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Carlos Drummond de Andrade

Versiprosa
(CRÔNICA DA VIDA COTIDIANA E DE ALGUMAS MIRAGENS) 1967

Versiprosa, palavra não dicionarizada, como tantas outras, acudiu-me para qualificar a matéria deste livro. Nele se reúnem crônicas publicadas no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil; umas poucas, no Mundo Ilustrado. Crônicas que transferem para o verso comentários e divagações da prosa. Não me animo a chamá-las de poesia. Prosa, a rigor, deixaram de ser. Então, versiprosa. Quero lembrar que as farpas dirigidas nestes escritos à ação de políticos jamais filtraram paixão ou interesse partidário nem assumiram cunho pessoal. Exprimiram a reação de um observador sem compromisso, que há muito se desligou de ilusões políticas, e, geralmente, prefere falar de outras coisas mais gratas entre o céu e a terra.

C.D.A.

QUASE ELEGIA No tempo dos afonsinhos havia um homem Fiúza. Tinha uma cara qualquer e a engenharia confusa. Vivendo só na montanha, respirava ares lavados. Supunham-lhe mente arguta, pensamentos elevados. Saberia as buenas-artes, seus planos eram geniais. Tiraram-no então da toca, levaram-no aos maiorais. Queremos - clamam as massas esse para presidente. Por trás daqueles bigodes uma alma palpita e sente. Fiúza baixou da serra qual novo homem do destino. Sucede que aqui embaixo as coisas piam mais fino. Enquanto ele oferta às massas o seu sorriso contente, eis que surge na surdina Lacerda, e ferra-lhe o dente. Corre o pobre à sua furna e muitos anos passaram. Tal como os dias e as noites, as águas surdas rolaram.

Não rolam mais hoje em dia e os cristãos morrem de sede. Pois vamos (diz o Velhinho) tirar o Fiúza da rede. Que venha sem mais tardança a esta terra comburida. E aqui, como um taumaturgo, faça reflorir a vida. Seria o Velho ou o Capeta a voz que assim lhe falava? Se a tentação nos visita, a razão torna-se escrava. Descer o alcantil é doce, depois de tanto jejum. Se der certo, muito bem; se não, o risco é nenhum. Chega Fiúza à planície e vê as casas sem água. Vê as escolas fechadas e a moça sem sua anágua, pois não a pode lavar, e o jeito é vestir biquíni. E na soalheira a cigarra, irônica, tanto mais zine. Viu os doentes sem banho e os curumins sem asseio. E tudo era triste e sujo, e o belo tornou-se feio. Isso para mim é sopa, diz o sábio a seu bigode. Quero dinheiro graúdo, comigo a seca não pode. Deram-lhe toda a pecúnia, ele tirou o casaco. Pegou de uma escavadeira, começa a abrir um buraco. Lá bem no centro da terra, tem água que é um desperdício. Dentro, se tanto, de um mês, quem não se banha é por vício.

sem a menor esperança. Mas água? Na Paulo Afonso. a terra inteira se empoça. o calcário. pleno de luz. e a multidão geme: “Nossa!” Sobre a garganta abissal dos poços. mas a bica no ora-veja. nas altas esferas se perde a santa paciência. no Niágara talvez. Então. E só assim se tem água. Um dia desses o sábio ressurge. Do pensamento às palavras. numa fluência bem mansa. ou talvez a mula-ruça. Água é a que corre dos olhos. nesta história sem a menor novidade.Um mês passou-se e outro mês.) . por obra do seu Amor. lá vai sem deixar saudade. na garrafa. que fim levou a tua hidráulica ciência? E chamando Edgard. (Diz Comte que o homem se agita. conferem-lhe (a história já chega ao fim) plenos poderes até sobre o caudilho Delfim. como um ovo para indez.) As procissões ad petendam comovem Nosso Senhor. Fiúza. uma verdade indiscreta surge: são tudo manobras. (Ou mineral. Abre-se um poço e outro poço. ou destas ao mundo das obras. mas a tolice o conduz. Volta Fiúza a seu serro. quem se debruça enxerga o lodo. E fica Edgard.

penhor de novos tempos. lavas. outubro? Voltarão as misérias e os enganos? (Como sacerdotisa no delubro. político. de puro entusiasmo. nossos erros. ardor e frio.Edgard que se previna para levar marretada: Em vez de nova adutora. um mistério. nos erros dos eleitos? Voltará o passado. 18-2-1954 OUTUBRO Outubro eleitoral. ingênuo outubro. a musa explora em vão os teus arcanos. À tua brisa. outubro a despertar em rebeldia (ó meu passado!) e tropas se alinhando no caminho do Túnel quem diria que a liberdade é um não-sei-quê nem quando? outubro que em tu mesmo te pintavas para fazer do sangue o elo rubro. misturando biquínis e galochas. se renova nossa velha esperança malograda depois de tanta luta e tanta prova. e coisas que relembro. numa quadra de paz e grandes feitos? Ou temos de chorar. que desabrochas da vaga primavera de setembro. outubro já verão na areia clara de praias leblonianas onde espera um silfo. eis que de novo trazes no regaço. fúrias. Outubro. amigo? Um homem puro. eu sei. No entanto. Que nos darás. tem paciência. forma rara a desfazer-se em rosa na atmosfera. à cósmica energia de teu bojo. uma sereia. na alvorada. outubro.) Que depende de nós. de encontro ao muro. rumo a Juarez e Mílton. ó mês estranho. o tempo é escasso à solução de enigma assim tamanho. outubro. . que faz o Governo? Nada.

outubro. porta aberta a mundos novos que eram velhos mundos. dessas cavernas se escoa e passa pela cidade. meu aracnídeo postado entre Balança e Sagitário: Órion persegue Diana? em vão: agride-o teu pungente ferrão. oito meses e uns trocados. e sob o influxo astral tombam de rojo.. A nossa mina de ferro. D. A. meu prezado C. Tá? Sucede que há bem treze anos. Essa é boa ! Aceitar isso quem há de ? Não chega à tesouraria da faminta Prefeitura. pra nós. que eu te agradeço. Outubro que afinal não és diverso de outro qualquer dos meses da folhinha.. a croniquinha 2-10-1955 CORREIO MUNICIPAL De nossa velha Itabira. os pobres itabiranos. mais são furtados. passa de longe. como outro não há que o iguale.o amante e o cidadão se enchem de espanto. pois vai reto à Companhia que o povo não mais atura. Outubro americano. e um dinheiral formidando.. Vai-se a cova aprofundando pelas entranhas do vale. perdoa a sem-razão deste meu verso. . permite-nos chegar à descoberta de nós mesmos. que a todo mundo fascina. mais fazem. tornou-se (e sei que não erro). de efeito vário. Outubro escorpional. escreve-lhe este caipira por um “causo” urgente... nos pegos mais profundos. o conto da mina.

refletindo um panorama de onde desertou a fé. Ante o clamor que não cessa. de pranto amargo ela é. sucata e o diabo (que a carrega).) Um presidente que sabe as lições de nossa história. é de esperar que ele acabe com a comédia embromatória. Ora. doído de tanta desolação. não creio: esta terra. o professor Chico Lessa divaga pelas Europas. o Juscelino. ou por outra. Diz-que espera a lua nova. a injusta empresa nos lega poeira de ferro. ou vai ? E assim driblando na cancha. deixa a fome como herança. batata. (A exploração leva o suco. se ri da gente e seu ai. dá como bem entendido que assim não pode ser não. em sua sorte mofina. Mas a bichinha remancha. De positivo. Promete mundos e fundos. hoje que resta ? lembrança. piscina. avião entre dois segundos. e então teremos a prova de quem é o mais ladino.Do Rio Doce se chama. lembra muito Diamantina. depois de fechar-se em copas. e nas feridas da serra. não vai. Dos grão-mogóis do Tijuco. diz que vai. O doutor Café. . mas promessa aqui é ópio. cinemascópio.

e põe-me tonto. de vestidos translúcidos. nem a renhida peleja entre os irmãos do Oriente Médio. e os corpos louros desatando na areia seus tesouros! Mas a qualquer momento. amigo. e é uma festa. rosa a desabrochar na guerra fria. pelas calçadas. meu caro. paciência. pelos ares. certamente a pretensão de dar-lhe rima). Duzentos abraços do velho Nico Zuzuna. subindo. As ruas já são outras. coloridos.. que. às seis e meia. meu compadre. no momento. O importante neste dezembro. um disco sobre o mar. depois? Vai a comprinhas . Vai à praia. novas da cidade tão faladora quanto Xerazade e tão sensual que a própria Sulamita a seu lado parece que faz fita. a que o siso não sabe dar remédio. Que o desespero nos una! E é só.. o caso sério é o verão que chegou. a lua cheia. a cor se casa ao ritmo. e as pessoas remoçam junto a praias e lagoas. a moça entra no Correio. não pensa no que pensas. em qualquer ponto.. é seu império. começando a ganhar (seria vã. Se visses. E eu te direi que o grande ajuntamento de pessoas e casas. nem o preço da carne. No vale já se perscruta uma sagrada violência de povo inclinado à luta. sinucas e pesares fogem de nossa mente. amigo.. que a grande novidade. famílias de faquir vai constituindo. 12-10-1955 VERÃO Pedes.Se não acabar. Sacando a esferográfica do seio (Posto 6). Não. As pedras juntam-se aos braços. e de curvas morenas ou bronzeadas a florescer na luz. não são os fins humanos da energia. nem a luta do homem contra o câncer. abstratos. ainda rubra de sol. nem tampouco a assembleia dissolvida na terra da Greco. sob o sol flamante.

mas aberta em bares. Por que. aquaplanos. quem fisga menos são os veteranos. segue a esperança. janeiro. na praia cheia. o mar.) A noite é fogo. Enfim. ou morta. aumentar-nos o imposto de consumo? As rosas de Iemanjá. (Entre arpões. ray-ban e outras coisinhas. que o coração exige certo fogo): faze que esteja aberta a grande porta ao que for belo e bom.de biquíni. é um consolo a Teresinha Solbiatti. (Às vezes não se sabe onde ele acaba: quem adivinha o bicho na goiaba?) A hora não é de ação. no mar ignoto. e eis que se entrega à pesca submarina. Não desejo estender-me no decote. paz (não muita. são preces amorosas sobre a areia. que São Paulo emprestou . primavera a se multiplicar pelo ano inteiro. os inocentes banha. meiga verdade. Dá-nos. enquanto a noite gira. urgente. . eis nosso rogo. e a penumbra requinta os mais vulgares. feita de mentira. que é puro e bom. resta a felicidade do calor. aqualungas. dá-lhes as mães exatas. mas de sorvete.não devolvemos! Vote o Congresso. fluida. E se acaso nos faltam pão e amor. Aqui te deixo meu requerimento: dá-nos manhãs azuis e tardes calmas. deixa o ministro o chato gabinete: um mergulho na fluida turmalina. Não desencantes tanto encantamento a florir no céu mágico e nas almas. no Leblon. entre as alvíssaras do povo. no teu rumo. Se o calor a uns enerva e outros abate. meu velho. para poupar-te a sede sem o pote. Para os dois garotinhos inda à espera que a justiça abra os olhos. 4-12-1955 CANTIGA Claro janeiro antigo e sempre novo. o que escrevemos. meu janeiro.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça nove dias de sol para um de chuva. e eis que tudo lhe emperra. ordeiro: batendo o 31. mas berra . menos mosquito. superlegal e. à falta de canção. Uma voz lhe soprou. Num suspiro. sê cordato. Um cristão de bigode e voz grossa vai casar. foge ao flash e em mosteiro se encerra se lhe indaga um amigo (onça ou urso): Quem mediu: o Ministro da Guerra? Um compadre mui douto deseja reformar o estatuto. nada lhes prometas que não queiras cumprir: janeiro. 1-1-1956 CANÇONETA Era um homem que andava indeciso em viver na planície ou na serra.Aos dez mais e às dez mais. leva contigo o tal cinemascópio. suavemente: Quem resolve é o Ministro da Guerra. cerrar o lábio. que lhes darias se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência para aumentar a sucessão dos dias ocos. por sob a frívola aparência? Aos milhões menos. um compromisso idoso ao Dr. é sábio acabar de uma vez com velhas tretas e.. a consciência diz: Nossa! Que diria o Ministro da Guerra? O brotinho. amigo. o meu cinema. Não aumentes. sobretudo. passa o mandato ao nosso caro mês de fevereiro. mas deixa em Laranjeiras e Ipanema a barateza alegre deste ópio. janeiro.. mal vence o concurso. e mais laranja e uva. E finalmente. Ponderou-lhe um velhinho de siso: Já falou ao Ministro da Guerra? Outro tipo queria somente cultivar seu pedaço de terra. Lessa.

please. tempo. o que queremos. levas o tório. nem sabemos querer. por encanto. E tu. senhor São João. Não sabemos. dize: até quando o jeito é ensurdecer: por um milênio? . e eles. a padecer milhões por coisa-à-toa. repara em quanto coração aflito. Se não sorris a nosso petitório. isqueiro. Antoninho: vergonha. Não nos deixes papar arroz amargo. Olha as coisas perdidas. ao clarão do Ministro da Guerra? Peixe vivo. na esquina: Ora veja lá por trás o Ministro da Guerra! Deputado já velho e sabido à lonjura de Sírius se aferra. traze-o de volta ao dono. tua civilidade nos proteja. por favor. e os brotos (de grinalda?) leva à igreja. que vens chegando ao estrondo de bombas (de hidrogênio?). salve! mas. a saltar entre o Cairo e Belterra.. do infinito? O mundo é o mesmo após aquela tarde em que. Mesmo assim. voador. Antônio. à falta de gente. como pode o pessoal ficar contente? Alferes. capitão de soldo largo. sem alarde. em vez do café. falaste aos peixes. se. não escutas bater este sino: Pescador é o Ministro da Guerra. meditavam em roda de teu manto. porém confiamos de teu amor nos cândidos extremos e nessa fiúza todos continuamos.. diamantino. 19-5-1956 AOS SANTOS DE JUNHO Meu santo Santo Antônio de Lisboa. quem escapa ao ruído.o moleque. Por que não baixas. Se encontrares um coração jogado no caminho. pelos ares. acudindo ao que houver de mais urgente.

e pulando. a sorte. cultivarei as minhas flores de horta: a saudade do céu é um dividendo.. os coros inefáveis surpreendendo. Amas o fogo. ó Pedro astuto e rude.tanto ouro nas almas se perdendo. é nossa.se interessa bem mais pela segunda . espécies superfinas (que não sei como pôr os erres e eles). João: em julho vem aumento? (Bem sei que o assunto foge ao Evangelho. Pedro-piloto-barca: a teu prestígio. balenciagas.Sei que não és culpado. para o povo.. não se extingue e nos consome.é pena . em peles balzaquianas e meninas. para seu gozo. Mas. evitando de longe o curso estígio. mas à porta. e na funda bacia a alma se lave. contando-nos teus contos de carocha. a fogueira. à meia-noite. Ó João Batista. meu querido. murcho. pobres clientes do câncer e do enfarte. E tu. os mesmos em Caeté como na França. rocha no caminho do incréu. E o mais que se dissipa em schiaparellis.) Mas dançaremos todos por lembrar-te. baixa e descansa. E o manjerico verde. como o petróleo. degolado e suave. ganha a sabedoria de Unamuno. a flor de samambaia e seu sentido mágico. casamento com rapaz. dá-lhe em sonho um balcão. A vida é essa. bendiremos a graça de teu nome. com velho. Tens as chaves do céu ou do Tesouro? Aqui a turma . Não importa. No alto não me recebes. ao clarão de outra chama verdadeira que arde em nós. sem pânico. bondoso e friorento São João: ao cego. ou senão. da vida este canhestro e mau aluno. se ardemos: esta brasa. a clara de ovo. . Responde. em Gaza.

bem-posto em seu canto. tornai-lhe as horas fagueiras. . enfim liberto das torturas do Catete. É tudo que o ouvido apanha: Libertemos Juscelino. O mais fique a mesma cousa. À falta de engenho a jato que o transporte aos selenitas. Chiquinho: o teiú. meter-se a pular o valo. brisa da Gávea Pequena. balões sobem ao céu. Em vez de Juca. Talvez mudando um tiquinho. só na lua. Grito de guerra? Nem tanto. que só a cara é importante. não quer. Na forma: riso ou sapato. João: aos três oferto esta saudade em nós. sem testemunho: pois se o homem rasteja em rumo incerto. Pastilhas de muito efeito não curam só dor de dente. Artur. mas com jeito.. esquadrinha ali por perto um sítio menos cacete. entre uma e outra quinzena! Mesmo a essas abadias chega o murmúrio da rua? Ai. Pedro. Libertemos. Dizia Manuel de Sousa: a melhor marca é a barbante. 17-6-56 LIBERTAÇÃO Baixa o sopro da montanha como rumor intestino. o cativo Presidente. Arturzinho. em vez de gato.Antônio. no mês de junho. JK Remanso das Laranjeiras.. ao proclamá-lo. que o não previas: liberdade.

Abre a gaiola aos canários. Quem diz “poder” disse tudo. E tudo quanto almeja se dissolva. em luz. um carcereiro feroz mostra não haver saída que não nos devolva a nós. os tristes apaixonados sem cura. mesmo não podendo. coato. procura. Aos barnabés livra enfim de sua mesquinha estória. aos recalques. por trás do biombo. Nesta vida. Que importa? Mesmo o bocejo é estupendo. aos temores. Quem vem atrás feche a porta. provar as de outro tempero empadinhas da Colombo...o Presidente. como a casca ao baobá? Cadeias há de veludo. grilhões de puro rubi. que fareja a glória da Academia. Livra o poeta. dá gosto à gente. Ou vai pelos céus. se é que existes.. com microfone. (batata assim é exagero). a ponte do Tororó. é o que no mundo aprendi. Mas vai preso. farto de batatas fritas. sem muros inibidores. Poder. no dia. Libertemos Juscelino! De quê? Pra quê? Eu sei lá se não lhe apraz o destino. contemplar. Libertemos. sem ruga no paletó. . insone. Liberdade. liberta o amor da amargura.. sim. Que os caminhos sejam vários.

juntos. os Bancos decorados ao estilo moderno! Mas destoa ver à margem. Guimarães Rosa em seu Grande Sertão traça Veredas.. chove dinheiro muito oportuno. que divisas de bom e de gostoso. que anda a sorte aziaga. em vez de pudim. olalá. se a leva o Egito. blusa ou terno? Uma semana igual às outras: prosa entretanto (não vamos rasgar sedas). não faria mal. porém não veio essa amada exemplar que encomendamos ao destino maroto. duro amor. Tão bonitos. Contemporânea do Canal de Suez. e vão vivendo estórias em que a morte redoura. o mal é o velho ser ou não ser. Pois Juscelino. Uma grave questão se nos depara nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno? Calor e frio. Riobaldo e Diadorim bebem na flor de gravatá. Hipotenso anda o pobre do cruzeiro? Sobre a quatro cruzeiros a “bisnaga”. haste sem ramos. que vai fazer? 8-7-1956 SETE DIAS Ó musa semanária..) Prezado Arturzinho.. Adoramos a Aída uma outra vez (glamourizada) no Municipal.(À mesa. a perfeição de uma arte sem escórias. tal como outra não há. e é pobre o veio de nossa fantasia. liberto. comem nota promissória. O Eximbank. os namorados de Rodrigo de Freitas (a lagoa). em meio a tanta escassez de alegrias e divisas que já ninguém repara nem se espanta? Chegou Susan Hayward. Que vestido. afinal. . sem banco.. capote. mesma cara.

a labareda faz. e é triste. Em compensação. Mais não digo. pois são tantas que não me caberiam no papel (um palmo de coluna. nem aceitas meus braços por teu cinto. Verde não resta muito: sobre a Urca. remire-as o vago escoliasta de Platão: “A beleza é a verdade” (Gostou. açúcar. Mire-as.Mas que sujeito. mas a Laite essa não falta ao fim de cada mês.. Não falta só espaço: falta leite. que não sinto de tua parte o mínimo interesse. ó vida.) As mulheres estão extraordinárias nesta vaga estação. o jornal luminoso a vista abarca. Entre buritizais e sagaranas. que cronista é esse?! 5-8-1956 RELATÓRIO Quais são as novidades? me perguntas. na civilização feita de cacos? Outra notícia má: o bom Mariz de Morais lá se foi: como é atroz ver o enfarte levar a gente moça para quem estudar é prêmio e graça.. na paisagem do bom Deus. Há no frio uma astúcia feminina: . Um clarão nas favelas: lá no Pinto. nasce Beatriz (e aqui apuro a rima: sê feliz. mas onde ir o morador humilde e seus tarecos. e o que a gente não soube ainda fazer. ou mata. tudo é biscoito. o fogo é urbanista. Não posso responder-te. ver surgirem anúncios fantasmais. em dor e espanto. e até o Guandu se muda em Tororó. e se nada funciona resta o mar. pão matinal.O mais são tristurinhas cotidianas que a gente ilude como pode. leitora. . Mas não desanimemos com o prefeito de escolha popular. engenho e arte para a vida pintar e a rude sorte da cidade que segue aos deus-dará. és como o antílope na mata. por sinal). hein?). o verde das montanhas e mulher. embora nos domingos falte gás. Faltam-me inspiração.

Darcy Ribeiro.. Tônia empolgando. vou-me calar. Pistola a gás lacrimogêneo virou lei contra jornalista. que bom! que mau. E como vão flanando. Notas de cinco mil? Isso. jamais: ante cinco milhões. sonha o Senado um projeto que impeça ao uísque ser importado. meio giras. em caracóis. tão emperiquitadas. Anedota: quase vai presa a Ópera China. Nada mau. composto de mágoa e fel (é o ano inteiro!). dentro em breve.encorpa-se em veludo a porcelana... safira ao sol. O dólar baixa dois milímetros.. Glória Drummond e seu cabelo azul? Os homens. Regina Simone (São Paulo) . Demitiu-se. enquanto os vereadores: Tá-tá-tá. impregna o ar. e nos redime do instante trágico. mágico. Acham pouco? O líder promete algo nazista. não perde nada que a Ciranda de Pedra é pura flor: mudem-lhe embora o nome. por mal dos índios. Mas chega Azul Profundo: o verso de Henriqueta Lisboa. inflacionando. Não é suave na rua surpreender. E ante o exemplo da flor. pela caixa de fósforo. cerra-se em concha. de chapéu. 19-8-1956 BALANÇO DE AGOSTO Lá se foi agosto. no Dulcina. sem troco. Chapeuzinho Vermelho. Lygia Fagundes Telles traduzida ao luso linguajar. animando o Tablado. discutindo como deflacionar. O professor calou-se na tevê. que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco. Entre quatro angustas paredes.

. Vejo Isabel Monteiro. 2-9-56 TRIPÉ Toda semana foge. O que relembro zumbe cá dentro. E nós. num solavanco. aguardando demolição. antigos moradores. do lenço pando.. com temor de que não caibam neste metro ou no louvor.. Que alguém descubra essa garota e esse menino. e chove sobre sentenças descumpridas e sobre afetos sem destino. Viva setembro. Perdão se esqueço outros autores agostininos. a Brasileira vira banco. ansiosa . ludibriada? É noite. Onde estás.e seu Voo Enterrado: livro onde um pássaro subterrâneo dorme cativo.prende uma lágrima nos cílios a procurar em vão e sempre os seus dois filhos.. Não é? Esta nos retirou.. sol-posto. Quando há ratos por toda parte. Esfarinha-se o Rio de ontem. Do tribunal fogem os gatos à ordem severa do juiz. inseto de ouro. mas deixando uma lembrança plástica. encanto grave. justiça dos homens ou das pedras: não te comove a mãe errante... Mas agosto se foi. Que é que me diz? Vai abaixo o Hotel Avenida. onde esconder nossas memórias? No ar ou no chão.

a forma tropicante de um tripé. do Campo de Santana. nos parques onde a anêmona trescala! O Governo (que o móvel não descambe) mata a Constituição e põe na mala. O Israel vá seguindo para oeste. feita papel. porém. que exija uma tripeça? Até o condutor.. O mais é só miudeza: um cocorote para quem ame ao luar. é apreendida. o ofício ilustre de governar. se aumenta o meu salário... mas não se deve usá-lo nem dizê-lo. contado. Alkmim. O pensamento é livre. bestificado: Homessa! Pede o trato das coisas suma ciência: numa velocidade sobre-humana. uma sevícia no lombo parlamentar. . indomável. Se. está-se vendo. Alkmim.e contestá-lo ninguém ousa do Governo era a base verdadeira. consulta o Executivo. prefere JK a Zona Leste. a imprensa não se cala (muito de indústria a rima é remoída). sem medida. que a voz. em continência. que aeronavegas nas delícias do Fundo Monetário! Enquanto aperto o cinto e ando às cegas. e que se anote: todo poder ao chefe (de polícia). como aloprado é quem se fia. o tal cruzeiro é que baixou. Tão mais lindo o tripé do lambe-lambe. no Denys e no Teixeira. vou minguando. no balaústre.. súbito o jornalista perde a fala. Des-pensar rende lauto dividendo. o Larousse. nem entra mosca onde se bota um selo. Mudar de rumo? That’s a good idea. Obra de remendão. exclamará. a lei . Ele agora repousa (mas repousa?) é no Lott. Provas por a + b: Custo de vida? Não subiu nem um pouco.

no mato. Adeus. Escola? a da natureza. trem? Lá. cego. tão mais fácil de habitar. Vou no rumo de Brasília. fumaça. chocho enfim. Sobe o imposto de consumo? Ônibus mais caro. surdo. E resta-nos chupar jabuticaba. Prefiro orquestra de grilo ao silêncio do censor. . Prato do dia? Arganaz. 30-9-1956 DESTINO: BRASÍLIA Vou no rumo de Brasília. no exílio. fila. Já não posso ouvir meu rádio dizer as coisas comuns. das fresquinhas! no Largo da Carioca. Lá fundarei uma arcádia e comerei jerimuns. já começa a definhar. Lá correm livres os rios e livre é meu coração. a prístina paz. Lá não chegam portarias do titular da Viação. sento no chão com meu bem. adeus. carro matador. Vou redescobrir.Mistérios deste Rio de Janeiro. jornal vira boletim meteorológico. surpreso. Se a lei contra a imprensa pega. A liberdade. Mas não há de ser nada: tudo acaba. adeus. para bem longe do mar. sem condução alguma. A selva é meu domicílio. não é aqui meu lugar. menos a continuidade da maloca. mudo.

dizei. ao sol. inocentes do Leblon. Em Brasília ninguém tenta espalhar promessa vã. lontra. que resta . Cruls. por injúria grave? Eu sei. Não há. monto na besta alazã.. quem mais lhe desmancha a fita de pobre vestida à Dior? Se chamo alguém de plagiário (provando-o) me salta a lei: Direto à Penitenciária. e para me deliciar. nem de brincadeira. É seu maior privilégio a vida sem pose. Se ele for. eu rogo auxílio a Exu. Polícia Municipal. mago sutil. Aníbal. cachoeiro em sussurro musical. Ladinos do bairro Fátima. que o Rio está de amargar. . Transporte? ao tapa do vento. de brando falar. levo meu compadre Emílio Moura. Da inquisição o concílio me proíbe até pensar.. Rodrigo M.Vou no rumo de Brasília. F. num átimo salvo Glorinha Drummond? Vou no rumo de Brasília. monarca do ar. o Catete fai ficar. Vou no rumo de Brasília. Se o Governo vai malito e pensa que vai melhor. Cyro. apurada essência do meu Brasil. Gilberto Amado. Orquídea.. a simplicidade egrégia da selva como lençol.

Na concepção do deputado Armando Teixeira Lott Falcão (falo verdade). Diz-me que os comunas vão levar no coco de norte a sul. ficar quietinho como alface na horta. Ser fiéis ao Brasil. como se fosse o Estado meu Senhor.. em vez de Orfeu. é ter o pensamento exposto à pena de xadrez por cinco anos e coisinhas. vera integração no meu país natal. Bandeira . 21-10-1956 HF Fidelidade. mas sem castigo. Vou no rumo de Brasília.. de nada vale.da Zona Sul.Não são fantasias bobas: Portinari e seu pincel. bem. de nada vale. amor. que se encarna em funcionários. se ao governo não reze uma novena o cidadão.of course -: Manuel. E amigos. desemprego ou censura que nos cabe. amigas. certa saudade do que era azul. não de peito. ou desservi-la: cumpre é tomar tento. já te escuto gritar o fato louco: . Fidelidade. Repórter Esso. pois mesmo longe está perto meu norte . Isso é fidelidade. quem pode? na severa casuística da lei eleitoral. Vila-Lobos. fidelidade não é o que você está pensando. nas íntimas chacrinhas. de melindres estranhos e os mais vários. fiéis naturalmente ao solo amigo. Fidelidade é medo e falso amor à Pátria. mas baseada. entendes? se o Congresso aprovar essa lei. Pouco importa servir à Pátria em gesto e valimento.

em sua reta inocência. foi preso agora D. 9-12-1956 CONVERSA INFORMAL COM O MENINO Menino. Uns dois ou três. Como posso. a fraqueza. Antes sem som nenhum. jogral? Perdoa. viver sem Cristo (por sinal.. enquanto invade nosso país a noite sufocante. natural. inda passa.“Atenção. eis o mal. Helder Câmara. todos precisam de vale. amor. fidelidade. a vaidade.. hem. o mau costume tão geral: . Afinal... não a de som e tom e alto-falante. Mas pensa o Condestável expungi-los somente se a implacável lei vigorar em nossa pobre terra? Fidelidade. E o boi me segreda: Acaso careço de alexandrino ou jornal para celebrar o caso humano quanto divino. o ano inteiro. peço-te a graça de não fazer mais poema de Natal. na santa paz do gusano) e agora embalar-te: isto é Natal? Os outros fazem? Paciência.. pergunto. no Matoso!” Estão eles mandando. lá na Guerra? Há quem diga. atenção. Esse perigoso agitador que entre favelas mora pregava a caridade. Infante. Industrializar o tema. diz-me o burro que me cale..

Não será canto rimado. Não sei. Vou de novo para a escola. e te contemplo. grão de sal que se adoça ao som da viola. indagando. vou. Menino.fazer da Natividade um pretexto. branco ou labial. será toda silenciosa. como. marginal. amor ou prenda material. o que mudou. quando. Nossa conversa. no Natal. Por isso andou bem o velho do Cosme Velho. informal. antes mudo. piorei? Reconheço que não penetro o mistério sem igual. pequenino. Não venho à tua lapinha pedir lua. a ver se desperto um carme bem natal. Nem trago qualquer coisinha de ouro subtraído à renda nacional. Natal. Mudei. no seu soneto-cimélio. anular-me. o teu preço. a-pascal. cimério. diagonal. verso concretista. Não se toca no destino e em duros temas de prosa lacrimal. agrado de vento em flor no barranco. não um lume celestial. Nem cicatrizar ferida . leve. Não vou queixar-me da vida ou falar (mal) do governo brasilial.

Leblon ou Leme. mais Rio.. Anália: para um pouco e lê-me. e as pintas mais loucas repontam na carne.. um anjo leva a passeio: é Natal. astuto e cordial: Careço de ter mais siso e vislumbrar o Absoluto neste umbral. Sim. Contudo. Repara como até um senhor idoso . pouco enxergo. e tintas de Renoir e Gauguin invadem céu. Releva ao que lhe falta a poesia. na treva: a treva se aclara em dia de Natal. é mais airoso.resultante do meu ser-nomundo atual. e teu sorriso sugere. ritmo liberto de velhos tabus. Deixa-me estar longamente junto ao berço. filhinha. os rapazes e garotas são. montanha. O Rio refloriu. O melhor é ficar na praia de Ipanema. num enleio colegial. e por al. o que fomos. Um coiote (lobo mau ou bom?) anda perto. mais tudo. mas a coragem se afundava no colarinho. (Àquele que é menos crente. 23-12-1956 AO SOL DA PRAIA Já não vou a Maracangalha. direitinho. barraca. O Rio.) Prosterno-me. menino. Gravura em branco. quente. O rock’n roll das ondas explode nos cinemas.

buzinas. pulando acima e além de Pedro Malasarte. Do carnaval não fujas: ele entra no banheiro e na Câmara. sabes? portanto boa. se levanta com ligeireza de capeta e pede ao mar e toma ao gelo aquele suave refrigério e vai lendo com fino apreço o livrão de Mário Palmério. em frente. Poesia? Canções. Aventura? a Baleia Branca. Os dias passam. que não sabe morar aqui. O vento do largo retine neste livro. em Ademar. vasco. ermo. de popa a proa. Deixa dormir. numa história que jamais cansa. infinito mar. aderindo ao primeiro samba que sopram na esquina vitrolas. Moby Dick e sua quizília. tanta euforia na luz janeira que a gente. há tanta vida na rua. e tome dança (férias não há nessas escolas). se estende por maracanãs e piscinas onde um reflexo de ouro acende . E então não mora em parte alguma nem nos problemas de governo. em toda parte. (Ademar o bom. suada. e o Catete dormita. de Cecília. Meu coração. rádio. pois não). envolto no sol-rubi. Carioca mofino é aquele que a farra fáustica não ama. Tenho pena de Juscelino. como espuma. É tradução de Berenice Xavier.reverdece e atira a gravata. Barra da Tijuca.

enquanto que o eleitor . De mim não peço muito: alguns instantes em que eu possa ficar lendo. e que virá depois de tal prefácio? Vem o fim deles mesmos. chega de lama e de calor esparso. de Callado. O cai-não-cai das casas vê se evitas. meigo abril. Não. enlevado. Torna o Rio mais doce.) Eleição em São Paulo? Está-se vendo o que. prorrogados. pouse na chapeleira o seu Gelot e faça reflorir na Guanabara a esperança que há muito se apagou.. feche a cara..Maracangalhas inauditas. enorme. alcaide nosso um tanto já blasé. meu amor pousa aqui. auto-eleitos. Ai de nós.ensina . (Dê duro nas mazelas. Prorrogar esta coisa é tão atroz como o que vem tramando o Antônio Horácio: prorrogar os mandatos.escreve-se com dê. na glória do estio. em autos reluzentes. mesmo. presságio escuro. que se queixa de um ano todo “não”. só no mar. as nuvens de Ipanema.. e garantia.. eu sou é do Rio. Dureza . pinta no ar. sem água. rosa e gazel em nome de il: dá-nos tempo melhor que o mês de março. Sem chapéu de palha e uniforme. 20-1-1957 ABRILMENTE Abril. Anália.os tristes gados vai no calcante e sonha um Tiradentes. Todo acionista cobra dividendo: a rima de Ademar é João Goulart. que já ficou difícil de morar entre zonas seguras e interditas. . tal como antes a Madona de Cedro. Traze um pouco de fé ao bom Negrão.

morador de Barbacena! Numa cooperativa telefônica. Mas. ele faz o serviço. mas a tarifa (a meu Anjo da Guarda) não dá jeito. pega. Elvis Presley. água. e não te conto o que brota de luz na mente rasa. Tudo limpo. como caxumba. transporte. Houve revolução. E o mês. (Viva a OSB: há mais de um decênio ninguém ouvia aqui todo o profundo mar beethoveniano. Mas não vão muito longe. abril 31-3-1957 À DERIVA Aposentada musa domingueira. vais ao teatro? A noite é fria. segundo. ordenado. detida até que o dono pague. Prêmio: um bom prefeito. e a voz amena inda me traz assunto para crônica. conto a conto. com que o gênio reestruturou em música este mundo. Imaginar não custa: o bom exemplo. no Posto 6. Nessa quietude os sonhos criam asa. Cismo. passeiam sem programa. pelo Brasil? Não (sorrio daqui ao meu prefeito): Este é dia primeiro. e bom quedar em casa lendo ou cismando aquilo que não devo. uma outra rifa da nossa igreja.. . põe o suéter e vem. distrair-nos em tom de brincadeira. primeiro: ele. ao sol franzino.Quero telefonar.) Musa. salvo em disco. neste ponto vejo Baby na Alfândega. lixo . o violino na Nona Sinfonia.o que contemplo é de desvanecer cá o titio. Já pipoca no céu todo o junino aparato de bombas de hidrogênio e mal nos deixa ouvir. puro. satisfeito. e aqui no Rio. salve..

e todos de mãos dadas. viu-se. Musa. que diz “sim”. nesta crônica dispersa. não notes. Assunto e mais assunto vai passando e eu nada disse. pensa “não”. Meu espanto. quando dela chegar o tempo. que é devida (uns cento e trinta e tantos mil pacotes). pedante. do Chico Boia! . feito de vento. como isso anda? E sem oposição. fanal de um povo livre e novas glórias. que alicerça a nossa fé no espírito. Estou me referindo ao movimento de pacificação cá no terreiro. no momento que chamarei. Ensinarão ao líder de Nonô que mímica é melhor do que discurso? Adeus. e os versos que consagro à velha dupla servem de coroa sobre a pantalha antiga (era tão boa). amiga. DE HOJE E lá se foi o Gordo. era conversa com olho na eleição. em ciranda? A paz baixou ao Rio..forte taxa aduaneira. 9-6-1957 DE ONTEM. anjo-craveiro? JK Se os partidos não lutam. de Pessoa. que em pouco vêm chegando. Tempos do pastelão. Baby. porém. pois todo o sublime palavreado. Musa. que é do regime democrático. cabe uma palavrinha a Portugal de Camões.. que alarma o time. Puxa. enquanto o Magro circula a esmo. do Marceau e do Bip. em monte e val. vida. meu número acabou e sigo o tempo (é tempo) no seu curso. de litotes. Coisas há de mais tomo. uma cokerzinha. abraçado ao Brigadeiro. Musa. doutores. aqui e em Samarcanda? Calma.

Você ia ao cinema. pelo Brasil afora proclamando esse nome de Heitor. e os pensamentos idos e vividos que brotam do teclado meu portátil. humano. mas de sentir-te universal. o vai louvando. aquela joia? Era antes desses dois.. Vila-Lobos! Custou para saber que ele era o tal. Somos morgados. e a mocinha pergunta. ai.. o tempo esvoaça. do melhor mosto. Tempo bom de viver: o César Lattes. Vamos ver os tapetes argentinos ali no MAM? Ou quer os cristalinos acordes de Henrik Sztompka no piano? E Lili Kraus. mas tudo quanto luziu no Novecentos cabem em canto. E que mais! É. sim. e eis que vasto coral.. Contos Húngaros são. e via a rosa da Bertini. seguem a versátil deriva da saudade. quanto mais capixabas e mineiros. Singapura?. vinagres. e salve. Pois se a música opera tais milagres. criava ricas. sobre a mesa. presente delicioso. daqueles idos... ficou uma beleza este livro do Rónai. mas o que é direito (a juventude mora no seu peito) são as pinturas mil de mil mulheres. vamos pôr na gaveta ódios. bates. o Vila. mel de agosto. esquecer um momento os truques bobos da política. seu mano! Assim o DASP fizesse seus concursos como esse que aí está. au temps perdu. que dizem de sua arte em qualquer parte . com voz pura: “Mas fica muito longe. o Portinari.Lembra-se de Asta Nielsen. O calor deu um ar de sua graça. fortíssimas palavras para exprimir as emoções escravas.blusa de seda ou saia de zuarte. Os próprios ursos fraternos se tornavam.. Ó peito. Falar nisso: e os sessenta anos do Di? A rima é torta. Hans Sittner. não de simples orgulho brasiliano. prazenteiros. tal qual Guimarães Rosa. e. ótimo! a praia vibra. entrefolhadíssimos malmequeres. ó pobre Gordo.” 11-8-1957 .. Mas glória é glória..

E. DOIS. . olhem de frente os fatos: Eleições.. quando finda entre nós o controle da palavra.protesta o Armando. E ser moço é ser livre. mas veio com este surto de gripe. Então. em defesa da lei como da própria natureza.tão querida quanto rara. Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros. vitamina. Das frutas do Brasil hoje a mais cara é o limão .. foge o decoro. que anda feio. Minha gente.. e a esse teu gesto vêm do céu paraquedistas mil. Ouça. Muito bem! Muito bem! ulula o coro. ó liberdade. e saia apenas a ver a Gladys Zender e centenas de brotos fabulosos que a cidade nos brinda sempre.) Mas a “asiática” tem seu lado amigo: nada de trabalhar. este é o perigo. Já te cansas. Falar em liberdade: o rádio ainda é “coisa” do Governo. mas praquê? A pátria é muda. de sofrer no Arkansas esse golpe mil vezes repetido aos direitos do homem. não zombo: é melhor não ganhar nenhum presente e a mocidade ter na alma da gente. Só quem pode votar é o analfabeto. (Olha a COFAP plantando limoeiros. 8-9-1957 EPÍSTOLA E veio a primavera. num escarcéu: anjos fulminadores. o Benedito quer que apenas se tome a assinatura ao votante. O voto. que é Dia do Velhinho. repele um artifício tão nefando. fugida a razão. Não é de xurupito? Assinar? É demais! . João. Tens erguido o braço. Repouso. para ser bom e secreto. TRÊS Escrever é difícil: pena dura.. Vale mais prorrogar nossos mandatos.UM. com calma . Resistir quem há de? E não pare na porta da Colombo. mão sem molejo.diz o Arruda (Esmeraldino).

e o galo-de-campina alça a vermelha plumária floração. 29-9-1957 DOMINICÁLIA Boa ideia. poeira? Tais horrores. Detém-te. e já de puro vento vai caindo. não sei) e reverdece a hera. Toda cautela com o Esmerino Arruda. com o dólar teleguiado. deixa-os.. Minas Gerais recria o Senadinho (pois conversa-fiada sempre ajuda). Há mil joias ali a preservar. bem alto. Netuno: em tua cólera romântica. a croniquinha pasta a doce grama do azul. essas “ruas de recreio” onde não passe carro e onde o chilreio da garotada em festa nos distraia das maldades que o mar tem feito à praia. ante o poder nefando. grosso. Desabamentos. cria um mangue onde vão cruelmente se atolando justiça e paz. e azul é tudo quanto se ama. não me destruas a Avenida Atlântica. amigo. Quero é ver na onda verde as doces curvas e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas? Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso padece as consequências do mormaço terrível deste agreste fevereiro que vai torrando o Rio de Janeiro. . e não poupa cronistas nem poetas. Mas esse carnaval? sem burburinho. a certos construtores de grampiolas: prédio ainda não findo. Não há ninguém para acabar com aquilo? Um rio já se vê fluir: é sangue de gente humilde e. Feito uma coelha.que de rainha vai passando a escrava? São donos da verdade. se fazendo de engraçado. é primavera (onde.. Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.e os mais fiquem calados? Outras pungências vêm à tona: serras e vales tremem por questões de terras. são sagrados nossos chefes . lê-me. De qualquer modo. capaz de prorrogar o improrrogável. João. Tanta menina em flor hoje no Leme arquiva o seu maiô. e no Posto 2 reside o Portinari. que em uísques gelados veem metas impossíveis.

queres um cadáver junto. Para a glória do soneto. amiga: pinga um pingo sobre o versinho torto de domingo. o autor do mais belo poema faz jus a estátua no horto. se morremos. mais própria de uma piranha? Invocas a lei suprema de Pernambuco: só morto. Voltando ao Carnaval: a rolley-flex não pode entrar nos clubes: very sexy. Ave. Paris! Mas foge o espaço. rompido o humano vaso. jamais o celebraremos: o seu fado extraordinário é não morrer. e que o susto espalhas pela cidade das letras: por que tamanha ausência de amenidade. Mas sem fotografia perde a graça o brinquedo. a mexida. Ele está vivo? Que espeto. e tece a loa devida ao prêmio que Lutécia lhe conferiu e que deixa feliz este brasílio peito. e em tais condições.. e omite-se um capítulo na História. poeta e amigo. ó Musa. Não percebes que este caso repele comparativo: que. 9-1-1958 O BUSTO Mário Melo. se a câmara não conta do Hotel Glória. e ali por mim deixa abraçado Ribeiro Couto.A rima é pobre e justa: deplorável. concedo. que levantas contra o busto do mago Poeta o martelo demolidor. Mário Melo. Antes de terminar. ó Mario.. vai a Belgrado. . o poeta sempre está vivo. Laureal aos vivos. o vai-na-raça. pois só admiras defunto.

que exija. impressa em claro domingo. outra imagem não distingo senão a de Pernambuco. seu ritmo não te conforta? Não decifras o universo de Pasárgada na porta? Ou temes que bardos pecos . Mas Recife é sua estância interior. ruas e becos reclamem todos seu bronze? Calma: uma postura basta. Ele é banqueiro? milico? dá cartório? é bispo: influi? Não é nada disso. ser. A “Evocação do Recife” . no cerne.saca em branco conta a História. também tenho muito medo da praga bajulatória. para ter busto. quatro. que flui e que. conduz a mais altos níveis o verbal encantamento. Mas quem é quem? (se consentes uma pergunta indiscreta): O poder dos presidentes não é o poder do poeta. Ou não amas a poesia? Disseram isso. vai pouco ao Recife .alegas. augusto. onze em praças. cinco. como este poeta. sobre bens fungíveis. Pernambucano à distância. entre a concorrência vasta. no suco. seis. sobre os grandes do momento.três. não creio. e em suas pregas morais. ela faz parte do asseio. Nunca te seduz um verso. rico de ouro divino. Em qualquer lugar e dia.

hoje à noite. face embrabecida. e recrias o mundo à tua custa. e. Irás ter. não tornes Recife ingrato. Quedávamo-nos no adro. descansa a pena de pato. Paquife haverá que se lhe iguale como brasão afetivo de uma cidade? Não erra quem neste Poeta um cativo enxergar. não pode erguer-se-lhe em vida um monumento singelo sem que. tamborilava o nome de Maria. nos convoques a duelo? Mário Melo. mil e uma prendas leiloadas em festa. fluido acenar de lenço. pela brancura de lenço de sua vida. 20-4-1958 COISAS DE MAIO Era um límpido azul. um busto. vero azul-gaio. a envolver. de sua terra. a alguma igreja. Pelo seu lirismo tenso. ou se chovia. permite que a prazenteira alma de sua cidade honore Manuel Bandeira. Ai. e o tocante ministério implícito em sua viola. que ensina amor aos amantes. hoje e antes. não te emendas. enquanto o incenso vinha até nós. mesmo que não te agrade. pela ternura e mistério que de seus livros se evola. Nunca chovia então. coração infantil na era vetusta. Mário Melo. sozinha. na retina. Vale. Larga a vara de marmelo. o mês de maio. Depois da coroação. e pelos pastos .já leste? Que pena. ou queres só montar a lunareja mula da recordação.

que é bem-feito. Os homens se anunciam que nem pílulas. maio e mano: reverdeces em mim um ser lontano. prometendo hospitais. O fato é que um belíssimo decreto proíbe as nomeações. vote em Fulano. e multas o persigam... escolas. cuja publicidade os nossos muros suja. a Argélia. exclama. Israel vence o deserto. mas a Câmara tem gosto de amora. ternura nossa.. de um ajutório. surdos a muçulmanos gritos e ais. e os clamores da gente nordestina exposta à seca e à nacional politicagem peca. e depois de admitir trezentos mil. Pesar de tudo. amo-te.). Não. sei lá. fecha o Governo a bica. Eleição custa caro . a brados iracundos “Não entra mais ninguém (só pelos fundos. mas vote por que nunca seja eleito..” Dá-me. pois não havia mais departamento onde a fila estender. de pagamento. querem todos poderes especiais. e que a falta de vagas fez o resto. e é tão bom fazer leis ou não fazê-las. Aumentamos o nosso. vílulas. em severino afã de liquidar com o argelino. e de fuzil em punho. reconheça a moral do grande gesto. não desejo essa outra rima. passeando na terra entre as “estrelas”. doídas.do tempo recompor teus pobres fastos? Este maio de agora é bem distinto. Quem tenha neto de sete anos à espreita de cartório. As preces vão flechando o ar estrelado? São rogos de aspirante a deputado. florido maio. uma camélia. Em dez anos. de autarquia.este outro chora. Generais e Governo... Oh por amor. França. 25-5-1958 . longe e perto. tens notado que possessões são coisas do passado? O que não passa nunca são as dores telúricas. e todo de política vem tinto.

canta o severiano. um murmúrio de pai a filho. foguetes.DE 7 DIAS Começou festiva a semana: espiávamos por uma frincha a vitória. e a rara Cacilda em seu sutilíssimo jogo de emoção: a infância pisada. escultura. Ai. e a chuva. E que delícia O Protocolo. esse rugir de alto-falante vale mozartianas sonatas. e quem perdeu foi Kruchev. Mas nem tudo foram ditosas horas no tempo brasileiro: O vento no Convair. alma leve. e eis que ela fulgura rosa aberta ao pé de Garrincha. E torço firme a vosso lado. graça alongada. embora entenda de pelota simplesmente o que vos pergunto. Quem ganhou foi o Botafogo. diálogo obscuro das almas para quem o sol é sem brilho. e a seus munícipes ensina que entre todos os bens da terra a beleza é graça divina. . cidadãos que morais no assunto. velho Machado sempre novo! Nosso teatro já floresce. risos. Exclama junto um pena-boto: — É. não é pinto a sair do ovo. lá foge o pombo que bicava milho na praça. emoções de Gotemburgo! Futebol que nos arrebatas. Entre estouros. assustado. mas surge Adalgisa Colombo. E talento é a suprema dádiva: penso nisso ao ver Pinga-Fogo no Dulcina.

A morte estava à espera. É teu poema. de inocente. sonho que. meu amigo. Paira a esperança. inscrição chinesa no jade. junto à fé. A notícia melhor desta semana .. tranquilo. A música lhe inspira encanto vago? Então o senador é Mozart (Lago). surda. cega a toda humana piedade. E vem outro. A mais bela notícia.canto de passarinho em faia ou tília não foi a Operação Americana sonho na madrugada de Brasília. qual flor rompendo a fraga: Poesia. mais outro dia.A morte estava num pinheiro. um longo poema inédito de Tomás Antônio Gonzaga que se supunha perdido “A Conceição”. E esse indecifrável mistério. A bola em flor no campo: joia. das alturas. a que me afaga o coração. e dela me alimento. suavizem a pena dos vivos. em autógrafo. A pintura lhe apraz? Faça. velho Tomás Gonzaga. Que João e Pedro. 24-8-1958 CANDIDATOS São tantos candidatos! Quantos mil? Escolher. faz baixar um crepe silente sobre os gaios fogos votivos. vem-me de ti. é bem sutil. 22-6-1958 ENCONTRO O professor Rodrigues Lapa descobriu na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. e reserve na Câmara um lugar de líder ao maestro Eleazar. . a furar o esquecimento dos arquivos. lembra Emília no País da Anedota Munckausiana. E seu ourives é Pelé. eternidade do momento.. Tampouco foi o aumento com que engana O barnabé o choro da família.

. Mas. Coronel Alencastro terá chance? Este oráculo foge a meu alcance. e tudo que não presta. pois que é Murilo. e repete-o um periquito. mas que importa?). O Magalhães (Raimundo) enquanto escreve. ao tapete. Tanto melhor: se acaso for eleito. Este. cara. promessa sedutora! E contra a corrupção. imaginando fazer gol de araque. quase só: João Mangabeira. e tampouco é Loreley. bem de leve. E esta Noralinda? É Nora Ney? Não senhor. eis um bom democrata: Afonso Arinos. Discurso de Hélio Gracie é um perigo: como quem tira poeira do colete. lutando. Que o homem é Levi Neves. célere. candidatos muitos.. pensando da pátria nos destinos. que. do Brasil. e o queres melhorado. toma tento: . se desvenda: possa ele continuar na dura senda. dizem. Ah. Mas a matéria é de alta relevância. pois sou mero ouvinte do silêncio do Lutero. de sobrenome Santos. E que me diz do Mendes de Morais? Eu cá não digo. serena. os seus votinhos cava. senadeará bem longe do Senado. levemo-la ao Concílio de Numância (aliás não convocado. onde se esconda. E volta o grego Eurípides (Meneses) e surge em meio a nomes portugueses um que se diz “O Inglês” . Tantos mil! Se não descrês.o velho craque. O João Batista Stávola (Redonda) vai despertando sonhos medievais. ele conquista pouco a pouco o eleitor quemimportista. que é contrabando ou fraude. transfigura em virtude esse defeito. Adauto assesta as baterias. mor engano não sei que o da política: repara que a faixa quase sempre é feia.. amigo. A metáfora bate à nossa porta: Mílton Lago Ilhas Fontes .Miranda vereador. Um nome que doutrina e que é bandeira. general tebano. Digo? Digo. sendo o mais ausente deputado. Em demanda do Gral. leva o aparteante. não sei se diga. Epaminondas. já foi dito mil vezes.adutora em pessoa. De caminhão..

nada de escolha como escolhe o vento. o bambolê. toca a recolher o humano sujo esparso nas areias. samba. bico biririco da clara infância) vai bicando a flor do dia em chama. Nisto. um senador me chama a um canto e diz: “Por que caçoa do Conselho d’Estado? É coisa boa. um limpa-almas.) Rodemos. e viva o oceano garço! Olha que é muita coisa: são detritos. grava na rua. sejam concretas ou figurativas. e piscina. serviços relevantes prestaria esse insólito aparato. de modo que. sob a canícula: sem ar refrigerado. recriando o universo a cada verso que o passo feminino. que te peço. e não quero morrer no escuro e em brasa. Mas que falta nos faz.. e verão são cores tontas.a monarquia. pois não? Estás sozinha. tornam compridos os olhares. este Rio pega fogo. como nossos pecados. é tudo. em ritmo terso.. enquanto isso. pergunta-se ao penedo. são formas expansivas e cursivas. É tão berilo o dia. Não é por falar mal dos semelhantes: a mim mesmo. em fim de contas! É verão. mais dia menos dia. e esses vestidos. só sol. ou são cinemascopes?) Ao cinema não vou. humildemente. nenhum ar. (O Lucas Lopes trouxe uns níqueis. é mesmo piccola a chance de voltar com vida à casa. Vamos. no pensamento. mas limpa. 14-9-1958 MOSAICO Lá vem o limpa-praia: o pé pipoca em seu nome. Não faças com teu voto um mau Congresso. infinitos. É verão? e verão é meu tormento delicioso. até que a roda caia. ó maquininha.” No intervalo. sorvete. enquanto o agudo bico dos sapatos (ai. e pouco a pouco iremos no brinquedo interessando o príncipe Dom Pedro. já que o dólar não cai. de curtinhos que são. na praia.oba! . (Mas só se pensa no foguete a gato. jogo de futebol noturno. . reimplantamos .

bem matreiro. Do alto. que diz do PSD? Aquilo existe ou é só um cochicho meio triste ao pé do ouvido e à sombra do Catete? Gato (escaldado) em rabo de foguete. . Luz também entra. (Há candidatos que provocam certo enjoo de votar a descoberto. Bem faz a Academia: esconde o voto para evitar prantina ou terremoto. .Dr. sem fazer-me de enxerido: . Eu preferia não dizer mais nada. francamente. a ser pago depois do último sono? Vai ser uma alegria para os netos. irmão.) Mas que nos diz. Mas diz que vem o tal Conselho sumo de notáveis. no decorrer dessa peleja insossa. espera-se um cabloco brasileiro e é Tio Sam quem chega. que a moral deste conto é simples bolha.. à ventania (e tudo quedo): Qual o parlamentar que fez baldroca? É um ex. fique em paz na sua toca. a dominar o caos. de Carpeaux: Nova História da Música: já se ouvem. calmo. diz que vai mas não vai. e se o talento insiste em ser oculto. daquele abono. vestindo a nossa calça remendada.ao eco. nem os astros com isto se comovem. ou dá fricote no General Ministro Duffles Lott? Pergunto e caio fora. limão que esguicha o sumo de seu alto saber. 14-12-1958 PARELHAS Lá se foi a Revista da Semana. Pergunto. meio escondido. Ponho tudo de lado e. ler o livro que surge. e nosso eminentíssimo Dom Jaime deixa o inquérito no ar e sem andaime. se um dia viram leis esses projetos. brigando. vou. mas eu começo a minha: uma pavana de fatos mais ou menos exemplares. não resolvem.. e a presidência da Câmara balança: a adolescência da ala velha e a velhice da ala moça. a nívea face da lua cora: na Bolívia. há que prestar-lhe sigiloso culto. Bach e Beethoven.Senador Benedito Valadares.

. e honra Pirandello. se alça no Ginástico. Como se mata! A coisa esplende à vista: vem. Tudo é “vestir os nus” com roupa falsa. falco mato-grossensis. outro Batista. A estátua de Chopin. 18-1-1959 FÁBULA Foi em março. por onde anda a arte prefeitural. ninguém repara que mudou de rosto. começando a soltar miados leves. mostra uma cara que tenta rir. e a pobre da cidade. Fernanda Montenegro. exclamaram em coro: “Eis que aí vem a nossa salvação. depois de um Batista. O movimento em Cuba foi mais duro. tão faminto. Brabol ou Petrobol ou Caracol. o Carnaval recobre tudo. em forma de onça! . Vendo as malhadas bichas chegarem pela estrada de Belém (com escala em Brasília). mas é de pau-de-arara. pombos em pânico pediam ao céu que os libertasse da garra de um gavião pouco distinto.. são apenas doados e vendidos em proveito de “grupos”. Lunardi ou Galdeano. onde sangue raiava pluma e arminho.. russo. e estranhamente acaba ao pé de um muro. luzindo ao sol: os bens da terra.. a verdade é uma só. livre escolha? Seja Mac Kenna. à Arte Maior. tupiniquim. Era de lata a coroa de Momo. E enquanto Fidel Castro perde o brilho de herói libertador. De resto. na Cinelândia. a todos prometidos. durante o entrudo. deposto. quase à entrada do Congresso. ali pelo Castelo. e a esperança de um mais justo sistema não alcança o próximo horizonte. Na praça atormentada. importa milho e feijão da COFAP . veste não sei o quê. que onças apareceram de mansinho. americano. ao findar das férias. e tão abstrata a sua monarquia que. porém.sai mais em conta do que plantando nessa roça tonta.Amigos bolivianos.

eis que as onças. dir-se-ia um locutor da rádio do Berardo. mais sabidas. enxuga o chope. uivando um sustenido (com a assistência amável do Penido).Já viu como a Rua Acre virou Rua da Amargura? . sem vero resultado. oncinhas. o rumo do Japão. toma.Ei. a um fino ajantarado. Aprenda no colégio a aluna onça que todo gavião é ave sonsa. uiva. além. E cada qual mais pincha e sacoleja. em tom matreiro. Atacadistas Dizia o bico-de-lacre àquela rolinha sura: . saltam. benzocas. fareja. e zomba do alçapão. Aquelas. onde medita o necrológio de suas vítimas. mas tão rápido e alígero. sereno. se consultam e convocam o falco. Baixa o gavião. o pinto ao molho pardo. felinas. A ave desguia. profissionalmente puladeiras. pá! e na fereza do bote julgam morto o gavião. depressa. já se aprestam à grande prova pública: pegar o gavião em seu voo rasante ou no relógio aéreo. um nadinha de bife. aqui. À mole sobremesa. já. em pleno azul. Que nada. 8-3-1959 VIOLINHA Irga As mangas de fora pôs para servir-nos a boia: Brizola nos vende arroz como se fosse uma joia. caçai o caçador que nos devora e que num desafio pousa agora la no alto daquela geringonça!” Ouvem as onças a arrulhante súplica e. e bica ali. disfarça. grasnindo: “Eu volto já”.

Obituário Na esperança de que escape do enterro ao custo elevado. o cadáver da Cofap inda não foi sepultado. já se vê.) Atraso No fundo de sua cova. embora servido. A terra de todos! (Menos a de Jango. acolhem a boa nova: .PTB Programa tão alto e puro quando seus frutos dará? Ao povo .desde já. Lembrete Urgência de candidato? Ninguém se faz preferido? Num Viscount ou turbojato. ao pelego .” Modéstia Candidato.Já morremos. perdoados. afinal. eu? Errado! Exclama Lott. Sacco e Vanzetti. há um. Previsão Seria mais sábio o aviso se falasse francamente: Em vez de “chuva e granizo”: “Amanhã dia de enchente. Não sou mais do que um soldado (no posto de marechal). Obrigados. Socialismo Distribuição de terrenos? É bossa do PTB. .só no futuro.

E alguém. pairando alto. 5-4-1959 ISTO E AQUILO “Zefa. em serenata. firme. assustados. quanto mais inquiridos. Chegou mesmo? chegada tão discreta que pouca gente viu e tomou nota. com seus rabos torcidos.) E para seduzir o PSD.Começa por seu partido? Defesa Os barbudos de Fidel. meiga. uma jura de amor. mais partidos em mil pedaços mil indecisões de outras tantas mimosas ambições. chegou o inverno”. . e quanto mais calados. JK.” Os pobres dos partidos. Esse frio que aí está não vale um iota. por sobre a donzelice da UDN. Se ele é meio zangado? Ora. mas a gente contrata um bom ventríloquo. decidido. o PTB e o P não sei o quê. A Bahia e o Palácio da Alvorada namoram-se da noite na calada. com jeito se leva quem nos quer levar no peito. sob o luar de prata. ouvindo-lhe a frase: . O tempo. mais calados. mal se lhes vê o nariz: das barbas fazem broquel contra seus próprios fuzis. caça com onça. anda inseguro. que seu futuro indaga en effeuillant la marguerite: “Aceito ou não aceito esse convite que o Último de Carvalho me apresenta para a pátria salvar. em 60? Que dizem os partidos? (Os partidos disfarçaram. E é hora de aprender a regra esconsa: quem não tem mesmo cão. deixa cair. solene. redige-se um anúncio longo e exato: “Quem quer um marechal pra candidato? Não é muito falante nem grandíloquo. como tudo.Reforma Uma reforma de base pede Jango. até parece o Lott. diz o Poeta.

(Acho meio cacete este serviço de escolher. eu sempre fui um pessedista. seja a terra de todos . . era lotista. elucidai-os vós.Já o era no 11 de Novembro? . se a água te falta. quem dorme de pé não cai da cama.Pois o senhor não vê que até perdendo ganha o PSD? Napoleão. salve: nos teus versos há mágicos. mas torna a vida cheia de suave tremor. valho-me do ideário do Falcão: . fura um cano.Bem. . com franqueza. neste instante. criticar.Pra casar ou pra quê? Altos mistérios. do Benedito veio-me outro lote. no momento. à seleção.) E depois.loteamento com casinhas de mármore e cimento em lugares tranquilos. 17-5-1959 ENTREVISTA (EXCLUSIVA) . vai a Meriti. disso não me lembro. são as do meu compadre João Goulart. Fino Correia. linfa eterna. já sou o Presidente. ocupai as sepulturas! E que mais.Suas ideias.. Não dou pra isso.Mas. nobre Raimundo. Votantes. graças à Empresa Funerária. O embrulhinho que pus a congelar. não promessas. como assim? . cronistas sérios. ocultos universos de musical melancolia errante. e curvo-me à Poesia: não governa o mundo hostil. . poderá nos dizer o seu programa? . onde grilos não irrompam munidos de escrituras.Ah. e volta ao Rio. Eu bebo de outra fonte. na semana? Amigo. em havendo precisão. pois. Medita Jango uma reforma agrária em que. como sabe.Procedo. marechal. mas decretos. abastecido e ufano. Penso em ti com ternura. leva tua moringa.. quais são? . já ganhei a eleição na maciota. Eu lhe dou. Do Josué chegou todo um caixote. pelos vaticínios mais corretos. tome nota. o senhor que é candidato ainda não registrado mas de fato.Marechal. e eu sou.

Olhe que este velhinho tem cartaz! . Repare que eu me informo. contudo. a inflação! Muita pedida e pouca produção. Dá-se um berro e tudo entra nos trilhos. como vê. ..E a inflação. soldado. . porém.Ele não faz. . O Carlinhos não deixa passar nada: La Légende des Siècles celebrada um século depois. e disse tudo. por fim. pois é tão vária a condição rural. .É mesmo. E ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares. Livraria São José.. já fez. para uniformizá-las: trem-de-ferro. Gente. no mais perfeito e rijo enquadramento.. hugoanas rimas bailam pelos ares. Em poucos dias (escreveu-me. foi o que me explicou ontem. E o que ele faz? . mas saberei torná-los bem unidos . . está em todas.. que o uniforme (nos outros) significa um bem enorme: ninguém pode falar.Eu sei. os partidos. assombrado. jornalista.. o doutor Zé Maria Alkmim.Marechal. agrária. . a reforma. Depende.É.Primeiro vou cuidar é das bitolas.pegue o mote num só e majestoso: o PDLote.. quer dizer. . Fui claro..boa-praça. bulício. ALI Cinco horas. no sonho das crianças e dos velhos. o velho Bias) fiquei sabendo mais que o Santos Vahlis e o próprio embaixador Moreira Sales.. 26-7-1959 AQUI.Um momento. mas que beleza! Esta a glória maior. E continua onde quer que haja vida: nesta rua. e assim calados. sutil riqueza. tão hábil camarada que torna doce o fio de uma espada. A novidade é uma sombra que salta do refugo e lépida se mostra: Vítor Hugo. serão tranquilamente governados. marechal? . O nome já revela: estão partidos.Marechal.E que me diz do deficit de escolas? .

E agora. salvo a quem ama: O não dizer é que inflama e a boca sem movimento é que torna o pensamento lume cardume chama. vem gentil acariciar o estômago faminto do Brasil. Que importam brizoletas? que me importa o aviso: “O boi fez greve”. traz algo de Paris a todos nós. seu humour e seu magro corpo alado.. morou? por sobre os ismos dos novos com seus velhos reumatismos. dedica uma palavra. é músico. sont faits des ombres que lui jettent les choses qui seront un jour. jogral. conhece nossos múltiplos segredos. à outrora Key Kendall. toujours pleins d’amour.entre os jornais como entre os Evangelhos. blanc médaillon des Endymions a segunda face da lua? . felizmente. seu nariz arrebitado. à névoa seca (pois praquê chorar?). louco. Era bela e dançou. Gostou? Pois leia o livro todo. beatitudes. risco de galgo e flor.. musa. aqui chegou Maysa. Ses rêves.tem na capa a foto de Oiticica e é todo um mapa do que o Verbo não diz. adivinho. junto à porta dos açougues? “Tristeza não tem fim”? Há os que dela e em meio à cerração. Ele é o Bardo. um Viscount. ânsias. e nos diamantes-olhos e na voz. medos. erram saudades suas: serei’ema. E se o assunto é poesia. carregado de feijão em lata americana. fúrias. olhe essa jovem Hilda Hilst e seus versos que comovem: Roteiro do Silêncio . Mas.Lune bénie. 13-9-1959 A OUTRA FACE Por onde erra Jules Laforgue que não vem cantar a seu jeito . Pelo cinema. foi-se com a brisa.

A boa chuva criadeira vai lambendo. A cidade. irmão? . na chuva da manhã. cronista. viram todos poste da Light.. suave e metódica. saudades. e já leio nos vespertinos a tabela triste de flores das almas: roxos agapantos.a dor amortece com cibalena de mentira. Morre uma vaca atropelada em Madureira. pupilas úmidas de sono. filtra. toma gotas de coramina. anuncias-me novembro. de nossa rua. alertado por um vizinho. Este ano . margaridas campistas. que no seu cimério destino são felizes no cemitério.. e ela pergunta por sua vez: “Quando.Só há fotógrafos eletrônicos e supersônicos repórteres? Pergunto à amiga. a minha nova amendoeira.Esta fila não anda. acode e nem sequer os ossos pode salvar para um caldinho. que espera da Cofap?Nada. . uma lembrança melancólica: a voz de Dolores Duran.” No apartamento aqui ao lado. palmas de provinciais variedades. o disco: “Olhe o tempo passado”. haverá desfiles de modas na segunda face da lua? Quero entrar na primeira lista de convidados. estimulante circulatório do movimento funerário. logo cada passante corta um naco. Chuva.tudo falso . horror. postificada. . dizem decoradores). O dono. e a morte. na busca inútil do feijão. ladina. não te esqueças. dessas humilíssimas cores (“xangai”. e em breve seu esqueleto fica leve de toda carne. resta explorar. Qual novo infante Dom Henrique.Mas é claro: seus componentes.

(Esses governos provisórios se parecem com suspensórios de elasticidade tamanha que esticam a poder de manhã e encolhem quando necessário evitar qualquer comentário. que fios de cabelo branco lhe custará. nasce o Estado de Guanabara. lhe oferece tal dor-de-dente ou de-cabeça. é logo presa fácil. dessa maneira esconsa.) Governo assim.. souvenir gracioso. mas com padrasto. de Peixoto e da multidão de solertes paraquedistas a tocaiar novas conquistas. mas mesmo breve. Mas será que ficamos mesmo? Meu pensamento salta a esmo. perna faltosa de saci. pasto de quantos. Sem almenara. por trás da cortina. e que sempre há de provar a perfeita amizade? Não foi antes abacaxi. Tudo escuro. têm mão boba com vista fina. JK lhe deu uma tâmara por sua festa natalícia? uma embaixada pontifícia ou um Volkswagen de 60. que tenta o cidadão.em imaginário lunique. a segunda face da lua.. brasa na mão. . bonequinho esculpido em neve. para ilustríssimos cartolas. numa bandeja. Filho sem pai. de presente. todo o programa consiste em preparar a cama bem quentinha. para ser franco! Ficamos livres de Falcão. melhor dito? Claro. caixa de espantos. 1-10-1959 GUANABARA Distinto doutor Sete Câmara. não vai ser infinito seu governo. capaz de infernizar os santos? É seu amigo ou é da onça quem. em colchão de molas.

porém bravo. musa. teus vereadores? Cristo sofreu maiores dores.Mas salve. Guanabara! Pobre terra. passam a outra freguesia. pois nem sequer existe para enfeite. Deputados. aos cuidados da mosca varejeira? . capta e lima cada pungente ou malicioso efeito do texto. dívidas. artista que descobre. E essas estampas que surgem nas gazetas? Leite escorre pelos cochos dos porcos. nobre povo que agora recomeças. entre provas de desamor dos que. e tudo faz muito direito. e compõe teu próprio destino. o teu caminho entre destroços. Guanabara.broto e velha. e o que aconteceu a Estácio de Sá não cabe num posfácio. desiludido de promessas. sursans e mais lorotas maganãs. teu orago São Sebastião foi flechado no coração. Em pó. .. sob pífano e tambor. dúvidas e ossos. abandonando . sempre novo! junta o riso e a força do povo. Entre sombras e vis desgostos que fazem pender tantos rostos. Estado menino! 17-4-1960 MUSA DOMINGUEIRA Cante. o que foi esta semana com o Ionesco no Copacabana valorizado por Luís de Lima. engodo de patetas. foros de capital. jogada na lixeira. Sumiu-se mesmo o em pó. e ali morre uma criancinha a quem se nega leite. Falar em criancinha: viu a pobre recém-nascida que um jornal encobre e lá vinha.Camila Amado . as metas da produção.ó Rio velho.. É sina desses Amado ter talento às pampas (vejam mestre Gilberto). São duas peças e uma só menina .quem diria estas paragens tão amigas que lavraram como formigas.

. que pressão social ou que capricho inumano converte a vida em lixo? Quando os garotos não podem nascer. Ninguém vá pensar que foi de vez. raro: os contos da Lispector (Clarice). Que novidade! Ele despacha no ar. funde em joias o Metal Rosicler. E também não te esqueces que Cecília Meireles. Que perigo. que signo ruim. O Cabral (Castilho) merece o lombilho. Tenho ao lado um livro diferente. submersa. O lombo mais fino. vai ser um alvoroço não nos sobra um osso. o Juscelino foi viajar. gente. 7-8-1960 REISADO DO PARTIDO NOVO Vamos repartir o novo partido? Boa ideia. Pois é. diz João Agripino com jeito solene. Pois sim: neste formoso céu de anil. Entrega os pontos. e louva a teia de luz sutil. Que coisa: não demoram nem um mês. e se ele vem no peito. será da UDN. se Jânio teima em expedir bilhetes desagradáveis. ó leitor resmungão. sente a pena desgosto de escrever. que encandeia a atmosfera de Laços de Família. Foi sugerir talvez que de Lisboa a Capital se mude para Goa.Que mãe envergonhada fez assim. enquanto prova Jango as excelências turísticas de doutas conferências. escrever! À vista disso. de seu alto belveder. fecho esta croniquinha e dou sumiço.. . pois o Presidente já está eleito. que pai tão pouco pai. mas assim mesmo servirá de ensaio e torna o nosso peito leve e gaio. vê Lott um urubu: guerra civil. Mas felizmente é logo compensado esse instante de náusea. em vez de sorvetes.

só isso de pá para JK? Deram pouco. do centro. 14-8-1960 . logo. Não acaba mais? Mendes de Morais no Maracanã reclama a suã. boca o PSD. A Tenório. salta vivo o Jango. não manda ao Sinatra seu quilo de alcatra. Se é bom que nem frango. A Mário Martins nem bofe nem rins. Briga Vitorino. Amaral Peixoto nunca foi canhoto. já se vê. a Carvalho Pinto. Mocotó da mão dá-se à oposição. aquelas tíbias e costelas. ou antes. A concha do ouvido é de Osvaldo Penido. Está repartido o novo partido. Um naco bonito pede Benedito. Nada a Raul Pila. Mocotó do pé não sei de quem é. A Plínio. para os comunistas. salgada porção de buchada. toma de Etelvino o melhor filé. O duro cangote ficará pro Lott. eu sinto. As partes malquistas. ausente da fila. fígado lhe dão. Quanto à chã-de-dentro. Mas então como é. E o mais que sobrar deixa pra Ademar.Ao PDC por ora cabe a chã-de-fora. Armando Falcão.

não: “Vacas gordas para o povo.” Nem galeto. acompanhar o brancoróseo-safíreo evoluir das pombas. mal comparando. regada a vodca. nem simples ovo. na Cinelândia.Muito obrigado! Vai escolher-me para deputado? . num cochicho. já disse e alto repito. que pelas ruas vais gritando pior que as cacatuas. pois sim. aproxima-se outro candidato.MUSA DE OUTUBRO . se espalharem por demais o ensino. É mero palpite para o bicho. e que onde havia um ninho a balouçar. Os livros caem todos das estantes. nos que barram o que há de mais bonito por sobre a face turva da cidade: as minhas irmãs árvores. Gosto de matutar. queres que eu vote em Lott e me azucrinas a alma com tuas lótticas verrinas? Já não se pode. tal como o uropígio ou como o voto. Esta.) Mas se for favorável a centena. de camarote. mais tens vulto. o teu programa pela voz de Lott: Que feijoada mais nacionalista. . Cuidado.. plena. PSD: o teu prestígio. ao pôr-do-sol. Não prometam escolas: o alfabeto é um engenho atômico secreto. reina (mistério) a face de Ademar. Não há quem resista. foi-se o sossego que reinava antes. pois os berros explodem que nem bombas? Nem votarei. num banco deste jardim. e quanto menos cresces. Ó terrível furgão. isso de se eleger pia mais fino.Seu número qual é? .. prometendo a jato com tal estrondo e com zoeira tal que abala a Biblioteca Nacional. minha adesão eu lhe ofereço. deve ser oculto. (Diga-me ao pé do ouvido.Não. Piedade para os oitis e para as amendoeiras de onde pássaros fogem às carreiras ao ver que em seu aéreo território barbazulizam barbas de Tenório. e. Olhe.

Quanto à reforma agrária. empunhando o seu archote o bravo Abelardo Jurema. prudente. há de vir. o nosso bravo Marechal gasta apenas um centavo de coerência. Entre direita e esquerda. montado em mula ruça. Linguagem das flores No jardim de Barbacena. mas depois que a terra acabe. o cravo acordou mais cedo para saber da açucena quem perdeu: Bias? Tancredo? Explosão nuclear Vasconcelos Torres. já se sabe. e Benedito Valadares recolhem diligentemente cacos do PSD nos ares. cantando a louvarei por toda parte. mesmo vaga. .Não. na escaramuça. meta suprema! diz.A Jânio Quadros? . e alça teu voo até onde a esperança.Oposição. . a Lott. 17-9-1960 LIRA DA APURAÇÃO Cruzada . espada à mão. e o vento não a apaga. Musa de outubro. Cairemos outra vez no desengano? Se a vassoura varrer com força e arte. Envolve este país num halo puro de justiça e verdade. esculpe o sonho. O que se deve ler Quer dedicar-se a leituras nosso caro Marechal? Procure nas Escrituras o Eclesiastes: legal. em que o futuro se projete mais claro e mais humano. e lá vai. põe de lado o enjoo dessa politiquinha.

Plínio..E ganharam? . pelo fabrico de vassouras de piaçava. no más. Treme a terra em doido alvoroto. Decepção O reduto de Brizola. não mais escrava a pátria.É. pela direita. por um til. Uma rosa a Raquel? Mas é tão pouco uma flor por um mundo que começa no Ceará e chega às Três Marias! . seres vivos. petebista vero e audaz. cuê-pucha! era uma grampiola de pura charla.Nova indústria Nova meta se concebe neste difícil momento nos corredores do ISEB: quer-se o desenvolvimento de indústria que torne rico o Brasil.. 9-10-1960 DESFILE Já fatigado de escrever em prosa. . este vago cronista pede ao verso que de mansinho desabroche em rosa e a Raquel de Queiroz hoje oferte pelo muito que amamos os seus livros fraternos e pungentes. Más companhias De Lott explica-se a perda (era claro o vaticínio). Molière em Minas Tancredo Neves a cena deixa pelo camarim: artes de Ribeiro Pena e fourberies de Alkmim. Estado do Rio Silveira junta-se a Peixoto para vencerem por cem mil. Teve Prestes pela esquerda e.

coloca a nódoa espúria de uma tara. Mas quem pode aguentar meia semana em Brasília. Aproveitando a rima: e as duas Franças? Uma. Difícil é extinguir essa doença chamada camarite vereadora. dizendo melhor. querendo livre a Argélia. mas vou a jato saber do último abono extraordinário e daquele projeto que aposenta o servidor com um dia de exercíco para ceder lugar a mais quarenta.. o que há de mais leal e mais profundo. devoradora. amigos argelinos. Ainda bem que entre tudo que nos falta. E nessa americana poranduba.. neste mundo indeciso entre trágicos destinos. . Juscelino. como hoje se diz em cada esquina. pois nem o Rio a quer (Inês é morta).Falta evidentemente paridade. e na praça tristonha os Três Poderes semelham um deserto fundo de horta. o que não faz lá muita diferença e formalmente fica mais correto. confuso. ganância cruel que assim repele a voz da razão e o senso de justiça! O que vibra na gente de sensível. até que um dia a vida. praia. falta igualmente número ao Congresso. se não doce como cana. o jeito. escritório da cidade. buscando em ferros conservá-la. que já no corpo em flor da Guanabara.. ou. pelo menos se torne mais humana. . meu doutor-marechal? quinhentos mil? . 3-12-1960 EM CINZA E EM VERDE Eta semana triste! Os cavalinhos. onde a vida anda em recesso? Se a Capital não volta para o Rio. de reto e inconformado. onde o sonho dos homens se elabora. perfumado a lavanda de esperanças.. livre. com surpresa estampada nos focinhos. bar. dolorido. direto a Cuba.Eu mesmo já nem sei. é por decreto extinguir-se o governo da República. pulsa convosco.Falar nisso: qual é o seu salário. Ai. outra. um verso irmão lá vai.

vais-te tornando taça de amarguras. de intensa palpitação sempre em favor da imprensa! (Nem acabei a crônica. unindo os desunidos. seja como for. comovida. Copa do Mundo. mas salve. toda azul-claro. e só resta. a seu apelo.estacam de repente. em High Noon. Não era o meu esporte predileto. Faltam-me espaço e tempo (meus algozes) mas vou daqui saudar o Herbert Moses.. Magro. Mas Bellini é passado pra trás? Ainda retine o coro vibrantíssimo. azulmente sorrindo para a vida. em seus laços. que ao longo de trinta anos da ABI soube tornar o que era abacaxi numa cesta de flores e de abraços. compadre. mas vejo que a cidade se esvazia. hora a hora. no trabalho. pois beleza é .) 21-5-1961 A SEMANA Atendendo. eis que o cowboy tomba sem um disparo. há por aí. no vento. e. envio-lhe esta carta. Marta Rocha. E lacrimejam pingos de tédio. Sairão do fel as seleções futuras? Pois se tal não bastasse. profundo. ao ver. Outros informes. O futebol. também.) Desses dólares não verei a cor? Estou satisfeito. ó quatrocentos milhões . ao bravo capitão. qualquer um de nós se via nele. qual princesa de um conto de carocha. sentir da austeridade o cheiro do alho. vem sua carta de agradecimento. desajeitado.ninguém se ilude uma promessa de beatitude. de Juscelino. mau humor. só aos domingos? Dizem. Tanta gente a fitá-la. e quase dói ver que com Gary Cooper morre um pouco do mito herói-pacato em mundo louco. não sei. por decreto. um prazer.em cobre fino! (Buracos a tapar. turvos ou cinzentos.. de mais uma alegria. mas sem selo . Oh velhinho eletrônico. Brincam (boatos) que será proibido usar sapatos de mais de mil cruzeiros.mais o bilhão . alto.

E eis que se fecha o velho. 6-8-1961 . (Gagarinamos.diziam elas. É Berlim coisa russa? americana? Ou tudo é confusão. a sorrir. abrir falência. Nos açougues paulistas.. jovial Circo Olimecha. e nenhum verso vale esse giro azul pelo universo. Inaugura-se um campo de corridas quando elas já são coisas abolidas. por entre as belas garotas espaciais. eu dele me descuide.não já gratuito.. glória da Rússia. ave fugida! alpiste nenhum te faz voltar. deixando na lembrança gosto amaro. (Já pensou na copiosa Sévigné. Disseram por aí que isto é progresso. reduzida ao miserê?) Com telegrama a cinco por palavra. por não ter nascido berlinense. mas remunerado e trabalho. de horrores. em Brasília: passa a chamar “descanso” de “vigília” . enquanto é tempo. me botou triste. você não pense que. evite. A autoridade vem daí: ser alheio a essa cidade. em pensamento. do silêncio faz-se escrava. o de artistas-vereadores. se minha matemática não erra. evitando qualquer correspondência. sim.(que a tarifa postal subiu à Lua e a controle nenhum cede ou recua). e nossa cosmonave é fumo e vento. O caso de Berlim. abraços apertados. Marota foi a Câmara.. bom..) Mas. Um circo a menos? Dois. Ó mocidade. é tortura do passado. a prová-lo. entre carícias de um leve sol de julho. Quero me distrair. Quem encontrei na praia? Aquele moço. voltando ao terra-a-terra. e Gagárin. para lhe dar as últimas notícias enquanto agosto vai. lá se foi. a pena. Não divertiu ninguém e custou caro. Outro. em meio à vana verba de conferências e tratados? Adeus. recordando a matinal doçura de ir flanando. compadre. presa do alvoroço de brotos mil: “Que pão!” . compadre. porém meu coração diz que é regresso. a nova bossa: carne de cavalo. no Brasil.

e quem nasceu primeiro. Por enquanto. Por falar em arroz. tal qual a rima em úcar? Com doçura ou sem ela. almoços e outros paparicos. será que nem eu mesmo votei em mim? Com cara de torresmo bem frito.. ou chocho desengano ao candidato que entra pelo cano. sabe que o açúcar volta a sumir. 14-10-1962 OS PACIFISTAS Na Cinelândia. uma esperança: Afinal. Que não ouse a Inflação ricanar: . dá a seu fã! De repente. . faixas. a brincar. dia onze. ganhou três mil pratinhas. porém.E eu fui acreditar no Juscelino! Muitos mais acreditam no Brizola. O poeta Homero Homem quis dizer em verso claro . o pobre vota para casa como quem baixa à sepultura rasa. o big estádio. nem uma cédula surge para consolo da alma crédula que milhões despendeu em papelicos. minha filha (sofredora. e até tirarem isso da cachola. . . em bancos vulgares e amigos..Ó diabo. resgatadas. e não esse vintém. a voz dirige-se à escrutinadora): um votinho pra mim naquela urna! Não o deixe fugir.. Porém soturna prossegue a votação.o velho doer de penas nordestinas tão doídas que de lembradas tornam-se esquecidas mas de novo precisam ser lembradas e. no Maracanã que um Garrincha. queixando-se à patroa. dá é enfarte.Por favor. deem-lhe um bilhão. seja diretamente ou pelo rádio. Vai chovendo lá fora.e disse .NA SEMANA As alegrias.Ano que vem. esse mágido de Oz o que fez foi nos tirar o arroz.. em desatino: . por mão da poesia. esta é a Semana da Criança. pela tarde. E me comove um livro-sangue: O País do Não-Chove.

sentam-se homens mal vestidos. Não mostram pressa de voltar para casa ou para o trabalho. Sentam-se em honra de uma vida que vive dentro de suas vidas corriqueiras, pardas e tristes, e lá ficam a ver as pombas em torno à estátua de Floriano catando milho distribuído por um deus amigo das aves, o deus que no baixar à terra preferiu o simples disfarce de empregado administrativo. Bicam as pombas, esvoaçam por entre mármores do Teatro, do Museu e da Biblioteca, não que lhes interessem óperas, livros, telas, artes humanas. Brincam as pombas: pena, cor, lampejo entre árvores, tranquilo ser-existir infenso ao trágico mundo que se foi modelando entre gritos, gagos regougos, lágrimas, cóleras, solércias, à custa do mundo essencial. Libertados de todo peso, deixam-se os homens existir desprevenidos junto às pombas. Silenciosos e circunspectos, são talvez os homens melhores do nosso tempo assim parados. Não pleiteam bens ou poderes mais que o bem e o poder de um banco alteado no chão de pedrinhas. Não transportam a guerra n’alma, não vendem ódio, não tocaiam nem sofismam quem tem razão entre sem-razões deste instante. O voo não viajeiro basta-lhes para alimento das retinas e, ao mirar as pombas, remiram uma harmonia que perdemos. Na Cinelândia, aves e homens redescobrem a paz, em vida.
28-10-1962

JORNAL EM VERSO Janeiro: nasce mais uma República - a sexta - no Brasil. Torna-se pública

a panqueca do novo Ministério que vamos, a sorrir, levando a sério... Entre os nomes procuro, olho, joeiro e não encontro o de Darcy Ribeiro. Provara bem demais como Ministro? No Torto alguém comenta e aqui registro: “Dava cartilha a todos... Que perigo! Era amigo da onça ou nosso amigo?” O fato é que, se existe homem sem fila à sua austera porta, é Raul Pila, tanto maior em seu isolamento quanto mais vário e louco sopra o vento. Mas não é vento, é gente da polícia - sadismo, horror - que após muita sevícia vai jogando mendigos desgraçados à correnteza, e tendo-os bem lavados, outorga-lhes por fim a liberdade no regaço abissal da eternidade. Turvo Rio da Guarda, que carreias culpas medonhas entre lodo e areias! (A condição humana sai vencida nesta peleja entre a polícia e a vida.) Quem é esse que cumpre o seu destino em barro e volta ao barro? Vitalino. Depois de modelar o seu Nordeste em formas gráceis que a poesia veste de candura primeva, ei-lo deitado, ele próprio em silêncio modelado. Olha o boizinho e mais o cangaceiro! Olha a noiva montada no sendeiro! Olha o doutor, o padre, a bicharada, tudo em volta, fitando a mão parada... Vamos cortar o Rio em mil pedaços ou deixá-lo perfeito nos seus traços? Se o dividem, requeiro, por favor, o azúleo município do Arpoador. Lá, prefeito da espuma e do biquíni, ante os jardins onde a cigarra zine, o pasto da gaivota, o verso da onda, e belas vereadoras numa ronda - orçamentos, posturas e outras leis farei melhores que os melhores reis... Mas, se me negam essa sesmaria que o PTB cobiça - ave, Maria! então sou contra, e quero a Guanabara una, indivisa, em sua forma rara.
27-1-1963

REPORTAGEM MATINAL Subo a Santa Teresa para ouvir o sino que na praia não se faz escutar. (O rumor das ondas o abafa ou só se escuta no seio do mar?) Vai comigo o Poeta relatando a paisagem de muros intatos. (Mais depressa morrem os homens do que as casas de Paula Matos.) - Neste convento minha prima vive. Em total recolhimento. A manhã, nos altos pagos, tem a claridade primeira. Velhas coisas se inauguram continuamente, na luz, novas. Conhecer-se tão mal o Rio. Conhecer-se tão pouco o ar. Conhecer-se nada de tudo. Eis que ouço a batida nítida no azul rasgado ao meio perto longe no tempo em mim. Quando a palavra já não vale e os encantos se perderam resta um sino. Quando não este, o antigo sineiro desce o roído degrau da torre para nunca mais tocar, resta, pensativo, no adro verde, o menino escutando o sino.
12-4-1963

LIRA PEDESTRE Vamos - eis um projeto de domingo legalizar nosso prezado bingo? Boa ideia: cartões fiscalizados, prendas, prêmios, carinhos e cuidados, o azar livre de fraude - de capricho. (Outlaw, coitado, só jogo-do-bicho,

a cinza leve de uma rosa vermelha presa à neve da jaqueta. é fogo. coitadinho. Nunca te vi de perto. e tão naturalmente capital como o Rio é uma coisa sem igual. A turma não escuta: Alô? Alô? Ah... e tendo tão bonita arquitetura vai ser tapera de ouro na planura? Já de volta o Governo se pretende. aos colegas sugere: Um trilhãozinho ao pobre do Tesouro. jardins e quadras doloridas.. pois ao Rio nos basta a praia clara. que. já se estende o véu de sombra sobre o róseo sonho da terra do futuro.. Iapês. que faremos de Brasília? Ela é e não é: no shakespeariano dilema. Brasília. agora vejo e sinto e apalpo e todo o meu desejo é que sejas em tudo uma cidade completa.. a joia rara de um modo especialíssimo de ser. vendo . Corpo. junta engano e desengano. 10-5-1964 LIRA DE JORNAL E lá se foi Nehru . se não cortam. Cresce e viceja. siglas. tapetes e mistérios. Rui de Almeida telefona e. em tuas avenidas. o gosto de viver. fique te adornando. embaixadas. Eia. aberta à humanidade. ministros. senadores. luta por teu título! E tenho despachado este capítulo. Brasília. dizem que ele engole o Brasil e toda a nossa economia.) A rima em al lembra outra rima em ília: Amigos. e o pequeno Sanjoy.. trevos. assessores e tudo mais que é símbolo de mando. firme. de amar o amor. telex. que aparelho! Pronto: desligou. Os olhos ponho em ti. calado. jasmins ardendo. comando e glória. já cessa a dobradinha. e ministérios e seus papéis. pois.que. Mas resta o subsídio do petróleo. como se pedisse uma azeitona. E se cortam. Virg’Maria! O Dr. amar até morrer. bem merecia trânsito legal. por ser instituto nacional.

O futebol. Rosa Maria beija-se em Joal e acaba-se esta crônica. quedarão esquecidos. pobrezinhos. Cine-saudade. O seu olhar adoça qualquer travo. refolhada magia silenciosa. Volta a dançar. como a essência final da mesma rosa. não lhes repetirão o nome obscuro. corpos alinhados à revista da tevê e do médico-legista! Mas viremos a página. Este eu prolongo: ler gostosamente o Brejo Alegre que França de Lima (Geraldo) imaginou em prosa fina.Derramai este açúcar sobre mim! Mas qual o quê: a dama. e os caminhos que eles pisaram. Dá-me vontade de gritar assim: . Eis que da grande vida resta a suma incombustível. . é claro. na tela. dona linda de casa? em fila indiana.Era menino quando ele apareceu. afinal. essa alegria solta. a morte num estádio. matinal. de um alto amor as chamas resplandecem. no terror. quer é comprar mais oito ou nove quilos. Já os mortos de Lima. vaga sombra em muro. olhos tranquilos. (A gente se defende. livre de aparência. ideia pervagante.. Seria ideal uma retrospectiva de filmes e também da vida via. o Picolino. pois em cada apartamento de açúcar há de sacos mais de um cento. garimpando no cinema e no mundo o segredo de um teorema! Aquele fã que amava Greta Garbo voltando ao velho amor e ao velho garbo.. cede lugar à morte desenvolta.. melhor que a rapadura e que o mascavo.) Mas doçura mais-que-todas surpreendo na criatura. Mas há outros prazeres no presente.a figura do avô que já se esfuma. 31-5-1964 . rumo da mercearia. Muitas vidas miúdas se entretecem. quer cine-verdade.. Ah. esta semana. e não. como ser. pura essência.Conhece Fred Astaire? . É verdade que está faltando açúcar à cidade? Não creio. a morte sem qualquer gesto de amor.

procura-se no chão. Olha a revista. Mas vamos para a frente. dedilha-o Madalena Tagliaferro. e sou dos seus devotos.. Mas diz-que só a brotos interessa a novidade. bossa que é mais fina. se não erro. A peça prega peça. é este inverninho manso que torna o Rio suave e em que descanso o pensamento na manhã laivada de névoa e luz tão meiga e temperada. Esse novo maiô bole com a vista. Onde andará aquele tal suplente convocado a assumir. tão autocassado que foge a léguas de ser deputado? Procura-se. Constou-lhe que Cassiano mata o verso? Cria um mais forte no seu uni’verso. Pois sim: miro e remiro a todo custo. seja eleitora. em tom veemente. E sendo a moda assim tão escondida. O Fernando Goldgaber mostra fotos excelentes. Um piano fabuloso. procura-se. amiga.” Abrem-se escolas? Esse mau costume é corrigido: agora se resume em diploma de curso paroquial a todo analfabeto eleitoral. no ar. como saber se a moça está despida? Só pode ser usado nas piscinas particulares? Logo as turmalinas ondas praieiras destes e outros mares enchem-se de invisíveis exemplares. e que se esconde. e no relvado crila o grilo.DO VOTO AO VERSO A cozinheira quis sair mais cedo para correr à aula. no mar e esta figura se oculta de tal moda da família que se homiziou sem dúvida em Brasília.” E disse o avô sisudo para o neto de três anos: “Pois que és analfabeto. vai e vota por mim que sou letrado e temo não estar habilitado. A peça foi tapada pelo busto. E é tão ruim o meu pobre jeu de mots que retiro da crônica o maiô.. Herculina. Mas se frio castiga. vou ficar junto de Jeremias Sem-Chorar. . mas o dedo da patroa vetou: “Não. No mais. Ouve-se a Sinfonieta do Murilo à noite.

21-6-1964 ECLIPSE Lentamente a lua foi desaparecendo ante o balcão marino de Copacabana. Era tudo preciso ao mesmo tempo. O cão passa depressa.mas tão batido . noutro banco era um só namorado se fechando em eclipse total sem sua amada. No banco da praia namorados em sombra se fecharam. fez a grande volta insuspeitada. o tempo de um eclipse que restaura o mistério e promete a fotógrafos o prêmio da turva reportagem sideral. Miss sem desfile. sem isso nem aquilo. lua eclipse.E assim a lã me envolve: não é fria a noite. controlando o eclipse do Posto 6 ao Posto 1000. Sobre o Lago dos 4 Cantões a flor entre dois abismos . Era preciso? compor sonata eletrônica ao eclipse mas tão sem cor-teor que não se ouvisse além do bochechar de noite na abóbada Era preciso? fazer um verso não-Laforgue à base desse novo sentimento da lua omissa. era preciso lançar foguete urgente à negra elíptica e procurar a lua. e tu fechaste os olhos para ver o eclipse à tua maneira pois eclipse é também ocultação de coisas não meteorológicas na faixa ultranictina de teu cone de sombra.de Beethoven. só sumiço. Não. Às 22h58m só se podia tê-la na reprodução de Art van der Neer famoso pintor de luar em álbuns suíços ou no LP . Cada um vê eclipse a seu modo e os óculos mais em moda são de Antonioni. recompô-la trazer de volta o cromossonho que ao pedestre tardonho serve de companhia e táxi-aéreo.disse um que leu a Enciclopédia de Música. se aquecida de poesia. Este menino .

a breve alcance. aposentado. tão nossa. ensinando a ser útil e a ser bom. como se fosse um falar novo de Arles? (Daqui já estou sentindo. de samba. de “meu chapa”. amigos. Zero hora: eclipsa-se o eclipse. e tudo mais em ido ou ado . a querida Béatrix leva à Provença. Já pode repicar na torre o bronze. Marianne.) ah! bem melhor. A questão é que as novas Diretrizes e Bases não são lá muito felizes ao deixar ao capricho do freguês estudar tudo ou nada de francês. acabaram-se as listas a granel. na hora do perigo. no Leblon.geme .. pelo infinito. Verdade obscura ou rara? Para quem sabe ver. flã níveo de gelatina aldebarã. a noite é clara. não justificaria o gesto amigo? Sê gentil. tão francesa. chegou o dia onze. queijo. lembro e saúdo Béatrix Reynal. mais simples e faceiro. somente inglês (inglês americano) para dizer: Welcome boy! a Charles. O muito amá-la e servi-la. na língua de Monsueto.Ei. A lua volta sempre.dorme no ombro materno e vê no sono uma lua maior que tapa o sol e todas as estrelas: sorvetilúnio para o resto da vida. e sem detença. não escapava gato nem mosquito. em momento de efusão cordial. falar ao general em brasileiro. demitido. Aprendemos assim. mon Général! Que tal o meu sotaque? . Seu velho sonho: a França convidá-la a ver de novo a França. Suspenso.. O resto é espeto. 28-6-1964 EM VERSIPROSA Soyez le bienvenu. reformado. cassado.Menos mal. em carioca. Mas. ano após ano. processado. . Foi por falta de tempo ou de papel? Se continuasse assim. toldar-se o tempo na Maison de France.

É rima? Não é rima? Pingo um pingo na cronícola. Esta é a elefantina.obrigatório para autor de novelas (punitório e exclusivo. e essa.a justiça. no anel de placa óssea dos olhos. se é que existe no IPM. o líquen seco nutre as últimas netas dos colossos vizinhos do Hominídeo e na solidão dos Galápagos vai mirrando essa imagem de grandeza delicado organismo. e esta outra a mauritânia. ponho-me a ler Macedo Miranda. Tão fiel a si mesma que o retrato da moça tartaruga do Amazonas repete o essencial do figurino. lá vem trazendo seu recado de plena paz por entre guerras. 11-10-1964 A TARTARUGA No abismo do terciário a tartaruga gigante tem um mínimo de pássaro que se pusesse a rastejar. e nos contos de As Três Chaves engenho e arte. testudo gigas emergindo de Brejo dos Sonhos. tão suave e lembrada de seus pagos que onde quer que a deixem volta sempre a um apelo de flauta ou de jardim. sem vaidade. são como aves de agudo bico. blindada flor que filosofa e pensa o mundo sem rancor. na ausência pacífica de dentes. por gracioso artifício. João Brandão. e bicam no mistério das coisas um encanto extraordinário. em requinte. a chuva no lajedo zarandando. . e nos ensina que a rude carapaça mais protege o amor. do que o repele. Finda a semana. O cacto. a grega. que não muda a linha imemorial. em cabines especiais. do bom-gosto sentinela. pleiteia novo horário de novela: de zero a zero hora . e a todos bom domingo. para não perpetrá-las nunca mais).

vale a pena matar para ajudar? Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo leva-se a tartaruga para a Urca em compasso de espera.Lição que nada vale pois o que sabe ao paladar corrupto não é da tartaruga o calmo ser e florescer à flor da areia ou n’água mas a carne fechada em seu fundo segredo. prévia degustação de faz-de-conta. promovida será sopa amanhã. anunciada. Levam-na no Top Clube para exame de olhos gulosos. tão pomba e mansa em seu dulçor de frágil fortaleza. e sua sopa uma delícia. vê chegado o momento da tortura. O tempo urge. por encanto. Mas vale. De qualquer jeito matemo-la. na hora fatal: “Não deixa ela morrer!” . E vem a tartaruga de avião para os ritos da morte em nobre estilo.e a tartaruga é salva. Fotografada. se levanta da relva e pede em pranto à mãe. 8-11-1964 . A tartaruga. que o fim é nobre. linha dura e linha humanitária. sem uma ruga no pétreo manto além do seu riscado multissecular. a carne monacal de tanto se vestir de solitude. esta tartaruga vai morrer. Uma cidade inteira quer comê-la mas poucos a merecem por seu preço. mas eis que uma criança que com ela brincou e soube ver a maravilha do ato de existir. por entre árvores de velho parque onde quisera antes viver seu tempo meditado. ergue a voz comovida: dois partidos se enfrentam. Comer a tartaruga é ato bento e pobres já desmorrem com sua morte. A tevê entrevista a pobrezinha que mantém um silêncio de andorinha. a sempre alerta em defesa do vivo e sofredor. Lya Cavalcanti.

um no outro se veem transmutados. a explosão nuclear. Anuncio uma lâmpada. Viu a mulher.VISÕES O apóstolo São João foi realmente um poeta extraordinário como igual não houve depois nem Dante nem Blake nem Lautréamont. se meu Apocalipse é revelação de coisas simples na linha do possível. e nisto me afasto dele. se contemplando. Viu principalmente o supertrágico. Viu tudo. Viu a chave do abismo que Mallarmé não logrou levar no bolso. sentada na besta escarlate de sete cabeças e dez chifres e na fronte da mulher leu a inscrição: Mistério. mais deserto . Não. Teve todas as visões antes da gente. Viu o nome que ninguém conhece nem saberia inventar. com sete taças de ouro repletas da ira de Deus despejando-se sobre a Terra. a como-ver. aos repetentes míopes que somos e não vemos o Dragão e nem mesmo o besouro? Viu animais cheios de olhos em volta e por dentro. glorificando Alguém no trono. viu as coisas que são e as que serão no mais futuro dos tempos. não sete (e nenhuma trombeta) a clarear o rosto amante: são dois rostos que. Quero ver o mundo começar a cada 1º de janeiro como o jardim começa no areal pela imaginação do jardineiro. não gostaria de predizer o fim do mundo. Os surrealistas não puderam com ele. Pressinto uma alegria miudinha. semelhante ao jaspe e à sardônica. embelezando em plena via pública o passante mais feio. Desculpe. e que resta a prever. pois se inventou a si mesmo. São João. trivial.

a flor. aqui. de presente. clarocarne. existe em paz. de escafandro. e calo. passarino. acrobata humorista piruetando à solta entre niilmundos. . era tão mais que pássaro em distância e corisco. olhante.de bens interiores. um brincar de meninos na varanda que abre para alvíssimos lugares onde tudo que existe. a cor do céu. mundo micromenino. 1-1-1965 A UM VIAJANTE Eu vi você flutuando na avenida sidérea. como turista em véspera de voltar ao navio. passará. Tranquilo. e as aves em seus curtos trajetos e projetos requeriam dispensa da condição voadora. Súbito pulava um peixe treinando. a meus amigos e aos amigos de outros ofereço o doce instante. Profetizo manhãs para os que saibam haurir o mel. e quantos ritmos um pisar de mulher irá criando na pauta de teu dia. E mais não vejo. ali. a trégua entre cuidados. Um vestido estival. Você estava livre de terrestres algemas. meu irmão. e o crepúsculo sinfônico pulsando sobre os montes. nado sobremarino. solicósmico. de folha dançarina e fruto. que as pequenas coisas são indizíveis se fruídas no intenso sentimento de uma vida (são 20 ou 70 anos?) limitada e perene em seu minuto de raiz. O mar darei a todos. junto à praia. fotografava a terra e outras terras e outras. Oráculo paroquial.

já vejo desligado. Liberto assim me vejo em você. sorríamos em nossas carapaças e o ardil vitorioso cálculo grave-lúdico em nós se desfazia: era um fruto da terra. No próximo domingo nem restará registro de míseros sistemas que regulam o passo. Que sensação de nada me vinha desse tudo. de mim mesmo deste peso e limite que comigo carrego ou a mim me transporta ao prefixado jeito da rês ao matadouro. decorávamos . o hieróglifo legível. Eu vi você flutuante e a seu lado flutuava meu tardo corpo. o sonho devassado. de novo ritmo? Ou senão. A glória de meu dia é cosmoflor abrindo as pétalas magnéticas acima das estrelas e dos hortos botânicos. o compasso e o destino urbano ao ser humano. e a mente. plantados no possível.Um tubo apenas. Que sensação de tudo vencido e convencido. hoje presa à minha lapela na tevê desta célula. Uma dança aprendíamos nova. germinada paciência em luta com a matéria. Flutuávamos. cofre de banco aberto à astúcia do assaltante. elo entre você e a sempre mesmice cotidiana. na infância da notícia que temos de nós mesmos. Flor impossível.

de andar. sem cofre nem escrínio. de 200. mui quieto. preliminares? Tamanha infância envolve o cansaço das eras que. aerólitos. talvez de 5.onde fica a rua do colégio? a esmo procurávamos. Eu vi você voltando eu sem terno divino à regrada escotilha da nave em torna-viagem. ninguém que o perca ficará mais liso. no espaço vagantes. 500. 21-3-1965 BRINQUEDOS Olha só as moedinhas de 50. Os fantasmas de crenças abolidas. cortavam a neutra superfície da não-atmosfera.000. impercebida. escarninho cortejo de nosso real triunfo. eu e você . Um jogo na calçada já se inventa e diverte os garotos do Brasil sem a menor despesa ou prejuízo. Brincará no escritório. Flutuar não era ainda ser e ser com firmeza mas ensaio indeciso de exatas propriedades. Eu por mim guardo todas pra meu neto menorzito. . embora seja quase verdadeiro. com esses brinquedinhos de alumínio. e a imagem tenuiazulmente vaga de crenças-work in progress. e se juntava à antiga solitude da vida. Uma outra solicitude baixava. pois se rolar no ralo tal dinheiro. Outros brinquedos. mas que cospem fogo. dos bolsos dos senhores deputados tira Bilac. a rogo dos instintos vitais tão desprezados.

tenho medo de perdermos a ideia de brinquedo. eficaz. Com tanto minério em roda podendo ser extraído. (Seria tão melhor que esse desarme não parasse no coldre. medalhosos. são levados a um saudoso Museu da Indumentária que conte da vaidade e sorte vária? Sem galas e galões. sob pena e castigo de andar nu. cassando ao espadim o grato retintim e os fardões arquivando no cabide.não se zangue não pode ser saloon de bang-bang. Ai. E se mais além? Se os uniformes garbosos. diretrizes. mas não detone aquela tâmara de que o amigo tem estoque na algibeira à guisa de eloquência derradeira. sobre as siglas do desentendimento partidário. o fardão diplomático? pomposa fantasia fugida à passarela .) E esse outro brinquedo ameaçado. é que o fero gesto chegue à Academia. sobre a diversidade de narizes. Meu receio. Parlamento. e que o gendarme rigoroso. menos colorida a passagem do homem sobre a Terra. caríssimo Athayde.diz Vasconcelos Torres no Senado carece ser guardado no baú do Império Serrano e ser usada uma só vez por ano. A Icominas se açoda . de cada qual consistisse no impulso fraternal ante meu semelhante. excelência .Quer detonar o verbo lá na Câmara? Faça. a vida fica mais triste. 11-4-1965 O PICO DE ITABIRITO O Pico de Itabirito será moído e exportado mas ficará no infinito seu fantasma desolado. projetos.

John. frases e ossos. E “tombando” a rocha. no caso mete o bedelho e na brisa da manhã acende um sol de esperança sobre a paisagem mineira. Hanna e Ico.O Pico de Itabirito. A tripla. St. mais rocha agora. John del Rey Mining sai mais Hanna mais Icominas e sem dizer água-vai. não mito. aos de casa e a forasteiros um curso de eternidade. (Até onde a vista alcança. quando. era dinamite e poeira. este há de ser preservado como presença.e nem sequer presta ouvido ao grave apelo da História que recortou nessa imagem um marco azul da memória e um assombro da paisagem. com peito. bulufas. ruínas.) . serram os serros de Minas. agressiva empresa acha que tudo se exporta e galas da natureza são luzes de estrela morta. como estufas de ouro feito de destroços! Mas eis que salta o Conselho dos homens bons da DPHAN. murchos. Conselho dixit. nobres cumes altaneiros que davam. de um borbulhante passado. Algibeira. St. detêm-se para pensar. com sobriedade. demonstra-nos como. uma lei vigora. . Tradição? Ora.

arar em sabidas águas: Ação. exportado. como. deixando em redor os casos de um pais colonial. crivados) luzias. nós. Escorre o tempo. CRUZEIRO VEM Meu pobre cruzeiro velho: não viveste nem trint’anos e acabas mais acabado que os fósseis aurinacianos. suando as rotas camisas. E vem de cima um despacho autorizando: Derruba1 Role tudo.Queimaram-se os seus cartuchos ou resta um jeitinho no ar? . dando esperança a bolsos acabrunhados. nem nada. Surgiste das cinzas ralas do desossado mil-réis e te saudaram em coro monetários menestréis. Só quedará no infinito seu fantasma desolado. E à cantiga dessa viola afinada. uma embaúba! E o Pico de Itabirito será moído. reforçando o lamento.Vamos chorar nossas mágoas e. de alto abaixo. 16-6-1965 CRUZEIRO VAI. Assim crivado de estrelas (de dívidas. ao vento. o que vale são divisas que tapem outros buracos do Tesouro Nacional. Ficam buracos? Ora essa. já ninguém mais lembra a antiga voz do Conselho. desenvolvimento! Tudo exportar bem depressa. .

mais claro que clara de ovo. Em vão usaste o retrato do bravo Tamandaré. . que mesmo em grupo de oitenta era o óvulo de uma avo. o centavo.e mais não fizeste que aqui mereça o raconto. torceste o pescoço ao “conto de réis” . é claro. e durou menos que a rosa do tal poeta francês. Até que afinal sumiste de tão completo sumiço que ouvindo falar teu nome eu me pergunto: Que é isso? Hoje te dá um decretolei piedosa sepultura e de teu fantasma brota uma diversa criatura. Em teu afã reformista. no casco antigo: valor de mil cruzas fluidos florindo no seu jazigo. Em vão gastaste a reserva de nossos atos de fé. Mas o simples adjetivo que bem me faz e a meu povo! Psicológico. O que mil-réis adquiria (aliás coisa mofina) fugiu de ti como o peixe foge à caça submarina.Atiraste um zero fora como inútil ornamento e o cifrão passaste à esquerda: notável melhoramento. Diversa mesmo? De novo há o “novo”. salvo trazeres ao colo um menininho. enquanto te esmilinguias cada vez mais cada vez.

penso mil. e sobra espaço numa dobra de carteira. e é infinito. o Oiseau Bleu de Tiltil.) Com sede ao pote General Silva afobou-se . (Com suas faces naturais. Emoção funda quem não há de sentir ante este filme-poema? Salve. não mete medo aos dirigentes. tão camarada. Quanta coisa agora eu compro pelo artifício da moeda! Fico rico de repente.O pequenino centavo revive. Ao vê-lo de roupa nova sente-se a graça do nada. Fica maior! Em preto e branco O padre e a moça no cinema. E nesse ziriguidum. sutil. resta um? Pois onde há um.. em Minas Gerais: raspa-se a barba a Tiradentes. simples mito? Nunca existiu ? Tanto melhor.) 17-11-1965 AQUI E ALI Coroamento Aleijadinho... mais ágil depois da queda. Shakespeare também.. Homero é o tal. Já não me cose o alfaiate um saco em vez de algibeira: cabe tudo. Joaquim Pedro de Andrade! O subversivo Grande bossa. (Enquanto voa. do ceitil que sei? Sei til. Do que era mil.

e de bondade infinita. veio o vento. E se ele encontrar no doce pimentinha posta adrede?* 7-1-1966 * Milagre: não havia pimenta.) CRÔNICA DE JANEIRO Onde está o janeireiro que entoava alegres janeiras à porta de seus amigos na primeira cor do ano? Mas se calou a cantiga tecida de votos suaves. teto ou portal. Quisera ter uma voz mui alta. meu ritmo nobre. de remédio. de carinho. (N. do A. veio o vá! da voçoroca e o morro virou paçoca de carne humana desfiada nas unhas do temporal. por que tudo se desmanda em sarabanda demente e nas trevas se derrete de sorte que nem sabemos se são fontes lacrimais ou feras coreografias de potências infernais? Eis rola a encosta o enxurreio e faz do Rio. meu coro. veio a chuva. cada casa improvisada sobre alicerces de samba mais pula que dança a dança de morte. envolvente. meus pandeiristas. Veneza de um só barrento canal onde se mira a tristeza de gôndolas-automóveis imóveis no lodaçal. baliza minha. de comida.corre à frente de Mamede. Meu Império da Tijuca. mui sonorosa para exaltar deste povo . passistas. Já toda a gente se agita. num carnaval de contextura cruel. Sem trinco. já corre de mãos repletas de agasalho.

economistas. mas empacando na escolha entre dois modos de agir. e na crise mais aguda. aumentando a cada hora. De um estranho faz seu mano. reformistas. que é milagreiro. E se vier outro toró no calor de fevereiro enquanto a turma discute. deixará que a chuva chute o que resta das favelas sob a carícia da brisa? Cosminho e seu irmãozinho deixarão que o mais desabe? Não sei. em quanto tempo se pode limpar do Rio este câncer que se alastra pelos morros. e todo mundo deplora. progressistas. não sou adivinho. por quanto. urbanistas et reliqua. para em simpósio ou solitos resolver como. vestida de guarda-pó. No imenso Maracanã Zé Fusquinha deita e espera que raie o sol amanhã para regressar aonde talvez ainda reste um caco do que ontem foi seu barraco. se remove ou se urbaniza? São Jorge. por mineira cautela. Assim dá tempo a doutores. do nada. dos sistemas e processos salvadores. de alheia carne sua carne. 30-1-1966 . que são grandes sabedores dos problemas. vou rematando esta crônica antes que o Rio se acabe. mas. na mais longa chuvarada. a sábios. ensina como tirar um pouco de ordem.que tem fama de leviano a força maravilhosa posta em seu gesto de ajuda.

Enfim. baixinho: . domada a inflação? Valorizou-se o Cruzeiro e mais ainda o Tostão. o patriarca Djalma Santos. e daí? Fefeu . não vai Amarildo? Vão Pelé e. Fábio. mas tanta. tanta. Altair. Ele. Mas se a Comissão não se zanga. sabeis? que a fala confortadora levo ao meu paroquiano: Talvez chegue ao Posto 6. Sorri o eleitor: .Que queres? Eu pus as barbas de molho. Esperança É tanta a água no cano com essa nova adutora. fagueiro: .LIRA PEDESTRE Finalmente Aposentam-se por lei deputados federais. o que não pode faltar. que bom. como. rima de Oldair. A SELEÇÃO Vai Rildo. e na quadra do gol: Valdir.Errei. e também não pode Gilmar. entre os santos dos santos. Tiradentes Já não reconheço o alferes. Milagre da Copa Bulhões a Campos. Manga. É canhoto. em Britânia. o menino gaúcho Alcino. e mais Dino. quero ver. mas esses não erram mais. ecoando na ponta: Ivair. por mais que lhe bote o olho. entre mil e uma noites. perdão: Alcindo. sem esquecer o Djalma Dias e. Mané. Dias.

hein? 3-4-1966 A. Olhando pro chão. ganha o jogo. Carlos Alberto estou certo que vai dar certo. quarenta e seis. e vou juntando bons nomes ao nome de Orlando. Com tudo isso e mais Rinaldo e o canarinho de Ziraldo. E se Gérson do Botafogo entra no campo. desta vez a tenha Parada. . Acham tampinha Ubirajara? Valor não se mede por vara. o grande Silva. C. se conto bem . e sei que você conta. corintiana glória e mais o áspero Fontana. Paraná. para chegar até Bellini em cujas mãos a taça tine. Edu. A chance que lhe foi roubada. minha gente! Festivo repique o sino em honra deste menino.. cada um com seu próprio estilo. Célio. nunca perdeu. Na lateral. Édson. é claro. nem fique o Brito por não-dito.um time igual eu nunca vi em Europa. como aqui.quando chuta. Um lugar para Paulo Henrique enquanto digo a Flávio: Fique! Com Paulo Borges bem na ponta eu conto. Servílio: suaves eles já completados por Fidélis.. França e Belém que barbada seria o Tri. nome que é legenda. Dudu. por que não? e o mineiríssimo Tostão. Ditão. MANUELINO Alaúza. Jairzinho é como joga legalzinho. Não podia esquecer o Lima e seu chute de muita estima. Até parece de encomenda: Leônidas. B. Denílson e Murilo. invicto guerreiro para guerrear. lá. Não abro mão de Nado e Zito.

Bem-nascido no Recife lá no bairro do Copunga e de tendência malunga. Companheiro de nascença ficou sendo da poesia, luz e flor de cada dia. De nós todos companheiro, por isso que no seu verso há um carinho submerso. Entre a Rua da União e a união pelo canto, distribui paz, acalanto. Faz muito tempo que veio ao mundo? Está bem lampeiro, mistura de sábio e arteiro. Gazal compõe e balada, mas se quer ser concretista, concretos fujam da pista. Hertziana magia, fluida, circula em cada palavra, ouro do campo em que lavra. Inimigos, não: amigos são quantos, na trilha amarga da angústia, encontram Pasárgada. Já foi doente, mas soube vencer o mal que há no mal. É tudo lição ideal. K., solitário de Kafka, entraria no castelo ao ritmo do “Belo Belo”. Laura, Natércia, outros mitos o poeta descobre que há no sabonete Araxá. Mas percebe ao mesmo tempo a miséria dos destinos dos carvoeirinhos meninos. Na sua lira moderna a dor de cada criatura

colhe um eco de ternura. O recado que nos manda é um recado experiente de vida e de amor presente. Para chegar à pureza de siderais avenidas, o poeta viveu mil vidas. Quem disse que é sem família no seu quarto à beira-oceano? Seu mano: o gênero humano. Rosas, rosas e mais rosas de Barbacena ou Caymmi em ramalhete sublime sejam portanto ofertadas àquele que no seu horto, mesmo à visão do boi-morto, tem um jeito de existir tão natural como planta que em silêncio se alevanta. Uma planta que dá sombra e dá música - segredo assim em tom de brinquedo. Viva, viva! aos oitent’anos, quem que pode com o velhinho amador de chope e vinho? Xis do problema: este viço vem-lhe d’alma, fortaleza de bondade sempre acesa. Ypissilão foi-se embora do nosso atual dicionário. Que importa? Canhestro, vário, zangarreante cronista, saúdo Manuel Bandeira, estrela da vida inteira.
17-4-1966

VELHO AMOR Mestre Rodrigo, o da DPHAN, que me perdoe se neste canto hoje canto a gentil balzaca de seus encantos e quebrantos, aquela que, noite após noite, e dia após dia, inclusive os domingos - outrora livres, os feriados - antes gozados, ele leva consigo como a laranja leva no gomo sua doce razão de ser, ou senão, como o peixe leva em seu volteio pelas águas a arte e ciência de nadar (no seu caso, é arte de amar). Oh, como vai nosso Rodrigo M. F. de Andrade, atento ao que possa fazer o vento, intempérie, maldade, acaso, a seu amor, e como luta, bravo e sutil, em campo raso, contra a solércia do inimigo! Aqui vence um capoeira adiante um cartola, e outros, centenas de investidas contras as serenas feições e formas do seu love! Merendava, de repente ouve guai lancinante: “Aqui-del-rei!” Corre presto a São Luís, Bahia, São José ou São João del Rei, Parati - ao Brasil inteiro pois essa bela (quem diria) por toda parte anda, e nem sempre há a devida cortesia nem o extasiado respeito à dama que mora em seu peito. De outro amante assim tão gamado juro não sei, que este encanece sem azedume em face à sorte que tanto exige de ternura e de defesa contra a morte - morte, ruína, eterna ameaça a pairar sobre sua amada. Em velho paço, úmido beco, numa igreja desmoronada ou no pico de serra agreste, ei-la que recebe a flechada, o mortal insulto, mas chega

a espontânea graça do berço. e todos acodem a essa amável intimação: Por Dom Rodrigo e sua dama! Por aquela que ele mais ama e a quem. que teus lábios ao natural têm o desenho de uma ilha feita do mais vivo coral. 24-4-1966 . e convoca os mais argutos. pois a original formosura mais resplende a cada novo ano. Nada de truques. iê-iê-iê e pop-art.” Assim diz Rodrigo. Alguém pergunta-me: “É paixão que inflama e passa?” e eu lhe respondo: Dura há trint’anos bem contados. saberá louvar. sem disfarce! “Batom não uses. o que não aspira a maior glória senão ir à Glória do Outeiro. que com seu diadema de História no dia 23 de abril há trint’anos nele encontrou o mais fiel e humilde escudeiro. pois amanhã todo o país. E como sabe restituir-lhe o viço perdido.Rodrigo para defendê-la. são três séculos. entre naves e in-fólios. essa imarcescível Roxana. darei todo o serviço: o nome da namorada rodriguiana. fruto de visível engano. minha filha. Tira este excesso de pintura. este casal Rodrigo-DPHAN. hoje completos. bossa-nova. agradecido. credenciados companheiros para o serviço do seu bem. Já que pequei por indiscreto. de carinho ungi-la. Nunca mais dormirei tranquilo nem terá gosto minha vida se adotares um novo estilo. tão repletos que. querida. é a Arte Antiga do Brasil. deu a própria luz de seus olhos. São trint’anos de luta vã? Não e nunca. por inteiro. salvá-la. pensando bem.

Vai enquadrá-la . soube que a Guerra.esta é forte no artigo tal. inventando este caso sem razão? Que disse a mocinha. em vez de Nara. por conta. é leão? Se o general Costa e Silva. acaso.APELO Meu honrado Marechal dirigente da nação. tem pinta de boa-praça. de inspirado pelo Cão? Que é pela paz e amor e contra a destruição? Deu seu palpite em política. venho fazer-lhe um apelo: não prenda Nara Leão. canhão? Ou pensam que.. pelo nome. se não há preso político. por que tal irritação? Ou foi alguém que.. quis criar amolação a Seu Artur. do contra. por que fazer da menina . na ocasião. já nosso meio-chefão. lhe quer dar uma lição. mais do que charme. favorável à eleição de um bom paisano . enfim. de alta traição? E depois.isso é crime. A menina disse coisas de causar estremeção? Pois a voz de uma garota abala a Revolução? Narinha quis separar o civil do capitão? Em nossa ordem social lançar desagregação? Será que ela tem na fala. não sei não.

mas como aceitarei o minivoto da eleição que se chama de indireta . nem de brinquedo. essa acobreada folha de amendoeira.. Da minissaia posso ser devoto. pelos ares. sabia? E nem adianta prisão para a voz que. o que diz uma cantora dentro da (?) Constituição. espalha sua canção. mudava de opinião. Nara é pássaro. tão meigamente brasileira e remeta ao escalão que.mágica de sabido ou de pateta? . Meu ilustre Marechal dirigente da Nação. estuda. que dura um míni-instante. velho. não te derretas demais. sobre a areia. para pegar no rojão. que fez um tarantantão denunciando Narinha. para viver e sorrir. Ao ouvir o que ela canta e penetra o coração. tão doce. de meias pretas nas pernas jovens. 27-5-1966 NA SEMANA Eis que o inverno chegou. Oi. de lei na mão. não deixe.uma única exceção? Ah. que não está mole não. que prendam Nara Leão.. compre um disco de Nara. o que é música de embalo em meio a tanta aflição. e roda como ao vento da praia. Marechal. no Palácio da Guerra. o Gabinete zangado. ante o espetáculo da moda. De música precisamos.

Se há coisa mais barata? Este lembrete: visitar o Palácio do Catete. neste julho. impaciência. preso ao transistor. A conquista brilhava entre dois toques. entre todos. o poder que era férreo e vira lata. A casa faz cem anos ou cem mil? O tempo é uma ilusão no céu de anil que por sinal anda não mui cerúleo. Era frágil e grácil fazer da glória ancila de nós todos. você vê o fantasma da República circulando entre fardas e decretos.. se na tarde fria há fila para entrar na Academia? Eis que se assusta o grupo de aspirantes: e se não vogam mais as normas de antes? Se se adotar o modo severino que hoje serve ao Brasil de figurino: escolha. Pelé. tudo mais que a História não conta ou conta mal: a pobre glória. vil sucata. e na velha mansão pública. ou (tome cuidado) o Circo de Moscou que mostra luluzinho trapezista e urso bicicletando pela pista.Tão mais simples dizer: “Fica nomeado Fuão de Tal capitão-mor do Estado porque é. dores. tristinho. teia-cinza-de-aranha. excelente na conspícua opinião do Presidente. Que importa a chuva. É de graça. numa lista de três. febre. sem esta Copa! 3-7-1966 AOS ATLETAS Os poetas haviam composto suas odes para saudar atletas vencedores.” Meu caro João Brandão. amor.. revoluções. encoberto. Hoje. secretos conchavos. esqueça a ARENA e siga em busca de outra mais amena diversão popular: boliche. nosso escrete acompanha pela Europa: Não nos deixes. sob a vara de marmelo. pelo Castelo? O Amigo da Onça espalha este boato. manuscritos picados em soluço chovem do terraço chuva de irrisão. desfeito logo após pelo Viriato. proclamações. enquanto o povo. com angústia. .

e. meu flavo canarinho. o engenhoso Tostão. lentamente. coleante. poeta de derrota. o sempre Djalma Santos. canarinho. Que importa hajam perdido? Que importa o não-ter-sido? Que me importa uma taça por três vezes. e não em canto ao capricho dos deuses e da bola que brinca no gramado em contínua promessa e fez um anjo e faz um ogre de Feola? Nem valia ter ganho a esquiva Copa e dar a volta olímpica no estádio se fosse para tê-la em nossa copa eternamente prenda de família a inscrever no inventário na coluna de mitos e baixelas que à vizinhança humilha. essa a espalhar-se em rancor. o malicioso mercúrio de sua perda no futuro? É preciso xingar o Gordo e o Magro? E o médico e o treinador e o massagista? Que vil tristeza.Mas eu. é encontrar-se naquele ponto onde começa tudo a nascer do perdido. sem a qual não há prêmio que conforte. Oi. Canta. o Pelé e Gilmar. a sorte lançada entre o laboratório de erros . qualquer dos que em Britânia conheceram depois da hora radiosa a hora dura do esporte. no jogo livre e sempre novo que se aprende. canta. pois perder é tocar alguma coisa mais além da vitória. no fundo. voando. capricha nesse trilo tanto mais doce quanto mais tranquilo onde estiver Bellini ou Jairzinho. quando a taça tem asas. se duas a provei para sentir. a este e aquele vai-se derramando. me levanto sem revolta e sem pranto para saudar os atletas vencidos.

Gente assim do miserê nunca soube o que é casório. lhe deram este nome não foi de letra em cartório pois sua mãe e seu pai viviam de peditório. pedir a doutor nenhum. o sucedido em Lajes do Caldeirão é caso de muito ensino. criado por seus dois manos. Souvenirs na bagagem misturados: o dia-sim. Vivia em dito arraial do país das Alagoas um rapaz chamado João cuja força era das boas pra sujigar burro bravo.estropiados mas lúcidos. Não carece excogitar. O dia-não completa o dia-sim na perfeita medalha. pois esse é nome de qualquer um. De pequeno ficou órfão. que a sentença vem do Céu. dia-não. não de lá do Barzabum.e o labirinto de surpresas. Hoje completos são os atletas que saúdo: nas mãos vazias eles trazem tudo que dobra a fortaleza da alma forte. voltam os homens . 24-7-1966 ESTÓRIA DE JOÃO-JOANA Meu leitor. João. a madura experiência a brotar da rota esperança. canta o conhecimento do limite. Nem heróis argivos nem párias. tigres. Foi logo para o trabalho com muitos outros fulanos . Ficou sendo João. na justa dimensão. merecedor de atenção. onças e leoas. Por isso é que me apresento fazendo esta relação.

quem que vencia aquele tico de gente. João era muito avexado na hora de tomar banho. No boteco. não guenta mais. Companheiro. Em Lajes nenhum varão tinha recato tamanho. João moço não enjeitava parada com sertanejo. sem mentira.e seu muque. se ele entrava pra bochechar aguardente. Podiam brincar com ele sem carregar no gracejo. Punha tranca no barraco fugindo a qualquer estranho. nem por trás do murundu. o saudavam com respeito: Deus lhe salve. exclama: O que é que eu faço? Os manos vendo naquilo coisa mei’ desimportante. João nas últimas semanas entrou a sofrer de inchaço. Dizia que homem covarde não é cabra. essa camisa não é coisa que moleste? lhe perguntou um amigo que estava de peito nu. logo receitam de araque meizinha sem variante para qualquer macacoa: . era o de três otomanos. João suava que suava sem despir a sua veste. Mesmo assim arranca toco sem se carpir de cansaço. meu parente. é percevejo. Na enxada. Ninguém nunca viu seu pelo. E João se calado estava nem deu pio de nambu. Um dia. Um dia de calor desses que tacam fogo no agreste.

ficou em breve inteirado do que aí vai sem desconto. João entrou no purgativo louco de dor e de medo se entorcendo e contorcendo na solidão do arvoredo pois ele em sua aflição lá se escondera bem cedo. Aquela cena imprevista causou a maior surpresa. O que tanto se ocultara se mostrava sem defesa. No chão de terra. ou como bala que estoura sem se puxar o gatilho. A mulher surgia nele ao mesmo tempo que o filho. O gemido que exalava do peito de João sozinho alertou os seus dois manos que foram ver de mansinho como é que aquele bravo se tornara tão fraquinho. chorava uma criancinha acabada de nascer. João deixara de ser João por força da natureza. Se os manos levaram susto. o nome de João lhe deu. sem saber ao certo. até eu. tal qual se brotassem junto a espiga com o pé de milho. Nem menino nem menina era João quando nasceu. A mãe. acarinhava este ser. dizendo: Vai vestir calça e não saia que nem eu. de peito desnudo. assuntando a estória ponto por ponto. que apenas conto.Carece tomar purgante. . E o povo todo. E João. essa terra que a todos nós vai comer.

Quem vê claro já conclui: de dois males o menor. mas duas vezes escrava é a mulher com certeza. pois escrava de um escravo. para as mulheres capricha num privilégio sem nome. de altura maior que um monte. em João foi-se acentuando a condição feminina. João vira Joana: acontecem dessas coisas sem preceito. ser homem não é vantagem mas ser mulher é pior. No seu colo está Joãozinho mamando leite de peito. pode haver maior dureza? Por isso aquela mocinha fez tudo para iludir aos outros e ao seu destino. É forma de escravidão a infinita pobreza. mas ele jamais quis ser tratado feito menina. A sorte. Pelo menos esse aqui de ser homem tem direito. se presenteia a todos doença e fome. Colhe miséria maior e diz à coitada: Tome. mulher nem chega a ser isso e tem de baixar a fronte ante as ruindades da vida. De ser homem: de escolher . Pois nesse triste povoado e cem léguas ao redor. Homem é grão de poeira na estrada sem horizonte.À proporção que crescia feito animal na campina. Mas rola não é tapir e chega lá um momento da natureza explodir.

. que a vida não anda. isto sim. 31-8 e 2-9-1966 NA SEMANA Uma semana triste: em Rio Claro. E nem mesmo lhe aproveita esta minha pobre lira. o doce timbre raro de Cristina Maristany. e Vila. é o tal aumento de cadeiras em nosso parlamento guanabarino da Praça Floriano. Ovalle. Joana desiste de tudo que ganhara por mentira. de paz e comida. Mal lembrado. Morre também um amigo dos livros (o que para mim dispensa adjetivos). Era Adir Guimarães: lembrança boa de sua biblioteca na Lagoa deixa mesmo em quem nunca o visitou. igualmente repartida. que eu nada te peço a ti senão me ler com paciência de Minas ao Piauí): tendo contado meu conto. me despeço aqui.. tudo que é música florindo no Brasil. calou-se a voz. nosso cancioneiro ganhava nessa intérprete gentil um perfume de rosa ou jasmineiro. pois ao livro serviu.o seu próprio sofrimento e de escrever com peixeira a lei do seu mandamento quando à falta de outra lei ou eu fujo ou arrebento. Mignone. Que pena perdermos tal soprano assim em plena bobagem musical do iê-iê-iê. Já ninguém pode com o trânsito urbano . adeus. Saibam quantos deste caso houverem ciência. Sabe que agora lhe resta apenas do saco a embira. o livro amou. em favor e graça. Meu leitor (não eleitor. Guarnieri. e que dor ensombra a falta de amor.

Por mais que a gente queira. Não te aborreças. um doce. Tanta criança desce do morro e corre e quase dança um balé de miséria e de doçura: Cosme e Damião . descubro. Então mortos. no chão terreno sobre a morte plantar nossa vitória. entre gloríolas festivas: entrou a lei em férias coletivas. venha o controle da natalidade parlamentar. eis que inventou uma casa-de-mortos especial que a morte dribla e ilude.e vem mais essa turma de cartolas com suas chapas brancas? Ora bolas. Enquanto se nomeia o Presidente. meu chapa e meu leitor: até. com Vinicius: Pois-É. e salve-se a cidade! Olhemos para a rua. repousando essa cabeça tonta. temos pressa de cumprir teu maravilhoso anúncio. o creme que vem na porcelana do Congresso. 2-10-1966 A PAULO DE TARSO São Paulo aos Coríntios: “Ao soar a última trombeta ressuscitarão os mortos incorruptíveis.um sonho que não dura a cada um disbribui um caramelo. é Seu Artur. incumbido de quebrar este galho.” Paulo. Demora tanto essa final trombeta. e a ti. Mas o doce melhor. que por desgraça não é meu parente. compadre. E viva o Feriado Nacional que aos meninos e a mim nunca fez mal. ao cinema. e acaso será ouvida entre milhões de ruídos modernos que o bel e o decibel não medem? Queremos já. vou à praia. a torta. ao faz-de-conta. por um novo processo de eleger suprimindo-se a eleição. oh. essa não. uma ilusão de belo-belo. Resta dizer. O nosso irmão Ettinger. Paulo. quem ganha de colher. e. crê-me. parece? .

A mesma Paulo. Paulo. cumpre-se tua palavra.Não. Paulo (ou a de Cristo) a nosso modo: a vida com seus enigmas ameaças pânicos difícil de ser cumprida e desejada apesar disso. Dispensa o coro de trombetas. detêm a corrupção na justa hora de o coração parar. em cada caso.” Em verdade conseguimos (perdoa) a ressurreição em meia . por isso? ocupa novamente o peito ex-glaciar e nele reinstala sua dor de pensar sua dor de amar e a (que não dói. rompe-se o caixão plástico na câmara mortu-refrigerada. nossa vitória aceita como boa: “Ressuscitarão os mortos (in) corruptíveis. perdão. Não a outra. Daqui a 20. apenas desligados da vida. Parou. A 273 gruas de zero abaixo um tanto de glicerol e outro de dimetilsulfóxido (vocábulos de Novíssimo Testamento) impedem a corrupção. mas dói) de esquecer e todas as complementares que pelo ar haviam fugido no tempo da morte clínica. antes de mano Ettinger bolar a mortivida frígida. A droga surge. aquela vida nova. 30. 5 anos. talvez menos. azulfutura a que teu verbo os preparava. Fica esperando que uma droga sutil seja criada pelos nossos irmãos. quem sabe? ressuscitam continuando a lavrar a mesma vida. congelados.

18-1-1967 MÍNI-MÍNI Míni míni míni míni onde está esse biquíni essa hipótese de saia em projeto de menina além da linha de outono? Minissonho. O mundo não é mais bola. nã nã nã fechando na tua palma o resíduo de napalm mais o grãozinho de arroz brotado no Vietnam entre pedaços de corpos e princípios em pedaços. seja suja que ao desperdício da chuva causa a chuva radioativa. dorme. miniguerra: será canção dormideira que aos habitantes da insônia traz o minirreconforto? E onde está o minimorto a gozar no minicéu o miniprêmio da paz? Dorme. Míni míni míni míni tua bomba vira pílula que é muito mais baratinha e dispensa de matar dispensando de nascer mas sem dispensar a bomba seja limpa. míni-ideia. miniarte. Míni míni míni míni ao sol a cigarra zine diversa de sua mana que zinia na janela . melhor lhe chamem bolinha que na fração de segundo a náusea pipoca em modinha.confecção. Entre o ácido lisérgico e o óxido de deutério que quer o meu camarada? Quer as armas nucleares quer os pagos estelares quer as coisas singulares assombrar Matias Aires revelando o minicosmo.

nana míni. Angústias de Oriente Médio. quando deixareis à vida a chance de ser vivida? Entre dormido e acordado entre descrente e dopado entre vítima e soldado entre embusteiro e enganado entre silêncio e protesto lá vai o meu homenzinho míni-homem? miniensaio de mais lúcido. até que a vista adivinhe solo amore per confine. 24-5-1967 ALTA CIRURGIA O cão com dois corações vagueia pela cidade: um coração de artifício e o coração de verdade. vivente? Míni nana. no propósito de servir à humanidade. Evtuchenko dedilhando sua doce balalaica para Salazar dormir. Exulta a ciência. mais gaio ser convivente. do Brasil a outra metade. E se ao tédio vem o tédio se somar. que há de mais carinhoso que um cão de dupla cordialidade? Não para aí. a cirurgia moderna. que obrou tamanha curiosidade: metade é glória da URSS. ó fazedores de morte que não cansais de fazê-la em vossa maligna sorte de redigir pesadelos.de Olegário Mariano. Se o cão é a doçura mesma em seu natural. para espertar quem esteja cochilando. gêmea da publicidade. . uma guerrilha depressa.

Já pega de outro cãozinho com a maior habilidade (não vá um gesto fortuito lembrar o Marquês de Sade). implanta-lhe outra cabeça. sem perceber entretanto do Brasil a realidade: tanta gente sem cabeça merecia prioridade. com ele vinha . dois latidos. não havia trabalho. quando os doutores do enxerto tinham mais necessidade. que já tem a sua. C. ministro do Trabalho em Washington. D. Ora. acuidade maior. Se nos furtam dois ladrões. 1-10-1959 COMENDO CHAPÉU James Michell. rendimento duplo: viva a produtividade. E o coração. para trabalhadores. “preparou” a Faculdade. Nem o cérebro eletrônico o vence em mentalidade. e homem sério. é pena dá-lo ao cão. esse. Mitchell sentiu-se no dever de dar emprego a quem não tinha mas queria trabalho. essa liberalidade. vindo outubro. e ao cão. Cão bicéfalo: prodígio que nos infla de vaidade. E garantiu que.. Dois cães que valem por quatro. que é só bondade. Na carne do bicho abrindo uma vasta cavidade. que uma não é novidade. notou o contrassenso: para o trabalho havia um Ministério com toda a cibernética montagem.

e bem contadas as filas de chômeurs. E tão seguro estava do milagre que prometeu de pedra e Califórnia comer de aba e copa o seu chapéu (dele Mitchell. maiores e menores todos os brasileiros passariam a ter trabalho. teve bastante trabalho mastigatório. tome nota: Vai no vapor alguém que recomendo ao zelo neerlandês meticuloso com tulipas ou vidas. Fique atento quer ao concreto quer ao vaporoso. com o quê. mandou fazer um de chocolate e nozes. 15-11-1959 RECADO Ao comandante do navio Aldábi que ora deixa este porto: boa rota e que tudo lhe corra a vento suave. ministro do Trabalho) se algum trabalhador ficasse ao léu. No Brasil.000 a mais do que em setembro). mas sobretudo. Eis que outubro apontou.200. . no ramo confeiteiro. de feijão. verificou-se que 3. amigo.de carne. e muito. aliás. se os governantes resolvessem comer chapéu ao falhar uma promessa .000 pessoas estavam sem trabalho (40. de água à beça e outras metas.trabalho tanto e em tal variedade que seria trabalhoso e mesmo vão evitar trabalho. e comeu-o no hall do Ministério do Trabalho. mas como tudo é chapéu. mas não havia chocolate que chegasse e nem tampouco nozes para chapéu de bolo no ano inteiro. Mitchell não teve dúvida em cumprir o seu enchapelado compromisso. e o caso omisso.

infinito viver em comunhão. irá vê-lo. meu castelo de água e sol. remédio. Leve-o. púrpura bandeira. . Que demanda o viajante? uma londrina lua reticenciosa. noite-alvorada. mas venusinamente abrindo espaço claro e profundo a périplos serenos. navio. 21-7-1957 CANÇÃO DO FICO Minha cidade do Rio. rico de vida. índias. entre os turistas papa-milhas errantes pela Terra: as forças naturais lhe são submissas à alquimia do verbo.Este é diverso. sem ver Vênus. o nosso grande e bom Manuel Bandeira. Zele e traga de volta. e fica não sei onde. pois foi aqui. a dois meses de mudança dos dirigentes de prol. Vai sobre o mar. pontualmente. Foi bom que este seu barco se chamasse algo assim como estrela. angra. milagre de evangelho. alvissareiros descobrimentos do subsolo humano contidos na palavra cadenciada que punge e que embalsama. tanto artifício gentil. e ora jovem e são. a meia-tinta de coisas ocorridas dentro n’alma? Mas Londres. de pernambucanos. Pois milagre é a poesia. ou leva o mar consigo? o mar de sentimentos brasileiros. (“O poeta é um fingidor. que não erra. por que Londres? Não pergunte aquilo que ele mesmo não responde.”) Seu reino é Tule ou Pasárgada. Aldábi: leme. e verso. minha terra de nascença terceira. e tanto. em leve travessia a essa Europa que o viu enfermo e velho. a ponte calma sobre o rio discreto.

meus livros velhos nos “sebos”. favelas portinarescas onde o samba se arredonda. Cristo em névoa corcovádica. e claustro beneditino. que ao crepúsculo são aves minerais. coxas libertas de saias. em meio a palmas imperiais. cinemeiro Rio. mel do instante. meiers. mantendo acesa a candeia. Dr. andaraís. e entre cujos azulejos esvoaça o Espírito Santo. na rua de São Clemente. Rio de ontem: Rui Barbosa. calmas. flamengo ou vasco.em êxtase. que o mar e seus mundos vi. alumbramento.da Tijúcar (!). mapa aberto à luz das praias. Campos Porto. gáveas. que Rodrigo zela tanto. códice de piada e gíria. sal de batismo na onda.louca rima . saci oculto nos morros. meu parlamento das ruas. sob a unção de oitenta luas. meu chafariz do Lagarto. ciceronianamente. atlético. meu cravo solferino. meu anel verde. bondinho do Pão de Açúcar e pescarias na barra . porosa urna plena do noivado de uísque com manga-rosa. minha igrejinha do Outeiro. meu terreiro de São Jorge. . minha fluida sesmaria de léguas de cisma errante. no horto botânico.

fazendo diabruras. se todas elas agora são as flores da linguagem? . e a tarde. gosto de viver. como cristais de orvalhada. descalça. Rio antigo. e brisa que alisa os cuidados meus. o governo vai-se? Vá-se! Tu ficarás. e sorriso. de fato. agora te dão em troco. em gratidão e carinho. não sei que beleza infante. Rio eterno. e eu contigo. e conservando no rosto. “dependurada”. imensa. no fundo. cidade que tantos bens deste a todos. De nada vale exorcismo contra o Demo itabirano? Ou talvez quem o exorciza quer ir na onda do engano? Que Tinhoso hoje se lembra de dizer crespas bocagens. mal vestida. ou meros e pobres diabos vagamente melancólicos? Li que. diabólicos. mal comida. calor. aturdem parapsicólogos como os Capetas antigos aturdiam sábios teólogos. pairando: lá longe o Dedo de Deus.e esse tostão de paisagem da janela de meu quarto. Rio-oceano. e tão pouco. Rio amigo. é fumaça. e graça: pouco importa que te levem o que. 21-2-1960 DIABOS DE ITABIRA Os demônios de Itabira serão.

Vê lá se terias chance de enrubescer Ipanema. Canhoto. E nem carece ser mágico. que este truque a gente sabe: o povo corre e não pega as tabelas da SUNAB. sem esplendores e chamas? E por que em Itabira teus cascos foram parar? Se nas terras do sem-fim havia tanto lugar? Se aí onde tu aspiras a chatear meio-mundo. a machado. Meu Pé-de-Pato pernóstico no vazio do Cauê: a tuas artes prefiro as do Saci-Pererê. por si. Mas por que tão micho surges. Quebras pratos: nem ao menos como o Vale do Rio Doce. Fazes correr os sapatos. nem no espaço de um segundo? . se queres obrar o mal. pois Torto também te chamas. meu Carocho. vai ao teatro. que já saiu do currículo como a pedra sai do rim. Estás desatualizado. no embalo. a foice. ao cinema. fazes desertos na mata. Desculpa-me a rima torta. Ele apenas assobia.Entra. Ele hoje em dia se usa é na escala universal. não tens sorte. a fogo. à frente dos pés? Qualquer mágico de esquina faz isso e inda faz mais dez. não quer saber de Latim.

jogou ao mar a taça de ouro em que bebera todo o amor. apaixonado.não são diabólicos. E Goethe fez uma canção desse amor e dessa áurea copa que o pobre Nerval traduziu (il la vit tourner dans l’eau noire…) e mais Gounod e mais Berlioz espalharam pelos teatros líricos. 23-6-1967 NOVA CANÇÃO (SEM REI) DE TULE Há muito. Os diabos de Itabira . o nosso inclusive. Foi há tanto. por sua vez. os seiscentos mil Diabos. no fim da vida? E é ouro mesmo? Não: plutônio (o duzentos e trinta e nove) e urânio. seu irmão-primo (o duzentos e trinta e cinco) tão juntos como outrora juntos em amoroso contubérnio o rei e sua amada estavam. E Tule é outra.juro .Pois a ironia da terra que deu Tico e deu Fernando Terceiro e deu Minervino ri de quem a está gozando. melancólicos. São meros. sem recorrer a água-benta nas pias e nos lavabos. mas três ou quatro alfaias de um rei dolorido a desfazer-se de lembranças inefáveis. . há muito. E goza. e pobres diabos sem assunto. muito tempo um Rei de Tule. Mas que vejo? Que objeto é esse lançado às profundas do Mar de Buffin quando até as óperas mudam de tom em seu texto eletrônico? Nem é um só. Sob a blindagem protetora. nevoso tempo! Já não se jogam taças de ouro numa varanda sobre o mar nem em qualquer outro lugar.

o idílio desses elementos é de infernal doçura, mas cuidado: se o detonador detona, o mundo vira caco ou pó de caco, pois amor com tal potência em megatons é antes símbolo de morte do que uma rima para flor. Focas em pânico: “Por que nos remetem para depósito esses invólucros letais seguidos de uma caixa negra com cabalísticos sinais, se nenhum crime cometemos em nossas solidões claustrais?” Esquimós repetem em coro a angústia das focas, o medo: “Ninguém pode viver tranquilo nem ao menos neste degredo? Que presente é este, sem dó, agredindo a paz do esquimó?” “Calma, filhinhos - uma Voz ressoando não se sabe de onde, esclarece, pede desculpas: Foi apenas um acidente em treinamento de rotina que dia e noite, mês a mês, ano a ano, nossos motores (oito) dos B-Cinquenta e dois vêm fazendo no mar das nuvens com esses mimosos engenhos tão amoráveis e perfeitos e de prodigiosos efeitos para o fim de lembrar ao Homem que viver é graça precária dependente de nosso arbítrio, e portanto não facilite se não quer converter-se em cinzas sem sequer urna cinerária. São bombas, sim, mas bombas bentas pelo nosso santo desejo de dirigir bem deste mundo: Já não espada de justiça nem lanterna do entendimento, nem quimeras que a mente atiça e se esfumam no vão do vento. Fiquem quietas, amigas focas, caros esquimós, bocca chiusa: não se mexam em suas tocas, que não é hora de alaúza.”

Disse a Voz. Seu ensinamento verruma os arcanos gelados para atingir a consciência dos mínimos seres terrestres. Ninguém mais joga copa de ouro ao mar, nem há mais Rei de Tule. Mas, de vem em quando, uma bomba (ou três ou quatro) se diverte fazendo o úmido trajeto. Goethe também já não existe para compor sua canção, nem Nerval nem os mestres músicos dos velhos tempos do Oitocentos. Então, este simples escriba claudicante na versiprosa, eis que tentou versiprosar mais um caso de bomba ao mar.
26-1-1968

O NOVO HOMEM O homem será feito em laboratório. Será tão perfeito como no antigório. Rirá como gente, beberá cerveja deliciadamente. Caçará narceja e bicho do mato. Jogará no bicho, tirará retrato com o maior capricho. Usará bermuda e gola roulèe. Queimará arruda indo ao canjerê, e do não-objeto fará escultura. Será neoconcreto se houver censura. Ganhará dinheiro e muitos diplomas, fino cavalheiro em noventa idiomas. Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. O homem será feito

em laboratório, muito mais perfeito do que no antigório. Dispensa-se amor, ternura ou desejo. Seja como flor (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. Vai abrindo a porta com riso maroto: “Nove meses, eu? Nem nove minutos.” Quem já conheceu melhores produtos? A dor não preside sua gestação. Seu nascer elide o sonho e a aflição. Nascerá bonito? Corpo bem talhado? Claro: não é mito, é planificado. Nele, tudo exato, medido, bem-posto: o justo formato, o standard do rosto. Duzentos modelos, todos atraentes. (Escolher, ao vê-los, nossos descendentes.) Quer um sábio? Peça. Ministro? Encomende. Uma ficha impressa a todos atende. Perdão: acabou-se a época dos pais. Quem comia doce já não come mais. Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo. Sua independência é total: sem marca de família, vence a lei do patriarca. Liberto da herança de sangue ou de afeto, desconhece a aliança

caríssimos. e unidos todos aos Acadêmicos do Salgueiro do Engenho da Rainha da Academia Brasileira de Letras e de Santa Cruz acolitados pelos Aprendizes da Gávea pelos da Boca do Mato pelos Índios do Leme. 17-12-1967 UNIÃO NACIONAL EM TRÊS DIAS Quem falou em guerra? Chegam todos unidos: Unidos de São Carlos Unidos de Vaz Lobo Unidos de Vila Isabel Unidos de Nilópolis do Cunha de Manguinhos e Padre Miguel de Lucas.de avô com seu neto. de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias aos Azulões da Torre aos Caprichosos de Pilares . feliz. Restam. de Jardim da Tijuca. papagaio. sem memória e sexo. Pai: macromolécula. Uni-vos. por que não? pois rompeu o nexo da velha Criação. da Ponte do Morro do Pinto Unidos do Tuiuti da Vila São Luís da Vila Santa Teresa Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi Unidos (ecumenicamente) do Éden. e. Bem feito. livre. mãe: tubo de ensaio. acabou com o Homem. eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório. os Independentes do Leblon (que antes eram Inocentes) os de Mesquita os Decididos de Quintino. é certo. per omnia secula.

um desvendar-se no grande aboio das manadas rítmicas desfilando entre turistas de aço até raiar o dia e a fantasia desfolhar-se? Unidos desunidos confundidos diluídos possuídos do diabo dançarol e cantarinho endemoninhados da Pavuna festivos de Ipanema repetentes do Fundão abandonados de Deodoro mutilados de Del Castilho corruptos da Lapa Velha . à sombra de Mangueira no pulo-bolo-pulo dos clubes no tablado da Rua Miguel Lemos de nosso mal-viver faça-se um sonho em kodak-chrome coruscante de strass e tão tamborinado que na pele tensa percutida a alma ressoa. um dar-se. Com todo o frevo. chegou a hora da União Nacional. oba oba. me dê a mão vamos pro meio do salão com Dona Beja feiticeira do Araxá e o Crioulo Doido decifrando sublimes pergaminhos. com todo o frevor com todo o samba que é uma tristeza aberta em alegria à porta de Portela.diremos aos irmãos do Império Serrano do Império de Marangá do Império de Campo Grande aos de Lins Imperial aos da Imperatriz Leopoldina: Diletos. De flor no cabelo de flor na cara de cara-de-pau de pau-de-arara de arara real no Municipal de umbigo de fora de fora da terra me dê. o som é dor sem amargor. Fuga? Integração? Um sair de si mesmo em travesti um encontrar-se.

Destes dez. e. Cecília. Jorge de Lima? Dos pintores. aqui e agora re-unidos num projeto de vida à flor da vida. estarão fazendo seresta? Pois ficamos nós. Vinícius de Morais e o autor desta cantiguinha joco-nostálgica. vinde todos. de olhos verdes. Manuel.humilhados de Ricardo de Albuquerque párias. ao voltar da livraria onde encontrei o exemplar nº 9 de 10 Poemas em manuscrito. vinde todos. editado por João Condé em 1945. Murilo Mendes. do Nordeste em fogo e chuva afogados do Amazonas párias de toda parte vinde vinde todos. tem cautela. que sois a verde maravilha. Qudê Mário. Candinho e Santa. Augusto Frederico Schmidt. este se esconde. Jorge de Lima. Faz muito bem. poupa o casco de teu airoso barco a vela. e sou romano ao menos uma vez por ano. Abgar Renault. eis que de Roma teu verso chega. Manuel Bandeira. Caro Vinícius. Longe Murilo. pelo cosmo. com ilustrações de Portinari. a estrela matutina . Macunaíma? Estás no céu. 25-2-1968 NA ESCADA ROLANTE do Edifício Avenida Central. Augusto Meyer. porcelana que deixa filtrar o crepúsculo: o coração é flor ou músculo? De Schmidt contam-nos as folhas mais e melhor que a cantilena desta mal informada pena. Augusto Meyer. Mário de Andrade. Santa-Rosa e Percy Deane e textos de Cecília Meireles. um só nos resta. O mano Abgar. Protegei-nos nossa. já não vivem dois. marinheiro. É em segredo que se goza de paz avonde.

sem conflitar? e de cada gota redigia nome. Que lá perpetram um livrinho só deles.e a da tarde brilham igual? Viver em luz é tua sina. Oito. fim. cada qual com a cor de suas águas? sem misturar. aqui rabisca novo autógrafo. Éramos dez em manuscrito. curva. ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido. com Santa e Candinho. falando? Guardava rios no bolso. o poeta sem poesia. No mais. . carregamos no alforje a saudade de Mário e Jorge. mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora. de invisível texto paleógrafo. florindo como flor é flor. 25-5-1963 UM CHAMADO JOÃO João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar. para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos. buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel.

sésamo? Reino cercado não de muros. para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar. A mão que move o fuzil . dos poderes. apelador de precípites prodígios acudindo a chamada geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos. que se entrelaçam para melhor guerra. civilmente mágico.e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos. mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com… (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio. códigos. chaves. das supostas fórmulas de abracadabra. 22-11-1967 O MORTO DE MÊNFIS A arma branca e o alvo preto não cabem no soneto.

borda o epitáfio: Aqui jaz. Legião. Onde a vida fala sua esperança ele crava a lança. Para ódio e seu olho telescópico formam um demônio ubíquo. . sem cor. Fica no ar o som do verbo matar. Onde a vida brota seu talo verde. a mata é basculante de banheiro. Nos vergéis da justiça o sol faísca sobre carniça. (Ou janela debruçada sobre o carro. Não perdoa a vida. na linha de horror da caçada. Caça ou curra?) O homem não se reconhece no semelhante.destrói o til da canção. Na varanda. desossada. mais nada. Seu nome. a paz. os restos do amor. ele vai e corta. Na linha de cor na linha de dor.

torto espinho? As artes. os sonhos dissipam-se no projeto medonho. O homem ignora tudo que já sabe. O que mais o assuta. Sua intenção é matar-se na morte do irmão? É negar o irmão e seguir sozinho seco. mais força que a morte. emerge a vida pura. Vai continuar.O homem anoitece. pânico. 12-4-1968 PRECE DO BRASILEIRO Meu Deus. A raiz do homem vai tentar de novo o ato de amar. Ninguém mais o pode matar. surdo. Vai recomeçar. O morto de Mênfis continua a amar. Continuar. em sua fraqueza mais forte que a força. Mas renascem. E não chora. . De lágrimas. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. o que mais o ofende é a luz vasta. tortura. só me lembro de vós para pedir.

tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você.não tinham nada. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. rogo. malcriado. Parambu. sobressaltos. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. ao bode. muitas e boas. armazéns arrombados e . vamos papeando como dois camaradas bem legais.. Em Iguatu. tão gravata-e-colarinho. Comigo é na macia. E mudo até o tratamento: por que vós. e já! numa certeira ordem às nuvens. Meu querido Jesus. florindo e reflorindo. Senhor. puro.o que é pior . não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira. chover a chuva boa. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. assaltos. Fazei chover. que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? . bem brasileiro. o abismo do infinito. aquela coisa. no veludo/lã e matreiro. Baturité. as revoltosas? Tudo é pois contestação? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria.Desculpai vosso filho. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. o outro. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. Fazei. aquela que. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. ficamos perto. Senhor.. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. pecador. à erva seca. mas sou vosso fã omisso. Senhor. o muro. Ou desobedecem a vosso mando. um.

ó irmãozinho. antes fechadas. Eu ia lhe falar noutro caso. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. vai ao cinema. muito encabulado. O mesmo drama. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia.. mais sério. toda vida.. Pois é. 30-5-1970 . a ronha de Pelé. Fiquei. em riquezas. mais urgente. mas pedir. agora. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. a cuca de Zagalo. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. Disfarcei e sorri. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. Você. Dê um jeito. Meu coração. em fontes. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. meu brasileiro. tem a ONU. meu caro. meu velho. e faça que essa taça sem milagre ou com ele nos pertença para sempre. Escute aqui. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. confesso. No entanto. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. você lê os jornais. meu cronista e meu cristão: essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. a unha de Tostão. você sabe. Vamos mudar de assunto. Fiquei calado. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. assim seja.E você me responde suavemente: Escute.

embaixo do letreiro: SOL E ALEGRIA . Prego! pregou na hora a vez de desfilar. dividem entre si o terceiro mundo mas resta sempre um quarto. Machado de Assis segue no encalço de Capitu metida num enredo mano a mano com Gabriela amor-amado. Pau comeu 400 músicas gravadas. cavalo não é paietê. um solivagante Eu sozinho a carregar todo o peso da graça antiga na Avenida. 400 garis a postos para varrer o lixo da alegria. A gata de vison arranha a bela acordada nos bosques da Portela. assiste à divina comédia de Bornay. É cedo. o Poder e a Glória. Chave de Ouro.A FESTA I / CARNAVAL 1969 A festa acaba impreterivelmente às 4 da matina mas se houver vaia continuará até às 5. Turistas fantasiados de turista em vão tentam galgar o olimpo das bancadas. um quinto. festa depois da festa. Helena entra a cavalo. Salgueiro ao sol abafa no atabaque e na harmonia. Naval navega onde que não vejo? 70 PMs. pode não. Boneco gigante prende o passarinho na gaiola. o Ídolo de Marfim e Eleonora de Aquitânia à la tour abolie. Dante já não escreve. 2 fetos. Wilza Carla de ovos de ouro distribui pintos de prata à distinta comissão julgadora indecisa entre Tason. . 6 ou 7 cantadas. espera um pouco. 355 menores apreendidos. enfrenta o gás e o cassetete. Minuto de silêncio corta o samba em duas fatias doloridas de nunca-mais. Pode não. Ford e Verushka. 52 mortos em desastre. 40 detetives especializados engrossam o golden-room do Copa. 17 homicídios.

. ô. ô. premiou fantasia do baile de 1920. A festa assusta e atrai. ô. Júri safado. nas lojas. nu e só. Que é que eu vou. que um vale por dois. A moça no pula-pula do salão perdeu o umbigo. a festa é festa ou um raio caindo na cidade? Que peste passou no ar e foi matando formas simples de vida costumeira? A cidade morreu nos escritórios. Estoura no asfalto em flores furta-cores girandólias entre florestas metálicas batendo palmas e vaiando entre postes fantasiados e vinte mil policiais. ô. Levanta a cabeça. Explode meu Rio e sobe. Pobre júri de escolas. será gratificado.Júri soberano. 20 horas. que é que eu vou dizer em casa. até a Lua vai a nave da rua e sambaluando exala em quatro noitidias queixumes recalcados o ano inteiro. Janelas trancadas em protesto ou submissão. Quem encontrar favor telefonar. 20 anos indormidos. A cidade explode nos clubes cantansambando sambatucando vociferapulando. A noite cobre a noite do desfile interminável qual fio de navalha e deixa cair a peteca. Bairros inteiros petrificados em mutismo. os grandes derrotados te saúdam. Bem disse Nana Caymmi: Carnaval me dá falta de ar. já não precisas dizer nada. 23-2-1969 II / CARNAVAL 1970 Quatrocentas mil pessoas fogem do Rio duzentas mil pessoas correm para o Rio inclusive travestis. E resta um bafo da onça na calçada junto a um confete roxo e um pareô sem corpo. nas indústrias.

sarrafos em fila processional sobre as cabeças. ainda quando há desrazões de ser feliz. A bateria deixou a desejar. Há muitos anos acrescentam-se bonecos de plástico.) E repetiu os gestos. quem entende? (Quem quiser que sofra em meu lugar. acode. No bafo da festa da onça na vibração da pluma do cacique no rebolado de Dodô Crioulo no treme-treme de bloco frevo rancho . caros ouvintes. deixa pra lá. Meu Deus. objetivos: “Não foi bem assim. Faltou isso & aquilo.A decoração desta cidade eram mares. E meu Rio bordado de palhaço brincou na pauta. adeus adeus. Acharam pouco. Brincar é seu destino. montanhas e palmeiras convivendo com gente. renovando-os um após o outro. como se este fosse o carnaval primeiro sobre a Terra ou o último carnaval.” Ah. deixa falar. faltou carnaval ao carnaval. este samba é demais. tão geniais. ou por isso mesmo. E foram todos ao primo baile do Municipal e os européis das fantasias monumentais ninguém sonhara tão divinais e as escolas de samba autêntico (menos ou mais) nunca estiveram. faltou garra. Deixa o cavo coveiro resmungar que há longo tempo o grande Pan morreu. ordem turística. Aquele prêmio? Plágio de plágio de 58 (veja nos arquivos). brindando no lugar dos que não brincam ou mandando brincar. brincou fora da pauta. Na tribuna computadores críticos analistas.

amor.na bandeira branca da paz e mais amor. que finge de brincar na distância. Mas deixa pra lá. buraco na rua & outras evidências pedestres. Voltaram cheios de notícias e de superioridade. por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR. 12-2-1970 FALTA UM DISCO Amor. quase nada: todos os enfeites não chegam a um milhão e meio de cruzeiros novos: contas radiantes de colar no colo da cidade à beira-mar. E quem fez os coretos do subúrbio? Foi o subúrbio mesmo. Na minha rua todos viram E falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende. sempre o mesmo. sempre novo no infantasiado coração do povo. de Madureira e Jacarepaguá. no ermo e profundeza de buracos de estrada por tapar. meu compadre? Oh. Sou o pária. aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema. . deixa falar a voz da Penha. E ficou barato o pagode. todo carnaval é o bom é o bom é o bom. pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali. sem dólares. sem dólares. O carnaval é sempre o mesmo e sempre novo com turista ou sem turista com dinheiro ou sem dinheiro com máscara proibida e sonho censurado máquina de alegria montada desmontada. estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. Olham-me com desprezo benévolo. na pobreza sem paietê.

. talvez. os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. Este não diz nada para mim. o disco? Ele me foge e ri de minha busca. ..? Isso me garantem meus vizinhos e eu. mas o jeito. a forma. Por que a mim. pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo. dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão.Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar. Não viu? Não vi. somente a mim recusa-se o OVNI? Talvez para que a sigla de todo não se perca. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias. Mas o disco. Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis. em vão procuro noite e dia o zumbido. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx). chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. a cor de um só disco voador. de boca. (Os pastores desta aldeia já me fazem zombaria pois procuro.

estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor. ortografia e sexo? vende novas crianças de urânioplac. estou tristinho. e eu ataco: por favor. Mas que cometa é este que. e louco é ver na estrela um bilhete divino? Tago-Sako-Kosaka vende um novo automóvel veloxsiderobárbaro? uma nova mulher sem falhas de motor. Nova Iguaçu talvez? Como apurar se o morto era apenas um louco. TAGO-SAKO-KOSAKA TAGO-SAKO-KOSAKA vem da noite de Tóquio atucanar-me a cuca. enfim. batata. aqui mesmo. a que vem essa estrela tão tarda. flagrado na exata.Amor. sua órbita me tapa e não se vê de fato nem tico de cometa no azul-noturno mato? Tago-Sako-Kosaka estrela-de-Belém (dizem uns). imunes ao palavrão e ao tóxico? Vem ao mundo contar que surge a nova era para os homens. . anunciar o quê? por quê? de graça? a quem? É anúncio. Tago-Sako-Kosaka? Vem um outro Messias no rumo de outra cruz e é nela pregado. ou de um poste.

o guarda. que nem se mostra à vista nem dá pelota ou pista? Sobre nós. estrela de pavoroso augúrio.e tudo que era injusto e tudo que era infame a um sopro se espedaça que nem folha de inhame. Há de ser um cometa da polícia secreta. Sako e Kosaka percebem o susto que nos pregam descobrindo esse astro? E tão maroto é ele. e nessas profundezas é bom que eu não me meta. a vizinhança: Onde o cometa? sua cabeleira não vejo. quem sabe. e a nova realidade é beleza e verdade? Que vem. cometa ou o quer que seja no espaço que negreja. e lança a turbação e o pânico: é signo de esperança? correio de desgraça? ou mera promoção de rádios do Japão? E fico. comunicar o termo da experiência terreste: tudo falhou. 24-1-1970 . sobre nosso destino obscuro passa o cometa nipônico todo mistério. e resta ao falido cientista (oculto) arrebentar de uma só martelada a retorta e a cobaia? Tago (três sábios). a noite inteira interrogando a treva.

fumante de cigarro de palha marca Pachola. ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos. eis Moura . o Quartel Geral e Santa Rosa. esguia palmeira Pindarea concinna: o ser ajustado à poesia como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.promover desquite litigioso? Torcedor do Atlético. Toda palmeira na essência é estranha .de modernismo. Vejo sob a lua perfumada a cravos de Barbacena. Ptyx. tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”. assistes ao passar de gerações: A Revista. Complemento. entre o Córrego d’Antas. poeta? Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira. posto que doutor de beca para foto de colação . Surto. Viaja. outra . mineira. Tendência.. entre o Campo Alegre e a Estrela.POETA EMÍLIO Entre o Brejo e a Serra. e tem paciência carinhosa com os netos. nós todos na esperança de um vale do Bola . alojado na Pensão Mondego o rapazinho fazer distraídos preparatórios (para ser como toda gente bacharel formado) e preliminares poemas em busca da clave própria.doidinha .de tantas noites andarilhas nas jasmineiras ruas peremptas de Belo Horizonte. Com serenidade de irmão que vai ficando tio e avô.quem o veria requerer despejo? . O Diário de Minas. o Aterrado. quando não os prefere fazer ele mesmo com ponderada. nasce em 1902 o poeta Emílio (Guimarães) Moura. Advogado não seria. lembras-te. Edifício. emiliana perícia..alegar falsidade de testamento? . E cresce. uma página de: Viva o Governo. rocha sensível em meio à evanescência das coisas de que guardas exata memória no coração de palmeira solitária comunicante solidária. Vocação.o Eduardinho gerente.

se a anatomia me ensina a tocar a concertina em busca ao mapa da mina que ora muda de lugar? Já nem sei mais o que digo ao divisar certo umbigo: penso em flor. Fiel à casa primeira e reimplantando-a no lote da palavra. mestra de doutrinas líricas disfarçadas em econômicas e o mais que esta conta em voz baixa. a blusa comum. moda. salve. graça que mostra o que esconde. sereno/desenganado agulha terna apontando para o enigma indecifrável do mundo poesia teu nome particular é Emílio. cereja. Salve. e em louvar o costureiro ou costureira . sussurro de viração nas palmas: amizade. 12-4-1969 EM LOUVOR DA MINIBLUSA Hoje vai a antiga musa celebrar a nova blusa que de Norte a Sul se usa.em sua exemplaridade: palmeira que anda. pois tanto faz. Leblons. que traz à matéria viva a prova figurativa! Pode a indústria de fiação . como graça de verão. sol de sal. penso em deixar de pensar. teu doce apelido é Emílio. ave pernalta palmeira que ensina. de alegre inventiva. fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha. Marambaias e suas areias gaias). mas onde um velho da era do bonde encontrará mais mensagem do que na bossa estival da rola que ao natural mostra seu colo fatal.joalheiro que expõe a qualquer soleiro esse profundo diamante exclusivo antes das praias (Copas. ou quase. figo.

vale tudo.. falte embora rima em urva. miniblusa. que me bota comovido e bole em cada sentido. apenas). e lembra a drósera. blublu de semiblusa.. pois adere a cada imagem qual sua própria tatuagem que ninguém copiará. És pano de boca? O palco tão redondo quão seleto que abres ao avô e ao neto (à vista. ainda é a doce pele. que me perco na fiúza de capturar o mistério . Drósera? Drupa. No cenário em suave curva nosso olhar jamais se turva. 12-1-1969 . Miniblusa. flor carnívora exigente que pra devorar a gente não cochila certamente. de Ipanema ou Siracusa. Ai. garanto que quem te acusa a cuca há de ter confusa. talvez. pois mais alto se alevanta o sem-véu da miniblusa. cada ano.Quid mulieris. objeto é de puro encantamento. Que importa? A melhor fazenda o mais cetínio tecido.. drusa tão bem inserida na superfície polida que a blusa desvesteveste. o Tesouro Nacional.. vanilóquio verbolório e versiconversa obtusa de tudo que a musa canta. Mas chega de latinório. carnoso fruto de vida.do corpóreo. pois é pelúcia-piscina onde a ilha umbilical vela a urna de São Gral.? . de original padronagem.carpir-se do pouco pano que o figurino magano reduz a zero.

Carlos Leão.FIGURAS DE CARLOS LEÃO O corpo feminino revelado em sua linha virginal e eterna (cada manhã. contrai-se. surpresa e novo encontro a cada novo olhar que nele pouse): são de Carlos Leão estas figuras fruto de sua mão ou se criaram por si mesmas. à luz dos movimentos que a mulher vai fazendo e desfazendo no simples existir da intimidade? A melodia corporal expande-se. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um dos mitos cênicos. com amor. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Morrem mil Cacildas em Cacilda. O sono. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas. Era uma pessoa e era um teatro. tudo é música no gesto ou no repouso. esse escultor modela raras formas e aparências. 9-6-1970 ATRIZ A morte emendou a gramática. modernas e futuras irreveladas. que tudo vê e sente. 17-6-1969 LUAR PARA ALPHONSUS Hoje peço uma lua diferente para Ouro Preto Conceição do Serro . recolhe-as no seu traço.

Conceição filtrado suavemente da poesia de Alphonsus. Há de ser a lua mágica e pensativa a lua de Alphonsus sobre as três cidades de sua vida. não há cocks autógrafos. ninguém possa alegar: Eu não sabia que ele fazia cem anos. Algum estudante. no silêncio de sua mesa de juiz municipal meritíssimo poeta do luar. Comemore-se o centenário do poeta com uma lua de absoluta primeira classe bem mineira no gelado vapor de julho bem da Virgem do Carmo do Ribeirão dos menestréis de serenata bem simbolista bem medieval. badalos. gravações. Não venha a lua de Armstrong pisada. Algum velho da minha geração. uns poucos doidos mansos.Mariana. espero vê-lo debruçado sobre a Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte. Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même . Mariana. Mas não é para soltar foguete nem fazer os clássicos discursos ao povo mineiro dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta numa vida banal sem esperança. penetrando o cerne dociamargo de um verso alphonsino cem por cento. sim. Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas inundando as prefeituras os bancos de investimento de Belo Horizonte a própria polícia militar de modo que ninguém se esqueça. É para sentir o luar extra que envolve Ouro Preto. apalpada analisada em fragmentos pelos geólogos. e quem mais? Onde o poeta assiste.

eis que galopo. mansa.enfin l’éternité le change. esse da primavera? Então eu topo. sem desgaste vanguardista. meritória. Pois afinal de contas nem uma flor a mais no meu jardim. meiga. saio gritando a todos: Venham ver a alma de tudo. verde. Como beijam os brotos mais gostoso ao pé do monumento de Barroso! . que ela está aí? Foi notícia que trouxe um colibri ou saiu em manchete no jornal? Que boato mais bacana. na página lunar. Como sabes. 25-7-1970 BOATO DA PRIMAVERA Chegou a primavera? Que me contas! Não reparei.) e descobri-lo é quase um nascimento do verbo: cada palavra antiga surge nova intemporal. Na hora de mentir. rindo.. e no verso e na prosa. então. Olha tudo mudado: o passarinho na careca do velho faz seu ninho. O velho vira moço e na paquera ele próprio é sinal de primavera. gôndola rosal cheio de harpas urna de padre-nossos pão de trigo da sagrada ceia lua dupla de Ismália enlouquecida lua de Alphonsus que ele soube ver como ninguém mais veria de seus mineiros altos miradouros. florescer! Mesmo o que não tem alma? Pois é claro. que aliás não existe. macia. que no asfalto costuma abrir a rosa e põe na cuca menos jardinília um jasmineiro verso de Cecília. mais genial. é preferível a mentira boa. lua nova. perdoa. O poeta faz cem anos no luar.. lá no céu. e cria uma verdade provisória. meu São Genaro. mas enfim essa ideia de flor é tão teimosa. E essa lua eu peço: aquela mesma barquinha santa. que o santo.

dorme o câncer. E prima. Um cientista famoso eis que declara: na roupa. Pelo espaço. muito cuidado.E todos se namoram. e é mais galante entre homens e bichos e mulheres que indagam positivos malmequeres. Pise somente no ar. saem de primavera. Uma pesquisa sábia nos revela esta triste verdade: o ar dá câncer. (Achaste a rima rica? Bem mais rico é quem possui de doido-em-flor um tico. o mau-caráter (bom neste setembro) e tanta gente mais que nem me lembro. e a vida é prímula a tecnicolizar de cada rímula. azul. Lapa e Urca. Os hippies. também. os festivos de esquerda. O de imersão. já se anula o que antes era ódio na medula. E aqui termino.) Já se entendem contrários. 24-9-1969 VERSOS NEGROS (MAS NEM TANTO) Ao levantar. Tudo é amor no Meier e na Rua do Ouvidor. os reaças. mas com cautela. . Não ponha os pés no chão. à moda veneziana e à moda turca. no boteco. Corre perigo se há nylon no tapete: ele dá câncer. O banho de chuveiro? Não tomá-lo. sorry: dão câncer. a fim de prevenir um mal tremendo: sábado se apurou que o nu dá câncer. pois tanto açúcar como ciclamato e xícara e colher. meu caro ou minha cara. que termina o fato surgido . os quadrados. não seja pato. não recomendo. O gato beija o rato. os boas-praças. o elefante dança fora do circo. qualquer roupa. no Country. A nudez. da terra do boato. por igual. é primavera. Não se vista. À hora do café. amigo. Sinto informá-lo do despacho londrino: água dá câncer. o tempo nos vai dando aquele abraço.

viaja o câncer. No ônibus. amigo. o aviso trismegisto: no mundo de hoje. E coletivo. o passatempo.. mas sabendo que é muito perigoso (lá disse o Rosa) e que viver dá câncer. Já que você nasceu. permita que eu indague: o amigo tem um carrinho? Que azar. Viva. Pois se souber do trágico brinquedo que é ver câncer em tudo desta vida. pelo que ouço murmurar. na esperança viva de que o câncer há de morrer de câncer... mero sinônimo de câncer. amor é o próprio câncer.melhor . sem ficar nervoso. contudo. Viva. não sabia deste resumo da sabedoria? Nascer. nem pensar.. até morrer dá câncer. meu Deus. Veja. e não à morte. Viva. que no jardim da folga nasce o câncer. no céu. Amor. Essa é que não. Resta morrer. Pare de trabalhar enquanto é tempo! Mas evite o lazer. Invente um novo meio de transporte para ir ao trabalho. Ou antes. . fonte de vida.. Ou morrerá . Em sonho. é quando mais solerte chega o câncer. agora. Mas não sabe que o trabalho já dá câncer? Isso mesmo: afirmou-me com certeza uma nega com o nome de Teresa que dar duro é uma fábrica de câncer.pela coragem de enfrentarmos o horror desta linguagem que faz do câncer dor maior que o câncer. O amor. no avião. Carro dá câncer. viva de qualquer jeito. portanto.Rumo ao batente. Em massa aumenta a perspectiva de desgraça. Ah. Antes. é a grande solução? Amor. por precaução? Nem isto. então. nem se fala.. porém.. Dormir? Talvez.

comunicabilidade). passeias equipado de robô na Rua da Alfândega. Papai Noel. o recheio do biquíni. ao preço de um biscate de dezembro ou mesmo o concursado poliglota não pode ser nem parecer . Sonhavam-te incorpóreo: bruma de alma. chegas de locomotiva à festa dos portuários. e dizem. Dás (vendes) geladeiras que teu gelo vai vestindo de neve e crediário. desces de helicóptero na Colônia Juliano Moreira. o biquíni. vais de jato a Lisboa cumprimentar o Cardeal Cerejeira. Também. vendes rena e trenó (carro hidramático). vendes a ideia prístina de amor. Só não creem em ti os visionários que agrides com teu estar-perto e pegável. queriam que recendesses a lavanda? És mito. És gordo. cria o novo real.o câncer vai morrer . com este calor de patropi. a ideia de Natal & outras ideias. Estás suado. vida e morte se defrontam no combate de imagens.morrer de medo. noções de turismo. no ar aberto em vilancicos: tudo que o aposentado no Correio ou da Central ou da Sursan. fundas a Fundação que perpetuará teu nome. dar sem mãos. impõe seu rito. o blended scotch. 15-11-1969 A UM SENHOR DE BARBAS BRANCAS Inscreves-te no concurso em Brasília e és aprovado (línguas. Por eles. cada vez mais concreto em toda parte. Tens cecê. estás por fora do contexto? O mito. A floresta de mitos desenrola verdinegra folhagem sobre a Terra. que não existes? Garotos podem apertar-te a mão na Rua do Ouvidor. a força do seu mito. a peruca. nos ossos velhos do Natal. Ladino corretor. motiva os homens. Vendes o relógio. Outro Natal. Sessent’anos marcados pela vida e pelo dente do salário mínimo.

esconde.nem dar. junto ao berço de palha de um menino. velhacamente brasileiro. não te cansas. que culpa tens do feixe de pecados. de jogar nosso jogo. Se Eliot despreza the social. . Se não reparte justo. the torpid. Father Christmas. se nega. Uma ternura antiga. tão afeito à mentira que mentimos o ano inteiro e em dobro no Natal. o bicho estranho deixam-se contemplar no rio seco. furta o anel à namorada que o pedia. se estende a muitos um pudim de pedra & sangue. percebo a tristeza do mito que aos homens se aliou para iludir nossa fome de Deus na hora divina. o cavalo. de vender-nos uma xerox da infância com borrões? Não te enfada ser mensageiro da mensagem torta com método apagada tão logo transmitida? Sob o veludo amarfanhado de teu uniforme de serviço. the patently commercial attitude towards Christmas. que importa? Não és criador: és o criado que na bandeja trazes o mistério trocado em coisas. Papai adocicadamente brasileiro. um carinho mais velho do que Cristo reparte os bens a Cristo recusados. 25-12-1969 CARRANCAS DO RIO SÃO FRANCISCO As carrancas do Rio São Francisco largaram suas proas e vieram para um banco da Rua do Ouvidor. velhacamente avô de dez milhões de netos alheios e informados. O leão. na rosa rubra de dezembro. velhinho. em prendas nos teus ombros convertido? Père Noel. sob a glace.

prescruto. o leão. Já não defendem do caboclo-d'água o barqueiro e seu barco. recibos. O rio.entre cheques. já não crê nos mitos que a figura de proa conjurava. o bicho estranho postados no salão. ou contra os mitos já não há defesa nos mascarões zoomórficos enormes? Quisera ouvi-los. o cavalo. singrando o asfalto. o tempo é simples ruga na carapaça. II Nem corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores . as rudes caras. não no fundo amor.. pela Rua do Ouvidor. o cavalo. navegando no leito cor de barro. deixou nas carrancudas cataduras um traço fluvial de nostalgia.. graves. o bicho estranho. duplicatas. de naufrágios. de esperanças. os lenhados lenhos que tanta coisa viram. na difícil aventura da vida de remeiros. Porventura vêm proteger-nos de perigos outros que não sabemos. ou contra os assaltos desfecham seus poderes ancestrais o leão. e vejo. O velho Chico fartou-se deles. esse caminho de canções. 8-8-1970 TRÊS PRESENTES DE FIM DE ANO I Querida. longe das águas? Interrogo. silenciosos. muito contariam de peixes e de homens. de trocas. mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo. sem resposta.

microfones. Vive comigo. não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes. e eis que me estranho: Que é de meu coração? Está no México. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo que não se guarda em cofre não pesa. Inventa-o se puderes com fervor e graça. não passa nem sequer tem nome. amor. amor. e de repente. voou certeiro. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos. sem consultar. um perfume.. sem que eu mesmo saiba como ficou assim.. que alucina o torcedor. discreto. instalou-se. entre bandeiras tremulantes. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem). num cantinho qualquer. ele se exalta .não esperes de mim terrestres primores. ovações. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço a sua voz entre alto-falantes. 27-12-1968 COPA DO MUNDO DE 70 I /MEU CORAÇÃO DO MÉXICO Meu coração não joga nem conhece as artes de jogar. os meus cuidados. acordo. Desculpe. charangas. O mau gosto e o bom se acasalaram. é impossível. escravo de seu clube. Hoje. porém. Agora então. e em mim.Bate distante da bola nos estádios.

Estou jogando. retorce e se distorce todo. de corpos sábios a se entenderem. É gooooooooool na garganta florida rouca exausta. séria. musical. a grama sofredora a bola mosqueada e caprichosa. recompensada Com Tostão a criar e Jair terminando a fecunda jogada.e vira coração de torcedor. e se renova em lenta lesma de replay. No baralho de gestos. E é todo arte. É preciso lutar contra o deus fútil. Eu não merecia ser varado por esse tiro frouxo sem destino Meus onze atletas são onze meninos fustigados por um deus fútil que comanda a sorte. na maranha na contusão da coxa na dor do gol perdido na volta do relógio e na linha de sombra que vai crescendo e esse tento não vem ou vem mas é contrário. gol no peito meu aberto gol na minha rua nos terraços nos bares nas bandeiras nos morteiros gol na girandolarrugem das girândolas gol . Assistir? Não assisto. torce.. Rio. Então crescem os homens. membros polifônicos de um corpo só. É longe e em mim. grita: Brasil! Com fúria e com amor. Uma geometria astuciosa aérea. II / O MOMENTO FELIZ Com o arremesso das feras e o cálculo das formigas a Seleção avança negaceia recua envolve. Cada um é toda a luta. rio de dor feliz.. fazer tudo de novo: formiguinha rasgando seu caminho na espessura de cimento do muro. belo e suado. Sou o estádio de Jalisco. triturado de chuteiras.

Com orgulho certo me faço capitão Carlos Alberto.na chuva de papeizinhos picados celebrando por conta própria no ar: cada papel. Félix. a pobreza. Revisado e adequado ao NAO por Joroncas . o atraso triste por um momento puro de grandeza e afirmação no esporte. fina. A Zagalo. riso de dança distribuído pelo país inteiro em festa de abraçar e beijar e cantar é gol legal é gol natal é gol de mel e sol. trocando a morte o ódio. a falta. Sou Brito e sua viva cabeçada. e a seus homens de campo e bastidor fica devendo a minha gente este minuto de felicidade. Como foi que esquentou assim o jogo? Que energias dobradas afloram do banco de reservas interiores? Um rio passa em mim ou sou o mar atlântico passando pela cancha e se espraiando por toda a minha gente reunida num só vídeo. ato de amor. Sou Rivelino. Sou Clodoaldo rima Everaldo. a doença. num ser único? De repente. Vencer com honra e graça com beleza e humildade e ser maduro e merecer a vida ato de criação. infinito. com Gérson e Piazza me acrescento de forças novas. defendo e abarco em meu abraço a bola e salvo o arco. Ninguém me prende mais. a lâmina do nome cobrando. zagal prudente. o Brasil ficou unido contente de existir. jogo por mil jogo em Pelé o sempre rei republicano o povo feito atleta na poesia do jogo mágico.