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Autor do mês de março José Maria Eça de Queirós (1845-1900

)

Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez

A Geração de 70
Deu-se este nome a um conjunto de intelectuais, escritores, que se afirmaram entre 1861 e 1871, impondo em Portugal um novo caudal de ideias e novos modelos literários vindo da Europa, que revestiram então em Portugal aspetos de uma verdadeira revolução artística e cultural. Da Geração de 70 fazem parte Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Batalha Reis, etc. Foram alguns destes homens que tomaram parte na Questão Coimbrã e organizaram as Conferências do Casino.

A Questão Coimbrã
Dá-se este nome a uma verdadeira guerrilha que surgiu quando Pinheiro Chagas, poeta romântico, publicou Poemas da Mocidade, dedicado a Castilho e que este elogiou de tal forma que propunha o seu autor para professor de literatura no Curso de Letras da universidade, ao mesmo tempo que fazia insinuações contra Antero de Quental. Este respondeu violenta e grosseiramente com o folheto Bom Senso e Bom Gosto, onde, entre outras expressões descorteses contra o velho e respeitável mestre Feliciano de Castilho, se destaca esta: "V. Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão". Os escritores dividiram-se em dois grupos, uns apoiando o velho Feliciano de

Castilho, outros, o jovem poeta Antero de Quental. Pinheiro Chagas e Camilo escreveram a favor de Castilho; Teófilo Braga, Eça de Queir6s e outros apoiaram Antero. A Questão Coimbrã terminou com um duelo entre Antero e Ramalho Ortigão, o qual, embora concordasse com as ideias de Antero, o atacou por ter sido descortês para com o velho Castilho. A Questão Coimbrã não teria grande importância, se ela não simbolizasse a luta entre dois grupos de escritores: os românticos e os realistas.

As Conferências Democráticas do Casino
Foram organizadas por Antero, Eça, Teófilo de Braga e outros. Antero fez a apresentação das conferências, indicando o vasto campo que elas focariam: Filosofia, arte, literatura, política, religião, etc., isto é, tudo o que pudesse interessar ao homem português de então. A primeira conferência, sob o título Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três Séculos, foi pronunciada por Antero, o qual, em atitude demolidora, atribui a alegada decadência ao colonialismo, à ação da Igreja Católica saída do Concílio de Trento e ao absolutismo régio. Mais conferências se realizaram e Eça de Queirós, numa delas, focou o tema O Realismo Como Nova Expressão de Arte, onde traça as normas do romance realista: "O Realismo é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático, e do piegas. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para condenar o que houver de mau na nossa sociedade". Como se vê, o Realismo foi uma reação clara contra o Romantismo. in BORREGANA, António Afonso - Perspectivas de Leitura. Ed. do Autor, 1981

Eça e os Vencidos da Vida
Do grupo "Os Vencidos da Vida" fizeram parte Eça (sempre que estava em Lisboa, nos intervalos da sua atividade consular), Carlos Mayer, Guerra Junqueiro, António Cândido, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Carlos Lobo de Ávila, Conde de Sabugosa, Conde de Arnoso, Marquês de Soveral e Conde de Ficalho. a propósito dos jantares de intelectuais franceses, se falava em O nome do grupo teve origem numa obra da biblioteca de Ramalho "La vie à Paris", de Jules Clareti, onde " battus de la vie

Os Vencidos da Vida". Da esquerda para a direita, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, conde de Ficalho, António Cândido (sentados); conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo d'Ávila, Oliveira Martins, marquês de Soveral, Guerra Junqueiro e conde de Arnoso.

O grupo surgiu, em 1887, à mesa do restaurante Tavares, mas a maioria dos encontros passou a realizar-se no Braganza. Integrado no espaço social e cultural do Chiado, reconstruído depois do terramoto, o Braganza foi o primeiro grande hotel que surgiu em Lisboa, nas primeiras décadas do século XIX. Ficava na área do Paço dos Duques de Braganza, entre a atual rua António Maria Cardoso e a rua Victor Cordon. Do velho Braganza ainda resta a fachada exterior. Foram Os Vencidos da Vida objeto de ironia de outros escritores como Fialho de Almeida, de caricaturistas, como Rafael Bordalo Pinheiro e de sátiras teatrais, como a peça "Os Vencidos da Vida", de Abel Botelho, representada no Ginásio e proibida pela polícia, a pretexto de insinuações caluniosas. Eça de Queirós
Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, (18461905)

"Os Vencidos da Vida, quando juntos, o que pretendem é jantar, depois de jantar o

que intentam é digerir, e, digestão finda, se alguma coisa ao longe miram, tanto pode ser um ideal como um water-closet. Não há aqui portanto razões para sobressaltos. Que “Os Vencidos da Vida” jantem em paz…"
Fialho de Almeida

Talvez, com algum fundamento, tenha surgido por volta de 1890 a acusação de que naquele vencidismo, havia mais a pose de vencedores do que de vencidos. Eça, em resposta a Pinheiro Chagas, que também troçou do grupo, escreveu: "(...) Onze sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns aos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e de esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; (...); estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos Onze de Braganza, como na ordem das coisas heróicas se fala dos Doze de Inglaterra. Dissemos."

Os Maias… um propósito
Newcastle, 12 de março de 1878 (…) A minha

ambição seria pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formaram – eles e elas. É o meu fim nas cenas da vida portuguesa. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso

A Berlinda - Pormenor A Berlinda

– e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre.Não lhe parece você que um tal trabalho é justo? (…) Um abraço do seu admirador, e dedicado amigo velho Eça de Queirós

O estado da nação n’ Os Maias – algumas farpas…

“(...) a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal.” (Conde de Gouvarinho, p.144, Cap. V)”

“Isto é um país que só suporta hortas e arraiais... Corridas, como muitas outras coisas civilizadas lá de fora, necessitam primeiro gente educada. No fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá o seu compadre! Aí está o que é!”(O Marquês, p.326, Cap. X)”

“ No fim, este diletantismo é absurdo. Clamamos por aí, em botequins e livros, que este país é uma choldra. Mas que diabo! Por que é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?” (Ega, p.521, Cap. XV)

“ (...) Neste abençoado país todos os políticos têm “imenso talento”. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um “talento de primeira ordem”! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de “robustíssimos talentos”! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado “com imenso talento”, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!” (Ega, p.548, Cap. XV)

“ (...) Nunca houve uma choldra assim no universo!- Choldra em que você chafurda! – observou o Ega, rindo.O outro recuou com um grande gesto:- Distingamos! Chafurdo por necessidade, como político: e troço por gosto, como artista!”(Gonçalo, p.578, Cap. XV)
“ – De modo

que isto está cada vez pior... - Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!” (Ega, p.704, Cap. XVIII)

A propósito das Farpas…
As Farpas são, assim, uma admirável caricatura da sociedade da época. Altamente críticos e irónicos, estes artigos satirizam, com muito humor à mistura, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal; a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita. “Aproxima-te um pouco de nós, e vê. O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima abaixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretárias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguer. A agiotagem explora o lucro. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é dramático. O professor é um empregado de eleições. A população dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinhas e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora; a população ignorante, entorpecida, de toda a vitalidade humana conserva unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com padre-nossos maquinais. Não é uma existência, é uma expiação. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido! Ninguém se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete que de norte a sul, no Estado, na economia, no moral, o país está desorganizado-e pede-se conhaque! Assim todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!” In As Farpas, 1871

"Eça não se limita, todavia, a galhofar. As suas Farpas constituem um sistemático e quase que completo curso de sociologia do Portugal da Regeneração, observado de alto a baixo, nas câmaras e nas ruas, nos mercados e nas prisões, nos gabinetes da administração e nas praias onde labutam e naufragam pescadores, nas salas domésticas onde se entendiam pescadores e tomam chá com torradas as famílias, nas igrejas onde rezam beatas ou se realizam eleições, nos teatros onde se representam

peças pífias e mal traduzidas, nas redações onde se panteia em péssimo jornalismo, o que sucede tanto em matéria de política como em casos mais triviais do dia a dia do país." In Dicionário de Eça de Queirós, pág. 264.

"São uma coleção de pilhérias envelhecidas que não valem o papel em que estão impressas" e descreve-as como "unicamente um riso imenso, trotando, como as tubas de Josué, em torno a cidadelas que decerto não perderam uma só pedra, por que as vejo ainda, direitas, mais altas, da dor torpedo lodo, estirando por cima de nós a sua sombra mimosa". E escreverá ainda "todo este livro é um riso que peleja" In Carta a Ramalho Ortigão de 24 Outubro de 1890.

Rafael Bordalo Pinheiro, contemporâneo de Eça de Queirós

Rafael Bordalo Pinheiro

O estado da nação… As caricaturas de Bordalo…

A Política - a Grande Porca

As Finanças

A retórica parlamentar: o grande papagaio

A Economia: A Galinha Choca

A Burocracia (A Grande Rata)

A Beneficência (O Grande Cágado)

Algumas obras de Eça de Queirós…