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A incidência tributária das contas de energia elétrica no Município em São Paulo e a

legitimidade de sua cobrança perante a legislação tributária

Ricardo Matheus
Universidade de São Paulo – USP

Muitos cidadãos brasileiros pagam suas contas de energia elétrica sem ao menos
prestarem atenção naquilo que exatamente estão pagando e se os valores estão realmente de
acordo com alíquotas e diretrizes das leis tributárias do Brasil. Isto deve ocorrer pelo fato da
falta de cultura de protesto do brasileiro, chaga de todos os períodos ditatoriais vividos pela
população até meados da década de 80, onde a quebra do paradigma ocorreu através da
promulgação da Constituição Cidadã e a instauração da Democracia Representativa neste país.
Segundo a resolução 456/2000 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e o
Código de Defesa do Consumidor vedam essa prática. A Resolução estabelece que a
concessionária pode incluir na fatura outras informações que considerar pertinentes, inclusive
veiculação de propagandas comerciais, desde que não interfiram nas informações obrigatórias.
Determina, ainda, a inclusão da cobrança de outros serviços com a autorização do consumidor.
Por exemplo, em Porto Alegre houve parecer favorável ao pagamento opcional da conta
de energia elétrica e os valores do Custeio do Serviço de Iluminação Pública (CIP),
separadamente. Isto cria em São Paulo a questão se a cobrança da CIP é legal ou ilegal no
Município de São Paulo. A resposta será dependente da situação em que se encontra o cidadão
e que iremos explicar logo abaixo.
Costuma-se distinguir mercadoria, bem material sujeito à incidência do Imposto sobre
Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e bem imaterial sujeito à incidência
do Imposto Sobre Serviço (ISS). Portanto, de acordo com a Constituição Federal veda-se no §
3º do art. 155 a incidência de qualquer outro imposto que não seja o ICMS na conta de energia
elétrica.
No entanto, há um entendimento de que as contribuições existem devido as suas
finalidades, sendo assim constitucionais suas cobranças desde que haja um fator gerador para a
contribuição. O fator gerador da CIP, artigo 149 – A, nos remete um típico fato gerador de taxa
de serviço (prestar serviços). Apesar disso, dentro desta premissa constitucional, a CIP tem
como finalidade não um prestar serviços, mas sim, um custear serviços, algo totalmente
diferente para a legislação.
Portanto, falando em custear um serviço, no caso do Município de São Paulo prestado
por uma concessionária, é perfeitamente coerente eleger como base de cálculo a materialidade
prevista no art. 156, inciso I da CF, ou seja, a propriedade predial e territorial urbana. Em
miúdos significa que pessoas que vivem em terrenos maiores e com melhor qualidade de vida
deveriam pagar mais, de acordo com a premissa constitucional da equidade. É justo alguém que
possui mais, pagar mais para que todos possam ter uma vida melhor.
Entretanto é preciso ressaltar que não basta ter propriedade predial e territorial urbana
para ser sujeito passivo da CIP, há que ser também consumidor de energia elétrica beneficiado
efetivamente com o serviço de iluminação pública e não no futuro, ainda que próximo. Ou seja,
terrenos fora da zona urbana do Município não devem pagar, já que pagam o Imposto
Territorial Rural (ITR), de responsabilidade de arrecadação da União, além de que, estes
terrenos estão fora da área de iluminação pública municipal, portanto, cobrança ilegal neste
caso.
Fica a dica da aplicação do Princípio do Justo Gasto do Tributo Afetado, que consiste na
avaliação e na validação constitucional da aplicação da CIP. Em suma significa que a cobrança
indevida ou obscura, fica à margem de um questionamento jurídico, seja ele tributário ou
financeiro. Tributo afetado e mal aplicado é tributo injustamente arrecadado, portanto, tributo
passível de devolução, bem como, de punição dos responsáveis pela malversação dos recursos
públicos oriundos da CIP. Quem estiver nessa situação, procure seu advogado e vá atrás de seu
direito, cidadão!