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IMPACTOS DO PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DE FRANCA

Mauro Ferreira (FESP)

Introdução A cidade de Franca está situada no extremo nordeste paulista. Seu surgimento está vinculado ao movimento de “torna-viagem” dos mineiros no final do século XVIII, quando fugindo dos impostos da Coroa Portuguesa, foram ocupando o oeste de Minas até a rota do Anhanguera, o chamado “Caminho dos Goyazes”, a velha estrada entre o porto de Santos e as províncias de Goiás e Mato Grosso. O pequeno povoado desencadeou um processo de expansão urbana mais consistente somente a partir do momento em que se iniciou a inserção da região na economia cafeeira e consequentemente da construção e expansão da rede ferroviária, o que ocorre de forma mais marcante desde a década de 1880. Nesta época tem início uma incipiente indústria coureira, vinculada à facilidade de obtenção da matéria-prima propiciada pela atividade pecuária regional e pelos comboios de gado que vinham do interior de Mato Grosso e Goiás. Logo em seguida, no início do século XX, a possibilidade de escoamento das mercadorias pela ferrovia ensejou o surgimento da indústria calçadista, a partir da base de produção já instalada, decorrente da fabricação de produtos de couros para tropeiros e para as próprias fazendas, como arreios, selas, botinas, e outros objetos úteis confeccionados em couro. A primeira experiência de maquinização, realizada a partir de 1921, pela fábrica de calçados Jaguar, ainda que fracassada (a empresa foi à falência em 1924) propiciou a formação de mão de obra especializada e tornou visível as amplas possibilidades de expansão industrial decorrentes da produção seriada. Embora até o final da II Guerra esta atividade ainda fosse pouco expressiva para a economia local, a produção de calçados foi o ponto de partida para a industrialização (FERREIRA, 1989). No início da década de 1960 a cidade passa por um acelerado processo de expansão urbana, cuja decolagem está ligada ao processo de industrialização calçadista, que modernizou seu parque produtivo e seus processos de trabalho,

Entre 1960 e 1970.459 permitindo a produção e exportação massiva de calçados que tornou a cidade o segundo maior pólo produtor de calçados do país. indústrias de borracha.244 na zona urbana) para 86. inclusive para estabelecer as normas técnicas para a elaboração dos Planos Diretores municipais durante o período autoritário instituído após o golpe militar de 1964. o GPI – Grupo de Planejamento Integrado. através do .121 habitantes. Suas funções específicas foram regulamentadas em 1966. segundo as estimativas do IBGE (DOU 31/08/2006). o de urbanização e de abertura de novos espaços para loteamentos: entre 1965 e 1975. surgiram 41 novos loteamentos privados (CHIQUITO. exportando cerca de 30% de sua produção (SÃO PAULO.52% contra 2. setembro de 2005). pelo decreto federal n. editado em 30 de dezembro de 1966. quase duplicando a área da cidade existente. 2006). de processamento de couros e de colas. A indústria local concentra 6% da produção nacional de calçados masculinos. com uma área loteada de aproximadamente 707 hectares. A taxa geométrica de crescimento anual da população foi superior à média do Estado entre 1991 e 2000 (2. 59. a população da cidade saltou de 56. em parte drenada das pequenas cidades paulistas e mineiras de seu entorno. Neste período. com 760 unidades industriais do setor calçadista em funcionamento (Censo da indústria calçadista de Franca. A presença da indústria atraiu curtumes. tendo a industrialização como a força motriz de um processo de rápida expansão urbana. organismo estatal responsável pela elaboração e coordenação da política nacional no campo do planejamento local integrado. ocorre um outro fenômeno sem precedentes. 2006:153).5 milhões de pares de calçados em 2006. Como parte deste processo de transformações em sua economia. sendo suas principais tarefas a elaboração e coordenação das políticas nacionais de planejamento local integrado. foi que o Poder Público local resolveu elaborar um Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado – PDDI.420. atendendo as exigências do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo – SERFHAU. com uma expressiva produção de 25. Para realizar os serviços deste Plano Diretor a Prefeitura Municipal contratou uma empresa privada de consultoria.987 habitantes (47.917. paradigma do planejamento urbano daquele período. UniFacef/IPES. sua população já atingia 328. de intensa urbanização. Em 2006.12). produzindo um cluster do setor calçadista.

verifica-se a realização de intervenções físicas e obras cujos efeitos estão claramente presentes no território. intervenções contidas nos estudos e nas propostas do Plano Diretor desenvolvido pelo GPI. MARICATO (2001). Enfim. baseado num diagnóstico excessivo. principalmente através da construção de obras viárias para o automóvel particular. verifica-se que as críticas se concentram em aspectos que. apontam os autores outros aspectos. que se espelhava numa legislação elitista e na burocracia. tais como: a criação do Distrito Industrial.460 estabelecimento de normas e roteiros para os planejadores. cujos efeitos sobre o espaço urbano foram muito criticados por sua escassa eficácia. tais como de AZEVEDO (1976). incapaz de enxergar e diferenciar a cidade real daquela dos mapas. como: a deterioração das condições de vida urbana e ambientais. ROLNIK (1997). assistência técnica e difusão de experiências. em maior ou menor grau. a priorização do transporte individual em detrimento do coletivo. CINTRA e HADDAD (1978). e VILLAÇA (1999 e 2005). . RIBEIRO e CARDOSO (1990 e 1994). afirma-se que o planejamento do período seria apenas retórico. dentre outras atribuições. BONDUKI (2000). irreal. a ausência de participação da sociedade e dos usuários dos serviços públicos na definição dos investimentos e das políticas públicas. são recorrentes nos autores citados: a centralização de poder no Executivo. propostas de legislação. apontada por significativo número de trabalhos. No entanto. a execução de grandes obras que interessavam mais às empreiteiras que às cidades. Nestes estudos. sem qualquer desdobramento efetivo na cidade real. A metodologia preconizada pelo SERFHAU privilegiava um diagnóstico dos problemas urbanos e uma pretensa racionalidade na elaboração do Plano. numa primeira observação empírica no espaço urbano da cidade de Franca. Além disso. a ineficácia de um planejamento urbano considerado tecnocrático.

ocorreu uma reorganização administrativa da Prefeitura local. os sucessivos governos municipais eleitos após a sua aprovação agiram segundo suas diretrizes principais em relação à produção do ambiente construído e aos investimentos públicos. contrariando aspectos reiterados da crítica apontada na literatura disponível sobre o planejamento relativo ao período do SERFHAU. Trabalhamos. seu impacto não poderia ser considerado desprezível sobre o espaço urbano e sobre a estrutura administrativa do poder público local. objetivamos identificar as principais ações e proposituras previstas naquele Plano Diretor. os sistemas de controle do processo produtivo dentro das fábricas. com uma hipótese geral durante o trabalho de pesquisa que considera que. a transformação de voçorocas em áreas verdes. a implantação de um extenso e moderno sistema viário. de lazer e parques urbanos. analisar sua importância para o desenvolvimento urbano do município e discutir em que medida a pretensa inefetividade do planejamento urbano do período pode ser constatada numa cidade do interior paulista como Franca. Ou seja. embora certos aspectos da crítica aos Planos Diretores das décadas de 1960 e 1970 e à sua concepção tecnocrática não possam ser contestados. ou seja. que conformou e consolidou uma estrutura permanente de planejamento urbano na prefeitura de Franca. Além disso. de pretensa racionalidade da organização espacial ao se vincularem às idéias da “gerência científica” (padrão taylorista e fordista) do processo produtivo fossem a contrapartida da organização do espaço industrial e da cidade. que a idéia da “modernização tecnocrática” difundida pelos setores técnicos vinculados ao regime militar e pela metodologia utilizada para a elaboração dos Planos Diretores do período do SERFHAU. . Queremos dizer com isso que o processo de elaboração do Plano permitiu estabelecer um conjunto de compromissos do governo municipal e de suas elites industriais para a expansão e o controle do espaço urbano. no caso específico de Franca. sua implementação e quais as condições políticas e econômicas que as viabilizaram.461 a pedestrianização do centro. portanto. Metodologia A partir destas observações empíricas.

que apresentam o diagnóstico. a política de desenvolvimento físico.462 tiveram como reflexo no espaço da cidade formas de produção e ocupação territorial similares. à história do GPI. de 16 de novembro. . As propostas do Plano e sua implementação A idéia de elaborar um Plano Diretor para a cidade de Franca não era nova quando foram iniciados os trabalhos da empresa GPI. o projeto de lei. suas razões e seu impacto sobre a cidade. Tais elementos permitiram configurar a pesquisa de acordo com quatro eixos estruturantes: o processo de elaboração do Plano Diretor de Franca segundo a metodologia do SERFHAU e aquela utilizada pelo GPI. traduzindo os debates ocorridos ao longo do tempo sobre o planejamento urbano da cidade. 116. contratada pela prefeitura em 1967 para elaborar um Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado. que autorizava expressamente o Poder Executivo a promover a sua elaboração. Desta forma. Em 1950. técnicos e secretários de planejamento da Prefeitura de Franca e ex-prefeitos da cidade. Estes dados foram complementados por pesquisa na nas alterações da lei do Plano. como estratégia de sobrevivência de membros da oposição política ao regime militar. o que nos levou também a buscar informações sobre o papel desempenhado pelo GPI neste processo. não teve qualquer desdobramento prático. a empresa de consultoria do Plano de Franca e ao caráter que assumiu nos duros tempos da ditadura. pudemos mapear as principais idéias e propostas presentes no Plano. A pesquisa tomou como ponto de partida os estudos realizados e publicados nos cinco volumes do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de Franca. os principais envolvidos com o objeto de pesquisa – os sócios e técnicos do GPI. A pesquisa documental procurou abranger ainda atas da câmara municipal e noticiário dos jornais diários locais. havia sido aprovada a lei municipal nº. o que se realizou do Plano. medida legislativa que. após uma longa investigação. no entanto. o longo processo que permitiu a implantação e realização de significativa parcela das proposições do Plano. Localizamos e entrevistamos ainda. o projeto do distrito industrial e o plano de ação do governo para implementar o Plano.

2001). etc). administrativos. composto de um prognóstico dos aspectos locais preponderantes à compreensão do futuro micro-regional. com descritores. com as respectivas plantas). com pequenas variações quanto ao nível de profundidade. apresentados nas formas de diagnósticos sócio-econômicos. 1981). sua necessidade era apontada pelas autoridades públicas e pela imprensa como um importante instrumento de ordenamento do crescimento da cidade. bem como previsão aproximada das alternativas possíveis para o desenvolvimento local e indicação sumária das medidas de curto prazo. uma empresa de consultoria. da estrutura urbana e suas tendências de crescimento.realização de diagnósticos e prognósticos da situação local (caracterização dos problemas apurados dentro dos diversos aspectos municipais. constituída em parte por militantes da esquerda oposicionista ao regime militar (FERREIRA. físico-territoriais.estruturação de um conjunto de informações através de coleta de documentação e da realização de levantamentos locais (incluíam os elementos disponíveis no local. . financeiros. um fundo criado durante o regime militar para o financiamento do planejamento urbano. a metodologia proposta pelo SERFHAU previa a sistemática seguinte. A iniciativa não prosperou e somente em 1967 a idéia de fazer um Plano Diretor para a cidade seria retomada. os econômicos.indicação das medidas a serem tomadas pela administração. tais como plantas aerofotogramétricas. já no governo do industrial calçadista Hélio Palermo (19641969). em 1960. estudos sobre a situação econômico-financeira. Em linhas gerais. institucional. políticos e legais. isto é. 2007). 1971) e (ZAHN. dados estatísticos sociais e institucionais. estudos setoriais. et allii.proposição de hipóteses de desenvolvimento e formulação das diretrizes correspondentes. plano diretor porventura existente. com a recomendação expressa de colaboração da equipe local e a discussão e avaliação do processo com a participação das autoridades e lideranças locais: . aspectos históricos. . com recursos obtidos junto ao Fiplan.463 Posteriormente. consubstanciando um plano de ação governamental (BRASIL-Minter. quando aconteceu um primeiro contato entre a Prefeitura de Franca e o urbanista paulistano Anhaia Melo. (CALIL JR. . serviços públicos e estrutura urbana. permitindo a contratação pela Prefeitura do GPI. . sociais.

período em que sua idéia central está colocada no chamado Plano Diretor. Seria uma ilusão tentar estudar a ação do Estado brasileiro por meio dos planos diretores. ambições e objetivos que ultrapassassem significativamente os do zoneamento (VILLAÇA.464 O conceito de plano diretor desenvolveu-se no Brasil mais ou menos a partir da metade do século XX. Muito discutido no Brasil. 1999) Mais ainda. O planejamento urbano não teria sido uma atividade orientadora ou uma carta de compromisso do Estado em qualquer dos níveis de governo. 2001). portanto. não teria sido capaz de produzir “concepções de cidade” ou “políticas públicas”. de atingir objetivos estratégicos e de desenvolvimento harmônico e integrado. pelo menos durante cinqüenta anos. Seus resultados seriam pífios e marginais aos próprios planos e à vida das cidades que pretendiam modificar. em função da inefetividade deste instrumento no planejamento urbano (VILLAÇA. um gasto de energia social para debater algo que não existe. basicamente decorrente de sua confecção tecnoburocrática. principalmente sua concepção do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado como um instrumento de planejamento das cidades brasileiras do período. em boa parte decorrente ou atribuída ao autoritarismo e a centralização política . Coloca-se. 2005). pois o discurso do planejamento seria apenas de uma manifestação ideológica que a classe dominante e o Estado difundem. O planejamento urbano. pois esse Plano Diretor. não teria atingido os objetivos que lhe foram atribuídos. haveria um empenho da sociedade. a maioria absoluta dos planos diretores foi parar nas gavetas e prateleiras. realizado para o Rio de Janeiro. um grave problema para a própria história do planejamento. por um Plano Diretor com um nível de abrangência. acreditar que os planos foram elaborados com a real intenção de modificar o quadro de precariedade urbana. seria apenas “uma criação da razão pura. não se conheceria qualquer cidade brasileira ou qualquer administração municipal que tenha sido minimamente pautada. não havendo possibilidade de levá-lo a sério. uma construção mental baseada na idéia pura descolada da realidade social”. dos seus documentos ou por intermédio do discurso dominante sobre o planejamento urbano estatal. (VILLAÇA. entre 1940 e 1990. Estas críticas apontam a política adotada pelo SERFHAU como um rotundo fracasso. muito embora a expressão “plano diretor” já aparecesse no Plano Agache de 1930. desde que a idéia do Plano Diretor surgiu no Brasil. como meras obras de referência. da ausência de participação e voz da sociedade civil. ainda que por poucos anos.

como empreiteiros de obras e serviços públicos. Ao identificar o planejamento integrado ou compreensivo com o regime militar.465 vigentes à época. em termos metodológicos. estabelecer e alinhar um conjunto de críticas gerais aos Planos Diretores do período: Os planos se resumiam a um diagnóstico exaustivo e pouco operacional. Os planos se resumiam basicamente ao zoneamento de uso e ocupação do solo. Os planos seriam irreais. ou se a necessária análise crítica da complexidade do urbano exige esta “racionalidade” ou “compreensividade/integração” na ação estatal. Os planos não verificavam a capacidade de investimento dos municípios. Os planos produzidos por empresas privadas seriam tecnocráticos. não contemplavam os interesses da sociedade local. ou sua dosagem de racionalidade. A exigência de implantação de organismos municipais de planejamento não se traduziu em implantação do processo de planejamento nas prefeituras. tornando-se inexeqüíveis. que possuem interesses específicos na atuação do Estado. exclusivas do regime militar). Até mesmo porque. Desta forma podemos. Os planos eram desconectados da região onde se inseriam os municípios. No entanto. dizer que os planos foram feitos exclusivamente por tecnocratas alienados e distanciados da realidade local e da sociedade civil não corresponde totalmente à realidade. excluindo a política de sua concepção e horizontes. não se tem ainda a avaliação de experiências mais recentes e testadas o suficiente para alterar de forma radical e integralmente as estruturas estabelecidas na década de 1960 pelo SERFHAU. define sua natureza como intrinsecamente autoritária e ineficaz. os representantes de entidades ligadas ao capital industrial e comercial local. Determinados setores. sem esgotar o assunto. Estas questões remetem à necessidade de discutir se essa integração ou compreensividade. inclusive na democracia. também por sua concepção tecnocrática. que são . são realmente de natureza autoritária (e por extensão.

porque o Estado está estruturalmente organizado com sua presença. porém. De um lado. esses geralmente são ouvidos. naquele período. . é feita em conjunto com a participação destes setores. Ou seja. a racionalização e dinamização da administração municipal e a expansão das redes de equipamentos urbanos e de serviços públicos de forma a atender a necessidade de toda a população local. uso e ocupação do solo. ao enfatizar que. O discurso do regime militar. (CAMPOS. como secretários municipais. enfrentando a questão das voçorocas (grandes lesões erosivas do solo urbano) e um Plano de Ação. sociais e administrativas locais e um Plano específico para a industrialização local. que não é no âmbito do Plano Diretor que se solucionam questões relevantes. não deixava transparecer os privilégios decorrentes de suas ações com o capital. 1981) As observações de LAMPARELLI e ZAN (1989) apontam na mesma direção. a obsolescência de grandes áreas urbanas para atender as exigências das novas formas de produção e consumo decorrentes dos novos padrões de vida numa sociedade regida pelas leis de mercado foi caracterizada por um esforço de transformação do espaço urbano. presidentes de companhias e empresas estatais. os Planos Diretores eram praticados parcialmente e privilegiavam os interesses da classe dominante. por analistas com sensibilidade social e pelos indicadores sociais. Pode-se afirmar. um diagnóstico abrangente das condições econômicas. onde a escolha dos projetos e programas a serem realizados dependia da relação de forças políticas num contexto ditatorial. a prática. que contempla as diretrizes gerais da Política de Desenvolvimento Integrado do Município de Franca. que envolviam a promoção e orientação do desenvolvimento econômico. social e físico. como desigualdades sociais e distribuição de renda” (LAMPARELLI e ZAN: 1989:112). de maneira geral. de outro. buscando estabelecer novos moldes de produção e de acumulação do capital.466 da sociedade civil. O GPI. programando ações que atendessem todas as atividades humanas e. geralmente. após realizar estudos e análises consubstanciadas em dois documentos. “por isso eles aparecem como um grande fracasso quando avaliados pela população. a escolha de agentes políticos públicos. propôs uma Lei do Plano Diretor que impõe novas regras para o parcelamento. o discurso do planejamento integrado. ou melhor.

construção do colégio técnico industrial (que se efetivou em 1971). canalização de córrego e urbanização do vale dos Bagres (que se efetivaram. para a elaboração do projeto do Distrito Industrial (área adquirida em 1972 e efetivado em 1984). o zoneamento. construção das avenidas marginais (que se efetivaram ao longo de quase 20 anos) (PREFEITURA MUNICIPAL DE FRANCA. os grandes parques urbanos. tinha como propostas a criação de uma Cidade Industrial para promover a industrialização. dentre outros aspectos. o tratamento diferenciado à região central. É preciso ainda considerar o contexto em que se dá este planejamento. de limitação das liberdades democráticas e de centralização de recursos em nível federal. contendo um orçamento dos investimentos necessários. 2000). [197-?]b) construção de calçadões no centro (efetivado parcialmente entre 1974 e 1988) Ou seja. não corrobora a simplificação de que o planejamento do período do SERFHAU foi apenas “papel pintado” arquivado nas prateleiras da prefeitura. para implantação do corpo de bombeiros (que se efetivou em 1970). Pode-se verificar que o Orçamento Plurianual proposto para aquele período continha recursos. para a construção do Pavilhão de exposições calçadistas. queremos afirmar que o Plano Diretor de Franca. a mudança de enfoque na questão do transporte coletivo e do sistema viário estrutural. tolhendo a capacidade de intervenção do poder local. através dos calçadões (OLIVEIRA.467 Ora. A paradigmática Curitiba. construção do estádio municipal (que se efetivou em 1969-70). para a construção das seguintes obras: Paço Municipal (que se efetivou em 1970). ao longo de 20 anos). . cujo Plano foi transformado em lei em 1966. dentre outros. a Francal (que se efetivou em 1972). abrangendo o período de 1970-1973. para a construção da nova rodoviária (que se efetivou em 1979). as principais propostas presentes no Plano e as obras previstas para aquele período se concretizaram naqueles anos ou nos subseqüentes. Com isso. este Plano de Ação colocava como peça fundamental do planejamento o Plano Plurianual. por suas propostas e efetivas realizações.

a industrial calçadista. Embora o planejamento desenvolvido a partir do Plano de Franca nunca assumisse o caráter integrado que sua concepção inicial indicava. não correspondem à efetiva experiência do processo de elaboração e implementação do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de Franca. áreas para expansão de novas empresas e para moradia das classes trabalhadoras e infra-estrutura para produzir vão se refletir no processo decisório sobre o espaço urbano. que demandava mão de obra em abundância. elaborado sob sua égide. Conclusões Os resultados desta pesquisa permitem discutir que as principais críticas encontradas na literatura sobre o planejamento urbano desenvolvido durante o período de existência do SERFHAU e por ele financiado. ao lado de um zoneamento de uso que destinasse área específica às indústrias (distritos ou parques industriais). o incentivo à industrialização como motor do desenvolvimento. o Plano Diretor de Franca estava sintonizado com algumas das principais idéias e propostas dos urbanistas e planejadores daquele momento: a devolução do centro das cidades aos pedestres e a restrição para circulação dos veículos motorizados. através de parques urbanos. A ascensão de uma dinâmica e próspera indústria calçadista na cidade. A repercussão da aplicação do Plano mostra ter ocorrido uma clara opção nas ações da Prefeitura pela consolidação de uma proposta de cidade que interessava às elites dominantes emergentes. a ampliação do sistema viário para integrar áreas novas às cidades que cresciam velozmente. apesar das limitações do período. a ampliação das áreas verdes urbana e de uso coletivo. ou à sua absoluta inexistência prática e/ou abandono. Investe-se pesadamente em infra-estrutura para a indústria. a modernização da administração pública para permitir o atendimento das demandas por serviços públicos. em detrimento da elite agrária que prevalecera até então. relativizando as críticas encontradas na literatura. ele também não se reduziu exclusivamente aos aspectos físico-territoriais comumente admitidos.468 Ou seja. implantando-se um distrito industrial totalmente com recursos próprios da .

Enquanto não se consolida o processo de planejamento e de estruturação de um setor de planejamento e dos instrumentos de controle de uso e ocupação do solo. O diagnóstico permite também revelar que o plano aborda a questão econômica com uma visão muito mais ampla que os simples limites municipais. O papel do Plano para esta inserção é inegável. foram atuantes no sentido de propiciar a produção de lotes e de uma expansão horizontal da cidade que faz surgir novos vazios urbanos e agrava as dificuldades da municipalidade em atender as necessidades locais e ampliam os problemas ambientais já detectados naquela época. De certa forma. sem grandes restrições de zoneamento de uso e ocupação do solo.469 municipalidade. como a indústria calçadista e os empreendedores imobiliários. e as . ainda hoje. utilizando o discurso da pretensa “vocação horizontal” da cidade. Apesar da proposta radical do Plano Diretor de estancar a expansão horizontal e de incentivar a ocupação das áreas com disponibilidade de infra-estrutura. pois a introdução do tema da industrialização e dos caminhos para sua consolidação no debate político local vai se ampliar consideravelmente. não há freios para a expansão da cidade: a idéia vigente é propiciar lotes em profusão para os trabalhadores e para a expansão da indústria por toda a cidade. até mesmo porque. embora aspectos sociais como os indicadores de pobreza e a iniqüidade da divisão de renda local em nada sejam muito diferentes do restante do país. por conta da própria dificuldade da prefeitura atender a demanda. esta atuação de políticos e setores empresariais agiu no sentido da construção e legitimação de um discurso de uma identidade local de forte caráter ideológico. pois a cidade se transformou em plataforma exportadora de calçados e a feira se transformou na Francal. utilizando como instrumento para ampliar seus mercados a implantação de uma Feira calçadista. hoje referência internacional. que envolviam alguns dos prefeitos do período pesquisado. Estas propostas de fato se viabilizaram. via exportações. ao colocar em questão as possibilidades concretas de inserção internacional da produção industrial calçadista da cidade. este discurso das lideranças e elites locais sempre procura apresentar como sendo um dos aspectos positivos da cidade a inexistência de favelas (até o momento). como as erosões. os interesses imobiliários de setores da sociedade. com propostas concretas de ação para o poder público local e para o empresariado quando da elaboração do Plano.

766/79. foi capaz de nortear a expansão urbana. da construção de parques urbanos e recuperação ambiental de voçorocas. Queremos reafirmar com isso que o Plano Diretor de Franca e suas principais propostas foram utilizados pelos os setores predominantes na economia e política . dentre outros aspectos. assim como redefinindo o dimensionamento do sistema viário e dos equipamentos públicos) e de expansão da cidade.470 medidas para a efetiva implantação do Distrito Industrial vão se iniciar a partir da aprovação da lei do Plano Diretor (FERREIRA. A aplicação das diretrizes do Plano também se beneficiou de uma contingência política local. da ampliação e modernização do sistema viário como instrumento de abertura de novos eixos de ocupação urbana e novas centralidades para expansão da cidade. num contexto de autoritarismo e centralização federal. comum entre adversários políticos na tradição brasileira. 2004). Mesmo prefeitos manifestamente opositores em termos da política local vão utilizar propostas do Plano e dar continuidade à sua implementação. permitindo a qualificação e capacitação de outros técnicos municipais. da maneira como aprovado. Apesar das limitações dos instrumentos disponíveis para os municípios naquele período. estruturou-se ao longo dos anos uma Secretaria de Planejamento. não se verificou de maneira expressiva. Outro aspecto importante a considerar é que o processo de elaboração do Plano permitiu constituir e consolidar uma estrutura permanente de planejamento na administração municipal. da pedestrianização do centro comercial principal. se não foi certamente capaz de constituir uma experiência de planejamento integrado tal como pressupunha sua teoria. além de acumular uma memória de planos e projetos físicos. pois a descontinuidade administrativa. como verificamos no caso do Distrito Industrial. o Plano Diretor Físico de Franca. institucionalizando certos aspectos fundamentais do sistema de aprovação de novos loteamentos (criando regras para o fornecimento de diretrizes urbanísticas antes mesmo da lei federal 6. consolidando e integrando ações políticas locais e instrumentos de controle e da produção do espaço urbano. bem como capacitar um corpo técnico e burocrático qualificado para a administração pública. restringindo-se mais ao plano discursivo-ideológico. A partir da constituição da Assessoria de Planejamento. outro fator importante para os aspectos de continuidade administrativa apontados. para a realização e fiscalização das obras de infraestrutura.

sobre uma pretensa “vocação de crescimento horizontal” é a expressão mais acabada desta visão sobre a cidade enquanto espaço de dominação e acumulação do capital. divorciados das reais possibilidades de intervenções concretas do poder público local. O aprofundamento das pesquisas e análises destas experiências se apresenta como necessária inclusive porque. O desvendamento das ações e da história do GPI. como o empresariado coureiro-calçadista. O papel desempenhado por aquele organismo federal e pela empresa de consultoria contratada para elaborar o plano de Franca. de exclusão social e seletividade no fornecimento de infra-estrutura e serviços públicos. O próprio discurso dos ex-prefeitos. no mínimo. bem como sua contribuição à formulação de metodologias de planejamento e a formação de profissionais para o setor público e para a universidade não pode ser desprezada ou esquecida. cujo processo de elaboração seria puramente tecnocrático. a partir da exigência da lei federal que criou o Estatuto da . Como a maioria dos estudos se refere aos centros metropolitanos. Portanto. inclusive como estratégia de sobrevivência de quadros técnicos da esquerda oposicionista ao regime militar. 2002 e CHIQUITO. distanciado da sociedade local. até mesmo enquanto discurso ideológico e justificativo das políticas adotadas. não pode ser aceito sem um aprofundamento e realização de novos estudos e verificações de sua repercussão naquele período. que teria sido irrelevante a influência do planejamento na transformação concreta das cidades. para que a cidade fosse preparada para atender ao capital imobiliário e industrial. nos últimos anos.471 local. gerando grandes áreas vazias e a formação de um mercado imobiliário restrito e fortemente especulativo. pode-se considerar que nas cidades de menor porte esta possa não ser a mesma realidade. a afirmativa que se considerarmos apenas o nível local de planejamento urbano sob o estímulo do extinto SERFHAU. possibilitou a formação de quadros técnicos para a gestão da cidade. não como a realização pura e simples de métodos e técnicas cuja neutralidade inexiste. 2006). mas como deliberada política. bem como o desenvolvimento de metodologias de planejamento que não foram ainda totalmente superadas no quadro atual. onde os planos em sua maioria limitaram-se a exaustivos diagnósticos técnicos. os empreendedores imobiliários de loteamentos e o comércio da região central. durante o longo processo de elaboração e de sua implantação. como mostram estudos recentes (FELDMAN.

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