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A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO

PARTE I1

Robson Loureiro2

Apresentação

O problema de que trata este ensaio diz respeito ao processo civilizatório mediado pela produção da cultura, a educação e sua relação com a barbárie. Em outros termos: é possível que haja civilização sem o seu contrário, a barbárie? A tese (quase polêmica) defendida parte do pressuposto de que o mundo da cultura é consequência da atividade intencional humana (trabalho). Este, por sua vez, ontologicamente funda a linguagem articulada e as formas mais complexas de exteriorização (objetivação) da subjetividade, que pode ser traduzida no conceito de civilização. Tal relação não é linear. À medida que a civilização se complexifica, mais aumenta a demanda pelo conhecimento do entorno social e natural. Nesse contexto, as formas de produção e apropriação do conhecimento (filosófico, científico, artístico) são imprescindíveis. A escola3, nas sociedades modernas e contemporâneas, constituiu-se como a principal instituição capaz de lançar mão de um tempo e do seu espaço para que facetas do patrimônio (conhecimento filosófico, científico, artístico) cultural da humanidade sejam apropriadas pelas gerações. O trabalho educativo, nesse sentido, pode ser considerado a atividade que produz, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a
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Texto escrito para fins didáticos. Ainda não passou por revisão de português. Para fins de citação: LOUREIRO, Robson. A dialética civilização e barbárie: considerações a partir do conceito de trabalho. Vitória: NEPEFIL/CE/UFES, 2011 (mímeo). Contato: robbsonn@uol.com.br. 2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/CE/UFES) – linha de pesquisa Educação e Linguagens. Graduado em Filosofia. Doutor em Educação (linha de pesquisa História e Política) pela Universidade Federal de Santa Catarina, com estágio de doutoramento na School of Education, University of Nottingham e Deparment of German Language Studies. Mestre em Filosofia da Educação pela UNIMEP (SP). Professor Adjunto do Centro de Educação/UFES. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação e Filosofia do Centro de Educação (NEPEFIL/CE/UFES). Coordenador de Pesquisa do Centro de Educação da UFES. Pesquisador na área de Filosofia Contemporânea, em especial Teoria Crítica da Sociedade (Escola de Frankfurt) em diálogo com a educação, a psicanálise, cinema e demais expressões da cultura. 3 Do grego antigo Eskolé, que significa “lugar de ócio”, para onde se encaminhavam as crianças e adolescentes que pertenciam às famílias “nobres” e nesse espaço elas tinham acesso, condições de se apropriarem de parte dos principais elementos culturais daquele contexto e assim se tornarem membros mais bem integrados à comunidade.

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humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens e mulheres (SAVIANI, 1991). A segunda tese (talvez não tão polêmica) considera que o ato de ensinar e aprender fundamenta-se no amor pelo conhecimento e o educador é aquele que ensina e, ao ensinar, aprende. Por conseguinte, ser professor/educador é padecer de uma falta. É ser um eterno apaixonado pelo âmbito do conhecimento. Outras teses, derivadas dessa segunda: 1) uma parte importante do processo de ensino e aprendizagem, que acontece no âmbito escolar, não tem início na sala de aula. As crianças não nascem com o gosto pelo saber, pelo conhecimento sistematizado, pois 2) a cultura, erudito-letrada, não faz parte do genoma humano. Aprende-se a gostar do conhecimento e a aprendizagem tem início com a família. Esta, por sua vez, pode, ou não, ser um bom espelho para a criança. Ela pode, ou não, ter aquela predisposição, o gosto necessário para acender a fagulha do fogo que desperta o interesse pelo saber escolar. Se a família desenvolve essa relação de desejo para com o conhecimento, há uma grande probabilidade de a inserção da criança na escola, no universo da cultura letrada, acontecer de forma mais prazerosa. A terceira tese (bastante polêmica) defende que a disciplina, por si só, não pode ser considerada uma prática desejável ou indesejável. Ou seja, ela não é, em si mesma, nem boa, nem má. Assim, quando se trata de desenvolver formas de aprendizagem, é fundamental uma mediação direcionada por meio da disciplina e limites. Não obstante, afasta-se, no artigo, de uma educação pela disciplina por meio da dureza. Os pressupostos que fundamentam as teses partem da Teoria Crítica da Sociedade em diálogo com Psicologia Histórico-Cultural. Nesse sentido, afastam-se das noções não diretivistas bem como do clichê das pedagogias de inspiração escolanovista. Estas, por mais que defendam a necessidade de uma relação mais afetiva e reconheçam as aspirações dos alunos, crianças e adolescentes, ao fim e ao cabo são pedagogias de fundo maternal, ou mesmo paternal. Elas se apresentam como renovadoras e em alguns casos passam por progressistas. Contudo, confundem o ideal de comportamento eticamente responsável do indivíduo capaz de fazer escolhas a partir dos limites impostos pelo conjunto da sociedade, com a liberdade incondicional dada às crianças e adolescentes no processo de ensino e aprendizagem.

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Por fim, o artigo argumenta que no âmbito do processo civilizatório percebe-se uma dinâmica dialética na relação entre cultura x barbárie. Ambos os conceitos fazem parte da mesma e conflituosa realidade, que dificilmente se resolve com seu fim. Mas, compreender esse processo é passo importante para realizar uma reconciliação não forçada do indivíduo com sua natureza animal e, desta forma, quem sabe, minimizar a danificação do humano engendrada pela própria civilização. Introdução e problematização do tema Vivemos em um mundo fugaz, onde o modelo de vida a ser seguido é o da velocidade, da aceleração. Ideal típico da sociedade industrial contemporânea. O mundo da fábrica, da indústria e do escritório parece ditar, para uma imensa maioria de pessoas, o mundo da vida. Atualmente, dificilmente um jovem, em torno dos vinte e cinco anos de idade, tem paciência para apreciar um filme sem o apelo comercial da grande indústria, etiquetado como cult ou alternativo. Esse tipo de filme, por ser mais lento, muitas vezes acaba sendo um convite à reflexão, ao pensar: atividades tão em baixa, nos dias atuais. O entretenimento, a diversão por meio das “baladas” tem como princípio básico a velocidade, a excitação e a necessidade de em nada pensar, ou, pensar apenas a partir dos esquemas previamente formulados pela indústria do entretenimento: a indústria cultural. A sociedade do espetáculo parece ditar até mesmo como deve acontecer o trabalho educativo. A educação, por sua vez, continua, a passos largos, a se mercantilizar, a se tornar um produto, uma mercadoria cada vez mais cobiçada, com valor agregado, e, por isso mesmo, para alguns, seu preço deve ser mais e mais elevado. A lógica pode ser, de forma breve, assim sintetizada: uma vez produzida, a mercadoria deve sair da indústria e circular no mercado. O produto não pode ficar parado. Para isso, há os promotores de venda, consultores, vendedores que de tudo fazem para escoar a mercadoria. Há, inclusive, cursos que anunciam a qualificação dos vendedores que vão aprender técnicas (persuasão do cliente consumidor) de vendas: representação teatral, locução para uma mais bem impostação da voz, e algumas poucas equações matemáticas. Não interessa se a mercadoria é de baixa qualidade. É preciso convencer o cliente de que o produto deve ser comprado. O que importa é vendê-lo.

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As empresas, que comercializam a educação, têm como modelo o(a)s professores locutores, ou, professores apresentadores. Mímesis de atores e atrizes. Professores capazes de levantar a platéia. O que vale, é o desempenho (performance). Na maior parte das vezes, a atuação performática deve seguir o modelo da comédia estilo pastelão. Basta ver como são ministradas as aulas dos cursos preparatórios (os famosos cursinhos) para o vestibular. O conhecimento, em muitos casos, passa a ser um cosmético. O que vale é o ato performático do docente. Ler em voz alta, um pequeno trecho de um clássico, em sala de aula, nem pensar. Onde já se viu, pedir ao aluno para ler em voz alta? Para muitos, isso é considerado uma didática ultrapassada, fora de moda. Para os arautos do modismo educacional, o professor deve aderir passiva e acriticamente às novas tecnologias da informação. Ser um adepto incondicional dos meios de comunicação de massa, da velocidade da internet. As aulas, defendem os experts de plantão, devem ser atrativas. Contudo, uma aula atrativa, nesse caso, tem a ver e deve seguir a mesma didática da excitação que sente ao “adentrar” na frenética exibição das imagens veiculadas nos filmes de ação enlatados nos estúdios de Hollywood ou mesmo dos jogos eletrônicos e brinquedos em parques de diversão. A escola parece viver uma situação limite. Quase que um beco sem saída. De um lado, alguns a percebem como sendo o único espaço, a única instituição que ainda é capaz de criar as reais condições de possibilidades para que uma grande maioria da sociedade tenha acesso aos principais elementos que compõem uma parcela considerável do patrimônio cultural da humanidade. De outro lado, sobre a escola, muitos afirmam que: 1) ela não tem acompanhado as transformações do mundo atual; 2) ela é conservadora na sua forma de lidar com o conhecimento; 3) os professores ainda são tradicionais, nos seus métodos de ensino; 4) as avaliações nada avaliam; 5) o mundo fora da escola é muito mais atraente, excitante e sedutor. Esse mundo, considerado mais atraente e sedutor, tem a ver com o potencial dos dispositivos agenciadores de subjetividades, típicos da sociedade do espetáculo e calcada na indústria do entretenimento (sociedade excitada), cujo fundamento tem sido as diversas tecnologias disponíveis. Nesse contexto, muitos acreditam que, mais do que uma competição, trata-se de uma “batalha” entre o mundo da escola versus sociedade do espetáculo. Parte considerável dos pais, dos professores e especialistas de diversas tendências teóricas,

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afirma que a escola tem perdido essa “batalha”. E, o que fazer para mudar esse cenário? O que fazer para que a escola não perca espaço para essa realidade atrativa, cheia de estímulos sedutores e sintetizada no ideal semiformativo4 da indústria cultural? A resposta mais imediata tem sido: para não se perder essa competição entre a escola e os atrativos e sedutores processos de excitação afetiva e cognitiva da indústria do entretenimento, que mobiliza o desejo de crianças e adolescentes, a única solução é adesão incondicional. Não obstante, é possível seguir na contramão dessa realidade? Como incluir as possibilidades de intervenção tecnológica no âmbito da instituição escolar sem fetichizar a tecnologia a ponto de se perder de vista que ela é uma produção humana? Qual o problema, se o professor não usa o equipamento hightech? Por que ele tem que seguir a moda da moda? Quem garante que estar integrado, afinado com os modismos, com a velocidade supersônica ditada pela perversa didática da indústria do entretenimento, significa o que de melhor se pode fazer em termos de formação humana? Por que a escola, alunos e professores devem aderir incondicionalmente aos ideais da sociedade do espetáculo? Quais as implicações éticas, estéticas, ontológicas e gnosiológicas dessa entrega incondicional a esse mundo que mais danifica do que plenifica a existência? Quais os fundamentos para uma educação que não se quer deixar tornar apenas uma, dentre as várias mercadorias da sociedade capitalista? Como pensar o ato educativo nesse contexto social contemporâneo? São problemas que merecem muita investigação e debate. Questões que exigem uma reflexão cuidadosa, cautelosa e sem tergiversações, mas que tente tangenciar alguns pressupostos básicos da relação entre conceitos tão caros ao campo educacional. Nesse ensaio, como anunciado, um dos propósitos é tratar da educação como um ato de amor, de paixão pelo conhecimento. Defende a negatividade5, uma não passividade ou aceitação ingênua em face dos discursos e modismos que orientam o
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É um conceito que deriva de Halbbildung. O sujeito, ao se apropriar do conteúdo da indústria cultural acredita que, de antemão, já se apropriou da cultura. O que dificilmente acontece, pois aquela não tem por objetivo formar o cidadão capaz de produzir uma imagem de si mesmo, mas, sim, que prossiga na mais pura heteronomia existencial. 5 Há uma tendência em conceber e confundir o conceito de negatividade com o termo negativismo ou pessimismo. Com efeito, negatividade é aqui empregado para determinar a negação de algo que ao invés de potencializar, possibilitar a emancipação e autonomia do sujeito, acaba por assujeitá-lo. Um pensamento negativo não significa, em hipótese alguma, uma ideia negativista entendida como sinônimo de pessimismo. Em outros termos, negar as formas de negação da vida é, ao fim e ao cabo, uma atitude mais positiva do que aqueles que, por defenderem a realidade tal como ela é, acreditam ser positivos.

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filosofia. C. um desejo daquilo que não se possui. a amizade. Afirma que o ato de amor e a paixão pelo conhecimento são reflexos de um processo intencional e diretivo que inicia com a intervenção dos adultos (pais. E aprender tem muito a ver com prazer. Robson Loureiro p. por isso mesmo. Com o Filósofo Sócrates. nem sempre o contato com o conhecimento sistematizado (ciência. nada garante. uma modalidade desportiva.) desde a primeira infância. pode-se afirmar que o critério fundamental para se ter acesso ao conhecimento diferenciado. Talvez. um saber sem sabor é um saber sem prazer. a habilidade cognitiva e sensitiva transformam-se em um habitus: uma segunda natureza. O desejo. é porque se é um amante da sabedoria e. quando há uma excessiva dose de desprazer. Daí porque. como até mesmo ofuscar nossa capacidade racional. produzido e registrado ao longo das gerações é vivenciado de forma prazerosa. no Prof. como escreveu Rubem Alves. por si só. pois o conhecimento. toda atividade de aprendizado carrega certa dose de desprazer que só vai ser totalmente destruída no momento em que o gesto corporal. o amor (Filia) têm como elemento mediador o conhecimento. é ser um apaixonado. O processo é sempre contraditório. a. Por meio do conhecimento ele acredita que a humanidade se libertará da sua condição de ignorância. responsáveis. em termos da formação de um indivíduo mais humano. etc. e se tem ciência da ignorância. elaborado historicamente. a dirigir um automóvel. a tocar um instrumento musical. Ele (o conhecimento) é aqui entendido como uma fagulha que tanto pode acender as luzes da razão e da sensibilidade. o semideus Prometeu rouba o fogo do conhecimento da morada dos deuses e o sopra na humanidade. um amante do conhecimento sistematizado. também pode ser aprendido e cultivado. são palavras etimologicamente aparentadas. Não obstante. a ler. por volta do século V.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO ideário educacional contemporâneo. Quando se ignora. em particular no Prometeu Acorrentado de Sófocles. Em algumas mitologias da Antiguidade. 6 . Sabor e saber. Aprender a escrever. O amor é concebido com falta. não ordinário e não cotidiano. É certo que o nível de desprazer determina e determinará a relação do sujeito com o conhecimento. além de primordial. No entanto. refletia Sócrates. sensível/afetiva. quer-se romper com a ignorância e agarrar-se ao conhecimento libertador. artes).

Por isso. aprender e ensinar são partes do universo da cultura. não é abstrata. Ninguém nasce com o gosto ou o desejo pelo conhecimento. na própria formação humana. um por se-fazer na história. é claro. das condições materiais da sua produção. Aquilo que os indivíduos são depende. no sentido lato do termo. Robson Loureiro p. direta e intencionalmente. sem dúvida. 7 . ou seja. mas produz sua humanidade quando se relaciona com (transforma) a natureza em cooperação com os outros. artes. Entretanto. mas. Aprende-se a gostar e a desejar as diversas formas de conhecimento não cotidiano. Além disso. Por conseguinte. Essa possibilidade está no âmbito da qualidade que se tem no processo de individuação. do cuidado amoroso e da paixão pelo saber que devem perpassar o âmbito familiar. rígido e imutável capaz de defini-lo. em cada indivíduo singular. para quem o trabalho educativo é o ato de produzir. da qual depende a humanização do ser humano. cultura em geral) e “o que” eles produzem. das artes elaboradas. é preciso fazer referência ao ser humano. das ciências. e com Saviani (1991). ainda no seio da família. também. o prazer e o desejo de saborear o conhecimento. as consequências danosas podem e tendem a acompanhar o sujeito por toda uma vida. Portanto. pode não ser garantia de uma boa iniciação ao mundo da cultura formal. 15) afirma aquilo que somos coincide com o que produzimos e.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO processo de aprendizagem. Um ambiente estimulante pode não ser tudo. o ser humano não nasce prontamente humano. sempre igual. p. pode-se pensar a partir. com o como produzimos. a humanidade que produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens (e mulheres). bem como a disciplina e o hábito necessários para que ela possa cultivar. Com efeito. O que se espera. que o ser humano é algo dado e que haveria um conceito pronto. Essa dupla relação traduz o “como” os seres humanos se relacionam para produzirem algo (exteriorização/objetivação da subjetividade: ciências. sempre de forma dialética. os primeiros estímulos. mesmo em situação de desprazer. para se refletir sobre qualquer questão educacional. essa dupla relação. A questão “o que é o ser humano?” pressupõe. imediatamente. Concretiza-se em uma sociedade específica. é fator essencial. Ela é histórica e condicionada. É por isso que Marx (1981. Desta forma. é que desde a primeira infância a criança receba. Além. a pergunta “o que é o homem?” tende a ser inadequada e Prof. o ser humano é um processo.

tornando-o um animal humano. Robson Loureiro p. em hipótese alguma. Prof. ou seja. pela cultura e educação. civilização e barbárie. a produz e a faz ser o que é? A resposta é: sim. O que está no fundamento do processo civilizatório tem a ver com a cultura e a educação. existirem e coexistirem junto aos seus. Só para lembrar: o que se defende. É por meio da educação que se insere o indivíduo no ambiente cultural. Uma pergunta mais qualificada seria: Como o ser humano produz sua humanização? O que produz e como organiza essa produção. algo positivo ou negativo. ou melhor. é que o processo civilizatório é dialético. falta de) pelo conhecimento. mais plenos para viverem. qual é o fundamento. os conteúdos próprios que os membros da comunidade acreditam necessários torna-los mais aptos. com o tempo tendem. quais as condições materiais do processo de humanização? O enfrentamento. mas que. diz respeito à compreensão da dialética e contraditória relação presente no processo civilizatório. Dito de outra forma. 8 . pois não estabelece. e que tem a ver com a dimensão ontológica. cada contexto social produz suas formas e procedimentos educativos que. conviverem. mediado pelo trabalho. procedimentos diretivos e intencionais cercados por uma dose necessária de disciplina (limites).A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO insuficiente para compreender o ser humano. e que diz respeito ao vínculo entre trabalho. amor/ paixão (no sentido de carência de. há um fundamento e este pode ser resumido no conceito de trabalho. o acesso à cultura. Cada contexto apresenta a sua forma de educar e os elementos. Por fim. por meio da educação. linguagem. o sujeito mais educado não é garantia de constituição de uma humanidade mais plena e menos bárbara. aqui. contraditório. Partese do pressuposto de que para que haja civilização é fundamental a produção cultural. cabe perguntar: há algum elemento especial que a fundamenta. o que determina o caráter ontológico da nossa existência? Sendo a cultura. cultura. de fundamentação do ser. a se tornarem mais complexos. a mais polêmica e talvez impertinente tese que está na base de toda essa discussão. que por sua vez nos remete à compreensão de como o ser humano se constitui enquanto tal. aqui proposto. Por isso a pergunta: qual a principal (ou principais) diferença entre o animal humano e o não humano? Toda e qualquer cultura requer procedimentos educativos. a priori. No caso do ser humano. Mediação que exige formas. ser o que é. ou não. aquilo que faz o ser.

Este. Não confundir trabalho com a ideia de emprego. É um processo repleto de avanços. há uma característica contraditória no processo de humanização que acontece pela mediação do trabalho. não é algo natural. por sua vez. que abarca a categoria da contradição. concebe a história como sendo um produto de um movimento não linear. para ser. portanto não mecânica. pode ser considerado tanto um potencializador da existência. uma atividade que garante. Ou seja. tanto da natureza quanto da sociedade. idealizada. A contradição faz parte do próprio movimento. posteriores à existência da natureza. aqui defendida.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO que por sua vez depende de processos complexos. no mínimo. retrocessos. A contradição. A hipótese. Isso não significa observar essa dinâmica a partir de uma relação maniqueísta. satisfazer Prof. apenas a subsistência do indivíduo. para existir é preciso. É justamente nessa dimensão dialética. Isso acontece por meio do trabalho. Robson Loureiro p. Contudo. Trabalho A primeira. uma objetivação das forças sociais humanas gestadas ao longo da história. sim. que engendra a civilização. e talvez mais polêmica hipótese defendida nesse ensaio. afirma que o animal humano não nasce humano: faz-se humano. mentalmente antecipada e corporalmente efetivada para fins de consolidação do indivíduo social. em que há um conflito entre as forças do bem e as forças do mal. tem como fundamento o trabalho. como também um danificador das vidas. a natureza já existia. No próximo item apresento algumas breves considerações sobre a categoria trabalho. distancia-se de qualquer procedimento dessa natureza. que é possível escapar das armadilhas produzidas pelo pensamento maniqueísta que elege forças do bem e forças do mal para serem os coadjuvantes da história. novos avanços. rupturas. A subjetividade se objetiva nas objetivações que são as marcas deixadas pela atividade humana na transformação da natureza para satisfação das demandas naturais e socialmente constituídas. Somos seres naturais. portanto. mas. Antes de o animal humano existir. mas. O que é o trabalho? Atividade intencional. que produz a cultura. em princípio. na forma de Homo sapiens sapiens (homem que sabe que sabe). 9 . elaborações cognitivas e sensíveis próprias da linguagem articulada humana. Por exemplo: o computador no qual escrevo esse ensaio não nasce em pé de árvore. A linguagem.

Os animais não humanos realizam atividades transformadoras na natureza. de projetar acontecimentos futuros. quer sejam culturalmente produzidas. nos iguala a todos os outros animais. adaptando-a para a satisfação de nossas demandas. água. abelhas. Robson Loureiro p. o que nos distingue dos animais não humanos? O que nos torna seres humanos e o que continuamos a compartilhar com os animais não humanos? Satisfazer necessidades biológicas é uma delas. também necessitamos satisfazer as necessidades da sensibilidade e da razão que se tornaram mais complexas com o desenvolvimento da espécie e do gênero humano. Mas. a natureza externa.) de nós. de forma intencional. Somos capazes de transformar. tampouco desenvolvem técnicas variadas de ação sobre a natureza e não acumulam um conhecimento cuja finalidade seja um melhor desempenho da ação. O trabalho é a atividade típica dos animais humanos. apenas realizam aquilo que a natureza deles exige. de narrar acontecimentos passados. Não há. alimentos etc. Essa atividade transformadora é determinada pelas necessidades instintivas de mera sobrevivência. Essa ação dos animais em face da natureza tem apenas uma característica de integração indissolúvel com ela. Isso pode ser resumido por meio do conceito de trabalho.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO demandas biológicas: as necessidades do estômago. joõesde-barro não trabalham. Mas. São prisioneiros das suas respectivas inscrições gênicas e dificilmente conseguem ir além do que foi inscrito pela natureza. retiraríamos nossas forças vitais da energia solar. seres naturais carentes. mas o fazem sem disso ter consciência. portanto. Castores. 10 . Somos. portanto. Se fôssemos plantas. quer sejam elas biológicas. mas o próprio ato de antecipar mentalmente (idealmente) a atividade requer a satisfação de algumas necessidades básicas. Para viver dependemos de algo que não possuímos a priori: que está fora (oxigênio. Visam satisfazer exclusivamente suas necessidades básicas imediatas e a dos filhotes. um aprendizado com a experiência. de reter fatos e eventos na memória. Essa satisfação não acontece de forma espontânea. isto é. os elementos que nos diferenciam dos outros animais: temos a capacidade de criar símbolos. O início de todo processo de trabalho diz respeito a uma intencionalidade prévia (mentalmente idealizada) que faz com que o animal humano seja capaz de projetar Prof. Não apenas o ato corporal de transformar a natureza exige a garantia da energia vital básica para movimentar os músculos que agem na atividade de trabalho. São vários.

Nunca deixa de ser natureza. com as máquinas a vapor. a domesticação do fogo. a Terceira Revolução Industrial após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). até chegar à invenção da imprensa móvel de Gutemberg. projetiva. previsão (antecipação) das possíveis dificuldades. o mais importante (que tem a ver com a cultura e a educação). Ou seja. Essa atividade é realizada por uma conjunção de forças e energias corporais e sensíveis de cujo cérebro do primata humano é um de seus principais órgãos propulsores. a Primeira Revolução Industrial (1750). a partir de uma realidade dada. É pela atividade do trabalho que o animal humano dá início à sua libertação em face das forças da natureza e inicia o processo de afastamento da condição natural.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO (antecipar mentalmente). a Segunda Revolução Industrial (1860). A atividade do trabalho nos transforma porque nos exige uma capacidade de raciocínio e uma sensibilidade cada vez mais sofisticada. Prof. a invenção da escrita e os diversos suportes produzidos para registrar os processos mentais e materializar ideias. de ser animal. nos exige um acúmulo do conhecimento já adquirido pelas gerações anteriores. o mundo ao nosso redor está carregado dessa atividade intencional. nos transformamos a nós próprios. com planejamento. Tudo ao nosso redor está carregado dessa dinâmica na qual há a participação. os primeiros instrumentos de pesca produzidos com ossos de animais. Robson Loureiro p. pela mediação do trabalho. as machadinhas para caça. No processo ativo e consciente de transformação da natureza. a revolução agrícola. a domesticação dos animais. a intervenção da atividade intencional humana no processo de transformação da natureza. com a domesticação das plantas. mas. mas também da produção de formas de registro e socialização das novas técnicas surgidas. ou seja. consciente e projetiva que é o trabalho humano. que se produz algo que não existe no mundo natural: a cultura. a civilização. com os motores movidos a petróleo. A pedra lascada. algo que não existe. há uma transformação do próprio sujeito. A constituição da vida social só foi possível por causa do trabalho. isto é. a pedra polida. pois sempre se descobre e se tenta transpor as limitações impostas pela realidade. 11 . pela mediação dessa atividade intencional. O processo civilizatório é fruto dessa atividade laboral que permitiu não apenas novos conhecimentos para agir em face dos limites impostos pela natureza. consciente que é o trabalho. a metalurgia que permitiu a produção de ferramentas a partir do ferro e outros minerais. E.

Ou seja. Em geral. Prof. Por isso. hardwares. que é repassado para a indústria. é que ela depende do conhecimento mais complexo. Por mais que haja uma desvalorização da matéria-prima natural. mais os processos de socialização do conhecimento necessário para se tornar um ser humano mais pleno na vida social segue essa tendência. ou robótica. Por isso que se diz que quanto mais a sociedade se complexifica. Após a II Guerra Mundial houve um avanço profundo. sofisticado. O conhecimento tecnocientífico. que tem ampliado sua aceitação nas indústrias. nas telecomunicações. na informática em geral. a cooperação é uma das características do processo civilizatório. se complexificam com o avanço dos conteúdos exigidos pela sociedade para plenificar a existência do indivíduo. no campo tecnológico. isto é. outro elemento que nos diferencia do restante dos animais não humanos. dos transistores. nessa nova fase produtiva. Os conhecimentos gerados pelas pesquisas acadêmicas são repassados quase que simultaneamente para o processo produtivo das fábricas e indústrias em geral. O mais importante. de forma isolada. os processos de ensino e aprendizagem. o conhecimento é um valor agregado ao produto final. Corroboro com a tese: foi a partir do trabalho cooperativo que aconteceu o desenvolvimento da linguagem falada. desencadeado em especial pela junção entre conhecimento científico e a produção industrial. pela ação de um único indivíduo. que acontecem no espaço escolar. Com efeito.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Em particular nessa fase da Terceira Revolução. não é de qualquer saber que será exigido e socializado pela escola. Os setores da indústria que mais se destacam são os vinculados à produção de computadores (softwares. Portanto. assim como a ciência da automação. requer investimentos financeiros e dedicação à pesquisa. A pedra de toque dessa Terceira Revolução Industrial é justamente a indústria que se fundamenta no conhecimento e na pesquisa científica. 12 . há uma intensa interdependência na cadeia produtiva. Em outros termos. Robson Loureiro p. anos de estudos. a microeletrônica dos chips. também conhecida por Revolução Tecnocientífica. transformar a natureza externa não é algo que acontece facilmente. dos circuitos eletrônicos). a garantia da existência do animal não humano tem acontecido de forma cooperada. percebe-se uma diferenciação em relação à Primeira e à Segunda Revolução Industriais. pois a inovação de qualquer produto tecnológico contribui direta ou indiretamente para o desenvolvimento de outro.

Surgida nos séculos XII e XIII. o trabalho. pelos Caldeus. em particular o Clero. o trabalho era a expressão da miséria humana. p. mas também as necessidades sensitivas e intelectivas. ao longo da história. 262) consideram que: A divisão do trabalho. C. em particular nas grandes civilizações erguidas pelos Assírios. principalmente com o desenvolvimento de uma nova classe social: a burguesia comercial. a burguesia desenvolveu uma nova forma de lidar e conceber o trabalho. essa concepção começou a mudar a partir do século XV e XVI. com a repartição altamente racional do “trabalho em cadeia”. 13 . Japiassú e Marcondes (1996. É por meio do Prof. vestir-se. essa foi uma realidade bastante comum e disseminada pela sociedade europeia. Mas. os romanos opunham o otium (lazer. ou seja. diz respeito à atividade por meio da qual homens e mulheres modificam a natureza e o mundo social de forma consciente e voluntária. que é um instrumento de tortura de três paus. Na Antiguidade. Até o século XVII d. a Nobreza. pelos Egípcios. e desafiou as ordens sociais ociosas. a Aristocracia e a Realeza. Para os gregos antigos. isto é. Robson Loureiro p. Em tese. na Grécia. embora já tenha existido nas sociedades pré-industriais.. com o objetivo de satisfazer não apenas as necessidades básicas (alimentar-se. em especial o trabalho manual. habitar). É sempre por meio de um esforço doloroso que homens e mulheres sobrevivem na natureza..A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Mas. tal como utilizado nesse ensaio. a ideia de trabalho vincula-se a sofrimento e punição: “Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto (Gênese)”. em um sentido mais genérico. a repartição das tarefas necessárias à sobrevivência de um grupo entre os diversos membros desse grupo. o trabalho nem sempre foi considerado uma atividade capaz de humanizar. trabalho é representado por tripalium. Da língua latina vulgar. da própria cultura. ainda que de forma incipiente. atividade intelectual) ao vil negotium (trabalho.] A divisão do trabalho atinge o seu máximo com a taylorização. era destinado aos escravos. mas matavam por meio desse instrumento de tortura. desenvolveuse consideravelmente com o surgimento da sociedade industrial. Os antigos não apenas torturavam. tentando englobar todos os fatores necessários a uma produtividade ótima. Na linguagem bíblica. negócio). Adam Smith foi o primeiro a elaborar uma teoria sobre a repartição dos trabalhadores [. em Roma Antigas o trabalho. após o ressurgimento das cidades na Europa.

mas. 14 . dando-lhe uma forma útil à vida (MARX). Na próxima parte desse ensaio dou continuidade a essa discussão. a partir da constituição da linguagem. Prof.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO trabalho que homens e mulheres põem em movimento as forças de que o corpo é dotado a fim de assimilar a matéria. Robson Loureiro p.

criamos uma realidade que antes não era dada: o mundo da cultura. Robson Loureiro p. qual seja: nossos antepassados. Mesmo que não sejamos a única espécie a ter consciência de si e do outro. Somos os únicos animais que não dependemos (unicamente) da adaptação ao meio externo. tudo indica que somos os únicos capazes de transcender ao aqui e agora (hic et nunc). de regras de conduta. para sobreviverem. é um tempo muitíssimo breve. lá nos primórdios do processo de hominização. O animal humano. Este é transformado para que se adapte às nossas demandas. A linguagem e o pensamento constituem-se como resultado e são elementos fundamentais para o trabalho que instaura o humano. Em tese. ainda assim. surgiu dessa dimensão. Por meio da linguagem articulada tornamos comuns nossos pensamentos. há mais ou menos 45 mil anos6. objetos) pelo qual nos comunicamos uns com os outros. todo animal humano tem ciência do mundo no seu entorno. fosse mais efetiva. engendra-se um mundo de códigos. Com esse sistema simbólico sonoro é possível tornar as objetivações (as marcas que deixamos no processo de transformação do mundo) mutuamente presentes uns aos outros. compartilhamos nossa experiência no e com o mundo. no exercício do trabalho. 15 . surgida ao longo do processo de hominização. De qualquer forma. se comparado com a idade do planeta (cinco bilhões de anos) e do universo. a fala do animal humano. Isso acontece graças à 6 Alguns cientistas afirmam que a linguagem pode ter surgido por volta de 80 mil anos atrás.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO PARTE II TRABALHO. tabus etc. Prof. para que. ações. é um dos principais sistemas de representação das coisas (pessoas. a atividade cooperada. em especial o Homo sapiens sapiens. em particular a fala articulada que. A linguagem. surgiu esse dispositivo simbólico (linguagem). é resultado de um grande esforço social e coletivo que requer a ação das gerações que teceram a história ao longo dos tempos. Nesse processo. acontecimentos. LINGUAGEM E CULTURA Na atividade de trabalho (cooperada) que realiza o processo de produção da existência. tiveram que transformar a natureza e no contato com o outro (a cooperação) da mesma espécie. dentre outras ações. Esse universo simbólico é mediado principalmente pela linguagem.

em condições normais de sociabilização. ou seja. consegue criar uma infinitude de enunciados.  O animal humano nasce com predisposição para falar. Eles estão presos a seus reflexos condicionados. do desenvolvimento da atividade mental alcançado por meio das relações e experiências socioculturais vivenciadas. mas só fala caso se exponha aos códigos linguísticos de uma comunidade. Por isso. O linguista Fernand Saussure afirmou que “Não é a linguagem que é natural ao homem. reativo. presentificar o passado. a partir de um período específico da ontogenia. este desenvolve um sistema de comunicação próprio. Algumas distinções importantes:  A linguagem humana é produto de uma cultura. reter eventos na memória e lembrar (cultuar) os mortos. desde que em contato com essa dimensão simbólica. Os animais não humanos se comunicam basicamente para responderem a uma demanda meramente adaptativa. mas. Prof. a linguagem humana é criativa. Os primeiros sinais da fala começam a ser exteriorizads por volta do final do primeiro ano de vida. Já os sistemas de comunicação dos animais não humanos são finitos. Para isso. Em relação aos animais não humanos. lançaram-se para além do mundo concreto imediato. Robson Loureiro p. usam um sistema de comunicação particular. cuja herança é apenas o potencial para desenvolver a linguagem articulada. A linguagem do animal humano permite abstração e é capaz de criar universos simbólicos não presentes e isso permite projetar o futuro. Há evidências arqueológicas que conferem o surgimento da linguagem humana no momento em que nossos antepassados conseguiram realizar abstrações e. pode-se afirmar que a linguagem humana é o resultado de uma competência própria da espécie e de um desenvolvimento biopsíquico. entendendo-se por cultura todas as atividades realizadas pelos homens em mulheres. ou os deuses (a depender da cultura). ela é geneticamente condicionada. limitado e pouco criativo. Por sua mediação podemos evocar Deus. pois a partir de um número finito de símbolos. 16 . recordar e narrar/transmitir o passado às gerações. mas a faculdade de constituir uma língua. bem como a ruptura da relação meramente imediata com a realidade.” Em linhas gerais.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO linguagem. isto é. Em relação ao primata humano. A dança das abelhas é um bom exemplo. membros de uma comunidade. dessa forma. pode-se afirmar que:  A linguagem é herdada: não é resultado de uma aprendizagem.

a sensibilidade. condicionamento. sentir sede. para quem o amor é inerente a toda e qualquer espécie animal. paixão. No caso do papagaio. Neste. desejo. diversos autores e diretores tentaram retratar a situação de androides (O homem bicentenário). Desejo não é fisiológico. amar e sofrer por amor: desejar. um sentimento cristalizado. o amor não é. Linguagem e produção dos sentidos Por meio da linguagem introduzimos o pequeno bebê da nossa espécie no mundo da cultura. primatas ou não. os cinco sentidos humanos são históricos. ou mesmo seres sobrenaturais (Asas do desejo – Wim Wenders) que tentam se transformar em seres humanos. sabe-se que este tem a capacidade de imitar os sons emitidos pela voz humana.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO  O animal não humano. apenas necessitam. que também pode ser considerado o lugar oculto da linguagem que se exterioriza das formas mais inusitadas: chistes. No caso do filme. sentir saudade. O desejo não está na ordem da necessidade. etc. Prof. Por isso. o mundo da vida humana é também o mundo no qual o afeto. instinto de sobrevivência. código genético de sua espécie. quer seja na literatura. Ainda assim. por mais exposto que seja a uma cultura humana. como a forma de lidar com os seus derivados: amor7. etc. Seu desejo é sentir o sabor das frutas. tanto o conceito de afeto. Robson Loureiro p. fome. Ele se esquece de dizer que. quer seja nas adaptações para o cinema. Em várias ficções. Desejo é produzido. Desejo é uma produção cultural. Amor e desejo têm a ver com pulsão e não com instinto. É por meio da linguagem que o bebê inicia sua inserção na cultura. Antes mesmo de nascer já produzimos sobre ele um mundo simbólico. atos falhos. tampouco pode ser. no caso do animal humano. preso às limitações biológicas. Desejo é da ordem do humano.. Por isso. mas só “aprende” a falar se em contato com humanos. amar. ou seja. o anjo protagonista da estória quer deixar de ser imortal. ou mesmo que seja um a priori biológico universal. Com efeito. o amor são produções históricas. não são os mesmos que nossos parentes mamíferos. a comunicação dos animais não humanos é herança. chorar. para se tornarem humanos têm que desenvolver a capacidade de sorrir. capacidades pouco desenvolvidas nos animais não humanos. encontra-se o inconsciente. 7 É no mínimo duvidosa. 17 . jamais aprende a articular sons próprios. Asas do desejo. nossos sentidos. sentir a água da chuva tocar o seu corpo. a tese do biólogo chileno Humberto Maturana. Uma das premissas é que. Animais não humanos não desejam.

também corroboro com Marx (2004) quando afirma que o olho e o ouvido humano apreciam as coisas de maneira diferente no animal não humano. A mais bela música não tem significado para o ouvido não musical. o tato. ou cão doméstico que “assiste” à televisão no colo de seu “fiel amigo”. E no caso da música. mas. destaco algumas importantes contribuições do filósofo alemão Karl Marx (1818-1888). básica e essencialmente por um processo sociocultural e. Por mais humanizados que sejam o gatinho ou cãozinho. e os sentidos humanos) se transformam de uma época para a outra. o olfato. O gato. 18 . mas. os animais de forma geral. para Pedro ser. diz respeito à relação entre seres que carecem e que não são autossuficientes. sorriem? A sensibilidade e seus derivados (afetos. os sentidos humanos não nascem humanos. no seu O nome da rosa. por isso. Em outros termos. É difícil estabelecer esse princípio. dependem da relação. Só se é o que é em função de se negar algo que não se é: ex. mas. o objeto humano. Nossa audição. Humberto Eco.: Pedro é não pedra. A objetividade. amor. nesse caso. é possível quando o objeto se torna um objeto social. a amplia para outros eventos e situações da existência. quer seja o exemplo mediado por um animal humano ou não? Marx (2004) é categórico ao afirmar que o ouvido musical (ele diz sentido musical) do homem só é despertado pela música. Mas. Minha hipótese é que sim. desenvolvida por Marx. Cristo sorriu. Para melhor visualizar essa ideia. Que para serem. levanta essa questão. Marx (2004) afirma que na prática só podemos nos relacionar de maneira humana com uma coisa quando esta se relaciona de maneira humana conosco. Não são marcados por uma dinâmica meramente biológica. Não é um objeto para ele porque o objeto só é para o indivíduo na medida em que pode ser a corroboração de suas próprias faculdades. consegue apreender simbolicamente (dar sentido) o que olha na tela da TV? Nesse caso. Mas. ou humanidade exteriorizada. algo que não apresenta sinais da objetivação humana dificilmente fará sentido para um humano. ele precisa da pedra (para diversas funções e ocasiões que não vêm ao caso). Prof. A pergunta pode parecer cômica. cães. o paladar.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO É difícil defender a tese de que Cristo sorria. quase nada do que o seu olhar e a sua audição captam na tela da televisão faz sentido para ele. é que qualquer objeto produzido pelo homem (genérico) só tem sentido para o humano. a visão e nossos sentimentos são produtos da nossa história e não estão acabados. mas tem sua razão de ser. é possível afirmar que gatos. Robson Loureiro p. Marx alude a essa relação. A ideia.

sentidos capazes de satisfação humana e que se confirmam como faculdades humanas) é cultivada ou criada (MARX. Ainda nos Manuscritos. Defender uma sensibilidade humana a priori é corroborar a ideia segundo a qual independentemente dos aspectos sociohistóricos nós nascemos humanos. Isso significa dizer que não há. não sua beleza ou suas características particulares. em suma. porquanto o significado de um objeto para o sujeito só se estende até onde o sentido se estende (só faz sentido para um sentido adequado). em suma. 2004. Não são apenas os cinco sentidos.). apenas. um olho sensível à beleza das formas. amar. é necessária Prof. ao refletir sobre a sensibilidade humana. 110). Poderia. como praticamente. a objetivação da essência humana tanto teórica. pois. p. E é impossível afirmar de que modo essa atividade de se alimentar seria diferente da dos não humanos. de perceber que a sensibilidade humana. O sentido da humanidade é produzido no processo de elaboração da história humana.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Ele só pode existir para o sujeito na medida em que sua faculdade existe por si mesma como capacidade subjetiva. Por essa razão. práticos (desejar. Para um homem faminto. através da natureza humanizada. assoberbado de cuidados. muito bem existir na mais tosca forma. Trata-se. p. só por intermédio da riqueza humana objetivamente desdobrada que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva (um ouvido musical. 110). 2004. Robson Loureiro p. os sentidos do homem social são diferentes dos do homem não social (MARX. uma essência humana ou uma natureza humana a priori. seu valor comercial. a sensibilidade humana e a humanidade dos sentidos que só podem vingar por meio da existência de seu objeto. 110). continua Marx (2004. Em outros termos. mas igualmente os chamados sentidos espirituais. para Marx (2004). O homem necessitado. a história da sensibilidade humana está direta e proporcionalmente vinculada à materialidade das objetivações humanas. 110-111) considera que o cultivo dos cinco sentidos é a obra de toda a história anterior. diferentemente da dos animais não humanos. etc. p. O sentido subserviente às necessidades grosseiras só tem um significado restrito. Assim. terá enormes dificuldades de apreciar o mais belo espetáculo. portanto. é produzida historicamente. O vendedor de minerais tende a ver. observa Marx (2004). 19 . Com efeito. mas apenas seu caráter abstrato como alimento. p. a forma humana de alimento não existe. Marx (2004.

significa “conduzir para fora. em muito. 20 . Para Vygotsky. A rigor. quanto mais o sujeito tiver uma experiência e incorporação da dimensão sociocultural. criar e vincula-se à ideia de algo que se dá a alguém. Prof. dialético e multifacetado. Aquilo que Marx denominou de ser social: subjetividades objetivadas. o que é cultura e por que se faz necessário averiguar a natureza desse conceito que se articula com a educação? Quando se faz referência à cultura. da organização do ambiente. O acesso é sempre mediado por meio de recortes do real. e também para criar os sentidos humanos correspondentes a toda riqueza do ser humano e natural. Em outras palavras. enfatizou Vygotsky. Nesse sentido. é sempre a partir de um processo dinâmico. mais desenvolvimento terá o indivíduo. sujeito do conhecimento. A origem do conceito de educação é ambígua. que pode ser entendido por alimentar. sim. para dar-lhe condições de se desenvolver. mais se desenvolve e amadurece biologicamente. A partir da psicologia histórico-cultural. Ele afirma que a construção do conhecimento é uma interação mediada por várias relações. não tem acesso direto aos objetos. que os sentidos humanos humanizados são capazes de produzir cultura. com o sentido de algo externo que se acrescenta ao indivíduo. forças que dependem de estimulação para virem à tona. é natural esbarrar com o verbo cultivar e sua conexão direta com o âmbito da educação. Robson Loureiro p. pela mediação feita por outros sujeitos. No entanto. a dimensão biopsicológica está em direta relação com a esfera sócio-histórica.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO para humanizar os sentidos humanos. a educação é uma atividade que implica essas duas dimensões. o ser humano. E. O conhecimento não é concebido como uma ação do sujeito sobre a realidade. mas. o outro social pode se apresentar por meio de objetos. Tais recortes são apreendidos pelos sistemas simbólicos à disposição. para não dizer contraditória. da participação daquela. fazer sair. do mundo cultural que rodeia o indivíduo. elaborada pelo psicólogo e pesquisador russo Lev Semionovich Vygotsky (1896-1934) e demais representantes desta vertente de estudos da Psicologia Social. quanto mais aprende. tirar de” e sugere a liberação de forças que estão latentes no sujeito. ou sociohistórica. A origem latina da palavra educação carrega duas conotações: educare. O desenvolvimento desta depende. Já o sentido de educere. Mas. Quanto mais aprendizagem. defendo a ideia segundo a qual para se compreender o desenvolvimento humano é fundamental apreender a noção de mediação. ou seja.

podem atingir o mesmo ponto. correr lado a lado e até mesmo fundirem-se por algum tempo. mãos (antes utilizados para caminhar). o cérebro se desenvolveu a partir de. Mas. as funções psicológicas superiores referem-se a processos voluntários. que se modificou e se desenvolveu. em particular na caça de grandes animais. Essa tese fundamenta sua ideia de que as funções psicológicas superiores (por ex. Ao longo da evolução do pensamento e da fala. fez com que houvesse um aumento quantitativo e qualitativo das funções cerebrais.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO A capacidade de armazenar informações. Desse modo. e concomitante: 1) à nossa condição bípede. a relação entre ambos se passa por várias mudanças. o pensamento e a palavra não são ligados por um elo primário. memória) são construídas ao longo da história social do homem em sua relação com o mundo. p. 41). se separam. Uma das importantes teses de Vygotsky é de que o cérebro é a base biológica do primata humano e suas peculiaridades definem limites e possibilidades para o seu desenvolvimento. Isso se aplica tanto à filogenia como à ontogenia. Assim. Prof. teve início uma conexão entre ambos. As curvas de crescimento de ambos cruzam-se muitas vezes. ações conscientes. 3) ao trabalho cooperativo. que possibilitou a liberação dos membros superiores – braços. e comunicar essas informações para o bem comum da comunidade. Segundo ele.: linguagem. 4) à ingestão de proteína animal (carne). 2) à anatomia que se modificou com a necessidade de agarrar e manipular ferramentas – o movimento de pinça que faz o polegar e o indicador. mecanismos intencionais e dependem de processos de aprendizagem. Robson Loureiro p. O progresso da fala não é paralelo ao do pensamento. 21 . Para Vygotsky (1998. fundamental para o seu (do cérebro) desenvolvimento.

antes de tecer considerações sobre esse processo de regressão dos sentidos. Sob os auspícios do modo de produção capitalista. o bebê manifesta um pensamento pré-linguístico e uma linguagem pré-intelectual. evolui sem a linguagem. O trabalho. Contudo. A criança percebe que cada objeto tem seu nome e a fala começa a servir ao intelecto e os pensamentos começam a ser verbalizados. Contudo. 22 . uma nova forma de organização do pensamento e da linguagem que desemboca no pensamento verbal e na fala racional. a atividade intencional típica dos seres humanos pode ser fator de danificação. humaniza e potencializa a vida humana. há o encontro e a união entre este último e aquele. que levou 800 anos para ser gestado. ou não. É ela que fornece os conceitos. assim. de animais não humanos a produzirem. já nos primeiros meses. a criança busca a atenção do adulto por meio de sons nem sempre compreensíveis. sociedades e culturas diferentes produzem estruturas culturais diferenciadas. na próxima parte do ensaio o destaque é para o conceito de cultura e a discussão em torno da possibilidade. ao invés de a humanidade caminhar para sua plena humanização.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Com base na abordagem genética do desenvolvimento da linguagem. e retomar a tese geral do ensaio: o trabalho cooperado está na base da constituição biológica e cultural da linguagem humana articulada. em especial a fala que produz o pensamento e a cultura. Portanto. a função social da fala já é aparente. Nessa fase. Tem início. de desumanização. Para sintetizar. 1998). É por meio da linguagem que as funções mentais superiores são socialmente formadas e culturalmente transmitidas. a mediação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Vygotsky (1998) observou que o pensamento da criança pequena. Até por volta dos dois anos. O desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem. ou Homo Faber. em princípio. Depois dos dois anos. em tese. mas em determinadas condições de produção e relações sociais de organização da existência. pelos instrumentos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança (VYGOTSKY. Ele afirma que a linguagem é o sistema simbólico dos grupos humanos e representa um salto qualitativo na evolução da espécie. as formas de organização do real. assim como os seus primeiros balbucios são uma forma de comunicação sem pensamento. na fase pré-intelectual. o que se percebe são processos de regressão a níveis aquém dos nossos antepassados Australophitecus. Robson Loureiro p. Prof.

Robson Loureiro p. O primeiro. ao mesmo tempo. 2004). mãe. A inserção no mundo da cultura se dá pela via de alguns tabus. o momento exato em que ocorreu a passagem das manifestações de caráter natural para as de caráter cultural (PONTES. que o ser humano é um ser biológico (óbvio) e. observou. cultural.. Essa regra é mais ou menos uma espécie de código oculto que se constrói ao longo da constituição do humano. antropólogo e um dos principais intelectuais do século XX. com fidelidade científica. É uma relação de proibição vivida. ainda hoje. de forma distinta por quase todas as comunidades. irmãos. com suporte nas reflexões da tradição iniciada por Marx. continua a produzir nossa subjetividade a partir do tabu do incesto. pensar em manter relações sexuais com pai. É uma invenção humana. afirmei. Para ele. De qualquer forma. Essa proibição parece tão natural que questioná-la soa como uma heresia. em suas pesquisas. edição 189. o mundo ocidental. como na Parte II.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO PARTE III APROXIMAÇÕES PRIMEIRAS AO CONCEITO DE CULTURA Tenho sérias objeções à celebração efusiva que o consumidor tende a fazer com relação às revistas de divulgação científica lançadas pela grande indústria cultural. Mas. O periódico acadêmico tem função distinta da revista massificada pelo mercado editorial. que o ser humano é biológico e ao mesmo tempo cultural. marcado pela tradição judaico-cristã. cultural. as coisas não são absolutas. em alguns momentos é possível tê-la como ponto de partida. Também Claude Lévi-Strauss (1908-2009). em diversos períodos históricos. para psicólogos e antropólogos. Em matéria publicada pela popular revista Superinteressante. Por meio 8 Estas são as primeiras linhas do provocativo artigo E se.. tanto na Parte I. não existisse o tabu do incesto In: Revista Superinteressante. não é muito simples captar. Evitar o incesto não é resultado de tendências biológicas ou genéticas do ser humano. avós ou tios é algo terrível. junho de 2003. lê-se: Para a maioria das pessoas. 23 . quase que universalmente compartilhado e encontra-se espalhado por diversas comunidades e.8 Ao longo do paper. ainda que se considere a diversidade cultural e étnica. Prof. sendo os principais deles o tabu do incesto e o tabu do cru e do cozido.

são criados para proteger personagens ilustres. ao mesmo tempo. tais como: o nascimento. O que é inquietante. por sua vez. que pode ser um animal comestível. Levi-Strauss considera que a proibição do incesto. da inserção do homem no mundo cultural. O primeiro sistema penal da humanidade surge enlaçado com o tabu (PONTES. Os tabus estão na base da constituição daquilo que instituímos na forma de leis. Trata-se de uma proibição que possui a universalidade que caracteriza as manifestações da natureza e seus instintos e. social. Em princípio. Expressam o que é sagrado e consagrado. julgamento e punição para quem não cumpre a regra (PONTES. 24 . matrimônios e as funções sexuais. Apesar de contestado por vários autores. Isso acontecia pela mediação do totem ou. O não cumprimento significa castigo automático. que se manifesta em forma de regra. cuja finalidade é dividir a sociedade em clãs e cada qual tem seu totem. chuva. mas. Mas. Prof. Ele se revela com uma dupla faceta e. é. em si. Eles fazem parte do nosso desenvolvimento histórico-cultural. ela é pré-social. proibido ou impuro. o tabu do incesto também está relacionado à constituição do humano. Com efeito. o que significa tabu? Caráter de impuro. a própria ambiguidade da constituição humana. O tabu do incesto carrega. 6). paradoxal. perigoso. e em algumas raras situações poderia ser uma planta ou uma força natural: água. para alguns. O totem representa um antepassado do clã e também seu espírito protetor/benfeitor. p. natureza da proibição. 2004). Para a psicanálise. tanto de pessoas como de objetos. precaver as perturbações que podem sobrevir em determinados atos da vida. ao mesmo tempo. pois reúne tanto a dimensão natural como a cultural. o totem é uma lei cujo princípio estabelece que os membros de um clã/totem não devem manter relação sexual entre si e. 2004. perigoso ou não. Grupos submetidos ao mesmo totem cumprem uma obrigação sagrada. os estudos de Freud sobre o tabu do incesto teve por base pesquisas realizadas com os aborígenes australianos que têm por costume impor uma rigorosa interdição às relações sexuais incestuosas. No caso de Sigmund Freud (1856-1939). portanto não devem casar-se entre si. objetos preciosos. sistema totêmico. a santidade/purificação. proteger as pessoas do contato com os cadáveres. revela o aspecto coercitivo das leis e instituições humanas.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO desse tabu estrutura-se toda uma gama de questões que estão relacionadas ao sexo e que a partir daí se elabora códigos de conduta (moral). Robson Loureiro p. a iniciação dos adolescentes.

condimentados. mas refletiram e materializaram as reflexões em torno do conceito de cultura. que tem no cardápio diversos tipos de frutos do mar servidos in natura. Distancia-nos da natureza pura.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Mas. alimentar-se já não se limita apenas à satisfação da necessidade biológica. cultura é a capacidade de escolher seus fins em geral (e. 25 . p. só a cultura pode ser o fim último que a natureza tem condições de apresentar ao gênero humano” (KANT. ao longo do processo civilizatório. portanto. a entrada no âmbito da cultura.] a formação do homem. Essa distinção. civilizados. de diversas épocas e tradições acadêmicas. Vários autores e autoras. 225). mais do que um sustento orgânico. Comer. não apenas viveram a cultura de seu tempo. o preparo do alimento. quando a referência é a formação humana do indivíduo. citado por ABBAGNANO. 225). sua melhoria e seu refinamento”. Abbagnano cita o Filósofo Immanuel Kant (1724-1804) como uma das referências importantes desse acontecimento: “Num ser racional. polidos. também. O segundo significado indica o produto dessa formação. no Dicionário de Filosofia (1998) de Nicola Abbagnano. a ser. uma espécie de abertura para o nível sensível. junto com o tabu do incesto.. mas nem sempre fácil de conceituá-lo e apreendê-lo fora da dimensão cotidiana da existência. entre o cru e o cozido marca. p. aqui. tende a ampliar nossas condições de possibilidades com relação à dimensão sensível. que também pode ter um simbolismo com o sagrado. Por isso. Robson Loureiro p. Termo de fácil contato no cotidiano. tem quatro páginas e meia (ABBAGNANO. o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados. Pode-se afirmar que o alimento. significa “[. Influência da filosofia Iluminista. Não vem ao caso. que também costumam ser indicados pelo nome de civilização” (ABBAGNANO. que seria o mais antigo. p.] ou seja. Lévi-Strauss chama a atenção para o tabu do cru e do cozido. 1998. parece que algumas culturas tendem a ver essa atitude distante do que se pode considerar humano. Para o douto Filósofo. Com isso. a questão não se limita ao incesto. 225-229). Com relação à ingesta de alimentos crus. a passagem do termo cultura para civilização aconteceu no século XVIII. 1998. a culinária oriental. Um. e que os romanos indicavam com o termo humanitas: Prof. a cultura tem dois significados básicos... 1998. mas. Até os dias atuais. “[. cultura vincula-se àquilo que os antigos gregos chamavam de Paideia. de ser livre). passou.. O verbete cultura.

. excluía qualquer atividade infra-humana ou ultrahumana. Quais eram as principais atividades culturais e.. a astronomia e a música.. seguiam a fórmula Prof.. implicado em um significado mais naturalista. 225). mas para um destino ultraterreno” (1998.. p. a retórica e a dialética. mas o aspecto naturalista teria sido radicalmente transformado. O caráter aristocrático e contemplativo teria sido mantido. e a aritimética. acima aludido. 1998. educação devida às boas artes peculiares do homem. p. Abbagnano (1998) considera que o sentido do conceito de cultura.. quais conteúdos do patrimônio da cultura eram importantes para dar conta dessa formação? A gramática. o conceito clássico de cultura. 225).]”. portanto. Para os gregos antigos. p.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO [.. 26 . foi parcialmente conservado e modificado. bastante aristocrático. 225).. Eram consideradas atividades liberais. na polis” (ABBAGNANO. o Filósofo também faz referência ao fato de que os gregos antigos também excluíam “[. a cultura nesse sentido foi a busca e a realização que o homem faz de si. relacionado especificamente à formação humana. a cultura e a formação humana eram indissociáveis. 225). a geometria.. que cabia ao escravo (instrumento animado) porque não distinguia o homem do animal [. da verdadeira natureza humana (ABBAGNANO. ou seja. na Idade Média. Não obstante. 1998..] educação do homem como tal. “Excluía [. o trabalho manual que se indicava depreciativamente pelo termo banausia. ofícios e. que o distinguem de todos os outros animais. a eloqüência. às quais se atribuía valor essencial para aquilo que o homem é e deve ser. para a capacidade de formar o homem verdadeiro.. Para os gregos. Esse primeiro sentido é. visam a vida contemplativa.] inteiramente dedicada à busca da sabedoria superior. pois a vida teórica “[. [. [. é o fim último da cultura” (ibidem). p.. o homem na sua forma genuína e perfeita. conhecidas por Trivium. Robson Loureiro p. A Paideia era a educação que se dava pela apropriação da cultura.] as atividades utilitárias: artes. No entanto. Na Grécia Antiga. para que eram educados os espíritos cultos desse período? E mais. segundo Abbagnano. tanto a aristocrática quanto a naturalista... isto é.] As boas artes eram a poesia.] o homem só podia realizar-se como tal na vida em comunidade. portanto mediante a busca da verdade em todos os seus domínios que lhe disserem respeito.. em geral. “[. Como sinaliza Abbagnano (1998. a filosofia etc... formavam o Quadrivium.] qualquer atividade ultra-humana que não estivesse voltada para a realização do homem no mundo. Ambas as perspectivas.] o homem só podia realizar-se como tal através do conhecimento de si mesmo e de seu mundo.

. pois aquele que se apropriava de uma formação cultural específica. foi no período renascentista. A ideia de trabalho e a própria atividade laboral.] procurou estender a crítica racional a todos os objetos possíveis de investigação e considerou.. 1998). resgatado de seu caráter puramente utilitário e servil” (ibidem).. pois insistiu na dimensão ativa da sabedoria humana. O Renascimento “[.. Também se propôs “[.. Não obstante. “[. Com efeito. A rigor. “[. p. p. bastante apropriada pela burguesia nascente. como erro ou preconceito tudo o que não passasse pelo crivo dessa crítica” [. entre os séculos XIV e XVI. como a formação que permite ao homem viver da forma melhor e mais perfeita no mundo que é seu”. que deixou de ser considerada patrimônio dos doutos para ser instrumento de renovação da vida social e individual” (ABBAGNANO. que houve uma tentativa de redescobrimento do significado genuíno do ideal clássico de cultura. sendo. mais conhecido por Iluminismo.] não porque prepare para outra vida. O Iluminismo... portanto.. a partir dessa perspectiva. movimento que surgiu no século XVIII e XIX e Prof. com a vida ativa o trabalho passa a fazer parte desse ideal. 226). enquanto movimento político e cultural (artístico-intelectual). tinha seu próprio status metafísico e moral e por isso se diferenciava dos outros homens...] a vida ativa já não é estranha ao ideal de cultura. continuava a se destacar do restante da humanidade. 27 .]. cujo objetivo era preparar o homem para os deveres religiosos e para a vida ultraterrena (ABBAGNANO. o homem renascentista modificou o aspecto contemplativo do ideal clássico de cultura.] concebeu a cultura como formação do homem em seu mundo. E a religião. no Renascimento nem todos podiam alcançar a sabedoria propiciada pela cultura. apesar de avanços significativos. que houve a primeira tentativa de romper e eliminar com o caráter historicamente aristocrático atribuído à cultura no mundo ocidental. 1998. Apesar de preservar o caráter aristocrático.] a difusão máxima da cultura. já não significavam algo menor e. “[. 226).. mas porque ensina a viver nesta” (ABBAGNANO. Robson Loureiro p. Eis porque o caráter ainda marcadamente aristocrático da cultura no Renascimento. portanto.. foi no período do Século das Luzes (XVIII). pois eram as únicas artes dignas dos homens livres e formavam a base da cultura medieval. pois. Esse caráter emancipatório da vida social e individual por meio da cultura sofreu um ataque por parte do Romantismo.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO deixada pela Paideia grega. passou a ser um elemento integrante da cultura. 1998.

p. para realizar seu projeto ideológico. A cultura foi reduzida ao mero Prof. De caráter explicitamente reacionário e antiliberal. O que a sociedade mais exige de cada um de seus membros é o desempenho na tarefa ou na função que lhe foi confiada. já não tem lugar no agitado universo da burguesia.. “Ser culto já não significava dominar apenas as artes liberais da tradição clássica. Com o advento da sociedade industrial. Erich Fromm. 226). Walter Benjamin. 226). em particular autores como Theodor Adorno. ou a tecnologia como um meio para se atingir a liberdade. típica da aristocracia. 1998. por Adorno e Horkheimer (1985).. passou a ser um fim em si mesmo. fincada em relações capitalistas de produção social da existência e apropriação privada dos meios e produtos do trabalho. que ao invés de ter o conhecimento tecnocientífico. p. as ciências naturais. O esclarecimento. já haviam denunciado esse aspecto da modernidade capitalista. o Romantismo “[. 28 . na sociedade administrada pela ingerência do capital. foi um pensamento unidimensional (MARCUSE). Herbert Marcuse. e o desempenho não depende tanto da posse de uma cultura geral desinteressada quanto de conhecimentos específicos e aprofundados em algum ramo particularíssimo de determinada disciplina (ABBAGNANO. Leo Löwenthal. passou a demandar novas formas de conhecimento. 1998. Friedrich Pollock dentre outros. da nobreza e do clero. Max Horkheimer.. a moderna sociedade ocidental. retornar ao conceito aristocrático de cultura” (ABBAGNANO.] formação de competências específicas. a igualdade e fraternidade entre os seres humanos. que confina o indivíduo num campo extremamente restrito de atividade e estudo. a física. a máxima ideológica do capitalismo tardio.. a clássica tradição da Teoria Crítica da Sociedade. O que passou a predominar. possíveis apenas por meio de treinamento especializado. mas conhecer em certa medida a matemática. 1998. ou anarquia da produção (EINSTEIN). A ideia de uma cultura desinteressada. e a condenação da socialização da cultura em particular. de várias formas. No início do século XX. p. Robson Loureiro p. além das disciplinas históricas e filológicas” (ABBAGNANO.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO que tem como alvo os ideais iluministas em geral. 227). ou uma semiformação cujo Leitmotiv é a indústria cultural considerada. O mundo contemporâneo passou a exigir a [. ou a cultura produzida ao longo dos séculos foi apropriada pela racionalidade instrumental da burguesia. Nesse sentido.] procurou.

“[. requer. Há. encontros e colaboração entre disciplinas especializadas diversas: encontros e colaboração que vão muito além das competências específicas e exigem a capacidade de comparação e de síntese. são coisas úteis. e esses problemas não podem ser enfrentados no domínio de uma só delas e apenas com os instrumentos que ela oferece. 1998. as especializações das tecnociências. Em um primeiro plano. tão em voga na atualidade. indispensáveis à vida do homem em sociedade e da sociedade no seu conjunto. não oferece armas para enfrentar as exigências que nascem da própria especialização das disciplinas. portanto. fechandoos em seus mundos restritos. nem de longe. que é por certo uma exigência imprescindível do mundo moderno.. A tendência é esvaziar o aspecto contraditório da cultura: produto. nos dias atuais. p. Robson Loureiro p. parece não ser a perspectiva de Abbagnano.] é possível indicar de maneira aproximada as características de uma cultura geral que. O segundo inconveniente é que a superespecialização. bem como impedir ou limitar a comunicação entre os integrantes da comunidade. em todos os sentidos. ao mesmo tempo há uma tendência em haver um desequilíbrio das subjetividades. 227). são importantes. p.] quanto mais fundo é levada essa especialização. 29 . mas ao mesmo tempo produtora do humano. 227). tanto mais numerosos se tornam os problemas que surgem nos pontos de contato ou de intersecção entre disciplinas diferentes. [.. exigida nos dias atuais.. como a 9 Do latim. habilidades particulares. uma possibilidade de conceber a cultura como algo linear e mecânico.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO treinamento técnico em determinadas áreas e restringida ao uso profissional de conhecimentos utilitários.. Como enfatiza o Filósofo [. Como ele mesmo indica. substituir a cultura entendida como formação equilibrada e harmônica do homem como tal (ABBAGNANO 1998. nessa perspectiva.. capaz de instaurar determinadas patologias sociais e individuais. sem interesse e tolerância por aqueles que estão fora dele (ABBAGNANO. Ele registra pelos menos dois inconvenientes gravíssimos daquilo que considera ser uma educação incompleta e especializada. materiais ou conceituais. apesar de não explicitar. Porém.. que a especialização não oferece (ABBAGNANO. Nas palavras de Abbagnano: Competências específicas. 1998. Esta. destreza e precisão no uso de instrumentos. p. Prof. parece propor uma formação humana mais próxima de uma perspectiva omnilateral9. 227).] a própria especialização. mas não podem. em certa altura de seu desenvolvimento. Abbagnano. aliás.

p. 30 . em oposição à natureza. esteja preocupada com a formação total e autêntica do homem” (ABBAGNANO. “[.. em primeiro lugar.] o conjunto histórica e geograficamente definido das instituições características de 10 No sentido de reducionismo ao campo biológico. 1998.”. p. Esta seria uma cultura aberta.. p. 61). O próprio Abbagnano considera essa uma perspectiva falaciosa e biologicista10. afirma Abbagnano (1998. De acordo com os autores.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO clássica Paideia. um modo rústico de cozer um alimento é um produto cultural tanto quanto uma sonata de Beethoven” (ABBAGNANO. o que a caracteriza com duplo sentido antropológico: a) É o conjunto das representações e dos comportamentos adquiridos pelo homem enquanto ser social [. adquiridos e transmitidos de uma geração para a outra.. “[. O indivíduo culto é. No Dicionário básico de filosofia.. o homem culto é aquele que não se desarvora diante do novo nem foge dele. mas sim a formação coletiva e anônima de um grupo social nas instituições que o definem.... que sabe entender as ideias e as crenças alheias ainda que não possa aceitá-las ou reconhecer sua validade”.] serve para designar tanto a formação do espírito humano quanto de toda a personalidade do homem: gosto. 228-229). apresentado por Abbagnano (1998.. todo e qualquer fenômeno é analisado e interpretado unicamente a partir do campo biológico. Além do mais. pois faz uma analogia direta e mecânica entre organismo humano e grupo humano.. tampouco sua maturidade cognoscitiva. Prof. Também diz respeito ao “Tesouro coletivo de saberes possuídos pela humanidade ou por certas civilizações: a cultura helênica. Robson Loureiro p. 229). diz respeito àquele usado por sociólogos e antropólogos e indicaria o conjunto dos modos de vida criados. sem nenhum diálogo com outra área ou dimensão do conhecimento. sensibilidade. Nesse sentido. mas ancorada no passado.. mas sabe considerá-lo em seu justo valor. que não isola o indivíduo em um âmbito estreito e circunscrito de ideias e crenças. ou seja. Assim entendido. 228). p. cultura pode ser pensada como um significado neutro.] para um antropólogo. O último significado de cultura. 228). tanto para designar a civilização mais progressista quanto às formas de vida social mais rústica.] uma cultura viva e formativa deve estar aberta para o futuro. vinculando-o ao passado e elucidando suas semelhanças e disparidade” (ibidem). “[. p. de Japiassú e Marcondes (1996. a cultura ocidental etc. entre os membros de determinada sociedade. por isso. cultura não seria a formação do indivíduo em sua humanidade. inteligência”. cultura “[. a cultura também pode ser entendida. 1998.] o homem de espírito aberto e livre. Nesse contexto.

de explorar certas produções naturais. a todas as estruturas sociais.. de modo bastante desigual. Cultura (geral). A cultura é um fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determinada etapa histórica: progresso. MARCONDES. Ainda conforme os autores.. cultura pode ser concebida em um sentido mais filosófico. p.] é o processo dinâmico de socialização pelo qual todos esses fatos de cultura se comunicam e se impõe em determinada sociedade. é preciso notar o grau Prof. Conjunto de fenômenos materiais e ideológicos que caracterizam um grupo étnico ou uma nação. conjunto de sinais característicos do comportamento de uma camada social (linguagem. na moral. arte e instituições que lhes correspondem. 61). etc. mas globalmente. e as instituições correspondentes. na ciência. Conjunto de tradições tecnológicas e artísticas que caracterizam este ou aquele estado da pré-história. Para Nelson Werneck Sodré (1996. p. educação. seus costumes políticos e os mil usos que caracterizam a vida cotidiana [. de imaginário. uma civilização. mas também suas técnicas próprias. 1996.].. acervo intelectual e espiritual.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO determinada sociedade. o conjunto de formas da vida espiritual da sociedade. designando não somente as tradições artísticas. técnica. entende-se por cultura o nível de desenvolvimento alcançado pela sociedade na instrução. apuram o gosto e o espírito crítico. conjunto de conhecimentos que enriquecem o espírito.. de símbolos. MARCONDES. “[. instrução. Entre os índices mais importantes do nível cultural. vale dizer. 31 . de atitudes e referências suscetível de irrigar. O Dicionário Larrouse (1999. que nascem e se desenvolvem à base do modo de produção dos bens materiais historicamente determinado. Nesse sentido. p. cultura significa: Conjunto de valores materiais e espirituais criados pela humanidade.. no curso de sua história. b) [. religiosas e filosóficas de uma sociedade. na filosofia. vestimenta. na literatura... 283) oferece as seguintes possibilidades de compreensão do conceito de cultura: Ação ou maneira de cultivar a terra ou certas plantas. científicas. p. mediante os meios de comunicação de massa. etc.) que a diferenciam de outra. Num grupo social. gestos. experiência de produção e de trabalho. na arte. o corpo social” (JAPIASSÚ. em determinada etapa histórica. sob o termo de cultura. Em um sentido mais restrito. com todo o conjunto de regras e comportamentos pelos quais as instituições adquirem um significado para os agentes sociais e através dos quais se encarnam em condutas mais ou menos codificadas (JAPIASSÚ. 61). Assim. 3-4). Robson Loureiro p. literatura. seja pela difusão das informações em grande escala. ou outra nação. seja pelos processos educacionais propriamente ditos. 1996. em oposição a outro grupo.] considerada como um feixe de representações. compreende-se. a cultura praticamente se identifica com o modo de vida de uma população determinada. ciência.

como a mesa em que trabalhamos. as relações de trabalho. 32 .. Mas. nenhuma outra espécie animal foi capaz de criar um sistema de símbolos Prof. Para fazer história. p. [. Robson Loureiro p. 1996. IUDIN citados por SODRÉ. Até mesmo para preparar o alimento que não satisfaça apenas a necessidade do estômago. na categoria de utensílios.. fabricados pelo homem. que é a história na sua dimensão mais concreta. escreveu Marx. A satisfação das necessidades mais elementares é fundamental para a criação e usufruto do mundo da cultura. Há autores que defendem que não somos os únicos animais em condições de produzir cultura. O Filósofo brasileiro Roland Corbisier (1978) afirma que tudo que não é natural. ou seja.. 1978. assim como os usos e costumes. 3-4). a atividade de transformação do entorno natural e social fica vilipendiada. girafas. Tudo o que não foi produzido ou modificado pela ação humana. 317). p. a caneta com que escrevemos. Ele considera que também as instituições. habitar. Leões. como a família e o Estado. assim como o grau de difusão da instrução. da habitação e do universo simbólico: da cultura. De estômago vazio. Assim. os utensílios. tudo indica que a cultura que produzimos é fundamento para todo o processo de humanização.. porque se justificam por si mesmas (CORBISIER. o nível cultural e técnico dos produtores dos bens materiais. o sistema de produção. Para produzir cultura. tudo isso faz parte do universo da cultura. Para produzir o mundo da cultura e usufruí-lo de forma plena de sentido é preciso alguns pressupostos: alimento para garantir a energia vital que irá sustentar o corpo para produzir ferramentas e instrumentos de trabalho que serão usados na transformação da natureza para produção da vestimenta. é preciso estar minimante saciado. projetiva e criativa do ser humano. gorilas. diz respeito ao universo da cultura e isso tanto no aspecto material como no simbólico. vestir. da literatura e das artes entre a população (ROSENTAL. lobos. o regime de propriedade. não é diferente.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO de utilização dos aperfeiçoamentos técnicos e dos desenvolvimentos científicos na produção social. é preciso comer.] os artefatos.] As obras de arte não se incluem. a lâmpada que ilumina a folha de papel etc. a rigor.. é natural.. O mundo simbólico é o mundo da cultura forjado pelo trabalho. Por meio do trabalho/cultura podemos aumentar ou danificar nossa condição humana. diferentemente dos animais não humanos. elefantes.] os quadros de José Eduardo e as cerâmicas de mestre Vitalino [. produzidos. [. que é produzido pela atividade consciente.

citado por SAVIANI. observação. A palavra culto. 26). até se chegar em uma Prof.. eu ocupo a terra e. gorila. 26). lobo. eu cultivo o campo.. 5. p. sempre que se quer classificar os tipos de colonização. cuidar de. recorremos ao conceito. eu moro. Robson Loureiro p. Curioso é perceber que ela está ligada à palavra colonizar e educar.] Não por acaso. mas para a compreensão de si.. teológica que não tenho a intenção de solucionar.. elefante. morar. distinguem-se dois processos: o que se atém ao simples povoamento. Colo está em ambos. na língua de Roma. também significa culto aos mortos: “[. Cultus. colere: 1.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO códigos (culturais) tão complexo. eu moro. honrar. girafa. do mundo e da conformação do que significa ser leão. colui. substantivo. Colonizar deriva do verbo latino colo. experimentação dos vários tipos de rocha. citado por SAVIANI.] o ser humano preso à terra e nela abrindo covas que o alimentam vivo e o abrigam morto” (BOSI. seja uma faca ou um machado de pedra polida. venerar. A palavra cultura carrega várias conotações. e o que conduz à exploração do solo. Penso que em relação aos mamíferos. realizar. p. outro é inquilinus. O animal não humano produz cultura? A pergunta. citado por SAVIANI. mas apenas inserir elementos para o exercício de um pensamento não dogmático que seja capaz de criar as condições de possibilidades para o debate. 2. Sistema que servisse de mediação não somente para as relações da comunidade. por exemplo. cultivar. por extensão.. venerar (TORRINHA. 26). eu trabalho. Colo significou. de relações entre os membros de diferentes grupos de espécies distintas que muito nos lembram os elementos que compõem a cultura humana. 2007. mas ao produto. o habitante. 33 . Culto designava o campo que já havia sido preparado e plantado por gerações sucessivas e se refere não apenas ao processo. De acordo com Saviani. o seu feitor no sentido técnico e legal da palavra. filosófica. Para intervir no mundo natural é preciso conhecer como ele funciona. 2007. traz como consequência uma celeuma científica. 4. No mais rudimentar instrumento/ferramenta pré-histórico. [. [. Mais uma vez.] Colonus é o que cultiva uma propriedade rural em vez do seu dono. p. Um herdeiro antigo de colo é íncola. temos inúmeros exemplos de condutas. 2007.. da forma de diversos objetos naturais. querer bem. cultum. 3. está inserido um longo processo de avaliação. 6. deriva de colo: honrar. eu cultivo (BOSI. se o animal não humano produz cultura. aquele que reside em terra alheia.

Há vários exemplos nessa direção: mães guepardo que machucam presas para ensinar os filhotes a caçar. O mais interessante é que o conhecimento. A meu ver. Eis. mesmo que dentro de algum limite. em especial os mamíferos e grandes símios. em geral há uma grande confusão com esses exemplos. em especial os grandes símios serem e demonstrarem inteligência. Robson Loureiro p. chimpanzés que usam folhas como verdadeiras esponjas para recolher água de locais de difícil acesso. não é necessário lançar mão de apelações teóricas non sense. cortar a pele e a carne de um animal etc. sem cultura e humanidade não há conhecimento. a biosfera. 2005) afirmam que pesquisas têm apontado para o fato de que os animais não humanos têm cultura. RAPCHAN. Em seguida. 2007. ou melhor. a relação dialética desse processo de constituição do humano. produzem cultura. Por sua vez. ou por aprendizado.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO técnica específica de intervenção na pedra para lhe dar uma forma que seja útil e sirva para os fins demandados pelo grupo. Vários autores (DIAS. O fato de os animais vertebrados. Em muitos casos. capacidade de interagir com os membros do grupo e conseguirem imitar algumas práticas desenvolvidas para fins de sobrevivência. Não se trata apenas de um ato reflexo. parece fazer parte da vida de um conjunto expressivo de animais. batendo-os contra pedras ou árvores. 2010. como troncos ocos de árvore e que também usam gravetos para comer cupins. 34 . que é a capacidade de em algum momento o indivíduo resolver problemas concretos. em nenhum momento. macacos que criam estratégias para quebrar frutos. a vida em toda a sua variedade. Tampouco é um elemento intrínseco ao nosso genoma. Para se defender a natureza. mas. não é algo facultativo. Mesmo que se tente defender a ideia de acordo com a qual essa seria uma cultura diferente. para o ser humano. monumentos artísticos etc. qual seja: furar e matar uma caça. pois sem ele não há sequer como imaginar a cultura e a humanidade. ou por imitação para as gerações seguintes e a transmissão cultural seria a transferência de informação por meio do ensino ou do aprendizado social. não significa. a pedra que servirá para erguer cidades. animal e vegetal. o conceito de cultura fica limitado à ideia de traços comportamentais que são transmitidos. EHRENREICH. mais uma vez. como se fossem talheres orientais. A inteligência prática. tudo indica que parece haver um procedimento intelectivo que vai além da mera resposta mecânica Prof. que estamos diante de uma manifestação de produção de cultura. em particular algumas espécies de mamíferos.

são potencializados e transmitidos entre os indivíduos dos grupos. com certeza muitos animais aprendem por imitação. o campo de visão etc. de que os animais não humanos produzem cultura. para citar apenas alguns: 1) A postura bípede – que tornou possível a liberação dos membros anteriores. estão nos detalhes. E. tem sua leonidade cultivada? Um leão criado por uma cadela vai latir e perder sua condição de leão? A tese. é um salto. continua sendo bastante questionada e refutada. Em termos biológicos temos. 35 . Nesse sentido. no mínimo. bizarro. 2) Oposição do polegar e do indicador – grande facilitador para a produção de ferramentas. entre o Homo sapiens e o restante dos animais. pois é pela imitação que alguns comportamentos. como é possível verificar nas imagens abaixo. 4) Alto nível de complexidade do córtex cerebral. haveria diferença entre o que faz o chimpanzé e uma mãe humana que ensina uma criança a se alimentar? Será que os primeiros ensinamentos que acontecem no seio da família humana são da mesma ordem daquelas imitações que ocorrem em qualquer grupo de animais não humanos? Os animais não humanos fabricam ferramentas e os filhos aprendem com os pais o uso dos instrumentos. geneticamente herdados. Imagem 1 – Cérebro humano Prof. em particular a área do telencéfalo que cobre a maior parte do cérebro humano e que não se verifica o mesmo em outras espécies animais.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO a uma determinada situação problema. Robson Loureiro p. Contudo. 3) Alta complexidade cerebral (massa cinzenta) do animal humano em relação aos não humanos. por meio da aprendizagem? Um leão é educado. As razões são as mais diversas. As diferenças. a partir daí considerar que há cultura e elevar os animais não humanos a condição de seres culturais.

París (2004) defende a tese de que alguns animais não humanos. a meu ver não é suficiente para que se possa defender a tese de que as espécies Loxodonta africana e Loxodonta cyclotis (asiática) devam ser conhecidas como Loxodonta africana sapiens e Loxodonta cyclotis sapiens. ter “consciência de si”. Mas. É o único animal que sabe que não se basta apenas com o aparato biológico. tanto biológica.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Imagem 2. defende (PARÍS. Produz o sujeito humano. 2004). A atividade de trabalho transforma a natureza externa e. A capacidade criativa. ao mesmo tempo. Há uma modificação. nada que se equipare à complexidade da cultura humana forjada ao longo de milhares de anos. na ideia de proto cultura. Cérebro Homo sapiens e do Chimpanzé Em O animal cultural: biologia e cultura na realidade humana. 36 . à complexidade cerebral e à dinâmica de como o desenvolvimento Prof. por exemplo. Saber que se sabe. inventiva e produtiva do animal humano deve-se. transforma a natureza interna. de que o elefante consegue ter consciência do próprio corpo. Robson Loureiro p. cooperada e dialética. Até o momento. com o que lhe é biologicamente determinado. primatas superiores. no contato (cooperação) com o outro da mesma espécie. tudo indica que o animal humano é o único que sabe que sabe. cuja principal causa é a atividade (trabalho) de transformação da natureza que acontece de forma intencional. quanto no que se refere às formas de percepção do entorno social e de si próprio como ser no mundo. Não obstante. tem ciência do seu saber e da ignorância (do não saber). significa quase nada para alguns estudiosos que insistem na tese de que os animais não humanos produzem cultura. desenvolveram uma espécie de proto cultura. isso parece não ser suficiente como indício para o fato de ser o único a produzir cultura. A hipótese. não há. em certa medida.

p. mas. quando se trata de animal humano. É [. especialmente na comunicação direta acústica – a comunicação química mantém uma permanência maior. depois com o aparecimento da linguagem Prof.. Robson Loureiro p. 2004. Portanto. pela criação da tecnosfera. “[. se relacionar com o entorno social e natural. extrassomático. A produção de ferramentas e a invenção da técnica potencializaram a transformação do entorno natural. é sempre linear. criam. a comunicação química é algo muito mais eficiente do que aquela que acontece pela emissão de sons . No caso de alguns animais. 37 . París (2004. Em outros termos. por meio do trabalho que contribuiu para o surgimento da linguagem e desencadeou o processo de desenvolvimento da cultura. ao menos em tese. ambas bastante efêmeras. imprimindo suas mensagens. mas possui – como todo fenômeno cultural – uma dimensão objetiva. De qualquer forma. Com sua materialidade menos aparente que a do mundo técnico. do animal não humano. produzem ferramentas. A materialidade da subjetividade encontra-se nas objetivações humanas. imprimindo nele suas mensagens. p. idealizada e projetiva. A fala.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO filogenético (da espécie) articulou-se ao ontogenético (do indivíduo) e vice-versa. não deixa. o animal não humano é prisioneiro de sua condição biológica. É o universo exterior ao corpo que a linguagem cria ao modificá-lo. París (2004) argumenta que a cultura não é apenas um exercício subjetivo. que é a linguagem simbólica (representativa) mais comum utilizada entre/pelos humanos..] primeiro com a criação da tradição oral. momentâneo. A linguagem. No que se refere a essa complexidade. que a linguagem cria ao modificar. Nesse sentido.. que talvez tenha sido superada pela tecnosfera. como conquista culminante (PARÍS. 304) afirma: Esse despertar da cultura não fica restrito ao mero exercício subjetivo. entretanto de existir.acústica. depois com o aparecimento da linguagem escrita. O universo da logosfera é um universo certamente efêmero. é possível afirmar que os animais não humanos não desenvolvem uma atividade transformadora do entorno social e natural de forma intencional. é a principal (mas não a única) forma utilizada para se expressar. tampouco o universo simbólico para potencializar a atividade de transformação do entorno natural. Eles não inventam. Fugacidade especialmente notável se compararmos esse universo com o produzido pela ação técnica.] o universo exterior. Tudo o que são capazes de realizar é uma reprodução do aparato genético que determina a priori a sua existência. 304). sendo a técnica uma delas. fugacidade que a cultura humana tratará de superar primeiro com a criação da tradição oral.. mais escondida. biologicamente determinada.

Quanto mais intervimos na natureza externa.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO escrita. como conquista culminante”. com mais essa conquista. para prosseguir na defesa das três teses defendidas nesse ensaio. que é a assimilação da cultura. Mas. mais transformamos a nossa própria natureza. a espécie humana dá um salto rumo à constituição ainda mais ampliada do sentido de humanidade. A escrita permite o rompimento com as limitações da natureza. Até o momento não se fez a relação entre cultura e educação. fica cada vez mais fadado ao reino da liberdade. Robson Loureiro p. e o próprio ser humano. Por meio da linguagem escrita. Nossa memória. diz respeito à educação. afirma-se: uma das principais mediações no processo de constituição do humano. Prof. isso fica para a Parte IV do ensaio. Portanto. 38 . em particular a educação formal escolarizada. materialização e objetivação da linguagem articulada.

como de quem o vive Prof. Portanto. Investimentos afetivos. é possível afirmar. Robson Loureiro p. a dimensão social é tornada uma segunda natureza. disposições para o convívio social. religiosas e das filosofias calcadas no idealismo platônico. tentou-se não cair na tentadora armadilha imposta pela forma como a pergunta é feita. no percurso de constituição do indivíduo (ontogenético) social. as leis biológicas foram suplantadas pelas leis socioculturais ou sociohistóricas. Essa passagem. 39 . no movimento. é de fundamental importância para sua constituição: do humano. por meio de muito zelo. que é interditado por Outro que o afeta e o insere na comunidade humana. haveria uma essência humana a priori. Com efeito. tanto de quem orienta esse processo. Ou seja. segundo as quais o ser humano nasce humano e que. que em um determinado momento dessa jornada. intelectuais.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO PARTE IV CULTURA E EDUCAÇÃO: A RECONCILIAÇÃO AUTODETERMINADA COM A NATUREZA Introdução à síntese A resposta à pergunta o que é o ser humano intriga a nossa espécie. mas pode vir a ser. É trabalhoso porque requer intencionalidade. Esse vir a ser é mentalmente (desejosamente) antecipado e. As leis biológicas não deixaram de participar do processo de “evolução”. portanto. ser genérico. significa que temos que engendrá-la. para Ser Humano. O Homem. Nesse ensaio. perguntou-se: como o ser humano produz a sua humanidade? Defendeu-se a tese de que o humano se constitui humano a partir de um aparato biológico que tende a se desenvolver quanto mais a cultura é assimilada. de proposições místicas. na qual o pequeno deixa de ser apenas um naco de carne e passa a ser um Ser de linguagem. no ensaio. dispendio de energia. necessita-se daquela atividade vital/intencional na qual as gerações impõem investimentos sobre seus novos membros. mas. um animal político que carece do outro para se constituir humano. conforme a Psicologia Histórico-Cultural da Escola de Vygotsky. afasta-se. cuidado. projeção sobre algo que não é. Ao invés de perguntar o que é o ser humano. Em outras palavras. é um Zoon Politikon. parecem já não mais ditar as regras sobre esse processo. Se não há essência humana a priori. Isso significa trabalho. ou seja. no ensaio defende-se a tese de que a essência humana só existe na própria história.

Robson Loureiro p. responsabilizemos a cultura. Busca pela justiça na sua totalidade. a condição humana insere-se justamente no fato de que somos seres de liberdade: ao mesmo tempo em que somos natureza. por exemplo. Essa não é uma lógica matemática. Ou seja. Saber que somos animais já é um bom passo para não nos lançarmos no pedestal da soberba. sim. uma tendência. Esse é o nosso grande. com a natureza. é que merece atenção dobrada. já não somos prisioneiros das suas leis e ditames. se é possível determinar um fator responsável pela danificação e desumanização da humanidade. do filósofo Platão (1997). Ele transfere a análise do âmbito individual para o coletivo. mas. estava (está) no poder. mas. ao interditar esse indivíduo por meio da linguagem. Imagina a constituição de uma cidade ideal. Em A República.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO existencialmente. e talvez maior dilema. Essa cidade ideal terá. Talvez. desde sua forma mais simples até se tornar mais complexa. uma reconciliação autodeterminada. a danificação da humanidade parece não mais residir no âmbito do biológico. seu mestre. Tal perspectiva sempre esteve vinculada aos interesses do grupo. em última instância. 40 . para que o humano seja concebido como tal. da casta ou da classe social que a defendia e que. a necessidade pela especialização de tarefas. então. O que se faz. sim. Essência humana? É possível afirmar que existe uma essência humana a priori? Possível é. Há. então. Foi o caso. nos devolva a chance de seguir com o projeto de uma verdadeira sociedade humana. Em outros termos. significa o potencial de cada naco de carne a que chamamos de bebê. nada garante que o resultado seja algo sempre melhor. À medida que a cidade é idealizada. uma classe de guardiões para defendê-la e estes receberão Prof. Platão (1997) descreve o diálogo no qual Sócrates. surge. bem como a função social que ocuparíamos na comunidade. nada de absoluto pode ser afirmado sobre o processo de humanização. mediado pela educação informal da família e da formação intencional da escola. não há nenhuma garantia de que. mas qualquer argumento nessa direção tende a ser falsificável. debate com Glauco a natureza da justiça e da injustiça. O certo é que alguma clareza sobre esse processo é melhor que nenhum esclarecimento. Com efeito. É bastante antiga a ideia segundo a qual nascemos com uma alma que já nos determinaria como indivíduos. na forma como o animal Homo sapiens têm produzido o seu Ser social.

essa justificativa é ideológica. contudo. são incontáveis e talvez ele passe uma vida inteira na tentativa de se tornar um sujeito autônomo e emancipado. constitui-se a partir de uma complexa rede de determinações biológicas e culturais. A rigor. tempo suficiente para aprender os conteúdos necessários para ele se tornar um membro da espécie e se adaptar ao ambiente externo. Quem nasce com alma de ouro é instruído na arte de dialogar. se há uma essência humana que nos torna humanos já ao nascimento. a justiça está ligada à mestria. pois eles precisam ser. Os nascidos com alma de prata são os guerreiros. 41 . Caso contrário. possa ser modificada para: como se constitui o humano e o desumano que somos nós? Como é produzido o humano? No instante em que nascemos. Prof. antes de tudo. os soldados guardiões que defendem a polis ideal. os escravos. Está embutida. Para Platão (1997). comerciantes e artesãos e a alma de ferro. defendida nesse ensaio. que terão a função de proteger e governar a cidade. Aqueles com a alma de bronze serão agricultores. no sentido de uma natureza dada a priori que determina o que é o ser humano. Para fazer parte do gênero humano. socialmente construído. embora alertas com os inimigos. Talvez. O naco de carne que é o bebê animal da espécie humana requer mais cuidados do que o bebê animal de outras espécies. é de que não há essência. é imprescindível passar por todo processo de inserção em um contexto sociocultural marcado pelas características humanas. A tese. uma grande parte do diálogo dedica-se a decidir qual a educação é mais apropriada para se formar homens na sociedade ideal. não têm de esperar que outros a destruam. Já os conhecimentos necessários para que um bebê humano se torne um indivíduo. Robson Loureiro p. da dialética filosófica e preparado para governar. na qual o indivíduo domina determinada técnica. por exemplo.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO boa educação. segundo Sócrates. ou. Contudo. a capacidade de restabelecer a harmonia dos diversos tipos humanos que estão em relação direta com as funções da alma. a pergunta sobre o que é o ser humano. gentis para os compatriotas. A alma essencial humana. essa é uma concepção que predetermina os indivíduos e justifica a existência de classes sociais. membro da espécie e do gênero humano. fazemos parte da espécie. Um bebê-tigre. portanto. nesse censo de justiça. mas eles mesmos se anteciparão a fazê-lo. a rigor. Dessa forma. separa-se da mãe e torna-se um adulto com menos de dois anos de idade. pois o argumento fica apenas no âmbito superficial e naturaliza um fenômeno que é.

para se tornar um ser social. coibir. ou mesmo dos desejos socialmente produzidos. acontece além do limite. de alguma forma. e muitos assim agem. sublimar nossos instintos animais. coibir alguns impulsos animais e seguir uma lei coletiva. Quanto mais animal ele for. aqui presente. desviar. Há uma batalha. dos esportes. com a mesma intensidade que faz a mãe do bebê “humano”. refrear. melhor para a continuação da espécie. das ciências. têm-se início à produção de patologias sociais. da dança. condiciona as gerações a reprimirem os instintos animais e. A mãe do bebê-tigre não precisa coibir. Por isso. a cultura já nos prepara para realizar algumas tarefas que vão além daquele aprendizado básico que passamos quando somos bebê. É um processo dialético e contínuo. Contudo. na sua forma civilizada (convívio na Civita. Princípios esses que não são apenas de ordem biológica. há uma tendência considerável de ser produzir o contrário daquilo que se visou formar. ADORNO. pois. A sociedade impõe a necessidade de reprimir a índole animal. nesse processo. ao menos em tese. 1985) argumentam que a civilização e a barbárie fazem parte de uma mesma realidade. desde muito cedo somos ensinados (educados) a reprimir nossos instintos animais mais primitivos. na cidade). alguns estudiosos (FREUD. típicos da nossa natureza animal. é de que. A sociedade cria mecanismos outros para reprimir. é preciso abandonar. enfim das atividades (culturais) que. reprimir. Robson Loureiro p. quando a repressão dos instintos. Mas. dificilmente conseguiríamos produzir cultura e civilização. quando a repressão é uma mais repressão. Ou melhor. No caso do bebê humano. do tolerável (e é difícil avaliar. Para se tornar humano. enfim. segundo Freud (1997). reprimir o instinto animal do filhote. Sem contar que não é possível satisfazer aos desejos a qualquer custo. 42 . o desejo é realizá-los a qualquer custo. A ideia. HORKHEIMER. 1997. entre o princípio de prazer e o princípio de realidade. tentam sublimar Prof. mas são interditados pela cultura. da música. das artes.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO A interdição dos responsáveis pelo bebê humano é fundamental para que ele atinja o objetivo do processo de humanização. Cada um desejaria satisfazer seus impulsos e instintos à custa do desejo alheio. a sociedade impõe. entrar e fazer parte do mundo humano. ceder incondicionalmente ao princípio de prazer. Eis o porquê das religiões. quantificar qual é esse tolerável). Por isso. se se segue os impulsos e instintos. há uma tendência de os instintos carrearem o sujeito para uma espécie de isolamento social.

A culpa. O ser humano é um ser gregário. Aqui também há que se ter atenção. pelos seus próprios fracassos. Caso isso fosse uma verdade absoluta. grupos minoritários e fragilizados. dessa forma. tudo que não Prof. em particular as esportivas que. mas. Exemplo disso foram os movimentos de massa nazifascistas. afastada dos “perigos” da natureza animal. ao invés de sublimar as pulsões destrutivas. é a mais pura verdade. Não obstante. Como os nazistas se autoproclamavam a raça que detinha o baluarte da cultura universal. com a violência gratuita que se espalha dos campos e quadras desportivas para as torcidas. sim. sendo muitas delas conhecidas de todos nós. no sentido psicanalítico do termo. por um longo processo de formação e mediação cultural. Esse desvio (a sublimação) dos instintos. Robson Loureiro p. de acordo com a qual os mais competitivos sobrevivem e tendem a reproduzir essas características nos descendentes. não é garantia de uma sociedade mais humana.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO (desviar) e dar conta de toda energia (pulsão) libidinal e instintos animais que resistem em se calar. em princípio. também. a célebre formulação de Thomas Malthus. Tal como estão estruturados. diversas patologias sociais. nos quais a quase totalidade da sociedade alemã tentou sublimar a energia libidinal de uma forma distorcida. encontra-se. A ira coletiva e as revoltas atingem. são consideradas socialmente aceitas e cujo objetivo é promover o processo sublimativo das pulsões destruidoras (pulsão de morte – Thanatos). o que é importante ressaltar é que essa reprodução não se dá de forma biológica. os esportes fazem parte de um contexto sóciopolítico e econômico no qual o aprender a dar e a receber cotoveladas tende a ser uma máxima que rege a formação humana. a fé dogmática dos extremistas religiosos que matam em nome do amor a Deus. muitas vezes. Em outros termos. Pelo contrário. O esporte. e as torcidas organizadas. das pulsões. Não obstante. Ser social. Gera-se. 43 . principalmente econômica. a razão coletiva (grupo consciente da sua organização) não pode se confundida com a ação da massa: grupo amorfo e totalmente desprovido de reflexão crítica sobre sua ação. acabam por recalcálas. e dessa forma impede de os sujeitos ampliarem a pulsão de vida. foi projetada em grupos considerados não idênticos a eles. O esporte é uma das principais formas de formar esse espírito competitivo típico da sociedade capitalista. A massa representa o recalque que gera ressentimentos com tendência a explodir em momentos de fragilidade social. Fora do campo esportivo. na maior parte das vezes. não haveria tanta violência desregrada em atividades.

as religiões. literatura. A ciência (ou melhor. as artes. no contexto sócio-político do nazifascismo. Assim. os cientistas atrelados à ideologia do Estado) foi responsável por produzir formas mais sofisticadas. 44 . técnicas de extermínio os judeus. pais de família com nível médio de escolaridade. Ou seja. Enfim. O problema é que isso não é um desvio da história. tiveram que reprimir. junto com os judeus. dos ciganos. divididos com outras espécies animais. foi utilizado não somente para descobrir vacinas. Robson Loureiro p. as leis. a causa maior do fracasso do país na Primeira Guerra Mundial. que são os Estados Unidos da América do Norte. comunistas. Ter atingido a civilização significa que. dos deficientes físicos. para liquidar aqueles que consideravam animais. medicamentos e curar doenças. muitos membros das gerações passadas “abriram mão”. a filosofia. Quanto mais Prof. a prostituta. as gerações passadas “criaram” as ciências. anarquistas). o objeto do seu ódio era intercambiável. Em certa medida. sublimar muitos de seus instintos primitivos. sem vínculos com agremiações políticas. cinema) e a ciência. balé. pois esse tipo de comportamento foi detectado em cidadãos comuns da maior democracia do mundo. teatro. Nesse processo. um caso isolado. ópera. sublimaram a energia destruidora na realização de atividades típicas da considerada “alta cultura”: esportes coletivos e individuais. Não obstante. as danças e a cultura tem se tornado cada vez mais sofisticada e complexa. demonstraram alto grau de preconceito e discriminação e tendência a comportamentos nazifascistas tal como aqueles indivíduos de sociedades totalitárias. inferior. dos homossexuais. o homossexual. ao invés de um efetivo processo sublimativo. Foi necessário um longo caminho para chegarmos onde estamos. o socialista. pois assim funciona a personalidade autoritária. ou melhor. a música. ao longo da história. Cabe ressaltar que o conhecimento científico. vinculado ao reino do não humano. criação artística em geral (música erudita. os nazistas e seus seguidores (a grande maioria) utilizaram-se de uma mescla de meios racionais e métodos irracionais para desviarem a pulsão de morte inerentes a cada membro do grupo.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO refletisse a sua imagem e semelhança (narcisismo) era considerado menor. considerados. nossa hipótese é de que tenha ocorrido um intensivo recalcamento daquelas pulsões (destruidoras) e deslocadas para o inimigo que tanto podia ser o judeu como o cigano. dos dissidentes políticos (socialistas. empregados.

mais será a forma de intervir no processo de educar as futuras gerações e torná-las um coletivo de sujeitos autônomos e emancipados. 45 . Ela passa a incorporar hábitos. a atenção e a paciência façam parte e estejam sempre presentes desse longo processo. atitudes. atitudes. comportamentos necessários que a caracterizarão como humana. As primeiras intervenções da família serão fundamentais. Para tanto. a formação humana em uma sociedade complexa não se pode dar em um processo formativo simples. comportamentos específicos que serão cobrados pela coletividade. É nela que acontecerão os primeiros passos para a sua formação humana rumo à sua autonomia e emancipação. Em primeiro lugar. Ou seja. em determinado momento da vida da criança. e em alguns casos até mesmo delegue. Prof. funções. mesmo quando divide com a escola a função de educar. é preciso sempre que elementos como o afeto. Quanto mais complexa for a realidade social. nunca deixa de participar do processo. serão exigidos papéis. é preciso que haja investimento. A família. é a primeira comunidade social humana com a qual uma criança tem contato. Portanto. a responsabilidade pela sua formação a outra instituição: a escola. A família: interdição e disciplina A família. contudo. hábitos. Quanto mais complexa a sociedade. por parte da família. Com a interdição dos pais ou responsáveis.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO intervimos/transformamos a natureza. o avanço da ciência. Essa complexidade diz respeito a questões como o desenvolvimento da reflexão sobre o próprio pensamento e sobre o conjunto dos fenômenos sociais e naturais (filosofia). dialético e aparentemente ilimitado. quando bem estruturada. de que a criança passe pelo processo de humanização e alcance a tão desejada autonomia e emancipação. Nessa sociedade. Esse é um processo ininterrupto. Robson Loureiro p. mais exigências no processo de formação/educação. um desejo verdadeiro. a criança é apresentada ao mundo sociocultural. das artes e da tecnologia. o carinho. Na nossa realidade é comum que a família divida. Quando se trata de uma criança inserida em família que vive em um contexto urbano-industrial. mais criamos novas necessidades para nós próprios. a demanda de formação será completamente diferente das necessidades da formação de uma criança em uma comunidade distinta daquela. a complexidade social exige formas complexas de educação.

nacos de carne e transformá-los em animais de outro tipo: humanos. Elas têm uma história. 46 . Essa história influenciará no processo de apropriação dos saberes. o lugar que ainda não é. tudo isso é incorporado de forma distinta neste. práticas. ou seja. Mesmo uma criança com paralisia cerebral. a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. mas tem o potencial do vir-a-ser. ou naquele ser. e esta história tatua. a atenção. apesar de serem importantes. em cada indivíduo singular. o trabalho de educar. Robson Loureiro p. síndrome de down é capaz de aprender. Por isso. Os estímulos que a criança recebe. Tanto os pais como as escolas têm como objetivo atingir essa meta. O trabalho de educar é um lançar-se sobre aquilo que não é. apropriarse desse universo simbólico e. valores necessários para que ela se desenvolva como indivíduo biológico e se aproprie dos conteúdos necessários que repercutem no seu desenvolvimento cognitivo. já produzida pela família. muito mais do que o contrário (VYGOTSKY. dessa forma. constituir-se humana. os fatores biológicos muitas vezes são secundários. como visto. se comparados com os elementos sociais (a aprendizagem propriamente). exige sempre muito desejo. Ou seja. para que ela se torne humana. marca a vida escolar e não escolar da criança. como qualquer outro trabalho é preciso saber e projetar a sociedade que se deseja e o tipo de indivíduo desejado para fazer parte da coletividade. Acontece que o vir-a-ser depende de inúmeros fatores. Para tanto. Para realizar esse trabalho produzimos as formas. o carinho. a resposta é simples e Prof. sensitivo (estético) e moral (ético). as crianças trazem consigo toda essa carga. Essa tese de Vygotsky tem sido amplamente corroborada por eminentes pesquisadores: Como podemos estimular o bom desenvolvimento do cérebro infantil? Para a neurocientista americana Lisa Freund. mas que pode vir-a-ser). pode-se afirmar que a aprendizagem acelera o desenvolvimento. os métodos e as estratégias de intervenção para produzir. 1998). Por isso. A matéria-prima são as crianças que se deseja tirar da condição de puros animais.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO O processo educativo pode ser concebido com um trabalho de tornar o pequeno animal da espécie Homo Sapiens (com potencial para ser um ser humano) em um indivíduo autônomo e emancipado. ou na escola. Todos nós somos únicos. Isso é o óbvio. Conteúdos que contribuem para que ela atinja a qualidade de membro do gênero humano. ou seja. Quando chegam à escola. utopia (em grego u = nenhum e topóis = lugar. seja na família.

A interatividade é peça chave. antes de qualquer coisa. no mundo. Como a primeira aprendizagem ocorre por imitação. Toda família deseja que seus filhos tenham um bom desenvolvimento biológico e que recebam uma boa educação formal para poderem se inserir na sociedade. Robson Loureiro p. A outra. caso não tivessem tido as condições familiares necessárias. sem tanta dificuldade. o próprio ambiente familiar dificulta à criança produzir o habitus necessário que lhe permitirá entrar no ambiente da educação formal sem muitos traumas. Ludwig Von Beethoven. Todos se destacaram nas suas respectivas atividades. O contato com pais e educadores nos primeiros anos de vida também ajuda no desenvolvimento e na capacidade cognitiva da criança. garante a pesquisadora. foi abandonada pelos pais. tornar-se-á difícil. a partir somente do discurso. não teve um bom acompanhamento educacional e lia com dificuldades. Nos primeiros três anos de vida. essa é a fase crucial para estimular as áreas do lobo frontal associadas a linguagem.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO envolve fatores muito próximos à criança. Sempre enfatizando a importância do estímulo à leitura. cognição social. Uma delas lia sem dificuldades. o potencial é enorme e costuma ser pouco explorado". "Os resultados vão se refletir por toda a vida".com. Tarefas cotidianas como conversar com os bebês e levar as crianças para passeios no parque estimulam a concentração e o foco. movimento. o cérebro atinge 80% do tamanho adulto. foi neto de um grande músico e desde muito cedo recebeu a atenção e todo o estímulo para o caminho da música. Segundo ela. explicou11. auto-regulação e solução de problemas. cujo pai também era músico e o incentivou desde muito cedo. ligada às artes e à música em particular. por mimese. O mesmo aconteceu com Wolfgang Amadeus Mozart. Freud.shtml. Acessado em: outubro de 2007. A família de Frédéric Chopin era. Prof. por exemplo. "As imagens nos mostram que a atividade cerebral da primeira criança era notavelmente maior do que a da segunda". 47 . se na família não houver “bons espelhos” nos quais a criança se possa mimetizar.br/educacao-infantil/0-a-3-anos/estimulo-tres-primeirosanos-fundamental-419560. Acontece que. a começar pelo pai. o desejo e o investimento do 11 Disponível em: http://revistaescola. querer modificar alguns comportamentos que são instaurados já na primeira infância. na maioria das vezes. Lisa mostrou imagens da atividade cerebral de duas crianças de seis anos. É preciso que.abril. "Mas ele nunca pára de se desenvolver. antes mesmo de nascer já era chamado de Sig de Ouro. Mas. a família esteja estruturada de tal forma que o exemplo seja o melhor recurso da aprendizagem. até os dois anos de idade. De acordo com ela.

em princípio. Em pouco tempo a disciplina e a concentração. intelectual e afetiva da criança. primeiro por imitação. Caracterizado por desatenção.htm. "O jogo exige concentração e isso ajudou na minha vida". Por isso a importância do espelhamento. necessárias nesse tipo de jogo. que hoje com 13 anos sonha em ser veterinário.249572.09. Não se trata de um processo disciplinar com fins a violentar a dignidade física. na escola. diz ele. Aprende-se. o TDAH é um transtorno neurobiológico de origem genética que pode comprometer o convívio familiar e o desempenho escolar.br/noticias/impresso. sem ser violentado física.2010. Acessado em: 30.disciplina obrigatória para os 86 alunos até a 5ª série . Prof. a inclinação artística e intelectual não teriam aflorado e não alcançariam a glória de “gênios” em suas respectivas áreas. moral. em 2005.na grade curricular do então recéminaugurado Colégio Diocesano. são incorporadas pelas crianças e essas passam a ter uma relação bem mais prazerosa com as disciplinas escolares. a formação envolve alguma forma de disciplina que pode ser compreendida como habitus. Um espelhamento distorcido pode atrapalhar o processo de formação. depois por um processo de intervenção formal. além de medicamentos. Aos 9 anos de idade. aulas de xadrez.xadrez-pode-ajudar-criancashiperativas.12 A disciplina não é um fator biológico. Daí porque o processo educativo. Ninguém nasce mais ou menos disciplinado.com. enfim. Um exemplo dessa possibilidade é quando as crianças que apresentam algum déficit de aprendizagem na escola e que são consideradas hiperativas entram em contato com atividades como a prática do Xadrez. quando a criança chega à educação formal. em Orlândia.0. A aprendizagem significa uma modificação dos hábitos.estadao. os agentes responsáveis pelo trabalho educativo muitas vezes não estão preparados para intervir de forma adequada e 12 Disponível em: http://www. região de Ribeirão Preto (SP). Rafael iniciou um tratamento que incluía. aprende-se a ter a disciplina necessária para realizar atividades que. Rafael Vinha foi o principal responsável pela introdução do xadrez . Depois. são estranhas ao mundo infantil. talvez todo o potencial.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO desejo familiar. impulsividade e hiperatividade. notas baixas na escola e não conseguia prestar atenção nas aulas ou em filmes. Quando foi confirmado o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). É bem possível aprender a ter disciplina sem ser um autômato. intelectual ou afetivamente. Rafael Vinha tinha poucas amizades. 48 . Robson Loureiro p. O grande cuidado é não realizar uma “educação pela disciplina por meio da dureza”.

no mínimo. seja ela formal ou informal. isso também vale para a escola. Pois. de alguma forma. é preciso. Robson Loureiro p. o que é mais importante. Prof. trata-se de um fenômeno multifacetado. Portanto. É preciso lembrar que a criança ou o adolescente ainda estão em processo de formação e que depende e conta com a ajuda do grupo adulto. 49 . que não deva haver qualquer incômodo ou sofrimento no processo de aprendizagem. assim como Bach(s). Assim. trata-se do futuro de um ser humano que ainda não atingiu a sua autonomia e emancipação. único. Será realmente necessário sentir dor para aprender a ler e a escrever? Será que devemos sofrer para aprender as disciplinas escolares? Não se defende. poderá contribuir para melhorar ou piorar a condição da civilização. Com efeito.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO qualificada nos casos em que a criança ou o adolescente encontra dificuldades no processo de aprendizagem. uma educação que lhe dê condições de. Tenho minhas dúvidas e restrições. pois cada indivíduo é um ser singular. É improvável que as dificuldades de aprendizagem estejam relacionadas apenas com déficits cognitivos. O que não se pode fazer é esperar uma ação espontânea por parte da criança ou do adolescente. quanto aos métodos pedagógicos que estimulam a dor. então. Todos passam. por geração espontânea (deixai passar. sem dor e sofrimento. em relação à essência humana: Einstein(s) não nascem Einstein(s). Se a família realmente deseja que a criança ou adolescente receba uma formação. aqui. ser um sujeito autônomo e emancipado. a família tem o direito e o dever de procurar a ajuda de profissionais qualificados. Na maioria dos casos. Mas. e que. na escola ou na família. é preciso um “bom espelho” para que o tempero seja bem dosado e adequado às situações. o trabalho deve ser conjunto. Acontece que institucionalizar a dor e o sofrimento como fundamentos do processo educativo é. deixai fazer) nada funciona em termos de educação. que a intervenção seja realizada de forma a não perder de vista esse desejo. o sabor pelo saber não acontece espontaneamente. acima de tudo. Em outros termos. uma tese de mau gosto. Não sabendo como proceder. E. a inteligência afetiva da família está afetada. Nada fazer parece não ser a opção mais adequada. As causas formam uma rede e estão tanto na família quanto na escola. Os métodos de intervenção é que devem ser tratados com muita seriedade. passaram ou vão passar por isso. o sofrimento e a disciplina extremada. Cristo(s).

é bastante apropriado e correto afirmar que o nazi-fascismo. no teatro. Tinham fortes e reconhecidos representantes nas ciências. Os alemães cultivavam a cultura. de forma democrática. Foi o primeiro país europeu a erradicar o analfabetismo. No portão de entrada do Campo de Concentração de Auschwitz estava escrito: Arbeit macht Frei. Pois foi justamente esse povo culto que elegeu. mas da forma como ele é apropriado pelas forças sociais política e economicamente hegemônicas e que determinam a lógica de produção social e individual da existência. na filosofia. Não se trata de personalizar a história. A dialética civilização e barbárie: rumo à reconciliação autodeterminada com a natureza Assim como o trabalho pode ser concebido como fundamento ontológico da constituição do humano. foi a experiência de exacerbação da lógica capitalista. como representante do partido nazista. Robson Loureiro p. que ilustra muitíssimo bem lógica da dialética civilização e barbárie. o problema não é do trabalho. mas ele foi um representante dos anseios reprimidos de um povo tradicionalmente educado pela disciplina por meio da severidade. Na década de 1930 havia em torno de dois teatros para cada pequena e média cidade alemã. Gandhi(s). soube muito bem representar as necessidades e os desejos dos alemães. Quando se afirma que a civilização e a barbárie caminham juntas. Ele. Mas. não é possível passar ao largo dessa figura. no cinema. na arquitetura. Em determinadas condições sociais de produção da existência o trabalho torna-se fundamento de desumanização. da arquitetura clássica e de tantas outras Prof. não se pode perder a dimensão dialética dessa relação. 50 . A contradição é que o Estado alemão foi capaz de produzir um coletivo social ávido pela fruição cultural. na Alemanha. Por isso. Também fora apreciador da arte renascentista.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Buda(s). Hitler foi admirador da música erudita de compositores como Richard Wagner. foram capazes de produzir o exemplo máximo da contradição entre civilização e barbárie. só foram o que foram devido à intervenção da parte menos danificada da sociedade. em si. Adolf Hitler como Chanceler (Primeiro Ministro) de Estado. pode-se tomar como exemplo a figura de Adolf Hitler (1889-1945) e o movimento nazifascista na Alemanha entre 1923 e 1945. Com certeza Hitler não fora responsável por tudo que aconteceu. O trabalho liberta. Não obstante. nas artes. Nesse sentido.

um Einstein. O grande sonho de Hitler. mas. Todos eles passaram por um processo de educação formal e informal. tendo sido condecorado com a Cruz de Ferro (de 2ª Classe. Walt Disney prestou exame e conseguiu entrar para o Kansas City Art Institute. o projeto arquitetônico da nova Berlin do 3º Reich. e de 1ª Classe. em 1918. Em Viena. Pois assim como a civilização foi capaz de produzir um Hitler. Robson Loureiro p. um Galileu Galilei. em 1933. A sorte é que o primeiro conseguiu sublimar o não desejo paterno e potencializar. chegou a ganhar a vida com desenhos de cartões postais. no mesmo ano ele se alistou para servir na 1ª Guerra Mundial. Não obstante. Bush. assim como Hitler. do projeto arquitetônico cujo fim foi exterminar milhares de seres humanos que não seguiam seus ideais ou o de seu partido político. um Ernesto Geisel. um Johannes Kepler. por duas vezes. por falta de um padrinho influente. um Francisco Franco. um Benito Mussolini. o Walt Disney. Essa última é uma condecoração raramente dada a não oficiais) por bravura no campo de batalha. um George W. por outras vias. junto com Albert Speer (o arquiteto oficial do Estado Nazista). um Stálin. Mas. em dezembro de 1914. capital europeia da arte erudita no início do século XX. talvez o mundo tivesse conhecido os horrores do nazismo. um Pinochet. um Emílio Garrastazu Médici. Hitler não teria sido Hitler. segundo seus sonhos. a carreira artística e se tornou o que conhecemos. e já tendo instalado a ditadura nazista na Alemanha. ela também foi e é capaz de produzir um Jesus Cristo. no exame de seleção da escola de Belas Artes de Viena. Hitler também combateu na Primeira Guerra Mundial. um Che Guevara. Ambos os pais não queriam que os filhos se tornassem artistas. como em muitos casos acontece nesse métiér. a cidade que. uma Madre Tereza de Calcutá.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO complexas e sofisticadas manifestações artísticas da civilização europeia. mas. também não teve uma boa relação com o pai. a Prof. ele não teve a mesma “sorte” que Disney. um Buda. um Hiroito. 51 . Walt Disney. ele projetou. um Gandhi. Mas. era ser um artista reconhecido. infelizmente. talvez não tenha sido por falta de talento. duraria pelo menos mil anos. um Nelson Mandela. Ouso lançar uma hipótese: se Adolf Hitler tivesse entrado para a academia vienense de belas artes. um Freud. A reprovação. ele também foi capaz de participar do planejamento. assim como o de Walter Elias Disney (1901-1966). Hitler ficou reprovado. Quando foi eleito chanceler. Em 1917.

Por mais que em nós ela já esteja vilipendiada. A educação. Isso já não é mais possível. deram com os burros n’água. o príncipe Sidarta Gautama que. temos que negar essa dimensão. Não se trata de aprisionar o desejo do outro. Nós somos a natureza. Ela não está lá. um desejo de transformação. para sermos o que somos. no útero materno. não recalcar o animal que somos. as sociedades que lançaram mão de um projeto saudosista de retorno às hordas do passado. a natureza que ainda faz parte de nós. parece que repetimos aquilo que vivemos na filogenia. mas. Ora. na nossa ontogenia. segundo consta. tudo indica que os transtornos são (têm sido) inimagináveis. com certeza conseguirá temperar a formação daqueles que o encontram pelas veredas da vida. pois em algum momento. uma unificação. há chances de se ter resultados mais satisfatórios. recebeu a melhor formação da sua época. nosso desejo (sempre inconsciente) insiste em nos fazer retornar para aquele momento em que éramos. unos com a mãe. seja ela formal ou informal. com o animal que somos não significa uma harmonização. seja para a produção de um mundo melhor. Uma coisa é certa: educar é preciso. contato com os mais eminentes doutores da igreja de Israel. não passou ao largo dessas grandes figuras históricas. Robson Loureiro p. quer seja do indivíduo quer da sociedade. Não é simples e exige de quem se dedica à educação. Quando essa negação acontece por meio de uma repressão sublimada. A reconciliação com a natureza. mas foi elemento decisivo para que elas se tornassem o que se tornaram. mais do que saber. como todo príncipe. O/a educador/a que valoriza e sabe saborear o saber. quando a repressão sublimada dá vez ao recalque. Ainda assim somos seres orgânicos e inorgânicos. Desde o momento em que chegamos à condição de sapiens. o retorno a esse paraíso perdido pode ser vivido apenas como ideal de ego. mas de fazê-lo perceber e valorizar a beleza implícita na multiplicidade dos saberes existentes: saborear a unidade na diversidade. um tornar-se indiferenciado. uno com a natureza. a formação cultural. É preciso um sabor a mais pelo saber. Reprimir. 52 . Isso significa que não se deve abrir mão do projeto de tornar a civilização mais humana: isso só é possível por meio da reconciliação não forçada com nossa natureza animal. e nós aqui. Não obstante. à vida frugal junto à natureza e ao campo (a Alemanha nazista foi uma delas). Prof. O mesmo aconteceu com Buda.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO começar pelo revolucionário Jesus Cristo que teve. Ou seja. seja para a reprodução da barbárie. Mas.

estamos. faz milênios. Contudo. ao planeta como um todo. O que. fadados ao reino da liberdade. E o princípio. que deve ser escutada. imagine sem ela. pensar a superioridade diz respeito à diluição da ideia de onisciência e onipotência do humano em face da enorme complexidade que é a diversidade ecossocial.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO Ainda somos animais: mamíferos. 1991). nada menos. estimulante. antes de tudo. de uma escola isolada. potencializar a vida cotidiana. Mas se passa. primatas. células de amor que se deslocam para um projeto não apenas de um indivíduo em particular. desnudada. como disse o poeta. como carência e ciência da não ciência. é que motiva pensar o ato educativo como um trabalho de formação que produz. 53 . retomá-los. É por isso que se trata de um trabalho. recordar é viver. e os professores demonstram seu amor pelo conhecimento quando permitem que as gerações tenham acesso a essa dimensão não cotidiana da existência. interpelada. feliz. pelo desejo individual que se ajusta e tem condições de aderir às forças coletivas mais progressistas. em uma única sala de aula. mas as outras espécies animais e vegetais. do ato educativo. vibrante. Com efeito. em cada indivíduo singular. A atividade docente é fraca se não há o amor/sabor pelo saber. Nossa suposta superioridade está no fato de que somos sabedores da nossa condição natural e dela não há como escaparmos a não ser mantendo uma relação de respeito e admiração com o não eu. a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens e mulheres (SAVIANI. também é fundamental levar em conta a dimensão inconsciente. Se a escola que temos não tem sido atraente. A consciência dessa dinâmica não nos deixa menos animais. Robson Loureiro p. projetar nossas ações e ao mesmo tempo somos os únicos em condição de salvar não apenas a nossa. portanto. Não obstante. Prof. é garantia de uma sociedade mais humana. é esse trabalho junto ao conhecimento mediador no processo de humanização. nada mais. E esse amor como falta. pois exige um esforço que nos obriga a investir energias. Somos os únicos seres capazes de registrar nossos atos. em hipótese alguma. Nesse processo. mas da sociedade. A escola cumpre sua função. isso não significa que assim sempre será. de um único professor. Não é um trabalho solitário. cujo objetivo é. da humanidade como um todo. direta e intencionalmente. cabe lembrar a máxima freireana: se com a educação é difícil transformar a sociedade.

1985. 54 . 1998. a cultura letrada. que são justamente o saber elaborado. Disponível em: http://www. por meio de relações fundadas em outras formas de produção que não as atualmente hegemônicas. Por fim. Robson Loureiro p. [Guido Antonio de Almeida]. MARCONDES. Acesso em: 25. sinônimo de aniquilação da dimensão humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. o conhecimento que o mundo cotidiano não pode oferecer. Sigmund. talvez seja mais adequado se apropriar justamente daquelas dimensões da cultura que historicamente são negadas para o conjunto da sociedade. Dicionário de filosofia. BÁRBARA. Manuscritos econômico-filosóficos. Theodor W. O mal-estar na civilização. 2004. Danilo. Hilton. Susana. 1999. 3. 1997. 1996. Nicolas. Mas. Caderno Mais! [Sociedade]. Grande dicionário Larrousse cultural da língua portuguesa. São Paulo: Boitempo. Dicionário básico de filosofia. ed. mas fazer-lhe perceber que o seu mundo é um dos mundos possíveis.10. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. do trabalho educativo que se pode apostar e continuar a investir no desejo de transformação dessa sociedade que por meio do “trabalho” danifica o humano. Cultura: privilégio dos homens.03. DIAS. as artes sistematizadas. 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. CORBISIER. São Paulo: Folha de São Paulo. por excelência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.2007. HORKHEIMER. Para que se inaugure a sociedade sem trabalho. JAPIASSÚ. São Paulo: Nova Cultural. Max. Gente também é bicho. inclusive. educar não é colonizar o desejo do outro. mas.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO É trabalho que pode. Isso só tem sido possível pela mediação da escola.comciencia. Prof. FREUD. para ser um indivíduo mais pleno. [Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu]. É justamente pela mediação da escola. Karl. MARX. Autobiografia filosófica: das ideologias à teoria da praxis. Rio de Janeiro: Imago.php?section=8&edicao=17&id=172. DICIONÁRIO LARROUSE CULTURAL. ed. São Paulo: Martins Fontes. ADORNO. espaço. há que se partir do próprio trabalho. e que o saber da sua cultura é apenas um dos saberes possíveis existentes. [Tradução de Alfredo Bossi]. de apropriação e assimilação das formas não cotidianas da existência. 28.br/comciencia/handler. EHRENREICH.2010. modificar a perversa lógica do trabalho como sacrifício. Roland. Referências ABBAGNANO. 1978.

Pensamento e linguagem. 48. 1997. [Tradução de Enrico Covisieri]. 2004. Carlos. São Paulo: Cortez/Autores Associados. 18. 1. 1996. Síntese de história da cultura brasileira. Lev Seminonovitch. SAVIANI. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. v. O animal cultural: biologia e cultura na realidade humana. São Paulo: Nova Cultural [círculo do livro]. Prof. PLATÃO. São Paulo: Martins Fontes. São Carlos: EDUFSCar. 55 . [Tradução de Marly Vianna]. São Paulo: USP.A DIALÉTICA CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CONCEITO DE TRABALHO PARÍS. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. SODRÉ. ed. 1998. Chimpanzés possuem cultura? Revista de antropologia. VYGOTSKY. 2005. Robson Loureiro p. n. A república. [Tradução de Jefferson Luiz Camargo]. Nelson Werneck. RAPCHAN. Eliane Sebeika. 1991. Demerval.