrontado com a verdade diante de mim mesmo, experimentei o arrependimento e vivi o perdão de Deus. Reconciliei-me com o meu passado. Hoje, quando penso nas conquistas do meu passado, tenho paz. Já não há mais agitação, não há impulsos negativos,

não há incómodo, nem vergonha, já não existem esses grandes e fortes impulsos. Só há paz porque Deus redimiu tudo através do sacramento da Reconciliação. Reconciliei-me com o meu passado, a escuridão converteu-se em luz. Hoje, o meu passado é uma riqueza donde tiro a sabedoria para ajudar as pessoas que estão no caminho». IF. foi ordenado sacerdote no ano de 2004.

! CATEQUESE!5:!!

CHAMAVA!A!PARTILHAR!!
!!!!A!SUA!VIDA!E!A!SUA!MISSÃO!
Mostrar a existência pessoal como resposta a um chamamento de Deus

OBJECTO:!

Mostrar a existência pessoal como resposta a um chamamento de Deus: a vida de filhos de Deus no seguimento de Jesus, participando da sua missão. Meditar as passagens do Evangelho que ajudam a discernir os sinais do chamamento de Deus e convidam a responder com prontidão e alegria.
SÍNTESE: !

1. O inconformismo, a radicalidade, a procura de autenticidade, são sentimentos que podem dinamizar o processo de crescimento e maturação. 2. Na origem da nossa vida há um chamamento; viver é responder. Criados à imagem de Deus, chamados a ser seus filhos, encontramos no seu Filho Jesus o esclarecimento do nosso destino. 3. O chamamento de Jesus mantém vivo o chamamento à existência e, ao mesmo tempo, concretiza-o. Responde às nossas perguntas e, ao mesmo tempo, abre-nos a novas metas. 4. Jesus torna os seus discípulos participantes da missão que o Pai lhe tinha confiado. O chamamento de Jesus é sempre para dar a vida: seja no sacerdócio ministerial, na vida de especial consagração ou na família cristã. 5. A resposta é livre, como livre é a iniciativa divina. A resposta positiva leva a abrirnos a metas sempre novas, sempre mais altas.

1. JP II

AOS JOVENS :

“Na realidade, é a Jesus a quem procurais quando sonhais a felicidade; é Ele quem vos espera quando não vos satisfaz nada do que encontrais; é Ele a beleza que tanto vos atrai; é Ele quem vos provoca com essa sede de radicalidade que não vos permite ceder ao conformismo; é Ele quem vos incentiva a deixar as máscaras que muitas vezes falseiam a vossa vida; é Ele que vos lê no coração as decisões mais autênticas que outros tentam sufocar. É Jesus que suscita em vós o desejo de fazer da vossa vida algo grande, a vontade de seguir um ideal, a força de rejeição de vos deixardes levar pela mediocridade, a valentia de vos comprometerdes com humildade e perseverança a melhorar o vosso próprio ser e a sociedade, tornando-a mais humana e fraterna.
(JOÃO PAULO II, JMJ, Roma, Agosto, 2000).

mais humana e fraterna. Cada um tem que parar e pensar se verdadeiramente se sente insatisfeito, se vive à procura de algo que preencha a sua vida. João Paulo II não se limitava a afirmar o que com toda a probabilidade eram os sentimentos mais comuns dos jovens. Interpretava esses sentimentos e revelava o seu significado: “É Jesus a quem procurais, é Ele que vos espera, é Ele a beleza que vos atrai, é Ele quem vos provoca, é Ele quem vos dá força para deixar as máscaras, é Ele quem vos lê o coração, é Jesus quem suscita em vós o desejo. Dizendo sim a Cristo, dizeis sim a todos os vossos ideais mais nobres. Não tenhais medo de vos entregar a Ele. Ele vos guiará, vos dará a força para o seguir todos os dias e em cada situação.” O chamamento de Jesus ressoa dentro de nós mesmos, na nossa própria vida. Na nossa insatisfação, na nossa busca, nos nossos desejos de radicalidade e de algo grande, podemos reconhecer a pergunta que fez Jesus aos discípulos de João Baptista, quando o seguiam sem saber para onde: “Que procurais?”
(Jo 1,37).

Queridos jovens, cada um de vós tem que parar e pensar se são estes os sentimentos que mais frequentemente ocupam o seu coração: sonhar com a felicidade, sentir insatisfação com o que se vê em redor, sentir-se atraídos pela beleza, ter sede de radicalidade, deixar as máscaras que falseiam a vida, fazer da vida algo grande, seguir um ideal, fazer uma sociedade

E podemos reconhecer também a resposta, que acertadamente, deram os discípulos: “Mestre, onde moras?”
(Jo 1,39)

Deixaram-se atrair por Jesus e consentiram em segui-lo.

2. E SCUTAMOS
A PALAVRA DE
16

D EUS
35

Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
17

No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos.
36

E disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens.»
18 19

Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus!»
37

Deixando logo as redes, seguiram-no.

Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus.
38

Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco a consertar as redes, e logo os chamou.
20

E eles deixaram no barco seu pai Zebedeu com os assalariados e partiram com Ele.
(Mc 1, 16-20) (Mt 4,18-22; Lc 5,1-11; Jo 1,35-51)-

Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre onde moras?»
39

59

E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.»
60

Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram asquatro da tarde.
40

Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.»
61

André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus.
41

Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: «Encontrámos o Messias!» que quer dizer Cristo.
42

Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.»
62

Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.»
(Lc 9, 59-62) (Mt 8,19-22)

E levou-o até Jesus. Fixando nele o olhar, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas» - que significa Pedra.
(Jo 1, 35-42) (Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; 3,13-19; Lc 5,1-11; 6,12-16; Act 1,13)

2.1. EXISTIR É RESPONDER A UM CHAMAMENTO A nossa existência não é puro azar, não fomos arrastados para o mundo, não existimos por casualidade ou por um absurdo. O Senhor tem um plano para cada um de nós, conhece-nos e chama-nos pelo nosso nome. Conta connosco para nos confiar uma missão: é o que estamos chamados a fazer na vida para tecer a história e contribuir para a edificação da sua Igreja, templo vivo da sua presença. Na origem da nossa vida há um chamamento. Viver é percebê-lo, permanecer à escuta, ser valentes e generosos para responder. No final da nossa existência na terra seremos considerados servos fiéis que aproveitaram bem os dons que receberam.

“Desde que existo, a minha existência não tem outro fim que não o próprio Cristo”, dizia o teólogo Henri de Lubac.

Sim, como filhos de Deus, estamos chamados a viver unidos a Jesus Cristo, o primeiro passo da nossa resposta é o Baptismo, pelo qual fomos feitos membros do seu Corpo. N’Ele se vai formando o povo dos chamados. A Humanidade inteira vai realizando em Cristo o destino a que está chamada como povo, como comunidade.

2.2. CHAMADOS A VIVER COMO FILHOS DE DEUS Fomos criados à imagem de Deus, para ser seus filhos, unidos pela acção do Espírito Santo a Jesus Cristo, que é o Filho. Estamos tão fortemente chamados a viver unidos a Jesus Cristo, que só na medida em que O conhecemos é que nos entendemos a nós mesmos e compreendemos o nosso destino. O Concílio Vaticano II disse-o assim: “O mistério do homem só se esclarece no mistério de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem”
(Gaudium et spes 22).

Ninguém melhor que Jesus Cristo, o Filho Eterno de Deus feito homem, nos pode falar e reproduzir, em nós próprios, a imagem de filho. Por isso nos convida a segui-lo, a ser como Ele, a partilhar a sua vida, a sua palavra, os seus sentimentos, a sua morte e ressurreição. O Filho de Deus fez-se homem para que o chamamento de Deus ressoe sempre em nós. Não existe uma só parábola no Evangelho, ou um encontro ou um diálogo, que não tenha um sentido vocacional, que não expresse, directa ou indirectamente, um chamamento por parte de Jesus.

Segundo os relatos dos evangelhos, parece que Jesus deixa sempre a quem se encontra com Ele a mesma preocupação: “que fazer da minha vida?, qual é o meu caminho?”

2.3. CHAMADOS POR JESUS A relação de Jesus com os seus seguidores não era como a dos restantes mestres. A forma como Jesus chamou os seus discípulos, a finalidade da dita chamada e as consequências que teve na vida daqueles que o seguiram são os maiores rasgos de novidade da experiência dos discípulos que encontramos no Evangelho. O habitual era que um jovem buscasse uma escola ou um mestre para se fazer discípulo. Os discípulos dos rabinos procuram algo que lhes permita adquirir competências suficientes para rapidamente chegarem a mestres. Contudo, os discípulos de Jesus são eleitos. É Jesus quem dá o primeiro passo, chamando-os pessoalmente. É Ele quem chama e põe condições
(Mc 1,16-20; Lc 9,59-62)

líderes e profetas do povo para uma missão concreta. Chama a todos. É um chamamento universal. Rompe as barreiras do puro-impuro, pecadores-fiéis. Chama os publicanos que estão distantes da comunidade, inclusive os zelotas, ou aos simples pecadores iletrados. E a alguns chama-os para uma missão concreta.

com uma autoridade pouco comum. Jesus não ensina uma doutrina, antes pede uma adesão incondicional à sua pessoa para fazer a vontade de Deus. Em nenhum dos grupos religiosos da época encontramos uma exigência de adesão pessoal como encontramos em Jesus. O imperativo Segue-me! constitui o núcleo do seu chamamento. Seguir Jesus constituirá o centro do estilo de vida dos seus discípulos. Ele sempre será o Mestre, e os chamados sempre serão discípulos. A iniciativa de Jesus de chamar os discípulos e a autoridade com que chama revelam uma consciência singular de si mesmo. Ao actuar assim, Jesus situa-se no mesmo lugar que ocupa Deus nos relatos do Antigo Testamento, naqueles que se narra o chamamento de

A alguns, diz o evangelho de são Marcos, chamou-os para que “ficassem com ele e para os enviar a pregar”. Em primeiro lugar, para que estabelecessem uma nova relação com ele, uma relação que implica não só a aprendizagem da sua doutrina, como também partilhar o seu estilo de vida e identificar-se com o seu destino. Esta identificação com Jesus é, além disso, a condição para que os discípulos possam ser enviados a anunciar e tornar presente o reino de Deus. O chamamento de Jesus inclui uma missão ou serviço: ser pescadores de homens, anunciar o reino de Deus. O chamamento é urgente. A resposta deve ser rápida e sem reservas. Não valem recusas subtis, nem fazer-se de surdo. Perante a sua chamada não se pode falsear nada nem tomar tempo algum para fazer tarefas humanas. Ao chamamento de Jesus para o Reino os discípulos respondem imediatamente e com toda a sua vida. Essa missão dos discípulos comporta o mesmo risco a que esteve sujeito o mestre.

2.4. JESUS RESPONDE ÀS NOSSAS PERGUNTAS “Vinde e vereis” (Jo 1,39). Assim responde Jesus aos dois discípulos de João Baptista, que lhe perguntavam onde vivia. Nestas palavras encontramos o significado do ser discípulo de Cristo. Nesta cena tão comovedora reconhecemos todo o mistério da vocação cristã. Os discípulos seguiram Cristo. Seguir Jesus é a expressão evangélica escolhida para designar o discipulado. Segue-se uma pessoa, e não um programa ou ideologia. Quando Jesus fala de atitude dos seus discípulos para com ele, Jesus diz: “seguir”. Como as ovelhas seguem o pastor
(Jo 10,4.5.27)

Os dois discípulos são convidados a seguir Jesus, vivendo com Ele e como Ele. É o chamamento que Jesus faz a todos os homens e mulheres. Um chamamento que, para ser escutado, requer procura e generosidade. De outro modo dificilmente será perceptível. O cristianismo conquista os apaixonados pela verdade e pelo amor. Há mil e uma maneiras de procurar. Mas todos os corações anseiam o mesmo. Chama-se felicidade, amor, alegria, razões para viver, etc. São nomes mais ou menos felizes. Todos os nascidos de mulher, sabendo-o ou não, procuramos o mesmo. Isso, atrás do qual o coração anda ansioso, tem um nome, toma forma, deixa-se ver, pode-se dizer que passa à nossa frente. Um verdadeiro cristão é aquele que se encontrou com o rosto de Jesus Cristo e este encontro não o deixou indiferente. Atrever-nos-emos a avançar pelo caminho que se abre à nossa frente? Seremos capazes do seguimento sincero e generoso de Jesus Cristo?

Seguir Jesus é confiar n’Ele, deixar-se iluminar por Ele: “Aquele que me seguir não caminhará nas trevas, antes terá a luz da vida”
(Jo 8,12)

A “obra” principal que o Pai pede a quem segue o seu Filho é que “creiam n’Ele”
(Jo 6,29)

2.5. JESUS CHAMA A DAR A VIDA Experimentaram-no os primeiros discípulos e todos os que o seguiram depois. Seguir Jesus consiste em compartilhar o seu próprio destino, em ser e fazer como Ele. Mais concretamente: viver a sua própria relação com o Pai e com os homens, seus irmãos. Os discípulos de Jesus aceitam a vida como um dom recebido das mãos do Pai, para “perdê-la” e derramar este dom sobre aqueles que o Pai lhes confiou.

A vida toda de Jesus, e todo o seu ser, gira em torno da missão. É nela que se concentra e se expressa a sua obediência ao Pai e o seu amor tão radical aos irmãos: “ninguém tem maior amor que este: o de dar a vida pelos amigos”
(Jo 15,13)

Jesus torna os seus discípulos participantes da missão que recebeu do Pai. “Como o Pai me enviou a mim, também eu vos envio a vós”
(Jo 20,21)

Somos chamados, portanto, a reproduzir e a reviver os sentimentos do Filho, que se sintetizam no amor. Mas somos chamados a torná-lo visível de diversas formas, segundo as circunstâncias concretas, os dons recebidos, o modo de participar de cada um na missão de Jesus. As modalidades serão diversas, mas a vocação fundamental dos discípulos é única: entregar a própria vida como fez Jesus. O envio é, com efeito, o mandamento da tarde de Páscoa
(Jo 20,21)

a última palavra antes de subir ao Pai
(Mt 28,16-20)

2.6. JESUS CHAMA HOJE “Jesus, ao convidar o jovem rico a ir muito mais além da satisfação das suas aspirações e projectos pessoais, diz-lhe: ‘Vem e segue-me’. A vocação cristã nasce de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor: ‘Jesus convida os seus discípulos ao dom total da sua vida, sem nenhum interesse humano, com uma absoluta confiança em Deus. Os santos acolhem este convite exigente e, com humilde docilidade, seguem Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição, na lógica da fé que muitas vezes não se compreende bem, consiste em deixar de se colocar no centro e escolher avançar contra a corrente, vivendo segundo o Evangelho.’ Seguindo o exemplo de tantos discípulos de Cristo, acolhei vós também com alegria, queridos amigos, o convite a segui-lo para viver intensamente e com fecundidade neste mundo. Pelo Baptismo, com efeito, chama a cada um de nós a segui-lo através de acções concretas, a amá-lo acima de tudo e a servi-lo nos nossos irmãos. O jovem rico, infelizmente, não acolheu o convite de Jesus e foi-se embora muito triste. Faltou-lhe a valentia para se desprender dos bens materiais e encontrar o bem incomparável que Jesus lhe propunha.

A tristeza do jovem rico do Evangelho é a que nasce no coração de cada um quando não se tem a valentia de seguir Cristo, de escolher a melhor opção. Mas nunca é demasiado tarde para lhe responder! Jesus não deixa de voltar o seu olhar de amor e de convidar a ser seus discípulos, mas a alguns propõe-lhes uma opção mais radical. Neste Ano Sacerdotal, queria exortar os jovens e adolescentes a estar atentos para saber se o Senhor não os está a convidar a um dom maior, pelo caminho do sacerdócio ministerial, e a estar disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predilecção particular, empreendendo o necessário caminho de discernimento com um sacerdote ou com o seu director espiritual. Não tenhais medo, queridos e queridas jovens, se o Senhor vos chamar para a vida religiosa, monástica, missionária ou de especial consagração: ele sabe dar uma profunda alegria a quem lhe responde com valentia. Convido, além disso, os que sentem a vocação ao matrimónio a agarrá-la com fé, comprometendo-se a construir bases sólidas para viver um grande amor, fiel e aberto ao dom da vida, que é riqueza e graça para a sociedade e para a Igreja.”
(B16, Mensagem aos Jovens na XXV JMJ, 2010).

3. A

NOSSA RESPOSTA

UM ENCONTRO DE DUAS LIBERDADES A história de toda a vocação cristã é a história de um diálogo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus que chama e a liberdade do homem que responde a Deus no amor. Um encontro de duas liberdades. Nada mais sagrado, nada que exija mais respeito. A intervenção livre e gratuita de Deus que chama é absolutamente prioritária, anterior e decisiva. A primazia absoluta da graça na vocação encontra a sua proclamação perfeita na palavra de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, fui eu que vos escolhi a vós e vos destinei para que deis fruto e o vosso fruto permaneça.”
(Jo 15,16)

Na vocação brilham ao mesmo tempo o amor gratuito de Deus e a exaltação da liberdade do homem; a adesão à chamada de Deus e a sua entrega a Ele. “Para acolher uma proposta fascinante como a que nos faz Jesus, para estabelecer uma aliança com ele, faz falta ser jovem interiormente, capaz de se deixar interpelar pela sua novidade, para empreender com ele novos caminhos. Jesus tem predilecção pelos jovens, como o manifesta claramente no diálogo com o jovem rico (cf. Mt 19, 16-22; Mc 10, 17-22); respeita a sua liberdade, mas nunca se cansa de lhes propor metas mais exigentes para a sua vida: a novidade do Evangelho e a beleza de uma conduta santa. Seguindo o exemplo do seu Senhor, a Igreja tem essa mesma atitude. Por isso, queridos jovens, ela olha para vós com imenso afecto; está próximo de vós nos momentos de alegria e de festa, tal como nos momentos de dificuldade e de prova; sustém-vos com os dons da graça sacramental e acompanha-vos no discernimento da vossa vocação.”

Essa primazia da graça requer do homem uma resposta livre. Uma resposta positiva q ue pressuponha sempre a aceitação e a participação no projecto que Deus tem sobre cada um; uma resposta que acolha a iniciativa amorosa do Senhor e chegue a ser, para todo o que é chamado, uma exigência moral vinculante, uma oferenda agradecida a Deus e uma total cooperação no plano que Ele prossegue na história.

É POSSÍVEL RESPONDER “NÃO” O jovem rico aproximou-se de Jesus perguntando pelo que lhe faltava. Desde pequeno que cumpria os mandamentos. Mas quando o jovem pergunta sobre o que lhe faltava: “Que me falta ainda fazer?”, Jesus olha-o com amor e este amor encontra aqui um novo significado. Jesus responde: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus, e por fim vem e segue-me!”. O jovem é convidado a viver segundo a dimensão do dom, uma dimensão não só superior à das meras obrigações morais, como às vezes se consideram os mandamentos, mas profunda e fundamental. O jovem é convidado a passar da vida como projecto à vida como vocação. O cristianismo só se pode viver em plenitude se se viver a partir do chamamento. “Se queres” diz o Senhor. Ele respeita a nossa decisão, a nossa liberdade.

O RAÇÃO
Senhor Jesus, Que nos chamas a todos A trabalhar por Ti, a trabalhar contigo. Tu queres que te sigamos E tenhamos a vida verdadeira, Tu que iluminaste com a tua palavra Os que chamaste, Ilumina-nos com o dom da fé em Ti. Tu que nos tens sustido nas dificuldades, Ajuda-nos a vencer as nossas dificuldades De jovens de hoje. E se chamas algum de nós, Para se consagrar todo a Ti, Que o teu amor alimente essa vocação Desde o início e a faça crescer E perseverar até ao fim.

T EXTO

COMPLEMENTAR

P ALAVRA DE D EUS “Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os. Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus. Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.”.
(Marcos 2, 13-15)

“Aproximou-se dele um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos.» «Quais?» - perguntou ele. Retorquiu Jesus: Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe; e ainda: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens.”
(Mateus 19, 16-22)

“Encontrando-se junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, Jesus viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes. Entrou num dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca.» Simão respondeu: «Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros

que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram os dois barcos, a ponto de se irem afundando. Ao ver isto, Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.» Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.» E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus.”
(Lucas 5, 1-11)

P ADRES DA I GREJA “Ouvistes, irmãos, que Pedro e André abandonaram as redes para seguir o Redentor ao primeiro chamamento deste.

Talvez alguns de vós pensem: para responder à chamada do Senhor, o que é que tiveram que abandonar estes pescadores que não tinham quase nada? Mas nesta matéria temos que considerar as disposições do coração mais que a própria riqueza. Deixa muito aquele que não retém nada para si; deixa muito o que abandona tudo, por muito pouco que seja. Nós conservamos com paixão o que possuímos, e tratamos de conseguir o que não temos. Sim, Pedro e André deixaram muito, já que tanto um como o outro abandonaram até o desejo de possuir algo. Abandonaram muito porque ao renunciar a todos os seus bens renunciaram também às suas ânsias. Que ninguém, pois, diga ou pense ao ver que alguns renunciam a grande bens: Tomara eu imitar os que se desprendem assim do mundo, mas não têm nada a que renunciar. Irmãos, quando renunciais aos desejos terrestres, abandonais muito. Os nossos bens exteriores, ainda que pequenos, bastam aos olhos do Senhor. Ele fixa-se no coração, não na riqueza. Ele não pesa o valor comercial do sacrifício, mas sim a intenção com que se oferece. Considerando os bens exteriores, os nossos santos comerciantes tiveram a vida eterna, que é a dos anjos, por um barco e umas redes.

O Reino de Deus não tem preço, e contudo custa exactamente tudo o que tu tenhas. A Pedro e André custou-lhe exactamente um barco e umas redes; à viúva custou-lhe duas moedas de prata; a outro, um copo de água fresca (Mt 10, 42). Já o tínhamos dito, o Reino de Deus custa tudo o que tu tenhas. Vedes que coisa tão fácil de adquirir e mais preciosa para possuir? Talvez nem sequer tenhas um copo de água fresca para oferecer ao pobre que precisa dele. Ainda neste caso, a Palavra de Deus tranquiliza-nos. Porque quando nasceu o Redentor, os habitantes do céu apareceram a cantar: Glória a Deus no céu, e paz na terra aos homens de boa vontade. Com efeito, aos olhos de Deus, a mão nunca se encontra desprovida de um presente se o interior do coração está cheio de boa vontade. Por isso diz o salmo: Em mim estão, Deus meu, os presentes que eu ofereço em teu louvor (Sl 55,12). É como se dissesse: ainda que não tenha nada exterior que oferecer, encontro, contudo, em mim mesmo o que porei no altar para teu louvor. Porque se tu não te alimentas com os nossos dons, sim que te alegras com a oferenda do coração.”
(São Gregório Magno, Homília 5 sobre o Evangelho; PL 76, 1903)

C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA A"missão"dos"Apóstolos" 858 Jesus é o enviado do Pai. Desde o início do seu ministério, “chamou os que quis, e vieram com ele. Instituiu Doze para que estivessem com ele e para os enviar a pregar”
(Mc 3, 13-14)

859 Jesus associa-os à sua missão recebida do Pai: como “o Filho não pode fazer nada por si só”
(Jo 5, 19.30)

já que tudo recebe do Pai que o enviou, assim, aqueles a quem Jesus envia não podem fazer nada sem Ele
(cf. Jo 15, 5)

Desde então para cá, serão seus “enviados” [é o que significa a palavra grega “apostoloi”]. Neles continua a sua própria missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós”
(Jo 20, 21; cf. 13, 20; 17, 18)

de quem recebem a missão e o poder para a cumprir. Os apóstolos de Cristo sabem portanto que estão qualificados por Deus como “ministros de uma nova aliança”
(2 Cor 5, 20)

Portanto o seu mistério é a continuação da missão de Cristo: “quem vos receber a vós, é a mim que recebe”, diz ao Doze
(Mt 10, 40; cf. Lc 10,16).

“ministros de Deus”
(2 Cor 6, 4)

“embaixadores de Cristo”
(2 Cor 5, 20)

“servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”
(1 Cor 4, 1)

860 Na missão dada aos apóstolos h á um aspecto intransmissível: serem as testemunhas eleitas da Ressurreição do Senhor e os fundamentos da Igreja. Mas há também um aspecto permanente na sua missão. Cristo prometeu-lhes permanecer com eles até ao fim dos tempos
(cf. Mt 28, 20)

“Esta missão divina confiada por Cristo aos apóstolos tem que durar até ao fim do mundo, pois o Evangelho que têm que transmitir é o princípio de toda a vida da Igreja. Por isso os apóstolos se preocuparam em instituir… sucessores”
(LG 20)

Os"leigos.""A"Vida"consagrada" 940 “Sendo próprio do estado dos leigos viver no meio do mundo e dos negócios temporais, Deus chama-os a que, movidos pelo espírito cristão, exerçam o seu apostolado no mundo à maneira de fermento”
(AA 2)

943 Devido à sua missão régia, os leigos têm o poder de arrancar ao pecado o seu domínio sobre eles próprios e sobre o mundo por meio da sua abnegação e santidade de vida
(Cf. LG 36)

941 Os leigos participam no sacerdócio de Cristo: cada vez mais unidos a Ele, pelo Baptismo e pela Confirmação através de todas as dimensões da vida pessoal, familiar, social e eclesial e realizam assim o chamamento à santidade dirigido a todos os baptizados.

944 A vida consagrada a Deus caracteriza-se pela profissão pública dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência num estado de vida estável reconhecido pela Igreja.

945 Entregue a Deus supremamente amado, aquele a quem o baptismo já tinha destinado a Ele, encontra-se no estado de vida consagrado, mais intimamente comprometido no serviço divino e dedicado ao bem de toda a Igreja.

942 Graças à sua missão profética, os leigos, “estão chamados a ser testemunhas de Cristo em todas as coisas, também no interior da sociedade humana”
(GS 43, 4)

Testemunho!
“Assim como Maria Madalena, curvando-se, sem se afastar do sepulcro vazio, encontrou por fim quem procurava, assim também eu, curvando-me até às profundidades do meu nada me elevei tão alto, que consegui o que procurava… Sem desanimar, continuei a ler, e esta frase me reconfortou: “Procurai com ardor os dons mais perfeitos, mas vou mostrar-vos um caminho mais excelente.” E o Apóstolo explica como todos os dons, ainda que os mais perfeitos, nada são sem o amor… Afirma que a caridade é o caminho excelente que conduz com segurança a Deus. Tinha chegado por fim o descanso… Ao considerar o corpo místico da Igreja, não me havia reconhecido em nenhum dos membros descritos por São Paulo; ou melhor, queria reconhecer-me em todos… A caridade deu-me a chave da minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha um corpo composto por diferentes membros, não lhe faltaria o mais necessário e nobre de todos.

Compreendi que a Igreja tinha um coração, e que este coração estava a arder de amor. Compreendi que só o amor punha em movimento o s membros da Igreja; que se o amor se apagasse, os apóstolos já não anunciariam o evangelho, os mártires negar-se-iam a derramar o seu sangue… Compreendi que o amor encerrava todas as vocações, que o amor era tudo, que o amor abarcava todos os tempos e todos os lugares… numa palavra, que o amor é eterno! Então, num transporte de alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, como vos amo!... Por fim encontrei a minha vocação, a minha vocação é o amor! Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, e esse lugar, ó meu Deus, vós mesmo mo destes…: no coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor!... Assim serei…, a ssim o meu sonho se realizará!!!”
(Sta. Teresinha do Menino Jesus Manuscritos autobiográficos, cap. IX)

!

CATEQUESE!6:!!

ENTREGA9SE!À!MORTE,!LIVREMENTE!ACEITE!
A cruz de Jesus Cristo é a resposta de Deus ao sofrimento humano.

OBJECTIVO:!

Reconhecer na entrega de Cristo, consumada com a morte na cruz, a resposta de Deus ao sofrimento humano. Este sofrimento que é consequência, em última estância, do pecado do homem e, portanto, da liberdade humana frente à capacidade de escolha entre o bem e o mal. A dor, tal como a liberdade, é um mistério insondável perante o qual o homem continua a perguntar-se sem contudo obter qualquer resposta. O objectivo deste tema é reconhecer este mistério e descobrir qual a atitude adequada diante dele.
SÍNTESE:!

1.

O sofrimento é uma realidade universal que nenhum homem nem sistema pode eliminar.

2. O tema da dor foi sempre um mistério para o ser humano. 3. A dor, uma vez assumida, colabora na realização e plenitude do homem. 4. A cruz de Jesus Cristo é a resposta de Deus ao sofrimento humano. 5. O sentido da morte de Jesus. 6. A cruz é fonte de vida.

1. A

DOR É UMA REALIDADE UNIVERSAL QUE NENHUM HOMEM NEM SISTEMA PODE ELIMINAR
Todos sofremos: é uma realidade universal. Desde que nascemos não podemos evitar a dor. Não deixa de ser algo significativo que a primeira coisa que fazemos ao nascer seja chorar. Na Salve Rainha rezamos a Maria: “a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Em todas as etapas da nossa vida constatamos esta realidade, mas à medida que crescemos vamo-la sentindo cada vez mais. O homem, na medida em que é consciente de tudo o que acontece consigo, sofre cada vez mais. Há uma luta permanente entre deixar de sofrer e aceitar as situações dolorosas que nos sobressaltam inevitavelmente. O ser humano procura eliminar o sofrimento físico, psíquico e moral. A investigação científica, no campo da medicina por exemplo, avança na luta contra a dor, mas não a pode eliminar. O combate frente ao sofrimento é legítimo e necessário, mas não pode ser o objectivo final, porque leva à frustração de não poder aniquilar aquilo que permanece de muitos modos em cada pessoa e na sociedade. A dor coloca o homem perante a sua debilidade. O progresso humano, em todos os campos não consegue eliminá-la. Não conseguimos o controlo para aniquilar o sofrimento. Este não respeita nenhuma idade nem situação. Todos os dias chegam notícias de desgraças naturais, mortes repentinas, doenças incuráveis. Conhecemos crianças e jovens que são surpreendidos, desde tenra idade, por situações muito dolorosas que não podemos explicar nem entender, as quais travam muitos projectos aparentemente legítimos. Isto leva a uma pergunta: A dor leva à ruína e à tristeza aquele que sofre? É possível sofrer e ser feliz? Se o objectivo final é abolir o sofrimento para poder ser feliz, seria impossível a felicidade nesta terra, porque é impossível eliminar totalmente a dor. Então, como integrar a dor, as debilidades e incapacidades para que a vida seja autenticamente vivida? Como compaginar uma vida plena e autêntica quando a dor vem ao de cima?

2. A

DOR É UM MISTÉRIO

Quando estamos perante uma situação dolorosa, costumamos observar o seguinte: primeiro a negação da mesma, depois a pergunta sobre o porquê dessa situação e, depois de um tempo, o dilema entre o aceitar ou rejeitar o sofrimento. Vejamos mais detalhadamente.

Perante uma situação dolorosa é muito frequente negá-la dizendo: “Isto não aconteceu”, “não é possível que isto me tenha acontecido a mim”. Quando já não se pode negar porque a realidade se impõe, surge a pergunta do “porquê”: Porquê esta doença? Porquê a morte deste jovem? Porquê este desastre natural? E não encontramos resposta a este questionário existencial. Permanecer nesta fase leva à frustração. Não há uma resposta plenamente convincente perante o porquê da dor. Mas não podemos ficar por aqui. A pergunta do porquê é inevitável e necessitamos de a fazer durante um tempo. Mas é um beco sem saída. Necessitamos de dar um passo mais. Ficarmos pela negação desse facto doloroso ou no questionário do “porquê” não nos permite integrar e superar essa dor. O ser humano é o único ser que pode dar sentido ao que aparentemente não o tem. O homem tem necessidade de dar sentido a toda essa realidade. À pergunta do porquê deve-se seguir outra: a do “para quê”. Mas dar este passo supõe uma decisão prévia. Perante a realidade da dor é necessário tomar uma opção. Ou a lamentação permanente de não poder compreender o porquê desse acontecimento doloroso, ou então, aceitar – ainda que não se compreenda – que esse facto tem um sentido que vai para além do aparente. Viktor Frankl (19051997), psiquiatra e psicoterapeuta austríaco, disse: “se não está nas tuas mãos mudar uma situação que te causa dor, poderás escolher a atitude com a qual enfrentas esse sofrimento.

Aceitar a dor leva à sua integração e torna possível o viver em paz e alegria. O sacerdote de Bernanos disse: “A meu ver, o autêntico sofrimento brota de um homem que pertence, em primeiro lugar, a Deus. Tento aceitá-lo com coração humilde, tal com é; esforço-me por fazê-lo meu e por amá-lo”. A dor situa-nos perante o mistério de algo que foge radicalmente do nosso controlo. E perante este mistério a atitude mais adequada é a do silêncio e a adoração. O silêncio é a melhor reacção perante a dor alheia. Quando alguém está a sofrer de que servem as palavras, muitas vezes forçadas? Perante o sofrimento a primeira e fundamental atitude é calar. Nestas circunstâncias o melhor é acompanhar em silêncio, estar ao lado de quem sofre, tentar assumir, interiormente, a sua dor e assim amá-lo sem palavras. Perante o próprio sofrimento o melhor é expressar o sentimento (com palavras, gritos, lágrimas…) e entregá-lo a Deus. Mas a pior de qualquer situação dolorosa não está em si mesma, mas no “não poder aceitá-la”. Há pessoas com doenças muito graves e irreversíveis, há mães que perderam um filho e vivem felizes, não porque não lhes doa, mas porque aceitaram essa situação e deram-lhe um sentido que lhes permite integrá-la. Assim pois, a adoração do mistério da dor leva em primeiro lugar a reconhecê-lo, para depois o aceitar e finalmente o integrar.

3. A

DOR , UMA VEZ ASSUMIDA , COLABORA NA REALIZAÇÃO PLENA DO HOMEM
Quando se aceita a inevitável realidade de sofrer, encontramos alguns aspectos positivos. Poderíamos dizer que sofrer não é bom – porque não é agradável e é muito doloroso – mas no fundo é bom ter sofrido porque nos ajuda a crescer, permite-nos ser mais compreensivos perante os limites dos outros. Diz Cícero: “Ao sofrimento devemos tudo o que é bom em nós, tudo o que faz com que a vida seja amada, a piedade, o valor e as virtudes”. Também Shakespeare avalia a dor assim: “o sofrimento desperta o espírito, o infortúnio é o caminho da sensibilidade e o coração cresce na angústia”. Toda a dor leva a uma crise que, quando se supera, possibilita o crescimento e o amadurecimento. A dor faz crescer, purifica, situa-nos na nossa realidade mais profunda. O sofrimento vai limando o nosso coração e dói muito, mas depois de ser limado o nosso coração fica mais compreensivo, mais capaz de amar. O sofrimento aceite permite compreender melhor a debilidade humana. Além disso provoca a solidariedade, dando a vida pelos outros e o não pensando apenas em si mesmo. Aquele que já sofreu sabe compadecer-se melhor do que aquele que nunca teve essa experiência. Por isso Deus quis entrar pelo caminho da dor. Deus, no seu Filho Jesus Cristo, assumiu totalmente a nossa dor para assim nos consolar:

“Porque assim diz o Senhor: Eis que estenderei sobre ela a paz como um rio, e a glória das nações como uma torrente que transborda;” (Is 66, 12s) O coração maternal de Deus, como a mãe que sofre mais pelo seu filho do que por ela própria, consola com o seu amor o filho atormentado e debilitado pelas dificuldades da vida.

4. A

CRUZ DE J ESUS C RISTO É A RESPOSTA DE D EUS AO SOFRIMENTO HUMANO
A realidade do sofrimento é um escândalo para quem espera que Deus impeça a dor. A célebre acusação contra a existência de Deus por causa da realidade do sofrimento continua a ouvir-se: como é que continua a haver sofrimento se existe um Deus bom e omnipotente? Se fosse bom não o permitiria e, por outro lado, se o não pode abolir é sinal que não é omnipotente. Mas Deus, que é omnipotente e poderia evitar toda a dor, não o faz, não porque seja mau, mas porque aceita a livre decisão do homem, que ao enfrentar a Deus e ao afastar-se d’Ele abriu a porta à dor e à morte. Perante esta situação, produzida pela liberdade humana, Deus livremente não suprime o que o homem produz com a sua liberdade. Mas não quer deixá-lo sozinho e por isso Ele também assume o que, efectivamente, não Lhe corresponde. O seu modo de actuar é certamente difícil de compreender para o homem. O seu respeito pela liberdade é tão grande que mais do que eliminar a dor o que faz é assumi-la. Em Jesus Cristo Deus acolhe toda a realidade humana - e como a dor pertence à condição humana real existente - Ele toma sobre si o sofrimento para acompanhar o que sofre. Este é o sentido da Paixão: Jesus Cristo partilha totalmente a nossa condição sofredora e acompanhanos nela. Portanto, qual é a resposta de Deus perante o sofrimento humano? Deixar que o seu Filho passasse pelo mesmo que nós, até morrer do modo mais ignominioso,

como um escravo. O Bendito por excelência morre como um maldito. Qual é a resposta de Deus perante o sofrimento do seu Filho? O silêncio. Nós diríamos: mas, Deus meu, porque não fazes alguma coisa? Deus cala-se. É um escândalo. Ele poderia tê-lo evitado. Mas não, não o fez. Porquê? Porque deixou que o seu Filho morresse, sofresse? Porque é que no Getsemani, quando o seu Filho com lágrimas nos olhos e suando sangue de angústia Lhe pediu clemência, que afastasse d’Ele esse cálice amargo de sangue, porque se cala nesse momento? É o Mistério de Deus, o Mistério do sofrimento, o Mistério do homem. A contemplação do rosto de Cristo levanos assim a aproximar-nos do aspecto mais paradoxal do seu mistério, como se vê na hora extrema, a hora da Cruz. Mistério no mistério, perante o qual o ser humano se deve prostrar em adoração. Passa diante do nosso olhar a intensidade da cena da agonia no Jardim das Oliveiras. Jesus, oprimido pela previsão da prova que O espera, sozinho diante de Deus, invoca-O com a sua habitual e terna expressão de confiança: "Abbá, Pai!". Pede-Lhe que afaste d’Ele, se é possível, o cálice do sofrimento (cf. Mc 14,36). Mas o Pai parece que não quer escutar a voz do Filho. Para devolver ao homem o rosto do Pai, Jesus teve não apenas de assumir o rosto do homem, mas carregar também o "rosto" do pecado. "Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus." (2 Cor 5,21). Nunca acabaremos de conhecer a profundidade deste mistério. É toda a aspereza deste paradoxo o que emerge

no grito de dor, aparentemente desesperado, que Jesus dá na cruz: "Eloí, Eloí, lema sabactaní?" - que quer dizer "Deus meu, Deus meu!, porque me abandonaste?" (Mc 15,34). É possível imaginar um sofrimento maior, uma obscuridade mais densa? O que faz Jesus perante o seu próprio sofrimento durante a Paixão? Jesus habitualmente cala-se e quando fala não o faz para se defender, mas para ensinar, para educar com a sua atitude. O que se passa no Calvário? Há silêncio, só interrompido pelos que gozam Jesus ou pelas suas "sete palavras" na cruz. Nessas palavras está a oração-lamento de quem sofre: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem"; o suspiro com que se alivia (é homem como nós): "Tenho sede"; com a qual se dirige ao Pai: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste", "Tudo está consumado", "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". Também na cruz manifesta o seu poder e senhoria (continua a ser Deus): "Hoje estarás comigo no paraíso", "Mulher, aí tens o teu filho; filho, aí tens a tua mãe". O resto é silêncio e, sobretudo, ao consumar-se a morte, a terra estremece-se, o véu do Templo rasga-se em dois e só se escuta a estremecida voz do centurião que o defendia: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus". Jesus evangeliza na sua vida terrena, e na sua morte, silenciosamente. Sem deixar de ser Filho de Deus, na cruz manifesta o seu lado mais humano, tendo querido fazer-se em tudo semelhante a nós excepto no pecado. Torna-se para nós difícil compreender porque é que Deus se revela nessa debilidade.

5. O SENTIDO J ESUS

DA MORTE DE

A morte do Filho de Deus na cruz é um mistério. Perante o mistério, dizíamos antes falando do sofrimento, a melhor resposta é a contemplação e a adoração do mesmo. Não perguntaremos então o porquê. Interrogamo-nos antes: Jesus morre para quê?
A)

L IVREMENTE E POR AMOR Jesus aceita a morte de um modo voluntário e livre. Para quê? Para nos redimir do pecado. Este "para quê" contém um porquê mais profundo: o amor do Pai que se manifesta em seu Filho Jesus Cristo: Jesus, ao aceitar em seu coração humano o amor do Pai para com os homens, amouos até ao extremo (Jo 13, 1) porque ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos (Jo 15, 13). Tanto no sofrimento como na morte, a sua humanidade fez-se o instrumento livre e perfeito do seu amor divino que quer a salvação dos homens
(cf. Hb 2, 10. 17-18; 4, 15; 5, 7-9)

De facto, aceitou livremente a sua paixão e a sua morte por amor ao seu Pai e aos homens que o Pai quer salvar: Ninguém me tira a vida; sou eu que a dou voluntariamente
(Jo 10, 18)

Daí a soberana liberdade do Filho de Deus quando Ele mesmo se encaminha para a morte
(cf. Jo 18, 4-6; Mt 26, 53)

Jesus assume a morte, não porque lhe seja agradável, mas porque quer fazer a Vontade do Pai, que por Amor pede essa entrega definitiva. Assim o expressa um teólogo moderno: O Crucificado não conserva nada que pertença ao mundo; por isso Satanás, o príncipe deste mundo, não tem nenhum poder sobre Ele. O Senhor foi despojado de tudo: dos seus direitos, honra e dignidade. Arrebatado à justiça, é livre, verdadeiramente pobre no Espírito, todo humildade e obediência. Morto para o mundo, vive para Deus. O Crucificado mostra-nos que o fim verdadeiro do homem não é o prazer do corpo, nem o poder, nem as riquezas, nem a glória diante dos homens; nem sequer o amor terreno, a beneficência ou o serviço à humanidade. O fim é Deus, a quem pertencem exclusivamente todo o nosso ser, o nosso amor e as nossas forças. Por conseguinte, o Crucificado é o modelo da nossa vocação verdadeira: servir o Amor divino e entrar nesse Amor pela humildade e a obediência. Deus tem a iniciativa do amor redentor universal, que é anterior ao nosso mérito: "Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados"
(1 Jo 4, 10; cf. 4, 19)

Na cruz de Cristo manifestam-se duas realidades: o amor de Deus e a malícia do pecado: A cruz revela-se em toda a sua profundidade e plenitude como Misericórdia, como Amor eterno aos pecadores. Mas ao mesmo tempo revelanos que é horrível o afastamento de Deus e o pecado, quando por sua causa morre Cristo na Cruz. Havia necessidade de um acto de amor tão ilimitado e incrível para que se rompesse o gelo do ódio a Deus. Mas ao mesmo tempo tinha que se desmascarar o pecado em toda a sua malícia. Quando esteve suspenso da Cruz, todo o mundo teve que reconhecer a gravidade do pecado; mas também todos tiveram de admitir como Deus ama.

"Mas é assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. "
(Rm 5, 8)

B)

A TODOS E A CADA UM A eficácia da redenção de Cristo afecta todos os homens de um modo pessoal. "De facto, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos" (Rm 5, 19). O sentido que Jesus dava à sua morte deixou-o claro anticipadamente, no momento da instituição da Eucaristia: "Tomai e comei todos, porque isto é o meu Corpo, que será entregue por vós". Nenhuma fórmula de fé do Novo Testamento e da Igreja diz que Jesus morreu "por causa dos pecados dos judeus"; todas dizem que "morreu por causa dos 'nossos' pecados", quer dizer, dos pecados de todos . O colectivo "todos" supõe que afecta cada um em particular. É um benefício de que todos participamos de um modo partilhado e não competitivo. Por isso, todo o homem pode receber a graça do perdão redentor de Cristo.

6. A

CRUZ É FONTE DE VIDA .

Jesus assume tudo o que é humano e por isso aceita o sofrimento como algo que se tem de enfrentar para que o homem seja libertado dele. Muitas vezes estamos voltados para o nosso problema ou a nossa dor. Olhar para Cristo na cruz é encontrar a consolação e a paz para viver os nossos sofrimentos. Voltarmo-nos para a dor pessoal é entrar numa dinâmica de frustração. Sair de si mesmo para olhar para a cruz de Cristo é saber-se acompanhado por Ele que quis tomar sobre si todas as nossas dores por amor: O que consegue manifesta tão bem a misericórdia de Deus como o facto de ter assumido a nossa miséria? Que amor pode ser maior que o do Verbo de Deus, que por nós se fez como a fraca erva do campo? Senhor, que é o homem para que lhe dês importância, para que te ocupes dele? Que o homem compreenda então até que ponto Deus cuida dele; que reflexões sobre o que Deus pensa e sente dele. Não te perguntes, ó homem, porque tens de sofrer; pergunta antes porque sofreu ele. Do que quis sofrer por ti podes deduzir o muito que te estima; através da sua humanidade manifesta-te o grande amor que tem para contigo. Quanto menor se tornou na sua humanidade, tanto maior se mostrou no amor que te tem, e quanto mais se esvaziou por nós, tanto mais digno é do nosso amor. Esta é a experiência dos santos, que ao unirem-se à Cruz de Cristo encontram o sentido pleno da sua entrega.

A)

N A COMPANHIA DOS SANTOS E DE TODA A I GREJA São Paulo experimenta na sua própria carne a cruz de Jesus: "Estou crucificado com Cristo; já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim"
(Gal 2,19-20)

"nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus... Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado"
(1Co 1,23-24: 1Co 2, 2)

A Beata Teresa de Calcutá disse: "Os nossos sofrimentos são carícias da bondade de Deus, chamando-nos para que nos voltemos para Ele, e para nos fazer reconhecer que não somos nós a controlar as nossas vidas, mas é Deus quem tem o controle, e podemos confiar plenamente n’Ele”.

B)

Vive todas as adversidades que sofres na missão com a alegria de quem sabe que está unido a Cristo. Santo Inácio de Antioquia, bispo, um dos primeiros mártires, enquanto estava para ser conduzido ao circo romano para ser devorado pelas feras, escrevia às comunidades cristãs: "Permiti-me ser imitador da paixão do meu Deus". São Francisco de Assis, que teve uma visão e uma experiência mística da cruz na qual recebeu as cinco chagas dirá: "Conheço profundamente Jesus Cristo crucificado". Este conhecimento aprende-se fixando o olhar no crucifixo, como fazia também Santo Tomás de Aquino. É um conhecimento compreensivo e íntimo. É um conhecimento fruto do amor, pois "o amor produz o conhecimento e leva ao conhecimento"
(Platão)

N A CRUZ ESTÁ A VIDA E A CONSOLAÇÃO A contemplação de Cristo permite-nos ver como a sua morte é fonte de vida. É normal que a dor assuste - assim aconteceu a Jesus no Jardim das Oliveiras - mas quando se aceita e se integra como passo necessário para uma vida ressuscitada então é fecundo. Por isso dirá Santa Teresa de Jesus: "Na cruz está a vida e a consolação, e apenas ela é o caminho para o céu". A Cruz é o único meio que temos para nos elevarmos para Deus. O que não chega a essa marca não é um bem celestial e não chega a bom termo. Só se permite a passagem livre a quem está marcado com este sinal. Devemos perguntar-nos a cada instante se as nossas acções resultam bem ao confrontá-las com a Cruz. Só então são legítimas e estão orientadas para a eternidade, para a vida. Quem entra seriamente no caminho da Cruz, ficará mudado no seu interior, maduro, cheio de suavidade e doçura. Nós seremos iguais a Ele, se levamos a sua Cruz atrás d’Ele. Se tomamos parte na dor, deixando-nos marcar pela Cruz, veremos brilhar cada vez mais sobre nós o seu mistério no aspecto mais maravilhoso, triunfante e gozoso.

C)

A SALVAÇÃO PASSA PELA CRUZ . Cristo morreu uma vez e por todos, mas nos membros do seu corpo continua a sofrer cada dia. O coração de Cristo é como um grande oceano no qual confluem todos os rios e mares da dor humana; o seu Corpo é como um mosaico imenso no qual se colocam todas as chagas dos homens. Cristo sofre com toda a dor da humanidade, de cada homem. Por isso Ele e só Ele pode restaurar e dar sentido ao sofrimento. O sofrimento tem sentido porque será a passagem necessária para que a nossa vida seja transfigurada. O pão não se pode repartir se antes não se parte, não se quebra. E também nós não poderemos repartir-nos, nem manifestar a vida que levamos dentro de nós e à qual estamos chamados se não nos partimos, se não aceitarmos sofrer por amor. Estar assim é caminho de salvação, é via até à ressurreição, é viver como Jesus a humanidade, é ser pessoas em plenitude. Toda a dor, como a que é consequência da nossa fidelidade no trabalho pelo Evangelho, é fonte de vida se a vivermos unida à de Cristo. O grão que morre, dá fruto; o que é levantado na cruz tem uma força que atrai todos a Ele; o trespassado pela lança suscita a fé em quem o observa. A morte não tem a última palavra. Cristo com a sua ressurreição venceu o poder do pecado e da morte. O significado da morte de Jesus fica iluminado com a glória da ressurreição.

ANEXOS:!

O RAÇÃO
Pastor, que com os teus assobios amorosos me despertaste do profundo sonho; Tu, que fizeste cajado dessa madeira na qual tens os braços poderosos, volta os olhos para a minha fé piedosos, pois te confesso seres meu amor e dono e seguir a tua palavra me empenho teus doces assobios e teus pés formosos. Ó pastor, já que por amor morres, não te espante a gravidade de meus pecados, pois tão gosto tens de os vencer. Espera, pois, e escuta os meus cuidados; mas como te digo que me esperes, se estás, para esperar, com os pés cravados? Não me move, meus Deus, para querer-te o céu que me tendes prometido; nem me move o inferno tão temido para deixar por isso de ofender-te. Tu me moves, Senhor; move-me o ver-te cravado nessa cruz e escarnecido; move-me o ver o teu corpo tão ferido; movem-me tuas afrontas e tua morte. Move-me, por fim, o teu amor, e de tal modo que, ainda que não houvesse céu, eu te amaria, e, ainda que não houvesse inferno, te temeria. Não me tens que dar porque te quero; pois, ainda que o que espero não esperasse, o mesmo que te quero te quereria.
(Tradução livre de dois sonetos de Lope de Vega)

T EXTO

COMPLEMENTAR
Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido. Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime deles. Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos, e sofreu pelos culpados.
(Isaías 52,13 - 53,12)

P ALAVRA DE D EUS Olhai, o meu servo terá êxito, será muito engrandecido e exaltado. Assim como muitos ficaram espantados diante dele, ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto disforme, agora fará com que muitos povos fiquem bem impressionados. Os reis ficarão boquiabertos, ao verem coisas inenarráveis, e ao contemplarem coisas inauditas. Quem acreditou no nosso anúncio? A quem foi revelado o braço do Senhor? O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado. Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.»
(João 10, 11-18)

A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o letrado? Onde está o investigador deste mundo? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Pois, já que o mundo, por meio da sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem, pela loucura da pregação. Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Portanto, o que é tido como loucura de Deus, é mais sábio que os homens, e o que é tido como fraqueza de Deus, é mais forte que os homens.
(1 Coríntios 1, 18-25)

P ADRES DA I GREJA O Senhor foi como cordeiro levado ao matadouro, e no entanto não era um cordeiro; e como ovelha emudecia, e no entanto não era uma ovelha: de facto, passou a figura e chegou a realidade: no lugar de um cordeiro temos Deus, no lugar de uma ovelha, temos um homem, e no homem, Cristo, que tudo contém. (...) O Senhor, sendo Deus, revestiu-se da natureza de homem: sofreu pelo que sofria, foi preso pelo bem do que estava cativo, julgado no lugar do culpado, sepultado pelo que jazia no sepulcro. E, ressuscitando de entre os mortos, exclamou com voz potente: "Quem tem algo contra mim? Que se aproxime! Eu sou quem libertou o condenado, quem vivificou o morto, quem fez sair da tomba o que já estava sepultado. Quem me desafiará? Eu sou – diz Cristo; o que venceu a morte, acorrentou o inimigo, espezinhou o inferno, algemou o forte, levou o homem até ao mais alto dos céus; eu, efectivamente, que sou Cristo. Vinde, pois, vós todos, os homens que vos encontrais enlameados no mal, recebei o perdão dos vossos pecados. Porque eu sou o vosso perdão, sou a Páscoa de salvação, sou o cordeiro degolado por vós, sou a vossa água lustral, sou a vossa vida, a vossa ressurreição, vossa luz, vossa salvação e vosso rei. Posso levar-vos até ao cume dos céus, vos ressuscitarei, mostrar-vos-ei ao Pai celestial, vos farei ressuscitar com o poder da minha direita".
(MELITÓN DE SARDES, Homilia sobre a Páscoa Núm.s 2-7. 100-103)

C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA A"Morte"de"Cristo"" """é"o"Sacrifício"único"e"definitivo" 613 A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens
(cf. 1Cor 5, 7; Jo 8, 34-36)

por meio do «Cordeiro que tira o pecado do mundo»
(Jo 1, 29; cf. 1Ped 1, 19)

e o sacrifício da Nova Aliança
(cf. 1Cor 11, 25)

que restabelece a comunhão entre o homem e Deus
(cf. Ex 24, 8)

reconciliando-o com Ele pelo «sangue derramado pela multidão, para a remissão dos pecados»
(Mt 26, 28; cf. Lc 16, 15-16).

614 Este sacrifício de Cristo é único, leva à perfeição e ultrapassa todos os sacrifícios
(cf. Heb 10, 10)

Antes de mais, é um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega o seu Filho para nos reconciliar consigo
(cf. Jo 4, 10)

Ao mesmo tempo, é oblação do Filho de Deus feito homem, que livremente e por amor
(cf. Jo 15, 13)

oferece a sua vida
(cf. Jo 10, 17-18)

ao Pai pelo Espírito Santo
(cf. Heb 9, 14)

para reparar a nossa desobediência.

Jesus"substitui"a"nossa"Desobediência"" """pela"sua"Obediência" 615 «Como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos»
(Rm 5, 19)

De facto, quer associar ao seu sacrifício redentor aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários
(cf. Mc 10, 39; Jo 21, 18-19; Col 1, 24)

Isto realiza-se, em sumo grau, em sua Mãe, associada, mais intimamente do que ninguém, ao mistério do seu sofrimento redentor
(cf. Lc 2, 35)

Pela sua obediência até à morte, Jesus realizou a acção substitutiva do Servo sofredor, que oferece a sua vida como sacrifício de expiação, ao carregar com o pecado das multidões, que justifica carregando Ele próprio com as suas faltas
(Is 53, 10-12)

Há uma só escada verdadeira fora do paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu»
(Sta. Rosa de Lima, vida)

Jesus reparou as nossas faltas e satisfez ao Pai pelos nossos pecados
(cf. Cc de Trento: DS 1529).

A"nossa"Participação"no"Sacrifício"de"Cristo" 618 A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens
(1Tim 2, 5)

Mas porque, na sua pessoa divina encarnada. «Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem»
(GS 22, 2)

«a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido»
(GS 22, 5)

Convida os discípulos a tomarem a sua cruz e a segui-Lo
(Mt 16, 24)

porque sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos
(1Ped 2, 21)

Testemunho!
Sou Lourdes, diminuída física. A minha deficiência afecta-me a fala. Não posso falar e também não posso andar; por isso tenho de usar uma cadeira de rodas. Durante muito tempo vivi angustiada. Frequentemente me perguntava qual era o sentido da minha vida e porque é que me tinha acontecido isto a mim. Esta pergunta era constante e a prova foi muito dura. Durante anos a única resposta foi descobrir cada manhã que não saía do sítio: atada a uma cadeira de rodas. Às vezes senti que me tinham arrancado a esperança. Sentia-me como se carregasse uma cruz, mas sem ter o alento da fé. Um dia descobri Jesus Cristo e mudou a minha vida. O Senhor com a sua graça ajudou-me a recuperar a esperança e a caminhar para a frente. Agora quando vejo outros jovens doentes ao meu lado, penso que a minha cruz é muito pequena comparada com a deles, e gostaria de mostrar-lhes como eu encontrei o Senhor para transformar a sua dor num caminho de esperança, de vida e de santidade.

A fé fortalece a minha vida. Cada dia me ponho nas mãos de Deus. Ele dá-me força. Ele ajuda-me sempre a superar os momentos difíceis e pôs a meu lado muitas pessoas que gostam de mim e que me animam a continuar com alegria o meu caminho de fé. Santo Padre: sou uma jovem como todos os que o acompanham nesta tarde. Tenho consciência de que tenho uma deficiência, mas sinto-me útil e, por isso, alegre. Sei que a minha cadeira de rodas é como um altar no qual, além de santificar-me, estou a oferecer a minha dor e as minhas limitações pela Igreja, por Vossa Santidade, pelos jovens e pela salvação do mundo. Na minha Via Crucis sinto-me aliviada pelo testemunho de Vossa Santidade que carrega também sobre os ombros a cruz da doença e das limitações físicas e, além disso, a dor e o sofrimento de toda a humanidade. Obrigado, Santo Padre, pelo seu exemplo!
(LOURDES CUNÍ, Testemunho perante o Beato João Paulo II em Cuatro Vientos, 3 de Maio de 2003)

CATEQUESE!7:!!

RESSUSCITOU!AO!TERCEIRO!DIA!
A ressurreição de Jesus Cristo traz uma vida nova

OBJECTIVO:!

Mostrar como a Ressurreição de Cristo se manifesta na vitória absoluta e definitiva sobre todo o sofrimento e, por fim, sobre o pecado e a morte. Jesus, que quis passar pela dor, consequência da liberdade humana, venceu ressuscitando de entre os mortos.
SÍNTESE:!

1. Um acontecimento surpreendente 2. A ressurreição é apresentada pelo poder de Deus 3. A ressurreição: fundamento da Fé da Igreja 4. A fé na ressurreição é fonte de salvação 5. A ressurreição é um acontecimento histórico e transcendente 6. A ressurreição de Jesus Cristo trouxe uma vida nova 7. É uma grande notícia que deve ser comunicada: comunidade e evangelização

Jesus Cristo é o "primogénito de entre os mortos" (Col 1,18; Ap 1,5) que nos abriu o caminho da vida nova pela sua ressurreição. Nele se manifesta o sentido da sua morte. Jesus ressuscitado revela-nos um Deus de vivos e não de mortos. Ele mesmo se autoproclama "a ressurreição e a vida" (Jo 11,25). O cristão desde o baptismo participa na morte e na ressurreição de Cristo e só assim se pode encontrar vida em qualquer situação.

1. U M

ACONTECIMENTO SURPREENDENTE
"É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!" (Lc 24,34). É o grito dos discípulos, aos de Emaús quando, depois de se encontrarem com Jesus, voltam à comunidade de Jerusalém. Jesus verdadeiramente ressuscitou e assim foram descobrindo as testemunhas das suas aparições. Ao princípio não queriam acreditar: como podemos constatar no exemplo de Tomás (Jo 20,24), os discípulos de Emaús (Lc 24,13ss). Era algo impensável. Que tinha morrido, era evidente. Quem iria pensar que um morto regressaria à vida? Jesus, durante a sua vida na terra, ressuscitou dos mortos (como Lázaro - Jo 11,43s), mas a ressurreição de Jesus é distinta: não morrerá jamais. O corpo de Jesus ressuscitado é uma carne transfigurada, com propriedades espirituais: é material e espírito ao mesmo tempo. Porquê? Porque a carne foi espiritualizada com a presença do Espírito Santo. Por isso, é uma nota comum às aparições constatar como, ao princípio, não O reconheciam (Maria Madalena - Jo 20,15; os discípulos de Emaús - Lc 24,16, etc.). Está transformado, a sua humanidade recebeu a plenitude do Espírito Santo.

2. A

RESSURREIÇÃO É UMA AMOSTRA DO PODER DE D EUS
A primeira fórmula de fé que aparece no Novo Testamento é muito básica: "Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos". A fórmula é um fragmento carismático, quer isso dizer que pertence à fé original pregada pelos apóstolos, como comprova o primeiro testemunho do Novo Testamento na Carta aos Tessalonicenses 1,10 (escrita por São Paulo no ano 50 d.C.). Nesta primeira expressão, porque é que Deus é o sujeito? Porque só Deus tem força para dar vida a um morto. Assim é apresentado o poder de Deus que é o único que pode salvar: "Deus, que ressuscitou o Senhor, nos ressuscitará também a nós mediante o seu poder"
(1 Cor 6,14) (54-57 d.C).

Não é só a proclamação de um acontecimento, mas é a força que se comunica e propagada para todos os homens. Mais ainda, sem mudar de sentido, aparecerá a expressão "Cristo ressuscitou"
(1Cor 15,13s)

"o Senhor ressuscitou"
(Lc 24,34)

É Jesus, enquanto Cristo (significa: o Ungido pelo Espírito Santo), e enquanto Senhor (significa: título divino daquele que tem o poder sobre tudo) quem pode vencer o poder da morte com a vida nova da ressurreição. A ressurreição confirma que Jesus não simplesmente homem, mas é Deus. A ressurreição é uma “nova criação”, por tudo que voltou a ser feito. À semelhança da primeira criação na qual a Trindade actuou como em unidade, assim também na ressurreição: é o Pai que ressuscita Jesus e o Filho que ressuscita pela força do Espírito Santo.

3. A

RESSURREIÇÃO : FUNDAMENTO DA F É E DA I GREJA
A ressurreição de Cristo, realizada com a força de Deus, é o centro e a originalidade da Fé Cristã. " E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus"
(Act 13,32-33)

Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto.
(1 Cor 15,3-8)

A Ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida pela primeira comunidade cristã como verdade central, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida nos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do Mistério Pascal ao mesmo tempo que a Cruz. Deus, que se fez homem em Jesus Cristo, ressuscitou de entre os mortos. Assim o expressa 1 Cor de um modo mais desenvolvido. Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: - Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; - foi sepultado e - ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; - apareceu a Cefas e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram.

São Paulo desenvolve neste “Credo” primitivo, desde o ano 56, a fé na ressurreição que recebeu e que por isso “transmite". Os exegetas dizem que este texto não é uma invenção de Paulo, recorrendo ao que ouviu dos apóstolos e que confirma com o seu testemunho. A mensagem central que Paulo recebeu foi a de que aquele que morreu e foi sepultado ressuscitou. Para que haja ressurreição é necessário testemunhar a morte e esta confirma-se com a sepultura. Resulta daí que é necessário afirmar a morte e a sepultura para poder afirmar a ressurreição. Mas a força da ressurreição está no depoimento dos testemunhas. Paulo assinala alguns deles: Pedro, os Doze apóstolos, um grande número de discípulos e por fim, ele próprio. O mesmo Paulo é testemunha da ressurreição e se tem fé nela e a defende com tanta convicção é porque foi uma das primeiras testemunhas. Em primeiro lugar o testemunho do sepulcro vazio e depois as numerosas aparições, tornam credível a mensagem da ressurreição para as testemunhas e para aqueles a quem esses divulgaram a boa nova.

4. A

FÉ NA RESSURREIÇÃO É FONTE DE SALVAÇÃO
Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé (1Cor 15,17). Por isso, a fé cristã tem o seu fundamento na vitória da vida sobre a morte. Isto é o que nos salva. A fé na ressurreição que nos liberta do poder do mal, do pecado e da morte: Porque, se confessares com a tua boca: «Jesus é o Senhor», e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. É que acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação.
(Rm 10,9-10)

5. A

RESSURREIÇÃO É UM ACONTECIMENTO HISTÓRICO E TRANSCENDENTE .
"O mistério da ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente comprovadas como nos garante o Novo Testamento". A credibilidade das aparições é apresentada pelos elementos comuns que nelas se repetem: é um acontecimento inesperado, em primeira instância não reconhecem que é Jesus, custa-lhes a sair da tristeza na qual se encontram, no princípio custa-lhes a acreditar que se tratava de Jesus, somente pelos seus gestos e palavras, é que O reconhecem. Assim, por exemplo, os discípulos de Emaús saem de Jerusalém decepcionados e só O reconhecem quando Jesus faz o sinal de “partir o pão”
(Lc 24,31)

A confissão de Cristo morto e ressuscitado é a tábua de salvação para o crente. A ressurreição de Cristo transforma o cansaço e a frustração em esperança. É possível algo novo! Afinal é possível a mudança! Não há nada que esteja perdido. Esta é a experiência dos discípulos: com medo, encerrados no cenáculo, só conseguem superar o medo vendo Jesus ressuscitado. Jesus aparece, e isso devolve-lhes a esperança. Assim também os discípulos de Emaús mudam radicalmente: de fugir de Jerusalém defraudados pelo final triste d’Aquele que tinham seguido e tinha “fracassado” na cruz, passam a voltar rapidamente ao descobrir que Jesus está vivo. "Levantandose, voltaram imediatamente para Jerusalém"
(Lc 24,33)

e nesse momento, dão-se conta de que os seus corações ardiam quando Ele falava no caminho.
(Lc 24,32)

É impossível interpretar a Ressurreição de Cristo fora da ordem física, e não reconhecê-lo como um feito histórico. Sabemos pelos acontecimentos que a fé dos discípulos foi submetida à prova radical da paixão e da morte na cruz do seu Mestro, anunciada por Ele em antemão (cf. Lc 22, 31-32). A sacudidela provocada pela paixão foi tão grande que os discípulos (pelo menos, alguns deles) não acreditaram logo na notícia da Ressurreição.

Os evangelhos, em vez de nos mostrar uma comunidade extasiada pela exaltação mística, apresentam os discípulos abatidos (“a cara sombria”: Lc 24, 17) e assustados (cf. Jo 20, 19). Por isso não acreditaram nas santas mulheres que regressavam do sepulcro e “as suas palavras pareciam-lhes disparates” (Lc 24, 11; cf. Mc 16, 11. 13). Quando Jesus se manifestou aos onze na tarde de Páscoa “censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado"
(Mc 16, 14)

6. A RESSURREIÇÃO DE J ESUS C RISTO TRAZ UMA VIDA NOVA .
Temos de entender o sentido da ressurreição como complemento ao da morte. Se pela morte de Jesus somos libertados do pecado e da morte eterna, pela ressurreição abre-se-nos o caminho a uma vida nova. Nas palavras de São Paulo: com a morte de Cristo morre o homem velho e com a sua ressurreição renasce o homem novo: “já que vos despistes do homem velho, com as suas acções, e vos revestistes do homem novo”
(Col 3,9)

Muitos perguntaram-se o “como” da ressurreição, mas só sabemos o “quê”. A fé da Igreja, testemunhada pelos depoimentos, manifesta o feito da ressurreição mas não concretiza o modo como esta se deu. Assim o diz o Catecismo: Ninguém foi testemunha ocular do exacto acontecimento da Ressurreição e nenhum evangelista o descreve. Ninguém pode dizer como aconteceu fisicamente. E menos ainda, não foi perceptível aos sentidos a sua essência mais íntima, a passagem para a outra vida. E embora a ressurreição seja um acontecimento histórico demonstrado pelo sinal do sepulcro vazio e pela realidade dos encontros dos apóstolos com Cristo ressuscitado, nem por isso pertence menos ao centro do Mistério da fé naquele que transcende e sobrepassa a história.

No baptismo, participamos no mistério pascoal através do sinal da água. Ser sepultados na água significa morrer para tudo o que é velho (o pecado, o ressentimento, a frustração) e sair da água supõe começar uma vida nova em Deus: “Sepultados com Ele no Baptismo, foi também com Ele que fostes ressuscitados, pela fé que tendes no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos”
(Cl 2,12)

7. É

UMA GRANDE NOTÍCIA QUE DEVE SER COMUNICADA : COMUNIDADE E EVANGELIZAÇÃO
É comum a todas as aparições que todos os que vêem Jesus não o podem calar. É tão grande a notícia que têm de anunciála. Assim pois, a ressurreição leva a voltar à comunidade e ao anúncio. As primeiras a encontrar no Domingo de Páscoa o sepúlcro vazio foram as mulheres que correm para anunciar aos discípulos a grande notícia (Lc 24,9-10; Jo 20,1 cita só Maria Madalena) e que viram Jesus ressuscitado (Jo 20,18). Assumem o risco de não acreditarem nelas. Mas a experiencia vivida é mais forte do que o temor do que os outros dirão. A experiência de Jesus ressuscitado faz devolver à comunidade aqueles que tinham partido por medo ou decepção (como os discípulos de Emaús: Lc 24,33). O encontro com Jesus vivo leva a viver a fé na comunidade, a partilhá-la, a anunciá-la.

A vida nova que nos traz Cristo ressuscitado é a vida eterna. Não se trata só da vida futura, senão que quando vivemos no Espírito já possuímos a vida eterna, embora não plenamente: Convém não esquecer que a vida nova e eterna não é, em rigor, simplesmente a outra vida; é também esta vida no mundo. Quem se abre pela fé e pelo amor à vida do Espírito de Cristo, está compartilhando já agora, embora de forma imperfeita, a vida do Ressuscitado: "Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que enviaste, Jesus Cristo"
(Jo 17, 3)

Isto encontra o seu “pleno significado” na comunhão com o Padre."
(EV 1)

A vida eterna, sendo "a própria vida de Deus e, por sua vez, a vida dos filhos de Deus"
(EV 38)

"não se refere somente numa perspectiva sobretemporal", pois o ser humano "já desde o início se abre à vida eterna pela participação na vida divina"
(EV 37)

ANEXOS:!

O RAÇÃO
Cristo, alegria do mundo Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra; e toda a língua proclame: "Jesus Cristo é o Senhor!", para glória de Deus Pai. Cristo, alegria do mundo, resplendor da glória do Pai. Bendita a manhã que anuncia o teu esplendor ao universo! No primeiro dia, tua ressurreição alegrava o coração do Pai. No primeiro dia, viu que todas as coisas eram boas porque participavam da tua glória. A manhã celebra a tua ressurreição e se alegra com a claridade da Páscoa. Levanta-se a terra como um jovem discípulo à tua procura, sabendo que o sepulcro está vazio. Na clara manhã, a tua sagrada luz difunde-se como uma graça nova. Que nós vivamos como filhos da luz e não pequemos contra a claridade da tua presença.

T EXTO

COMPLEMENTAR

P ALAVRA DE D EUS Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostroulhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.» Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeulhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!»

Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida nele”.
(João 20, 19-31)

Ou ignorais que todos nós, que fomos baptizados em Cristo Jesus, fomos baptizados na sua morte? Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova. De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. É isto o que devemos saber: o homem velho que havia em nós foi crucificado com Ele, para que fosse destruído o corpo pertencente ao pecado; e assim não somos mais escravos do pecado. É que quem está morto está justificado do pecado. Mas, se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos. Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morrerá; a morte não tem mais domínio sobre Ele. Pois, na morte que teve, morreu para o pecado de uma vez para sempre; e, na vida que tem, vive para Deus. Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.
(Romanos 6, 3-11)

P ADRES DA I GREJA Fostes conduzidos à santa piscina do divino baptismo, como Cristo foi levado da cruz para o sepulcro. E foi-vos perguntado a cada um se acreditáveis no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Depois de terdes confessado esta fé salvadora, fostes submergidos por três vezes na água e outras tantas fostes retirados da mesma: isso significou, em imagem e símbolo, os três dias da sepultura de Cristo. Pois assim como o nosso Salvador passou no seio da terra três dias e três noites, da mesma forma vós imitastes com a vossa emersão o primeiro dia em que Cristo esteve na Terra, e, com a vossa imersão, a primeira noite. Porque, assim como de noite não vemos nada e, ao contrário, de dia apercebemo-nos de tudo, da mesma forma na vossa imersão, como se fosse de noite, não pudestes ver nada; ao contrário, ao emergir pareceu-vos encontra-vos em plena luz do dia; e nesse mesmo momento, vos encontrastes mortos e nascidos, e aquela água salvadora serviu-vos ao mesmo tempo de sepulcro e de mãe. (.)

Oh maravilha nova e inaudita! Não morremos nem fomos sepultados, nem ressuscitámos depois de ter sido crucificados no sentido material destas expressões, mas, ao imitar estas realidades em imagem obtivemos assim a salvação verdadeira. (.) O nosso baptismo, como bem o sabemos, além de nos limpar do pecado e de nos dar o dom do Espírito é também tipo e expressão da paixão de Cristo. Por isso Paulo dizia: Será que não sabeis que nós, que pelo baptismo nos incorporamos a Cristo Jesus, fomos incorporados na sua morte? Pelo baptismo fomos sepultados com Ele na morte.

(D AS C ATEQUESES DE J ERUSALÉM ) Por isso morreu e ressuscitou Cristo: para ser Senhor dos vivos e dos mortos. Cristo não desceu à terra senão para destroçar as portas de bronze e quebrar os ferrolhos de ferro, que, desde antigamente, aprisionavam o homem, e para livrar as nossas vidas da corrupção e nos atrair a Ele, transladando-nos da escravidão à liberdade. Se não contemplamos este plano de salvação embora esteja totalmente realizado – pois os homens continuam morrendo e os seus corpos continuam a corromper-se nos sepulcros -, que ninguém veja nisso um obstáculo para a Fé. Que pense melhor como recebemos as primícias dos bens já mencionados e como possuímos já o penhor da nossa ascensão ao mais alto dos céus, pois já estamos sentados no trono de Deus, junto d’Ele, junto com aquele que, como afirma São Paulo, nos levou consigo às alturas; escutai, então, o que disse o Apóstolo: Ressuscitou-nos com Jesus Cristo e nos sentou no céu com Ele. Chegaremos à consumação quando vier o tempo marcado pelo Pai, quando, deixando de ser criança, alcançaremos a medida do homem perfeito. Assim lhe agradou ao Pai dos séculos, que o determinou desta forma para que não voltemos a cair na insensatez infantil, e não se perdessem de novo os seus dons.
(Santo Atanásio de Antioquia, o Bispo, Sermão 5 sobre a ressurreição de Cristo, 6-7)

C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA O"estado"da"humanidade"ressuscitada"de" Cristo" 645 Jesus Ressuscitado estabeleceu com os seus discípulos relações directas, através do contacto físico (cf. Lc 24, 39; Jn 20, 27) e da participação na refeição (cf. Lc 24, 30. 41-43; Jn 21, 9. 13-15). Desse modo, convida-os a reconhecer que não é um espírito (cf. Lc 24, 39), e sobretudo a verificar que o corpo ressuscitado, com o qual se lhes apresenta, é o mesmo que foi torturado e crucificado, pois traz ainda os vestígios da paixão (cf Lc 24, 40; Jn 20, 20. 27). No entanto, este corpo autêntico e real possui, ao mesmo tempo, as propriedades novas dum corpo glorioso: não está situado no espaço e no tempo, mas pode, livremente, tornar-se presente onde e quando quer (cf. Mt 28, 9. 16-17; Lc 24, 15. 36; Jn 20, 14. 19. 26; 21, 4), porque a sua humanidade já não pode ser retida sobre a terra e já pertence exclusivamente ao domínio divino do Pai (cf. Jn 20, 17). Também por este motivo, Jesus Ressuscitado é soberanamente livre de aparecer como quer: sob a aparência dum jardineiro (cf. Jn 20, 14-15) ou «com um aspecto diferente» (Mc 16, 12) daquele que era familiar aos discípulos; e isso, precisamente, para lhes despertar a fé (cf. Jn 20, 14. 16; 21, 4. 7).

A"ressurreição"como"acontecimento" transcendente" 647 «Oh noite bendita! – canta o «Exultet» pascal – única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro». Com efeito, ninguém foi testemunha ocular do acontecimento da ressurreição propriamente dita e nenhum evangelista o descreve. Ninguém pôde dizer como ela se deu, fisicamente. Ainda menos a sua essência mais íntima, a passagem a uma outra vida, foi perceptível aos sentidos. Acontecimento histórico comprovado pelo sinal do túmulo vazio e pela realidade dos encontros dos Apóstolos com Cristo Ressuscitado, nem por isso a ressurreição deixa de estar, naquilo em que transcende e ultrapassa a história, no próprio centro do mistério da fé. Foi por isso que Cristo Ressuscitado não Se manifestou ao mundo (cf. Jn 14, 22), mas aos discípulos, «aos que com Ele tinham subido da Galileia a Jerusalém» e que «são agora testemunhas de Jesus junto do povo» (Act 13, 31).

646 A ressurreição de Cristo não foi um regresso à vida terrena, como no caso das ressurreições que Ele tinha realizado antes da Páscoa: a filha de Jairo, o jovem de Naim e Lázaro. Esses factos eram acontecimentos milagrosos, mas as pessoas miraculadas reencontravam, pelo poder de Jesus, uma vida terrena «normal»: em dado momento, voltariam a morrer. A ressurreição de Cristo é essencialmente diferente. No seu corpo ressuscitado, Ele passa do estado de morte a uma outra vida, para além do tempo e do espaço. O corpo de Cristo é, na ressurreição, cheio do poder do Espírito Santo; participa da vida divina no estado da sua glória, de tal modo que São Paulo pode dizer de Cristo que Ele é o «homem celeste» (cf. 1 Co 15, 35-50).

Testemunho!
«Não temas, sou eu, o Primeiro e o Último, o que vive» (Ap 1, 17-18) O"Ressuscitado"está"sempre"connosco" Num tempo de perseguição, tribulação e crise para a Igreja como era a época do autor do Apocalipse (cf. 1, 9), a palavra que ressoa na visão é uma palavra de esperança: « Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos. E tenho as chaves da Morte e do Inferno»
(Ap 1, 17-18)

Encontramo-nos assim com o Evangelho, o «feliz anúncio», que é o próprio Jesus Cristo. Ele é o Primeiro e o Último: n'Ele, toda a história encontra o seu princípio, sentido, direcção e realização; n'Ele e com Ele, na sua morte e ressurreição, já tudo ficou dito. É o Vivente: estava morto, mas agora vive para sempre. Ele é o Cordeiro que está de pé no meio do trono de Deus
(cf. Ap 5, 6)

aparece imolado, porque derramou o seu sangue por nós no madeiro da cruz; está de pé, porque voltou à vida para sempre e mostrou-nos a omnipotência infinita do amor do Pai.

Ele segura firmemente nas suas mãos as sete estrelas (cf. Ap 1, 16), isto é, a Igreja de Deus perseguida, que, embora em luta contra o mal e o pecado, tem motivos para sentir-se alegre e vitoriosa, porque está nas mãos de Cristo que já venceu o mal. Ele caminha no meio dos sete castiçais de ouro (cf. Ap 2, 1): está presente e activo na sua Igreja em oração. Ele é, enfim, «Aquele que vem» (Ap 1, 4) através da missão e da acção da Igreja ao longo da história humana; vem como ceifeiro escatológico, no fim dos tempos, para levar à perfeição todas as coisas
(cf. Ap 14, 15-16; 22, 20) (JOÃO PAULO II, Exortação pós-sinodal “A Igreja na Europa”, n. 6)

CATEQUESE!8:!!

DÁ9NOS!O!SEU!ESPÍRITO,!QUE!NOS!UNE!A!ELE!E! NOS!CONSAGRA!
Jesus envia-nos o Espírito Santo para nos mostrar o amor de Deus

OBJECTIVO:!

Mostrar que com a vinda do Espírito Santo se realiza plenamente o desígnio salvífico de Deus. Jesus envia o Espírito do seio do Pai para mostrar o amor de Deus, que se manifesta de um modo privilegiado no coração humano. Ser consciente de que o Espírito continua a actuar hoje na Igreja. Um único espírito manifesta-se nos distintos dons e carismas, realizando a unidade da Igreja através de diferentes ministérios.
SÍNTESE:!

1. O acontecimento de Pentecostes 2. O Espírito Santo no Antigo Testamento 3. Jesus é o Cristo, o Ungido pelo Espírito Santo 4. O cristão recebe a unção do Espírito Santo à imagem de Cristo 5. O Espírito na vida da Igreja

1. O

ACONTECIMENTO DE P ENTECOSTES
De pé, com os onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras: “Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia. Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o Espírito sobre toda a criatura. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar; os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos. Certamente, sobre os meus servos e as minhas servas derramarei o meu Espírito, nesses dias, e eles hão-de profetizar. Farei ver prodígios, em cima, no céu, e sinais, em baixo na terra: sangue, fogo e uma coluna de fumo”
(Act 2, 1-19).

É São Lucas, autor do livro dos Actos dos Apóstolos, quem descreve o que sucedeu no Pentecostes: Quando chegou o dia de Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: “Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Pardos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!” Estavam todos assombrados e, sem saber o que pensar, diziam uns aos outros: “Que significa isto?” Outros, por sua vez, diziam, troçando: “Estão cheios de vinho doce”.

No Pentecostes, o Espírito Santo manifestase aos apóstolos. É o Espírito que Jesus tinha prometido que enviaria do seio do Pai: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14, 16). A promessa de Jesus “Eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28, 20) cumprese no seu Espírito. O Pai, que tinha enviado Jesus pela incarnação, envia, no Pentecostes, o Espírito Santo (Gal 4, 4-6) que cumpre o que Jesus tinha manifestado. O Espírito que surge no Pentecostes com dons extraordinários é o mesmo Espírito que se havia manifestado em toda a história da salvação: desde a criação até hoje. Este Espírito já se manifesta no Antigo Testamento, mas é em Cristo que o Espírito se manifesta em plenitude.

2. O E SPÍRITO S ANTO A NTIGO T ESTAMENTO

NO

Há unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. O que se manifesta claramente na Nova Aliança, a partir da vinda de Jesus à terra, já surge veladamente na Antiga. No Génesis, Deus cria o universo através do seu Espírito “que se movia sobre a superfície das águas” (Gn 1, 2). Este mesmo Espírito é o que intervém, junto com o Pai e o Filho, na criação do homem à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26), é o Espírito que o Senhor sopra sobre o barro modelado, conforme o segundo relato da criação do homem (Gn 2, 7). O Espírito manifesta-se no Antigo Testamento através de personagens eleitos por Deus para serem os mediadores da sua acção e da sua vida. Nos patriarcas, o Espírito revela-se por meio da bênção que recebem e transmitem de geração em geração. Abraão, o primeiro dos patriarcas, é bendito pelo Deus que cumpre com a sua promessa de uma grande descendência. Ele recebe, por sua vez, a vocação de bendizer a posteridade.

Depois da época dos patriarcas, o povo de Israel, escravizado pelo poder egípcio, recebe um novo mediador. Deus elege Moisés para salvar o seu povo, para que aja como ponte entre Deus e o povo. Além disso, Moisés unge com o óleo santo os sacerdotes da tribo de Leví, para que sirvam a Deus e aos hebreus através do culto. Nos Mandamentos, Deus manifesta o seu Amor pelo seu povo. Contudo, são os profetas quem recebe a inspiração do Espírito Santo de um modo especial. O Espírito vem e manifesta através dos profetas uma mensagem (palavra) e encomenda-lhes uma acção (obra). Muitas vezes diz-se: “movido pelo Espírito Santo” (por exemplo, em 2Cro 15, 1; 20, 14; Jc 3, 10; 11, 29; 15, 14); "o espírito do Senhor revestiu" (Jc 6, 34; 1Cro 12, 19; 2Cro 24, 20). O espírito vem ao eleito, reveste-o e comunica-lhe uma mensagem ou encomenda-lhe uma missão concreta, que pode ser temporária ou permanente. Os profetas anunciam Cristo e preparam o caminho para a sua vinda. O último profeta, ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, é João Baptista, o Precursor. O seu nascimento singular de uma estéril (Isabel) será o princípio da sua missão singular: anunciar o Messias. “Ao ver Jesus, que se dirigia para ele, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

3. J ESUS É O C RISTO , O U NGIDO PELO E SPÍRITO S ANTO
As profecias cumprem-se em Jesus. Ele é o Messias anunciado pelos profetas. As suas características manifestaram-se nos Cânticos do Servo de Yahvé
(Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-10 e 52,13-53,12).

Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré” (Act 10, 38). É Deus Pai, fonte da Trindade, que envia o Espírito para que desça sobre a humanidade de Jesus. O Filho de Deus tinha recebido do Pai, desde sempre, a unção do Espírito Santo. A novidade, de que fala Pedro no texto dos Actos dos Apóstolos, é que também Jesus, enquanto homem, recebe a unção do Espírito. Por isso, em Jesus Cristo podemos distinguir duas unções: a unção como Filho de Deus, que recebe desde toda a eternidade, e a unção na sua humanidade. É o Cristo (= Ungido), desde sempre, como Deus e é o Cristo (= Ungido) também como homem, desde a incarnação. Por sua vez, na sua existência humana, é ungido em momentos distintos pelo Espírito Santo. O processo de glorificação da natureza humana dá-se na própria carne de Jesus, através de toda a sua vida. São Lucas falanos deste crescimento de graça: “Jesus crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52; cf. Lc 2, 40). Desde pequeno, Jesus cresce não só fisicamente, como também no acolhimento do Espírito na sua humanidade. Embora a vida de Cristo seja, desde a sua concepção, um constante receber do Espírito para que Este se vá apoderando da carne humana, há momentos chave para esse progresso: a incarnação, o Baptismo no Jordão, a morte e a ressurreição. Na encarnação, o Verbo de Deus, sem deixar a sua divindade, assume a carne humana pela acção do Espírito Santo. No credo apostólico, diz-se assim: “concebido por obra e graça do Espírito Santo”. Desta forma, o Filho de Deus, tomando a carne e sem perder a sua condição divina, faz-se

Jesus apropria-se da profecia de Is 61,1ss: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a BoaNova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor. Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir”. Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca
(Lc 4, 18-22)

Cristo é o Profeta escatológico. É profeta, mas mais que profeta. É o Filho de Deus que recebe também como homem o Espírito Santo. A missão de Jesus consiste em manifestar o amor do Pai através da pregação e das suas obras, sinais e milagres. O poder do Espírito Santo permite que a humanidade de Jesus seja canal da salvação de Deus. Jesus é o Messias, o Cristo, o “Ungido”. Messias (em hebreu) é o mesmo que Cristo (em grego) e significa “Ungido”. O Pai unge Jesus com o Espírito Santo, como assegura Pedro: “Deus ungiu com o

homem. Pela incarnação, o Espírito Santo está presente e age em Jesus. Está na sua divindade (aqui não há mudança) e começa a fazer-se presente na sua humanidade: há uma presença incipiente do Espírito que interveio na sua concepção, na Virgem Maria. Ao incarnar, o Verbo assume a humanidade, toma a carne humana para divinizá-la. Por isso, o Verbo incarnado, enquanto homem, não tem, desde o início, a plenitude do Espírito (enquanto Deus, sim, mas não enquanto homem). O Verbo divino toma a carne para ungi-la com o Espírito e levá-la à glória do Pai. Depois do baptismo no Jordão, recebe a unção do Espírito tendo em vista a sua missão de mediação entre Deus e os homens. O Espírito Santo manifesta-se através da humanidade de Jesus, revelando o seu imenso poder. A carne de Cristo, como as palavras da Sagrada Escritura, é mediação privilegiada da manifestação do Espírito Santo. Através da humanidade de Jesus, o homem de fé descobre a força do Espírito Santo, assim como mediante a Escritura o crente acede a compreender a Palavra de Deus, através do Espírito Santo. Só pela fé se pode acolher o Espírito, escondido sob os limites da carne de Cristo e encoberto sob as palavras da Sagrada Escritura. A humanidade tem carácter de mediação. A força do Espírito é tal que a sua acção se transmite através do corpo de Jesus, de todos os seus membros corporais, chegando inclusivamente às bordas do seu manto. O poder salvífico de Jesus realizase através da sua humanidade, que é, neste sentido, sacramento (sinal) da acção da salvação de Deus com o seu povo.

A última etapa da vida de Jesus é o mistério pascal. Somente quando Jesus ressuscita é que o seu corpo também é glorificado plenamente. Cristo torna-se pleno pelo Espírito na ressurreição, depois de ser aperfeiçoado pela paixão e pela cruz. Tudo isto tem um sentido. O Verbo assume a carne para que o ser humano possa ser glorificado pelo Espírito Santo e assim participar da condição divina. Se a “carne” (humanidade) de Cristo se vai “espiritualizando”, recebendo progressivamente a efusão do Espírito até à glorificação total, fá-lo com o intuito de que também todo o homem possa ser glorificado em Cristo pela acção do Espírito Santo.

4. O

CRISTÃO RECEBE A UNÇÃO DO E SPÍRITO S ANTO À IMAGEM DE C RISTO
Cristão quer dizer ser discípulo de Cristo, ser “ungido” como Cristo, marcado com o selo do Espírito Santo como uma marca indelével. Assim o fez o baptismo e a confirmação logo o consolidou. Quem sou eu? A minha identidade é-me dada por ser homem e por ser cristão. Como ser humano fui criado à imagem de Deus: sou filho do Pai à imagem do Filho pelo Espírito Santo. Como cristão, pelo baptismo, sou filho de Deus, membro de Cristo participante do seu mistério pascal (morte e ressurreição), sou parte do seu Corpo (a Igreja) e sou Templo do Espírito Santo. Ao ser criado, recebi uma graça natural: o dom de ser moldado pelo Pai com as suas mãos (com o Filho e o Espírito Santo). Com o baptismo fui recriado. Recebi a graça santificante. É um novo dom que acresce ao da criação. O amor de Deus para comigo é tanto que Ele quis ligar-me mais profundamente à sua própria vida, concedendo-me não só uma natureza capaz de se comunicar com Ele, mas também me possibilitou ser outro Cristo, a imagem do Verbo incarnado. É o Espírito Santo que nos faz filhos em Cristo e só pela sua acção podemos chamar a Deus “Pai”: “Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: «Abbá! – Pai!»” (Gl 4, 6). O lugar aonde o Espírito é enviado para habitar é o coração humano, a alma, o espírito, quer dizer: o mais profundo do nosso ser. Santo Agostinho diria que Deus é o mais íntimo da nossa intimidade.

O ser humano, sem ser divino, tem algo divino dentro dele que o torna capaz de se comunicar com Deus, de ser como Deus, de estar em comunhão com Ele. Graças à presença do Espírito no coração do homem, pertence à família de Deus como Seu filho. O Espírito habita nos nossos corações que ficaram marcados, mas, na nossa história, há outras experiências que permanecem impressas na nossa sensibilidade. São experiências que podem revelar o selo espiritual ou encobri-lo. Que experiências revelam o dom de Deus? As que têm a ver com a essência de Deus: as vivências de amor, de acolhimento, de entrega, de comunhão. Entretanto, as experiências de mágoa, de rejeição, de desprezo vividas como fracassos, frustrações e desilusões vedam a presença do Espírito e levam-nos a complexos, medos e dúvidas. A experiência do amor faz-nos sentir seguros, mas as de mágoa conduzem-nos à insegurança. Deus deu-nos o dom do Espírito Santo para que vivamos em segurança – confiança de um amor incondicional.

5. O E SPÍRITO I GREJA

NA VIDA DA

O texto dos Actos dos Apóstolos manifesta a surpresa dos que presenciam esse acontecimento: “A multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados”. O Espírito manifesta-se, cumprindo-se a profecia de Joel: “Depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões. Também sobre servos e servas, naqueles dias, derramarei o meu espírito”
(Jl 3, 1-2)

A)

O S DONS DO E SPÍRITO S ANTO

Esta promessa cumpre-se na Igreja, desde o princípio. O Espírito Santo é o dom de Deus para a Igreja: “Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (Act 2, 38). O dom do Espírito é a entrega amorosa do Pai e do Filho. Falar de dom é falar de graça, amor, doação, entrega, que é o que Paulo deseja aos coríntios: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2Cor 13, 13). O Espírito Santo é a graça, o amor de comunhão que Deus entrega como dom gratuito para nossa salvação. O dom do Espírito Santo tem, como todos os dons, um doador e um destinatário. O doador é a Trindade. O destinatário é todo o homem. E o que dá? A graça, que não é uma coisa, mas uma presença pessoal, a presença da terceira pessoa da Santíssima Trindade, que é o mesmo Espírito do Pai e do Filho, e que é o Espírito Santo.

O dom do Espírito Santo manifesta-se de muitas maneiras. Os “talentos” são as graças espirituais que cada um recebe “segundo a sua capacidade” (Mr 25, 15). O dom do Espírito é único, mas multiforme. Inspirada em Is 11, 1-3, a Igreja materializou o único dom do Espírito em sete dons, que Deus concede para a santificação pessoal: A vida moral dos cristãos é sustentada por estes dons do Espírito Santo. Estes são ofertas permanentes que tornam o homem dócil para seguir os impulsos do Espírito Santo. Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor a Deus. Pertencem em plenitude a Cristo, Filho de David. Completam e elevam à perfeição as virtudes dos que os recebem. Tornam os fiéis dóceis para obedecer com prontidão às inspirações divinas. Que o teu espírito bondoso me conduza pelo caminho recto (Sl 143, 10). Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus…E, se são filhos, também são herdeiros; os herdeiros de Deus e coherdeiros de Cristo (Rm 8, 14-17).

A docilidade à vida no Espírito é uma graça que nos impele interiormente ao bem, que nos move a abrimo-nos a Deus. Porém, nem sempre é fácil ser dócil ao Espírito Santo, porque há tentações e também resistências que têm a ver com as nossas feridas do passado. Às vezes surgem obstáculos que impossibilitam a abertura. É a experiência do querer e do poder (querer abrir-se ao Espírito, querer acreditar, esperar, amar, perdoar, mas não poder). Estas dificuldades não impedem a vivência dos dons, que nos permitem ser santos à imagem daquele que é Santo. Vejamos brevemente o significado de cada um destes dons. O dom da piedade é a graça de se saber filho de Deus, como Jesus (cf. Lc 3, 21 ss). Este dom leva-nos à confiança, à audácia e à familiaridade com Deus. A consciência de se ser filho conduz à infância espiritual daquele que se abandona e se entrega confiadamente (como Santa Teresa do Menino Jesus). O dom da sabedoria é o impulso do Espírito para gostar das coisas de Deus como que naturalmente, por uma espécie de instinto e gosto pelas coisas de Deus. Assim como há uma sintonia entre, por exemplo, o açúcar e as papilas gustativas que detectam o gosto doce, assim também este dom nos dá a faculdade de nos sintonizarmos com Deus. Em Jesus, isto dava-se de uma forma espontânea: gostava da presença de Deus como de qualquer realidade. O temor a Deus é o dom do Espírito pelo qual reconhecemos o seu mistério e nos prostramos em adoração ante Ele, como criaturas. É a atitude de Moisés ao descalçar-se na terra sagrada (Ex 3, 5-6).

O temor a Deus refere-se ao mistério transcendente, que faz tremer e encher de reverência, e que, ao mesmo tempo, atrai e fascina irresistivelmente. O dom do entendimento é o impulso interior que provém do Espírito para compreender a revelação que acolhemos pela fé. Este dom consiste na ajuda do Espírito para penetrar nas verdades divinas e, assim, compreendê-las melhor. Sem perder o seu carácter de mistério, o dom do entendimento permite-nos entrar na razoabilidade das coisas divinas. O dom da ciência é a luz que o Espírito dá para entrar mais profundamente no conhecimento das coisas humanas. Enquanto o dom do entendimento nos ajuda a penetrar nas realidades divinas, o dom da ciência conduz-nos a um conhecimento das realidades humanas a partir de Deus. Este dom ajuda-nos a ir mais além do aparente, tendo um olhar de Deus.

O dom do conselho é uma luz pela qual o Espírito Santo mostra o que se deve fazer no lugar e nas circunstâncias presentes. Ilumina a consciência nas opções da vida diária. Ajuda nas decisões e no discernimento (do estado da vida, mas também do que fazer num determinado momento). O dom da fortaleza é a força de Deus para combater as tentações do espírito maligno que nos capacita para fazer o bem e evitar o mal e nos incentiva a dar testemunho da fé, inclusivamente na entrega total da vida com o martírio. Com o dom da fortaleza, podemos realizar o que recebemos pelo dom do conselho.

B)

O S CARISMAS

C)

O S FRUTOS DO E SPÍRITO S ANTO

Desde o início da vida eclesial que, junto aos dons, surgem os carismas. “Carisma” significa, em sim, dom gratuito de Deus, mas em São Paulo tem um carácter técnico, que designa manifestações extraordinárias do Espírito (1Cor 12, 4-9; 28-30; Rm 12, 6). Neste sentido, enquanto o dom é uma ajuda para a santificação pessoal, os carismas são graças que cada um recebe para a edificação da Igreja. Os carismas são dados para o bem da comunidade, a construção do Corpo Místico. No entanto, afecta o sujeito, sendo, para ele, fonte de fervor e, em última instância, de santificação. Contudo, este não é o seu fim primordial, se não uma consequência. Não estão ligados ao mérito pessoal: o Espírito Santo distribui-os a quem quer (1Cor 12, 11), segundo a utilidade à comunidade e as qualidades do sujeito. Normalmente são passageiros, mas alguns são uma qualidade mais ou menos estável no sujeito (apóstolo, profeta, doutor). Neste sentido mais técnico, São Paulo enumera quatro listas de carismas: 1Cor 12, 8-10; 12, 28-30; Rm 12, 6-8; Ef 4, 11, que podemos estruturar em três categorias: - Educação: carisma de apóstolo, profeta, doutor, evangelista, encorajador, palavra de sabedoria, palavra de ciência, discernimento de espíritos, falar línguas, dom de interpretá-las. - Alívio e consolo: carisma de fé, graça de cura, poder dos milagres, esmola, hospitalidade, assistência. - Governo: carisma de pastor, ministério.

Junto aos dons e aos carismas estão os frutos, através dos quais se manifesta a acção do Espírito: “Os frutos do Espírito são perfeições que o Espírito Santo forma em nós como prelúdios da glória eterna. A tradição da Igreja enumera doze: «amor, alegria, paz, paciência, serenidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, auto-domínio, castidade» (Gl 5, 22-23, vg)”. Estes frutos são os efeitos concretos da graça do Espírito. Permitem-nos perceber se levamos uma “vida no Espírito” ou “uma vida na carne”, segundo descreve São Paulo em Rm 8.

ANEXOS:!

O RAÇÃO
Vem, Espírito divino, manda a tua luz a partir do céu. Pai amoroso do pobre; dom, em teus dons esplêndido; luz que penetra as almas; fonte do maior consolo. Vem, doce hóspede da alma, descanso do nosso esforço, trégua no duro trabalho, brisa nas horas de fogo, gozo que enxuga as lágrimas e reconforta nas dores. Entra até ao fundo da alma, divina luz, e enriquece-nos. Olha o vazio do homem se tu lhe faltas por dentro; olha o poder do pecado, quando não envias o teu alento. Rega a terra ressequida, cura o coração enfermo, lava as manchas, infunde calor de vida no gelo, domina o espírito indomável, guia o que se engana no caminho. Reparte os teus sete dons, segundo a fé dos teus servos; por tua bondade e tua graça, dá ao esforço o seu mérito; salva quem procura salvar-se e dá-nos o teu gozo eterno. Amén. * * *

O mundo brilha de alegria. Renova-se a face da terra. Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo! Esta á a hora em que o Espírito rompe o tecto da terra, e uma língua de fogo inumerável purifica, renova, acende, alegra as entranhas do mundo. Esta é a força que põe de pé a Igreja no meio das praças e levanta testemunhas no povo, para falar com palavras como espadas diante dos juízes. Chama profunda, que sondas e iluminas o coração do homem: restabelece a fé com a tua mensagem, e o amor eleve a esperança até que o Senhor volte. Amén.

T EXTOS

COMPLEMENTARES

P ALAVRA DE D EUS

Os que se deixam guiar pelo Espírito de Deus, esses é que são filhos de Deus. De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus. Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados. (Rm 8, 14-17) Ninguém pode dizer: «Jesus é Senhor», senão pelo Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. (1 Cor 12, 3b-7. 12-13) Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais.

Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei. Mas as obras da carne estão à vista. São estas: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. Sobre elas vos previno, como já preveni: os que praticarem tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra tais coisas não há lei. Mas os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e desejos. Se vivemos no Espírito, sigamos também o Espírito. (Gl 5, 16-25)

P ADRES DA I GREJA Enquanto Cristo vivia corporalmente entre os seus fiéis, mostrava-se-lhes como o dispensador de todos os seus bens; mas quando chegou a hora de regressar ao Pai celestial, continuou presente entre os seus fiéis mediante o seu Espírito, e habitando pela fé em nossos corações. Deste modo, possuindo-a em nós, poderíamos chamarlhe com confiança: "Abba, Padre", e cultivar com afinco todas as virtudes, e ao mesmo tempo fazer frente com valentia invencível às astutas ciladas do diabo e às perseguições dos homens, como aqueles que contam com a força poderosa do Espírito. Este mesmo Espírito transforma e conduz a uma nova condição de vida os fiéis nos qual habita e tem a sua morada. Isto pode colocar-se facilmente em evidência com testemunhos tanto do antigo como do novo Testamento. Assim o piedoso Samuel a Saúl: Te invadirá o Espírito do Senhor, e te converterás em outro homem. E São Paulo: Nós todos, que levamos a cara descoberta, reflectimos a glória do Senhor e nos vamos transformando em sua imagem com resplendor crescente; assim é como actua o Senhor, que é Espírito.

Não é difícil de perceber como é que o Espírito transforma a imagem daqueles nos quais habita: do amor pelas coisas terrenas, o Espírito conduz-nos à esperança das coisas do céu; e da cobardia e da timidez à valentia e generosa intrepidez de espírito. É assim, sem dúvida, que encontramos os discípulos, animados e fortalecidos pelo Espírito, de tal modo que não se deixaram vencer de modo nenhum pelos ataques dos perseguidores, mas, pelo contrário, uniram-se com todas as suas forças ao amor de Cristo.
(São Cirilo de Alexandria, Comentário sobre o evangelho de São João, Livro 10: PG 74, 434)

C ATECISMO DA I GREJA C ATÓLICA 687 «Ninguém conhece o que há em Deus, senão o Espírito de Deus» (1 Cor 2, 11). Ora, o seu Espírito, que O revela, faz-nos conhecer Cristo, seu Verbo, sua Palavra viva; mas não Se diz a Si próprio. Aquele que «falou pelos profetas» faz-nos ouvir a Palavra do Pai. Mas a Ele, nós não O ouvimos. Não O conhecemos senão no movimento em que Ele nos revela o Verbo e nos dispõe a acolhê-Lo na fé. O Espírito de verdade, que nos «revela» Cristo, «não fala de Si próprio» (Jo 16, 13). Tal escondimento, propriamente divino, explica porque é que «o mundo não O pode receber, porque não O vê nem O conhece», enquanto aqueles que crêem em Cristo O conhecem, porque habita com eles e está neles (Jo 14, 17). " " " O"Espírito"Santo,"o"Dom"de"Deus" 733 «Deus é Amor» (1 Jo 4, 8.16) e o Amor é o primeiro dom, que contém todos os outros. Este amor «derramou-o Deus nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5). 734 Uma vez que estamos mortos, ou pelo menos feridos pelo pecado, o primeiro efeito do dom do Amor é a remissão dos nossos pecados. E é a comunhão do Espírito Santo (2 Cor 13, 13) que, na Igreja, restitui aos baptizados a semelhança divina perdida pelo pecado.

735 Ele dá-nos então as «arras» ou as «primícias» da nossa herança (cf. Rm 8, 23; 2 Co 1, 21): a própria vida da Santíssima Trindade, que consiste em amar «como Ele nos amou» (cf. 1 Jo 4, 11-12). Este amor (a caridade de que se fala em 1 Cor 13) é o princípio da vida nova em Cristo, tornada possível graças ao facto de termos «recebido uma força vinda do alto, a do Espírito Santo» (Act 1, 8). 736 É graças a esta força do Espírito que os filhos de Deus podem dar fruto. Aquele que nos enxertou na verdadeira Vide farnos-á dar «os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gal 5, 22-23). «O Espírito é a nossa vida»: quanto mais renunciarmos a nós próprios (cf. Mt 16, 24-26), mais «caminharemos segundo o Espírito» (Gal 5, 25): «Pela comunhão com Ele, o Espírito Santo torna-nos espirituais, recoloca-nos no paraíso, reconduz-nos ao Reino dos céus e à adopção filial, dá-nos a confiança de chamar Pai a Deus e de participar na graça de Cristo, de ser chamados filhos da luz e de tomar parte na glória eterna»
(São Basílio, Spir. 15,36).

Testemunho!
"O evangelho de hoje - festa da Santíssima Trindade - apresenta uma afirmação particularmente importante: Jesus promete o Espírito da verdade (cf Jo 16,13), que no mesmo discurso chama várias vezes 'Paráclito'. Que quer dizer? Em latim esta palavra traduz-se com o termo Consolador, o Consolador. O termo latino significa, à letra, o que está connosco quando estamos sós. Assim a nossa solidão deixa de o ser. Para o homem a solidão é o espaço da tristeza: o homem necessita de amor, e a solidão que não está iluminada pelo amor, a solidão que é uma perda de amor, ameaça ao mesmo tempo a mais íntima condição da nossa vida. O não ser amados é o núcleo central do sofrimento humano, da tristeza de uma pessoa. A palavra Consolador diz-nos precisamente que nunca estamos sós, que nunca podemos sentir-nos abandonados pelo amor. Por meio do Espírito Santo Deus penetrou na nossa solidão e destruiua. Este é o verdadeiro consolo, não um consolo à base de palavras, mas um consolo que tem a força de uma realidade efectiva e eficaz. Foi precisamente a partir desta definição de Espírito Consolador que, na Idade Média, derivou o dever humano de entrar na solidão dos que sofrem. Os primeiros antigos hospícios e hospitais eram dedicados ao Espírito Santo: deste modo os homens encarregavam-se de continuar a obra do Espírito, comprometiam-se em ser 'consoladores', a entrar na solidão dos que sofrem e dos idosos e a iluminá-la.

Esta é precisamente a tarefa que todos nós temos, também hoje, na nossa época!".
(Joseph Ratzinger, Homilia para a festa da Santíssima Trindade, pronunciada a 6 de Junho de 2004 na catedral de Bayeux)

CATEQUESE!9:!!

CONSAGRAÇÃO!DOS!JOVENS!! !!!!AO!CORAÇÃO!DE!JESUS!
Jesus envia-nos o Espírito Santo para nos mostrar o amor de Deus

OBJECTIVO:!

A finalidade desta catequese é ajudar os jovens a preparar a Consagração da Juventude do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus pelo Santo Padre Bento XVI na próxima Jornada Mundial da Juventude. Consta de três partes. Na primeira, aproximamonos da Mensajem do Papa para a JMJ a partir da perspectiva do Coração de Jesus. Na segunda, recordamos brevemente a história da devoção ao Coração de Jesus. Por último, explicamos o sentido desta Consagração da Juventude do Mundo ao Coração de Jesus.

I. “D O CORAÇÃO DO HOMEM AO C ORAÇÃO DE D EUS ”
1. Se penetramos nas profundezas do nosso coração, encontramos todos o mesmo desejo: queremos ser felizes. Mas onde e como podemos encontrar a felicidade?, perguntamo-nos. A experiência diz-nos que a felicidade do homem só se encontra na medida em que a sua ânsia de infinito é saciada. Diz o Papa na sua mensagem: “O homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito.”
(Bento XVI, Mensagem para a JMJ 2011 Madrid)

2. O problema do coração do homem só se resolve definitivamente no encontro com o Coração de Deus. A este respeito, diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração permanecerá inquieto até que em Ti descanse”. A inquietação de que fala o santo de Hipona refere-se à dificuldade de “alcançar” o Amor, como consequência da nossa condição de criaturas; somos finitos e, além disso, somos pecadores. Uma e outra vez tropeçamos na pedra do nosso egoismo, da desordem das nossas paixões que nos impedem de alcançar esse Amor. O coração do homem “necessitava” um Coração que, por um lado, estivesse ao seu “nível”, e que, por outro lado, fosse omnipotente para o arrancar à sua finitude e ao seu pecado. Em Jesus Cristo, Deus foi ao encontro do homem, e a nós, homens, amou-nos “com coração humano”. No encontro do coração do homem com o Coração de Jesus realizou-se o mistério da Redenção: "A partir do horizonte infinito do seu amor, de facto, Deus quis entrar nos limites da história e da condição humana, assumiu um corpo e um coração, para que possamos contemplar e encontrar o infinito no finito, o Mistério invisível e inefável no Coração humano de Jesus, o Nazareno".
(Bento XVI, Angelus 1 de Junho de 2008)

Devemos dar um passo mais. Este desejo de infinito, para o homem, identifica-se com o desejo de ser amado por um Amor que não tem limites. A resposta a esta interrogação é-nos dada pela própria revelação de Deus: “Deus é Amor”. Deus manifestou-Se-nos precisamente como o Amor infinito, eterno, pessoal e misericordioso que dá resposta, com plenitude, aos anseios de felicidade que há no coração de todo o homem. Por esta razão, diz-nos o Papa: “Deus é a fonte da vida; eliminá-l’O equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: ‘De facto, sem o Criador a criatura esvai-se’ (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 36)” (Mensagem JMJ). Podemos vê-lo nas múltiplas experiências e tentativas que aconteceram e acontecem na nossa sociedade, de construção de um “paraíso na terra” à margem de Deus.

3. A revelação definitiva desse Amor foi-nos dada na Cruz. O amor que Deus tem por nós chega ao “limite” da entrega da sua vida. O Coração aberto de Jesus, na Cruz, como consequência de ter sido trespassado pela lança do soldado, é a maior expressão de quanto Deus nos ama e de como nos ama. Diz o Papa, na sua mensagem: “Do Coração aberto de Jesus na cruz brotou a vida divina” (Mensagem JMJ). Assim, na Cruz, Jesus transforma o nosso “coração de pedra”, ferido pelo pecado, num “coração de carne”, como o seu: dá-nos o seu amor e, por sua vez, torna-nos capazes de amar com o seu próprio amor.

4.
Do Coração de Jesus, vivo e ressuscitado, brota a fonte em que o homem deve beber para saciar a sua sede infinita de amar e ser amado. É, portanto, neste encontro pessoal, “de coração a Coração”, que o homem vive “arraigado e edificado em Cristo, firme na fé” (Col 2,7). A santidade consiste en entrar plenamente nesta corrente de amor que brota do Coração de Jesus. “O lema do Cardeal Newman, ‘de coração a Coração’, dá-nos a perspectiva da sua compreensão da vida cristã como uma chamada à santidade, experimentada como o desejo profundo do coração humano de entrar em comunhão íntima com o Coração de Deus” (Bento XVI, Homilia na Beatificação do Cardeal Newman).

II. “E IS

AQUI O C ORAÇÃO QUE TANTO TEM AMADO OS HOMENS ”
A Igreja, ao longo dos séculos, foi aprofundando o significado do culto ao Sagrado Coração de Jesus. Muitos homens e mulheres encontraram, na contemplação desta imagem do coração trespassado, um caminho muito válido para se identificarem plenamente com Cristo e alcançarem a meta da santidade. Entre estes santos, temos de destacar Santa Margarida Maria de Alacoque (16471690), religiosa da Ordem da Visitação em Paray-le-Monial, a quem Jesus Se manifesta na Eucaristia, revelando-lhe o mistério do seu Coração: "Eis aqui o Coração que tanto tem amado os homens e que mais não tem recebido que ingratidões e afrontas”. Ao longo da sua vida, Santa Margarida ensinou a amar o Coração de Jesus: acompanhando-O na Eucaristia, por intermédio da Hora Santa, a consagrar-se a Ele e a oferecer pequenos actos de amor em reparação dos pecados. Também difundiu a prática das primeiras sextas-feiras de cada mês: confissão e comunhão em reparação dos pecados. Foi beatificada em 1864 pelo Beato Pio IX e canonizada em 1920 por Bento XV. A sua festa celebra-se a 16 de Outubro. Juntamente com esta santa, destacamos São Cláudio de la Colombière S.J. (16411682), director espiritual de Santa Margarida Maria. Foi ele o encarregado de propagar a mensagem do amor ao Coração de Cristo pelos lugares mais longínquos; e, graças a ele, a ordem religiosa dos jesuítas acometeu a tarefa de propagar a devoção ao Coração de

Jesus.O eco destas revelações na vida da Igreja foi tão grande que o Beato Pio IX, no ano de 1856, proclamou a festa do Sagrado Coração de Jesus; e no ano de 1899, o Papa Leão XIII consagrou o Género Humano ao Sagrado Coração. Centenas de congregações religiosas dedicadas à educação dos jovens, à assistência aos anciãos e enfermos, às missões, nasceram neste tempo, inspiradas na espiritualidade do Coração de Jesus. Ao longo do Século XX, os Pontífices convidaram continuamente a recorrer ao Sagrado Coração como “principal indicador e símbolo do amor com que o divino Redentor ama continuamente o eterno Pai e todos os homens”
(Pio XII, Enc. “Haurietis Aquas”)

A contemplação do Coração de Jesus fecunda hoje a Igreja com novos caminhos de santidade e apresenta-se aos homens do nosso tempo, tão necessitados da misericórdia divina, como um anúncio de esperança, para que, “sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e a violência, se estabeleça a civilização do amor, o reino do Coração de Cristo”
(João Paulo II, Mensagem ao Prepósito Geral da Companhia de Jesus, P. Peter Hans Kolvenbach, 5 de Outubro de 1986)

III. C ONSAGRARMO - NOS AO C ORAÇÃO DE J ESUS PARA PERMANECERMOS “E NRAIZADOS E EDIFICADOS EM C RISTO E FIRMES NA FÉ ” (C OL 2,7)
A Consagração ao Coração de Jesus é um acto com o qual nós, Jovens de todo o Mundo, presididos pelo Santo Padre, queremos dirigir o nosso olhar confiado a Jesus Cristo, para que nos ajude a viver “enraizados e edificados em Cristo e firmes na fé” (Col 2,7). Trata-se de fazer reviver em nós a experiência do discípulo amado, que, contemplando o Coração aberto de Jesus na Cruz, crê no seu amor e se converte em sua testemunha. “Aquele que O viu, dá testemunho” (Jn 19,35). É, portanto, um acto de fé. Ao consagrarnos ao Coração de Jesus, o Santo Padre convida-nos a confessar a nossa fé: “Cremos firmemente que Jesus Cristo Se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre Si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna” (Mensagem JMJ). Esta confissão fazemo-la, não só a partir do conhecimento das verdades que professamos, mas também como fruto de uma relação pessoal com Cristo, que se estabelece a partir da confiança no Amor do seu Coração. Além disso, esta profissão de fé realizamo-la unidos ao Papa, aos bispos e pastores da Igreja, significando que “a nossa fé pessoal em Cristo […] está ligada à fé da Igreja” (Mensagem JMJ). É no “coração da Igreja” que podemos

experimentar o latejar do Coração de Cristo. É, em segundo lugar, um acto de esperança. Não só nos consagramos, cada um de nós, ao seu Coração, mas também a todos nós, “todos os jovens do mundo”, nos confia o Papa. Nos jovens do presente encontra-se a esperança do futuro da Igreja e da humanidade. Com esta consagração, nós, os jovens, exprimimos com o Papa que “sem Cristo, morto e ressuscitado, não há salvação”, que “só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de Justiça, de paz e de amor a que todos aspiram” (Mensagem JMJ). Unidos num “só Coração”, pedimos com toda a Igreja: “Vem, Senhor Jesus”, ajuda-nos a nós, jovens do Terceiro Milénio, a ser artífices da Civilização do Amor, que se constrói “onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, O adoram na verdade e ouvem a sua voz” (Mensagem JMJ). Por último, a consagração é um acto de amor. Nós, jovens do terceiro Milénio, tal como o apóstolo Tomé, queremos “ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor” (Mensagem JMJ). Ao consagrarmo-nos, “tocamos Jesus”, renovando a graça do nosso baptismo, com que fomos introduzidos plenamente nesse Amor. Afiança-se em nós o desejo de beber constantemente nas fontes de onde brota a vida divina que são os Sacramentos, especialmente a Eucaristia e o Sacramento do Perdão. E, por último, introduzimo-nos no seu olhar misericordioso, para poder estar sempre junto dos mais pobres e enfermos, sendo para eles manifestação palpável do Amor de Deus.

Tal como o discípulo amado, também nós somos convidados a “acolher Maria na nossa casa”. A consagração ao Coração de Jesus, realizamo-la tendo a Virgem como especial intercessora e medianeira. Ela, que “acolheu com fé a palavra de Deus”, ensina-nos a crer no Amor, a confiarmo-nos a Ele e a ser seus testemunhas entre os homens nossos irmãos.

São João da Cruz (1542-1591)

Nome de baptismo: João de Yepes 
Local de nascimento: Fontiveros, Espanha 
Dia litúrgico: 14 de Dezembro 
Título na Igreja: Doutor da Igreja
 Conhecido por: A reforma do ramo masculino dos Carmelitas Descalços 
Relacionamento com um santo: filho espiritual e director espiritual de Santa Teresa de Ávila
 Suas obras: Subida ao Monte Carmelo, Noite Escura da Alma, Chama Viva de Amor, Cântico Espiritual
 Santo Padroeiro de: Vida contemplativa, teologia mística, místicos, e poetas espanhóis


Virtudes a imitar: Grande união com Deus através da oração, não se contentar com a mediocridade, agarrar-se a Deus perante as perseguições e nunca desistir, transformar cada sofrimento numa oportunidade de crescer em santidade, não ter medo das tarefas que lhe são confiadas, confiar na orientação da Nossa Mãe Santíssima. 
Sabia que? A 4 de Dezembro de 1577, São João da Cruz foi preso pelos seus próprios irmãos de Ordem, enquanto trabalhava na reforma. Foi levado para um antigo mosteiro de Toledo, onde ele optou por não responder sobre as falsas acusações, privado de celebrar a missa, torturado e espancado por colegas frades. Na noite de 16 de Agosto de 1578, por inspiração e orientação de Nossa Mãe Santíssima, ele fez uma incrível fuga do mosteiro e encontrou refúgio no convento de Santa Teresa de Ávila.

Santo Isidro dos Trabalhadores (1080-1172)


Virtudes a imitar: Ir à missa todos os dias sempre que tiver oportunidade, rezar durante o trabalho, não perder tempo, ser fiel nas pequenas coisas, partilhar sempre tudo o que se tem com os necessitados.
 Local de nascimento: Madrid, Espanha.
 Dia litúrgico: 15 de Maio 
Profissão: Trabalhador de campo.
 Relação a um santo: Casado com a Santa Maria de la Cabeza
 Virtudes: Simplicidade, humildade, obediência, honestidade, trabalho, simpatia e generosidade para com os pobres, vida de oração, espírito de penitência.
 Sabia que? Santo Isidro começava cada dia participando na missa de manhã cedo. Ele confiava-se totalmente a Deus e à ajuda dos anjos para o seu trabalho e, às vezes, trabalhava tanto como três operários juntos. Um dia, o seu patrão viu um outro arado puxado por bois brancos ao lado de arado de Santo Isidro. Ele correu em direcção a ele, mas como ele se aproximou, eles desapareceram da vista do seu patrão. Quando ele perguntou a Santo Isidro sobre isso, ele respondeu dizendo: Senhor, eu trabalho sozinho e não sei de ninguém, excepto Deus, a quem eu recorro com confiança. Então, Santo Isidro ficou conhecido pelo facto dos anjos o ajudarem até quando ele trabalhava nos campos.

St. Maria de la Cabeza


Naturalidade: Uceda, Guadalajara, Espanha, depois viveu em Torrelaguna, onde se encontrou com Santo Isidro.
 Relação a um santo: Casada com Santo Isidro, o Trabalhador. 
Dia litúrgico: 9 de Setembro e celebrada em 15 de Maio (com o marido)
 Profissão: Dona de casa. Ela também ajuda sempre o marido nas tarefas, como a construção de poços e a ajuda na comunidade, tais como a limpeza da capela local, etc.
 Conhecida por: Simplicidade, austeridade, caridade, vivendo unida com o marido, espírito de serviço, pureza, modéstia, devoção a Deus.


Virtudes a imitar: Aceitar as tarefas humildes, fazer as pequenas coisas com grande amor, desenvolver um amor puro e desinteressado nas suas relações.
 Sabia que? O sobrenome dela é efectivamente Toribia. O título "de la Cabeza" surgiu porque a cabeça é uma relíquia de muita devoção, venerada há séculos. O seu corpo e a cabeça estiveram num convento franciscano em Torrelaguna. Em 1645, Santa Maria foi transferida para a Igreja de St. André, em Madrid, para ser venerada junto ao corpo do seu marido, Santo Isidoro.

Santa Teresa de Ávila (15151582)


Nome Religiosa: Ir. Teresa de Jesus 
Nascimento: 28 Março de 1515; Ávila, Espanha 
Dia litúrgico: 15 de Outubro 
Título na Igreja: Doutor da Igreja (primeira mulher proclamada doutor da Igreja)
 Conhecida por: A reforma da ordem carmelita, fundadora de 15 mosteiros das Carmelitas Descalças, viveu uma intensa vida mística.
 Principais obras: Sua autobiografia "O Livro da Vida", "O Castelo Interior", "O Caminho da Perfeição". 


Virtudes a imitar: Centrar a vida na oração, dar o seu coração ao Senhor, viver humildemente, dar a conhecer a verdade sobre si mesmo, esforçar-se por praticar a virtude em todos os momentos.
 Sabia que? Quando era jovem, ela e o seu irmão Rodrigo gostavam de ler a vida dos santos. Ficaram fascinados com a ideia de que eles iriam directamente para o céu depois de morrerem. Parecia-lhes que "pagavam um preço muito baixo para ter a alegria de Deus". Desta forma, eles decidiram ir para a terra dos mouros (os inimigos mortais dos cristãos), a fim de se tornarem mártires.