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Izabel Ribeiro Filippi

Teologia da Virtudes Ascéticas

Da Humildade à Mansidão -

1ª Edição - Volume I

EDITORA SOCIEDADE CATÓLICA 

Apostolado Sociedade Católica – Ano II – 2008 – 2

© Copyrigh Sociedade Católica

Direitos da Autora Filippi, Izabel Ribeiro. 1987Teologia da Virtudes Ascéticas Campinas/SP - Passos/MG: 2008 (1ª edição, 44 páginas) Bibliografia. Intro. Vamos também nós morrer; 1. Humildade; 2. Castidade; 3. Diligência; 4. Mansidão I. Filippi, Izabel Ribeiro; II. Prefácio: Maculan, Carlos Eduardo Capa: The Visitation de Juan Correa De Vivar-1539 † 1552. The Museum Del Prado

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tudo alcança. (Santa Teresa D'Ávila) 4 ."Nada te perturbes. A quem tem Deus nada falta.] a paciência.. só Deus basta". nada te amedrontes.. tudo passa [.

que será construída ao seu lado: Carlos Eduardo Maculan. por este mesmo Deus e Senhor. 5 . E ao que me foi dado.Àquele que me criou e me deu a vida. a quem hei de amar por toda minha vida. Este mesmo que também me sustenta. como graça maior que o merecimento.

........................................................................................10 Capítulo I Das Virtudes Ascéticas: A Humildade............................................................................................................................................ 25 Capítulo IV Das Virtudes Ascéticas: A Mansidão ............................................................................Índice Introdução Vamos Também Nós........... 31 Informações ..12 Capítulo II Das Virtudes Ascéticas: A Castidade...........17 Capítulo III Das Virtudes Ascéticas: A Diligência ....................................................... para Morrermos com Ele...... 39 EDITORA SOCIEDADE CATÓLICA  6 ............

que é somente mais um entre tantos que vivem no mundo criado por Deus. porém. um propício resgate do passado. Santo Agostinho de Hipona oferece a chave que abre a porta da alma. avançando no conceito que os filósofos pré-cristãos criaram. e uma vez realizadas. Amar é o verbo a ser conjugado. o “Eros” deve ser direcionado para o “Ágape” para que o primeiro não se perca em si. que em Suas criaturas mostra a Realeza. já no século IV a.desesperada busca. Eis o centro: o amor. o Senhor auxilia nossa natureza decaída para que cumpramos nosso dever de liberdade para com Ele. porque vivo no Senhor. e pela graça de Deus os místicos carmelitas souberam entender o brado da alma. uma marca que carregaria até os dias atuais: os místicos e doutores da fé Santa e Católica que em suas vidas gozaram do privilégio de vergar o Escapulário do Carmo. sendo a justa medida na experiência dos afetos. das quais ousarei furtar algumas palavras de extrema inteligência e ardor amoroso. é o meu passado a minha história. o que nos oferece? Santo Agostinho de Hipona foi além. que me quis para Si”. Com divinas mercês. o caminho pelo qual chegamos ao Pai eterno. Mas e a resposta cristã. Sentia-me um grão de areia sendo defrontado com o oceano: . Mas que passado? O meu próprio. estava caminhando diretamente para uma experiência profunda. o aristotelismo as coloca como a busca do equilíbrio. como 7 . é esse amor que com ousadia devemos praticar. Epicuristas (séculos IV e III a. o caminho do meio. Ele mesmo tão sedento de uma vida regrada em substituição aos exageros de uma existência sem Deus. Cinco séculos antes de Cristo algumas respostas já foram oferecidas sobre o tema.Que ousadia a minha entrar pela porta da Ordem de Nossa Senhora Carmo! – afinal. As virtudes nos direcionam para o reto uso dos sentidos. amor para com Deus que ama sem medidas. surge o platonismo que entende as virtudes como propriedade do “ser”. Lembrei dos meus quinze anos.Prefácio A leitura de Teologia das Virtudes Ascéticas me fez voltar no tempo. compreendeu as mesmas como essência e finalidade suprema do espírito humano através da disposição do amor. admito sem hesitar. quando pela primeira vez adentrei por debaixo dos pórticos do Carmelo.C) as colocam com meras capacidades estratégicas nas quais se intensificam os prazeres. Na tradição do Carmelo. consumam a excelência ou perfeição. o conjunto das batidas do meu coração. e. dos meus olhares e da busca de Deus . o que um jovem pouco instruído poderia oferecer aos já grandiosos méritos do Carmelo? No entanto. em oposição a paixões extremas e descontroladas. O que nos pede Deus mais que a obediência enquanto prova cabal de amor? Santa Tereza D’ávila aponta um norte relevantíssimo: “Vivo já fora de mim. Desejo nestas linhas dialogar com várias pessoas.C. depois que morro de amor.

Por fim. como nas almas más e adeptas pertinazes do pecado. a terceira presença. Então. que é a efetiva. se faz presente em todos os seres humanos. como pelo Filho. à espera de um fim derradeiro que dê significado às dores entrecortadas por inúmeras alegrias enquanto marcas da vida. afirmo viver e prometo viver e morrer”. em cuja fé vivo.moribundo. onde Deus. que escolhe seus seres para gravar Sua imagem e semelhança. o mesmo amor que vários poetas tentaram cantar. que vez ou outra – e não raro – passa despercebido aos olhos dos mais desatentos. O que dizer ao Pai quando pelo Cristo e no amor do Espírito Santo formos julgados na tardança da vida. a Trindade nos habita pela presença do Pai. mercês. o Criador de todas as coisas nas quais Ele Se revela o Abbá de Cristo. ao longe. assim. O cautério é o Espírito Santo presente no íntimo de cada alma e que nos impulsiona para frente. Deus. deleites e alegrias com o operar do Espírito Santo. A segunda é espiritual e tornada concreta pela graça divina. o Primeiro da Trindade. Com tais palavras São João da Cruz expressa o amor inflamado e mútuo de uma vida por Deus e de Deus por uma vida. O Ágape é explanado em versos: "Oh! Catutério suave! oh! Regalada chaga! Mão branda! oh! Toque delicado”. na segunda presença. resume o Santo da Cruz: “Como amado no amante um no outro residia. mas só a mística católica conseguiu expressar seus contornos mais sutis. possamos no fim de nossas vidas presenciar a transformação da graça em Glória Divina. em nós Se faz habitante da lama e mesmo assim mostra-Se satisfeito com tal habitar. tal como o Pai. no dizeres do próprio João de sobrenome Cruz? Com viver tão doce chaga? O Santo nos traz a tríplice presença da Trindade em nossas vidas. surgiria na Ordem dos Santos. ou seja. dispensa suas consolações. o meio eficiente para a subida ao Calvário Espiritual no qual nos consumaremos nos méritos da Segunda e Divina Pessoa Trinitária. a primeira é a presença natural se dá pela essência. fique lançado pelo caminho para servir apenas ao pisoteio daqueles que buscam o sentido pleno da existência. e esse amor que os une. mas por dispensá-la o tratamento que desejou e a si mesmo intitulou: “uma pequena flor primaveril”. Cristo apresenta ao mundo pela Igreja. que evidenciam a presença de Jesus Cristo no mundo: “Em tudo me sujeito ao que professa a Santa Igreja Católica Romana. tanto nas almas boas e santas. A igualdade na dignidade e honra transporta a mente das palavras de São João para as palavras de Santa Tereza. Séculos depois. no mesmo coincidia com o de um e com o de outro em igualdade e valia”. vendo as almas sofrentes. pois não cessa de dispensar graças e mais graças para que. A queimadura suave do amor. ao porvir. o Amor entre Pai e Filho que elege a alma como Morada e Castelo. ainda incapacitados e sem méritos. Corpo Místico do Senhor e sacramento contínuo da salvação. e assim a chamo não por ser minúscula ou insignificante. 8 . uma pequena florzinha. bem como presente em todas as criaturas.

como se somente ela existisse sobre a terra. com a qual. as bodas do Senhor. a história de todas as almas: “. aos 7 dias do mês de setembro Ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2008. de abalizados mestres. e eis o que “Teologia das Virtudes Ascéticas” nos emana. A Santa de Lisieux contou na história de uma alma. no qual chegaremos pelas virtudes e na negação dos vícios. Amar: eis a proposta. por divina graça. Tal era corriqueiro viver Deus em sua vida. virgem e mártir. dos Santos Padres. os anseios da vida que não se conforma em ser “sair do nada e voltar para o nada”. da Sagrada Face e do Menino Jesus dirá de si mesma: “mais indigna serva da realeza divina”. Festa de Santa Regina. dos doutores da fé. A porta está aberta. Se abaixando. que a Santinha fala de Deus no inclinar que Ele mesmo realiza para vir ao socorro das almas. Passos/MG – Campinas/SP. da mesma forma tudo concorre para o bem de cada alma”. 9 . E assim como na natureza todas as estações estão de tal modo organizadas que no momento certo se abre até a mais humilde margarida. Há um sentido. narra as linhas mestras. A autora. na verdade. que é. os modos. usando dos doutores do Carmelo. Carlos Eduardo Maculan. pois. Izabel Filippi narra nesse volume.] a sua própria alma. à semelhança do Pai. a doce Terezinha. A Igreja é "comunidade que está composta por homens reunidos em Cristo e são dirigidos pelo Espírito Santo em sua peregrinação rumo à casa do Pai" (Gaudium et Spes. nº 1). tenho a honra de dividir a existência na busca do amor entre homem e mulher que deve ser imitação do Amor Divino. da mesma forma Deus cuida pessoalmente de cada alma. Assim como o sol ilumina os cedros e cada florzinha. Dignitário da mercê divina de nome Izabel.. e propriamente o Amor esponsal entre Cristo e Sua Esposa. com singular maestria. o convite foi feito pelo Cristo. como se não existisse outra além dela. a epopéia da alma que deseja voltar para o seio do qual ela veio: a Trindade.Com agradabilíssimo afeto que até no nome se diminuía. Deus mostra Sua grandeza infinita. entremos para o banquete nupcial.. que pela Terceira Pessoa Admirável da Trindade se apresenta como graça e face de Deus.

que será o mesmo de Cristo. morte e ressurreição. seja com a dor sem culpa. que 10 . seja em qual tempo viva. O descontentamento que muitas vezes sentimos. a graça santificante se apossa de nosso ser e nos tornamos templos do Espírito Santo. sua encarnação. Enquanto não encontramos Aquele para quem fomos criados. mas pelo pecado caímos e quebramos nossa união com Deus. Senhor nosso. mas ressuscitado três dias depois. sabemos agora que a morte. destruindo toda caridade contida em nosso coração.. vencendo a morte de uma vez por todas. uma nova aliança selada com o sangue derramado pelo Cordeiro. “Em verdade. o cristão encontra seu caminho. disse Tomé: “vamos também nós. ainda não entendiam o que os esperavam: Aquele que é o Senhor da Vida ressuscitaria dos mortos. Para nos livrar desta queda original. vida. foi dada uma certeza: Deus o criou para a felicidade. mesmo antes de Cristo ter se doado por completo na Cruz. os felizes que crêem ainda que não tenham visto. esta é a vida em abundância. as injustiças do mundo. prometida por Cristo e esperada por todos aqueles que n’Ele crêem.16). entretanto. Para encontrarmos a vida – a verdadeira vida – teremos de morrer para nós mesmos. Entretanto. Mas ao homem não basta receber esta graça. é o único caminho que nos levará à vida. se morrer. Eles. para a glória de Deus. Jesus oferece a cada um a água da vida. caído na terra. Não uma felicidade qualquer. já demonstravam disposição de morrer por seu Mestre. assim como já se enuncia. para o mundo e para o pecado. não é desprovido de sentido. Deus enviou seu Filho único para nos salvar. morto na Cruz por amor dos homens. deu-nos a possibilidade de restituir a união com o Criador. paixão. e assim renasceremos em Deus. Sabendo que só n’Ele encontrariam palavras de vida eterna. mas uma felicidade plena. pois corremos constantemente o risco de cair. pois este foi o sublime exemplo deixado pelo Filho de Deus.24). produz muito fruto” (Jo 12. Deste aparente paradoxo. É preciso cuidá-la e mantê-la. a qual incessantemente devemos buscar. Através do batismo. sabemos que apenas um dos apóstolos permaneceu com Cristo na hora de sua morte. contudo. incapaz de preencher-nos por completo. Esta morte. para Morrermos com Ele Ao homem. não morrer. para morrermos com ele” (Jo 11. Não fomos criados para padecer. fica só. pode ser evitada através de outra. que seria nossa eterna condenação. e morte de Cruz. A vinda de Cristo. ou as cruzes carregadas. leva-nos à morte porque desviamo-nos de Deus. O pecado mortal. Assim como à Samaritana. Quando Cristo quis retornar ao lugar onde queriam apedrejá-Lo. e com nossos pecados perdemos novamente a união que tão amorosamente Nosso Senhor nos concedeu. nosso coração está inquieto e não repousa.. em verdade vos digo: se o grão de trigo. Nós.Introdução Vamos Também Nós.

fonte de vida. viverão. a vida. “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Até mesmo o maior dom que nos foi dado. despidas de sua máscara. ainda que Se bastasse por completo. O Filho de Deus. e vivas para o gozo eterno junto do Pai. se formos dóceis ao seu constante chamado. sem enxergar em sua beleza a grandeza do Criador. Não. há Alguém que o ama e o quer junto de Si. Aquele que crê em mim. que inscreveu em nosso coração uma lei que nos leva até Ele. embora diversas. e não fruto do livre amor de Deus. Corresponderemos ao amor deste que. renunciando tudo quanto O ofende. E todas elas mostram que. são na verdade causa de morte. não busca as coisas do alto e fica arraigado com demasia a tudo aquilo que é passageiro.26). seja lutando contra toda ideologia que tira da vida o seu valor sagrado. que é também aquilo que nos destrói. seja negando veementemente práticas que geram diretamente a extirpação da vida. e ainda que não tivesse culpa alguma se fez homem e morreu para nos salvar. este homem jamais encontrará a felicidade se continuar a olhar para o que é criado. Quer a alma de cada um de nós. nos criou. 11 . e nos faz ansiar por Sua presença. ainda que esteja morto. nos exclama: tenho sede! Podemos nos por aos seus pés. Os que crerem. mas água que nos faz viver e torna-nos.pode saciar nossa sede definitivamente. Crês nisto?” (Jo 11. mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida” (Sua Santidade o Papa Bento XVI. A pergunta que ressoa constantemente é: estamos dispostos a assumir esta mudança que a Verdade nos exige? De muitas formas. e requer compromisso. A Boa Nova que Cristo trouxe não ficou apenas num momento da história. jamais morrerá. viverá. o homem não foi criado ao acaso. deve se fazer presente em nossas vidas. Ele quer almas. também a nós. Assim. Carta Encíclica Spe Salvi). Sua sede é de homens. coisificando o homem e rebaixando-o a mero animal racional produto do acaso. Não é tal qual a água lamacenta que muitas vezes o mundo nos oferece com suas aparentes alegrias que. as quer mortas para o pecado. hoje. “O Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber. o homem esqueceu-se de sua dignidade. o caminho é único. e dar-Lhe de beber. no padecimento do alto da Cruz. E todo aquele que vive e crê em mim. e cabe a nós defendê-lo. somos convidados a aceitar a vida em Cristo. com o qual Ele nos cumulou. e procederem conforme esta fé. diante de sua carne toda rasgada e desfigurada por amor dos homens. é atacado constantemente. Este combate se estende para todo gesto e detalhe da vida humana.

entretanto. A soberba de achar-se acima de tudo. temos este tesouro em vasos de barro. uma vez que é Ele que nos concede todas as graças. e por isso a humanidade decaiu. morte e ressurreição.17). não somente pelos castigos. no qual não há mudança. sendo Deus. fez-se pequeno. isto sim. mas a admiração por elas deve ser dirigida a Deus. Não é. a quem tudo devemos. Entretanto foi assim que venceu o pecado. quanto mais toda a humanidade está obrigada a reconhecer-se tal qual é. dependente de seu Senhor. Se Deus. Dizem as Escrituras que "quem pensa ser alguma coisa. paixão. pois nada desejarão senão fazer a Santa Vontade Divina. o cristão deve reconhecer sua miséria e nela se comprazer. humildade apenas conhecer-se e. reconhecê-Lo como fonte de todas as graças. 12 . reconhecendo-se dependentes de seu Senhor. honra e glória.5). Nada que pudéssemos fazer expiaria nossas ofensas a Deus. humilhou-se. mais que a isso. Por conseqüência. da morte trouxe-nos à vida. que tudo que há de mal em nós. portanto. "Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes. mas por reverência e adoração. de quem não podemos nos separar se quisermos conservá-las e nutri-las: é d'Ele o poder de dar e tirar.7). quando a verdade nos faria reconhecer que não estamos neste patamar. Já nascemos maculados pelo pecado original. viveu entre os homens. mas mereceríamos eternas humilhações principalmente pelos pecados atuais cometidos. uma vez que seu exercício exige expropriação do próprio eu. por nos conhecermos tais quais somos. como verdadeiramente merecemos. ao nos tratarmos de acordo com este conhecimento. para nos salvar fez-se homem. não tendo em si humildade para mantê-las? "Porém. A humildade torna o homem livre. Diante dos olhos humanos não voltados a Deus seria apenas mais um fracasso. Cristo. Pelo contrário. não fosse pela sua encarnação. Certamente há coisas boas no homem. Esta virtude nos leva a temer a Deus. vendo seus defeitos.Capítulo I Das Virtudes Ascéticas: A Humildade Cristo. para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós" (2 Cor 4. encobri-los. é nosso. Lembremos o que o próprio Jesus disse: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15. não sendo nada. os que temem a Deus serão também obedientes. assim procedeu. nem mesmo aparência de instabilidade" (Tg 1. mas se abre a Deus e ao próximo. Os homens quiseram ser deuses. Devemos. A humildade fundamenta-se na verdade. De que adiantará cultivar as demais virtudes. Aquele que detém todo poder. engana-se a si mesmo" (Gl 6.3). Precisamos aceitar que tudo em nós que há de bom vem de Deus. Se não permanecermos com Deus este vaso facilmente se quebrará. Aquele que é livre não vive preso a si. é que realmente escraviza o homem. A humildade nos levará a admitir. e na justiça. que deu-nos a possibilidade de redenção. dons e talentos que porventura tenhamos. foi pregado à cruz entre malfeitores.

Importante salientar que a soberba não encanta corações. Assim o cristão é chamado a ser sal da Terra e luz do mundo. não seria servo de Cristo" (Gl 1. Não se confunda. que tudo calava e meditava em seu coração. opõe-se à ordem estabelecida por Deus. é também ato de humildade. entretanto. farol que leva a Luz que é Cristo a todos e que todos atrai a Ele. Amemos o silêncio da Virgem Maria. humilde. uma vez que aquele que se coloca nos braços de Deus e tudo a Ele entrega.1-2). é negar o próprio Cristo. e também a ele devemos total obediência. mas devemos lembrar que muito menos somos nós. por conveniências ou vergonha. pois detém toda Verdade. E quem busca assim proceder sabe 13 . parecendo sábio ou merecedor de qualquer honra. Por serem homens. porventura. Mais que conhecer. Contra isso já dizia o Apóstolo: "é. aquele que resiste à autoridade. fazendo que cheguem ao porto seguro de Nosso Senhor. as que existem foram instituídas por Deus. o santo silêncio com a falsa humildade. somente deste modo. a Igreja. Isso se dará através do testemunho de vida.A confiança em Jesus Cristo nos levará até sua Casta Esposa. Dar sabor à sua vida e à de todos que o rodeiam só será possível tendo em vista o Senhor. Quem prefere a si ante a Verdade não pode ser considerado. Para levar a Verdade ao mundo temos que nos fazer escravos desta mesma Verdade. e os que a ela se opõem.10). ainda que nos custe. muitas vezes pensamos que não são dignos de tal. mas tudo quanto puder evitar que possa quedar em vaidade. porque não há autoridade que não venha de Deus. atraem sobre si a condenação” (Rm 13. Não apenas calar diante das zombarias e fofocas. Não somos donos da verdade. é preciso ter em mente que toda autoridade terrena emana dos Céus: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas. Cristo-Cabeça a conduz e nós. podendo tornar-se. pois. pois sendo sucessor de Pedro recebeu as chaves dos Céus. tendo autoridade infalível. e tudo que deles provém. Por isso é preciso dar a Deus seu devido lugar. faz de sua fé algo concreto. devemos amá-La e submetermo-nos a Ela. será Ele quem brilhará por nosso intermédio. e isso não acontecerá sem a devida humildade. quando a fala não se faz necessária. o favor dos homens que eu procuro. Assim. A Ela devemos nos curvar. ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens. mentiras e calúnias a Nosso Senhor. o Papa. bons filhos. A obediência se estende aos nossos superiores. que muitas vezes nos leva a calar perante as injustiças do mundo. Além disso. A humildade também nos levará a confessar nossa fé no Cristo e abraçar tudo que dela advenha. No Romano Pontífice encontra-se o fundamento visível desta Igreja. Negar a Igreja. Sem Ele ficamos apagados e invisíveis em meio à escuridão do mundo. é preciso ser. O silêncio.

mas dá a sua graça aos humildes" (1Pe 5. nos acolhe e perdoa sempre que acorremos a Ele de coração contrito. mas pelo Pai e pela humanidade. que também podem nos levar a Cristo se feitas com amor. pensemos no Cristo que nada mereceu. Cristo antecipou-se vindo em nosso auxílio. Não precisamos de grandes posições ou cargos para servir a Deus. Nosso Senhor não chamava a glória para sí (Cf. suportar as dificuldades. injúrias e humilhações por amor a Deus é grande prática de humildade. mas quis vir até nós pequeno e por intermédio da obediência de sua serva. que o recebeu em seu ventre e em sua alma. que o Senhor "resiste aos soberbos. vazia de si mesma e. A alma humilde “não se inquieta do que possam 14 . perfeito.50). mesmo aqueles que parecem mais indiferentes” (ESCRIVÁ. uma resposta: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina. Se nos surge a dúvida de como proceder para sermos humildes. Desta forma deu-nos Cristo. junto aos pais. Nasceu sem luxo. deseja enche-la com sua graça e aí se delicia. pois todos lhe negaram abrigo. carrega o peso dos pecados de toda a humanidade ainda que n'Ele não houvesse pecado algum. Cristo não prevaleceu-se de sua igualdade com Deus ao se fazer homem. 168. Assim também Cristo. ocultou-se numa vida comum. Submeteu-se à lei. As graças recebidas. nos lembram as Escrituras. Jo 8. na vulgaridade de nosso trabalho. tudo o que fazia era para glorificar o Pai e tudo quanto fala é em nome d'Aquele que O enviou. Sendo Rei. Só assim alcançaremos a verdadeira humildade. porque Ele é Bom e Misericordioso. colocando sua esperança no Senhor. Nós. ao encontrar alma humilde. mostrou-nos que é possível fazer do ordinário algo extraordinário quando feito para Deus. através de sua vida e morte. que facilmente nos achamos imerecedores de sofrimentos e humilhações. Santa Maria. Sabe de suas misérias.fugiu. e colocando sentido sobrenatural nas atividades rotineiras. Até chegar à sua vida pública. portanto. Jesus morre numa Cruz. Sua doação foi total. e por isso mesmo jamais desanima.5). Quando quiseram fazê-Lo rei – um rei. seguiu todas as práticas religiosas. enquanto seu sangue era derramado por nossas culpas. ânimo para abraçar a vida cotidiana. Assim. como um simples carpinteiro. seu sacrifício. Aceitar privações. Ponto 496). não são para proveito próprio. reconhecendo nossa atual condição e suportando os padecimentos junto d’Ele. Pedia ao Pai que perdoasse os que O injuriavam. e são elas que podem o levar a anunciar as maravilhas do Reino de Deus. para o humilde. p. com seu próprio exemplo.das dificuldades que encontrará no caminho. O Senhor. Entende que tudo quanto lhe foi dado é por vontade divina. Não precisaria para sua encarnação da cooperação humana. foi circunciso. Quão sublime exemplo deixado! Por fim. podemos fazê-lo no seio de nossa família. tão bem disposta a recebê-Lo. esquecendo-se de Si. entretanto. e não rei de suas vidas .29). “Uma missão sempre atual e heróica para um cristão comum: realizar de maneira santa os mais diversos afazeres. 2005. porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11. foi acolhido apenas por alguns poucos pastores. Os sacrifícios não os fez por Ele mesmo. mas para a glória de Deus que se mostra Pai amoroso e misericordioso. São Paulo: Quadrante. dando Ele mesmo. durante sua vida oculta. Josemaria: Sulco. aos moldes do mundo.

Se achamos que aquele que nos ofendeu não merece nosso perdão. muitas são as atitudes e posições humildes que precisaremos tomar em nossa caminhada. "Por meio desta virtude o Senhor se deixa render a tudo quanto dele queremos" (D’ÁVILA. o faz de forma fraterna e visando o bem da alma a quem corrige. se reconhece como nada diante da Grandeza que é Nosso Senhor. Deus nos perdoa sempre que nos colocamos diante d'Ele com coração contrito e buscamos. visto aqueles se fundarem na verdade e este na mentira” (TANQUEREY. p. Mas deu-nos também uma nobre criatura. 587).. e.. sofre. reconciliarmo-nos com Ele. 2007. A virtude da humildade está. pois aquele que perdoa o erro alheio e pede perdão pelos seus. O perdão. mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos” (Fl 2. É na oração que nos colocamos diante de Deus. e o pedido de perdão. O próprio sacramento da reconciliação é um profundo ato de humildade. Cristo deu-nos Ele mesmo o exemplo. que jamais merecemos qualquer perdão. pois nos faz moderar o conceito que temos de nós mesmos e de nossa excelência. 63. são atos de profunda humildade. “Nada façais por espírito de partido ou vanglória. Apenas Deus pode conhecer a intenção de cada um. Josemaria: Forja.3). porque ninguém mais que Ele perdoou.dela pensar. Assim já exortava São Paulo: "não façam de si próprios uma opinião maior do que convém. Por nos conhecermos bem em nossas misérias. quando a louvam. nunca expô-la e humilhá-la. com o próximo. nem ser filho de Deus. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. portanto jamais poderemos julgar o próximo por mal ou perverso. o testemunho do Cristo e de seus seguidores. 2005. Santa Teresa: Castelo Interior ou Moradas. portanto. intimamente aliada à temperança. Santa Maria. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. faz-se humilde ante o próximo. tens de pensar que tu também não mereces nada: não mereces ter sido criado. Aquela que está acima de toda outra. 2005. nem pertencer à tua família. Cabendo-lhe corrigir. pobres pecadores. se te parecer que uma pessoa determinada não é digna dessa misericórdia. através da Confissão. São Paulo: Quadrante. p. Neste mesmo sentido. quando o anjo lhe 15 .. p. busca antes encobri-los que torná-los públicos. Ponto 145). a nós devemos muito pouca estima. sendo a humildade o fundamento e disposição para receber o dom da oração. São Paulo: Paulus. damos testemunho do amor de Deus. e preferiria mil afrontas a um só louvor. Quando perdoamos.” (ESCRIVÁ. através d’Ele. pois nos reconhecemos pecadores diante de um homem. Na relação com Deus e. “Tu não podes tratar ninguém com falta de misericórdia. mas ainda assim Deus enviou seu Filho para nos resgatar.84). a Igreja nos ensina que a humildade é uma virtude essencial na oração. mas um conceito razoavelmente modesto" (Rm 3. O que nele houver de bom admira sem invejar. diante da Igreja e diante de Deus. devemos lembrar-nos de nós. Quem segue os conselhos evangélicos. Se tiver defeitos.17). nem ser cristão.

ela diz: "Eis aqui a serva do Senhor.. 28). por amor de vossa misericórdia e fidelidade" (Sl 113.. Santo Afonso Maria: A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que possamos. Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1. II). E por isso Deus a amou tanto e coroou-a Rainha e Senhora nossa. Vol. dizer junto ao salmista: "Não a nós. não impôs barreiras. fez-se a menor de todas. mas ao vosso nome dai glória. 16 . enquanto que ela foi humilde. ingrato e desobediente. "Maria devia realmente ser inimiga da serpente. Ainda que fosse a mãe de Deus. Senhor. 9). por fim. fez-se serva. não duvidou. grata e obediente" (LIGÓRIO. ocultou-se. apenas perguntou ao anjo como isso aconteceria. já que Lúcifer foi soberbo.apareceu anunciando o nascimento de seu Senhor através dela. Mesmo sabendo tudo que deveria suportar. suportou a espada que transpassou sua alma aos pés da Cruz. não a nós.

sendo vista meramente como privação sem propósito. a espada é a oração. com seu Magistério infalível: “todo batizado é chamado à castidade. que para Freud são ligadas à sexualidade. é preciso reconhecer na virtude da castidade a sua plena comunhão com o amor de Deus. 2005. São Paulo: Quadrante. No momento do Batismo. sequer tem-se a noção de seu verdadeiro sentido. Cristo nos provou este amor se doando na Cruz. portanto. pensar que o caminho será fácil. É este o convite que Ele nos faz ao dizer “sede santos. O mesmo afirma a Igreja. como nos lembra o santo já citado. Não é. como muitas vezes é chamada esta virtude. Sem este “entrave” as pessoas não só se veriam livres de muitas doenças psíquicas. modelo de toda castidade.a de cada um no seu estado: solteiro.16). portanto. unida ao pensamento marxista. onde a sexualidade está banalizada e sem freios.24). e dão as bases para esta situação da sociedade que vivemos. Todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta segundo seu específico estado de vida. casado. como há séculos atrás? Obviamente. Mas hoje. Josemaria: Sulco. é uma resposta de amor ao Amor.Capítulo II Das Virtudes Ascéticas: A Castidade “A castidade . Não podemos. O chamado de Deus à castidade. a procura pelos Sacramentos e também a mortificação. 1999. porque eu sou santo” (1Pe 1.1). 2007. primícia da Glória Eterna. “Sede. e pensar o contrário é um comum engano que dificulta ainda mais a prática desta virtude. onde a castidade é tratada como repressão sexual. imitadores de Deus. Aqui. sacerdote . chamados a ser como Cristo. É de suma importância ver a castidade como afirmação de amor. sem dúvida. menos susceptíveis à ordem social imposta. a santa pureza. tornando-as dependentes. portanto. é o que pede São Paulo nas Sagradas Escrituras. como filhos muito amados” (Ef 5. viúvo. Infelizmente. Temos que ficar atentos. um fardo pesado. Joseph – Bento XVI. Assim é também com tudo aquilo que fazemos para Deus. 267. 2348). como em qualquer ponto da vida cristã. Jesus de Nazaré: do Batismo do Jordão à Transfiguração. renunciese a si mesmo. Josemaria: Caminho. 287). p. São Paulo: Quadrante. ESCRIVÁ. com a qual o Estado e a Igreja poderiam manipular as pessoas. A castidade nos é dada como dom do Espírito Santo. Ponto 831). “Se alguém quiser vir comigo. Somos. p. p. ponto 123). esta resposta apenas encontraremos junto de Cristo. pois a luta é árdua. mas uma coroa triunfal para aqueles que se decidirem com firmeza a ter a vida limpa (Cf. o cristão se comprometeu a viver sua afetividade na castidade” (Catecismo da Igreja Católica. a castidade está tão deturpada que. na maioria das vezes. Nesta batalha. mas também seriam menos alienadas. 59. em nossa sociedade atual. pois não há 17 . Ele é “o crucificado que só domina a partir da Cruz” (RATZINGER.é uma triunfante afirmação do amor” (ESCRIVÁ. e é preciso vigilância constante. tome sua cruz e siga-me” (Mt 16. A psicologia freudiana. influem diretamente nesta concepção. São Paulo: Planeta. não meramente como negação do pecado da luxúria. qual seria o motivo das pessoas continuarem tão doentes ou mais. O cristão ‘se vestiu de Cristo’. passará por esta cruz. pois.

A conduta daquele que é casto não é apenas uma mera imposição. Não é necessário. A Vida Espiritual Explicada e Comentada. indo além do 18 . temer a tentação. Aos que já pecaram gravemente contra a castidade. A humildade. que havia feito um pacto com Deus de não olhar mulheres que lhe poderiam vir a ser causa de tentação (Cf. elas advierem. ou que perturbem a nossa imaginação. uma vez que ninguém pode dar-se por seguro.18-20). Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo. a Deus no vosso corpo” (1 Cor 6. por isso mesmo. é uma conseqüência da dignidade que Deus deu a nossos corpos. E se. e tendo em vista a dignidade e a beleza da vida casta. filmes. como foi frisado inicialmente. em seu tratado de Teologia Ascética e Mística. descreve quatro graus de prática da virtude castidade. e não há causa maior que agradar a Deus. nos leva a desconfiar de nós mesmos e a confiar que somente com a ajuda de Deus seremos castos. nossa liberdade deve fazer com que neguemos veementemente o pecado. 1Cor 6. templo do Espírito Santo. mas o impuro peca contra o seu próprio corpo. segundo São Paulo. imaginação. assim como evitar todo tipo de livros. como companheira da castidade. nos coloquemos em situação de pecado. 1Cor 3. membro do Corpo de Cristo.1). incentivando a vontade a sempre querer o bem. por serem habitação de Deus (Cf. Jó 31. jamais o contrário. pois assim mais a atrairíamos. afastando qualquer imagem ou pensamento contra a santa pureza. No Antigo Testamento temos o testemunho do justo Jó. shows e festas onde sabemos que a prática da castidade será colocada em risco. Temos também o dever de regular as conversas que incentivem o prazer desregrado. pois. Adolph Tanquerey.16). no entanto. Glorificai. o desrespeito ao corpo e ao outro. Este é um excelente conselho que nos trazem as Sagradas Escrituras: não dar ocasião para que a tentação se achegue a nós e. a desconfiança é necessária para que não sucumbam novamente. O apoio de Deus não faltará a ninguém que estiver disposto a tudo entregar por Sua causa. não consentindo na tentação. a ponto de serem chamados sagrados. que habita em vós. O segundo.castidade sem domínio do próprio corpo e dos sentidos: a alma deve dominar o corpo.17-18). além de evitar o pecado. o qual recebestes de Deus e que. Muito nos ajuda sabermos que com Deus estamos seguros. é também importante para que se fortaleçam mais através da luta. recorremos mais agilmente ao auxílio divino. importa construir o sentimento de pudor. Aos que conservam a inocência. Sabendo de nossas fraquezas. Pecar contra a castidade é. sensação ou ação contrária à virtude. O primeiro consiste em evitar consentir em qualquer pensamento. do qual fazemos parte. já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo. assim. Mas. mesmo fugindo das tentações. apresentações. O cristão deve estar consciente de sua condição de filho de Deus. “Fugi da fornicação. prostituir o próprio Corpo de Cristo (Cf.

quando ordenados aos seus fins naturais. Assim. e tendendo para aquela santidade que lhes é própria. por privilégio especial. Jesus. através da vida celibatária. busca afastar tais coisas. Mediador dum Testamento mais excelente (Hb 8. com grande paz. está contida em todas as vocações que Deus suscita em nosso meio.6). em que a criatura humana. Segunda Parte da Segunda Parte. continua o Papa Paulo VI na Encíclica acima citada: “Mas Cristo. adquirido após muita prática do amor de Deus. isto é. Gn 2.12). caminham juntos em direção à pátria celeste” (Sua Santidade o Papa Paulo VI. 1980.apenas não consentir. no exercício do amor mútuo e no cumprimento dos próprios deveres. conforme àquilo do Apóstolo: eu vos tenho desposado com Cristo.18). tanto a matrimonial como a religiosa. como muitos pensam. 19 . Encíclica Sacerdotalis Caelibatus).1-11) e elevou-o à dignidade de sacramento e de sinal misterioso da sua união com a Igreja (Ef 5. entretanto. Já no terceiro. Santo Tomás de: Suma Teológica. Esta castidade metafórica nos priva da união com tudo quanto é ilícito e nos aproxima de Deus. 151). Muitos. sendo chamado universal. Assim diz Santo Tomás de Aquino: “Chama-se castidade espiritual o deleitar-se o homem na união espiritual com o ser com que se deve unir. honrou-o (cf.12). Faz-se necessário ter em mente que esta virtude não consiste somente em usar moderadamente dos prazeres sensuais. o Sagrado Magistério da Igreja sempre viu na vocação matrimonial um grande bem. à alguns poucos santos. para vos apresentar como virgem pura ao único esposo” (AQUINO. ao ser integrado no desígnio total da salvação. manifesta de maneira mais clara e completa a realidade profundamente inovadora do Novo Testamento”. Há também a castidade espiritual. Q. p. São aqueles que “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19. é concedido não terem qualquer movimento desordenado. e o abster-se da união deleitável com o que é proibido pela lei divina. com Deus. abriu também novo caminho.3-8). não permitindo qualquer coisa que possa deslustrar o brilho desta virtude. que manifesta sua grandeza e bondade com estas graças especiais dadas a poucos. Porto Alegre: Sulina. imediata e energicamente. Assim. os cônjuges cristãos. 3114. domina-se os pensamentos e sentidos a tal ponto que se pode falar sobre questões relativas à castidade aberta e serenamente. Na verdade. restituiu-lhe a dignidade primitiva (Mt 19. cuja matéria consiste da união espiritual da alma com aquilo que lhe dá prazer.32). A castidade.33-35). “por amor do Reino dos Céus” (Mt 19. são levados por Deus a abrirem mão deste bem que é o matrimônio por algo muito maior. Não é. unindo-se total e diretamente ao Senhor e preocupada apenas com Ele e com as coisas que lhe dizem respeito (1Cor 7. Por fim. “O matrimônio que. Neste sentido. limitada aos que se dedicam a Deus de uma forma mais perfeita. adquire novo significado e valor. ou em abster-se deles por amor de Deus. por vontade de Deus. Jo 2. Por estes devemos dar glória ao Senhor. continua a obra da primeira criação (cf. que é Aquele em excelência com o qual devemos nos unir.

O Modo Mais Perfeito de Viver a Castidade “A sagrada virgindade e a perfeita castidade consagrada ao serviço de Deus contam-se sem dúvida entre os mais preciosos tesouros deixados como herança à Igreja pelo seu Fundador” (Sua Santidade o Papa Pio XII. Todos devemos buscar a fuga do pecado e a prática das virtudes. pode o cristão cuidar inteiramente das coisas de Deus. p. como é o matrimônio e a geração de filhos. São Máximo. ao estabelecer que “se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato. 2000. Isso também decretou o Sacrossanto Concílio de Trento. Carta Encíclica Sacra Virginitas). e faz buscar não as coisas agradáveis. 2003.10). sem que fique divido com os cuidados que requer a vida conjugal (Cf.32-35). p. senão que somente produzem prazer. Os santos padres ainda fazem uma relação entre o pecado da luxúria e a gula. Entretanto. e faz com que participemos de nenhuma outra coisa senão as necessárias para viver.12). este tesouro foi cultivado. É certo que o matrimônio é um bem. mas as necessárias. São Paulo: Paulus. e não de si mesmos. São “duas obras. porque é da sua consagração a Deus que vem sua dignidade. e mantém a vida do corpo. como já nos falava São Paulo. 1Cor 7. mas por uma legião de leigos. Desta forma. Santo: A Santa Virgindade. explica porque a continência extingue a concupiscência: “Faz com que nos abstenhamos de todas aquelas coisas que não satisfazem uma necessidade. mas abrir mão de um ato lícito e bom. e não permite ao corpo uma moleza supérflua. 20 . ou jamais teria sido elevado à dignidade sacramental. quando feita “por amor do Reino dos Céus” (Mt 19. a virgindade ou celibato são mais excelentes que o matrimônio. Ele é guardado não somente por sacerdotes e religiosos. mas pelo fato de ultrapassar o bem do matrimônio” (AGOSTINHO. 120 e 123). Desde os primeiros cristãos. dogma de fé. Esta excelência da virgindade e celibato sobre o matrimônio é. São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais. cân. XXIV. nesta linha. ensina que este estado auxilia a pessoa a entregar-se mais facilmente às coisas divinas e à oração. mede a comida e a bebida de acordo com a necessidade. e. Concílio de Trento. A Igreja nos explica porque a virgindade consagrada a Deus é a perfeita castidade. 34). Carta Encíclica Sacra Virginitas). São Paulo: Landy. Sess. havendo abundantes testemunhos dos Santos Padres sobre sua importância. Sua Santidade o Papa Pio XII. o Confessor. e que não é melhor ou mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema” (Denzinger 1810. mais seguramente alcançar as bem-aventuranças e contribui para mais livre e eficazmente poder levar outros ao Reino dos Céus (Cf. e “a glória deste maior bem não se baseia em que se evita o pecado do matrimônio. portanto. protegendo-a do impulso carnal” (MÁXIMO. encontra maior mérito diante de Deus. da qual uma é boa e outra melhor”. A entrega da virgindade a Deus encontra fundamento nas palavras de Nosso Senhor.

] Em presença daquele que possui a plenitude da beleza. vivendo a perpétua continência. 2000. sendo forma de todas as virtudes.3). o nascido da Virgem Maria. 141 e 166). e a morada dessa caridade é a humildade” (AGOSTINHO. Diz que se fala de “algo tão santo e grande. que se torna necessário cuidar ao máximo para evitar o perigo do orgulho”. ao fazê-la uma doação por amor. São Paulo: Paulus.. Santo: A Santa Virgindade. Os que guardam a perfeita castidade têm um exemplo a seguir. sentiremos muito menos o desejo de nos expandir sobre as criaturas.] Contemplai a beleza daquele que vos ama” (AGOSTINHO. 169 e 170). mas a quem contemplam com os olhos da fé. Se amarmos a Deus com toda a alma. o sacerdócio ou o estado religioso não nos tira este lado afetuoso da nossa natureza. 580). para não o ver corrompido pela soberba”. “A castidade leva aquele que a pratica a tornar-se para o próximo uma testemunha da fidelidade e da ternura de Deus” (Catecismo da Igreja Católica. 2346). 105). são mães de Cristo. Santo: A Santa Virgindade. e acharás graça diante de Deus” (Eclo 3. mas ajuda-nos a sobrenaturalizá-los. p. esse devem guarda-lo com a máxima vigilância. Na mesma obra.Assim. São Paulo: Paulus. mas serão fecundos pela caridade. A perfeita castidade abstém-se deste dom. Cristo se torna para estas almas o esposo que não vêm com os olhos do corpo. se fizerem a vontade do Pai” (AGOSTINHO. 2000. E nisso auxilia a constante educação do corpo. se amarmos a Jesus sobre todas as coisas. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Ao lembrar as palavras da Sagrada Escritura. “O coração do homem é feito para amar. Esta caridade se explica na exortação de Santo Agostinho às virgens: “amai de todo coração ‘o mais belo dos filhos do homem’(Sl 44. 2007. que dizem que “quanto maior és. A caridade. tendo em vista ocupar-se mais do bem divino. ele escreve: “com a continência perpétua e principalmente a virgindade é tão grande bem entre os santos de Deus. Aqueles que guardarem a virgindade ou o celibato não terão filhos. São Paulo: Paulus. o mesmo que é Filho de Deus” (AGOSTINHO. Ainda segundo o Santo. “o que é fruto de uma única santa Virgem é a glória de todas as outras santas virgens.20). A perfeita castidade é fomentada com a sólida e fervorosa devoção à Santa Mãe de Deus. como meio para exercitar o controle de si e poder viver fielmente neste estado. um refúgio para se abrigarem: a Virgem das virgens. A simples menção de Nossa Senhora já nos inspira a uma vida na santa pureza. para que tenha somente o necessário e nunca atraiçoe.. p. 21 . p. não constituindo uma necessidade. da bondade e do poder. influencia a castidade. Pois elas também. todas as criaturas desaparecem e não têm encanto” (TANQUEREY. [. “à piedade e caridade de José foi dado um filho. do qual se afirma: “a castidade do esposo haveria de receber igualmente o que produzira a castidade da esposa”. unidas a Maria. Santo Agostinho afirma que o meio mais apropriado de assegurar a santa castidade é a humildade. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. Santo: A Santa Virgindade.. Assim. a guardiã da virgindade é a caridade. mais deve humilhar-te em todas as coisas. “Logo.. o dom da procriação não é vital ao ser humano. p. 2000. Desta santa virgindade. foi guardião fiel seu castíssimo esposo São José. [.

livremente nos criou. Se permitiu que em alguns casos se rompesse.8). deste modo poderão novamente abeirar-se da mesa eucarística. Os esposos cooperam na transmissão da vida como na educação dos filhos com o amor de Deus criador.Cem Textos Marianos Com Comentários. à sua imagem e semelhança. A união entre o homem e a mulher foi desde o início fundada por Deus: “Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher. Mt 19. comete adultério contra a primeira. mas sim de fazer a vontade de Deus em suas vidas.A. Desde o Antigo Testamento. A Igreja não se isenta diante da realidade. Se este amor é imitação da Perfeição Divina. que levou a Lei à perfeição. como amigos. Segundo o desígnio originário de Deus. Cada qual em seu estado. Azevedo.11-12). 22 . encontrará a verdadeira felicidade. 1997. p. A Virtude da Castidade na Vocação Matrimonial Deus criou a humanidade. Estas pessoas não têm porque achar que. nunca mais serão felizes. antes da vinda de Cristo. homem e mulher. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro. 338). “A união matrimonial do homem e da mulher. a Igreja por fidelidade às palavras de Cristo. Deus quis com esta união fazer o ser humano participante de seu poder criador. O amor conjugal a que ambos são chamados é imagem do Amor Absoluto. 190). como afirma Jesus Cristo: «O que Deus uniu não o separe o homem» (Mc 10. e vê com zelo. e já não são mais que uma só carne” (Gn 2.Santo: Sermão 51 em A virgem Maria . a união conjugal não pode ser senão santa e sagrada.P. que é Deus. mas com diferenças entre si que apenas enriquecem a criação divina. São Paulo: F. A felicidade não dependerá do matrimônio em si mesmo. A: Doutrina Catholica – Terceira Parte. a união matrimonial é indissolúvel. foi pela dureza do coração dos homens (Cf. como irmão e irmã. comete adultério” (Mc 10. aqueles que. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis). com os cuidados previstos por uma comprovada prática eclesial” (Sua Santidade o Papa Bento XVI. Cristo jamais o teria elevado à dignidade sacramental. igualmente dignos. se a primeira foi válida. Este sacramento “santifica a união legítima do homem e da mulher e lhes confere as graças necessárias para cumprirem seus deveres de estado” (Boulenger. Aos que vivem em situação de segunda união. por motivos diversos.24). as “leis da Igreja” sobre a indissolubilidade do matrimônio são apenas seguimento do mandamento que Ele próprio deixou. como Mãe protetora que é. Sendo assim. São Paulo: Paulus. 1927. Tendo dito Jesus que “quem repudia sua mulher e se casa com outra. 73 e 74). Rio de Janeiro. Não fosse o Matrimônio um bem. “a Igreja encoraja estes fiéis a esforçarem-se por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus. p.9)” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. fundada e dotada de leis próprias pelo Criador. está por sua natureza ordenada à comunhão e ao bem dos cônjuges e à geração e bem dos filhos. acabam por divorciar-se. o Senhor demonstra que a união matrimonial é indissolúvel. se permanecer com Cristo. não pode reconhecer como válida uma segunda união matrimonial. com isso.

certas vezes. que. venerai-o. estabeleceu que nesta função (i.. quando se encontrou com os jovens no Brasil. Consciente dos fins do Matrimônio. não se resumem à fidelidade entre os esposos. Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes. de geração) os esposos sentissem prazer e satisfação do corpo e do espírito. pedida pelo amor conjugal. que é precisamente o amor de Deus sobre todas as coisas. um baluarte das vossas esperanças futuras. [.Já desde jovens e ainda sem o compromisso do casamento selado. preocupar-se-á cada vez mais dele. por desvirtuar o fim primordial desta união. e a respeitar este sacramento. para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais”. Quando realizados de maneira verdadeiramente humana. que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento. dentro e fora do matrimônio.. que antes do matrimônio se dará na continência. Dentro da própria relação conjugal é necessária a guarda constante desta virtude. o Papa Bento XVI.. aqueles que têm a vocação matrimonial são exortados a viver a castidade. Aos esposos é apenas lícito espaçar o nascimento dos filhos por justa causa. procriativo e unitivo. deve ainda o casal cuidar para que estes não sejam dissociados. ao mesmo tempo. Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado. O matrimônio é uma instituição de direito natural. paradoxalmente vazia. por disposição divina. a ordem puramente biológica. O amor verdadeiro procurará sempre mais a felicidade do outro. As dificuldades da vivência da castidade na vocação matrimonial. Assim sendo. Ao mesmo tempo. os esposos não fazem nada de mal em procurar este prazer e em gozá-lo. será sempre mais fiel. deturpando a relação conjugal. Portanto. significam e favorecem a mútua doação pela qual os esposos se enriquecem com o coração alegre e agradecido. orientada como está para a geração de um ser humano.’ A sexualidade é fonte de alegria e de prazer: O próprio Criador.. o que se dará somente através dos meios naturais que dispõem. “Os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são honestos e dignos. 2362). e abarca um conjunto de valores pessoais. corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável. pois a vida conjugal que. Disse-lhes: “Tende. Neste sentido. e. impresso pelo próprio Deus desde a criação. Respeitai-o. que é a geração de filhos. supera. Eles aceitam o que o Criador lhes destinou. doar-se-á e desejará existir para o outro e. é grave ofensa a Deus.] Requer espírito de sacrifício e de renúncia por um bem maior. Sobre isso são de muito proveito as palavras do Santo Padre. ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade. que vos leva a uma vida dissoluta. está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade. é um grande dom que Deus fez à humanidade. sobretudo. Sua Santidade o Papa João Paulo II afirmou a totalidade da doação mútua que deve ter o casal: “esta totalidade. Contudo. os esposos devem saber manter-se nos limites de uma moderação justa” (Catecismo da Igreja Católica. não houver fidelidade entre os esposos. por isso. um grande respeito pela instituição do Sacramento do Matrimônio. por sua própria natureza. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se. não deixando um pesado fardo apenas sobre um dos 23 . todo ato que vise por vias artificiais impedir o fim procriativo do ato conjugal. indissolúvel e fecundo”. períodos de continência. na Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Isso exigirá.

amor e respeito. não numa relação de escravidão. e a ame como Cristo amou a Igreja. especialmente através da oração em comum.cônjuges. “o que não conseguirá senão quem houver tomado o hábito de subordinar o prazer ao dever e de buscar na recepção freqüente dos sacramentos remédio para os apetites violentos da concupiscência” (TANQUEREY. 2007. Terão ainda o auxílio dos demais Sacramentos. ao dizer que a relação entre os esposos deve ser como a de Cristo com sua Igreja (Cf. tal qual a Igreja se submete a Cristo. Tudo isso se resume nas palavras de São Paulo. 24 . Exige cumplicidade. fortalecendo os laços do matrimônio. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. p. devem buscar a prática conjunta de uma verdadeira devoção. os quais fortalecem o cristão na prática das virtudes. 571) Para assegurar a vivência da castidade. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. Que as mulheres se submetam aos seus maridos. E que o marido se entregue por sua esposa. 22-30). contam os esposos com as graças específicas concedidas pelo Sacramento do Matrimônio. Além disso. pois por meio da oração poderão obter graças para superar todas as dificuldades e para nutrir eficazmente esta e todas as demais virtudes. mas de confiança e amor. que não se resumem ao ato sexual. Ef 5.

25 . Além disso. na maioria das vezes. é uma palavra que soa estranha aos ouvidos. Ele mesmo. que é o Cristo Ressuscitado. e estas coisas ganham novo sentido: não mais as fazemos em vão. cada momento de nossa vida. provém de uma doença na vontade. Deus não lhe falta. que se recusa ao esforço. Verdadeiro parasita. Como cristãos. tudo quanto lhe pode perturbar o sossego e arrastar consigo fadigas. amar. Entretanto. Pe. enquanto o não inquietam. se estamos junto de Nosso Senhor. mas deve estar constantemente presente em nosso pensar e agir. num primeiro momento. quanto pode. conforme nos conta o livro de Gênesis. pode conseguir coisas verdadeiramente inimagináveis. que está atrelado à eternidade. somos diligentes quando nos entregamos a Deus e tudo fazemos por amor a Ele. Certamente. quando vive e trabalha por Deus e unido a Ele” (MACIEL. que são também nossas. mesmo que o homem seja um ser tão limitado em suas possibilidades.Capítulo III Das Virtudes Ascéticas: A Diligência Diligência. Pode ser pouco corriqueira em nosso vocabulário. mas coloca nele amor e assim dá seu melhor para que seja finalizado com esmero. descansou ao fim. “O preguiçoso quer evitar qualquer trabalho. se o querem tirar da sua inércia” (TANQUEREY. “Embora Deus aja como queira. mas as utilizamos como meio para alcançar os Céus. Quem assume sua condição de filho muito amado por Deus busca viver. assim como seria um absurdo dizer que Deus ficou ocioso em seu repouso. acima de tudo. tem um objetivo maior. buscando que fiquem bem acabadas. antes coloca em Deus sua confiança. devemos nós ter em mente que descansar não é ficar inativo e inerte. Sabe das suas limitações e não se desespera por elas. se formos sinceros conosco. chegando até a temê-lo. O repouso foi mandamento de Deus que. 466). e com os instrumentos que queira. A preguiça. não são dignas de Cristo. Marcial: Carta Tempo e Eternidade). a virtude da diligência. a Ele pertencerão na mesma medida que nós pertencermos a Ele. faremos estas boas obras com esmero. quando queira. para muitas pessoas. através de cada gesto. Então perceberemos como estas atitudes. E. vive. no qual não nos encaixamos. e isso se demonstrará no empenho que colocamos em agradá-Lo. a expensas dos outros. sabendo que fazendo tudo quanto pode. veremos que esta postura é inúmeras vezes assumida por nós. impacienta-se e irrita-se. tendo trabalhado na criação do mundo. Ainda que não entreguemos diretamente todos nossos pensamentos e obras a Cristo. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. ordinariamente Ele se utiliza da colaboração livre e responsável dos homens para realizar os seus desígnios. Porém. parecer de um caso extremo de pessoa preguiçosa. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Manso e resignado. não convêm a um cristão. Ser diligente é. Não quer cumprir seu dever com desleixo e deixá-lo mal feito. p. Esta explicação pode. nesta busca pelo eterno encontramos a ligação de tudo quanto aqui fazemos com o nosso objetivo final. 2007. pois quem ama deseja contentar o Amado.

como bons filhos que devemos ser. pois nos dizem as Sagradas Escrituras que a árvore que não der frutos será cortada (Cf Mt 3. São Josemaria: Questões atuais do Cristianismo. quando não reagimos contra ela. que. que preferiu enterrar seu talento. além disso. Este modo de ver os talentos que Deus nos dá é explicado por Pe. pois. ao invés de fazê-lo render e dar frutos.“Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há de ter um momento livre. 1999. Por isso. Numa palavra: encontrando ocasião para servir os outros e para si mesmo. ao explicar o que é a pobreza de espírito à qual estamos obrigados se quisermos entrar no Reino dos Céus. ao tratar sobre o tempo. é distrair-se em atividades que exigem menos esforço” (ESCRIVÁ. “O espírito e o coração do homem não podem estar inativos: se não se absorvem no estudo ou em qualquer outro trabalho. fazendo as coisas o melhor possível. negligência ou outra causa culpável. egoístas. recomendo que todas as vezes que se aproximarem do Sacramento da Reconciliação. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. e peçam perdão a Deus se perceberem que. que podem ser nossas qualidades e dons. buscando somente satisfazer os próprios desejos. em razão do Batismo. expondo-a ao pecado” (TANQUEREY. ou. de pontualidade. ora. por preguiça. com em nossa família e amigos. todas as mulheres — e não apenas os materialmente pobres — têm obrigação de trabalhar. tem o sério compromisso de colaborar com a edificação e difusão do Reino de Jesus Cristo na terra. A riqueza. 26 . no trabalho que empreendemos em prol da Igreja. p. contou a parábola dos talentos. ambiciosos. principalmente num cristão que. 122.10).14-30). pensamentos. pensamentos sensuais. que devemos empregar corretamente. Jesus. não podemos negar o serviço. que na época era o nome dado a uma certa quantia de dinheiro. Marcial: Carta Tempo e Eternidade). onde ao servo preguiçoso. Além disso. ponto 357). porque o descanso não é não fazer nada. desperdiçaram uma parte do seu tempo” (MACIEL. os momentos dedicados a um gosto artístico. vegetar e vagar. a leitura. sem esquecer que todos os homens. tanto em nosso trabalho particular. vivendo os pormenores de ordem. p. examinem este ponto em sua consciência. fala-nos que ela deve existir sempre junto ao serviço: “É. são logo invadidos por um sem-número de imagens. evangelizando. fazendo apostolado. o que seria pior. Marcial Maciel. são concedidos para que o coloquemos em prática e gerem frutos. 467). outro talento que ganhamos é o próprio tempo. Isto eu considero muito grave. a reunião familiar. para que não apenas não o percamos. permanecendo sempre na ociosidade. Estes talentos que Deus nos dá. São Paulo: Quadrante. até o talento que tinha lhe foi tirado (Cf. mas que seja bem usado. que tomarão o predomínio em nossa alma. enchendo as horas com uma atividade útil. à literatura ou a outra distração nobre. escreveu: “Passar pela vida como as nuvens passam pelo céu num dia de vendaval. Mt 25. a situação de desafogo econômico é um sinal de que se tem mais obrigação de sentir a responsabilidade pela sociedade inteira” (ESCRIVÁ. Pe. desejos e afetos. mas principalmente não deixar de fazer o bem. é a tríplice concupiscência: serão. Ponto 111). o que domina em nós. São Josemaria: Caminho. 2007. interesseiros. dizem-nos também os Evangelhos. no estado de natureza decaída. de bom-humor. Para não deixar que a concupiscência nos domine e. Não se trata apenas de não praticar o mal. orgulhosos. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. Este mesmo Santo. saber ter o dia todo preenchido com um horário elástico onde não faltem como tempo principal — além das normas diárias de piedade — o devido descanso.

ainda que não sejam estritamente necessários. O mandamento do Senhor para que o homem trabalhe e frutifique é universal. mas ninguém será capaz de ganhar o Céu por nós. Os atos de amor não têm em vista nós mesmos. Aqui. a alma vê-se livre das simples obrigações. São João: Cânticos Espirituais. É de suma importância criarmos convicções de trabalho. Já não os faz por si. estes dias passados aqui em terra árida. que tudo sabe. socorrendo tantos necessitados. Assim. nos servirão para o deleite do Céu. Sua Majestade. não encontramos gozo em fazer coisas para Deus. Por mais que a vontade. certamente. pouco a pouco. mas Aquele a quem oferecemos estes atos. a consciência sempre está insistentemente a nos pedir que assumamos as nossas responsabilidades. Mesmo depois de haver empregado todas as diligências. muito que fazer pelos outros e pela Igreja. verá nosso esforço e. porventura. individualmente. trabalhando no anúncio do Evangelho e na construção de uma sociedade católica.Como nossa auxiliar. de acordo com nossas possibilidades. pois a vitória de dará a cada tarefa. Podem não ter necessidade para si próprios. procuremos nós mesmos o serviço. Senhor nosso. ou seja. seremos cobrados por todos aqueles que deixamos de ajudar e que até mesmo. sejam tão ricos a ponto de não precisarem mais trabalhar para garantir a sobrevivência. trabalhos que todos devemos buscar. levando Deus a toda criatura. Nosso amor também se demonstra na persistência em cumprir nossos deveres. com a prática do amor de Deus. que é meio de santificação pelo qual podemos mais servir a Deus. ainda que muito nos custem. jamais chegará esta virtude a desabrochar em nós e tornar-se viva. dando oportunidade de emprego aos que não o têm. busca os meros detalhes que poderão agradar ao seu Senhor. É necessário educar esta vontade. pelo contrário. Quem quer as flores sem os espinhos não é digno da Cruz de Cristo. aplicando-se inclusive àqueles que. mas. a duras penas. muitas vezes. Assim ocorre porque. 43). não apenas atividade com que ganhamos o pão de cada dia. Fortaleza: Edições Shalom. não se contenta e julga haver feito nada” (CRUZ. queira fazer-nos permanecer inertes. Mas não devemos nos entristecer se. não põe delongas em fazer quanto pode para achar o Filho de Deus. sofreram ou perderam-se no pecado. por nossa omissão. Mt 25. Deus lhe confiará muito mais (Cf. 2003. Nosso empenho nas coisas de Deus não deve ter em vista consolações ainda neste mundo. na grande maioria das vezes. e já avançando na virtude da diligência. instruindo a quem preciso for. 27 . não porque não as cumpre. livremente e sem esperar qualquer coisa em troca. devemos aceitar que. seu Amado. Se a prática da diligência não começar nos pequenos detalhes. Pode ser que aqui outros trabalhem e se esforcem em nosso lugar. sabemos qual nosso dever e precisamos esforçar-nos para colocá-lo em prática. pois quem é fiel no pouco. “A alma verdadeiramente amorosa de Deus. A luta contra a negligência não pode ser descurada sequer nas pequenas coisas. P.21). mas há. Deus. a qual nos decidirmos com firmeza a empreender com solicitude. mas por Aquele a quem ama. ainda doente. a fim de melhor dedicar-nos ao Senhor por seu intermédio. As flores serão colhidas no jardim da eternidade. apenas tocamos os espinhos. Se nossa vida for estéril. exercitando-se já no amor de Deus. além de fazê-las com presteza.

Se desejamos encontrar o Senhor e. temos na Sagrada Eucaristia nosso alimento espiritual. outra forma de encontrar a Deus senão pôr-se a caminho e buscá-Lo incessantemente. se chegar por vezes a desprezá-Lo. São João da Cruz. O homem. é tão grande que leva a pessoa a entristecer-se pelo bem divino. pois pode acabar por nos retrair das boas obras. e sempre buscar aprofundar-se na oração. juntamente com isso. A verdade é que. por obras que demonstrem a veracidade da fé. Além de nos empregarmos em boas obras. pode nos trazer um peso desnecessário às nossas tarefas corriqueiras. por ser difícil de ser praticado. Gn 2. nomes dados à preguiça espiritual. mesmo antes do pecado original. foi um castigo de Deus aos homens. Além disso. A tristeza demasiada. Mas a dificuldade deu-nos também a luta. uma vez que “a fé sem obras é morta” (Tg 2. se quer boa colheita” (2Tm 2. precisa aperfeiçoar as faculdade com que Deus o dotou.9). São João: Cânticos Espirituais. portanto. fazer de sua parte o que lhe compete” (CRUZ. pois diz o Senhor: “Buscai e achareis” (Lc 11. 43). ou seja. por natureza. precisamos do Pão descido dos Céus. p. mesmo pelo pecado. tanto para solicitamente fazer crescer as virtudes como para não permitir que tentações sejam consentidas. a virtude da diligência nos fará vigiar constantemente. em especial no amor que lhe devemos. colocando um tijolo a mais na construção e cuidando para que não caia. nos santificamos. fazendo-a crescer em nós. já estava ao encargo do homem trabalhar (Cf. cultivando-as. “para achar deveras a Deus. Continuando. será. e este foi o mandamento de Deus desde o princípio da criação. pois. É preciso que o lavrador trabalhe antes com afinco. Se queremos construir o bem em nós. por si só. através da qual. não basta ainda ajudar-se de benefícios alheios. Não haverá. tornando-os mais agradáveis à medida que mais neles nos empenhamos. “Nenhum atleta será coroado. Remédio para a acédia será. contemplá-Lo face a face. 2003. dia a dia.26). por nos privar da caridade necessária à graça santificante. pois assim como o trabalhador precisa do pão que lhe dê energia para a labuta.15). um dia. Verdade é que não havia ainda o cansaço pelo labor – este veio após a queda do homem. é necessário evitar veementemente a negligência para com Deus. que. não é boa. desistindo de começar o bem. não é suficiente orar de coração e de boca. Segundo o grande místico e Doutor da Igreja. o Santo mostra qual será este caminho ao encontro do Senhor e como se perderão os que tentarem estrada mais fácil: “Há alguns que nem mesmo se animam a levantar-se 28 . pois sem ela todo nosso trabalho se tornará infecundo. o que nos privará da caridade. Por vezes. Fortaleza: Edições Shalom. se a ela nos aplicamos com diligência. se não tiver lutado segundo as regras. Sendo elas bons hábitos. A preguiça espiritual pode ser muito grave quando a alma fica em tal estado de tédio que se acabrunha. é pecado mortal. alimento que fortalece nossa fé e nos anima na caridade. mas é preciso. já que não tem a perfeição divina.5-6). procurar elevar os pensamentos aos bens espirituais. seja pelas investidas externas que querem fazêlo ruínas. E a única forma de fazer isso é colocando-as em operação. com diligência devemos nos empregar na prática das virtudes. a acédia ou acídia. fazendo-nos cair em pecado mortal.A errônea concepção de que trabalhar. seja pelo pouco zelo com que o edificamos. rompendo a comunhão com Nosso Senhor que ganhamos em nosso batismo. será impossível tê-las sem a constância e a solicitude posta na prática de cada uma em particular.

Assim o procurava a Esposa nos Cantares. não hesitou no seu sim a Deus. buscarei pelas ruas e praças públicas Aquele a quem ama a minha alma’ (Ct 3. pois “aquele que se exaltar será humilhado.21. Já na glória eterna do Pai. que compreende uma imensa diversidade de carismas e formas de viver a mesma fé – onde temos a essencial unidade da Igreja de Cristo – muitos foram os que. Portanto. p.23). Muitas vezes o amor por Deus é tão grande que nossas ânsias são como as de São Paulo: “Para mim. O serviço é visto por Deus ainda que oculto aos olhos humanos. através do trabalho bem feito. ocultamente. Levantar-me-ei e rodarei a cidade. continuando nossa luta cotidiana com os pés no chão. 44). pois seria muitíssimo melhor” (Fl 1. Isso fazemos quando damos sentido sobrenatural a todas as coisas. querem que lhes venham à boca e ao coração os sabores divinos. pois aí as tarefas passam a ser empreendidas não mais por si mesmas. e é isso que lhes dá sentido. consolações ou quereres inúteis. por mais que chamem a grandes vozes. e não o achou enquanto não saiu a buscá-Lo. terá um imenso valor. ainda que nos custe. a salvação eterna e o encontro com Deus. sem darem um passo na mortificação e renúncia de qualquer de seus gostos. da perseverança no ambiente familiar. no bom trato com os amigos.12). não aos homens. que esta opção lhe custaria o empenho de toda uma 29 . mas os olhos e pensamentos voltados aos Céus. o zelo com que realizamos nossas obras tem em vista agradar a Deus. Ainda tão jovem. pensando como agiu Maria enquanto esteve neste mundo. Tais pessoas. ao ser visitada pelo anjo. E depois de haver sofrido alguns trabalhos. e aquele que se humilhar será exaltado” (Mt 23. mas que. sejam elas as mais simples de cada dia ou os acontecimentos mais nobres de nossas vidas. é forma que todo cristão leigo pode escolher para si. até que se resolvam a sair de si para o buscar.de um lugar agradável e deleitoso. porém. Esta particular forma de servir ao Senhor. portanto. santificaram-se. A humildade. com certeza. Santos ocultos. com certeza. Desejaria partir e estar com Cristo. Com amor. como diz por estas palavras: ‘Durante a noite no meu leito busquei Aquele a quem ama a minha alma. tornando mais fácil cumprir tudo com alegria. foi elevada acima de toda criatura. 2003. diz então que o achou” (CRUZ. que se dedicou a seu Filho – seu e nosso Senhor – sem que ninguém a visse. se amamos deveras a Cristo padeceremos pacientemente esta dor de amor por querer estar logo junto do Amado. unido aos méritos da Cruz de Cristo. Assim procedeu Santa Maria. viver é Cristo. São João: Cânticos Espirituais. chegaram ao seu objetivo final. busquei-o e não O achei. mas por um fim infinitamente maior: o Amor. vivendo cada particularidade de sua vida com um propósito sobrenatural. no fará sermos solícitos sem desejar reconhecimento dos homens. Ela. jamais acharão a Deus. sem qualquer exaltação pública enquanto esteve junto de nós. podemos mirar nossa Mãe e Rainha. Mas. Em nossa Santa Igreja. um lucro. na constância na oração e freqüência aos Sacramentos. para contentar o Senhor. Se nos faltam forças para seguir em frente com ânimo e ardor. Sabia. companheira de todas as virtudes. não haverá lugar para a preguiça. serva e escrava de Deus. nas suas ocupações comuns e pouco cobiçadas. Sabemos que cada gesto feito por amor. assim como este santo bispo da Igreja. e morrer. Fortaleza: Edições Shalom.1-2).

E. Nos pomos aos seus pés e. Podemos também nós assim fazer.. a quem auxiliou por três meses. pôs-se a serviço. não desconhecia as muitas dificuldades que passaria. com o mesmo amor fitamos. mas a vitória perpétua. para que tudo seja feito conforme a vontade de Deus. mas que certamente fizeram parte de sua vida. quanto carinho e dedicação não concedeu a cada detalhe da vida de seu Menino. Não mais me recusarei ao serviço!”. respondendo prontamente ao chamado. junto d´Ela. prometemos dar nossa vida. Diante do exemplo perfeito de doação do Verbo de Deus encarnado. Já carregando o Filho de Deus em seu ventre imaculado. E. que não mediu esforços para nos salvar. Senhor. indo mais a fundo. imaginamos todas as palavras que não nos foram escritas. Mas.. como à doce criança na Manjedoura. tendo a certeza que a Cruz não foi uma derrota. compartilhando com Maria a atenção que o Menino Jesus merece receber. se necessário for.vida. empreendeu longa caminhada para chegar à casa de sua prima. o único grito que talvez nos reste seja: “Não mais. 30 . o Cristo pregado à Cruz. Santa Isabel.

É uma virtude interna que reside ao mesmo tempo na vontade e na sensibilidade. Esta não é uma virtude que caminha sozinha. uma inversão completa deles. e é esta ira que conhecemos como vício capital. por maneiras afáveis” (TANQUEREY. Por isso. mas vem do alto. pois o manso perdoa as injúrias e é benevolente para com todos. mas que se manifesta exteriormente. como tantas outras virtudes que deveríamos cultivar. da virtude da fortaleza. ou ainda falso e resignado. 31 . p. pois a tranqüilidade da alma. a caridade. que é sufocado com a habitual prática do bem. Exigindo controle de si mesmo para moderar os movimentos da cólera. É sabido que toda virtude tem seu vício oposto. sob exteriores adocicados. neste caso. que também auxilia a vencer a ira e coibir a indignação. mas dificilmente vivida. mas deve-se ter extremo cuidado para que ela não deixe de ser instrumento de virtude e permaneça sempre escrava da razão. 2004. São Francisco: Filotéia. pronta a servi-la se necessário for. tanto em coisas grandes como pequenas” (SALES. a imagem do Cristo calado. Mas. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana. se moderada. é boa. um profundo ressentimento. muito embora seja de todas. e a que é movida pelas paixões e desordenada. 599). acostumando-te a falar e a agir sempre com este espírito. “Quando estás com ânimo calmo e sem motivo algum de irritar-te. é muito apreciada. uma vez que o manso e humilde é tido como fraco e medíocre. exige-se que ande junto da paciência. É preciso um profundo senso cristão para compreender que a mansidão não é “a fraqueza de caráter que dissimula. A virtude da mansidão parece. a teologia costuma indicar duas possibilidades para a ira: a que se submete à razão e é moderada por ela. para lá fazer reinar a serenidade e a paz. E não deixa de caminhar com a mais nobre das virtudes. se não uma ausência de valores. 217). A ira apenas é boa e ordenada quando quer corrigir um vício e não visa a vingança e o dano alheio. nas palavras e nos gestos. talvez. dificilmente se encontra lugar para o verdadeiro Bem. fadada ao esquecimento e desprezo. Quanto mais nos acostumamos com o bem e nos afeiçoamos por ele. a mansidão poderá tornar-se em nós uma disposição habitual para o bem se buscarmos sempre praticá-la. mas unicamente a justa emenda das injúrias. tal qual cordeiro levado ao matadouro. portanto. que não está em objeto ou homem qualquer. Petrópolis: Vozes.Capítulo IV Das Virtudes Ascéticas: A Mansidão Num mundo onde há. mas facilmente o empregaremos quando as grandes tentações advierem. por excelência. A ira que está em desacordo com a ordem da razão deseja o mal ao próximo. faze um grande provimento de brandura e benignidade. já que não se vê como pode coadunar com o homem moderno e competitivo. é resultado desta virtude. e. Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Por suportar os defeitos dos irmãos. também chamada de iracúndia. p. A ira por zelo. 2007. Como em todas as demais virtude. é anexa à temperança.

pois a alma só pode avaliar a verdade com uma certa tranqüilidade de mente. a deseja por justiça. Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Não apaga as faíscas da fé e da esperança que ainda permanecem nos corações dos que pecaram. Assim. O manso. querer fazer justiça com as próprias mãos. mas suave e tranqüilo. Se for necessária uma correção da injúria. não em vista do fim devido. a ira como movimento do apetite sensitivo. características do vício da ira. não desanimará. suas palavras. que levem nosso ânimo a inchar-se. 1980. Se acaso sofremos injustiças. fugindo da retidão e da ordem. 97). causando-lhe dano. portanto. 2004. São Francisco: Filotéia. E até mesmo a ira por zelo deve ser constantemente moderada. nunca eleva a voz. “É melhor. Longe do virtuoso estará. seus exemplos. Porto Alegre: Sulina. pois se deixa de servir à razão e toma ardor excessivo. São Paulo: Martins Fontes. querendo vingar seu pecado nele. manterá firme a disposição de amar a todos. se deseja castigar a quem não merece.Os Sete Pecados Capitais. apesar de não se conformar com a injustiça sofrida por si ou por outrem. perturbando nossa mente. CLVIII). escrevendo a Profuturo. tendo paz. nem desfalecerá. A ira “impede o juízo da razão. Para progredir nela é necessário buscar a Cristo. irando-se não contra o pecado. quem deseja a vingança de qualquer modo. de modo a estar submetida à ela para pôr em prática a justiça contra o pecado. ou ainda não seguindo a ordem legítima. a qual por isso se chama ira por vício. diz Santo Agostinho. contra a ordem da razão. Cristo é firme. não extinguirá a mecha que ainda fumega. Os que principiam na prática da virtude precisam combater os desejos e todos os movimentos apaixonados da alma. pode servir à razão. ou enfim. e 32 . Mas quando se quer o extermínio de quem peca. tendo em vista o reparo do mal feito e não causar igual ou maior dano e dor ao que foi injusto. 214). que é a realização da justiça e a correção da culpa” (AQUINO. ou além do merecido.Não se conformar com um pecado e querer sua correção são atos virtuosos. não estará isenta de pecado. aí sim se encontra o mal. até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra. mas contra o irmão que peca. “Nutrirá um desejo vicioso da ira. e até que as ilhas desejem seus ensinamentos” (Is 42. se faz conhecedora e prudente” (AQUINO. ainda que tanto dano tenham causado. d’Ele que foi anunciado como manso desde o Antigo Testamento: “Ele não grita. 2001. por isso diz o filósofo que a alma. porque ela lança raízes tão profundas que é muito difícil de arrancá-las” (SALES. não clama nas ruas. Santo Tomás. fechar inteiramente a entrada do coração à cólera. por exemplo. não podemos nutrir pensamentos vingativos. Petrópolis: Vozes.2-4). Q. p. por mais justa que seja. De malo in Sobre o Ensino . Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião. pág. Não quebrará o caniço rachado. Quando fala.

que rumou silencioso para o Calvário. Tudo suporta. pois o humilde sabe-se indigno de honras e quer andar ao lado do Cristo. à imitação de Cristo. que nos deixou a Salvação. e orai pelos que vos caluniam. Se vemos almas em todos aqueles com quem convivemos. É a mansidão “que faz o homem passar por cima de todo o sofrimento e que excede a todas as virtudes. Por que o ordenou? Para libertar-te do ódio.acende ainda mais a chama viva nos corações que O amam. e tornar-te digno de grandíssimo tesouro da perfeita caridade. da ira e do rancor. é impossível que a possua quem não ama igualmente a todos os homens. só possui o auge da sua perfeição quando ajunta a virtude à paciência” (SALES. O humilde se compraz com as 33 . E por isso Nosso Senhor colocou a mansidão ao lado da humildade: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina. o que ajudará não apenas estas almas. o qual ama igualmente a todos os homens e quer que se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (MÁXIMO. como diz São Bernardo. com o próximo e com Deus. São Francisco: Filotéia. orar pelos nossos inimigos. 2004. da tristeza. tendo sobre si o peso dos pecados – não os Dele. pois assim veremos Cristo em tudo e todos. São Paulo: Landy. não justifica ferir o outro que. não se exaspera com ardor e orgulho diante das mágoas sofridas. A humildade suscitará uma postura mansa frente às injustiças. Quem mantém a tranqüilidade no espírito. segundo os seus desígnios” (Rm 8. Fazendo isso a alma fica em paz consigo. fazei o bem aos que vos odeiam. mas os de toda a humanidade. 211) “Digo-vos a vós. é mister esforçar-nos em medir as palavras. afirma o Senhor: Amai os vossos inimigos. daqueles que são os eleitos. 2003. pois sabe “que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus. continua naturalmente dotado da dignidade que Deus deu a cada homem ao nos criar e fazer-nos imagem e semelhança d’Ele. Não só de atos exteriores nos fazemos mansos. porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11. porque jamais os teve. São: Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais.28). de modo a não cair em insultos e blasfêmias. É nosso dever. pois o Cristo diz ser “manso e humildade de coração”. O orgulhoso acha que deve ser exaltado e que é imerecedor de qualquer desonra ou injúria. ainda que pecador. que estabeleceu sua Igreja. p. 64). e por isso se volta com ira contra aquele que lhe fere. inclusive. Petrópolis: Vozes. p.29). Ainda que a ira seja causada por grande mal. Foi assim que Cristo inaugurou o Reino de Deus. Em momentos onde estamos por ser levados pelas paixões. mas também fortalecerá aos que por conta de seus atos se escandalizaram. porque é a flor da caridade que. isso ajudará a não irarse contra eles.

O homem perde muito tempo de sua vida empregando-o no mal. clama a Ele em todas as suas angústias. é importante corrigir logo a falta com atos de mansidão e brandura. O mal não está só no ato. e não poderá coexistir o mal junto do Supremo Bem: se nosso coração não tende à perfeição de Cristo. e não se faz manso como o d'Ele. não pagamos o mal com o mal. pois São Tiago diz expressamente: a ira do homem não opera a justiça” (SALES. assim se assemelha mais ao seu Senhor e pode compartilhar uma pequena parte do sofrimento da Cruz. que não tem tranqüilidade nem paz. é o que somos (que se reflete no que fazemos) que será visto: estaremos nús diante de Deus. pelas injustiças. Um coração amargurado. se no afã contra a injustiça. para que Ele nos auxilie em nossas fraquezas. 215). aconselho-te: nunca por nada te exaltes. abras teu coração à ira. São Francisco: Filotéia. pois. pelas humilhações e todo tipo de sofrimento. se for possível. Se porventura nos irarmos contra alguém. diferente do orgulhoso que só quer compartilhar com Cristo sua glória. retribuindo as injúrias recebidas ou ainda atacando os que sequer nos fizeram algo. “A vida é uma viagem que temos que fazer para atingir o céu. esta paixão surpreender o nosso coração. 213). não podemos reter a irritação. se por qualquer imperfeição ou fraqueza. andemos em companhia com nossos irmãos. mas sem violência. p. “a ciência de viver sem cólera é muito melhor do que a de servir-se dela com sabedoria e moderação. mas nos esforçamos em fazer o bem. de certo modo tornamo-nos como ele quando à falta de justiça. Luta persistente e eficazmente. por pretexto algum. seja a física ou a de coração: esta é a verdadeira paz com Deus. 2004. com certeza não está próximo ao Coração de Jesus. mas. pois as feridas recentes são mais fáceis de curar que as antigas. em oração. Ainda segundo o santo. só por isso já teremos nossa condenação. aplicaremos muito mais eficazmente nosso tempo – que não sabemos quanto ainda nos resta para gastar – e esforços na correção justa do que se os perdêssemos com vinganças. Petrópolis: Vozes. mas aquele que tem certeza de onde quer chegar não se atormenta por isso: permanece com Cristo. Conforme aconselha São Francisco de Sales. Caso formos tentados com a cólera.19-20). pois. com ódio e rancor. e não se volte contra ao próximo e muito menos contra Deus. p. a melhor forma de reprimi-la é doce e eficazmente. Generalizando. Quando nos apresentarmos a Deus. em espírito de paz e amizade. São Francisco: Filotéia. Petrópolis: Vozes. Se. mas em nosso interior. que só fariam aumentar a injustiça e as ofensas a Deus e de nada adiantariam senão para saciar o orgulho de quem se vinga. frente o mal praticado pelos ímpios.humilhações e danos. 2004. é melhor reprimi-la imediatamente que procurar regrá-la” (SALES. porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus” (Tg 1. porém tardo para falar e tardo para se irar. não de um modo brusco que perturbe a alma. Assim. indignado com tudo e todos. e. Pagar o mal com o bem é o que diferenciará o cristão dos que não levam Deus no coração. sempre com suavidade. nos exaltamos contra o injusto. conforme citou São Francisco de Sales: “Todo homem deve ser pronto para ouvir. porque os que O levam vêm tudo com sentido sobrenatural e 34 . recorrendo a Deus. e nunca. não nos zanguemos no caminho uns contra os outros. não permitindo que o ânimo se exalte e venhamos a expressar a ira. É certo que muitas vezes nosso coração é massacrado pelo pecado.

é por amor e com amor que os pais dão aos seus filhos a noção do certo e do errado. É desta forma. muitas vezes. precisamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que assim seja. Nem escandalosa. mas mansa e humilde. nada pode aplacar tão facilmente um elefante com a vista dum cordeirinho.querem fazer valer o exemplo de Cristo. a caridade é bondosa. quando encontrou o menino Jesus que havia se separado da caravana. [. pelo contrário. 213-214). para que se habituem a ele e o amem.. A caridade não é orgulhosa. Não se alegra com a injustiça. 2004. e o que mais diminui o ímpeto duma bala de canhão é a lã [. Ser manso significa. “Deve-se resistir ao mal e corrigir os maus costumes dos seus subalternos com santo ânimo e muita firmeza.] Se a razão procura com mansidão seus direitos de autoridade por meio de algumas correções e castigos.4-8). e deixa suas crianças à mercê delas mesmas. visando o bem de todos os envolvidos e o agrado de Deus. levando-os aos caminhos do bem desde cedo. a mansidão abre as portas para que esta caridade adentre o coração do homem. A dor pelo pecado não deve ser aborrecida. São Francisco: Filotéia. todos aprovarão e a estimarão.. em sabedoria e em graça (Cf. não tardou em questioná-lo de seu sumiço. calar o desnecessário. Com esta mesma mansidão os pais devem criar seus filhos. não guarda rancor. Lc 2. uma vez que “a caridade é paciente. despeito e cólera.52). Se é nosso dever corrigir um erro e podemos realmente fazer algo para emendá-lo e emendar aquele que errou. Petrópolis: Vozes. tudo suporta” (1Cor 13.. mas sempre com uma inalterável mansidão e tranqüilidade.] ela mais faz-se temer que amar e perturba e oprime a si mesma” (SALES. não dando a elas diretrizes para seguir e tornarem-se adultos cristãos. firme e brandamente. Lembremos de Nossa Senhora – aquela que melhor guardou o santo silêncio . não se irrita. Não tem inveja. colocando toda a confiança na 35 . Vivemos numa sociedade que acha que qualquer tipo de correção é repressão. Não busca os seus próprios interesses. A educação com limites não é violência – e não pode vir a ser –. tudo espera. corrigindo quem o faz sem ira nem tristeza: é dever de todo cristão não permitir que o Santo Nome de Deus seja insultado ou que sua doutrina seja deturpada. mas nem sempre o silêncio é essencial. com a razão soberana em nós. tudo crê. porém nossa defesa só será eficaz se for humilde. Nem mesmo para conosco devemos nos irar. Não é arrogante. mas se a razão mostra indignação.. Foi com a ajuda da sua Sagrada Família que Cristo cresceu em estatura. Assim. A verdadeira compunção nos leva a abrandar todas as paixões e a não nos exasperarmos. Tudo desculpa. mas se rejubila com a verdade. mansa e racional. que devemos ser veementemente contra calúnias contra a Igreja e a Nosso Senhor. p.que. que respeitem a todos e saibam seus direitos e deveres.

a qual conhecemos com certeza através da Igreja Santa e Católica.. diz Santo Agostinho: ser humilde é não contradizer à divina Escritura. Q. é um espírito contrito. a piedade “convém aos mansos. 1992. ó Deus. com a razão soberana à vontade e às paixões e iluminada pela fé. para seguir no caminho.19). se desespera e se consome por seu pecado. assim. às mãos estendidas do Cristo .mãos marcadas pelas chagas da Cruz . p.31). Agarra-se. não visando seu reparo. CLVII). oferecer reparo suficiente por nossas faltas. mas sim afundando-se cada vez mais nele. que tudo perdoa a um coração contrito que o busca no Sacramento da Confissão. p. Porto Alegre: Sulina. a nos submetermos à Verdade. toda vez que cai. Esta não é a atitude do autêntico cristão! O cristão que vive a humildade se compraz em sua miséria. vemos que condena certos vícios nossos. Com o salmista. já que não se revolta com aquilo que não entende e busca pacientemente a explicação junto à Santa Madre Igreja. então ela perdoa. não vê também a misericórdia e o amor de Cristo. “É próprio da mansidão não contradizer as palavras da Verdade. Para quem tem um coração manso e humilde. um coração arrependido e humilhado. que não haveis de desprezar” (Sl 50. não se encontra sujeita a nenhum sofrimento que lhe advenha ao corpo. como se pudéssemos saber e mandar melhor que ela” (AQUINO. removendo-nos os impedimentos ao nos tornar senhores de nós mesmos. Se nós não podemos. nos levando. vendo sua miséria. É próprio do manso ser obediente à Igreja e solícito com as coisas do Pai. o que às vezes muitos fazem pela comoção da ira. uma vez que absolutamente ninguém pode por a mão no bem que ela busca com tanto zelo. e por isso liga-se a este dom indiretamente. não o somos! Mas é igual verdade que nosso Deus é um Deus misericordioso. Santo Tomás: Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte. Santo: O Sermão da Montanha. que abre os braços a todos os seus filhos que o procuram. pois não quer permanecer caído e não quer voltar ao chão lamacento do pecado. não resiste a coisa alguma. Por isso. àqueles que pecam contra ela. o que constitui a virtude da mansidão” (AGOSTINHO. quer quando não a entendemos. Quando nos vemos assolados pelo pecado. 1980. unidos aos méritos da Cruz de Cristo podemos ser justificados se nos arrependemos sinceramente e o buscamos. A mansidão nos prepara para o conhecimento de Deus. porque aquele que com piedade investiga e honra as Sagradas Escrituras não critica o que ainda não compreende. e assim pode serenamente aproximar-se de Deus e com Ele permanecer. E isto é verdade. e com tranqüilidade e firmeza mantém o propósito de não mais voltar a ofender ao Senhor. verdadeira e impassivelmente. sozinhos. devemos repetir: “meu sacrifício. pois o sabe inalienável por natureza” (MÁXIMO. “Se a pessoa não dirige de modo algum toda a sua escolha às coisas visíveis e. por isso. quer quando. entendendo-a. A mansidão destrói os impedimentos aos atos de piedade. Mas o homem que não dá um passo a frente e. São: Centúrias sobre a 36 . Esta virtude se faz presente no encontro da Verdade. por isso. as barreiras do orgulho e do desespero são retiradas do caminho rumo à caridade. e. certamente nos achamos indignos de Cristo. para continuar a batalha.e segue em frente. 3175. portanto. São Paulo: Edições Paulinas. ó Senhor.. Dom do Espírito Santo. volta-se para Deus. com ânimo renovado.Misericórdia de Deus. e.

2003. onde reina a paz. se apegando a eles de tal forma a deixar de lado o Bem divino. já nos caminhos da santidade.13). São Paulo: Landy. e compartilham integralmente sua doçura. prazeres. Estes bens que a alma. p. Dizendo isto. buscando as coisas do alto. Se o homem faz caso de bens terrenos e passageiros. antes oferecer a face esquerda a quem ferir a direita. A herança do manso é o repouso e a vida dos santos. fazei-o vós a eles” (Mt 7. encolerizado para com Deus. honras. conforto e prazeres mundanos. e continuou: “Entrai pela porta estreita. como glórias humanas. Assim disse pois “as crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio. a quem tanto ama. “Cada reunião eucarística é para os cristãos esse lugar da soberania do rei da paz. por vezes. São simples e abandonam-se confiadamente” (Bíblia Sagrada – Santos Evangelhos. os que se unem a Cristo têm uma só vontade com Ele. então. que é o maior de todos. pois sabe que a ira contra o irmão não procede a justiça divina e a afastará de Deus. Jesus de Nazaré: do Batismo do Jordão à Transfiguração. Cristo indicou que o caminho não seria fácil. não havendo lugar nenhum para o que não procede de Deus. 317). é então um préesboço da terra de amanhã. possuirá todo o Bem que desejou. ainda lhe resta uma grande esperança. o qual neste mundo apenas vê como que em espelho. Ele mesmo veio até nós e nos ensinou. que pecar. Aí. Já o manso não tendo os bens temporais como objetivo. porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram” (Mt 7. são os bens eternos. e se for privado de tudo. mas como meios dos quais pode se utilizar para chegar Àquele para quem foi criado. perdoa os pecados dos que os injuriam e oferece o Céu a quem se arrepende de 37 .Caridade e Outros Escritos Espirituais. consolos. e principalmente ao orgulho. Nos caminhos da perfeição. 146). p. sabe que. mas então verá face a face. busca com tranqüilidade e zelo. 2007. que envolve todo o mundo. São Paulo: Planeta. pois estes possuirão a pátria celestial. não será neste mundo que terá sua plena felicidade. é aí onde o Senhor se deleita. chamando-O injusto por não ter mais aquilo a que tanto ama. A comunidade da Igreja de Jesus Cristo. que deve tornar-se uma terra da paz de Jesus Cristo” (RATZINGER. se vierem a lhe faltar fica perturbado e inconsolável. Edição da Universidade de Navarra. Será tornando-nos almas inocentes. Para quem assim vive. não tem nada disto como importante o bastante perto de seu Senhor. Doce redentor que. que não levam em conta o mal que lhe fazem e logo se reconcilia com o irmão. Cristo pediu que deixassem vir a Ele as criancinhas. que seremos mansos. junto de Cristo. p. e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios. enquanto sofre e está humilhado. os quais ninguém pode nos privar senão nós mesmos. E para provar-nos que não era algo impossível. É nas almas inocentes que Jesus Cristo estabelece sua morada. Nenhuma injúria é grande o bastante que valha perder o Bem Eterno por sua causa! A regra de ouro para o manso será: “tudo o que quereis que os homens vos façam. 87). e falou aos discípulos: “se não voltardes a ser como meninos não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18. na eternidade. tudo pode suportar e que um dia todo sofrimento acabará. irado contra os que o privou de tais bens e. nem a maior injustiça é motivo suficiente para irar-se. Joseph – Bento XVI.12). Bem-aventurados os mansos.3).

E Ela te obterá graça abundante para venceres nesta luta quotidiana. os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs em teu coração.30). Ele deu-nos uma mãe! “Ama a Senhora. São Josemaria: Caminho. Se estamos cansados e não encontramos saída no desespero. parafraseando Santa Teresinha do Menino Jesus. olhemos para Maria. Por isso temos ainda mais uma fonte de consolo e auxílio. e depois de todo este desterro. com a sua podridão bem cheirosa. – E de nada servirão ao maldito essas coisas perversas que sobem e sobem. nos mostrará seu Filho. deixada por Cristo a todos os homens. Ponto 493). São Paulo: Quadrante. Mt 11. na maioria das vezes. fervendo dentro de ti. os grandes ideais. manso e humilde.. E ainda assim.sua iniqüidade. 38 . – «Serviam!»” (ESCRIVÁ. tudo é difícil. até quererem sufocar. 1999. deveríamos dizer que parece difícil. pois o jugo do Senhor é suave e leve (Cf. Ou. ajudando-nos a tornar nosso coração semelhante ao d’Ele. ela nos retribuirá com seu piedoso olhar..

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